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1
LIBERTAÇÃO EM “POÉTICA”, DE MANUEL BANDEIRA
Ana Carolina Polo da Cruz Felício1
Camila Cristina Pereira da Silva
Dea Dilma Correa de Souza
Patrícia Carreira de Carvalho
Thabata Paganotti da Costa
RESUMO
Este artigo tem como objetivo apresentar a análise do poema “Poética” de Manuel
Bandeira, através de uma perspectiva social diante do contexto histórico em que estava
inserido. Também busca discorrer sobre a crítica de Manuel Bandeira ao excesso de erudição
dos poetas do seu tempo, sobre o Modernismo e a grande ruptura que a Semana de Arte
Moderna de 1922 proporcionou para as artes brasileiras.
Palavras-chave: crítica, social, arte, literatura, modernismo
INTRODUÇÃO
O presente trabalho tem por objetivo analisar o poema “Poética”, de Manuel Bandeira
(1886-1968), numa perspectiva social e apresentar o autor como peça importante da primeira
fase modernista e participante da Semana de Arte Moderna de 1922, que marcou o
rompimento com o estruturalismo parnasiano. A análise mostrará que o poema “Poética” é
uma crítica clara a autores da literatura parnasiana e romântica.
Em alguns trechos do poema iremos verificar o rompimento das regras que
representavam o “academicismo” e a introdução do novo estilo literário, com versos livres e
liberdade para criação poética, sem estar preso a regras e formatos clássicos, como prega a
proclamação do “lirismo libertador”.
O estudo apresenta o poema com características críticas em relação aos movimentos
literários que antecederam o Modernismo. E que a partir desta fase, a literatura brasileira
assumiu a direção dos seus padrões e começou a se expressar livremente. A análise descreveu
também a contextualização histórica e a biografia do autor. A presente pesquisa baseou-se em
autores como José Nicola e Alfredo Bosi. Ambos abordam a literatura numa perspectiva
crítica e social.
CONTEXTO HISTÓRICO
O Modernismo Brasileiro teve início no século XX com a preocupação de autores e
artistas em romper com valores antigos que se mostravam distantes das sensações vividas por
muitos na época. Sua primeira fase (1922-1930) ficou conhecida como Fase Heroica, devido
ao empenho dos artistas, inspirados nas vanguardas europeias e no trabalho da renovação
estética no Brasil. A segunda fase, foi conhecida também como Fase de Consolidação, por
espalhar e normalizar os esforços da primeira fase. Esse momento é caracterizado pelo
predomínio da prosa e da ficção. A terceira fase dá sequência à prosa produzida na fase
anterior, mas com certa renovação formal. É neste período que surge o grupo denominado
“geração de 45”.
1
Estudantes dos 4º e 5º Semestres do Curso de Letras Língua Portuguesa/Inglês na Universidade Paulista - UNIP
2
A princípio, o ponto de unidade ideológica entre esses artistas era apenas a
necessidade de mudança, mas não se tinha algo sólido para substituir os valores antigos. A
partir dessa perspectiva, o Modernismo Brasileiro nasce com a Semana de Arte Moderna de
1922, que ocorreu entre os dias 11 e 18 de fevereiro, no Teatro Municipal de São Paulo. Não
há um consenso sobre quem possa ter sugerido a criação da Semana dentre os artistas
envolvidos.
O objetivo era estabilizar uma nova forma de consciência criadora brasileira, atualizar
a inteligência artística do país e conquistar o direito à pesquisa estética, que teve como
principal propósito renovar, transformar o contexto artístico e cultural urbano, tanto na
literatura, quanto nas artes plásticas, na arquitetura e na música. Para tal feito, eles se
propuseram a implantar o uso do verso livre como forma de denunciar o desapego às formas
antes cultuadas pelos autores parnasianos, como também apostaram no uso de um linguajar
voltado para o coloquialismo, justamente em repúdio ao predomínio da sintaxe exagerada e da
erudição, presente nas escolas literárias anteriores.
O movimento modernista eclodiu em um contexto repleto de agitações políticas,
sociais, econômicas e culturais. Em meio a este redemoinho histórico surgiram as vanguardas
artísticas e linguagens liberadas de regras e de disciplinas. A Semana, como toda inovação,
não foi bem acolhida pelos tradicionais paulistas, e a crítica não poupou esforços para destruir
suas ideias, em plena vigência da República Velha, encabeçada por oligarcas do café e da
política conservadora que então dominava o cenário brasileiro. A elite, habituada aos modelos
estéticos europeus mais arcaicos, sentiu-se violentada em sua sensibilidade e afrontada em
suas preferências artísticas.
Os movimentos futuristas europeus influenciaram muitos artistas, como Anita
Malfatti. Além de Anita, muitos nomes participaram desse primeiro momento do Modernismo
representando as artes, a música, a literatura e a arquitetura, como Di Cavalcanti, Victor
Brecheret, Mário de Andrade, Oswald de Andrade, Villa-Lobos, entre outros.
A Semana não foi bem recebida pela sociedade arcaica da época, elite influenciada
pelos padrões tradicionais. O que acontecera entre os dias 11 e 18 de fevereiro de 1922
marcou o rompimento das estruturas antigas. O principal legado da Semana de Arte Moderna
foi libertar a arte brasileira da reprodução nada criativa de padrões europeus, e dar início à
construção de uma cultura essencialmente nacional.
ANÁLISE DE “POÉTICA”, DE MANUEL BANDEIRA, ATRAVÉS DE UMA
PERSPECTIVA SOCIAL
Manuel Bandeira, autor de “Poética”, integrou junto com Mário de Andrade e Oswald
de Andrade, a tríade dos escritores mais importantes da primeira fase modernista (1922 –
1930), conhecida como o período mais radical do Modernismo, visto que este foi o momento
em que os escritores e artistas de modo geral, viam a necessidade de romper todas as
estruturas do passado, investindo em novas formas de expressar o lirismo em suas obras
poéticas, bem como mudanças na área da música e da pintura.
A literatura feita no século XIX ainda era essencialmente marcada pelo estruturalismo,
sendo o Parnasianismo o principal movimento do qual os poetas modernistas tinham aversão,
devido ao apego dos parnasianos pela valorização da forma, dos clássicos, da linguagem
rebuscada, da métrica e da busca pela perfeição na poesia. Um exemplo disso, era a
preocupação dos poetas parnasianos em criar rimas ricas, que são aquelas feitas com palavras
de classes gramaticais diferentes, exemplificadas a seguir:
“Mais que esse vulto extraordinário,
Que assombra a vista,
3
Seduz-me um leve relicário
De fino artista.”
Neste excerto de “Profissão de Fé”, de Olavo Bilac, podemos verificar o uso de rimas
ricas através da rima entre “extraordinário”, um adjetivo e “relicário”, um substantivo.
Partindo deste contexto, é possível compreender melhor o sentimento de revolução que os
modernistas tinham ao criar e apresentar ao mundo durante a Semana de Arte Moderna de
1922, novos estilos literários, com versos livres – muitas vezes sem rima e sem métrica. Os
poetas modernistas queriam a liberdade para criar os seus versos de acordo com as suas
intenções e não de acordo com as regras regidas pelo “academicismo literário”; eles buscavam
a liberdade de expressão e é partindo desta premissa, que Manuel Bandeira escreve “Poética”,
uma crítica clara ao estruturalismo vigente na literatura parnasiana, bem como a romântica,
como veremos no decorrer deste texto.
Abaixo, temos a transcrição completa da poesia e em seguida, a análise dos trechos da
obra:
Estou farto do lirismo comedido
Do lirismo bem comportado
Do lirismo funcionário público com livro de ponto expediente
protocolo e manifestações de apreço ao Sr. diretor.
Estou farto do lirismo que pára e vai averiguar no dicionário
o cunho vernáculo de um vocábulo.
Abaixo os puristas
Todas as palavras sobretudo os barbarismos universais
Todas as construções sobretudo as sintaxes de exceção
Todos os ritmos sobretudo os inumeráveis
Estou farto do lirismo namorador
Político
Raquítico
Sifilítico
De todo lirismo que capitula ao que quer que seja
fora de si mesmo
De resto não é lirismo
Será contabilidade tabela de co-senos secretário do amante
exemplar com cem modelos de cartas e as diferentes
maneiras de agradar às mulheres, etc
Quero antes o lirismo dos loucos
O lirismo dos bêbedos
O lirismo difícil e pungente dos bêbedos
O lirismo dos clowns de Shakespeare
- Não quero mais saber do lirismo que não é libertação.
O poema pode ser dividido em duas partes. A primeira com o lirismo comedido como
ele mesmo se refere, que faz uma referência ao estilo seguido pelos parnasianos:
Estou farto do lirismo comedido
Do lirismo bem comportado
Do lirismo funcionário público com livro de ponto expediente
protocolo e manifestações de apreço ao Sr. diretor.
Estou farto do lirismo que pára e vai averiguar no dicionário
o cunho vernáculo de um vocábulo.
4
Abaixo os puristas
Todas as palavras sobretudo os barbarismos universais
Todas as construções sobretudo as sintaxes de exceção
Todos os ritmos sobretudo os inumeráveis
Tais poetas, por serem tão preocupados com a forma, recorriam ao dicionário
constantemente, a fim de encontrar as palavras que julgavam perfeitas – aquelas que se
“encaixariam” no poema, tanto pela estrutura quanto pelo significado contido. Nota-se
também a repetição de “Estou farto...”, o que evidencia a negação a tudo que não seja o
lirismo livre, a liberdade poética.
É interessante ressaltar que no poema analisado, não há uma ordem sintaticamente
correta na pontuação – o autor se utiliza de pontos finais em alguns versos e mesmo na
sequência direta de palavras, não foram utilizadas vírgulas. Tais características são comuns na
poesia modernista, uma vez que os escritores buscavam a valorização do verso livre. Observe
a questão da pontuação a seguir:
“Estou farto do lirismo namorador
Político
Raquítico
Sifilítico”
Podemos verificar neste verso uma possível relação entre os termos apresentados pelo
autor e os temas centrais da poesia romântica. O “lirismo namorador” pode ser uma referência
à representação idealizada do Amor, bem como o “lirismo político”, à poesia de caráter social
da terceira fase e por fim, o “lirismo raquítico e sifilítico”, aos poetas ultrarromânticos da
segunda fase, também conhecida como Mal do Século, justamente por serem abordados
assuntos como a morte e a solidão.
Nesta segunda parte do poema o autor se refere a outro lirismo: o lirismo do dia a dia,
o lirismo que está dentro de si, que torna as coisas mais simples da vida em poesia. Manuel
Bandeira queria a poesia de libertação, sem regras a serem seguidas.
“De todo lirismo que capitula ao que quer que seja
fora de si mesmo
De resto não é lirismo
Será contabilidade tabela de co-senos secretário do amante
exemplar com cem modelos de cartas e as diferentes
maneiras de agradar às mulheres, etc
Quero antes o lirismo dos loucos
O lirismo dos bêbados
O lirismo difícil e pungente dos bêbados
O lirismo dos clowns de Shakespeare”
Neste trecho, representação do ideal modernista, há o claro desejo e a pretensão de
buscar uma identidade nacional, que atendesse a necessidade latente de criar uma forma nova
para as artes de um modo geral, que incluísse todas as partes deste todo denominado cultura
brasileira, tão irreverente que subvertesse a forma antiga e que num primeiro momento causou
estranheza pela forma de expressão tão espontânea e natural.
O ideal modernista buscou o espirito primitivo da cultura brasileira, utilizando
imagens e formas do nosso cotidiano, do sertão, da caatinga, das formas que retratassem a
vida, a realidade desse povo até então, quase desconhecida no mundo. Fazem parte deste novo
5
evento cultural a paródia, o pastiche, a desconstrução da sintaxe, a falta de lógica aparente, o
“antidiscursivismo”, a simplicidade e a valorização da linguagem coloquial e oral.
Poética é um verdadeiro manifesto literário a favor dos ideais modernistas, pois
apresentou uma crítica aos antigos padrões clássicos e seletivos e sintetizou os princípios
recém-nascidos modernistas, com certa influência das vanguardas europeias, para todas as
áreas das artes brasileira. O movimento apresentou à sociedade uma estética literalmente
tupiniquim, proposta nova para a arte brasileira, uma vez que partindo deles, a literatura
redimensionou seus “padrões” e muitos escritores se sentiram à vontade para se expressarem
livremente, a fim de colocar em sua obra o que mais lhes convinha – é o lirismo da libertação
e o olhar voltado para os detalhes do mundo.
Para Bandeira, o valor da poesia não estava em sua métrica ou erudição, mas na
criatividade do poeta em exteriorizar seus sentimentos e vontades, frequentemente
influenciados pelo contexto social vivido. A singularidade das coisas ao seu redor eram
motivo para escrever uma poesia. A criação poética de Manuel Bandeira pode ser definida
pelas palavras de Mário de Andrade: “quando sinto a impulsão lírica escrevo sem pensar
tudo que meu inconsciente me grita. Penso depois (...)”.
BIOGRAFIA – MANUEL BANDEIRA
Manuel Carneiro de Souza Bandeira Filho nasceu no dia 19 de abril de 1886, em
Recife, Pernambuco. Seu pai¸ Manuel Carneiro de Souza Bandeira, era engenheiro civil e sua
mãe, Francelina Ribeiro de Bandeira, mudaram com a família para o Rio de Janeiro quando
Bandeira tinha 10 anos, onde cursou o secundário no Externato do Ginásio Nacional,
bacharelando-se em letras. Em 1892 Bandeira voltou para o Recife e escreveu seus primeiros
versos, nesta época ainda não pensava em ser poeta.
Em 1903 vai para São Paulo e matricula-se na Escola Politécnica, no curso de
arquitetura, porém abandona o curso por ter contraído tuberculose. Em 1913, Manuel
Bandeira vai para o sanatório de Cladavel, na Suíça, onde fica até 1914, neste período convive
com o poeta francês Paul Éluard, eles discutem as inovações artísticas que estavam
acontecendo na Europa, isso influenciou muito a obra de Manuel Bandeira e seus versos
livres.
O poeta volta a morar no Rio de Janeiro no início da Primeira Guerra, em 1914, e em
1917 publica seu primeiro livro "A Cinza das Horas". Este livro ainda tem forte influência
Parnasiana e Simbolista. Em 1919, a publicação do seu segundo livro "Carnaval" marca sua
entrada no movimento modernista. Em 1922 acontece a Semana da Arte Moderna; Manuel
bandeira não participa, mas manda seu poema "Os Sapos", uma sátira ao Parnasianismo, e é
lido por Ronald de Carvalho e tumultua o Teatro Municipal.
Manuel Bandeira era professor, poeta, cronista, crítico e historiador literário. Em 1940
foi eleito pela Academia Brasileira de Letras, ocupando a cadeira de n°24 e em 1943 é
nomeado professor de Literatura Hispano-Americana da Faculdade Nacional de Filosofia.
Como crítico de literatura e historiador literário consagrou-se pelo estudo sobre as Cartas
Chilenas, de Tomás Antônio Gonzaga e pelo esboço biográfico de Gonçalves Dias. Ele
morreu aos 82 anos no Rio de Janeiro em 13 de outubro de 1968.
Obras de Manuel Bandeira
A Cinza das Horas, poesia, 1917
Carnaval, poesia, 1919
Os Sapos, poesia, 1922
6
O Ritmo Dissoluto, poesia, 1924
Libertinagem, poesias reunidas, 1930
Estrela da Manhã, poesia, 1936
Crônicas da Província do Brasil, prosa, 1937
Guia de Ouro Preto, prosa, 1938
Noções de História das Literaturas, prosa, 1940
Lira dos Cinquent'Anos, poesia, 1940
Belo, Belo, poesia, 1948
Mafuá do Malungo, poesia, 1948
Literatura Hispano-Americana, prosa, 1949
Gonçalves Dias, prosa, 1952
Opus 10, poesia, 1952
Itinerário de Pasárgada, 1954
De Poetas e de Poesias, prosa, 1954
Flauta de Papel, prosa, 1957
Estrela da Tarde, poesia, 1963
Vou-me Embora pra Pasárgada, poesia, 1964
Andorinha, Andorinha, prosa, 1966 (textos reunidos por Drummond)
Estrela da Vida Inteira, poesias reunidas, 1966
Evocação do Recife, poesia, 1966
Colóquio Unilateralmente Sentimental, prosa, 1968
Temas comuns nas suas obras
Paixão pela vida
Morte
Amor
Erotismo
Solidão
Angústia
Cotidiano
Infância
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Concluímos que Manuel Bandeira buscou o lirismo libertador nas coisas simples da
vida. Apesar de crítico literário, professor universitário, tradutor de poesia e toda sua bagagem
profissional e intelectual, ele soube manter o olhar simples sobre os acontecimentos ao seu
redor e perceber a singularidade dos pequenos detalhes que o cercavam. Suas duras críticas
aos movimentos anteriores, focados na erudição, comprovaram seu altíssimo nível intelectual
e poético. Sua preocupação não estava voltada para a métrica, ou os esquemas estruturais de
uma criação poética, mas para o seu valor e para o lirismo libertador. Manuel Bandeira não
somente encontrou motivos para a vida em sua poesia, mas também abriu novos horizontes
para a literatura basileira em todos os seus aspectos.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
http://www.infoescola.com/artes/semana-de-arte-moderna/
http://www.infoescola.com/literatura/modernismo-brasileiro/
http://www.estudopratico.com.br/fases-principais-autores-e-caracteristicas-do-modernismo/
7
http://www.casadobruxo.com.br/poesia/m/poetica.htm
http://www.infoescola.com/literatura/manuel-bandeira/
http://www.biblio.com.br/defaultz.asp?
link=http://www.biblio.com.br/conteudo/OlavoBilac/profissaodefe.htm
http://www.academia.org.br/abl/cgi/cgilua.exe/sys/start.htm?infoid=646&sid=249
http://www.infoescola.com/literatura/manuel-bandeira/
http://www.e-biografias.net/manuel_bandeira/
Consultados em 01/05/2015
BOSI, Alfredo. História concisa da literatura brasileira. 49. ed. São Paulo: Cultrix, 2013.
NICOLA, José de. Literatura brasileira: das origens aos nossos dias. São Paulo: Scipione,
1994.
ANDRADE, Mário de. De Paulicéia Desvairada a Café (Poesias Completas). São Paulo:
Círculo do Livro, 1986.

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Análise da crítica de Bandeira ao academicismo na poesia

  • 1. 1 LIBERTAÇÃO EM “POÉTICA”, DE MANUEL BANDEIRA Ana Carolina Polo da Cruz Felício1 Camila Cristina Pereira da Silva Dea Dilma Correa de Souza Patrícia Carreira de Carvalho Thabata Paganotti da Costa RESUMO Este artigo tem como objetivo apresentar a análise do poema “Poética” de Manuel Bandeira, através de uma perspectiva social diante do contexto histórico em que estava inserido. Também busca discorrer sobre a crítica de Manuel Bandeira ao excesso de erudição dos poetas do seu tempo, sobre o Modernismo e a grande ruptura que a Semana de Arte Moderna de 1922 proporcionou para as artes brasileiras. Palavras-chave: crítica, social, arte, literatura, modernismo INTRODUÇÃO O presente trabalho tem por objetivo analisar o poema “Poética”, de Manuel Bandeira (1886-1968), numa perspectiva social e apresentar o autor como peça importante da primeira fase modernista e participante da Semana de Arte Moderna de 1922, que marcou o rompimento com o estruturalismo parnasiano. A análise mostrará que o poema “Poética” é uma crítica clara a autores da literatura parnasiana e romântica. Em alguns trechos do poema iremos verificar o rompimento das regras que representavam o “academicismo” e a introdução do novo estilo literário, com versos livres e liberdade para criação poética, sem estar preso a regras e formatos clássicos, como prega a proclamação do “lirismo libertador”. O estudo apresenta o poema com características críticas em relação aos movimentos literários que antecederam o Modernismo. E que a partir desta fase, a literatura brasileira assumiu a direção dos seus padrões e começou a se expressar livremente. A análise descreveu também a contextualização histórica e a biografia do autor. A presente pesquisa baseou-se em autores como José Nicola e Alfredo Bosi. Ambos abordam a literatura numa perspectiva crítica e social. CONTEXTO HISTÓRICO O Modernismo Brasileiro teve início no século XX com a preocupação de autores e artistas em romper com valores antigos que se mostravam distantes das sensações vividas por muitos na época. Sua primeira fase (1922-1930) ficou conhecida como Fase Heroica, devido ao empenho dos artistas, inspirados nas vanguardas europeias e no trabalho da renovação estética no Brasil. A segunda fase, foi conhecida também como Fase de Consolidação, por espalhar e normalizar os esforços da primeira fase. Esse momento é caracterizado pelo predomínio da prosa e da ficção. A terceira fase dá sequência à prosa produzida na fase anterior, mas com certa renovação formal. É neste período que surge o grupo denominado “geração de 45”. 1 Estudantes dos 4º e 5º Semestres do Curso de Letras Língua Portuguesa/Inglês na Universidade Paulista - UNIP
  • 2. 2 A princípio, o ponto de unidade ideológica entre esses artistas era apenas a necessidade de mudança, mas não se tinha algo sólido para substituir os valores antigos. A partir dessa perspectiva, o Modernismo Brasileiro nasce com a Semana de Arte Moderna de 1922, que ocorreu entre os dias 11 e 18 de fevereiro, no Teatro Municipal de São Paulo. Não há um consenso sobre quem possa ter sugerido a criação da Semana dentre os artistas envolvidos. O objetivo era estabilizar uma nova forma de consciência criadora brasileira, atualizar a inteligência artística do país e conquistar o direito à pesquisa estética, que teve como principal propósito renovar, transformar o contexto artístico e cultural urbano, tanto na literatura, quanto nas artes plásticas, na arquitetura e na música. Para tal feito, eles se propuseram a implantar o uso do verso livre como forma de denunciar o desapego às formas antes cultuadas pelos autores parnasianos, como também apostaram no uso de um linguajar voltado para o coloquialismo, justamente em repúdio ao predomínio da sintaxe exagerada e da erudição, presente nas escolas literárias anteriores. O movimento modernista eclodiu em um contexto repleto de agitações políticas, sociais, econômicas e culturais. Em meio a este redemoinho histórico surgiram as vanguardas artísticas e linguagens liberadas de regras e de disciplinas. A Semana, como toda inovação, não foi bem acolhida pelos tradicionais paulistas, e a crítica não poupou esforços para destruir suas ideias, em plena vigência da República Velha, encabeçada por oligarcas do café e da política conservadora que então dominava o cenário brasileiro. A elite, habituada aos modelos estéticos europeus mais arcaicos, sentiu-se violentada em sua sensibilidade e afrontada em suas preferências artísticas. Os movimentos futuristas europeus influenciaram muitos artistas, como Anita Malfatti. Além de Anita, muitos nomes participaram desse primeiro momento do Modernismo representando as artes, a música, a literatura e a arquitetura, como Di Cavalcanti, Victor Brecheret, Mário de Andrade, Oswald de Andrade, Villa-Lobos, entre outros. A Semana não foi bem recebida pela sociedade arcaica da época, elite influenciada pelos padrões tradicionais. O que acontecera entre os dias 11 e 18 de fevereiro de 1922 marcou o rompimento das estruturas antigas. O principal legado da Semana de Arte Moderna foi libertar a arte brasileira da reprodução nada criativa de padrões europeus, e dar início à construção de uma cultura essencialmente nacional. ANÁLISE DE “POÉTICA”, DE MANUEL BANDEIRA, ATRAVÉS DE UMA PERSPECTIVA SOCIAL Manuel Bandeira, autor de “Poética”, integrou junto com Mário de Andrade e Oswald de Andrade, a tríade dos escritores mais importantes da primeira fase modernista (1922 – 1930), conhecida como o período mais radical do Modernismo, visto que este foi o momento em que os escritores e artistas de modo geral, viam a necessidade de romper todas as estruturas do passado, investindo em novas formas de expressar o lirismo em suas obras poéticas, bem como mudanças na área da música e da pintura. A literatura feita no século XIX ainda era essencialmente marcada pelo estruturalismo, sendo o Parnasianismo o principal movimento do qual os poetas modernistas tinham aversão, devido ao apego dos parnasianos pela valorização da forma, dos clássicos, da linguagem rebuscada, da métrica e da busca pela perfeição na poesia. Um exemplo disso, era a preocupação dos poetas parnasianos em criar rimas ricas, que são aquelas feitas com palavras de classes gramaticais diferentes, exemplificadas a seguir: “Mais que esse vulto extraordinário, Que assombra a vista,
  • 3. 3 Seduz-me um leve relicário De fino artista.” Neste excerto de “Profissão de Fé”, de Olavo Bilac, podemos verificar o uso de rimas ricas através da rima entre “extraordinário”, um adjetivo e “relicário”, um substantivo. Partindo deste contexto, é possível compreender melhor o sentimento de revolução que os modernistas tinham ao criar e apresentar ao mundo durante a Semana de Arte Moderna de 1922, novos estilos literários, com versos livres – muitas vezes sem rima e sem métrica. Os poetas modernistas queriam a liberdade para criar os seus versos de acordo com as suas intenções e não de acordo com as regras regidas pelo “academicismo literário”; eles buscavam a liberdade de expressão e é partindo desta premissa, que Manuel Bandeira escreve “Poética”, uma crítica clara ao estruturalismo vigente na literatura parnasiana, bem como a romântica, como veremos no decorrer deste texto. Abaixo, temos a transcrição completa da poesia e em seguida, a análise dos trechos da obra: Estou farto do lirismo comedido Do lirismo bem comportado Do lirismo funcionário público com livro de ponto expediente protocolo e manifestações de apreço ao Sr. diretor. Estou farto do lirismo que pára e vai averiguar no dicionário o cunho vernáculo de um vocábulo. Abaixo os puristas Todas as palavras sobretudo os barbarismos universais Todas as construções sobretudo as sintaxes de exceção Todos os ritmos sobretudo os inumeráveis Estou farto do lirismo namorador Político Raquítico Sifilítico De todo lirismo que capitula ao que quer que seja fora de si mesmo De resto não é lirismo Será contabilidade tabela de co-senos secretário do amante exemplar com cem modelos de cartas e as diferentes maneiras de agradar às mulheres, etc Quero antes o lirismo dos loucos O lirismo dos bêbedos O lirismo difícil e pungente dos bêbedos O lirismo dos clowns de Shakespeare - Não quero mais saber do lirismo que não é libertação. O poema pode ser dividido em duas partes. A primeira com o lirismo comedido como ele mesmo se refere, que faz uma referência ao estilo seguido pelos parnasianos: Estou farto do lirismo comedido Do lirismo bem comportado Do lirismo funcionário público com livro de ponto expediente protocolo e manifestações de apreço ao Sr. diretor. Estou farto do lirismo que pára e vai averiguar no dicionário o cunho vernáculo de um vocábulo.
  • 4. 4 Abaixo os puristas Todas as palavras sobretudo os barbarismos universais Todas as construções sobretudo as sintaxes de exceção Todos os ritmos sobretudo os inumeráveis Tais poetas, por serem tão preocupados com a forma, recorriam ao dicionário constantemente, a fim de encontrar as palavras que julgavam perfeitas – aquelas que se “encaixariam” no poema, tanto pela estrutura quanto pelo significado contido. Nota-se também a repetição de “Estou farto...”, o que evidencia a negação a tudo que não seja o lirismo livre, a liberdade poética. É interessante ressaltar que no poema analisado, não há uma ordem sintaticamente correta na pontuação – o autor se utiliza de pontos finais em alguns versos e mesmo na sequência direta de palavras, não foram utilizadas vírgulas. Tais características são comuns na poesia modernista, uma vez que os escritores buscavam a valorização do verso livre. Observe a questão da pontuação a seguir: “Estou farto do lirismo namorador Político Raquítico Sifilítico” Podemos verificar neste verso uma possível relação entre os termos apresentados pelo autor e os temas centrais da poesia romântica. O “lirismo namorador” pode ser uma referência à representação idealizada do Amor, bem como o “lirismo político”, à poesia de caráter social da terceira fase e por fim, o “lirismo raquítico e sifilítico”, aos poetas ultrarromânticos da segunda fase, também conhecida como Mal do Século, justamente por serem abordados assuntos como a morte e a solidão. Nesta segunda parte do poema o autor se refere a outro lirismo: o lirismo do dia a dia, o lirismo que está dentro de si, que torna as coisas mais simples da vida em poesia. Manuel Bandeira queria a poesia de libertação, sem regras a serem seguidas. “De todo lirismo que capitula ao que quer que seja fora de si mesmo De resto não é lirismo Será contabilidade tabela de co-senos secretário do amante exemplar com cem modelos de cartas e as diferentes maneiras de agradar às mulheres, etc Quero antes o lirismo dos loucos O lirismo dos bêbados O lirismo difícil e pungente dos bêbados O lirismo dos clowns de Shakespeare” Neste trecho, representação do ideal modernista, há o claro desejo e a pretensão de buscar uma identidade nacional, que atendesse a necessidade latente de criar uma forma nova para as artes de um modo geral, que incluísse todas as partes deste todo denominado cultura brasileira, tão irreverente que subvertesse a forma antiga e que num primeiro momento causou estranheza pela forma de expressão tão espontânea e natural. O ideal modernista buscou o espirito primitivo da cultura brasileira, utilizando imagens e formas do nosso cotidiano, do sertão, da caatinga, das formas que retratassem a vida, a realidade desse povo até então, quase desconhecida no mundo. Fazem parte deste novo
  • 5. 5 evento cultural a paródia, o pastiche, a desconstrução da sintaxe, a falta de lógica aparente, o “antidiscursivismo”, a simplicidade e a valorização da linguagem coloquial e oral. Poética é um verdadeiro manifesto literário a favor dos ideais modernistas, pois apresentou uma crítica aos antigos padrões clássicos e seletivos e sintetizou os princípios recém-nascidos modernistas, com certa influência das vanguardas europeias, para todas as áreas das artes brasileira. O movimento apresentou à sociedade uma estética literalmente tupiniquim, proposta nova para a arte brasileira, uma vez que partindo deles, a literatura redimensionou seus “padrões” e muitos escritores se sentiram à vontade para se expressarem livremente, a fim de colocar em sua obra o que mais lhes convinha – é o lirismo da libertação e o olhar voltado para os detalhes do mundo. Para Bandeira, o valor da poesia não estava em sua métrica ou erudição, mas na criatividade do poeta em exteriorizar seus sentimentos e vontades, frequentemente influenciados pelo contexto social vivido. A singularidade das coisas ao seu redor eram motivo para escrever uma poesia. A criação poética de Manuel Bandeira pode ser definida pelas palavras de Mário de Andrade: “quando sinto a impulsão lírica escrevo sem pensar tudo que meu inconsciente me grita. Penso depois (...)”. BIOGRAFIA – MANUEL BANDEIRA Manuel Carneiro de Souza Bandeira Filho nasceu no dia 19 de abril de 1886, em Recife, Pernambuco. Seu pai¸ Manuel Carneiro de Souza Bandeira, era engenheiro civil e sua mãe, Francelina Ribeiro de Bandeira, mudaram com a família para o Rio de Janeiro quando Bandeira tinha 10 anos, onde cursou o secundário no Externato do Ginásio Nacional, bacharelando-se em letras. Em 1892 Bandeira voltou para o Recife e escreveu seus primeiros versos, nesta época ainda não pensava em ser poeta. Em 1903 vai para São Paulo e matricula-se na Escola Politécnica, no curso de arquitetura, porém abandona o curso por ter contraído tuberculose. Em 1913, Manuel Bandeira vai para o sanatório de Cladavel, na Suíça, onde fica até 1914, neste período convive com o poeta francês Paul Éluard, eles discutem as inovações artísticas que estavam acontecendo na Europa, isso influenciou muito a obra de Manuel Bandeira e seus versos livres. O poeta volta a morar no Rio de Janeiro no início da Primeira Guerra, em 1914, e em 1917 publica seu primeiro livro "A Cinza das Horas". Este livro ainda tem forte influência Parnasiana e Simbolista. Em 1919, a publicação do seu segundo livro "Carnaval" marca sua entrada no movimento modernista. Em 1922 acontece a Semana da Arte Moderna; Manuel bandeira não participa, mas manda seu poema "Os Sapos", uma sátira ao Parnasianismo, e é lido por Ronald de Carvalho e tumultua o Teatro Municipal. Manuel Bandeira era professor, poeta, cronista, crítico e historiador literário. Em 1940 foi eleito pela Academia Brasileira de Letras, ocupando a cadeira de n°24 e em 1943 é nomeado professor de Literatura Hispano-Americana da Faculdade Nacional de Filosofia. Como crítico de literatura e historiador literário consagrou-se pelo estudo sobre as Cartas Chilenas, de Tomás Antônio Gonzaga e pelo esboço biográfico de Gonçalves Dias. Ele morreu aos 82 anos no Rio de Janeiro em 13 de outubro de 1968. Obras de Manuel Bandeira A Cinza das Horas, poesia, 1917 Carnaval, poesia, 1919 Os Sapos, poesia, 1922
  • 6. 6 O Ritmo Dissoluto, poesia, 1924 Libertinagem, poesias reunidas, 1930 Estrela da Manhã, poesia, 1936 Crônicas da Província do Brasil, prosa, 1937 Guia de Ouro Preto, prosa, 1938 Noções de História das Literaturas, prosa, 1940 Lira dos Cinquent'Anos, poesia, 1940 Belo, Belo, poesia, 1948 Mafuá do Malungo, poesia, 1948 Literatura Hispano-Americana, prosa, 1949 Gonçalves Dias, prosa, 1952 Opus 10, poesia, 1952 Itinerário de Pasárgada, 1954 De Poetas e de Poesias, prosa, 1954 Flauta de Papel, prosa, 1957 Estrela da Tarde, poesia, 1963 Vou-me Embora pra Pasárgada, poesia, 1964 Andorinha, Andorinha, prosa, 1966 (textos reunidos por Drummond) Estrela da Vida Inteira, poesias reunidas, 1966 Evocação do Recife, poesia, 1966 Colóquio Unilateralmente Sentimental, prosa, 1968 Temas comuns nas suas obras Paixão pela vida Morte Amor Erotismo Solidão Angústia Cotidiano Infância CONSIDERAÇÕES FINAIS Concluímos que Manuel Bandeira buscou o lirismo libertador nas coisas simples da vida. Apesar de crítico literário, professor universitário, tradutor de poesia e toda sua bagagem profissional e intelectual, ele soube manter o olhar simples sobre os acontecimentos ao seu redor e perceber a singularidade dos pequenos detalhes que o cercavam. Suas duras críticas aos movimentos anteriores, focados na erudição, comprovaram seu altíssimo nível intelectual e poético. Sua preocupação não estava voltada para a métrica, ou os esquemas estruturais de uma criação poética, mas para o seu valor e para o lirismo libertador. Manuel Bandeira não somente encontrou motivos para a vida em sua poesia, mas também abriu novos horizontes para a literatura basileira em todos os seus aspectos. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS http://www.infoescola.com/artes/semana-de-arte-moderna/ http://www.infoescola.com/literatura/modernismo-brasileiro/ http://www.estudopratico.com.br/fases-principais-autores-e-caracteristicas-do-modernismo/
  • 7. 7 http://www.casadobruxo.com.br/poesia/m/poetica.htm http://www.infoescola.com/literatura/manuel-bandeira/ http://www.biblio.com.br/defaultz.asp? link=http://www.biblio.com.br/conteudo/OlavoBilac/profissaodefe.htm http://www.academia.org.br/abl/cgi/cgilua.exe/sys/start.htm?infoid=646&sid=249 http://www.infoescola.com/literatura/manuel-bandeira/ http://www.e-biografias.net/manuel_bandeira/ Consultados em 01/05/2015 BOSI, Alfredo. História concisa da literatura brasileira. 49. ed. São Paulo: Cultrix, 2013. NICOLA, José de. Literatura brasileira: das origens aos nossos dias. São Paulo: Scipione, 1994. ANDRADE, Mário de. De Paulicéia Desvairada a Café (Poesias Completas). São Paulo: Círculo do Livro, 1986.