Fundamentos da teologia da vida cristã marcos granconato (1)

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Fundamentos da teologia da vida cristã marcos granconato (1)

  1. 1. Sumário Agradecimentos 7 Introdução 9 Capítulo 1 A única saída 13 Capítulo 2 O que a vida cristã não é 43 Capítulo 3 O que é a vida cristã e para que serve 77 Capítulo 4 Deus como o próprio fundamento 113 Capítulo 5 O Cordeiro e a Pomba 135 Conclusão 151 Bibliografia 156 Sobre 0 autor 159
  2. 2. Agradecimentos Aos meus pais, que, desde cedo, me levaram à igreja, onde conhe- ci os fundamentos da vida cristã.
  3. 3. Introdução Vós, porém, povo eleito, fraqueza do mundo, que deixastes tudo para seguir ao Senhor, acompanhai‫׳‬o e confundi as criaturas fortes, acompanhai-o, ó pés maravilhosos, e resplandecei no firmamento para que os céus cantem a glória do Senhor. [...] Correi por toda parte, chamas santas, chamas belas. Sois a luz do mundo e não estais sob o alqueire. Aquele a quem vos ligastes foi exaltado e vos exaltou. Correi por toda parte e dai-vos a conhecer a todas as gentes. Agostinho, Confissões, XIII, 19 Certo indivíduo sarcástico, descrevendo a experiência cristã, dis- se que ela não passa de um espasmo inicial seguido de uma inércia crônica. Infelizmente, essa descrição resume de fato a jornada es- piritual de muitos supostos cristãos e, por ser facilmente verificá- vel, contribui para lançar no descrédito a eficácia da fé salvadora na transformação radical das pessoas. A experiência cristã genuína, porém, não é assim. Ocorre o seguinte: muita gente que se professa cristã jamais conheceu re- almente a prodigiosa força do evangelho. Com efeito, à luz da Bíblia, o homem que acolhe as boas-novas de salvação em Cristo, passando então a abrigar a fé salvadora em seu coração, torna- se receptáculo do próprio Espírito Santo, que, habitando nele, o capacita e o impulsiona a uma vida diferente. Essa habitação do próprio Deus no corpo do crente é o fator fundamental que torna possível a sua jornada pelos retos cami- nhos que o Senhor traçou. Na verdade, ela é a pedra principal no
  4. 4. 10 FUNDAMENTOS DA TEOLOGIA DA VIDA CRISTA alicerce sobre o qual é possível construir as paredes de virtude e obediência que dão forma a toda vida cristã autêntica. De fato, a vida cristã legítima nada mais é que a manifestação de poder do Espírito Santo, fluindo através daqueles que, pela fé no Salvador, se tornaram templos de sua habitação. Ora, esse poder, segundo o ensino das Escrituras, se revela, grosso modo, através de duas diferentes formas de espiritualidade e de duas ex- pressões distintas de testemunho. As duas formas diferentes de espiritualidade são a individual e a coletiva. Ao habitar no crente, o Espírito Santo o incita a buscar a Deus com devoção, nutrindo nele a confiança de aproximar-se clamando "Aba, Pai” (Rm 8:15). Essa forma solitária e pessoal de piedade, porém, não esgota a atuação do Espírito no cristão. Ela também o inclina a uma forma de religiosidade que busca a companhia do povo redimido, não porém em meros encontros casuais, mas na prática da adoração formal, na realização do culto público que promove a exaltação coletiva do nome do Senhor (Ef 3:16-19; 5:18-21). Essas duas formas de devoção devem ser comparadas aos dois lados de uma moeda. Assim como a moeda só tem valor se esti- ver cunhada cm ambos os lados, a vida cristã só será legítima se apresentar essas duas facetas. Não há um lado mais importante; antes, o primeiro confere validade ao segundo, e vice-versa, pois de nada valerá a devoção coletiva, ou seja, a participação no cul- to público, de quem vive longe de Deus em sua vida pessoal (Is 1:12-14). Da mesma forma, a devoção pessoal de quem despreza a comunhão dos santos será um mito. Quem alegar que a prati- ca jamais estará dizendo a verdade. Essa pessoa invariavelmente pronunciará o velho jargão: “Prefiro ser crente em casa a estar na igreja vendo tanta coisa errada”. Tal discurso, contudo, somente tentará esconder, sob a capa da piedade, um caminho de treva, pois, conforme ensina joão: “Se, porém, andarmos na luz, como ele está na luz, temos comunhão uns com os outros...” (ljo 1:7).
  5. 5. Introdução 1 1 Ora, textos como esse deixam claro que não há como cultivar uma piedosa vida pessoal sem que isso redunde na criação de for- tes laços de comunhão com os membros da família de Deus. A implicação óbvia é que quem está longe dos irmãos também está longe da luz! Quanto às duas expressões distintas de testemunho, estas po- dem ser classificadas como verbal e vivencial. O testemunho verbal é a apresentação do evangelho aos des- crentes, realizada até mesmo num ambiente hostil. Somente pelo poder do Espírito Santo, que nele habita, o crente é capaz de anunciar com intrepidez as boas-novas, pronunciando palavras revestidas de força, aptas para quebrar as barreiras dos corações incrédulos (At 4:8-13,31). Jesus associou fortemente a habitação do Espírito Santo nos seus discípulos com o poder que teriam para proclamar o evangelho ao mundo. Ele disse aos onze, pouco antes da ascensão: “Mas receberão poder quando o Espírito Santo des- cer sobre vocês...”. Então prosseguiu explicando como esse poder se manifestaria: "... e serão minhas testemunhas em Jerusalém, em toda a Judeia e Samaria, e até os confins da terra” (At 1:8). No tocante ao testemunho vivencial, este pode ser definido como a proclamação do evangelho através do exemplo de retidão dado pelo crente ao mundo que o cerca (lPe 3:1-2). Essa forma de testemunho também só é possível graças à capacitação do Pa- racleto prometido. É pelo fato de seu corpo ser templo do Espírito Santo que o cristão tem forças para refrear os impulsos da carne e revelar às pessoas ao redor os belos frutos de virtude que orna- mentam a fé (Rm 8:6; G1 5:16). É especialmente esse último aspecto da vida cristã que este livro pretende abordar, destacando verdades teológicas que sir- vam de fundamento para o comportamento cristão exemplar. A base teológica principal para o estímulo à vida cristã autêntica é a doutrina da habitação do Espírito Santo no crente. Mas outras verdades bíblicas também serão destacadas neste livro, à medida
  6. 6. Fundamentos da teologia da vida cristã1 2 que servirem de base para a construção de um modelo compor- tamental que possa ser adotado pela igreja que se preocupa não só com a proteção da ortodoxia (doutrina correta), mas também com a demonstração de uma ortopraxia (viver correto) alinhada à Palavra de Deus. Antes, porém, de tratar especificamente dessas bases, será te- cido um breve comentário sobre a mentalidade pós-moderna e seus desdobramentos éticos, seguido de uma análise crítica das di- versas e equivocadas opiniões atuais acerca do que significa viver como um crente neste mundo. Na seqüência, será proposta uma definição da expressão “vida cristã”. Cada elemento que com- põe essa definição será analisado sob as lentes das Escrituras. Já a partir desse ponto, serão apresentados fundamentos teológicos elementares para a conduta cristã. Segue-se então uma análise do dogma trinitário, ressaltando-se as implicações práticas des- sa doutrina. Finalmente, temas específicos ligados à cristologia e à pneumatologia bíblicas serão expostos como elementos que compõem o alicerce sobre o qual a conduta cristã pode ser solida- mente construída. À guisa de conclusão, é apontada a felicidade do homem cris- tão, que, diante de tantas opiniões enganosas sobre o bom viver, peregrina neste mundo livre de incertezas acerca de qual rumo deve seguir. Destaca-se, enfim, que essa felicidade decorre não somente da convicção acerca de qual estrada escolher, mas tam- bém da certeza das alegrias que o aguardam ao fim dessa mesma estrada.
  7. 7. C a p í t u l o I A única saída Alguns do Pórtico, ou estoicos, chegam a negar totalmente que Deus existe ou, se existe, afirmam que Deus não se preocupa com ninguém, somente consigo mesmo. Teófilo de Antioquia, Segundo livro a Auiólico, 4 As RAÍZES DAS AÇÕES DOS HOMENS O comportamento das pessoas é resultado fatal do conjunto de crenças que adotam. Na raiz de toda forma de agir está uma for- ma de pensar. A criança que acredita em Papai Noel deixará um pequeno feixe de capim do lado de fora da casa para que as renas do bom velhinho se apascentem na noite de Natal. A mulher que acredita que a estética é um dos mais importantes valores do universo gastará milhares de reais em tratamentos de beleza e em cirurgias plásticas. Da mesma forma, o homem que acredita em fantasmas nunca comprará uma casa cm frente ao cemitério e, se recebê-la como herança, a venderá depressa. Os exemplos podem se multiplicar infinitamente. Por toda parte e cm qualquer situação, vemos o modo de pensar das pessoas impulsionando seu modo de viver, como uma simples dinâmica de causa e efeito. Essa dinâmica explica satisfatoriamente o comportamento das pessoas na sociedade moderna. A crise na família, a corrupção até nos mais altos escalões do governo, o problema das drogas e do al- coolísmo, a banalização do sexo e os altos índices de violência são problemas que, em última análise, resultam de uma mentalidade
  8. 8. 14 Fundamentos da teologia da vida cristã específica, de um conjunto particular de crenças, ainda que cau- sas secundárias às vezes ameacem nublar essa verdade. Quais são as crenças das pessoas do século XXI? Quais são os elementos que compõem essa mentalidade tão difundida que aflora em distúrbios e crises sociais, deixando no mundo intei- ro as pessoas comuns com medo, e os analistas e as autoridades, perplexos? O homem contemporâneo tem uma crença básica da qual decorrem logicamente as demais ideias que acolhe. Não se trata de uma crença nova. Conforme a citação que encabeça este capítulo, Teófilo de Antioquia, que viveu na metade do século II da era cristã, já a detectara entre os estoicos do seu tempo. Hoje, porém, ela está muito mais difundida. Na verdade, é raro encon- trar alguém que não a cultive. Essa crença básica é a de que Deus não existe e, se existe, não tem interesse nem se importa como vi- vemos. Tudo começa exatamente nesse ponto. É com base nesse pensamento que os rumos na vida de alguém são determinados. Essa ideia define tudo o que uma pessoa será e fará. O primeiro desdobramento lógico dessa ideia básica é: se não há um Deus ou se ele existe, mas não se importa com o ser hu- mano, o homem deve buscar sua felicidade sozinho, livre de qual‫׳‬ quer temor à divindade, sem nenhuma submissão ou comunhão com o Criador soberano e bom, longe de se preocupar com o que esse suposto Deus quer ou deixa de querer de cada um. “O me- lhor é viver ao acaso, cada um como puder”, escreveu Sófocles após rejeitar a crença na providência divina.1 Caminhando ao lado dessa noção, existe a ideia de que a felicidade livre de Deus é possível; a ilusão de que, de fato, uma pessoa pode atingir a plena satisfação do coração somente com o que existe aqui. Ora, se a felicidade pode ser alcançada com o que existe de- baixo do céu, qual é o próximo passo? É óbvio: lancemo-nos em sua busca, vasculhando e provando tudo o que existe sob o 1 Citado por Teófilo de Antioquia. Segundo livro a Autólico, 8.
  9. 9. A ÚNICA SAÍDA 15 firmamento. A palavra de ordem para o homem que abriga essas crenças em sua mente é: “Persiga a todo custo os desejos do seu coração”. Essa orientação está presente nas artes, na mídia e na boca dos conselheiros, profissionais ou não, que se dispõem a aju- dar quem está triste ou deprimido. Relativismo moral O problema da crença de que é possível ser feliz sem Deus, bus- cando satisfazer os anseios do coração apenas com as coisas deste mundo, se agrava diante do fato de que essas noções se desenvol- vem dentro de um contexto de total relativismo moral. Sim, pois se Deus não existe ou não se importa com o que os homens fazem, quem determina o certo e o errado? Em outras palavras: se não há um Deus no céu ou se esse Deus é um Deus distante, que nunca manifestou sua vontade, então quais são as bases para a ética? A inexistência ou o silêncio de Deus transformam todas as questões morais em simples matéria de opinião pessoal. A partir daí, as de- cisões quanto ao que é certo ou errado ficam ao sabor do juízo de cada um. Esse é o relativismo moral ou ético que marca a mentali- dade e controla o modo de vida das pessoas do mundo de hoje. Friedrich Nietzsche (1814-1900), um dos ateus mais inflexí- veis de todos os tempos, afirmava que Deus é uma simples criação da mente humana, que essa criação tivera alguma utilidade nos tempos medievais, mas que, na modernidade, Deus estava morto e os homens deviam enterrá-lo. Nietzsche estava errado em todas essas coisas e em outras além dessas, mas havia algo sobre o que ele estava certo. Christopher Hall lembra que, segundo esse ou- sado filósofo, “em um mundo sem Deus, todos os valores tornam- se relativos, e a verdade, meramente uma convenção lingüística e cultural”.2 De fato, para Nietzsche todos os valores baseados 2 Lendo as Escrituras com os pais da Igreja, p. 32.
  10. 10. Fundamentos da teologia da vida cristã1 6 nesse Deus morto também estavam mortos, não existindo nenhu- ma base para o amor ao próximo ou a condenação da violência, por exemplo. Não é preciso, contudo, ser o ateu mais radical da terra para concluir erradamente que a moral depende da opinião de cada um. Como mencionado, para construir uma ética relativa basta crer que Deus existe, mas não se importa com as ações humanas; basta conceber um deus distante e indiferente, um deus absolu- tamente tolerante, flexível e indulgente, que vê nossos pecados com um olhar sereno e cheio de compreensão; um deus a quem às vezes pedimos socorro, que em certos momentos até nos atende, mas que não está de fato interessado em como levamos a vida. Sim, essa concepção de Deus, tão comum em nossos dias, tam- bém gerará conceitos morais subjetivos. Bem antes de Nietzsche, Justino de Roma (t c. 165), o grande apologista da Igreja antiga que morreu como mártir, disse que, se Deus não se preocupa com a conduta humana, então a virtude e o vício não passam de meros nomes. Se fosse assim, explica ele, os homens considerariam as coisas boas ou más unicamente com base em suas opiniões. Ele conclui que adotar essa visão seria, sem dúvida, a maior impieda- de e o cúmulo da iniqüidade.3 Lamentavelmente, a hipótese que fez Justino tremer se realiza em proporções globais em nossos dias. De fato, o ateísmo radical e o teísmo popular e ignorante produziram uma ética sem nenhum ponto fixo. O homem da sociedade atual não tem um padrão mo- ral objetivo que possa usar para medir o acerto de suas ações. A Bí- blia ensina que nos tempos dos juizes as pessoas agiam como bem entendiam por não terem uma autoridade política centralizada na pessoa do rei: “Naquela época não havia rei em Israel; cada um fa- zia o que lhe parecia certo” (Jz 21:25). O homem contemporâneo 5 Primeira apologia, 28:4; 43:6. In: Manoel Quinta, org. Justino de Roma, p. 44, 58.
  11. 11. 1 7Λ ÚNICA SAIDA age da mesma forma; por não ter uma autoridade moral centrali- zada na pessoa de Deus, anda sob os ditames de uma consciência vaga e oscilante, fazendo o que bem entende. Não há nenhum Rei no céu; cada um faz o que seu coração ordena. Juntando agora os pontos, eis a imagem que surge: ao homem que pensa que Deus não existe, ou que, se existe, não se impor- ta com o comportamento das pessoas, ou ao homem que se vê privado de qualquer padrão fixo de moral por causa dessa cren- ça, exatamente a ele é dado o conselho: “Persiga a todo custo os desejos do seu coração!” Sem parâmetros externos de conduta, tal homem não somente se vê livre para agir conforme impulsos e parâmetros internos, mas também ouve insistentes apelos para que o faça. Ora, o dito conselho não é nem um pouco difícil de ser segui- do. É até muito atraente! Ademais, que outra opção existe? Seguir os valores ultrapassados transmitidos por nossos avós? Adotar as convenções hipócritas da sociedade? Qual é a base da autoridade dessas coisas para que sejamos obrigados a segui-las? Seria essa base a dignidade do ser humano? Que dignidade, se, de acordo com a ciência “infalível”, o homem é só um macaco evoluído? Seria essa base o ideal do bem comum? Pois bem, mas por que de- veríamos nos preocupar com o bem comum num mundo cm que impera a inquestionável lei da seleção natural de Darwin? Num mundo assim, é melhor que a pessoa se preocupe com o próprio bem individual, esmagando qualquer um que se coloque em seu caminho, a fim de, dessa forma, dar continuidade ao maravilhoso processo evolutivo! O homem age então com esses pensamentos. Segue seu cora- ção com base numa ética subjetiva que não considera a vontade de Deus nem a dignidade humana, nem o bem da sociedade, mas unicamente a satisfação dos seus desejos pessoais. “Certo é tudo aquilo que me agrada e beneficia”, diz o homem após abandonar a família, aceitar suborno, entregar-se à imoralidade ou mentir.
  12. 12. 18 Fundamentos da teologia da vida crista Niilismo É imenso o vácuo em que essa forma de pensar e viver lança os seres humanos. A ausência de Deus priva a vida das pessoas de sentido. Elas se tornam sepulcros frios onde o coração está sepul- tado. Sua alma caminha sequiosa por um deserto, buscando água, ou seja, procurando uma razão para viver. Nesse anseio, os ho- mens encontram os filósofos existencialistas, segundo os quais o que dá sentido à vida é uma experiência marcante (amar algucm, fazer uma pessoa feliz, realizar um feito significativo ou gerar uma criança). Entre os existencialistas, há uma classe que é recebida com aplauso por quase todos: os hedonistas. Para estes, o que dá sentido à vida é a experiência do prazer. A busca da felicidade, então, sob os apelos dessa filosofia, segue inutilmente as sendas escuras do vício, da imoralidade e de tudo o que possa, de algum modo, agradar os sentidos. Seja qual for, porém, a forma de existencialismo que o homem sem Deus adote, uma coisa é certa: o vazio de sentido continua. Nenhuma razão sólida justifica sua vida. O porquê de ele existir permanece sendo o nada. Segundo o evolucionismo ateu (o darwi- nismo), o homem surgiu no mundo por obra do acaso, não foi criado por um Deus amoroso que tinha objetivos gloriosos em mente ao trazê-lo à luz. Na realidade, o ser humano surgiu como resultado de alguns acidentes, e estes, é claro, não têm propósito. Quem for coerente e corajoso até o ponto de reconhecer e assu- mir essa ausência de sentido acolhe a designação de niilista. Nihil em latim significa “nada”. É a palavra que melhor traduz o sentido de sua vida. O niilismo, porém, não se manifesta apenas no âmbito da ra- zão para a existência humana. A negação de Deus, como já visto, gera também um “nada”, um verdadeiro vazio na área ética. Uma das manifestações mais chocantes disso é percebida nos discursos “morais” pronunciados pelos formadores atuais de opinião e pelos
  13. 13. 19A ÚNICA SAÍDA educadores de crianças. Não há nada mais carente de força (e, geralmente, de sinceridade!) do que esses discursos. E como não seria assim? Como um discurso ético pode ter for- ça moral se para o preletor as mais elementares virtudes do caráter não passam de opiniões particulares? Como um mestre do bem, um educador moral ou um conselheiro do bom proceder podem falar da vida reta de forma convincente, sentindo 0 coração pul- sar com vigor e o sangue ferver em suas veias se eles próprios não estão seguros quanto ao que realmente é certo? A força da eloqüência é a convicção. A verdade mais óbvia não penetrará na alma de ninguém se aquele que a pronuncia não tem certeza do que diz. Além disso, sem saber o que é certo, o que resta aos tais mes- três e conselheiros dizer? O vácuo de suas palestras e seus conse- lhos não é apenas um vácuo de força, mas também de conteúdo. Para comprovar isso, basta observar os livros e filmes que tentam transmitir alguma lição de vida às crianças. Basicamente, tudo se resume a três orientações: nunca desista de seus sonhos, seja gentil com os outros e não maltrate a natureza. Quando chega a adolescência, só a primeira dessas lições é levada a sério. Infeliz- mente, porém, ainda que sugira o dever de buscar a virtude da perseverança, dissociado do temor a Deus, esse conselho se torna apenas mais um estímulo para a luta selvagem e desumana por ideais vazios como fama e dinheiro. Sob o ponto de vista prático, não sabendo ou não tendo 0 que ensinar, os pais e professores deixam as crianças entregues a si mesmas, sem qualquer correção séria e eficaz. Para essa falha, porém, já foi criada uma justificativa “científica” (logo, inquestio- nável!): corrigir as crianças pode trazer grandes prejuízos à forma‫׳‬ ção de sua personalidade; contrariá-las pode fazer que reprimam elementos da psique que devem fluir livremente, se quisermos que sejam pessoas emocionalmente saudáveis no futuro. A revis- ta. Época divulgou a tese defendida por psicólogos atuais de que
  14. 14. os pais não se devem intrometer nas brigas dos filhos, pois isso poderia amputar o espírito de competitividade das crianças, com a ressalva de que as interferências são aceitáveis somente nos ca- sos em que as brigas revelem “desvios de comportamento”, com atitudes violentas.4 Eis a vida vazia de sentido, acompanhada de um conjunto vazio de valores, expresso num discurso moral vazio de força e conteúdo! É o nada como propósito, o nada como ética, o nada como motivação para a correção e o nada como substância para o ensino. Niilismo completo! A PÓS MODERN IDADE E A LACUNA NO PENSAMENTO LÓGICO A era atual tem sido designada por historiadores e outros estúdio- sos como “pós-modernidade”. Há vários elementos conectados ao conceito dessa expressão. Porém, em seu uso mais comum, pós-modernidade é o termo empregado tecnicamente para se re- ferir à cosmovisão do homem de hoje, marcada especialmente pela noção de pluralidade da verdade. Já foi exposto que sob a concepção do relativismo filosófico não há nenhuma verdade ab- soluta. Na pós-modernidade, essa concepção é levada às últimas conseqüências, com a afirmação de que, não havendo verdades absolutas, todas as proposições são aceitáveis e igualmente váli- das, mesmo sendo contraditórias. A exposição desse assunto feita por Augustus Nicodemus Lopes é clara e sintética: O pensamento pós-modemo rejeita o conceito da modernidade de que existam verdades absolutas e fixas. Toda verdade é re- lativa e depende do contexto social e cultural onde as pessoas vivem. Isso inclui verdades religiosas. [...] Cada um percebe a verdade de sua própria forma. Não existe “verdade”, mas sim “verdades” que não se contradizem, apenas complementam-se. 20 Fundamentos da teologia da vida cristã Ed. 244, de 20 dc mar. de 2003.
  15. 15. A Ú N I C A S A Í D A 2 1 A única inverdade que existe é alguém dizer que existe verdade fixa e absoluta!5 Num primeiro momento, talvez não seja possível detectar os efeitos devastadores dessa forma de pensar. Na verdade, porém, eles são inumeráveis, e seus reflexos danosos se fazem sentir em cada esfera da experiência humana. Observe-se, por exemplo, o impacto desastroso que a rejeição do conceito de verdade absolu- ta exerceu sobre o poder judiciário na União Soviética, de Stalin, transformando o processo penal numa indústria monstruosa de sentenças injustas. O consagrado escritor Alexandre Soljenítsin, vítima daque- la indústria, informa em seu famoso livro Arquipélago Culag que os tribunais soviéticos condenavam o acusado sem que houves- se provas, e a base jurídico-filosófica para isso foi fornecida num discurso do jurista Andrei Ianuariévitch Vichinski (1887Ί954).6 Como teórico da justiça stalinista, Vichinski encontrou base para tantas condenações temerárias no conceito de relativismo da ver- dade, exatamente o mesmo conceito tão comum e enaltecido em nossos dias. Eis a denúncia de Soljenítsin: Sucede que nesse ano de sinistra memória, num discurso que se tornou célebre nos círculos especializados, Andrei Ianuariévitch [...] Vichinski, fazendo apelo ao espírito flexível da dialética (que não é permitida aos simples servidores do Estado, nem agora às máquinas eletrônicas, dado que para eles o sim é sim, e o não é não), lembrou que, para a humanidade, nunca é possível es- tabelecer a verdade absoluta, mas apenas a verdade relativa. E daí deu um passo que os juristas metafísicos não tinham ousa- do dar em dois mil anos: o de que, em conseqüência, a verdade 5 A Bíblia e seus intérpretes, p. 197Ί98. 6 Ex‫׳‬procurador‫׳‬geral da URSS de 1935 a 1939 e ministro das Relações Exte- riores dc 1949 a 1953.
  16. 16. FUNDAMENTOS DΆ TEOL.OGIA DA VIDA CRISTA2 2 estabelecida pela instauração do processo e pelo próprio proces- so não pode ser absoluta, mas simplesmente relativa. Assim, ao assinar uma sentença de fuzilamento, nós nunca podemos estar absolutamente convictos de executar o culpado, mas só com um certo grau de aproximação, baseados em certas suposições, num certo sentido. Daí a conclusão mais prática: a de que é tem- po perdido buscar provas documentais absolutas (elas são todas relativas) e testemunhas irrefutáveis (elas podem contradizer- se). Quanto às provas relativas, ou aproximativas, o juiz pode muito bem obtê-las mesmo sem documentos, sem sair do seu ga- binete, “apoiando‫׳‬se não só na sua inteligência, mas também na sua intuição de membro do Partido, nas suas forças morais” (isto é, na superioridade do homem que dormiu, que está saciado e não foi espancado) “e no seu caráter” (ou seja, na sua vontade ou crueldade). Veja-se nesse único exemplo o ponto a que pode chegar o Estado que rejeita o conceito de absolutismo da verdade. Nem sequer o juiz, no exercício de suas atribuições, pode sair em bus‫׳‬ ca da “verdade real”, como dizem nossos juristas; e isso por uma razão muito simples: a verdade real, pura, objetiva e absoluta não existe! As provas no processo judicial passam, dessa forma, a ter importância secundária. Aliás, o conceito de “prova cabal” desa- parece, pois a verdade que essa prova supostamente demonstra de maneira inquestionável não passa de mera percepção subjeti- va. No final das contas, o juiz deverá julgar não com base nas evi- dências constantes dos autos, mas com base em suas intuições! A desconsideração da prova no processo penal da União So‫׳‬ viética de Stalin aponta para o sacrifício da lógica que sempre acompanha a rejeição da verdade absoluta. Note‫׳‬se que a prova cabal é uma evidência lógica da verdade. Rejeitando-se, contu- do, a existência da verdade, sua comprovação lógica também é 7 E 109-110.
  17. 17. A ÚNICA SAÍDA 23 desconsiderada em seguida. Sacrifica-se no altar do relativismo não só o que é verdadeiro, mas também o óbvio. Ironicamente, o homem que tanto exaltou a razão na modernidade (séculos XVII ao XX) chega à pós-modernidade proclamando com toda a vee- mência o que há de mais irracional! Não é preciso, contudo, ler Soljenítsin nem analisar os dis- cursos de antigos e ardilosos juristas soviéticos para detectar a morte do raciocínio lógico mesmo entre os homens mais cultos das últimas décadas. O cheiro desse cadáver está bem debaixo do nosso nariz, dando evidências diárias de que a forma de pensar que exclui Deus e deixa o ser humano entregue às próprias per- cepções cria uma lacuna na nossa forma de pensar, tornando o homem menos racional. No mundo pós-moderno, o espectro do absurdo se insinua em todas as áreas do pensamento. Dentro da igreja, esse espectro se manifesta especialmente na hermenêutica, dizendo que cada lei- tor pode dar ao texto bíblico o significado que achar melhor, sen- do todos igualmente corretos. Fora da igreja, a esfera mais comum em que o espectro do absurdo se revela, nítida e diariamente, seja em discussões em salas de aula, seja em rodas de amigos, seja em preleções formais, é novamente a área de valores morais. Isso acontece pelo seguinte motivo: se a moral é subjetiva, dependendo apenas da opinião de cada pessoa, então, confor- me ensinam os mestres pós‫׳‬modernos, o que cada indivíduo em particular considera correto deve ser respeitado pelos demais e acolhido como válido. Contudo, isso conduz muito cedo a uma tensão de natureza lógica. Ora, o conflito lógico que advém dessa visão surge quando duas pessoas têm opiniões diametralmente opostas. Por exemplo: um diz que o adultério é errado; outro diz que é algo próprio da “espécie” humana e que errado é tentar reprimir essa inclinação natural. Qual dos dois debatedores está com a verdade?
  18. 18. 2 4 FUNDAMEMTOS DA TF.OLOGIA DA VIDA CRISTA É nesse ponto que o homem pós-moderno revela um chocar!- te repúdio à lógica mais elementar. Sua resposta será fatalmente a seguinte: Nenhum dos dois oponentes está errado; os dois estão certos, pois a verdade não é única e absoluta, mas múltipla e relativa. Cada indivíduo tem sua própria verdade que deve ser respeitada e considerada válida. Dessa forma, sem um padrão moral externo dado por Deus, mesmo as opiniões mais contraditórias são consideradas válidas e não devem ser condenadas por ninguém. Isso, por si só, é ilógico. Mas o absurdo não para aí. Ele se estende às reações dos homens quando estes são confrontados com a estupidez do seu raciocínio. Sim, pois se alguém disser “Isso é errado”, logo ouvirá da boca do homem pós-moderno: “Ei, não fale desse jeito! Isso é errado!”. Assim, os mestres pós-modernos querem corrigir as pessoas dizen‫׳‬ do-lhes que não se deve corrigir! É o cúmulo da contradição; o suicídio da mente! Tente conviver com isso: o errado não existe; logo, apontar o que é errado é errado! Uma alternativa muito MELHOR A cosmovisão cristã é o avesso disso tudo. Quando reduzida à sua expressão mais fundamental, ela afirma que a realidade se divide em duas partes: Criador e criatura. A partir daí, tudo toma rumos diferentes. Com o pressuposto de que o universo é obra de Deus, qualquer pessoa com inteligência mediana concluirá, observando o mundo ao redor, que esse Deus tem poder imenso, conhecimento e sabedoria sem paralelos, domínio sobre tudo e majestade insuperável. “Os céus declaram a glória de Deus; o firmamento proclama a obra das suas mãos” (SI 19:1). Davi diz nesse texto que o universo pronuncia mensagens acerca de como é Deus. Para ter acesso a elas, basta erguer os olhos. Paulo diz o mesmo: “Pois desde a cria- ção do mundo os atributos invisíveis de Deus, seu eterno poder e
  19. 19. A ÚNICA SAIDA 25 sua natureza divina, têm sido vistos claramente, sendo compreen- didos por meio das coisas criadas...” (Rm 1:20). Vivemos dentro de uma grande catedral chamada universo. Para onde quer que nos voltemos, nos deparamos com imagens que lembram o sagrado. As manifestações de Deus, porém, não estão somente ao nosso redor, no mundo por ele criado, mas também no próprio homem, em seu organismo magnífico e em sua mente. De fato, tamanha é a complexidade do corpo humano, tão magnífica a estrutura das minúsculas células que o compõem e tão engenhosos os diversos sistemas que nele funcionam que até o observador mais superfi- cial concordaria em considerá-lo um microcosmo, ou seja, um universo em miniatura, como João Calvino avaliou.8 Davi, mais uma vez, mesmo sem ter a menor noção das mara- vilhosas descobertas sobre moléculas e cadeias de DNA ou sobre os assombrosos processos de formação do feto no útero de uma mulher, disse: “Tu criaste o íntimo do meu ser e me teceste no ventre de minha mãe. Eu te louvo porque me fizeste de modo especial e admirável. Tuas obras são maravilhosas! Digo isso com convicção” (SI 139:13-14). Sim, o homem tem em sua estrutura corporal um livro que fala da sabedoria, do poder e da glória do Criador. Agostinho percebia a inteligência do projeto de Deus no corpo humano até quando contemplava as sobrancelhas das pessoas. Ele escreveu: “Se à beleza do homem se tirasse uma so- brancelha, quão pouco se tiraria do corpo e quão muito da beleza, porque esta não se compõe de massa, mas da conveniência e pro- porção dos membros”.9 A mente humana é outra esfera em que os atributos de Deus podem ser percebidos. O apóstolo Paulo fala disso ao considerar como funciona a consciência das pessoas em geral, mesmo aque- las que não conhecem e não temem o Deus verdadeiro: s As Institutos, ou Tratado da religião cristã, vol. 1, p. 69. 9 A cidade de Deus, livro XI:22.
  20. 20. 2 6 Fundamentos da TEOLOGIA da vida crista De fato, quando os gentios, que não têm a Lei, praticam natu- ralmente o que ela ordena, tornam-se lei para si mesmos, em- bora não possuam a Lei; pois mostram que as exigências da Lei estão gravadas em seu coração. Disso dão testemunho também a sua consciência e os pensamentos deles, ora acusando-os, ora defendendo-os. Romanos 2:14-15 Isso significa que Deus imprimiu no íntimo de todos os seres humanos um conjunto de noções sobre o certo e o errado, sobre o que é virtude e 0 que é vício. Esses valores que o homem abriga em seu coração não são mero resultado do ambiente cultural em que vive. São noções que transcendem os costumes e as épocas. Elas estão no homem porque Deus as plantou ali. Não são produ- to da história ou dos hábitos dos povos. Tanto isso é verdade que tais virtudes são reconhecidas em qualquer grupo social, civilizado ou não, independente de quan- do ou onde tenha existido, ou mesmo do seu grau de avanço inte- lectual. Um exemplo disso é a virtude que os cristãos denominam “perseverança”. Nenhuma cultura na história humana jamais dei- xou de enaltecê-la. O mesmo se dá com a coragem e a diligência. Virtudes como a fidelidade, a veracidade, a honra e o amor são reconhecidas em sua nobreza por todos os homens, ainda que al- guns povos, por terem-nas abandonado por longo tempo, conse- guiram emudecer a voz da consciência que as proclamava dentro de si. Há, portanto, um código de ética impresso no coração das pessoas, e o homem pode aprender algo sobre Deus também por meio dele. O filósofo iluminista alemão Immanuel Kant (1724- 1804), como será visto, trouxe graves prejuízos ao cristianismo ao limitar a religião à esfera de valores morais, mas ele disse algo que expressa uma verdade inatacável: “Duas coisas enchem a mente de [...] assombro e reverência [...]: o céu estrelado sobre mim e a
  21. 21. 2 7A Ú N I C A S A Í D A lei moral dentro de mim”.10 As estrelas acima de nós e as normas éticas dentro de nós devem nos encher de encanto porque reve- lam como o Criador é. Mostram não só seu poder, sua grandeza e glória, mas também sua sabedoria, bondade e justiça. A cosmovisão cristã, descrita na fórmula Criador/criatura, além de abrir os olhos das pessoas para os atributos de Deus im- pressos no universo e no próprio ser humano, traz outra impli‫׳‬ cação, a saber, tudo o que foi criado, inclusive o homem, tem um propósito. Essa é uma conclusão lógica que advém do próprio termo “criação”. Considere-se a hipótese de um grande inventor “criar” uma máquina qualquer. Diante da tal máquina, a primeira pergunta que faríamos talvez fosse a seguinte: “Para que serve isso?” ou “Esse inventor criou essa engenhoca para quê?” Olhan- do para o que aquele homem construiu, presumiríamos de pronto que ele teve um objetivo específico ao criar. E estaríamos certos. Criação implica propósito. É assim com as máquinas criadas pelo homem. E assim com o universo criado por Deus, universo do qual o homem faz parte. È por isso que o niilismo, a ausência de propósito ou sentido para a vida, desaparece quando se acolhe a cosmovisão cristã. Por ela se conclui que tudo o que existe possui um fim específico. Através dela se depreende que o ser humano, ao ser criado por Deus, veio à existência por uma razão. Ele não foi resultado de um acidente, mas de sábio planejamento. O propósito da existência do homem, porém, não pode ser descoberto pela simples observação das coisas criadas. A obra criadora de Deus manifesta na natureza e no próprio homem fala sobre os atributos do Criador, mas não diz nada sobre o propósito da criatura. O homem que nunca viu um relógio, ao observar um Rolex exposto numa vitrine, perceberá imediatamente que seu 10 Crítica da razão prática, in: Stephen Law, Guia ilustrado Zahar: Filosofia, p. 117.
  22. 22. Fundamentos da teologia da vida crista28 inventor é muito inteligente e criativo. Concluirá também que aquele aparelhínho serve para alguma coisa. Porém, jamais desco- brirá por que o relógio foi criado se ficar simplesmente observan- do-o na vitrine. Para descobrir o propósito do relógio, precisará de explicações mais detalhadas, explicações que o relógio, por si só, não é capaz de fornecer. O cristianismo ensina que para descobrir a razão da existên- cia do universo e do homem não é suficiente observá-los com os olhos da razão. O raciocínio lógico é útil, mas também é limitado, pois dirá que o Criador existe, é sábio e tem propósitos, mas a ló- gica não poderá apontar quais são esses propósitos. Segundo a fé cristã, a única fonte onde o homem poderá obter informações so- bre os propósitos de Deus na criação é a sua Palavra, as Escrituras Sagradas. Nelas encontram-se as explicações seguras do próprio relojoeiro, do inventor do “aparelhinho”, e, ao descobrir em suas páginas para que o mundo e o homem existem, as pessoas podem ajustar sua vida a esse propósito, podem finalmente ter razão para viver e, então, livrar-se do seco deserto niilista que se estende no coração. A Palavra diz que Deus criou as realidades físicas e espirituais para, através delas, promover a glória de si mesmo. Isso é expres- so em Romanos 11:36, onde o apóstolo escreve: “Pois dele, por ele e para ele são todas as coisas. A ele seja a glória para sempre! Amém”. Também em Apocalipse 4:11, o conteúdo do cântico celeste conecta o louvor devido a Deus com o fato de ele ser o criador de tudo: “Tu, Senhor e Deus nosso, és digno de receber a glória, a honra e o poder, porque criaste todas as coisas, por tua vontade elas existem e foram criadas”. Nesse universo criado para a glória de Deus, destaca-se o ser humano, ocupando um lugar especial. Davi, observando o mun- do ao redor e tomado de assombro diante das maravilhas que 0 Senhor fez, lembra como o homem supera as demais criaturas e se sobressai, por assim dizer, como a coroa da criação de Deus:
  23. 23. A ÚNICA SAÍDA 29 Quando contemplo os teus céus, obra dos teus dedos, a lua e as estrelas que ali firmas te, pergunto: Que é o homem, para que com ele te importes? E o filho do homem, para que com ele te preocupes? Tu o fizeste um pouco menor do que os seres celestiais e o coroaste de glória e de honra. Tu o fizeste dominar sobre as obras das tuas mãos; sob seus pés tudo puseste... Salmos 8:3-6 Ora, tendo sido o universo criado para a glória de Deus, e con- siderando que o ser humano ocupa lugar de primazia nesse uni‫׳‬ verso, é evidente que a razão de sua existência é também a glória do Criador. Se o objetivo de um automóvel é a locomoção, seria razoável dizer que o propósito de sua peça central, o motor, é outro diferente desse? Voltando à ilustração do relógio: se seu propósito é marcar a passagem do tempo, seria certo dizer que os ponteiros foram feitos com outro objetivo que não o de indicar o decurso das horas? Da mesma forma, no mundo que Deus fez para promover sua glória, o homem, sendo a “peça” principal, foi moldado e pias‫׳‬ mado para o enaltecimento, o louvor e a honra do seu criador. A primeira questão do Catecismo maior de Westminster11 diz: Pergunta 1: Qual é o fim supremo e principal do homem? Resposta: O fim supremo e principal do homem é glorificar a Deus e desfrutá-lo para sempre. Romanos 11:36; lCoríntios 10:31; Salmos 73:24-26; João 17:22-24. Os teólogos reunidos há mais de trezentos anos na Abadia de Westminster, em Londres, resumiram em três linhas o pressuposto 11 Um dos símbolos de fé das igrejas presbiterianas, formulado pela Assembleia de Westminster (1643-1649), sendo substancialmente aceito por protestantes de todas as denominações cristãs. Trata-se de um documento de orientação cal- vinista, composto de 196 perguntas teológicas seguidas de suas respectivas respostas e base bíblica.
  24. 24. .30 Fundamentos da teologia da vida cristã que deve moldar todas as ações humanas: o homem foi feito para a glória de Deus. A isso, os pastores de Westminster acrescenta' ram que fomos criados para desfrutar da comunhão eterna com o Criador. Tendo sido feitas para fins tão gloriosos, é preciso que agora as pessoas reconheçam essas verdades e, assim, harmoni- zem sua vida ao alvo principal que moveu o Senhor a moldar todas as coisas. A recusa vai fazê-las cambalear infelizes, feridas e sem rumo, pelas sendas de uma vida sem sentido. Verdades que não oscilam Há outra implicação decorrente da cosmovisão que reconhece em Deus o criador e aceita as Escrituras Sagradas como revelação dele ao homem, na qual o propósito da existência está descrito. Essa implicação é a seguinte: se o Deus criador e sábio se revelou ao homem nas páginas das Escrituras, então o que se encontra ali é a mais pura manifestação da sua inteligência e vontade. Se o Deus de conhecimento infinito, aquele que criou as galáxias e tudo o que existe debaixo do céu, falou nos textos da Bíblia, en- tão o que se encontra nesse livro é a verdade. Aliás, é a verdade incontestável, pois quem seria ousado o suficiente para discordar da mente de quem criou o Sol, a Lua, as estrelas, o mundo e tudo o que nele há? É com base no pressuposto de que o Senhor falou nas pági‫׳‬ nas das Escrituras que o cristianismo sustenta teses que considera imutáveis e absolutas. Para os cristãos, a verdade está na Bíblia, reconhecida como Palavra de Deus, devendo tudo o que a con‫׳‬ traria ser rejeitado como mentira. Assim, os crentes não acolhem as concepções relativistas da pós-modernidade, segundo as quais o que é certo depende da opi- nião de cada indivíduo, tendo cada qual a sua verdade particular. Não! Para os cristãos, a verdade única acerca de qualquer ques- tão está na revelação escrita de Deus. Qualquer ideia oposta a
  25. 25. 3 1A Ú N I C A S A Í D A ela é falsa. Os cristãos nem sequer negociam nesse campo. Não cedem um centímetro sequer diante do que contraria a Bíblia. As opiniões divergentes são secundárias e descartáveis para eles. É por isso que muitas pessoas os chamam de “radicais”, e é por estarem, de fato, inteiramente arraigados à Bíblia como única fonte digna de fé que eles se incomodam muito pouco quando são chamados assim. Deve-se ressaltar que os cristãos não desenvolveram essa con- fiança na Bíblia do nada. O próprio Cristo a ensinou. Ele atribuiu a origem das Escrituras do Antigo Testamento ao Espírito Santo (Mt 22:41-44), valorizou cada detalhe da Lei mosaica (Mt 5:18), reconheceu a autoridade de Deuteronômio quando foi tentado no deserto (Lc 4:1 -12) e disse que as Escrituras veterotestamen- tárias não podiam falhar (Jo 10:35). Quanto ao Novo Testamen- to, Jesus afirmou que a mensagem que anunciara ao mundo, ou seja, o evangelho, era originada no próprio Deus (Jo 7:16). De fato, orando ao Pai, ele se referiu a essa mensagem como “as pala- vras que me deste” (Jo 17:8) e as definiu como a própria verdade, quando suplicou por seus discípulos, dizendo: “Santifica-os na verdade; a tua palavra é a verdade!” (Jo 17:17). Jesus também assegurou aos apóstolos que o Espírito Santo lhes ensinaria todas as coisas e os faria lembrar tudo o que ele lhes havia dito (Jo 14:26). Isso significa que as memórias e doutri- nas dos apóstolos registrados nos livros e nas epístolas do Novo Testamento são resultado da ação divina sobre seus autores (G1 1:11-12). Na verdade, a mesma ação divina que moveu os pro- fetas do Antigo Testamento a comporem suas obras sacrossantas (2Pe 1:20-21) moveu também os apóstolos do Novo Testamento, a fim de que compusessem seus livros e suas cartas, obras verda- deiramente inspiradas por Deus (2Tm 3:16). Foi por reconhecer isso que Paulo chamou os escritos de Lucas de “Escritura” (ITm 5:18), e Pedro usou a mesma palavra para se referir às epístolas de Paulo (2Pe 3:16). Foi também por isso que Paulo disse que o
  26. 26. que ele e os demais apóstolos ensinavam eram “mistérios” antes ocultos, mas agora revelados (ICo 2:7; Ef 3:3-5; Cl 1:26). Aceitando, pois, a Bíblia como a verdade dada por Deus ao homem, os cristãos têm um ponto fixo sobre o qual constróem seus valores e pelo qual avaliam qualquer conduta. O encontro de fundamentos sólidos e imutáveis que justificassem a conduta moral foi o sonho dos filósofos de todos os tempos até o século XX. Sócrates (t 399 a.C.) falava da importância desses fundamentos, mas nunca revelou (ou nunca descobriu!) quais eram. Em Fédon, seu discípulo Platão (c. 428-c. -348 a.C.) os aponta dizendo que a cada caso aplicava o princípio que julgava mais sólido, admitindo como verdadeiro tudo o que parecia estar em consonância com ele;12 mas, ao que parece, essa escolha era subjetiva, permane- cendo incerto nesse modelo o fundamento da ética e de qualquer outro campo de reflexão. O próprio Platão, na busca da verdade sólida e imutável, con- cebeu o “mundo das ideias”, do qual, segundo ele, este mundo é apenas uma sombra. Para Platão, no mundo das ideias a realidade é fixa e ali se encontram não só os objetos ideais, mas também as virtudes ideais. Ideias como as de justiça, beleza e bondade teriam existência metafísica real e independente no mundo dos univer- sais. As virtudes que observamos neste mundo físico seriam, as- sim, simples reflexos daquelas que existem de modo completo e perfeito numa dimensão além. Com isso, Platão tentou suprir, entre outras coisas, a necessidade de uma base objetiva para a conduta humana. O platonismo, porém, com seu mundo ideal, não fechou a questão acerca do que é absoluto. Isso por causa, especialmen- te, de uma pergunta perturbadora: Como os homens poderiam conhecer as realidades perfeitas do mundo das ideias? Platão res- pondeu dizendo que a alma preexiste ao corpo e que, antes de 32 Fundamentos da teologia da vida cristã 12 P.167-168.
  27. 27. A ÚNICA SAÍDA 3 3 encarnar, teve contato com as realidades absolutas no mundo dos universais, podendo agora recordá-las ao observar seus reflexos no mundo material. Esse foi o ponto máximo a que pôde chegar! Insatisfeitos com a visão platônica, inúmeros filósofos fizeram propostas diferentes, uns afirmando que as realidades perfeitas estão contidas nas variadas formas de objetos e ações verificadas no mundo percebido pelos sentidos (Aristóteles), enquanto ou- tros apontaram o indivíduo como o detentor de elementos que o capacitam a classificar os objetos e os atos ao redor de si, nomean- do-os na mente com termos como belo, justo e bom (nominalis- mo). Tudo isso gerou discussões extremamente complexas, mas os filósofos não desistiram, acreditando sempre que a verdade podia ser descoberta e, finalmente, nortear a vida das pessoas. Não desistiram até que chegou o século XX. A partir daí, frus- trados com seus próprios esforços, indispostos a ouvir as respostas da religião e percebendo a inadequação da ciência, da razão e da experiência para alcançar a verdade suprema, os pensadores con- cluíram que não há verdade absoluta alguma e que cada um deve viver segundo critérios que melhor lhe convenham. Então nasceu a pós-modernidade com todos os problemas e desvios anterior- mente descritos. E suas ondas arrastaram todos os homens, de to- das as classes e idades. Todos, menos os cristãos fiéis. Quando as ondas chegaram, eles se puseram acima delas, mantendo os olhos fixos na verdade que não passa e não envelhece: “A tua palavra, Senhor, para sempre está firmada nos céus” (SI 119:89). Platão, num diálogo sobre a alma, falou sobre o drama do ho- mem que não tem uma base segura sobre a qual possa fundamen- tar suas crenças e atitudes: Porque é preciso saber o que é por meio dos outros, ou encontrá- 10 por si mesmo. Então, se os dois caminhos são impossíveis, entre todos os raciocínios, deve-se escolher o melhor, o mais seguro, e agarrar-se a ele como numa balsa na qual nos arriscamos a efetuar
  28. 28. Fundamentos πα teologia da vida cristã3 4 a travessia da vida, salvo se consigamos encontrar uma embarca- ção mais firme e garantida, ou seja, uma revelação divina.13 Ora, os discípulos de Jesus encontraram essa embarcação e convidam todos a entrar nela! Em face da perene ausência de fundamentos filosóficos para a boa conduta, e em face da escuri- dão em que a pós-modernidade lançou os homens do nosso tem- po, deixando-os sem direção e inseguros, cada qual seguindo o rumo que acha mais certo, cada qual apegando-se a destroços de embarcações naufragadas, o cristianismo se afigura como a única saída. De fato, com as Escrituras em punho, o homem cristão detecta o que é absolutamente verdadeiro e torna-se capaz de construir a vida sobre bases que não oscilam. Quando e como começar? Uma coisa é saber; outra, bem diferente, é fazer. Uma coisa é saber; outra, também muito distinta, é poder. Foi dito anterior- mente que o homem foi criado para a glória de Deus. Supondo que as pessoas aceitassem essa tese, será que o problema da vida fútil desapareceria? Não necessariamente. Aliás, muita gente que aprendeu isso desde a infância levou, ao longo dos anos, uma vida tão vazia e sem sentido quanto a do mais convicto materialista. Isso acontece porque o homem, por mais estranho que possa parecer, não consegue viver para a glória de Deus. Há nele, desde a queda dos nossos primeiros pais, uma natureza pecaminosa que se manifesta de modo terrível ainda nos primeiros anos de sua vida. De fato, os efeitos malignos do jardim do Éden são perce- bidos já no jardim da infância! Sim, a verdade bíblica incontes- tável, comprovada solidamente pela história de cada ser huma- no, é que, desde muito cedo, o pecado que habita no coração do homem inclina-o para uma vida centrada em si e o faz desejar 13 Fédon, p. 152.
  29. 29. A ÚNICA SAÍDA 35 somente aquilo que o satisfaz, enquanto o indispõe contra tudo o que promove a glória de Deus. Esse impulso para o mal, essa inclinação para o pecado, essa força que arrasta o homem na direção do que Deus reprova e o im- pede até mesmo de querer viver para sua glória chamou a atenção dos escritores bíblicos, que se referiram a ela de diversas maneiras: O Senhor viu que a perversidade do homem tinha aumentado na terra e que toda a inclinação dos pensamentos do seu coração era sempre e somente para o mal. Gênesis 6:5 Pois se nem nos seus santos Deus confia, e se nem os céus são puros aos seus olhos, quanto menos o homem, que é impuro e corrupto, e que bebe iniqüidade como água. Jó 15:15-16 Será que o etíope pode mudar a sua pele? Ou o leopardo as suas pintas? Assim também vocês são incapazes de fazer o bem, vocês, que estão acostumados a praticar o mal. Jeremias 13:23 O coração é mais enganoso que qualquer outra coisa e sua doen- ça é incurável. Quem é capaz de compreendê-lo? Jeremias 17:9 Como está escrito: “Não há nenhum justo, nem um sequer; não há ninguém que entenda, ninguém que busque a Deus. Todos se desviaram, tornaram‫׳‬se juntamente inúteis; não há ninguém que faça o bem, não há nem um sequer”. [...] pois todos pecaram e estão destituídos da glória de Deus. Romanos 3:10-12,23 Todos esses textos mostram quão difícil e até impossível é para o homem realizar o propósito para o qual foi criado. Sua
  30. 30. .36 Fundamentos da teologia da vida cristã situação se assemelha a de uma lagarta que descobre que foi feita para voar e, olhando para sua condição, percebe quanto é in- capaz disso. Todos os recursos que tem só a habilitam a rastejar lentamente, num modo de vida que evoca bem de perto a figura de um verme repugnante! Como, então, o homem, sendo escravo do pecado, pode viver em conformidade com o propósito majestoso para o qual foi feito? Como pode parar de rastejar e, enfim, voar? É simples: a respos- ta pode ser encontrada na própria ilustração da lagarta. Todos sabem que para voar ela precisa passar por uma metamorfose. Tem de morrer, por assim dizer, como verme, ser sepultada num casulo e renascer como borboleta! Precisa deixar de ser lagarta e, mediante um milagre da natureza, tornar-se uma criatura nova, cheia de vida, leveza e cor. Para que as pessoas deixem de viver como vermes e voem com as asas da virtude, o mesmo tem de acontecer com elas. Uma reforma moral, uma tentativa de reeducação ou um processo de ressocialização não bastam. Essas coisas, se é que surtem algum efeito, talvez ajudem um pouco na recuperação de marginais, mas nenhuma delas pode conduzir alguém a viver para a glória de Deus, ou seja, para o propósito para o qual o homem foi criado. São apenas tentativas de pegar lagartas que caíram da árvore e colocá-las de novo sobre alguma folha. É um trabalho nobre, mas, mesmo quando alcança seus maiores sucessos (o que é raríssimo), não vai além de recolocar o verme num galho qualquer. Só atinge esse ponto e, na verdade, não é capaz de ir adiante. Isso, contudo, está muito longe de dar sentido à vida ou de mostrar ao homem a razão para viver. O homem precisa voar! Os vermes recuperados agradecem com sinceridade aqueles que lhes devolveram a árvore, os galhos e as folhas, mas eles sentem que algo continua faltando, algo que não está na árvore. Eles preci- sam de uma transformação que os capacite a viver para Deus e,
  31. 31. A ÚNICA SAÍDA 3 7 enfim, conhecerem o real propósito da vida e a felicidade que o acompanha. Jesus chamou essa transformação de novo nascimento. Ele dis- se a Nicodemos: “... Ninguém pode ver o Reino de Deus, se não nascer de novo” (Jo 3:3).14 Ele afirmou que esse nascer de novo é algo que acontece através “da água e do Espírito” (Jo 3:5). Muitos intérpretes entendem que nascer da água é o mesmo que nascer do Espírito, sendo a água apenas uma figura da lavagem e da puri- ficação que o Espírito Santo realiza no homem arrependido.15 Assim, nascer da água e nascer do Espírito são a mesma coi- sa e se referem a uma metamorfose que o Espírito Santo realiza na pessoa que crê em Cristo, ao purificá-la. Essa interpretação é reforçada em João 3:8, em que Jesus fala somente sobre o nascer do Espírito, sem mencionar a água. Também em Tito 3:5 é pos- sível ver a ação regeneradora do Espírito Santo associada com 0 conceito de lavagem: “não por causa de atos de justiça por nós praticados, mas devido à sua misericórdia, ele nos salvou pelo lavar regenerador e renovador do Espírito Santo”. Ainda em João 3, Jesus diz que quem não nascer do Espírito não pode entrar do Reino de Deus (v. 5), ou seja, não pode ter a vida eterna. Em seguida, ele explica, no conhecido versículo 16, como o homem pode afinal nascer de novo e herdar essa vida com Deus: “Porque Deus tanto amou o mundo que deu o seu Filho Unigênito, para que todo o que nele crer não pereça, mas tenha a 14 E significativo que a expressão traduzida como “de novo” em João .3:3,7 pode também ser traduzida como “de cima” ou “do alto”. 15 Outra opção seria interpretar o nascer da água como a cerimônia de batismo. Porém, isso só é aceitável se o batismo for entendido em íntima associação com a conversão (o que era comum nos tempos do Novo Testamento). Nesse caso, Jesus estaria dizendo que é preciso nascer de novo através do arrependimento que acompanha o batismo na água (esse é o sentido cm Rm 6:4) e através do Espírito Santo que purifica e renova o pecador. Seja qual for o caso, a noção de que o batismo, por si sõ, salva, ou seja, a doutrina da regeneração batismal, não tem nenhum amparo nos escritos neotestamentários (ICo 1:14-17).
  32. 32. Fundamentos da teologia da vida crista38 vida eterna”. Segundo esse texto, o novo nascimento ocorre por meio da fé. João explica isso melhor no seu evangelho: Aquele que é a Palavra estava no mundo, e o mundo foi feito por intermédio dele, mas o mundo não o reconheceu. Veio para o que era seu, mas os seus não o receberam. Contudo, aos que o receberam, aos que creram em seu nome, deu‫׳‬lhes o direito de se tornarem filhos de Deus, os quais não nasceram por descen- dência natural, nem pela vontade da carne nem pela vontade de algum homem, mas nasceram de Deus. João 1.10-13 Fica claro, portanto, que o nascer de Deus, ou o nascer de novo, ocorre quando alguém crê em Cristo. Nesse momento uma metamorfose acontece, uma nova criatura surge: alguém lavado, perdoado, com uma mente renovada, com um coração novo e uma esperança inabalável de salvação. Vários textos do Novo Testamento falam sobre esse milagre. Eis alguns exemplos: Portanto, se alguém está em Cristo, é nova criação. As coisas antigas já passaram; eis que surgiram coisas novas! 2Coríntios 5:17 De nada vale ser circuncidado ou não. O que importa é ser uma nova criação. Gaiatas 6:15 Vocês estavam mortos em suas transgressões e pecados, nos quais costumavam viver, quando seguiam a presente ordem des- te mundo e o príncipe do poder do ar, o espírito que agora está atuando nos que vivem na desobediência. Anteriormente, to- dos nós também vivíamos entre eles, satisfazendo as vontades da nossa carne, seguindo os seus desejos e pensamentos. Como os outros, éramos por natureza merecedores da ira. Todavia, Deus, que é rico em misericórdia, pelo grande amor com que nos amou,
  33. 33. A ÚNICA SAÍDA 39 deu-nos vida com Cristo, quando ainda estávamos mortos em transgressões — pela graça vocês são salvos. Efésios 2:1-5 Não somente o Novo Testamento, mas também a história da Igreja cristã mostra como a transformação oriunda da ação do Espírito Santo dá um novo significado à vida dos homens, além de os capacitar para viver de acordo com o propósito para o qual foram feitos. Dentre os inúmeros personagens dessa vasta histó- ria, Agostinho de Hipona (354-430) se destaca como alguém que descreveu com tocante criatividade a mudança pela qual passou quando creu no Salvador. Ele nasceu em Tagaste, na atual Argélia, costa norte da África. Sua mãe, Mônica, era uma cristã dedicada. No entanto, ele se afastou bem cedo dos ensinos da igreja e enve- redou-se por sendas filosóficas heréticas, como o maniqueísmo,16 indo também buscar a felicidade nos prazeres carnais. Com 32 anos de idade, porém, cansado e frustrado em sua jornada por caminhos tortuosos, ele se assentou no jardim de uma casa em Milão e entregou-se ao pranto, lamentando o triste es- tado em que seu coração vazio se encontrava. Ele conta em suas Confissões o que aconteceu depois: Assim falava e chorava, oprimido pela mais amarga dor do co- ração. Eis que, de repente, ouço uma voz vinda da casa vizinha. Parecia de um menino ou menina repetindo continuamente uma canção: “toma e lê, toma e lê”. Mudei de semblante e comecei com a máxima atenção a observar se tratava de alguma cantinela que as crianças gostavam de repetir em seus jogos. Não me lembrava, porém, de tê-la ouvido antes. Reprimi o pranto e levantei-me. 16 O maniqueísmo recebeu esse nome do profeta persa Mani (séc. III d.C.). Suas crenças abrangiam basicamente uma teologia dualista que propunha a existên‫׳‬ cia de um deus bom e outro perverso, além do ensino de que a matéria é intrin- secamente má.
  34. 34. 40FUNDAMENTOS NA TEOLOGIA DA VIDA CRISTA A única interpretação possível, para mim, era de uma ordem di‫׳‬ vina para abrir o livro e ler as primeiras palavras que encontrasse. [...] Apressado, voltei ao lugar onde Alípio ficara sentado, pois, ao levantar-me, havia deixado aí (‫י‬ livro do apóstolo. Peguei-o, abri e li com silêncio o primeiro capítulo sobre o qual caiu o meu olhar: Não em orgias e bebedeiras, nem na devassidão e libertinagem, nem nas rixas e ciúmes, mas revesti-vos do Senhor Jesus Cristo e não procureis satisfazer os desejos da carne. Não quis ler mais, nem era necessário. Mal terminara a leitura dessa frase, dissiparam-se em mim todas as trevas da dúvida, como se penetrasse no meu cora- ção uma luz de certeza.17 A partir daí, a vida de Agostinho nunca mais foi a mesma. Ele abandonou todos os hábitos da velha vida e, mais tarde, com cerca de 42 anos, tornou-se bispo em Hipona, perto da sua cidade natal. Nessa função ele se dedicou a pregar e a produzir obras teo- lógicas e inspirativas. Muitas das frases que escreveu comprovam a incrível transformação que Cristo operou em sua vida. Talvez a mais bonita delas esteja também em Confissões, o mesmo livro em que narrou sua conversão: Tu me chamaste, e teu grito rompeu a minha surdez. Fulguraste e brilhaste e tua luz afugentou a minha cegueira. Espargiste tua fragrância e, respirando-a, suspirei por ti. Eu te saboreei, e agora tenho fome e sede de ti. Tu me tocaste, e agora estou ardendo no desejo de tua paz.18 Agostinho faz alusão aqui aos cinco sentidos do nosso corpo: audição, visão, olfato, paladar e tato. Ele os menciona para afir- mar que Deus despertou integralmente o seu ser outrora apático em relação às coisas relativas à piedade. Suas inclinações e seus 17111:12, p. 214-215. 18 X:27, p. 277.
  35. 35. A Ú N I C A S A Í D A 4 1 desejos sofreram alterações notáveis desde que encontrara a sal- vação que Deus dá através do seu Filho. Agostinho era agora uma nova pessoa, uma nova criação! É essa nova criação que possibilita o homem a viver para a glória de Deus. O apóstolo Paulo diz que os homens que passaram por essa mudança foram criados em Cristo Jesus para boas obras (Ef 2:10) e que pela força do Espírito Santo, que neles passou a habitar, são capazes de viver cumprindo a justiça da lei de Deus (Rm 7:4,6; 8:4,11; 2Co 3:3; G1 5:24-25), andando de tal forma que glorificam o Senhor que os salvou. Perguntas para recapitulação 1. Como os sistemas éticos baseados em noções relativistas da verdade tentam conferir legitimidade aos valores que pro- põem? 2. A ausência de sentido na vida pode produzir males físicos ao indivíduo? Que outros desdobramentos esse “vazio” pode ter? 3. Quais têm sido os reflexos do relativismo ético no modo de grande parte dos crentes atuais interpretar os ensinos morais da Bíblia? 4· Como avaliar, à luz das Escrituras, as propostas de que o ho- mem é mero produto do meio em que vive ou que seu compor- tamento decorre basicamente de influências externas, tanto históricas quanto sociais? 5. Por que uma reforma moral dissociada da conversão a Cristo é incapaz de fornecer ao ser humano um propósito válido para a vida?
  36. 36. C a p í t u l o 2 O que a vida cristã não é Quem procura ensinar a verdade não poderá, por mais que fale dela, persuadir ninguém, enquanto uma falsa opinião esteja arraigada à mente dos ouvintes e se oponha aos raciocínios. Atenágoras de Atenas, Sobre a ressurreição dos mortos 1:1 Os grandes pensadores dizem que o primeiro passo na solução de problemas ligados a determinado tema é definir os termos princi- pais da discussão. Por exemplo, se o tema do debate é divórcio e novo casamento, grande parte das questões será solucionada tão logo seja aceita pelos debatedores uma definição básica de “casamento”. Sendo construído um conceito preciso, bastará se reportar a ele para que inúmeras dúvidas sobre o assunto sejam esclarecidas. Outro exemplo: suponhamos que duas pessoas estejam discu- tindo se o ser humano, seja ele quem for, tem dignidade ou não. Um acredita que ele tem dignidade se viver de modo justo, sendo útil para a sociedade. Outro acredita que o homem tem dignida- de pelo simples fato de ser homem, independentemente de suas ações. A solução desse impasse só surgirá quando os debatedores aceitarem uma definição básica de “ser humano”. No mundo de hoje existem duas definições de ser humano que se destacam e se contrapõem. A primeira (e mais aceita) é a definição do evolucionismo ateísta, que pode ser apresentada nos seguintes termos: O ser humano é um animal racional bípe- de da família dos primatas, pertencente à subespécie Homo sa- piens originado das forças aleatórias do processo evolutivo e que,
  37. 37. 44 FUNDAMENTOS NA TEOLOGIA DA VIDA CRISTA consequentemente, não tem um propósito determinado para a sua existência. Se essa definição for aceita pelos debatedores, toda a discussão findará. Ambos concluirão que a dignidade do ser humano é rela- tiva, dependendo de como ele vive e da utilidade que tem para a sociedade. Com essa definição em mente, eles fatalmente não ve- rão nenhum problema em práticas como o aborto e a eutanásia. A outra definição é a que pode ser construída com base no en- sino das Escrituras: O ser humano é um ente que veio à existência por um ato criador de Deus, feito à sua imagem e semelhança, constituído de corpo material e alma racional e imortal, cujo pro- pósito, pelo qual foi plasmado, é glorificar aquele que o criou e desfrutar para sempre da comunhão com ele. Se os participantes da discussão sobre a dignidade do ser hu- mano aceitarem essa definição, então concluirão que o homem tem dignidade independentemente dos seus erros ou acertos ou do fato de ser útil ou não à sociedade em que vive. Sua dignidade seria considerada intrínseca. Eles diriam: Basta ser humano para ser digno. Se aceitassem essa definição, dificilmente nossos deba- tedores seriam favoráveis ao aborto ou à eutanásia. Para eles, a inutilidade do feto ou do moribundo não poderia determinar o seu grau de dignidade. Esse é o motivo da imensa dificuldade no diálogo do crente com o incrédulo. Ambos acolhem definições diferentes das coisas; suas concepções básicas divergem. Por isso, se um cristão quiser se dar bem num debate tem de primeiro apresentar e defender seus pressupostos, suas definições fundamentais. Se, depois de muito trabalho, elas forem aceitas, tudo ficará mais fácil. Nos dias de hoje, porém, o crente genuíno e maduro não se vê contrariado em suas definições fundamentais somente pelos evo- lucionistas ateus. Muitos pressupostos cristãos básicos têm sido ignorados e combatidos dentro das próprias igrejas evangélicas. Um desses pressupostos consiste no conceito correto de vida cristã.
  38. 38. O QUE A VIDA CRIST A ΝΑΟ H 45 De fato, se fosse solicitado que os pastores e crentes comuns de hoje definissem a expressão “vida cristã”, certamente seriam co- lhidas respostas que incluiriam no conceito desde as práticas mais toscas de superstição até os mais elaborados sistemas legalistas. Por isso, apresentaremos um conceito preciso de vida cristã; an‫׳‬ tes, porém, será necessário apagar da mente dos leitores as noções erradas, deixando claro o que a vida cristã não é. Bom comportamento “Eis um incrédulo que vive a vida cristã muito mais que a maioria dos crentes que eu conheço!” Essa frase tão comum na boca de mui- tos evangélicos revela um erro grosseiro. Quem a pronuncia sugere a ideia de que a vida cristã se resume em bom comportamento. Ocorre, porém, que vida ética não é necessariamente vida cristã. Veja-se, por exemplo, o caso dos filósofos epicuristas. Eles eram seguidores de Epicuro de Samos (t c. 271 a.C.), um pensa- dor ateniense que propunha que a felicidade do homem poderia ser encontrada somente numa vida de paz, prazer e reflexão. Para isso, dizia ele, era necessário, entre outras coisas, que o homem observasse elevados preceitos morais. Caso não agisse assim, amea- çaria a paz social e o próprio equilíbrio individual, atraindo sobre si mesmo os mais diversos males. Os epicuristas eram materialistas e criam que toda a realidade se reduzia a átomos. Assim, eles não acreditavam na existência de vida após a morte e rejeitavam a ideia de recompensas e cas- tigos no além. Segundo suas doutrinas, após a morte a alma se dissolvia, como tudo o que é material. Ademais, os epicuristas concebiam Deus como um ser apático que, caso existisse, não se preocupava com as ações dos homens. Mesmo assim, aqueles filósofos tinham uma vida regida por al- tos padrões de conduta! Seria certo, então, dizer que eles tinham uma vida cristã? E evidente que não. A justiça que eles praticavam
  39. 39. 46 Fundamentos da teologia da vida crista era construída sobre bases diferentes daquelas que as Escrituras apresentam. Eles praticavam o bem para evitar encrencas! Não queriam ser perturbados e acreditavam que uma forma de obter isso era andar direito. De fato, o homem que vive piedosamente evita muitos males (Pv 1:15-19). Porém, essa não é a razão primordial pela qual o crente cultiva a retidão. A razão principal que o orienta na direção da virtude é o desejo de agradar a Deus e manter viva sua comu- nhão com ele. Para os epicuristas, porém, isso não fazia sentido. Epicuro e seus discípulos mostraram que qualquer ateu pode ter uma vida bem ajustada aos padrões morais reconhecidos na- turalmente por todos. Provaram que é possível não crer em Deus e ser honesto, trabalhador, responsável e misericordioso. Ensina- ram, assim, que uma pessoa pode ser reta não por causa do temor de Deus, mas por causa do temor da vida; por causa do medo de agir mal e se dar mal. Há muitos epicuristas hoje. Eles não creem em Deus, nem na vida futura, mas são bons cidadãos, bons profissionais e bons pais de família. Sua retidão, porém, não pode ser confundida com a justiça vivida pelo crente. Esta é obra do Espírito Santo no ho- mem que crê; aquela é o bom proceder decorrente de motivos meramente terrenos e não é fruto da fé. Em seus resultados, a retidão dos epicuristas torna as pessoas amigas dos homens, mas não pode torná-las filhas de Deus. De fato, os discípulos de Epicu- ro são maquiados pelas obras, mas não são transformados pela fé. Sua realidade alerta para o fato de que a vida moralmente sã não pode, por si só, ser confundida com a vida que chamamos cristã. Elevada consciência moral No mundo antigo, os filósofos gêmeos dos epicuristas eram os estoicos. Aliás, ambos aparecem juntos em Atos 17:18, conten- dendo com o apóstolo Paulo, em Atenas. De forma idêntica aos
  40. 40. O QUE A VIDA CRISTA NAO É 47 epicuristas, os estoicos eram céticos quanto à existência dos “deu- ses” e diziam que, se eles existiam, eram indiferentes a como os homens viviam. Eles também se assemelhavam aos discípulos de Epicuro no fato de serem homens de elevada conduta moral. O estoicismo recebeu esse nome porque o seu fundador, Zenão de Cítio (f 26.3 a.C.), costumava ensinar no Pórtico (do grego stoa) Pintado, em Atenas. Esse filósofo dizia que havia um prin‫׳‬ cípio racional impresso na estrutura do universo que servia como fonte de energia de todas as coisas. Ele chamava esse princípio de Logos, isto é, Palavra ou Verbo.1 Esse Logos, como razão universal, fazia que existisse ordem em tudo. A partir daí, Zenão concluiu que o homem sábio é aquele que ajusta sua vida à ordem natu- ral que existe no universo, suprimindo suas paixões, abandonando desregramentos e obedecendo à lei natural que existe no mun- do e que está impressa no ser de cada pessoa. Outra semelhança do estoicismo com o epicurismo era o des- taque que dava aos perigos da impiedade. De fato, segundo essa filosofia antiga (e também tão atual!), há uma espécie de justiça imanente na harmonia universal. Quem anda em desacordo com ela, entregando-se a desregramentos e perturbando a ordem, será punido. Segundo os estoicos, a punição (que é somente no mun- do presente) será a infelicidade provada pelo homem que, aman- do a vida dissoluta e agarrando-se a falsos bens, jamais poderá sentir a realização de quem desenvolve as boas virtudes e nunca conhecerá sua verdadeira natureza. Percebe-se, assim, que a justiça dos epicuristas e dos estoicos tinha uma motivação comum que era o medo de perturbações. O epicurismo realçava o ideal prático da ataraxia, ou seja, o ideal de serenidade da alma. Fazer o mal criaria obstáculos para esse ideal 1 Evidentemente, os estoicos posteriores e as demais correntes filosóficas hele- nistas jamais aceitaram a ideia de um Logos encarnado, como a Bíblia apresenta em João 1.
  41. 41. Fundamentos da teologia da vida crista4 8 e, por isso, o homem devia fugir da impiedade. Já o estoicismo destacava a ordem natural impressa no universo. Fazer o mal era agir contra essa ordem, e isso traria conseqüências funestas. Daí o apelo à retidão. Ao que parece, porém, o estoicismo destacava a necessidade da vida íntegra por mais um motivo, a saber, a ordem que rege o universo está também impressa na alma humana. Conseqüente- mente, o homem deve viver em probidade não só para manter o seu sossego e viver em serenidade, mas também para dar plena realização ao que há em seu interior, ou seja, a lei natural que igualmente ordena o mundo ao seu redor. Portanto, o alvo do estoico ao praticar a virtude era evitar transtornos, mas também viver a plenitude da sua natureza, não agindo contra a ordem presente em seu próprio íntimo. É que o estoico não queria ser apenas um homem tranqüilo. Ele queria ser também um homem completo, realizando plenamente o ideal impresso em sua natureza. Por causa disso, o adepto dessa filosofia tentava ser sensível à voz da harmonia que o Logos engendrara nele e buscava viver à luz dessa consciência tão elevada de ordem e virtude. O estoico mais famoso da história foi o imperador romano Marco Aurélio (161-180). Ele escreveu um livro intitulado Medi- tações, no qual, por várias vezes, faz alusão à lei interior presente no ser humano:2 Examine o que a sua própria natureza requer, como se você não tivesse nenhuma outra lei a governá-lo; e ao descobrir suas incli- nações, jamais as frustre, a não ser que, ao atendê-las, isso torne piores a sua natureza animal ou os interesses do seu corpo. Depois, - Citações extraídas do livro The Apology 0) Tertullian and the Meditations of the Emperor Marcus Aurelius Antoninus; traduzido para o inglês por Wm. Reeve e Jeremy Collier. Londres: Griffith Farran & Co. s/d., p. 238, 251, 265. Tradução pessoal.
  42. 42. O QUE A VIDA CRISTÃ NÃO É 49 verifique o que a sua natureza animal ou os interesses dos seus sentidos desejam. Aqui você pode saciar seu apetite tanto quan- to lhe agradar, cuidando para que a sua natureza racional não sofra com essa liberalidade. Que a sua natureza racional não ad- mita nada, a não ser o que for útil para o resto da humanidade. Guarde essas regras e você não terá necessidade de sair em busca de mais instruções. (X:2) Finalmente, é próprio de uma alma racional amar o seu pró- xímo, dar destaque à verdade e à sobriedade, não almejar nada além da sua própria dignidade e autoridade. Ora, esse é também o costume e a prerrogativa da lei. Assim, as qualidades e os limi- tes da reta razão e da justiça pública são as mesmas. (XI: 1) Lembre‫׳‬se, pois isso é muito importante, que há algo mais divino em você do que um mecanismo de paixões ou os fios e cordões de uma marionete. De que, afinal, a minha alma é feita? De medo, de inveja, de lascívia? Ou será de alguma outra coisa grosseira desse tipo? Certamente não! (XII: 19) Há, de fato, como vimos, a presença de preceitos morais gra- vados por Deus no coração do homem (Rm- 2 : 1 4 - 1 5 ) . É a existên- cia dessa lei interior que faz que os descrentes sejam incomodados por sua consciência quando fazem algo errado. Os estoicos des- cobriram a existência desse código interno e tentavam andar de acordo com ele, mesmo sem crer no Deus verdadeiro e no fato de ele se importar com o modo de o homem agir. Como no caso dos epicuristas, hoje também há muitos estoi- cos. São pessoas que praticam o bem só por medo de se darem mal. Elas praticam o que é certo porque atendem à voz da consci- ência e, dessa forma, realizam‫׳‬se interiormente e se sentem bem. Não é, contudo, correto, dizer que a vida cristã e a vida que essas pessoas levam são a mesma coisa. Isso porque a vida cristã não é resultado apenas de uma consciência moral sensível e atuante. Mais uma vez, os estoicos mostram que uma consciência assim até os ateus podem ter.
  43. 43. 50 Fundamentos da teologia da vida cristã É claro que a vida cristã abrange uma consciência boa, mas o comportamento que ela produz não advém apenas disso. Repe- tindo: o comportamento reto do cristão é resultado de uma trans- formação operada nele pelo Espírito Santo a partir do momento em que creu. Como nova criatura a partir de então, o crente vive as santas virtudes da Bíblia sob a capacitação do Senhor, desejoso de glorificá-lo e de manter comunhão com ele, sendo ainda tan- gido pelo temor daquele que, por amá-lo sempre e não às vezes, disciplina-o às vezes e não sempre. Educação religiosa O período da História que se estendeu de meados do século XVII até a metade do século XX é chamado de “Modernidade”. Os dois primeiros séculos desse período compõem a fase denominada “Iluminismo”. Por esse tempo as verdades centrais do cristianis- mo começaram a ser questionadas em virtude das decepções dos homens com a religião e com as guerras que causara e também por força dos avanços científicos que pareciam enaltecer as capa- cidades do intelecto humano. No novo mundo científico, concebendo um universo regido pelas leis rígidas e fixas da física newtoniana, os intelectuais come- çaram a questionar a existência do Deus das Escrituras, colocaram em dúvida a possibilidade da ocorrência de milagres, rejeitaram o conceito teológico tradicional de revelação e reduziram ao nível de mito a figura do Cristo apresentada nos evangelhos. Assim, a teologia, que, na Idade Média, fora considerada a “rainha das ciências”, cedeu lugar a uma visão da realidade centralizada no homem, tendo a razão humana como medida infalível para o afe- rimento da verdade através da ciência. No novo modo de pensar, qualquer coisa que não passasse pelo crivo da razão deveria ser rejeitada ou, pelo menos, lançada nos domínios da dúvida, mes- mo (e especialmente!) aquelas que outrora haviam sido incluídas na categoria de dogma.
  44. 44. O QUE Λ VIDA CRISTÃ NÃO É 5 1 É fácil concluir que nesse cenário dificilmente haveria lugar para o cristianismo autêntico. Na verdade, considerando como as coisas caminhavam, tudo indicava que em pouco tempo a igreja e seus ensinos deixariam de existir, tornando-se apenas uma lem- brança (nem sempre feliz) na memória dos mais velhos, ou um ca- pítulo entediante dos livros de história estudados pelas crianças. Percebendo esse perigo, alguns homens tentaram salvar o cristianismo, proclamando que a fé ensinada na Igreja talvez pudesse ainda servir para alguma coisa. Eles afirmaram que a doutrina cristã podia ter algum valor para os homens modernos e não devia ser totalmente rechaçada. Porém, tendo chegado à “maturidade”, o que o homem regido por suas infalíveis facul- dades poderia aproveitar de uma religião que contava histórias sobre Adão, Eva e uma serpente falante? Que utilidade teria para o novo homem tão culto a noção de um Deus que se encarnou nascendo de uma virgem, fez coisas incríveis como andar sobre a água e, depois de morto, ressuscitou, subiu acima das nuvens e sentou num trono celeste? A resposta daqueles homens tão preocupados em manter de pé pelo menos algumas colunas da fé cristã foi a seguinte: os va- riados modelos religiosos que existem são úteis como instrumen- tos de educação moral dos indivíduos. Podemos rejeitar tudo o que essas diferentes formas de culto dizem e que exigem o sacri- fício do intelecto, mas devemos reconhecer a importância do seu papel no ensino de valores éticos. Dentre essas diversas religiões, a mais elevada é o cristianismo, sendo esse modelo o que melhor se ajusta ao ideal de conduzir as pessoas à excelência moral. Os primeiros a fazer essa proposta, tentando adaptar o cris- tianismo à nova mentalidade, foram pensadores religiosos euro- peus e americanos conhecidos a partir de então como deístas. Para eles, a razão humana estava acima da fé e da Bíblia, e o mundo deveria caminhar na direção de uma religião universal, tolerante e racional, tendo a ética do cristianismo como padrão
  45. 45. 52 Fundamentos da teologia da vida cristã mais sublime. O propósito desse cristianismo abrangente e mun- dial seria transmitir princípios de bom comportamento ao homem e, desse modo, promover a paz social. Assim, os deístas reduziram 0 cristianismo a um sistema ético racional, voltado apenas para a prática de deveres morais, em que seu valor e sua razão de ser estavam no ensino da piedade. Toda a teologia liberal que se desenvolveu a partir do século XVIII seguiu esse caminho aberto pelos deístas. Para agravar a situação, o famoso e influente filósofo alemão Immanuel Kant (17241804 ‫)׳‬ deu ainda mais força à ideia de que o cristianismo estava restrito ao âmbito da ética e insistiu em dizer que seu pro- pósito principal era transmitir lições de moralidade. Seguindo na sua esteira, o teólogo Albrecht Ritschl (18221889 ‫)׳‬ também limi- tou o cristianismo ao campo dos valores éticos e, como professor na Universidade de Gõttingen, na Alemanha, influenciou um vasto número de alunos. A Igreja foi considerada, assim, pouco mais que uma escola de boas maneiras ou um centro quase falido de educação moral. Por conta do impacto da teologia liberal até os nossos dias, essa visão da função do cristianismo ainda perdura. Aliás, é até comum distinguirmos ecos do deísmo quando, diante dos altos índices de criminalidade, ouvimos os incrédulos dizerem: “As pessoas precisam de uma religião, não importa qual seja, pois a religião poderá incutir nelas os bons valores morais”. Quando o crente ouve isso, não se deve animar. Por trás dessa frase está a ideia perigosa de que a Igreja é apenas uma escola do bom viver, e não a coluna que sustenta a verdade divina e única do evangelho, responsável por pregar a salvação eterna em Cristo aos perdidos que caminham para o fim sem fim. Um dos problemas com a concepção de que a Igreja é somente uma escola de bom comportamento é que isso gera a noção de que vida cristã é apenas a demonstração de que as lições morais dessa escola foram aprendidas. De fato, muita gente pensa que
  46. 46. O QUE A VIDA CRISTÃ NÃO É 53 vive a vida cristã simplesmente porque pratica os ensinos éticos básicos que aprendeu em determinada igreja durante certa fase da vida. Como isso está longe da verdade! Um homem, durante anos, pode observar de forma exemplar todas as lições de comporta- mento que ouviu de seus pais e mestres cristãos e, mesmo assim, não viver a vida cristã nenhum minuto sequer. Isso porque a vida cristã é fruto da transformação que decorre da fé no Salvador; e essa vida se mantém não meramente pela lembrança de boas li- ções, mas pela capacitação do Espírito Santo que habita de forma atuante no homem que crê. Mais uma vez é preciso lembrar que a vida que nutre bons costumes e elevados padrões morais, porém dissociada da transformação espiritual operada sobrenaturalmen- te por Deus, não pode ser chamada de vida cristã. Temores e mitos Existem facções do cristianismo que abrigam noções que, basi- camente, não passam de superstições, mitos e temores sem fun- damento. Essas vertentes têm conceitos próprios de vida cristã, acreditando que ela abrange certos cuidados que, se não forem tomados, gerarão graves prejuízos espirituais e até materiais para os relapsos. Entre os que adotam concepções assim, há aqueles que fo- gem de qualquer coisa que tenha tido origem no paganismo. São pessoas que se escandalizam diante de uma árvore de Natal, não compram ovos de Páscoa e se opõem à comemoração do Dia das Mães. Segundo essas pessoas, todas essas práticas devem ser evi- tadas pelos crentes porque originaram-se em mitos babilônicos e, dessa forma, não podem agradar a Deus. Ocorre, porém, que, se esse modo de pensar for correto, a vida do crente neste mundo se torna praticamente impossível. De fato, há tantas coisas de origem pagã que acolhemos no nosso
  47. 47. 5 4 Fundamentos da teologia da vida cristã estilo de vida comum que, se os cristãos tivessem de fugir de cada uma delas, a única opção seria viver no deserto. Os exemplos são inúmeros, mas apresentaremos apenas três: 1. As competições esportivas estão ligadas aos jogos da Grécia antiga, realizados em honra aos deuses do Olimpo; daí o termo *Olimpíadas”. 2. O culto dos antepassados incluía a manutenção de uma cha- ma acesa dentro de casa em honra aos deuses “do lar”. Eis a origem das nossas lareiras. 3. O mesmo culto dos antepassados motivava os adoradores a fixar os limites da propriedade dentro da qual os supostos deuses deveriam atuar. Como esses deuses eram facilmente atraídos por aparatos e amuletos, os adoradores tinham medo que eles vissem pessoas enfeitadas passando fora dos limites da propriedade e as seguissem, deixando desprotegidos os seus devotos. Como evitar essa tragédia? Era muito simples: os homens construíam paredes altas nos limites da sua propriedade e, assim, garantiam ali a per- manência dos espíritos que adoravam. Foi assim que surgiram os nossos muros!5 Assim, se a vida cristã implica evitar qualquer coisa de origem pagã, até os muros das casas dos crentes terão de ser removidos. Nada disso, porém, encontra amparo na Bíblia e são apenas re- ceios nascidos da ingenuidade. Receios nascidos da ingenuidade também marcam a mente de cristãos que vivem sob o medo de serem punidos por Deus por causa de pecados imaginários. Há crentes que pensam que o Senhor é um déspota caprichoso, que vasculha a vida das pessoas, pronto a se enraivecer por causa de qualquer ninharia. Pensam que a perda do emprego veio como castigo por terem deixado a * Para um estudo mais bem detalhado de instituições e práticas originadas no paganismo, cf. Fustel de Coulanges, A cidade antiga.
  48. 48. O QUE A VIDA CRISTA NÁO É 55 Bíblia cair no chão ou porque viram TV no domingo; acreditam que ficaram doentes porque não arrancaram do jardim a planta “Espada de São Jorge” usada por macumbeiros em seus trabalhos; dizem que as brigas e os problemas da família acontecem por cau- sa de um artefato indígena que guardam na gaveta da cômoda. Afirmam que, se esse artefato for destruído (com fogo!), então Deus voltará a abençoar a casa. Evangélicos que pensam assim são como a beata Josefa, persa- nagem de Eça de Queiroz, no livro O crime do padre Amaro, que se atormentava diante de uma enorme lista de pecados mortais. Quando ela sentia dores nas pernas, acreditava que era Nossa Se- nhora que a espetava como punição por se ter distraído durante as orações do rosário. Essa, porém, não era sua pior transgressão, nem o seu fardo mais leve: Havia outro pecado que a torturava: quando rezava, às vezes, sentia vir expectoração; e, tendo ainda o nome de Deus ou da Virgem na boca, tinha de escarrar; ultimamente engolia o escar- ro, mas estivera pensando que o nome de Deus ou da Virgem lhe descia de embrulhada para o estômago e se ia misturar com as fezes! Que havia de fazer?4 Um abade piedoso tentou ajudar Josefa. Esforçou-se por con- vencê-la de que todas aquelas inquietações eram fruto de uma “imaginação torturada pelo terror de ofender a Deus”. Acrescen- tou que “o Senhor não era um amo feroz e furioso, mas um pai indulgente e amigo”. Quando o abade se afastou, porém, Josefa se queixou frustrada, dizendo que ele era um tapado que não pres- tava para nada! Escrúpulos semelhantes aos de Josefa não podem ser considera- dos sequer parte da vida cristã. Eles são próprios de um cristianismo
  49. 49. Fundamentos da teologia da vida cristã5 6 em caricatura e de uma concepção errada dc Deus. Ninguém que os alimenta no coração e vive sob os seus ditames pode ser toma- do como exemplo da vida controlada pelo Espírito. Rigor ascético e zelo legalista Rigor ascético é a expressão que descreve a severa rejeição dos prazeres do corpo com o objetivo de alcançar a salvação ou um grau maior de santidade. Zelo legalista, por sua vez, é a rígida observância de normas posta em prática no anseio de agradar a Deus, crescer espiritualmente ou até mesmo obter o favor salví- fico do Senhor. O zelo legalista às vezes se identifica com o rigor ascético, pois muitas regras adotadas pelos legalistas proíbem o desfrute de certos prazeres corporais. Tanto o rigor ascético quanto o zelo legalista surgiram bem cedo na história da Igreja e, por terem certa aparência de pie- dade, foram confundidos com a vida cristã ideal, despertando a admiração de muitas pessoas, apesar de o próprio apóstolo Paulo ter censurado tanto uma coisa como a outra numa única passagem: Já que vocês morreram com Cristo para os princípios elemen- tares deste mundo, por que, como se ainda pertencessem a ele, vocês se submetem a regras: “Não manuseie!”, “Não prove!”, “Não toque!”? Todas essas coisas estão destinadas a perecer pelo uso, pois se baseiam em mandamentos e ensinos humanos. Essas regras têm, de fato, aparência de sabedoria, com sua pretensa humildade e severidade com o corpo, mas não têm valor algum para refrear os impulsos da carne. Colossenses 2:20-23 Escrevendo a Timóteo, Paulo foi ainda mais severo ao conde- nar o ascetismo e o zelo legalista. Ele chegou a dizer que ensinos desse tipo são “doutrinas de demônios”!
  50. 50. O Q U E Λ V I D A C R I S T Ã N Ã O É 5 7 O Espírito diz claramente que nos últimos tempos alguns aban- donarão a fé e seguirão espíritos enganadores e doutrinas de de- mônios. Tais ensinamentos vêm de homens hipócritas e menti- rosos, que têm a consciência cauterizada e proíbem o casamento e o consumo de alimentos que Deus criou para serem recebidos com ação de graças pelos que creem e conhecem a verdade. Pois tudo o que Deus criou é bom, e nada deve ser rejeitado, se for recebido com ação de graças, pois é santificado pela palavra de Deus e pela oração. ITimóteo 4 : 1 5 ‫׳‬ Paulo escreveu esses textos para combater uma forma incipien- te de gnosticismo que ameaçava a igreja do século 1. Os mestres do gnosticismo nascente acolhiam elementos da lei judaica e os mesclavam a concepções helenistas que consideravam a matéria essencialmente má, o que incluía o corpo humano. O resultado lógico dessa fusão era a proposta de um modo de vida ascético e legalista como veículo para conquistar a justificação. No tocante ao rigor ascético, o extremo na busca desse mode- lo de vida cristã talvez possa ser encontrado entre os santos dos pilares, que surgiram na Igreja oriental, no início do século V. Eles eram monges excêntricos que impunham terríveis sofrimentos a si próprios, vivendo longos anos no alto de uma coluna. A palavra grega para “coluna” é stylos. Por isso, os santos dos pilares foram chamados também de estilitas. O mais conhecido estilita e talvez o primeiro a adotar essa prá- tica foi Simeão (t 459). Ele passou anos a fio no topo aberto de altas colunas, sob sol, chuva e frio, em vigílias, penitências, jejuns e orações na busca da salvação e da vida que agrada a Deus. Simeão Estilita adotou essa prática em 423 e nela permaneceu até a sua morte, 36 anos depois. O lugar que escolheu para se entregar a tão terrível forma de autonegação ficava a dois dias de viagem de Antioquia da Síria (cerca de sessenta quilômetros
  51. 51. 58 Fundamentos da teolooia da vida crista a leste da cidade). Assim, ano após ano as pessoas podiam vi- sitá-Io e ali vê-lo vestindo uma túnica de pele de animais, com uma corrente em volta do pescoço, comendo vermes e piolhos ou recostado na cerca que rodeava o pequeno espaço em que ele permanecia sem nunca poder se deitar ou mesmo sentar-se. O máximo que Simeão podia fazer no estreito espaço de noventa centímetros de diâmetro de que dispunha era inclinar-se apoiado na cerca ou se curvar, com a cabeça quase tocando os pés, em reverência a Deus, o que fazia mais de mil vezes durante o dia, buscando o perdão para os seus pecados. Nos 36 anos em que viveu assim, Simeão Estilita se utilizou de quatro colunas. A primeira tinha quase três metros de altura, a segunda ultrapassava os cinco, a terceira media dez metros, e a quarta, na qual ele permaneceu durante os últimos vinte anos de sua vida, tinha cerca de quinze metros de altura. Simeão acredi- tava que devia se mudar para uma coluna mais alta à medida que ele crescia em perfeição e se aproximava mais do céu. A crença dos monges da Igreja antiga de que a salvação e o aperfeiçoamento espiritual advêm do rigor ascético permeou o modo de pensar de toda a cristandade durante a Idade Média. O exemplo mais chocante disso foram as várias companhias de flagelantes que surgiram naquela época. Elas eram formadas por pessoas que peregrinavam em grupos pelas cidades, chorando e gemendo enquanto chicoteavam as próprias costas com açoites de couro, a fim de obter o perdão dos pecados e, assim, garantir o livramento do purgatório e do inferno. O advento da Reforma Protestante no século XVI, com a conseqüente divulgação da verdadeira doutrina bíblica por todo o mundo, a substancial redução da ignorância e da superstição entre as pessoas comuns a partir do século XVII, nada disso pôs fim definitivo ao ascetismo dentro dos arraiais da Igreja. Ainda hoje, inúmeras pessoas que professam a fé cristã buscam o favor de Deus através do sofrimento auto imposto.
  52. 52. O QUE A VIDA CRISTA NÃO É 59 É verdade que a Bíblia ensina que a dor produz amadurecimen- to espiritual (SI 119:67,71; Tg 1:2-4; lPe 1:6-7). É também ver- dade que a vida cristã genuína passa por inúmeros padecimentos e privações antes de receber sua herança gloriosa nos céus (Rm 8:17; 2Co 4:16-18; lPe 4:13)· Porém, essas angústias que marcam a experiência do homem de fé nunca são (nem devem ser) produ- zidas por ele próprio. É somente Deus quem as administra, fazen- do-as sobrevir a seus filhos à medida que e no tempo em que as considera necessárias.5 Jó e Lamentações, os dois livros mais tristes da Bíblia, ensinam isso com tocantes e memoráveis afirmações: Ao ouvir isso, Jó levantou-se, rasgou o manto e rapou a cabeça. Então prostrou-se, rosto em terra, cm adoração, e disse: “Saí nu do ventre da minha mãe, e nu partirei. O Senhor o deu, o Senhor o levou; louvado seja o nome do Senhor”. [...] Então sua mulher lhe disse: “Você ainda mantém a sua integridade? Amaldiçoe a Deus, e morra!” Ele respondeu: “Você fala como uma insensata. Aceitaremos o bem dado por Deus, e não o mal?” Em tudo isso Jó não pecou com seus lábios. Jó 1:20-21; 2:9-10 Todos os seus irmãos e irmãs, e todos os que o haviam conhecido anteriormente vieram comer com ele em sua casa. Eles o con- solaram e o confortaram por todas as tribulações que o Senhor tinha trazido sobre ele, e cada um lhe deu uma peça de prata e um anel de ouro. Jó 42:11 É bom que o homem suporte o jugo enquanto é jovem. Leve-o so- zinho e em silêncio, porque o Senhor o pôs sobre ele. [...] Embora ’ Na verdade, Deus não administra o sofrimento somente do seu povo; ele distri- bui doenças e fracassos à humanidade em geral, como Senhor que é de toda vida humana. Por isso, a Bíblia diz que ele é o criador do pobre (ISm 2:7; Pv 14:31; 22:2) e também aquele que torna o homem surdo, mudo ou cego (Ex 4:11).
  53. 53. 60 Fundamentos da teologia da vida cristã ele traga tristeza, mostrará compaixão, tão grande é o seu amor infalível. [...] Não é da boca do Altíssimo que vêm tanto as des- graças como as bênçãos? Lamentações 3:27-28,32,38 Mesmo o apóstolo Paulo, quando disse “... esmurro o meu corpo e faço dele meu escravo” (ICo 9:27), não estava com isso querendo dizer que separava alguns momentos do dia para fusti- gar suas costas com um chicote. Ele queria apenas dizer que, em meio aos rigores do trabalho missionário, quando seu corpo, moí- do pela fadiga e pelas privações, pedia uma pausa, ele não cedia. Antes, como um atleta disciplinado, dizia não aos seus membros, obrigando-os a permanecer na corrida, sabendo que uma coroa o aguardava no final da prova. Tanto o romanismo como o evangelicalismo têm manifesta- do expressões de apego ao rigor ascético. Porém, é no romanismo, especialmente entre os clérigos regulares, que se verifica uma ênfase mais acentuada sobre as práticas de severidade com o corpo. Entre os evangélicos, entretanto, a inclinação é na di- reção do legalismo. De fato, é aterrador observar como um número imenso de crentes vive sob o fardo de regras inúteis, acreditando que a observância delas vai ajudá-los na busca da santificação. Entre essas regras, as mais comuns são as que fazem res- trições à comida e ao vestuário, destacando-se entre estas as que proíbem às mulheres o uso de ornamentos ou de calças compridas. Exemplos curiosos do ponto a que os evangélicos chegaram na imposição de escrúpulos estéreis aos membros de suas igrejas podem ser vistos nos minuciosos códigos de con- duta elaborados pelos líderes de algumas de suas comunidades. Em um desses documentos é estabelecido, entre outras inúme- ras normas, o seguinte:
  54. 54. O Q U E A V I D A C R I S T Ã N Ã O É 6 1 • Não é permitido o uso de calças compridas para mulheres, seja qual for o serviço a ser executado — na roça, no sítio, na la- voura, na fábrica, no comércio ou mesmo para dormir. • Os saltos dos sapatos e das botas das irmãs não deverão ultrapas- sar quatro centímetros e os dos irmãos não deverão ultrapassar três centímetros. • Pessoas que possuírem televisores ou videocassetes em suas casas não poderão ser membros. É permitido ter filmadora ou projetor, desde que não se assista em videocassete. • Não é permitido freqüentar praia ou piscina pública, mesmo vestindo trajes normais, pois há nudismo ou seminudismo nes- ses lugares. • É permitido usar bigodes apenas no caso de defeito físico nos lábios. ‫״‬ É permitido usar correntes para óculos desde que haja neces- sidade. • Meninas poderão brincar com bonecas, pois não se pode con- siderar uma boneca um ídolo. Todavia não é permitido brincar com bonecas que imitem artistas por ser estímulo à idolatria. • Não é permitido usar bebidas alcoólicas como ingrediente no preparo de alimentos. • Escovar os dentes não quebra o jejum, mesmo que se engula o creme dental. • Provar o tempero da comida não quebra o jejum. • Perfumes e desodorantes são permitidos. • Não é permitido ter pássaros em gaiolas. • Assobiar é permitido para louvar a Deus. Muitos evangélicos acreditam que a obediência a essas normas não somente garantirá sua entrada no céu, mas também os aju- dará a obter o dom do Espírito Santo, elevando-os à posição de crentes pertencentes a uma categoria especial e mais madura. Em Gálatas, contudo, Paulo perguntou aos seus leitores: “Gostaria

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