Fundamentos da teologia historica

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os fundamentos da fe cristã. sua bases

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Fundamentos da teologia historica

  1. 1. ALDERI SOUZA DE MATOS @Madame/ atoa da teologia histórica Editora Mundo Cristão São Paulo
  2. 2. Copyright © 2007 por Alderi Souza de Matos Editora regoomáoel' Silvia Justino Assistente editorial: Miriam de Assis Preparação: Aldo Menezes Supervisão de produção: Lilian Melo Capaz: Douglas Lucas Imagem: ImageState/ Alamy Os textos das referências bíblicas foram extraídos da versão Almeida Revista eAtualizada, 2a ed. (Sociedade Bíblica do Brasil), salvo indicação específica. Todos os direitos reservados e rote idos ela Lei 9.610, de 19/2/1998. P 8 P É expressamente proibida a reprodução total ou parcial deste livro, por quaisquer meios (eletrônicos, mecânicos, fotográficos, gravação e outros), sem prévia autorização, por escrito, da editora. Dado: Internacionais de Cara/ agonia mz Publicação (CIP) (Cámara Brasileira do Livro. SP, Brasil) Matos, Alderi Souza de Fundamentos da teologia histórica/ Alderi Souza de Matos - São Paulo : Mundo Cristão, 2008. - (Coleção teologia brasileira). Bibliografia. ISBN 978-85-7325-484-6 1.Cristianísmo 2. Igreja reformada 3. Reforma 4. Teologia I. Titulo. II. Série 07-4477 CDD-230.42 Índice para catálogo sistemático: 1. Teologia reformada : Cristianismo 230.42 Publicado no Brasil com todos os direitos reservados pela: Editora Mundo Cristão Rua Antônio Carlos Tacconi, 79, São Paulo, SP, Brasil - CEP 04810-020 Telefone: (11) 2127-4147 Home page: www. mundocristao. com. br 1“ edição: fevereiro de 2008
  3. 3. Porque as armas da nossa milícia não são carnais, e sim, poderosas em Deus, para destruir fortalezas; anulando sofismas e toda altivez que se levante contra o conhecimento de Deus, levando cativo todo pensamento à obediência de Cristo. 2Corintios 10:4,5
  4. 4. Sumário Prefácio Introdução l. Período antigo 1. O início da teologia cristã 2. Os pais apostólicos 3. Os apologistas 4. Movimentos heréticos 5. Irineu de Lião 6. Tertuliano de Cartago 7. Clemente de Alexandria 8. Orígenes 9. Hipólito e Novacíano 10. Cipriano de Cartago 11. A controvérsia ariana e o Concílio de Nicéia 12. Atanásio 13. Efrém da Síria 14. Os pais capadócios 15. As controvérsias cristológicas 16. Nestório, Cirilo e o Concílio de Éfeso 17. Ó Concílio de Calcedônía 18. Agostinho de Hipona Avaliação parcial 11 15 23 25 26 32 38 42 45 47 50 53 55 57 60 64 65 70 73 77 82 89
  5. 5. 8 FUNDAMENTOS DA TEOLOGIA HISTÓRICA 2. Período medieval 1. A Igreja Católica Romana 2. A Igreja Ortodoxa Grega 3. O cisma católicorortodoxo 4. O renascimento carolíngio 5. O escolasticismo 6. Anselmo de Cantuária 7. Pedro Abelardo 8. O século XIII 9. Tomás de Aquino 10. João Duns Scotus 11. Guilherme de Occam 12. João Wyclif 13. A teologia bizantina 14. O Renascimento 15. Erasmo de Roterdã Avaliação parcial 3. Período da Reforma 1. Martinho Lutero Z. A teologia reformada 3. Ulrico Zuínglio 4. Martin Bucer e Henrique Bullinger 5. João Calvino 6. A tradição anabatista 7. Baltasar Hubmaier e Menno Simons 8. A tradição anglicana 9. Thomas Cranmer e Richard I-Iooker 10. A reforma católica 11. A ortodoxia luterana 12. A ortodoxia reformada 13. O arminianismo 14. O puritanismo Avaliação parcial 93 94 97 102 104 107 110 112 115 117 122 124 127 130 132 134 136 139 141 148 150 153 155 161 164 166 169 171 175 179 182 187 191
  6. 6. SUMÁRIO 9 4. Período moderno e contemporâneo 195 l. O pietismo 195 2. Jonathan Edwards 201 3. João Wesley e o metodismo 204 4. O iluminismo 207 5. O deísmo 210 6. A teologia liberal protestante 214 7. O fundamentalismo 222 8. O movimento pentecostal 227 9. O existencialismo 231 10. Karl Barth e a neo-ortodoxia 233 11. Outros pensadores do século XX 238 12. Teologia evangélica 242 13. Teologia católica 244 14. Teologia oriental 247 15. Teologias contemporâneas 249 16. Teologias da libertação 255 17. A teologia no Brasil 260 Conclusão 267 Glossário teológico e filosófico 271 Referências bibliográficas 285 Índice de nomes 293 Índice de assuntos 301 Sobre o autor 309
  7. 7. Prefácio ALGUÉM PODERÁ INDAGAR: Por que mais um livro sobre a história da teo- logia? Afinal, já existem excelentes textos em português sobre esse as» sunto (vários deles são mencionados na "Introdução"). Para responder a essa pergunta, é preciso levar em consideração alguns aspectos. Em primeiro lugar, esses livros tendem a ser bastante extensos e detalhados, sendo pouco atraentes para o leitor comum. Além disso, praticamente todos foram escritos no exterior e trazem indicações bibliográficas que só estão disponíveis em outros idiomas. Por fim, normalmente estão direcionados ao público acadêmico e pressupõem razoável conhecimento de história da Igreja, teologia e filosofia. A proposta deste livro é ao mesmo tempo mais modesta e mais exi» gente. Mais modesta porque tem em mente nãoespecialistas e estudan- tes de nível introdutório, como seminaristas, alunos de institutos bíblicos e professores de escola dominical. Mais exigente porque nem sempre é fácil colocar em termos simples e acessíveis os complexos conceitos e discussões que são parte essencial da história da teologia cristã. Outro desafio considerável é apresentar em um texto conciso e objetivo con- teúdos que em outras obras ocupam muito mais espaço. Assim, o propósito deste livro não é apresentar novas teorias a res- peito do desenvolvimento histórico das doutrinas cristãs, nem aborda- gens inovadoras desse campo tão trabalhado. O objetivo maior é proporcionar ao leitor que deseja familiarizar-se com essa área de estudo um conhecimento básico, em breves tópicos, dos principais personagens, temas, debates e documentos que compõem essa palpitante história.
  8. 8. 12 FUNDAMENTOS DA TEOLOGIA HISTÓRICA Talvez a contribuição mais significativa seja a vasta bibliografia comple- mentar quase exclusivamente em português para aqueles que desejam se aprofundar nos temas apresentados. Por trás desse esforço reside a convicção de que a história da Igreja e o estudo da teologia são extremamente importantes para os cristãos que querem adquirir mais clareza a respeito da sua fé e do vasto e antigo movimento ao qual pertencem. O cristianismo e uma religião profun- damente hístórica. Embora tenha Deus como personagem principal, seus grandes eventos ocorreram no tempo e no espaço, na história hu- mana. Além disso, o movimento cristão tem uma longa e rica trajetória que precisa ser conhecida pelos fiéis de todas as gerações. Quanto à teologia, trata-se de uma tarefa imprescindível para a Igre- ja e os cristãos. Por causa de sua variedade e complexidade, as Escrituras Sagradas precisam não somente ser lidas, mas interpretadas e aplicadas às diferentes situações surgidas em cada época e lugar. A teologia é, portanto, esse cuidadoso trabalho de reflexão sobre as implicações da revelação dada por Deus ao seu povo. Nessa tarefa, a história se torna muito importante, porque lembra aos cristãos que as doutrinas são sem- pre definidas dentro de contextos especificos. Esta obra se divide em cinco partes. Na “Introdução” é feita uma. apresentação panorâmica do que e' a teologia histórica, ou história das doutrinas, e de como ela se relaciona com os demais campos dos estu- dos teológicos. Nos quatro capítulos seguintes são destacados os dados mais significativos dessa história nos principais períodos da marcha do cristianismo no mundo: a igreja antiga ou o período patrístico, a igreja medieval, a Reforma Protestante e o período moderno e contemporâ- neo. Cada capítulo está dividido em subtítulos. No final de cada subtí- tulo são oferecidas ao leitor indicações bibliográficas de fontes primárias e secundárias em português que permitirão maior aprofundamento nos temas abordados (infelizmente, no caso de alguns autores e assuntos ainda não existem textos primários em português). As fontes menciona- das com maior freqüência são indicadas de modo abreviado (sobreno- me do autor e página). Os dados completos podem ser encontrados na parte final do livro. Ali também está incluída uma relação de obras úteis em inglês e espanhol para o leitor familiarizado com esses idiomas.
  9. 9. PREFACIO 13 No final de cada capitulo, o leitor tem disponível a seção "Recapitulan- do", a fim de rever e fixar o conteúdo estudado. Apesar do desejo de oferecer ao leitor um texto de fácil compreen- são, existem muitos conceitos técnicos importantes nessa história que não devem ser emitidos. Foi exatamente em torno desses conceitos que ocorreram muitos debates da teologia histórica. Por isso, o final do livro contém um vocabulário de termos teológicos e filosóficos mais signifi- cativos, além de dois extensos índices remissivos de personagens e as- suntos. Espera-se que este estudo proporcione aos leitores informação, desa- fios à reflexão e maior apreço pela história da Igreja, pela teologia cristã e pela valiosa herança deixada por incontáveis gerações que nos prece- deram na fé. É importante lembrar que a história da teologia nem sem- pre é agradável ou edificante, refletindo as tensões e contradições das quais os cristãos não estão isentos. Contudo, essa história é fundamen- tal para compreendermos a trajetória do cristianismo no mundo e ter- mos maior segurança quanto à nossa identidade e nossas convicções. Alderí S. Matos Páscoa de 2007
  10. 10. Introdução CoMo o PRÓPRIO TERMO INDICA, a teologia histórica, também conhecida como história da teologia ou história da doutrina, tem estreita conexão com duas áreas muito importantes: a história da Igreja e a teologia cris- tã. Levanta-se então a seguinte pergunta: A teologia histórica é primor- dialmente história ou teologia? Qual das duas ênfases é predominante? Variam as posições dos autores sobre essa questão, mas não seria incor- reto dizer que ela tem estreita e igual conexão com essas duas áreas correlatas. Inicialmente, é necessário considerar como a teologia histó- rica se encaixa nas subdivisões dos estudos históricos do cristianismo. A história da Igreja é a mais ampla das disciplinas que tratam do pas- sado cristão. o estudo da caminhada e do desenvolvimento da Igreja através dos séculos, em muitas áreas diferentes: missões e expansão geo- gráfica; culto, liturgia e sacramentos; espiritualidade e vida cristã práti- ca; organização, estrutura e forma de governo; pregação, arquitetura e arte sacra; relacionamento com a sociedade, a cultura e o Estado. En- fim, pode-se afirmar que a história da Igreja ou do cristianismo inclui tudo o que a Igreja faz no mundo, sendo essencialmente um estudo e uma narrativa de eventos, personagens e movimentos. Inclui o que hoje se denomina história institucional e história social. Todavia, a história da Igreja, além de analisar a prática ola Igreja, também aborda seu pensamento, aquilo que ela ensina. Isto se relaciona mais concretamente com a teologia histórica. Os tópicos acima podem ser considerados com base em duas perspectivas. Por exemplo: a prática da Igreja na área de missões (história da Igreja) e a reflexão que ela faz
  11. 11. 16 FUNDAMENTOS DA TEOLOGIA HISTÓRICA sobre sua missão (história da teologia), ou a evolução de suas práticas litúrgícas (história da Igreja) e a reflexão sobre o significado do culto e da liturgia (teologia histórica). Esse estudo do pensamento e do ensino da Igreja pode ter várias abordagens. A história do dogma é a análise de certos temas doutrinários particulares que receberam uma definição oficial e normativa da Igreja. Alguns histo riadores entendem que apenas três áreas de doutrina se inserem na histó» ria do dogma: a doutrina da Trindade (definida nos Concílios de Nicéia e de Constantinopla), a doutrina da pessoa divinohumana de Cristo (Con- cílio de Calcedônia) e a doutrina da graça ou, mais especificamente, a rela- ção entre a graça divina e a vontade humana no que se refere à salvação. No outro extremo está a história do pensamento cristão, que identifica um vasto campo de investigação, incluindo tópicos que estão além dos limites da teologia clássica, como certas questões filosóficas, éticas, poli» ticas e sociais. Os estudiosos também empregam os termos "história das idéias” e "história intelectual" para se referir a esse contexto mais amplo dentro do qual se insere a teologia histórica. A história da teologia não tem um campo tão limitado como a história do dogma, nem tão amplo como a história do pensamento cristão, mas usa ambas as áreas em sua elaboração. Seu objetivo é considerar o corpo de doutrinas existente na vida da Igreja em cada período da história. Em contrapartida, e necessário verificar como a teologia histórica se posiciona no outro campo de estudo com o qual está relacionada: a teologia cristã. Ao se considerar a chamada "enciclopédia teológica", ou seja, o conjunto de disciplinas que se dedicam ao estudo da teologia, é comum fazer a seguinte classificaçãozl e Estudos bíblicos: trata-se do estudo do texto das Escrituras -- a fon- te primordial da teologia cristã - nos aspectos literários, históri- cos e teológicos, o que inclui sua interpretação através da hermenêutica e da exegese. Aqui também pode ser incluida a "teologia bíblica”, que é o esforço de identificar as idéias teológi- l Sobre a classificação da teologia, veja Alister E. MCGRATH, 'Teologia sistemática, histórica e filosófica, p. 180-186.
  12. 12. INTRODUÇÃO 17 cas de cada documento ou autor das Escrituras: a teologia dos salmos, a teologia de Paulo etc. ° Teologia sistemática: é o esforço de apresentar os dados da teologia de maneira organizada, até mesmo para fins didáticos. No seu sentido tradicional, busca apresentar um panorama claro e orde- nado dos principais temas da fé cristã, seguindo com freqüência o padrão do Credo dos apóstolos, ou seja, indo desde a doutrina de Deus até a das últimas coisas ou escatologia. 0 Teologia filosófica: é o ramo da teologia que busca encontrar um terreno comum entre a fé cristã e outras áreas de atividade inte» lectual. Historicamente tem havido aproximação entre a teologia e a filosofia em alguns períodos específicos (patrístico, escolastico, moderno) e em torno de certos tópicos particulares, como a dour trina de Deus. Em contrapartida, em todas as épocas, destacados pensadores cristãos têm expressado reservas em relação à filosofia (dois exemplos antigos são Irineu de Lião e Tertuliano de Cartago; um exemplo moderno é o teólogo neo-ortodoxo Karl Barth). 0 Teologia pastoral: esse aspecto da teologia preocupa-se em aplicar os dados cla teologia bíblica e sistemática às necessidades do mi- nistério pastoral, especialmente na orientação e no cuidado dos indivíduos que compõem a Igreja ou que são objeto da sua atua» ção. Também é chamada teologia prática e inclui a pregação, a educação cristã e o aconselhamento. Finalmente, chega~se à teologia histórica, que, na definição do autor irlandês Alister McGrath, "é o ramo da investigação teológica que obje- tiva explorar o desenvolvimento histórico das doutrinas cristãs e identi- ficar os fatores que influenciaram sua formulação". Em outras palavras, a história da teologia documenta as respostas às grandes questões do pensa- mento cristão e ao mesmo tempo procura explicar os fatores que contri- buíram para a elaboração dessas respostas? Esse campo de estudos surgiu no século XVI, no contexto da Reforma Protestante, principalmente por 2 Historical 'Tlteologyz An Introduction to the History of Christian Thought, p. 9, 16.
  13. 13. 18 FUNDAMENTOS DA TEOLOGIA HISTÓRÊCA razões polêmicas. Nos intensos debates sobre o que era autenticamente cristão, tornou~se decisivo verificar a continuidade entre as reformas protestante e católica e a Igreja antiga. A história da teologia é uma ferramenta pedagógica tendo em vista que oferece informações sobre o desenvolvimento dos grandes temas teológicos, os pontos fortes e fracos das diferentes abordagens e os mar- cos mais notáveis do pensamento cristão, em termos de autores e docu- mentos. É também uma ferramenta crítica, pois permite ver as falhas, as limitações e os condicionamentos de certas formulações doutrinárias, o que possibilita seu contínuo aperfeiçoamento? Geoffrey W. Bromilev observa que a teologia histórica não é simples- mente uma história da teologia cristã, mas ela mesma implica fazer teo- logiafl A teologia ou a doutrina cristã pode ser conceituada como a palavra da Igreja sobre Deus em resposta à Palavra de Deus à Igrejaf ou como as palavras humanas com as quais a Igreja procura testemunhar da Palavra de Deusf Portanto, a tarefa teológica envolve quatro pólos: Deus, as Escrituras, a Igreja e o mundo. Sendo a teologia uma tarefa da Igreja e dos cristãos, ela exige envolvimento e participação responsável, objetivando engrandecer a Deus, valorizar sua revelação e contribuir para o ministério e a missão da Igreja. Ainda conceituando a teologia, Roger Olson faz algumas observa- ções pertinentes: A teologia é inevitável na medida em que o cristão (ou qualquer outra pessoa) procura pensar de modo coerente e inteligente a respeito de Deus. E não somente é inevitável e universal, como também valiosa e necessária. Sem a reflexão formal a respeito do significado do evanger lho da salvação que é parte da teologia, ele se degeneraria rapidamente para a condição de mera religião folclórica e perderia toda a sua convic» ção da verdade e sua influência sobre a igreja e a sociedade. ? 3 Idem, p. 12-14. 4 Historical Theology: An Introduction, p. xxvi. 5 Idem. 5 Justo L. GONZALEZ. Uma história do pensamento cristão, vol. 1, p. 27. 7 História da teologia cristã, p. 14.
  14. 14. INTRODUÇÃO Como tal, a teologia não e' uma atividade meramente especulativa de pensadores isolados numa torre de marfim. Toda crença cristã rele- vante surgiu por razões urgentes e práticas, em resposta a desafios inter- nos e externos. Além disso, toda obra de teologia e história da doutrina é um reflexo das pressuposíções teológicas do escritor. Nessa área não existe a possibilidade de neutralidade ou objetividade plena. Todavia, mesmo que obedeça aos seus pressupostos e compromissos, todo teólo- go tem a responsabilidade de considerar atentamente as contribuições do passado antes de oferecer respostas e reflexões próprias. Os estudiosos expressam diferentes opiniões ao falarem sobre o ob- jetivo específico da teologia histórica. Roger Olson opina que a história da teologia é essencialmente a história da reflexão cristã sobre a salva- ção e tudo o que está associado a ela.8 Para ele, então, a soteriologia é o fio condutor dessa história. Por sua vez, Bengt Hãgglund considera que a teologia histórica e' a análise de como a regra de fé cristã (a confissão cristã original) tem sido interpretada na história e no contexto de dife- rentes grupos? Essa "regra de fé" consistia em um resumo de vocabulá- rio variável, mas de conteúdo definido, que destacava as verdades centrais da fe' cristã na forma de pequenos credos usados na Igreja antiga. Por sua natureza, ou seja, o estudo de dois mil anos de reflexão teo- lógica cristã, a teologia histórica é um campo extremamente vasto. Como este livro pretende apenas traçar os contornos básicos dessa história, ele não terá o grau de detalhe encontrado em outros livros sobre o assunto, buscando tão-somente destacar os elementos mais salientes de cada pe- ríodo. Isso significa que diversos temas e personagens foram omitidos ou são abordados apenas de passagem, especialmente no que diz respei- to ao periodo moderno e contemporâneo, quando o campo da teologia se tornou extremamente complexo e diversificado. O principal texto utilizado neste levantamento foi História da teo- logia cristã, de Roger Olson. De fato, boa parte de muitos tópicos consis- te em uma síntese dessa excelente obra. Todavia, em alguns tópicos, como os que tratam da teologia reformada ou calvinista, foi dada uma 8 Idem, p. 13. 9 História da teologia, p. IO.
  15. 15. 20 FUNDAMENTOS DA TEOLOGIA HISTÓRICA orientação diferente. Além disso, foram incluidos vários temas não abor- dados por esse autor. Outras fontes bastante utilizadas foram, pela ordem: Uma história do pensamento cristao, de Justo L. González; Teologia sistemática, histórica e filosófica, de Alister McGrath; Pensamento cristão, de Tony Lane; e Teolo- gia dos reformadores (no tópico sobre João Calvino), de Timothy George. Para os dados bibliográficos completos dessas e outras obras, consulte as referências no final do livro. Vale lembrar que os bons livros de história da Igreja também apre- sentam material relevante sobre teologia histórica. Outras fontes valio- sas são periódicos de teologia e sites da Internet (veja exemplos na seção “Referências bibliográficas") Como já foi apontado, no final de cada subdivisão de capítulo são oferecidas informações bibliográficas sobre fontes primárias (documen- tos históricos) e secundárias (estudos de especialistas) disponiveis em português. ” As principais coletâneas de textos primários, notadamente para o periodo patrístico, são as seguintes: Antologia dos santos padres, de Cirilo Folch Gomes; Documentos da Igreja cristã, de Henry Bettenson; e a coleção Patrística da Paulus Editora. Infelizmente, há grande carência de coleções de fontes primárias em português para os outros períodos da história da teologia. Quanto às fontes secundárias, as obras incluidas na bibliografia podem ser classificadas nas seguintes categorias: panoramas gerais (Berkhof, Elwell, González, Lane, McGrath, Olson, Tillich), his- tória da Igreja (Clouse e outros, Elwell, “ Irvin e Sunquist, Noll), patrís- tica (Altaner e Stuiber, Campenhausen, Cavalcante, Figueiredo, Frangiotti, Hall, Hamman, Kelly, Liébaert, Moreschini e Norelli, Pado- vese, Spanneut), Reforma Protestante (George, McGrath) e teologia con- temporânea (Costa, Grenz e Olson, Gundry, Mondin, Sanders). É importante destacar que a história da teologia pode ser estudada tomando-se por base duas abordagens: temática e cronológica. A pri- I° Em raros casos em espanhol. Quando a cidade-sede da editora é omitida, normal- mente se trata de São Paulo. “ Citado no final dos subtítulos como EI-ITIC, Enciclopédia histórico-teológica da Igreja cristã.
  16. 16. INTRODUÇÃO meira considera separadamente cada um dos grandes temas da teologia cristã (Deus, Cristo, o ser humano, a salvação, a Igreja etc. ), mostrando como ele foi estudado ao longo dos séculos. A segunda perspectiva con- sidera os principais autores e tópicos de discussão em cada periodo da história, começando com a Igreja antiga e prosseguindo até o período moderno. Este livro adota a última abordagem.
  17. 17. Capitulo l Período antigo A HISTÓRIA DA IGREJA, dentro da qual se insere a teologia histórica, teve início com o surgimento da comunidade cristã original, que resultou de uma série de eventos singulares e essenciais: o ministério de jesus Cristo, sua morte na cruz, ressurreição dentre os mortos e ascensão aos céus, e a descida do Espírito Santo no dia de Pentecostes. Além de seus elementos peculiarmente "cristãos”, a igreja primitiva tinha forte teor judaico: jesus e os apóstolos eram todos judeus, a primeira comu- nidade surgiu em jerusalém e todo o seu ambiente inicial foi moldado pela religião judaica. Os primeiros cristãos receberam do judaísmo algumas contribuições fundamentais: as Escrituras hebraicas (depois designadas Antigo Testamento), a fé monoteísta, padrões de culto, organização e liderança, além de um grande conjunto de crenças e valores éticos e religiosos. Todavia, esse ambiente judaico original fazia parte de um contexto mais amplo, definido por duas grandes culturas ou civilizações: a hele- nistica ou grega e a romana. Assim como o judaísmo daquela época, o cristianismo também sofreu desde o início a influência desse comple- xo ambiente cultural. Nascida no berço judaico inicial, muito cedo a fé cristã começou a fazer adeptos entre não-judeus e a interagir de modo crescente com o mundo gentílico. Na verdade, o primeiro gran- de desafio enfrentado pela Igreja foi essa transição de uma cultura para a outra, que foi emblemática de muitas outras que haveriam de ocorrer ao longo dos séculos, e continuam acontecendo até os nossos dias. A destruição de jerusalém pelos romanos, no ano 70, contribuiu
  18. 18. 24 FUNDAMENTOS DA TEOLOGIA HISTÓRICA para o processo que levou a Igreja cristã a se tornar mais gentia e me- nos judaica. Outro fator que criou desafios especiais para o movimento nascen- te foi a ocorrência de diferentes graus de diversidade. Ao lado da cor- rente principal do cristianismo, com sua relativa uniformidade, surgiu uma variedade de manifestações paralelas, algumas próximas e outras bastante distanciadas da igreja majoritária. As razões para isso são vá- rias: jesus não deixou escritos, apenas um conjunto de ensinos orais que levaram décadas para ser compilados; as Escrituras especificamente cristãs - o Novo Testamento - foram redigidas por grande número de escritores, com estilos, ênfases e interesses distintos; surgiram grupos cristãos nas mais variadas regiões do Império Romano, e mesmo além das suas fronteiras, os quais sofreram diferentes influências religiosas e filosóficas, bem como articularam diferentes interpretações da fé cristã. Além disso, esses ambientes originais do cristianismo - judeu e greco-romano - muitas vezes foram hostis às comunidades cristãs. As diferenças ideológicas que havia entre o cristianismo e seus rivais, o judaismo e o paganismo, assim como o fato de que a Igreja buscava ativamente adeptos nessas religiões, geraram preconceitos, críticas e, por fim, hostilidade aberta. Particularmente incômodos foram os questionamentos levantados contra a fé cristã por judeus e pagãos cultos. Esses desafios internos e externos forçaram os cristãos a refle- tir cuidadosamente sobre suas convicções e a articular com maior cla- reza seu pensamento sobre grande variedade de temas. Ao fazerem essa reflexão, os pensadores cristãos não puderam dei- xar de sentir a influência da principal tradição intelectual de seu tem- po: a filosofia grega, em especial o platonismo. O fundador dessa escola de pensamento foi Platão (1347 a. C.), discípulo de Sócrates ("P399 a. C.). O neoplatonismo, versão dessa filosofia elaborada vários sécu- los mais tarde por Plotino (T270 d. C.), afetou de modo especial a teologia cristã. Eis alguns aspectos marcantes da tradição platônica: 1. A doutrina dos dois mundos, ou seja, o mundo transcendente das formas ou idéias, tido como real, eterno e inalterável, e o
  19. 19. PERÍODO ANTIGO 25 mundo sensível ou material em constante transformação, consi- derado ilusório, um pálido reflexo do mundo espiritual. 2. Deus entendido como o Uno, o Sumo Bem, transcendente, infi- nito, incompreensível e impassível, isto é, não sujeito a nenhuma espécie de mudança, emoção ou sentimento. 3. O Logos, a razão universal, distinto do Ser supremo e inferior a ele, o elemento de ligação entre o Uno e a multiplicidade do mundo material. 4. A crença na imortalidade da alma (e também na transmigração ou reencarnação, elemento rejeitado pela fé cristã). 5. O conhecimento entendido como recordação ou reminiscência, que tinha como pressuposto a preexistência da alma. Essa mentalidade resultava em um conceito negativo acerca do mun- do material, temporal e mutável, que teria sido feito por uma divindade inferior a partir da matéria preexistente. O ser humano era visto em termos fortemente dualistas, possuindo uma alma imaterial e racional, considerada uma centelha divina ou um pequeno logos, e um corpo material, a prisão da alma. O destino da alma, a pessoa real, era libertar- se do corpo para alcançar a deificação, isto é, a imersão no Uno. Outra vigorosa tradição filosófica que influenciou o pensamento cristão foi o estoicismo (de stoá, o "pórtico" onde os filósofos ensina- vam), fundado por Zenão de Cicio (T263 a. C.), com sua ênfase na har- monia com a natureza, supressão das emoções e elevado conteúdo ético. Textos: COMBY, I:16-31. Análises: GONZALEZ, I:29-59. FRANGIOTTI, 102-IOS; KELLY, 3-20; LANE, I:9-14; MCGRATH, 39-44, 270-273; TILLICH, 24-31. 1. O INÍCIO DA TEOLOGIA CRISTÃ Obviamente, os primórdios do pensamento cristão se encontram nos próprios livros do Novo Testamento. Mesmo considerando o fato de que os autores apostólicos escreveram sob inspiração divina, é possivel ver em seus escritos um esforço de reflexão sobre a realidade de Cristo, sua vida, seus ensinos e sua obra redentora, assim como suas implicações
  20. 20. 26 FUNDAMENTOS DA TEOLOGIA HISTÓRICA para a Igreja. Os próprios evangelistas agiram como "teólogos" na ma- neira em que selecionaram, distribuíram e comentaram os materiais que vieram a compor seus escritos. O quarto evangelho foi ainda além no esforço de fazer reflexões profundas sobre a nova fé. Essa preocupa- ção ficou ainda mais evidente nas epístolas paulinas. O apóstolo Paulo era um homem culto, experimentado e perspicaz que elaborou muitos dos grandes temas da fé cristã com notável sensibilidade espiritual e criatividade intelectual. Mesmo assim, o Novo Testamento não deu de forma clara e direta, nem poderia dar, todas as respostas de que os cristãos precisavam. Em outras palavras, os escritos apostólicos continham todos os temas e da- dos relevantes da fé cristã, mas eles não estavam apresentados de modo sistemático, com definições precisas, o que criava a possibilidade de diferentes entendimentos. Além disso, esses escritos fundamentais para os cristãos faziam afirmações profundas, carregadas de significado, mas não extrairam delas todas as implicações, não expressaram claramente todos os desdobramentos. Essa tarefa foi reservada para as gerações pos- teriores de cristãos. Normalmente o pensamento teológico do Novo Tes- tamento é estudado em uma disciplina distinta, a teologia bíblica ou teologia do Novo Testamento. Análises: Lothar COENEN e Colin BROWN (orgs), Dicionário internacional de teologia do Novo Testamento (Vida Nova, 2000); Walter A. ELWELL e Robert W. YARBROUGH, Descobrindo o Novo Testamento: uma perspectiva histórica e teológica (Cultura Cristã, 2002); Werner G. KÚMMEL, Síntese teológica do Novo Testamento (Teológica, 2003); George Eldon LADD, Teologia clo Novo Testamento (Hagnos, 2001); Leon MORRIS, Teologia clo Novo Testamento (Vida Nova, 2003); Herman RIDDERBOS, A teologia do apóstolo Paulo (Cultura Cristã, 2,004). 2. Os PAIS APOSTÓLICOS O início do pensamento cristão propriamente dito, ou seja, do esforço de reflexão a respeito dos grandes temas das Escrituras (Deus, ]esus Cristo, o Espírito Santo, o ser humano, o pecado, a salvação, a Igreja, a vida cristã, o futuro etc. ), é encontrado num antigo conjunto de docu- mentos conhecidos como "pais apostólicos".
  21. 21. PERIODO ANTIGO Cabem aqui duas observações. Em primeiro lugar, diferentes grupos pretensamente cristãos, em particular gnósticos, produziram razoável quantidade de escritos nos primeiros séculos da era cristã, em especial na forma de evangelhos e epístolas apócrifos. Todavia, esses documen- tos não são considerados literatura genuinamente cristã, e sim hetero- doxa ou herética, não sendo normalmente incluídos na história da teologia. Uma segunda observação diz respeito ao termo "pais". Já na antiguidade se convencionou dar tal designação aos grandes escritores e mestres cristãos, os formadores da teologia cristã. Dai o uso dos termos “patristica" (estudo da reflexão teológica dos pais da Igreja) e “patrolo- gia" (manuais de literatura patristica ou estudos da vida e obra dos pais). Costuma-se dar o nome de "pais apostólicos" ao primeiro conjunto de literatura cristã ortodoxa posterior ao Novo Testamento, escrita des- de o final do primeiro século até meados do segundo. Essa designação, utilizada pela primeira vez por J. B. Cotelier em 1672, decorre do fato de que esses textos ainda estavam muito próximos da era apostólica. Os pais apostólicos são os seguintes: lClemente, lClemente, sete cartas de Inácio de Antioquia, Epístola aos filipenses, Martírio de Policarpo, Epístola de Barnabé, O pastor de Hamas, Didaquê, Epístola a Diogneto e Papias. Al- guns desses documentos têm autores conhecidos e outros são anônimos. Clemente de Roma A Primeira epístola de Clemente, o mais antigo escrito dos pais apostóli- cos, é uma longa carta dirigida pela igreja de Roma à igreja de Corinto por volta do ano 96. Seu objetivo principal foi exortar os corintios a restaurarem ao seu ofício os presbíteros da igreja, que haviam sido afas- tados. Cerca de um quarto da epístola contém citações do Antigo Testa« mento, usado como fonte de muitos modelos de ordem e virtude. O documento pressupõe uma igreja governada por bispos ou presbíteros e diáconos, que receberam o seu ofício em sucessão regular a partir dos apóstolos. A carta fala indiretamente do martírio dos apóstolos Pedro e Paulo em Roma. Sua autoria é tradicionalmente atribuida a Clemente, um bispo romano. Apesar do seu título, a chamada Segunda epístola de Clemente não foi escrita por Clemente e não é uma carta. Trata-se na verdade de uma
  22. 22. 28 FUNDAMENTOS DA TEOLOGIA HISTÓRICA homilia ou pequeno sermão anónimo, produzido provavelmente em Corinto por volta do ano 150, na forma de uma exortação ao arrependi- mento, tema importante naquele periodo de crescentes perseguições contra a Igreja, quando muitos cristãos se sentiam tentados a abando- nar a fé. Inácio de Antioquia Por volta do ano 110, na época do imperador Trajano, o idoso bispo Inácio de Antioquia foi preso e condenado à morte, sendo levado por dez soldados até Roma a fim de ser executado. Na cidade de Esmirna, onde recebeu a visita de representantes de várias comunidades cristãs, ele escreveu cartas às igrejas de Éfeso, Magnésia, Trales e Roma. Do porto de Trôade, escreveu também às comunidades de Filadélfia e Es- mirna, e a Policarpo, bispo dessa última. Essas sete cartas muito pessoais e apreciadas tratam de vários temas importantes: atacam uma heresia sincretista que negava a encarnação do Verbo (docetismo); dão ênfase à divindade de Cristo, bem como à Igreja e aos sacramentos; acentuam a figura do bispo como elemento de preservação da unidade e ortodoxia da Igreja, e valorizam grandemente o martírio cristão. As cartas de Inácio revelam mais afinidade com o pensamento de João que com o de Paulo. Na epístola aos esmirnenses aparece pela primeira vez a expressão "igreja católica". Policarpo de Esmirna Dois dos escritos conhecidos como pais apostólicos estão relacionados com o bispo Policarpo de Esmirna. Ele foi o autor da Epístola aos filipen- ses, um documento singelo, sem grande relevância teológica, basicamente uma coletânea de alusões e citações de pelo menos treze livros do Novo Testamento e de lClemente. Policarpo afirma ter ouvido na juventude o próprio apóstolo ]oão. A carta adverte contra as heresias, o docetismo e a avareza, e atesta que a igreja de Filipos ainda não tinha um bispo monárquico. Seu pensamento é semelhante ao de Inácio de Antioquia e ao do quarto evangelho, porém com um propósito mais prático. Por sua vez, o Martírio de Policarpo é uma carta da igreja de Esmirna à de Filomélio, na Frígia, relatando a prisão, o julgamento e a execução
  23. 23. Psalooo ANTIGO 29 do bispo Policarpo, morto na fogueira aos 86 anos, provavelmente em 155 ou 156, quando Antonino Pio era o imperador. É o mais antigo relato de um martírio cristão, destacando-se pela sua simplicidade e por sua descrição da fidelidade e coragem de Policarpo. Aponta para o iní- cio da veneração dos mártires, que mais tarde deu origem ao culto dos santos católicos. Epístola de Barnabé Talvez esse seja o texto mais incomum dentre os pais apostólicos. Trata- se de uma carta anônima, escrita provavelmente em Alexandria, no Egito, entre os anos 130 e 140. É composta de duas partes: a seção doutrinária (caps. 1-17), embora não negue o caráter histórico do Antigo Testa- mento, dá ênfase à sua interpretação espiritual ou alegórica, em busca de figuras ou “tipos" de Jesus e de sua obra redentora; a seção prática (caps. 18-21) contém um conjunto de ensinos éticos conhecido como os "dois caminhos”. O pastor de Hermas O pastor, também conhecido como O pastor de Hermas, é o documento mais longo dos país apostólicos, tendo sido escrito por volta do periodo 140-150. O autor, Hermas, é um homem simples, talvez o irmão do bispo Pio, da igreja de Roma. Embora possua fortes elementos apocalip- ticos, seus temas principais são a pureza e o arrependimento pós-batis- mal. Contém cinco visões com exortações ao arrependimento e à constância no meio da perseguição, doze mandamentos resumindo os deveres de um cristão e dez similitudes ou parábolas sobre assuntos práticos e morais. Vários autores antigos entenderam que esse livro de- via fazer parte do Novo Testamento. Didaquê A Didaquê, também chamada O ensino dos doze apóstolos, é o mais antigo manual eclesiástico conhecido, tendo sido compilado na primeira me- tade do século II, provavelmente na Síria ou na Palestina. O texto esteve perdido por muitos séculos e só foi reencontrado em 1873. Possui três partes:
  24. 24. 30 FUNDAMENTOS DA TEOLOGIA HISTÓRICA 1. Os seis primeiros capitulos apresentam os "dois caminhos", o conjunto de instruções morais também incluído no final da Epís- tola de Barnabé. 2. A segunda parte (caps. 6-10) contém instruções litúrgícas sobre o batismo (por imersão ou por efusão) e sobre a ceia do Senhor, incluíndo as primeiras orações eucarísticas conhecidas. 3. A parte final (caps. II-15) possui regras sobre profetas itineran- tes, entre os quais havia certamente muitos charlatães, e uma exortação a que se elejam bispos e diáconos. O último capítulo trata da necessidade de preparação para o fim do mundo. A Diclaquê demonstra a transição do modelo de liderança carismáti- ca na igreja (profetas e mestres) para a liderança institucional e hierár- quica (presbíteros e diáconos). Epístola a Diogneto Essa epístola nunca foi mencionada na antiguidade, tendo sido desco- berta na era moderna. Trata-se de obra anônima, escrita no final do século II em grego elegante e endereçada a um pagão. É uma das mais belas e nobres apologias ou defesas do cristianismo, refutando tanto a religião pagã quanto os costumes judaicos. Por essa razão, muitos auto- res preferem inclui-la entre os apologistas (o próximo item). O docu- mento descreve os cristãos como a alma do mundo e insiste em que o cristianismo é uma revelação singular de Deus. Seu final é parte de outro escrito, talvez uma homilia. Papias Por volta de 130, o bispo Papias de Hierápolís escreveu a obra Explanações dos ditos do Senhor, composta de cinco livros. Trata-se de uma coletânea de relatos das palavras e ações de Jesus recolhidos da tradição oral, dos quais somente sobreviveram alguns trechos preservados por Irineu de Lião e Eusébio de Cesaréia. Incluem informações sobre a origem dos evange- lhos de Mateus (escrito inicialmente em hebraico) e Marcos (qualificado como o intérprete de Pedro), e uma passagem sobre a morte de Judas. Devido a suas crenças milenistas, mais tarde Papias foi objeto de desdém.
  25. 25. PERIODO ANTioo 31 Classificação dos pais apostólicos Os pais apostólicos podem ser classificados em torno de três tendências ou escolas, de acordo com sua origem geográfica: I. Asia Menor (Inácio, Policarpo, Papias) - dá ênfase à união com o Salvador pela qual se alcança a imortalidade. 2. Roma (Clemente e O pastor de Hermas) - acentua o aspecto práti- co e ético: o cristianismo como obediência a uma nova lei. 3. Alexandria (Epístola de Barnabé) - combina interesse ético com abordagem especulativa por meio da interpretação alegórica. Os elementos comuns desses escritos são, entre outros, o entendimen- to de Cristo como preexistente, divino e humano; o batismo e seu poder de purificação, e a eucaristia como o centro do culto cristão, começando o o ~ É( - 31 o a surgir uma interpretação realista ou literal desse sacramento. Contribuições à história da teologia Quanto à história da teologia, os pais apostólicos trazem poucas contri- buições novas. São escritos simples e práticos, dirigidos a um público interno, os próprios cristãos, e se voltam para os problemas e desafios enfrentados numa época de transição em que o cristianismo estava se organizando e se consolidando. Entre suas preocupações estão a luta contra grupos heréticos (gn ósticos, judaizantes, Marcião), o ministério e a liderança da Igreja, e a interpretação do Antigo Testamento, geral- mente alegórica e cristológica. Sua teologia é pouco desenvolvida e fica muito longe das ricas reflexões dos apóstolos Paulo e ]oão. Mencionam vários temas importantes e apresentam alguns conceitos novos, mas apenas de passagem, sem elaboração detalhada. Esses escritos refletem a situação da doutrina e do ensino cristão daquela época. Os cristãos ainda não possuíam o cânon do Novo Testa- mento e suas autoridades eram as tradições sobre o Senhor, o ensino dos apóstolos, o Antigo Testamento e seus bispos e mestres. Eles aceita- vam a divindade de Cristo e mostravam formas iniciais de confissão trinitária. Os documentos mais ricos do ponto de vista teológico são as cartas de Inácio.
  26. 26. 32 FUNDAMENTOS DA TEOLOGIA HISTÓRICA É digno de nota o contraste de linguagem, teor e conceitos entre os pais apostólicos e os livros do Novo Testamento, especialmente na área da soteriologia. Em vez da ênfase paulina na graça e na fé, a salvação agora é entendida em termos de obediência a uma nova lei. Ela não é vista como dádiva graciosa de Deus, mas como fruto do esforço e da fidelidade dos cristãos. A justificação graciosa é substituída pela graça que ajuda a agir corretamente. Esse entendimento legalista ou moralis- ta da vida cristã foi em parte uma reação contra o crescente antinomis- mo (rejeição da lei e dos mandamentos) que se difundia entre os cristãos. Textos: CLEMENTE ROMANO, Aos corintios (Petrópolis: Vozes, 1984); Coleção Pa- trística, vol. 1 - Padres Apostólicos (Clemente Romano, Inácio, Policarpo, O pastor de Hermas, Epístola de Barnabé, Pápias, Didaqué); COMBY, 1:51, 56, 59s; GOMES, 17-61 (lClemente, Diciaquê, Inácio aos efésios, romanos e esmirnenses, Poli- carpo aos filípenses, Carta da igreja de Esmirna ou Martírío de Policarpo, O pastor de Hermas); I-IAMMAN 11, 14-24; LIÉBAERT, 21-37. Análises: OLsoN, 39-52; GONZALEZ, l:61-94. ALTANER e STUIBER, 53-67, 87s, 89- 91; BERKHOF, 37-41; CAVALCANTE, 105-117, 132- 145; HÂGGLUND, 13-20;I-1AMMAN, 13-24 (Inácio); I-IAMMAN 11, 11-13, 20-22; KELLY, 66-71; LANE, 1:14-17; LIÊBAERT, 19-38; MORESCHINI e NORELLI, 1:157-169 (epístolas), 183-187 (Barnabé), 189-192 (Didaquê), 195-199 (2Clemente), 229-237 (Papias, O Pastor); PADOVESE, 95-98, 137- 140;T1LL1cH, 38-43. 3. Os APOLOGISTAS Durante o século II, à medida que se expandia e se tornava mais conhe- cido, o cristianismo atraiu cada vez mais a atenção das autoridades e da sociedade pagã. Isso levou ao aumento da hostilidade contra os cristãos, na forma de críticas e de perseguição aberta. As críticas iam desde alega- ções simplistas e preconceituosas feitas pela população em geral (inces- to, canibalismo, ateísmo) até contestações sofisticadas vindas de intelectuais pagãos como Luciano de Samosata, Galeno, Celso e Porfí- rio. As perseguições aos cristãos começaram com os imperadores Nero (54-68) e Domiciano (81-96) e se estenderam até o início do século IV, cobrindo um periodo de aproximadamente 250 anos.
  27. 27. PERÍODO ANTIGO Esses fatos causaram o surgimento de um novo tipo de reflexão e de literatura cristã, dirigida a um público externo com o duplo objeti- vo de defender o cristianismo das acusações que lhe eram lançadas e de apelar às autoridades por tolerância em favor dos cristãos. Isso foi facilitado pelo crescente ingresso na Igreja de homens dotados de só- lido preparo intelectual e filosófico. Esses escritores cristãos do século II, quase todos de língua grega, ficaram conhecidos como apologistas (de apologia = discurso de defesa). Os apologistas são: Aristides, Justino Mártir, Melito de Sardes, Ate- nágoras de Atenas, Taciano e Teófilo de Antioquia. Alguns estudiosos incluem nessa categoria outros autores menos conhecidos (Quadrato, Hérmias, Hegésipo, Minúcio Félix), a Epístola a Diogneto (que já foi vista entre os pais apostólicos) e os teólogos Tertuliano de Cartago e Orígenes. Devido à sua importância e ao fato de que escreveram sobre muitos outros temas, os dois últimos serão estudados à parte. Um aspecto saliente da obra dos apologistas foi o uso da filosofia grega, especialmente o platonismo. Esses escritores cristãos entendiam que não existia conflito entre a fé cristã e o que havia de melhor na filosofia, e que esta era um recurso adequado para comunicar a fé cristã a uma audiência greco-romana. No século l, o estudioso judeu Filo de Alexandria (15 a. C.-50 d. C.) já havia se empenhado em fazer uma interpretação filosófica e alegórica do Antigo Testamento. A tra- dição intelectual predominante no século II tinha vários elementos que a tornavam atraente para muitos cristãos: a crença em um Ser supremo (fonte e origem última de todas as coisas), a natureza espiri- tual suprema da realidade, a imortalidade da alma e a importância da vida Virtuosa. Como a pessoa de Jesus Cristo era a dificuldade central para os pensadores pagãos, os apologistas encontraram no conceito do Logos ou Verbo, comum ao platonismo e ao cristianismo (cf. Jo 1:1,14), um meio conveniente de tornar esse ensino aceitável à filosofia helenísti- ca. Como já foi indicado, o Logos ou razão universal era tido como o mediador entre o Ser Supremo e o mundo material. Muitos escritores posteriores não fariam a mesma avaliação positi- va da filosofia, como Tertuliano, que colocou uma famosa pergunta:
  28. 28. 34 FUNDAMENTOS DA TEOLOGEA l-IlSTÓRICA "Que relação existe entre Atenas e Jerusalém? ”. De qualquer modo, os apologistas deram ao Cristianismo uma teologia ligada à filosofia. Eles contribuíram para transformar o pensamento cristão em teologia pro- priamente dita, ou seja, análise e defesa racional e coerente da mensa- gem cristã. Três desses escritores merecem destaque em virtude da natureza altamente elaborada de seu pensamento sobre Deus e da in- fluência que exerceram sobre teólogos posteriores, ou seja, Justino, Atenágoras e Teófilo. Justino Mártir- Por causa de suas idéias criativas sobre Cristo como o Logos e sobre o cristianismo como a verdadeira filosofia, Justino Mártir é considera- do o apologista mais importante do século ll. Ele nasceu numa família grega residente em Flávia Neápolis, a an- tiga Siquém, na Palestina. Tornou-se filósofo platônico e mais tarde abraçou o cristianismo após conversar com um misterioso ancião. Con- tinuou a usar sua túnica de pensador, pois agora se considerava um filósofo de Cristo. Após ensinar em Éfeso, abriu uma escola cristã em Roma, por volta de 150, e foi executado em torno de 165, no reinado de Marco Aurélio. Justino foi o primeiro pensador cristão que tentou harmonizar fe' e razão. Três obras apologéticas profundas e breves de sua autoria sobre- viveram, nas quais ele trata de dois problemas básicos: a relação do cristianismo com a cultura grega e com o Antigo Testamento. A Primeira apologia, escrita por volta de 155, é endereçada em tom ousado ao imperador Antonino Pio (138-161), conclamando-o a dar um tratamento mais justo aos cristãos e a revogar os decretos de perse- guição. Afirma que os cristãos são bons cidadãos e explica o culto cristão, os sacramentos e o motivo da rejeição dos ídolos. Entende que podem ser encontrados sinais da verdade cristã nos grandes escri- tores pagãos. A Segunda apologia foi dirigida ao senado romano, por volta de 160. Argumenta que a perseguição aos cristãos é fruto da ignorância e do preconceito, compara Cristo com Sócrates e conclui que as doutrinas cristãs são mais sublimes que toda a filosofia humana.
  29. 29. PERIODO ANTIGO O Diálogo com Trifão narra as conversas de Justino com um judeu culto e alguns de seus amigos. Contém reflexões sobre sua jornada filosófica e responde a objeções do seu interlocutor, especialmente a respeito da encarnação. Em seus escritos, Justino explorou o conceito de Cristo como o Logos divino. O Logos é o Espirito preexistente de Deus que encar- nou em Jesus Cristo. O "Logos cósmico", que está subordinado ao Pai, e' o agente e o mediador de Deus na criação, uma idéia já existente nas filosofias gregas. Esse Logos estava presente no mundo antes da encarnação, tendo falado tanto por intermédio dos profetas judeus quanto dos filósofos gregos. Ele é o Logos spermatikos ("palavra gerado- ra”), presente em cada ser humano e a fonte de toda verdade genuína. Através dos indícios de sua verdade presentes na filosofia clássica, Deus preparou o caminho para a revelação final em Cristo. Segundo Justi- no, o cristianismo incorpora os conceitos mais nobres da filosofia helenistica, sendo a verdade por excelência. Atenágoras de Atenas A obra mais importante de Atenágoras de Atenas foi Súplica em favor dos cristãos, dirigida por volta de 177 ao imperador Marco Aurélio e ao seu filho Comodo, que estavam prestes a visitar Atenas. Refuta suces- sivamente três acusações feitas aos cristãos (ateísmo, refeições liberti- nas e incesto), possuindo linguagem, estilo e argumentação mais refinados e claros que Justino. Atenágoras faz importantes reflexões sobre Deus e Jesus Cristo: argumenta que o melhor do pensamento grego era monoteista; descreve Deus essencialmente com atributos negativos (incriado, impassível, incompreensível etc. ), abordagem essa que posteriormente seria denominada "teologia apofática”, e apresen- ta uma das primeiras explicações teológicas da doutrina da Trindade, todavia sem se aprofundar na questão da encarnação. Teófilo de Antioquia Teófilo foi bispo e é conhecido por seus três livros A Autólico, escritos por Volta de 180. Busca responder aos comentários depreciativos fei- tos por seu amigo pagão sobre o cristianismo, e sua abordagem é menos
  30. 30. 36 FUNDAMENTOS DA TEOLOGIA HISTÓRICA filosófica que as de Justino e Atenágoras. É o primeiro pensador cristão a apresentar o conceito de criação ex nihilo, ou seja, a partir do nada, uma idéia estranha à filosofia grega, que ensinava a eterni» dade do universo. Emprega o conceito do Logos para explicar o rela- cionamento de Deus com o mundo. O Logos é o agente de Deus na criação e falou através dos profetas. Antes da criação do mundo, Deus gerou externamente o Logos, que estava eternamente dentro dele. Teófilo foi o primeiro escritor cristão a empregar o termo trias (tríade ou trindade) e a declarar expressamente a inspiração do Novo Testamento. Outros apologistas gregos Aristides Aristides foi o autor da mais antiga apologia conhecida, dirigida ao imperador Adriano na década de 130. Deu ênfase aos cristãos - con- trastados com os bárbaros, gregos e judeus - como os únicos que en- contraram a verdade. Eles constituíam uma nova nação ou raça conhecida por seus costumes elevados e amor recíproco. Taciano Taciano foi discípulo de Justino e autor de Discurso aos gregos, onde também procurou demonstrar a superioridade da "religião bárbara” (o cristianismo) sobre a cultura e a religião dos gregos. O centro de sua teologia é Deus e seu Logos. Esse Logos, que procede do Pai, fez o mundo, porém não de um material preexistente, pois nada é sem co- meço, exceto Deus. Taciano também escreveu o Diatessaron, a primei- ra tentativa de harmonizar os quatro evangelhos, e outras obras. Melito de Sardes Melito de Sardes (Tc. l90) foi um escritor profícuo, mas toda sua pro- dução se perdeu, exceto uma homilia pascal, publicada em 1940, na qual faz uma interpretação tipológica e cristológica da história de ls- rael, em especial do êxodo. Em sua opinião, Cristo é preexistente e divino; ele é, "por natureza", Deus e homem.
  31. 31. PERIODO ANTIGO 37 A relevância dos apologistas Os apologistas levaram a público a mensagem cristã, defendendo-a vigo- rosamente contra mal-entendidos e falsas acusações. Realizaram os pri- meiros confrontos intelectuais do cristianismo com a cultura circundante e fizeram um esforço de apresentar a fé cristã de modo compreensível para os pagãos. Eles foram muito além das reflexões simples dos pais apostólicos, arti- culando um pensamento formal, racional e sistemático sobre as implica- ções da mensagem apostólica. Fizeram valiosa reflexão inicial sobre as crenças mais importantes a respeito de Deus e de Jesus Cristo, embora não tenham traçado uma nítida distinção entre o Logos preexistente e o Espírito Santo. Sua doutrina do Logos representou uma busca de diálogo entre a fé e a cultura circundante, o que certamente envolvia alguns ris- cos, como continua ocorrendo até os dias de hoje. Seu uso da filosofia grega criou dificuldades posteriores para a teolo- gia cristã, em especial quanto às doutrinas de Deus e da encarnação, levando à progressiva helenização do cristianismo. Todavia, essa influ- ência teve limites: se por um lado os apologistas abraçaram a noção de que o Ser Divino é imutável e impassível, por outro também insistiram na encarnação e na ressurreição, idéias não atraentes para a mentalida- de grega. Em geral, eles apresentaram o cristianismo como doutrina moral ou filosófica e Cristo como o mestre de uma nova moralidade ou da verdadeira filosofia. Textos: Coleção Patrística, vol. 2 - Padres Apologistas (Epístola a Diogneto, Aris- tides, Taciano, Atenágoras, Teófilo e Hérmias); vol. 3 -Justino (I e H Apologias, Diálogo com Trifáo); COMBY, lz34-48; GOMES, 62-87 (Aristides, Justino, Melito), 98-114 (Atenágoras, Teófilo, Epístola a Diogneto); I-IAMMAN Il, 28-33, 67s; LIÉBAERT, 42-52. Análises: OLSON, 53-66; GoNzALEz, 1:95-118. ALTANER e STUIBER, 68-89; BERKHOF, 53-57; CAMPENHAUSEN, 15-22; CAVALCANTE, 122-131, 197-201; CLOUSE, 49-53; FRANGIOTTI, 14-23 (Justino); HÃGGLUND, 21-24; HAMMAN, 25-34 (Justino); HAM- MAN II, 25-28; IRVIN e SUNQUIsr, I59s; KELLY, 71-77 (a tríade divina), 107s (cristo- logia), 123-127 (o homem e a salvação); LANE, 1: 17-19 (Justino); LIÉBAERT, 39-51;
  32. 32. 38 FUNDAMENTOS DA TEOLOGIA HISTÓRICA MCGRATH, 44, 4123; MORESCHINI e NORELLI, iz27l-294; PADOVESE, 47-50, 63-66, 140-142, 187-189; TlLLlCH, 44-51. 4. MOVIMENTOS HERÉTICOS Já foram feitas diversas referências a correntes heterodoxas que existi- ram no cristianismo antigo, e muitas outras serão mencionadas nos próximos tópicos. O conhecimento desses movimentos é importante não só pela luz que lançam sobre a história da Igreja, mas pelo fato de que boa parte da reflexão teológica feita nos primeiros séculos foi em reação aos seus ensinos. Os principais grupos dissidentes dos séculos ll e III foram os ebionitas, gnósticos, docetistas, marcionitas, montanistas e monarquianos. Ebionismo O termo ebionitas deriva de uma palavra hebraica que significa "pobres” e designa uma seita de judeus cristãos ascéticos que sobreviveram à destruição de Jerusalém no ano 70, indo para o leste do rio Jordão. Sendo judaizantes, criam na salvação pela obediência à lei, rejeitavam os escritos de Paulo e davam ênfase às cartas de Tiago e Pedro. Para eles, Jesus era um profeta humano, o novo Moisés; era o filho de José que, ao ser batizado, foi adotado como Filho de Deus por causa de sua obediência à lei. Por serem poucos e estarem isolados, não subsistiram- por muito tempo. Gnostícísmo O gnosticismo foi uma filosofia religiosa altamente especulativa e sin- crética que floresceu no século II, reunindo elementos mitológicos, he- lenisticos, cristãos e outros. Consistia acima de tudo numa doutrina de salvação. Na sua base estava um dualismo radical que colocava em opo- sição o mundo espiritual e o mundo material. O Deus supremo era o criador das realidades espirituais, incluindo a alma humana. Desse Deus procedia, por emanação, uma hierarquia de divindades inferiores, a úl- tima das quais, por vezes denominada Demiurgo, criou o mundo mate- rial. Por causa de uma desordem no Pleroma (o mundo espiritual), as almas ficaram aprisionadas em corpos materiais. A salvação consiste na libertação do espírito imortal aprisionado na matéria, para que retorne
  33. 33. PERIODO ANTIGO 39 ao seu mundo original divino. Para isso é necessário o conhecimento (em grego, gnosis), ou seja, a compreensão da situação humana. Esse conhecimento especial teria sido transmitido por Jesus a alguns de seus seguidores e agora era possuído somente pelos gnósticos, que o comuni- cavam aos seus iniciados (esoterismo). O profundo desprezo pela matéria fez que os gnósticos represen- tassem uma ameaça para várias convicções cristãs: a doutrina da criação e do governo divino sobre o mundo, o entendimento da salvação, a natureza da pessoa e obra de Cristo e a ressurreição do corpo. O gnosti- cismo não era um movimento homogêneo, mas muito diversificado. Havia várias escolas gnósticas, como a de Cerinto, na Asia Menor, e as de Carpocrates, Basílides e Valentino, em Alexandria. Esse último foi para Roma, sendo excluído da igreja por volta de 155. Ensinou que o Cristo divino desceu sobre o homem Jesus em seu batismo e o abando- nou antes da sua paixão. Sua missão foi trazer a gnosis, para que por ela os espíritos humanos pudessem retornar ao Pleroma de onde vieram. Docetismo O docetismo foi uma antiga manifestação de tendências gnósticas em certos setores do cristianismo primitivo. Em virtude do seu desprezo pela matéria, os docetistas negavam que Cristo tivesse um corpo real, dizendo que ele possuía apenas uma aparência de corpo. Daí o termo “docetismo”, do verbo grego dokéo, “parecer”. Esse ensino, que questio- nava a encarnação e a morte de Cristo na cruz, é claramente combatido tanto na literatura joanina do Novo Testamento (cf. lJo 4:23; 2Jo 7) quanto nas cartas de Inácio de Antioquia. Marcionismo O marcionismo derivou seu nome de Marcião, também conhecido como Márcion, filho de um bispo de Sinope, na província do Ponto, no norte da Asia Menor. Por volta do ano 144, ele chegou a Roma e passou a divulgar suas idéias, sendo expulso da igreja. influenciado por conceitos dualistas e gnósticos, Marcião estabele- ceu um contraste radical entre o Antigo e o Novo Testamento: o primei- ro representa o reino deste mundo e a lei (retribuição); o segundo
  34. 34. 40 FUNDAMENTOS DA TEOLOGIA HISTÓRICA representa o reino celestial e o evangelho (graça). Para ele, Jeová, o cria- dor do mundo material, e' um ser imperfeito e vingativo; o Deus verda- deiro - o Pai de Jesus - é amoroso e perdoador. Portanto, os cristãos nada têm a ver com o Antigo Testamento e sua divindade. O Deus verdadeiro perdoa a todos e assim toda a humanidade será salva. A salvação é do espirito, não do corpo. Marcião foi o primeiro a elaborar um cânon do Novo Testamento. Para ele, as Escrituras cristãs deviam incluir somente o evangelho de Lucas e as cartas do apóstolo Paulo às igrejas, sem as pastorais. Os mar- cionitas formaram uma igreja, que subsistiu por alguns séculos. Montanismo O montanismo foi um movimento de natureza carismática ou entusiás- tica - o primeiro da história da Igreja - surgido na Frígia, Asia Menor, pouco após a metade do século II. Seus líderes eram Montano, um cristão que alegava ser o instrumento do Paráclito (o Espírito Santo), e duas profetizas, Priscila e Maximila. Denominado "Nova Profecia" por seus adeptos, o movimento visava preparar o caminho para a iminente volta de Cristo e o milênio. A Igreja devia ter uma vida moral rigorosa e sofrer o martírio. Por enten- derem que eram dirigidos diretamente pelo Espírito, os montanistas se inclinavam a desprezar a Igreja institucional, atraindo a oposição dos seus líderes. Sob pressão intensa, o movimento sobreviveu no norte da Africa até o século V e na Frígia até o VI. Monarquianismo O monarquianísmo não foi propriamente um movimento ou grupo organizado, mas um entendimento sobre a doutrina cristã de Deus. Os monarquianos eram fortes defensores da unidade do Ser Divino (mo- narquia ou monoteísmo) e queriam evitar que a noção de Deus como Pai, Filho e Espírito Santo resultasse em triteísmo (três deuses). Nesse esforço, eles acabaram adotando duas posições: alguns negaram a divin- dade de Cristo, afirmando que só o Pai é Deus; outros afirmaram a divindade de Cristo e do Espírito, mas negaram que havia distinções pessoais no ser de Deus.
  35. 35. PERIODO ANTIGO 41 A primeira posição é conhecida como "monarquianísmo dinâmi- co" ou adocionismo: o homem Jesus foi adotado por Deus como filho e recebeu o poder divino (dynamís). Foi essa a posição dos ebionitas e de Paulo de Samosata, bispo de Antioquia (c. 260), para quem o Ver- bo era apenas a razão, o poder ou a sabedoria de Deus que habitou no homem Jesus desde a sua concepção. A segunda posição, denominada "monarquianísmo modalista”, afir- mava que Deus é uma só essência e uma só pessoa, com três “modos" ou manifestações sucessivas - Pai, Filho e Espírito Santo. Esse ensino também é conhecido como “sabelianismo", por ter sido defendido no início do século III por um certo Sabélio. Uma variante conhecida como “patripassianismo”, abraçada por indivíduos como Práxeas e Noeto, afirmava que o Pai sofreu e morreu na cruz. Com o passar do tempo, a Igreja acabou condenando como antibi- blicas essas posições. O comportamento da Igreja diante das heresias A reação da Igreja majoritária contra as heresias foi bastante unifor- me, tendo como argumento básico a autoridade apostólica. Isso se expressou de diversas maneiras. Em primeiro lugar, mediante a ênfa- se na sucessão apostólica: Cristo e os apóstolos transmitiram seus ensinos e sua autoridade a sucessores legítimos, os líderes da Igreja, que a partir do segundo século passaram a ser os bispos. Em segun- do lugar, por meio do cânon ou conjunto de livros reconhecidos do Novo Testamento, como expressão da ortodoxia cristã. Esse concei- to se tornou firmemente estabelecido no século II, em reação ao cânon de Marcião. Em terceiro lugar, mediante a regra de fé e os credos, ou seja, os resumos sistemáticos da fé cristã, primeiro em forma interrogatória (o chamado Antigo Símbolo Romano) e depois em forma afirmativa, tendo forte ênfase cristológica e apologética. Outro instrumento da atividade anti-herética da Igreja foi justamen- te a reflexão teológica. Textos: BETTENSON, 77-82 (docetismo, gnosticismo, monarquianísmo), 1383 (montanismo e donatismo); HAMMAN II, 42; Noll, 47.
  36. 36. 42 FUNDAMENTOS DA TEOLOGIA HISTÓRICA Análises: OLsoN, 27-38; GONZALEZ, I:119-152. ALTANER e STUIBER, 108-118; BERKHOF, 42-52, 71-76; CLousE, 53-55; EHTIC, I:488 (docetismo), 11202-206 (gnosticismo), II:474 (Marcião), II:543s (monarquianísmo), II:551s (montanis- mo); HÃGGLUND, 25-34- (cristianismo judaico e gnosticismo), 57-62 (monarquia- nismo); HlNsoN e SIEPIERSKI, 75-88; IRVIN e SUNQUIST, 115, 153-159, 189-192; KELLY, 16-21, 86-91; MCGRATH, 191-194, 381-384; MORESCHINI e NORELLI, I:237- 268; PADOVESE, 45-47, 50S; TlLL1Ci-I, 52-55, 81-83. 5. IRINEU DE LIÃO Irineu exemplifica perfeitamente os três elementos mencionados aci- ma, que, segundo os estudiosos, surgiram no século II como fatores de fortalecimento institucional e doutrinário da Igreja antiga: o bispo monárquico, a regra de fé e o cânon do Novo Testamento. O bispo de Lião foi o mais fértil e profundo teólogo do seu tempo, e com ele a reflexão cristã ultrapassou grandemente a obra dos pensadores que o antecederam. Irineu nasceu por volta do ano 130 na Ásia Menor, prova- velmente na cidade de Esmirna. Em uma carta preservada por Eusébio de Cesaréia, ele conta que ti- nha vividas lembranças de Policarpo (T0155), o bispo de Esmirna que havia sido discípulo do apóstolo ]oão. Isso era muito importante para Irineu, pois o colocava em contato direto com a era apostólica. Por volta de 170, ele se transferiu para Roma e mais tarde para Lião (Lugdunum), no sul da Gália, atual França, onde existia uma grande comunidade imigrante de língua grega, procedente da Ásia Menor, na qual o cristia- nismo estava firmemente implantado. Na época em que o imperador Marco Aurélio perseguiu os cristãos da Gália (ano 177), Irineu foi portador de uma carta desses cristãos para a igreja de Roma e seu bispo Eleutério pedindo tolerância para os montanistas da Ásia Menor. Ao retornar a Lião, descobriu que o bis- po Potino havia sido martirizado, sendo eleito seu sucessor. Corno bispo de Lião, Irineu liderou a igreja daquela região, defendeu seu rebanho contra movimentos heréticos e lutou pela paz e unidade da Igreja em geral. Por volta de 190, ele interveio na controvérsia pascal quando Vítor, o bispo de Roma (189-198), ameaçou excomungar as igrejas da Ásia
  37. 37. PERIODO ANTIGO Menor por causa de uma divergência quanto à data da Páscoa. Por isso, o historiador Eusébio de Cesaréia declarou que Irineu se portou à altu- ra do seu nome, porque provou ser um verdadeiro pacificador ou eireno- poios. Sua morte ocorreu por volta do ano 200. Das muitas obras escritas por Irineu, apenas duas sobreviveram: seu grande tratado antignóstico Detecção e refatação da falsamente chamada gnose, mais conhecido como Contra as heresias (Adoersus haereses), e uma obra menor, Demonstração da pregação apostólica, também conhecida como Epideixis, um tratado catequético e apologético redescoberto no inicio do século XX. Nas suas viagens a Roma e no seu trabalho em Lião, Irineu ficou alarmado com o crescimento do gnosticismo, principal- mente o da escola de Valentino e de seu discípulo Ptolomeu, perceben- do a ameaça que representava para a Igreja e para a fé cristã. No esforço de refutar esse falso ensino, ele deu uma valiosa contribuição ao defen- der o entendimento cristão da salvação. Nos cinco livros cle Contra as heresias, Irineu fez um tríplice ataque contra o gnosticismo: em primeiro lugar, ele procurou demonstrar o caráter absurdo dos ensinos gnósticos, em boa parte uma mitologia sem fundamento e cheia de contradições; em seguida, mostrou que a alega- ção dos gnósticos de ter uma autoridade que remontava a jesus e aos apóstolos era simplesmente falsa; finalmente, refutou o gnosticismo com base nas Escrituras, demonstrando o caráter irracional da interpretação bíblica gnóstica, Contra o dualismo gnóstico, Irineu afirmou a doutri- na cristã de Deus como o criador e o redentor tanto da existência espi- ritual quanto da material. A maior contribuição do bispo de Lião à história da teologia está em sua cosmovisão alternativa ao gnosticismo - a chamada "teoria da recapitulação" ou anakephalaiosis (provisão de uma nova cabeça ou um novo fundamento). Refletindo sobre a comparação paulina entre Adão e Cristo em Romanos 5, Irineu ensinou que a obra de Cristo na redenção é ser uma nova "cabeça” para a humanidade. Na cristologia gnóstica, a obra de Cristo não requeria a encarnação. Para Irineu, o evangelho da salvação transmitido pelos apóstolos centralizava-se na en- carnação, a existência humana do Filho de Deus. Na encarnação, a raça humana inteira renasceu, recebendo uma nova cabeça, uma nova base de
  38. 38. 44 FUNDAMENTOS DA TEOLOGIA HISTÓRICA existência, que não é caída, mas pura e saudável, invertendo a queda de Adão. Essa idéia ficou conhecida como "encarnação salvífica". Assim, não só a morte e a ressurreição de Cristo têm um sentido redentor, mas sua vida humana, sua encarnação. Aquele que participa da nova huma- nidade de Cristo pelo arrependimento, pela fé e pelos sacramentos ex- perimenta uma transformação que o torna participante da natureza divina (ZPe 1:4). Essa idéia mais tarde foi denominada “divinização" ou "deificação" (theosis). Em sua reflexão teológica, motivada principalmente por preocupa- ções pastorais e apologétícas, Irineu acabou fazendo valiosas contribui- ções para muitas áreas do pensamento cristão. Ele não só foi o primeiro pensador que elaborou teorias abrangentes do pecado original e da re- denção, mas deu ênfase à unidade do Pai, do Filho e do Espírito Santo na criação e na redenção. Para Irineu, o Filho e o Espirito eram as "duas mãos de Deus" mediante as quais o Pai se relacionou com a criação. Ele também acentuou o conceito de tradição apostólica, incorpora- da na "regra de fé" (credo embrionário) e transmitida pela sucessão dos lideres das igrejas fundadas pelos apóstolos. A tradição permitia manter fidelidade ao testemunho apostólico diante de interpretações errôneas da fé cristã. Por último, ele colocou os escritos do Novo Testamento em pé de igualdade com o Antigo Testamento como Escrituras Sagradas e defendeu o cânon com quatro evangelhos, lançando assim as bases da ortodoxia cristã. Irineu, o primeiro grande pensador cristão, ilustra como a atividade teológica é essencial para a vida da Igreja. Textos: BETTENSON, 69-71, 125-128, 134-135; Coleção Patrística, vol. 4 - Irineu (Contra as heresias); COMBY, I:65-67; GOMES, 115-135; HAMMAN 11, 42-48; LIÉBAERT, 54-68; NoLL, 43. Análises: OLsoN, 67-78; GONZALEZ, 1453-166. ALTANER e STUIBER, 119-125; BERKHOF, 60; CAMPENHAUSEN, 23-29; CAVALCANTE, 145-156; EHTIC, II:346s; FRANGIOTTI, 24-33; HAocLuND, 35-41; HAMMAN, 35-52; HAMMAN 11, 3841; IRVIN e SUNQUIST, 160-162; Kelly, 26-30, 77-80, 107-110, 127-130; LANE, lzl9-23; LIÉBAERT, 53-69; MCGRATH, 45, 344s, 377; MORESCHINI e NORELLI, 1509-320; PADovEsE, 47, 63, 98; TILLICH, 56-67.
  39. 39. PERÍODO ANTIGO 6. TERTULIANO DE CARTAGO Durante o século II, várias cidades se destacaram como centros de ativi- dade e reflexão teológica cristã: Roma, com Clemente e Justino; Antio- quia, com Inácio e Teófilo; Lião, com Irineu. No final desse século e no início do seguinte, despontou outra região, o norte da Africa, com duas cidades que se tornaram célebres por suas contribuições à história da teologia - Cartago, de lingua latina, e Alexandria, onde se falava o gre- go. Em Cartago, na província romana da Numídia (atuais Tunísia e Argélia), Viveu Tertuliano, um dos mais notáveis pensadores da Igreja antiga, considerado o pai da teologia latina. Pouco se sabe da vida de Tertuliano. Ele nasceu por volta do ano 160 e passou quase toda a vida em Cartago, embora tenha ido muitas vezes a Roma. Em torno de 190, tornou-se cristão em circunstâncias desco- nhecidas. Tendo recebido sólida formação intelectual, dedicou seus conhecimentos à explanação e defesa da fé cristã ortodoxa. Não foi or- denado sacerdote, sendo provavelmente um catequista ou mestre. Por volta de 206, abraçou o montanismo, abandonando a Igreja católica. Após a morte da esposa, uma cristã, não voltou a se casar. Faleceu entre 220 e 225. Tertuliano é conhecido quase exclusivamente através dos seus escri» tos, que cobrem o período aproximado de 196 a 212. Trinta e uma obras suas em latim sobreviveram, tornando-se o primeiro corpo signifi- cativo de literatura cristã nesse idioma. Quase todas são obras de con- trovérsia, revelando uma preocupação inicial com apologética e moralidade cristã, e posteriormente com a refutação de heresias. Alguns dos escritos de Tertuliano ressaltam os absurdos legais e morais da perseguição dos cristãos (Apologia, Aos mártires, O testemunho da alma etc). Suas obras práticas defendem a separação da sociedade pagã (Idolar tria, O vestuário das mulheres, Espetáculos e outras). A sua adesão ao mon- tanismo intensificou essa atitude rigorosa, levando-o a modificar posições anteriores, como se pode Ver em Monogarnia (contra o segundo casa- mento), Fuga na perseguição (condenação da fuga ao martírio) e A pureza (rigor contra pecados graves após o batismo). Também produziu a mais antiga exposição da Oração do Senhor (Oração) e o primeiro tratado conhecido sobre o Batismo.
  40. 40. 46 FUNDAMENTOS DA TEOLOGIA HISTÓRICA Todavia, foi em seus escritos antiheréticos que Tertuliano legou suas maiores contribuições à teologia cristã. Sua maior obra e, em muitos aspectos, a mais importante, é Contra Marcião, em cinco livros, na qual defendeu a unidade dos dois testamentos e expôs de maneira nova muitas crenças cristãs fundamentais. Em sua fase montanista, ele escreveu a importante obra Contra Práxeas, fazendo uma crítica maciça contra um dos principais expoentes do monarquianísmo modalista. Com essas obras, Tertuliano exerceu uma influência imediata, profunda e perma« nente sobre o cristianismo ocidental. Uma característica interessante do pensamento de Tertuliano é a sua atitude negativa em relação à filosofia, em contraste com autores anteriores (como Justino Mártir) ou contemporâneos seus (como Cle- mente de Alexandria). Essa atitude surgiu pela primeira vez em sua obra Prescrição contra os hereges, na qual ele faz a famosa indagação: "Qual a relação entre Atenas e Jerusalém ou entre a Academia e a IgrejaÍ". Para ele, o cristão devia ater-se às Escrituras, aos ensinos dos apóstolos e à regra de fé da Igreja, rejeitando as especulações humanas e as racionali- zações filosóficas. Assim, Tertuliano foi um dos primeiros defensores do princípio da suficiência das Escrituras. Segundo ele, outra caracterís- tica do cristão maduro era uma vida moralmente rígida. A contribuição mais singular de Tertuliano no campo da teologia foi sua reflexão trinitária. Ele é considerado o pai das doutrinas ortodoxas da Trindade e da pessoa de Cristo, antecipando em mais de cem anos as formulações dos concílios do séculos IV e V a esse respeito. Em sua refutação do modalismo de Práxeas, segundo o qual existe uma só pes- soa em Deus, Tertuliano elaborou o conceito de "monoteísmo orgâni- co". Deus tem uma só substância e três pessoas, ou seja, existe uma multiplicidade e distinção no Ser Divino que não implica divisão ou separação. Embora o Pai, como fonte suprema e governante de tudo, seja de certo modo "maior" que o Filho e o Espirito Santo, ele nunca existiu sem eles e os enviou ao mundo como seus agentes. Tertuliano aplicou os mesmos conceitos básicos a ]esus Cristo - ele é tanto uma substância divina como uma substância humana, porém unidas em uma só pessoa. ironicamente, uma das razões de sua ênfase na distinção das duas naturezas de Cristo é o fato de Deus ser impassível, não estan-
  41. 41. PERIODO ANTIGO do sujeito à limitação e ao sofrimento (um conceito da filosofia grega). Logo, para ]esus Cristo ser divino e sofrer ao mesmo tempo, ele precisa- va ter duas naturezas ou substâncias distintas, e somente uma delas, a humana, poderia ter sofrido e morrido. Em síntese, a brilhante e profunda reflexão de Tertuliano contri- buiu para poupar a igreja ocidental dos desgastantes conflitos teológi- cos que haveriam de afligir o cristianismo grego por longo tempo. Textos: BETTENSON, 32s, 35s, 71s, 128-130; COMBY, 1:40, 56s; GoMEs, 160-171; HAMMAN 11, 74-76; LIÉBAERT, 75-85; TERTULIANG e outros, 19-39 (O testemunho da alma). Análises: OLSON, 91-99; GONZALEZ, 1:167-182. ALTANER e STUIBER, 156-171; BERKI-IOF, 60-62; CAMPENHAUSEN, 179-204; CAVALCANTE, 160-166; EHTIC, 1lI:524s; FRANoIoTTI, 66-77; I-IAGGLUND, 42-46; HAMMAN, 53-64; HAMMAN 11, 71- 74; KELLY, 28-30, 84-86; LANE, 1:23-27; LIÉBAERT, 73-85; McGRATI-I, 45, 375s, 378, 576; MORESCHINI e NORELLI, I:445-473; PADovEsE, 51,67. 99; TILLICH, 112s. 7. CLEMENTE DE ALEXANDRIA Além de Cartago, outra cidade norte-africana em que surgiu uma anti- ga e vigorosa tradição teológica cristã foi Alexandria, no litoral do Egito. Essa cidade de cultura grega, resultante das conquistas de Alexandre, o Grande, possuía há vários séculos uma numerosa comunidade judaica, e agora, no inicio do século III, também uma grande e dinâmica popu- lação cristã. Em Alexandria, tanto judeus como cristãos sofreram a po- derosa influência da filosofia grega, especialmente o platonismo. Nesse ambiente estimulante surgiu uma notável escola catequética cristã, vol- tada para o estudo e a interpretação das Escrituras. Essa escola destacou-se pela utilização do método alegórico de inter- pretação, que atribuia sentidos múltiplos ao texto bíblico, método esse usado amplamente na antiguidade cristã. Os grandes pioneiros da esco- la de Alexandria foram Clemente e Orígenes. Tito Flávio Clemente (que não deve ser confundido com Clemen- te de Roma, um dos "pais apostólicos") provavelmente nasceu em Ate- nas, numa familia pagã, em torno de 150. Convertido ao cristianismo,
  42. 42. 48 FUNDAMENTOS DA TEOLOGIA HISTÓRICA estabeleceu-se como mestre cristão particular em Alexandria, onde se tornou o lider da escola catequética com a morte do seu fundador, Pan- teno, por volta do ano 190. No ano 202, durante a perseguição promovida pelo imperador Sep- timio Severo (193-211), Clemente deixou a cidade e se refugiou na Asia Menor, onde morreu por volta de 215. Sua ligação com a igreja de Alexan- dria é uma incógnita. Não parece ter sido sacerdote e seus escritos não tratam da comunidade cristã, e sim da vida espiritual e intelectual do cristão individual. Ele é considerado o primeiro sábio ou intelectual cristão, pois conhecia a fundo não somente as Escrituras, mas quase toda a literatura cristã e grega da época. Suas obras principais são uma trilogia de escritos interligados: 1. Exortação aos gregos ("Protrepticos") - dirigida aos gregos, começa com uma forte critica das superstições e idolatria do paganismo. A seguir, combate as idéias dos filósofos gregos sobre a essência divina, mas reconhece que eles enunciaram muitas ideias verda- deiras sobre Deus. Por último, descreve a sublimidade da revela- ção do Logos e a riqueza da graça divina. Afirma que tudo o que os gregos falaram de verdade veio de fontes divinamente inspiradas (como Moisés) ou da inspiração direta de Deus e do seu Logos. 2. O pedagogo ("Paidagogos") - continuação da primeira obra, tam- bém é conhecida como O instrutor. Propõe-se a orientar os pagãos convertidos sobre o seu proceder diário à luz da nova vida. Cristo, o Logos ou Verbo de Deus, é o pedagogo de todos os remidos, ensinando-os a ter uma vida disciplinada, equilibrada e consisten- te com a razão. Conclui com um belissimo hino a Cristo. 3. Miscelãneas (“Stromata") - essa obra, com oito livros, contêm um apanhado de questões filosóficas e religiosas as mais diversas. Pro- põe-se a comprovar que a gnose cristã é superior a qualquer outra, platônica ou gnóstica, Outra obra de Clemente é a bela homilia Quem é o rico que será salvo? , baseada em Marcos 10:17-31. Ao contrário do seu contemporâneo Tertuliano, Clemente mostrou uma atitude muito positiva em relação à filosofia, tendo sido fortemen-
  43. 43. PERIODO ANTIGO 49 te influenciado pelo apologista Justino Mártir. Mais que outros escrito- res cristãos antigos, ele valorizou a integração da fé cristã com a melhor cultura do seu tempo, abraçando o lema: "Toda verdade é verdade de Deus, venha de onde vier”. Ele considerava a boa filosofia o modo de Deus preparar os gregos para Cristo, procurando reunir os elementos de verdade divina disper- sos em diferentes sistemas filosóficos e religiosos e submetê-los às Escri- turas (interpretadas alegoricamente) e à tradição apostólica. Viu aspectos atraentes na filosofia, como a ênfase numa única realidade espiritual suprema, o conceito de vida além da morte e ideais éticos elevados, mas rejeitou a idéia platônica de criação como um processo impessoal e eter- no, insistindo na doutrina cristã da criação "a partir do nada” pelo Deus das Escrituras. Clemente manteve intenso debate com os gnósticos, muito numero- sos em Alexandria, que afirmavam ser a sua gnose esotérica superior à fé dos cristãos comuns. Ele insistiu em que a fé era o meio para se obter o genuíno conhecimento. O "verdadeiro gnóstico" é uma pessoa que cultiva a sabedoria, fica acima das paixões carnais e busca se tornar semelhante a Deus. O mestre em todo esse processo é Cristo, o Logos eterno e divino. Ele dá aos homens o verdadeiro conhecimento que liberta do pecado e conduz à imortalidade. Em sua reflexão, estranha- mente Clemente deu pouco destaque à encarnação, paixão e morte de Jesus Cristo. A influência do pensamento grego em sua teologia se deu em diver- sos aspectos: ao tratar o corpo e a matéria como uma "natureza infe- rior", em contraste com a alma; ao conceber a salvação como a busca da semelhança com Deus mediante a contemplação racional e o abandono das paixões; e ao entender o Todo-Poderoso como um ser impassível, isto é, sereno, inalterável, isento de desejos e emoções. Ele interpretou as passagens bíblicas que atribuem emoções a Deus e a Cristo como figuras de linguagem ou como referências à humanidade do Filho de Deus. Textos: GOMES, 136-139 (Exortação aos gregos), 140 (hino a Cristo), 141-146 (So- bre a salvação dos ricos); I-IAMMAN II, 62; LIÉBAERT, 88.
  44. 44. 50 FUNDAMENTOS DA TEOLOGIA HISTÓRICA Análises: OLsoN, 85-91; GONZALEZ, 1483-200. ALTANER e STUIBER, 197-203; Berkhof, 65-70; CAMPENHAUSEN, 31-40; CAVALCANTE, 174-181; EHTIC, 12290; FRANGIOTTI, 35-46; HAGGLUND, 51s; HAMMAN, 77-88; HAMMAN 11, 55-58; lRVIN e SUNQUIST, 162-164; KELLY, 94, 114; LANE, I:27-30; LIÉBAERT, 87-89;MoREscH1N1e NORELLI, I:339-363;T1LL1cH, 72-74. 8. ORÍGENES Outro grande expoente da escola de Alexandria foi também o mais genial, criativo e controvertido teólogo da igreja grega antiga. Orígenes nasceu no Egito, em lar cristão, por volta de 185. Seu pai, Leônidas, foi martirizado na perseguição do ano 202; o jovem desejou acompanha-lo, só não o fazendo porque a mãe escondeu suas roupas. Após estudar com Clemente, ele se tornara professor de literatura e filosofia. Foi quan- do, com apenas 18 anos, o bispo Demétrio o colocou à frente da escola catequética. Viveu de modo austero e ascético, chegando a mutilar-se devido a uma interpretação literal de Mateus 19:12, o que impediu sua ordenação em Alexandria. Como sua fama se espalhou, até mesmo pa- gãos destacados iam ouvi-lo. Durante a perseguição do imperador Caracala, em 215, visitou a Palestina e pregou a convite de alguns bispos. Seu bispo o chamou de volta porque ele era leigo. Em cerca de 230 foi novamente à Palestina, onde os mesmos bispos o ordenaram sacerdote. Dois sínodos convoca- dos por Demétrio o excomungaram e o despojaram da sua ordenação. Passou o restante da vida em Cesaréia, onde fundou outra escola teoló- gica, na qual ensinou por cerca de vinte anos. Foi torturado na persegui- ção de Décio (250-251), morrendo pouco depois de ser solto, em Tiro, possivelmente em 254, com quase 70 anos. Sua produção literária foi gigantesca. São conhecidos os titulos de cerca de 800 de suas obras (a maior parte se perdeu). Muitos de seus escritos refletem sua tarefa principal: o estudo e a interpretação das Escrituras. A monumental Hexapla continha em colunas paralelas seis versões do Antigo Testamento: o texto hebraico, sua transliteração em letras gregas e as quatro versões gregas da época, as de Aquila, Simaco, Septuaginta e Teodocião. Outras obras nessa área são suas homilias, geralmente na forma de exortações morais, e seus muitos comentários
  45. 45. Psnlooo ANTIGO 51 bíblicos, dos quais subsistem grandes porções dos referentes a Mateus, João, Romanos e Cantares. Ele também escreveu uma famosa apologia, Contra Celso, na qual refutou detalhadamente uma obra desse filósofo pagão contra o cristia- nismo. Sua maior obra foi Sobre os princípios fundamentais (também de- nominada Peri archon ou De principiis), considerada a primeira teologia sistemática, que contém seu grande sistema de filosofia cristã. Visto que Orígenes foi acima de tudo um intérprete das Escrituras, é importante considerar sua abordagem exegética. Ele cria firmemente na inspiração de cada palavra da Biblia, mas entendia que se deve bus- car, por trás do sentido literal do texto, outro mais profundo, espiritual. Essa interpretação alegórica ou figurada lhe permitiu fazer as grandes especulações que lhe eram tão caras, e lhe possibilitou encontrar pon- tos de contato entre a filosofia platônica e a mensagem bíblica. Todavia, sua exegese não foi puramente subjetiva, pois ele procurou ser fiel à regra de fé, ou seja, a pregação e o ensino tradicional da Igreja, que incluía a interpretação tipológica. Influenciado pelo platonismo, Orígenes afirmou que Deus é incom- preensível, a unidade absoluta que contrasta com a multiplicidade do mundo transitório. Contudo, esse Uno inefável também é o Deus trino da confissão de fé da Igreja. Ao falar a respeito do Filho de Deus, Orige- nes expressou duas posições que conseguiu manter em equilibrio e que mais tarde dividiram seus seguidores entre origenistas de direita e de esquerda. Por um lado, ele deu ênfase à divindade e eternidade do Fi- lho, e sua igualdade com o Pai; por outro lado, salientou a distinção entre o Pai e o Filho e a conseqüente subordinação deste ao Pai. O Logos era um ser intermediário entre o Uno inefável e a multiplicidade do mundo, sendo, portanto, um pouco inferior ou menos divino que o Pai, e subordinado a este. É na doutrina da criação que se percebe quanto Orígenes foi influen- ciado pelo idealismo platônico. Ele afirmou que Deus inicialmente criou um mundo invisivel de intelectos puros, cujo propósito era a contempla- ção do Verbo, a imagem de Deus. Porém, sendo dotados de liberdade, muitos deles voltaram seus olhares para a multiplicidade, embora em diferentes graus. Daí a existência de uma hierarquia de seres: celestiais,
  46. 46. 52 FUNDAMENTOS DA TEOLOGIA HISTÓRICA humanos e demoníacos. O mundo visível foi criado para ser um lugar de prova dos espíritos caídos. A criação desses dois mundos - espiritual e material- estaria descri- ta nos dois relatos paralelos de Gênesis 1 e 2. Cristo encarnou para libertar os seres humanos do poder do Diabo e para ilumina-los a fim de que possam retornar à unidade e harmonia de todos os seres intelec- tuais. Na encarnação, o Verbo de Deus se uniu a um intelecto não caído e, por meio dele, a um corpo. Assim, Cristo teve não apenas um corpo humano, mas também um intelecto humano. A divindade e a humani- dade de Cristo estão unidas de tal forma que se pode atribuir a uma dessas naturezas ações e condições próprias da outra (o futuro conceito de communicatio idiomatum ou "comunicação de atributos”). Essa coexis- tência das duas naturezas em um único ser é o maior mistério da fé. A escatologia de Orígenes também reflete as mesmas influências. Ele entendia que todos os intelectos (demoníacos, inclusive) retorna- riam ao seu estado original de harmonia e comunhão com Deus. Trata- se do conceito de restauração universal ou apokatástasis. Ao mesmo tempo, especulou que depois deste mundo poderão existir muitos ou- tros numa seqüência interminável. Com toda a riqueza e complexidade do seu pensamento, Orígenes deixou um legado controvertido. Por um lado, estudou as Escrituras de modo reverente e dedicado e procurou expor fielmente o que entendia ser a fé ortodoxa da Igreja. Por outro lado, sua excessiva dependência da filosofia, tendência para a alegorização da Bíblia e ousadia especulativa o levaram a expor idéias posteriormente consideradas inaceitáveis, como a subordinação do Filho ao Pai, a preexistência da alma e a restauração universal, embora ele sempre tenha procurado distinguir entre suas opi- niões e a fé da Igreja. Quando seus ensinos mais radicais foram conde- nados pelo ll Concílio de Constantinopla (553), ele já havia exercido vasta e duradoura influência sobre a teologia das igrejas oriental e oci- dental. Textos: Coleção Patrística, vol. 20 - Contra Celso; COMBY, l:36,64,68; GOMES, 147-154 (Comentários de Cantares, João e Mateus), 155 (Sobre os principios fun- damentais), 155-159 (Contra Celso); i-IAMMAN II, 63-66; LIÉBAERT, 90-103.
  47. 47. PERIODO ANTIGO Análises: OLsoN, 101-116; GONZALEZ, I:200-221. ALTANER e STUIBER, 203-215; BERKHOF, 65-70; CAMPENHAUSEN, 41-55; CAVALCANTE, 182-197; CLousE, 64-66; EHTIC, III:68s; FRANoIorrI, 4764; I-IAooLuND, 52-56; HAMMAN, 89-106; HAMMAN II, 59-61; lRVIN e SUNQUIST, 164-166; KELLY, 94, 98, 114, 357; KUNG, 43-64; LANE, I:30-35; LIÉBAERT, 89-104; MCGRATH, 45, 413, 497; MORESCHINI e NORELLI, I:365- 407; PADovEsE, 51-53, 67-70, 101-103; TILLIcH, 74-81. 9. HIPÓLITO E NovAcIANo No século Ill, o principal centro de atividade teológica cristã na parte oriental do Império Romano foi Alexandria, com Clemente e Oríge- nes. Na mesma época, duas cidades da região ocidental se destacaram por suas contribuições: Roma, com Hipólito e Novaciano, e Cartago, com Cipriano. Havia importantes diferenças nas emergentes tradições teológicas das duas regiões: a teologia alexanclrina era influenciada pelo platonis- mo, especulativa, interessada pela interpretação alegórica; a teologia ocidental recebeu influência estóica, tinha um carater pratico e demons- trou uma tendência legalista, preocupando-se com temas como o per- dão dos pecados e a natureza da Igreja. Os dois primeiros grandes teólogos de Roma foram ambos cismáticos e considerados antipapas ou bispos dissidentes. Hipólito Hipólito foi muito respeitado entre os cristãos romanos. Era grego e escreveu nesse idioma. Devido a questões pessoais e divergências teo- lógicas, entrou em atrito com vários bispos. Quando Zeferino foi suce- dido por Calixto, em 217, Hipólito recusou-se a reconhecê-lo como bispo e provocou um cisma na igreja de Roma, que passou a ter dois bispos. Na perseguição promovida pelo imperador Maximiano, em 235, foi deportado para a Sardenha, onde possivelmente morreu no ano seguinte. A maior parte de suas obras se perdeu. Entre as que sobreviveram estão a notável Tradição apostólica - uma ordem eclesiástica que retrata as práticas litúrgícas de Roma no início do século Ill - e várias obras teológicas e anti-heréticas. Uma delas é Philosophumena ou A refutação de
  48. 48. 54 FUNDAMENTOS DA TEOLOGIA HISTÓRICA todas as heresias. Dois aspectos relevantes da teologia de Hipólito são o rigorismo moral e a doutrina da Trindade. Compreensivelmente, sua teologia foi muito influenciada por Irineu e Tertuliano. Hipólito entendia que, para a manutenção de elevados padrões morais na Igreja, pecados graves cometidos pelos cristãos após o batis- mo, como homicídio, fornicação e apostasia, deviam ser tratados com o máximo rigor. Essa foi uma das razões do seu conflito com o bispo Calixto, mais tolerante. Quanto à doutrina da Trindade, ele se opôs ao modalismo de Noeto de Esmirna e Sabélio (daí, sabelianismo), e à posi- ção dúbia de Calixto acerca dessa questão. Sob a influência de Tertulia- no, Hipólito deu ênfase excessiva à distinção entre o Pai e o Filho, parecendo fazer do Verbo um Deus secundário, subordinado. Na área da crístologia, afirmou que a união da divindade e da humanidade em Jesus Cristo é a união de "duas naturezas", cada qual mantendo suas propriedades. Novacíano Novaciano, que viveu um pouco depois, também provocou um cisma na igreja de Roma ao adotar uma atitude rigorosa quanto à restauração dos caídos que negaram a fé na perseguição de Décio (250-251), em contraste com a atitude tolerante do bispo Cornélio. Tinha sólido pre- paro intelectual, no qual se nota a influência de Tertuliano, e foi o primeiro teólogo romano a escrever em latim. Provavelmente morreu durante a perseguição de Valeriano (c. 257). No aspecto doutrinário, ele é importante por causa de sua obra Sobre a Trindade. À semelhança de Hipólito, seu principal interesse foi mos- trar que o Filho é distinto do Pai (contra o modalismo), mas o fez enfa- tizando a subordinação do Filho, ainda que afirmasse a sua divindade. Além disso, considerou o Espírito Santo inferior ao Pai e ao Filho. Tam- bém defendeu uma crístologia de duas naturezas, como seria definido mais tarde pelo Concílio de Calcedônia (451). Essas duas questões tra- tadas pelos primeiros teólogos romanos - a restauração dos apóstatas e os debates trinitários - refletiam problemas importantes que ocupavam a atenção dos cristãos naquele período de transição. As soluções defini- tivas ainda teriam de aguardar algum tempo.
  49. 49. PERIODO ANTIGO Textos: BETTENSON, 135-137 (Tradição apostólica); COMBY, 1:41, 52, 55; GOMES, 17 2-179 (Hipóiito: Tradição apostólica, Contra Noeto e Philosopliumena), 197-201 (Novaciano: Sobre a Trindade); HAMMAN II, 51s (Tradição apostólica). Análises: GONZALEZ, 1:223-232. ALTANER e STUIBER, 171-176, 177-179; CAVAL- CANTE, 157-159; EHTIC, lz287 (cisma novaciano), 1l:251s (Novaciano); HÃGGLUND, 47; HAMMAN, 89-106; KELLY, 82; MORESCHINI e NORELLI, 1521-337, 507-510. 10. CIPRIANO DE CARTAGO Cipriano foi o personagem mais notável da igreja latina do norte da África no período entre Tertuliano (início do século III) e Agostinho (início do século V). Era filho de pais pagãos abastados e cultos, e foi destacado mestre de retórica em Cartago antes de se converter ao cris- tianismo, com cerca de 40 anos. Sua dedicação ao celibato, à pobreza e às Escrituras, assim como suas qualificações pastorais e intelectuais, o conduziram rapidamente ao presbiterato e daí ao episcopado (c. 248), para insatisfação de alguns sacerdotes mais velhos. Eleito bispo na véspera das perseguições de Décio e Valeriano (250- 259), teve de liderar as igrejas africanas em meio aos sofrimentos e às divisões daquele periodo. Na perseguição inicial (250-251), fugiu para um lugar seguro junto com outros lideres da igreja, justificando-se posteriormente que o fizera para o bem do rebanho, e não por covar- dia. Sua coragem e convicção foram provadas alguns anos mais tarde, quando ofereceu sua vida como mártir, ao ser decapitado no ano 258. A maior parte dos seus escritos tem caráter prático, refletindo suas preocupações pastorais. Sofreu claramente a influência do "mestre" Tertuliano. Durante uma praga em 250, escreveu A Demetriano, res- pondendo a um pagão que havia culpado os cristãos pela epidemia. No mesmo contexto, escreveu duas obras aos fiéis: Sobre a mortalidade e Sobre obras e esmolas. Nos tratados Sobre a unidade da igreja e Sobre os caídos, reinterpretou, à luz da problemática criada pelas perseguições, o conceito de igreja que havia herdado. Pressionados pelas autoridades a renegarem a fe' sob ameaça de prisão ou morte, muitos cristãos ofere- ceram sacrifícios (sacrificati) ou compraram certificados fraudulentos

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