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Como conheci sua mãe
 
 
Capítulo 2 ­ 1987 
 
A nossa família, o pai e os três filhos, continuam no aeroporto, esperando a aterrissagem                             
do avião que trará a mãe deles de volta dos EUA, agora já mais aliviados porque sabem                                 
que ela está a caminho. Mas ainda faltam algumas horas e o café no Starbucks já                               
acabou. 
 
­ Café é uma bebida quente, não sei como vocês conseguem tomar café gelado… 
­ Já falamos sobre isso, pai! 
­ É, toda vez que a gente vem no Starbucks… 
­ Tenham dó do seu velho pai, já estou com quase 50… sabiam que na Idade Média                               
eu já seria considerado um ancião? Isso se eu estivesse vivo, pois a média era                             
viver 30, 35 anos. Já falei isso também? 
­ Já.  
­ Mas então, continua a sua história com a mãe, que isso é inédito. 
­ Então, vamos lá! 
­ Eu considero que 1987, o ano que eu completei 20 anos, foi o grande ano da                               
minha vida, o melhor que eu tinha vivido até então. É claro que a mudança tinha                               
começado no ano anterior, quero dizer, a abertura de horizontes. 
­ Que horizontes? 
­ Veja bem, depois daquela celebração de que eu falei, eu fui para o VI Encontro                             
Nacional das CEBs, em Trindade, Goiás. Era o mais longe que eu já tinha ido. Foi                               
uma experiência transformadora, que aumentou a minha convicção de “servir ao                     
povo de Deus” como sacerdote. 
­ O que aconteceu de tão importante neste encontro?  
­ Principalmente pela convivência, durante uma semana, com pessoas mais velhas                   
e que estavam envolvidas em projetos muito mais sérios do que os meus (por                           
exemplo, havia participantes que estavam ameaçados de morte por lutar contra os                       
capitalistas opressores), falou­se muito sobre o martírio, sobre luta pela terra,                     
essas coisas. O tema do encontros era: ​Cebs, Povo de Deus em busca da terra                             
prometida.​ Veja só! 
­ E você queria entrar nesta luta também? 
­ Aparentemente, sim. Mas hoje eu vejo por outro ângulo, para mim foi uma espécie                           
de rito de passagem. 
­ Rito de passagem? 
­ É como se chama o ritual por meio do qual o menino ou a menina passa da                                 
infância para a idade adulta. Era comum nas tribos indígenas e, de certa forma,                           
ainda existe hoje, mas não sob a forma ritual. O trote na universidade, por                           
exemplo, é uma forma, bem brutal e desnecessária na minha opinião, desse rito                         
hoje em dia. 
­ E depois do encontro, o que aconteceu? Você continauava a trabalhar lá nos                         
tanques... 
­ Sim, continuava. O encontro foi numa semana de férias. Acontece que 1986                       
também era ano de eleições, íamos eleger os deputados e senadores que                       
escreveriam a nova Constituição da República e, certamente, convocar eleições                   
diretas para presidente. Assim é que, alguns meses antes do previsto, eu decidi                         
pedir demissão do meu emprego para poder trabalhar em tempo integral no comitê                         
de campanha do deputado José Machado, do PT. 
­ Você trabalhou no PT? 
­ Mais ou menos… Eu não recebia propriamente um salário para ficar lá, onde                         
basicamente eu cuidava do telefone e das correspondências, organizando e                   
recebendo o material de campanha. Alguns dos filiados faziam uma vaquinha para                       
me pagar um pouco por mês, para compensar o fato de eu ter me demitido.  
­ Mas e depois da eleição? 
­ Depois da eleição eu iria para o seminário, lembra? Sabendo disso é que um                           
colga, lá do PT, me procurou um dia com a proposta e eu aceitei. É claro que eu                                   
perdi um pouco de dinheiro, mas aquilo também fez parte do meu rito de                           
passagem. 
­ Ainda estamos em 1986… 
­ Sim, mas este fato é importante, pois um belo dia, estava eu lá no comitê,                             
atendendo telefone, etc. e quem apareceu? 
­ O Lula? 
­ É, o Lula, que era candidato a deputado constituinte, também apareceu lá um dia,                           
numa festa, mas não é nele que eu estava pensando. 
­ Quem, então? 
­ A sua mãe! 
­ Ah, tá! Mas então, foi aí que rolou? 
­ Claro que não… eu ia para o seminário, lembra? Não podia pensar em namorar.                           
Além disso, ela já tinha namorado. 
­ E o que ela foi fazer lá então? 
­ É que nessa época ela já estava morando em Campinas, trabalhando na Unicamp.                         
Foi por isso, aliás, que ela não pôde ir àquela celebração, conforme me contou na                             
carta. Mas ela também estava super envolvida com a campanha política e                       
procurou o comitê em busca de formas de se engajar, já que ela votava em                             
Piracicaba. 
­ Foi a primeira vez que vocês conversaram? 
­ Não, certamente não. Não me lembro quando foi que nos falamos pela primeira                         
vez, mas certamente neste dia já nos conhecíamos há algum tempo. 
­ E sobre o que vocês falaram neste dia? 
­ Realmente não me lembro… só me lembro do fato em si, deve ter sido sobre a                               
campanha, sobre a igreja, nada pessoal. 
­ E depois? 
­ Depois, veio 1987. Que foi o melhor ano da minha vida até então! 
­ Por quê? 
­ Em primeiro lugar, por causa da universidade.  
­ Ué, mas você não foi para o seminário? 
­ Sim, mas é que a formação do sacerdote católico, ou padre como é popularmente                           
chamado, consiste de uma formação em filosofia, que dura três anos e uma                         
formação em teologia, que dura mais quatro anos, além das outras atividades                       
ligadas à vida da igreja (participação nas missas e sacramentos, ajuda nas                       
comunidades, etc.) e da convivência com os outros candidatos sob a orientação de                         
um reitor. Nesta época, a diocese de Piracicaba enviava os seminaristas para                       
fazer os cursos de filosofia e de teologia na PUC de Campinas. 
­ Daí você também veio para Campinas, onde a mãe já estava… tô vendo onde isso                             
vai dar. 
­ Sim, mas não tão rápido... Primeiro eu quero curtir a minha vida universitária um                           
pouco! Na verdade, era uma vida bem careta, nada de festas ou saídas noturnas                           
com os colegas. A gente morava no seminário, que ficava em Santa Bárbara e                           
saía de manhãzinha para Campinas todos os dias. 
­ De ônibus? 
­ Não, o seminário tinha uma perua e os seminaristas mais velhos, que tinham                         
habilitação, se revezavam na direção. Acabada a aula, voltávamos para casa,                     
onde o almoço já estava preparado pelas empregadas, que também cuidavam da                       
limpeza mais pesada (da leve, a gente cuidava), lavavam roupas, etc. Tínhamos,                       
então, a tarde livre para estudar, e a noite também, pois as atividades obrigatórias,                           
que incluíam ir à missa todo dia e fazer as orações do breviário, não tomavam                             
muito tempo. Dava até para jogar bola, duas ou três vezes por semana, o                           
problema é que quase nunca dava time, nós éramos em nove, mas alguns não                           
jogavam. 
­ Então, era tipo uma república? 
­ Sim, só que ao invés de sexo, drogas e rock and roll nós tínhamos missa e oração. 
­ Como se na república fosse só isso… 
­ Tô falando só pra te provocar… nós também não éramos santos. E agente                         
procurava se divertir também. Lembro até de uma noite em que, depois da missa,                           
fomos ao cinema da cidade assistir ​A Hora do Pesadelo​. 
­ Qual?  
­ O primeiríssimo, aquele pelo qual o Freddy Krueger ficou famoso: ​Nightmare on                       
Elm Street. 
­ E a universidade? 
­ A universidade para mim foi a grande revelação. Eu havia entrado no seminário                         
para ser padre, mas descobri na universidade a minha verdadeira vocação, se é                         
que isso existe : estudar filosofia. Sempre me lembro do meu primeiro contato com                           
Aristóteles e do meu esforço para entender os três primeiros capítulos da sua                         
Metafísica. Tente ler esse texto. É aquele que começa assim: “todo homem tem,                         
por natureza, desejo de conhecer.” Nas primeiras vezes você não consegue                     
perceber sobre o que ele está falando, mas relendo com cuidado, você reconstrói                         
o argumento, parágrafo por parágrafo, e percebe o próprio pensamento de                     
Aristóteles em ação. É isso que se faz em filosofia e eu não sei se eu saberia fazer                                   
outra coisa, mas, naquela época, eu percebi que isso eu podia aprender a fazer. E                             
é o que eu faço até hoje. 
­ E como era a PUC nesta época? Vocês tinham contato com os alunos dos outros                             
cursos? 
­ Sim, claro! O curso funcionava no campus central, ali na esquina da Glicério com a                             
Marechal Deodoro. Muitos cursos funcionavam ali à época. Na hora do intervalo, a                         
nossa diversão era passear pelo centro da cidade, especialmente pelas lojas da                       
rua barão de Jaguara. 
­ Ninguém estranhava vocês? Por serem do seminário? 
­ Claro que não, pois a gente se comportava como qualquer outro estudante, não                         
usava roupas especiais ou coisa do tipo. 
­ O curso era puxado? 
­ Depende. Havia muitos seminaristas na turma, os da nossa diocese e de outras                         
dioceses e alguns religiosos,isto é, não diocesanos. havia também alguns não                     
seminaristas pois o vestibular era aberto, qualquer um podia se inscrever e,                       
passando, podia fazer o curso; claro, pagando as mensalidades. Alguns                   
seminaristas tinham muita dificuldade e chegavam a detestar as aulas (claro, eles                       
queriam ser padres, não filósofos). 
­ E quem pagava a sua mensalidade? 
­ A diocese de Piracicaba, claro! Aliás, sou muito grato à diocese pela oportunidade                         
que eles me deram, oferecendo todas as condições para que eu estudasse e me                           
dedicasse aos estudos e à minha formação, cuidando de todo o resto. Mas,                         
infelizmente talvez para eles, o curso da PUC acabou por despertar em mim uma                           
outra vocação. 
­ Como foi isso? 
­ Os professores que eu tive neste primeiro ano de PUC eram muito bons. Era o                             
único curso de graduação em filosofia de Campinas, então, tinha os melhores                       
professores. Aprendi muito com eles, especialmente uma técnica de leitura que                     
uso até hoje, a paragrafação e o esquema para fichamento, que me ensinaram a                           
ler de fato. É um método demorado, mas eficiente. Mas também tive também boas                           
noções de lógica e de história da filosofia. Houve uma semana sobre Aristóteles                         
logo no começo do curso que também me impressionou bastante. Outro evento de                         
que eu me lembro bem foi um debate baseado no filme ​Blade Runner​, que nós                             
assistimos lá, num auditório. 
­ Por isso você gosta tanto deste filme… 
­ É, é um dos meus preferidos até hoje! 
­ A sua vida então se resumia em estudar na PUC de manhã, no seminário à tarde.                               
E nos fins de semana, o que acontecia? 
­ Nos finais de semana a gente ia “fazer pastoral”, como dizíamos, que era                         
basicamente o seguinte: ajudar algum padre de alguma paróquia nos seus                     
afazeres do fim de semana (celebração da missa, reunião com grupos específicos,                       
ter contato com as pessoas).  
­ Era uma espécie de estágio? 
­ Mais ou menos isso. Foi assim que eu retornei à paróquia onde eu morava, pois o                               
padre que eu ajudava era o padre da minha antiga paróquia. 
­ O que é paróquia? 
­ Paróquia é uma divisão administrativa e pastoral da diocese. Geralmente                   
compreende alguns bairros da cidade e tem uma igreja como sede. É onde o                           
padre trabalha, de fato. Normalmente, ele tem uma casa próximo à igreja sede. Na                           
época em que eu ficava lá, a paróquia compreendia os bairros do Piracicamirim e                           
Morumbi além do Dois Córregos (onde eu morava quando comecei a participar da                         
igreja), e outros bairros próximos. Havia várias igrejas na paróquia e o padre devia                           
atender a todas elas. A casa paroquial ficava (ainda fica) nos fundos da igreja e                             
era lá que eu ficava nos finais de semana. 
­ Essa vida durou quanto tempo? 
­ Olha, parece que foi muito tempo, mas fazendo as contas dá para ver que foram                             
só alguns meses. Eu entrei no seminário efetivamente em Março, já em meados                         
de Setembro eu estava decidido a a sair, mas fiquei lá até o fim do ano letivo, pelo                                   
menos. 
­ Por quê? O que aconteceu em setembro, especificamente? 
­ Bem, vocês sabem que naquela época não havia internet, né? Então, para nos                         
comunicar, a gente costumava usar cartas mesmo. Escrever numa folha de                     
caderno, colocar no envelope, por um selo e enviar pelo correio. Aí, esperar a                           
resposta, que sempre demorava a chegar (quando chegava). Eu tinha, nesta                     
época, uma rede social modesta, mas ativa. Pessoas para quem eu escrevia e que                           
me respondiam. É claro que a sua mãe fazia parte desta minha pequena rede. Foi                             
assim que combinamos de nos ver, já que ela não apenas morava em Campinas                           
como também estudava na PUC, só que à noite (pois ela trabalhava durante o                           
dia). 
­ Isso era permitido? Digo, encontrar com garotas? 
­ Mais ou menos. Ninguém censurava as correspondências, embora o reitor do                     
seminário censurasse o telefone da casa. 
­ Quem era o reitor? 
­ O reitor era um padre, que era o responsável pelo seminário. Cuidava para que                           
obedecêssemos as regras e, francamente, não era uma pessoa muito flexível. 
­ E em setembro? 
­ Em setembro, como vocês sabem, é aniversário dela. Dei um jeito de ficar em                           
Campinas e, com o pretexto de lhe dar um presente, combinamos de nos ver num                             
sábado de manhã, no largo do Rosário. Esse foi um de vários encontros que                           
tivemos, pois eu tinha alguma liberdade para ficar em Campinas, embora, claro,                       
isso gerasse desconfiança nos outros. 
­ Por que desconfiança? 
­ Porque é óbvio, como vocês já perceberam, que foi nestes encontros (além das                         
cartas) que fomos nos aproximando e nos apaixonando. 
­ Que romântico!!! 
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Como conheci sua mãe no PT em 1987

  • 1. Como conheci sua mãe     Capítulo 2 ­ 1987    A nossa família, o pai e os três filhos, continuam no aeroporto, esperando a aterrissagem                              do avião que trará a mãe deles de volta dos EUA, agora já mais aliviados porque sabem                                  que ela está a caminho. Mas ainda faltam algumas horas e o café no Starbucks já                                acabou.    ­ Café é uma bebida quente, não sei como vocês conseguem tomar café gelado…  ­ Já falamos sobre isso, pai!  ­ É, toda vez que a gente vem no Starbucks…  ­ Tenham dó do seu velho pai, já estou com quase 50… sabiam que na Idade Média                                eu já seria considerado um ancião? Isso se eu estivesse vivo, pois a média era                              viver 30, 35 anos. Já falei isso também?  ­ Já.   ­ Mas então, continua a sua história com a mãe, que isso é inédito.  ­ Então, vamos lá!  ­ Eu considero que 1987, o ano que eu completei 20 anos, foi o grande ano da                                minha vida, o melhor que eu tinha vivido até então. É claro que a mudança tinha                                começado no ano anterior, quero dizer, a abertura de horizontes.  ­ Que horizontes?  ­ Veja bem, depois daquela celebração de que eu falei, eu fui para o VI Encontro                              Nacional das CEBs, em Trindade, Goiás. Era o mais longe que eu já tinha ido. Foi                                uma experiência transformadora, que aumentou a minha convicção de “servir ao                      povo de Deus” como sacerdote.  ­ O que aconteceu de tão importante neste encontro?   ­ Principalmente pela convivência, durante uma semana, com pessoas mais velhas                    e que estavam envolvidas em projetos muito mais sérios do que os meus (por                            exemplo, havia participantes que estavam ameaçados de morte por lutar contra os                        capitalistas opressores), falou­se muito sobre o martírio, sobre luta pela terra,                      essas coisas. O tema do encontros era: ​Cebs, Povo de Deus em busca da terra                              prometida.​ Veja só!  ­ E você queria entrar nesta luta também?  ­ Aparentemente, sim. Mas hoje eu vejo por outro ângulo, para mim foi uma espécie                            de rito de passagem.  ­ Rito de passagem?  ­ É como se chama o ritual por meio do qual o menino ou a menina passa da                                  infância para a idade adulta. Era comum nas tribos indígenas e, de certa forma,                            ainda existe hoje, mas não sob a forma ritual. O trote na universidade, por                           
  • 2. exemplo, é uma forma, bem brutal e desnecessária na minha opinião, desse rito                          hoje em dia.  ­ E depois do encontro, o que aconteceu? Você continauava a trabalhar lá nos                          tanques...  ­ Sim, continuava. O encontro foi numa semana de férias. Acontece que 1986                        também era ano de eleições, íamos eleger os deputados e senadores que                        escreveriam a nova Constituição da República e, certamente, convocar eleições                    diretas para presidente. Assim é que, alguns meses antes do previsto, eu decidi                          pedir demissão do meu emprego para poder trabalhar em tempo integral no comitê                          de campanha do deputado José Machado, do PT.  ­ Você trabalhou no PT?  ­ Mais ou menos… Eu não recebia propriamente um salário para ficar lá, onde                          basicamente eu cuidava do telefone e das correspondências, organizando e                    recebendo o material de campanha. Alguns dos filiados faziam uma vaquinha para                        me pagar um pouco por mês, para compensar o fato de eu ter me demitido.   ­ Mas e depois da eleição?  ­ Depois da eleição eu iria para o seminário, lembra? Sabendo disso é que um                            colga, lá do PT, me procurou um dia com a proposta e eu aceitei. É claro que eu                                    perdi um pouco de dinheiro, mas aquilo também fez parte do meu rito de                            passagem.  ­ Ainda estamos em 1986…  ­ Sim, mas este fato é importante, pois um belo dia, estava eu lá no comitê,                              atendendo telefone, etc. e quem apareceu?  ­ O Lula?  ­ É, o Lula, que era candidato a deputado constituinte, também apareceu lá um dia,                            numa festa, mas não é nele que eu estava pensando.  ­ Quem, então?  ­ A sua mãe!  ­ Ah, tá! Mas então, foi aí que rolou?  ­ Claro que não… eu ia para o seminário, lembra? Não podia pensar em namorar.                            Além disso, ela já tinha namorado.  ­ E o que ela foi fazer lá então?  ­ É que nessa época ela já estava morando em Campinas, trabalhando na Unicamp.                          Foi por isso, aliás, que ela não pôde ir àquela celebração, conforme me contou na                              carta. Mas ela também estava super envolvida com a campanha política e                        procurou o comitê em busca de formas de se engajar, já que ela votava em                              Piracicaba.  ­ Foi a primeira vez que vocês conversaram?  ­ Não, certamente não. Não me lembro quando foi que nos falamos pela primeira                          vez, mas certamente neste dia já nos conhecíamos há algum tempo.  ­ E sobre o que vocês falaram neste dia?  ­ Realmente não me lembro… só me lembro do fato em si, deve ter sido sobre a                                campanha, sobre a igreja, nada pessoal.  ­ E depois?  ­ Depois, veio 1987. Que foi o melhor ano da minha vida até então!  ­ Por quê? 
  • 3. ­ Em primeiro lugar, por causa da universidade.   ­ Ué, mas você não foi para o seminário?  ­ Sim, mas é que a formação do sacerdote católico, ou padre como é popularmente                            chamado, consiste de uma formação em filosofia, que dura três anos e uma                          formação em teologia, que dura mais quatro anos, além das outras atividades                        ligadas à vida da igreja (participação nas missas e sacramentos, ajuda nas                        comunidades, etc.) e da convivência com os outros candidatos sob a orientação de                          um reitor. Nesta época, a diocese de Piracicaba enviava os seminaristas para                        fazer os cursos de filosofia e de teologia na PUC de Campinas.  ­ Daí você também veio para Campinas, onde a mãe já estava… tô vendo onde isso                              vai dar.  ­ Sim, mas não tão rápido... Primeiro eu quero curtir a minha vida universitária um                            pouco! Na verdade, era uma vida bem careta, nada de festas ou saídas noturnas                            com os colegas. A gente morava no seminário, que ficava em Santa Bárbara e                            saía de manhãzinha para Campinas todos os dias.  ­ De ônibus?  ­ Não, o seminário tinha uma perua e os seminaristas mais velhos, que tinham                          habilitação, se revezavam na direção. Acabada a aula, voltávamos para casa,                      onde o almoço já estava preparado pelas empregadas, que também cuidavam da                        limpeza mais pesada (da leve, a gente cuidava), lavavam roupas, etc. Tínhamos,                        então, a tarde livre para estudar, e a noite também, pois as atividades obrigatórias,                            que incluíam ir à missa todo dia e fazer as orações do breviário, não tomavam                              muito tempo. Dava até para jogar bola, duas ou três vezes por semana, o                            problema é que quase nunca dava time, nós éramos em nove, mas alguns não                            jogavam.  ­ Então, era tipo uma república?  ­ Sim, só que ao invés de sexo, drogas e rock and roll nós tínhamos missa e oração.  ­ Como se na república fosse só isso…  ­ Tô falando só pra te provocar… nós também não éramos santos. E agente                          procurava se divertir também. Lembro até de uma noite em que, depois da missa,                            fomos ao cinema da cidade assistir ​A Hora do Pesadelo​.  ­ Qual?   ­ O primeiríssimo, aquele pelo qual o Freddy Krueger ficou famoso: ​Nightmare on                        Elm Street.  ­ E a universidade?  ­ A universidade para mim foi a grande revelação. Eu havia entrado no seminário                          para ser padre, mas descobri na universidade a minha verdadeira vocação, se é                          que isso existe : estudar filosofia. Sempre me lembro do meu primeiro contato com                            Aristóteles e do meu esforço para entender os três primeiros capítulos da sua                          Metafísica. Tente ler esse texto. É aquele que começa assim: “todo homem tem,                          por natureza, desejo de conhecer.” Nas primeiras vezes você não consegue                      perceber sobre o que ele está falando, mas relendo com cuidado, você reconstrói                          o argumento, parágrafo por parágrafo, e percebe o próprio pensamento de                      Aristóteles em ação. É isso que se faz em filosofia e eu não sei se eu saberia fazer                                    outra coisa, mas, naquela época, eu percebi que isso eu podia aprender a fazer. E                              é o que eu faço até hoje. 
  • 4. ­ E como era a PUC nesta época? Vocês tinham contato com os alunos dos outros                              cursos?  ­ Sim, claro! O curso funcionava no campus central, ali na esquina da Glicério com a                              Marechal Deodoro. Muitos cursos funcionavam ali à época. Na hora do intervalo, a                          nossa diversão era passear pelo centro da cidade, especialmente pelas lojas da                        rua barão de Jaguara.  ­ Ninguém estranhava vocês? Por serem do seminário?  ­ Claro que não, pois a gente se comportava como qualquer outro estudante, não                          usava roupas especiais ou coisa do tipo.  ­ O curso era puxado?  ­ Depende. Havia muitos seminaristas na turma, os da nossa diocese e de outras                          dioceses e alguns religiosos,isto é, não diocesanos. havia também alguns não                      seminaristas pois o vestibular era aberto, qualquer um podia se inscrever e,                        passando, podia fazer o curso; claro, pagando as mensalidades. Alguns                    seminaristas tinham muita dificuldade e chegavam a detestar as aulas (claro, eles                        queriam ser padres, não filósofos).  ­ E quem pagava a sua mensalidade?  ­ A diocese de Piracicaba, claro! Aliás, sou muito grato à diocese pela oportunidade                          que eles me deram, oferecendo todas as condições para que eu estudasse e me                            dedicasse aos estudos e à minha formação, cuidando de todo o resto. Mas,                          infelizmente talvez para eles, o curso da PUC acabou por despertar em mim uma                            outra vocação.  ­ Como foi isso?  ­ Os professores que eu tive neste primeiro ano de PUC eram muito bons. Era o                              único curso de graduação em filosofia de Campinas, então, tinha os melhores                        professores. Aprendi muito com eles, especialmente uma técnica de leitura que                      uso até hoje, a paragrafação e o esquema para fichamento, que me ensinaram a                            ler de fato. É um método demorado, mas eficiente. Mas também tive também boas                            noções de lógica e de história da filosofia. Houve uma semana sobre Aristóteles                          logo no começo do curso que também me impressionou bastante. Outro evento de                          que eu me lembro bem foi um debate baseado no filme ​Blade Runner​, que nós                              assistimos lá, num auditório.  ­ Por isso você gosta tanto deste filme…  ­ É, é um dos meus preferidos até hoje!  ­ A sua vida então se resumia em estudar na PUC de manhã, no seminário à tarde.                                E nos fins de semana, o que acontecia?  ­ Nos finais de semana a gente ia “fazer pastoral”, como dizíamos, que era                          basicamente o seguinte: ajudar algum padre de alguma paróquia nos seus                      afazeres do fim de semana (celebração da missa, reunião com grupos específicos,                        ter contato com as pessoas).   ­ Era uma espécie de estágio?  ­ Mais ou menos isso. Foi assim que eu retornei à paróquia onde eu morava, pois o                                padre que eu ajudava era o padre da minha antiga paróquia.  ­ O que é paróquia?  ­ Paróquia é uma divisão administrativa e pastoral da diocese. Geralmente                    compreende alguns bairros da cidade e tem uma igreja como sede. É onde o                           
  • 5. padre trabalha, de fato. Normalmente, ele tem uma casa próximo à igreja sede. Na                            época em que eu ficava lá, a paróquia compreendia os bairros do Piracicamirim e                            Morumbi além do Dois Córregos (onde eu morava quando comecei a participar da                          igreja), e outros bairros próximos. Havia várias igrejas na paróquia e o padre devia                            atender a todas elas. A casa paroquial ficava (ainda fica) nos fundos da igreja e                              era lá que eu ficava nos finais de semana.  ­ Essa vida durou quanto tempo?  ­ Olha, parece que foi muito tempo, mas fazendo as contas dá para ver que foram                              só alguns meses. Eu entrei no seminário efetivamente em Março, já em meados                          de Setembro eu estava decidido a a sair, mas fiquei lá até o fim do ano letivo, pelo                                    menos.  ­ Por quê? O que aconteceu em setembro, especificamente?  ­ Bem, vocês sabem que naquela época não havia internet, né? Então, para nos                          comunicar, a gente costumava usar cartas mesmo. Escrever numa folha de                      caderno, colocar no envelope, por um selo e enviar pelo correio. Aí, esperar a                            resposta, que sempre demorava a chegar (quando chegava). Eu tinha, nesta                      época, uma rede social modesta, mas ativa. Pessoas para quem eu escrevia e que                            me respondiam. É claro que a sua mãe fazia parte desta minha pequena rede. Foi                              assim que combinamos de nos ver, já que ela não apenas morava em Campinas                            como também estudava na PUC, só que à noite (pois ela trabalhava durante o                            dia).  ­ Isso era permitido? Digo, encontrar com garotas?  ­ Mais ou menos. Ninguém censurava as correspondências, embora o reitor do                      seminário censurasse o telefone da casa.  ­ Quem era o reitor?  ­ O reitor era um padre, que era o responsável pelo seminário. Cuidava para que                            obedecêssemos as regras e, francamente, não era uma pessoa muito flexível.  ­ E em setembro?  ­ Em setembro, como vocês sabem, é aniversário dela. Dei um jeito de ficar em                            Campinas e, com o pretexto de lhe dar um presente, combinamos de nos ver num                              sábado de manhã, no largo do Rosário. Esse foi um de vários encontros que                            tivemos, pois eu tinha alguma liberdade para ficar em Campinas, embora, claro,                        isso gerasse desconfiança nos outros.  ­ Por que desconfiança?  ­ Porque é óbvio, como vocês já perceberam, que foi nestes encontros (além das                          cartas) que fomos nos aproximando e nos apaixonando.  ­ Que romântico!!!  ­ Bem, agora acho melhor dar uma parada? Quem está com fome?