João de Deus
Por um estilo
Romântico/Realista
João de Deus de Nogueira Ramos
 São Bartolomeu de Messines 11/03/1830
 Lisboa 11/01/1896)
 Representa ao lado de Júlio ...
Amores, Amores
 Não sou eu tão tola
Que caia em casar;
Mulher não é rola
Que tenha um só par:
Eu tenho um moreno,
Tenho u...
 Abraços, abraços,
Que mal nos farão?
Se Deus me deu braços,
Foi essa a razão:
Um dia que o alto
Me vinha abraçar,
Fiquei...
Beijo

Beijo na face
Pede-se e dá-se:
Dá?
Que custa um beijo?
Não tenha pejo:
Vá!
Um beijo é culpa,
Que se desculpa:
Dá?
...
 Como ele é doce!
Como ele trouxe,
Flor,
Paz a meu seio!
Saciar-me veio,
Amor!
Saciar-me? louco...
Um é tão pouco,
Flor!
...
 Oh! dois? piedade!
Coisas tão boas...
Vês?
Quantas pessoas
Tem a Trindade?
Três!
Três é a conta
Certinho, e justa...
Vês...
Dinheiro
 O dinheiro é tão bonito,
Tão bonito, o maganão!
Tem tanta graça, o maldito,
Tem tanto chiste, o ladrão!
O falar...
Perdão!

Seria o beijo
Que te pedi,
Dize, a razão
(outra não vejo)
Por que perdi
Tanta afeição?
Fiz mal, confesso;
Mas es...
Attracção
 Meus olhos sempre inquietos
Que posso até dizer,
Só acham n'alma objectos
Que os possam entreter;
Meus olhos.....
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João de deus

  1. 1. João de Deus Por um estilo Romântico/Realista
  2. 2. João de Deus de Nogueira Ramos  São Bartolomeu de Messines 11/03/1830  Lisboa 11/01/1896)  Representa ao lado de Júlio Dinis, a transição do Romantismo para as primeiras manifestações realistas. Abandonando certos temas ultrarromânticos, João de Deus se aproxima das composições populares, produzindo textos escritos em linguagem simples e métricas variadas, o que lhe valeu a admiração dos jovens realistas.  O amor (às vezes, de concepção camoniana), a religiosidade, a sátira, os versos curtos e melódicos (revelando a influência de Tomás Antonio Gonzaga) completam as características da poesia de João de Deus.
  3. 3. Amores, Amores  Não sou eu tão tola Que caia em casar; Mulher não é rola Que tenha um só par: Eu tenho um moreno, Tenho um de outra cor, Tenho um mais pequeno, Tenho outro maior. Que mal faz um beijo, Se apenas o dou, Desfaz-se-me o pejo, E o gosto ficou? Um deles por graça Deu-me um, e, depois, Gostei da chalaça, Paguei-lhe com dois.
  4. 4.  Abraços, abraços, Que mal nos farão? Se Deus me deu braços, Foi essa a razão: Um dia que o alto Me vinha abraçar, Fiquei-lhe de um salto Suspensa no ar. Vivendo e gozando, Que a morte é fatal, E a rosa em murchando Não vale um real: Eu sou muito amada, E há muito que sei Que Deus não fez nada Sem ser para quê.  Amores, amores, Deixá-los dizer; Se Deus me deu flores, Foi para as colher: Eu tenho um moreno, Tenho um de outra cor, Tenho um mais pequeno, Tenho outro maior. João de Deus, in 'Campo de Flores'
  5. 5. Beijo  Beijo na face Pede-se e dá-se: Dá? Que custa um beijo? Não tenha pejo: Vá! Um beijo é culpa, Que se desculpa: Dá? A borboleta Beija a violeta: Vá! *  Um beijo é graça, Que a mais não passa: Dá? Teme que a tente? É inocente... Vá! Guardo segredo, Não tenha medo... Vê? Dê-me um beijinho, Dê de mansinho, Dê!
  6. 6.  Como ele é doce! Como ele trouxe, Flor, Paz a meu seio! Saciar-me veio, Amor! Saciar-me? louco... Um é tão pouco, Flor! Deixa, concede Que eu mate a sede, Amor!  Talvez te leve O vento em breve, Flor! A vida foge, A vida é hoje, Amor! Guardo segredo, Não tenhas medo Pois! Um mais na face, E a mais não passe! Dois... *
  7. 7.  Oh! dois? piedade! Coisas tão boas... Vês? Quantas pessoas Tem a Trindade? Três! Três é a conta Certinho, e justa... Vês? E que te custa? Não sejas tonta! Três!  Três, sim: não cuides Que te desgraças: Vês? Três são as Graças, Três as Virtudes; Três. As folhas santas Que o lírio fecham, Vês? E não o deixam Manchar, são... quantas? Três! João de Deus, in 'Campo de Flores'
  8. 8. Dinheiro  O dinheiro é tão bonito, Tão bonito, o maganão! Tem tanta graça, o maldito, Tem tanto chiste, o ladrão! O falar, fala de um modo... Todo ele, aquele todo... E elas acham-no tão guapo! Velhinha ou moça que veja, Por mais esquiva que seja, Tlim! Papo. E a cegueira da justiça Como ele a tira num ai! Sem lhe tocar com a pinça; E só dizer-lhe: «Aí vai...» Operação melindrosa, Que não é lá qualquer coisa; Catarata, tome conta! Pois não faz mais do que isto, Diz-me um juiz que o tem visto: Tlim! Pronta.  Nessas espécies de exames Que a gente faz em rapaz, São milagres aos enxames O que aquele demo faz! Sem saber nem patavina De gramática latina, Quer-se um rapaz dali fora? Vai ele com tais falinhas, Tais gaifonas, tais coisinhas... Tlim! Ora... Aquela fisionomia É lábia que o demo tem! Mas numa secretaria Aí é que é vê-lo bem! Quando ele de grande gala, Entra o ministro na sala, Aproveita a ocasião: «Conhece este amigo antigo?» — Oh, meu tão antigo amigo! (Tlim!) Pois não!
  9. 9. Perdão!  Seria o beijo Que te pedi, Dize, a razão (outra não vejo) Por que perdi Tanta afeição? Fiz mal, confesso; Mas esse excesso, Se o cometi, Foi por paixão, Sim, por amor De quem?... de ti!  Tu pensas, flor, Que a mulher basta Que seja casta, Unicamente? Não basta tal: Cumpre ser boa, Ser indulgente. Fiz-te algum mal? Pois bem: perdoa! É tão suave Ao coração Mesmo o perdão De ofensa grave! Se o alcançasse, Se o conseguisse, Quisera então Beijar-te a mão, Beijar-te a face... Beijar? que disse! (Que indiscrição...) Perdão! perdão!
  10. 10. Attracção  Meus olhos sempre inquietos Que posso até dizer, Só acham n'alma objectos Que os possam entreter; Meus olhos... coisa rara! Porque hão de em ti parar Como a corrente pára Em encontrando o mar!?  E penso n'isto, scismo... Mas é tão natural Cahir-se no abysmo D'uma belleza tal!... Olhei!... Foi indiscreta A vista que te puz. A pobre borboleta Viu luz... cahiu na luz! Uma attracção mais forte Que toda a reflexão, (É fado, é sina, é sorte!) Me arrasta o coração...

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