O Ouro Dos Tigres                    *** JORGE LUIS BORGEShttp://groups.google.com/group/digitalsource
Este livro: O Ouro Dos Tigres , é parte integrante da coleção:JORGE LUIS BORGES–OBRAS COMPLETAS             VOLUME II     ...
Avenida Jaguaré, 1485                         CEP O534(-9O2 – Tel.: 3767-7OOO, São Paulo, SP                              ...
♦ O OURO DOS TIGRES – 1972■ Prólogo■ Tamerlão (1336 – 1405)■ Espadas■ O passado■ Tankas■ Treze moedas Um poeta Oriental■ O...
■ Ao triste■ O mar■ Ao primeiro poeta da Hungria■ O Advento■ A tentação■ 1891■ 1929■ A promessa■ O estupor■ Os quatro cicl...
PRÓLOGO      De um homem que completou os setenta anos recomendados por Davidpouco podemos esperar, salvo o manejo consabi...
____________________O O URO DO S  TI G R ES____________________        (1972)
TAMERLÃO1 (1336-14O5)Meu reino é deste mundo. CarcereirosE cárceres e espadas executamA ordem que não repito. Minha palavr...
E embandeirem de negro o firmamentoPara não haver um homem que não saibaQue os deuses estão mortos. Sou os deuses.Que outr...
ESPADASJoyeuse, Excalibur, Gram, Durendal.Suas velhas guerras andam pelo verso,Que é a única memória. O universoAo Norte e...
O PASSADOTudo era fácil, nos parece agora,Naquele plástico ontem irrevogável:Sócrates, que, apurada a cicuta,Discorre sobr...
Em certa manhã de MontevidéuE se entrega à justiça, declarandoTer agido sozinho e não ter cúmplices;O soldado que morre em...
TANKAS2     1Alto no cimoTodo o jardim é lua,Lua de ouro.Mais precioso é o roçarDe tua boca na sombra.     2A voz da aveQu...
Que cai sobre o mármore,Triste ser terra.Triste não ser os diasDo homem, o sonho, o alvorecer.     6Não ter tombado,Como o...
TREZE MOEDAS                 UM POETA ORIENTALDurante cem outonos diviseiTeu tênue disco.Durante cem outonos diviseiTeu ar...
CHOVEEm que ontem, em que pátios de Cartago,Cai também esta chuva?                           ASTÉRIONO ano me tributa meu ...
GÊNESIS 4, 8Foi no primeiro deserto.Dois braços atiraram uma grande pedra.Não houve um grito. Houve sangue.Houve pela prim...
O OESTEO beco final com seu poente.Inauguração do pampa.Inauguração da morte.                  ESTÂNCIA EL RETIROO tempo j...
MACBETHNossos atos prosseguem seu caminho,Que não conhece fim.Matei meu rei para que ShakespeareUrdisse sua tragédia.     ...
SUSANA BOMBALAlta na tarde, altiva e louvada,Cruza o casto jardim e está na exataLuz do instante irreversível e puroQue no...
A JOHN KEATS (1795-1821)Desde o princípio até a jovem morteA terrível beleza te espreitavaComo os outros a propícia sorteO...
SONHA ALONSO QUIJANODesperta aquele homem de um indistintoSonho de alfanjes e de campo chão,Toca de leve a barba com a mão...
A UM CÉSARNa noite favorável a esses lêmuresE a larvas que fustigam os defuntos,Quartearam inutilmente os profundosEspaços...
O CEGO                                             A Mariana Grondona     IFoi despojado do diverso mundoE dos rostos, que...
ON HIS BLINDNESSIndigno dos astros e da aveQue sulca o azul profundo, ora secreto,Dessas linhas que são o alfabetoQue outr...
A BUSCANo fim de sua terceira geraçãoRegresso às planícies dos Acevedo,Os meus antepassados. VagamenteProcurei-os por esta...
O PERDIDOOnde estará minha vida, a que tudoPôde ser e não foi, a venturosaOu a de triste horror, essa outra coisaQue pôde ...
H. O.Em certa rua há certa firme portaCom a campainha e o número precisoE um sabor de perdido paraíso,Que nos entardeceres...
RELIGIO MEDICI, 1643Defende-me, Senhor. (O vocativoNão implica Ninguém. É só uma palavraDeste exercício que o enfado lavra...
1971Dois homens caminharam pela lua.Outros depois. O que pode a palavra,O que pode o que a arte sonha e lavra,Ante sua rea...
COISASO volume caído que os outrosEscondem ali no fundo da estanteE que os dias e as noites cobremDe lento pó silencioso. ...
A flor entre as páginas de Bécquer.O pêndulo que o tempo fez parar.O aço que Odin cravou na árvore.O texto de umas não cor...
O AMEAÇADOÉ o amor. Terei de me esconder ou fugir.Crescem as paredes de seu cárcere, como em um sonho atroz.A bela máscara...
PROTEUAntes que os remeiros de OdisseuFatigassem os mares cor de vinho,As inapreensíveis formas adivinhoDaquele deus cujo ...
OUTRA VERSÃO DE PROTEUHabitante de areias receosas,Meio deus, meio fera marinha,Ignorou a memória, que definhaSobre o onte...
FALA UM BUSTO DE JANONinguém abra nem feche qualquer portaSem honrar a memória de Bifronte,Que as preside. Abarco o horizo...
O GAÚCHOFilho de algum extremo dessa planuraAberta, elementar, quase secreta,Puxava o firme laço que aquietaO firme touro ...
A PANTERAAtrás das fortes grades a panteraRepetirá o enfadonho itinerário,Que é (mas não o sabe) seu fadárioDe negra jóia,...
TUUm só homem nasceu, um só homem morreu na terra.Afirmar o contrário é mera estatística, é uma adição impossível.Não meno...
POEMA DA QUANTIDADEPenso nesse parco céu puritanoDe solitárias e perdidas luzesQue Emerson olharia tantas noitesEm meio à ...
A SENTINELAEntra a luz e eu me lembro; está ali.Começa por dizer-me seu nome, que é (logo se entende) o meu.Volto à escrav...
AO IDIOMA ALEMÃOMeu destino é a língua castelhana,O bronze de Francisco de Quevedo,Mas pela lenta noite caminhadaExaltam-m...
AO TRISTEAí está o que foi: a dura espadaDo saxão e sua métrica de ferro,Os mares e as ilhas do desterroDo filho de Laerte...
O MARO mar. O mar de Ulisses. Jovem mar.E o daquele outro Ulisses que a genteDo Islã alcunhou famosamenteDe Es-Sindibad do...
AO PRIMEIRO POETA DA HUNGRIANeste período para ti futuroQue desconhece o áugure que a formaProibida do porvir vê nos plane...
O ADVENTOSou o que fui na aurora, entre a tribo.Deitado em meu canto da caverna,Lutava por afundar nas obscurasÁguas do so...
Com ocre e cinábrio. Foram os DeusesDo sacrifício e das preces. NuncaDisse minha boca o nome de Altamira.Foram muitas minh...
A TENTAÇÃOO general Quiroga vai a seu enterro;Convida-o o mercenário Santos PérezE sobre Santos Pérez está Rosas,A recôndi...
Ou recebe centenas de onças de ouro.Recrudescem os alarmes. BruscamenteDecide regressar e dá a ordem.Por esses descampados...
1891Assim que o vislumbro, já o perco.Ajustado o decente traje preto,A testa estreita, o bigode ralo,E um lenço no pescoço...
1929Antes, a luz avançava mais cedoNa peça que dá para o último pátio;Agora o sobrado que fica ao ladoEncobre o sol, mas n...
E nem lembra que faz muitos anosQue seus passos a eludem. Duas, três quadras.Reconhece uma longa balaustrada,Os redondéis ...
A PROMESSA   Em Pringles, o doutor Isidro Lozano me contou a história. Fez isso com taleconomia que compreendi que já o fi...
O ESTUPOR     Um vizinho de Morón me contou o caso:      "Ninguém sabe muito bem por que Moritán e o Pardo Rivarola seinim...
OS QUATRO CICLOS     Quatro são as histórias. Uma, a mais antiga, é a de uma forte cidadecercada e defendida por homens va...
Quatro são as histórias. Durante o tempo que nos resta, continuaremos a narrá-las, transformadas.           O SONHO DE PED...
O PALÁCIO     O Palácio não é infinito.      Os muros, os aterros, os jardins, os labirintos, as grades, as varandas, ospa...
HENGIST QUER HOMENS (449 A.D.)     Hengist quer homens.      Eles virão dos confins de areia que se perdem em vastos mares...
Nelson, para que Adão e Eva se afastem, de mãos dadas Q silenciosos, doParaíso que perderam.    Hengist os quer (mas não o...
EPISÓDIO DO INIMIGO      Tantos anos fugindo e esperando e agora o inimigo estava em minha casa.Da janela o vi subir penos...
argumentos, Borges, são meros estratagemas de seu terror para que eu não omate. Você não pode fazer mais nada.     – Posso...
À ISLÂNDIADe todas as regiões da bela terraQue minha carne e sua sombra fatigaramTu és a mais remota e a mais íntima,Últim...
AO ESPELHOPor que persistes, incessante espelho?Por que repetes, misterioso irmão,O menor movimento de minha mão?Por que n...
A UM GATONão são mais silenciosos os espelhosNem mais furtiva a aurora aventureira;Tu és, sob a lua, essa pantera,Que divi...
EAST LANSINGOs dias e as noitesestão entretecidos (interwoven) de memória e de medo,de medo, que é um modo da esperança,de...
AO COIOTESéculo a século a areia infindávelDos diversos desertos têm sofridoTeus passos numerosos e o ganidoDe chacal cinz...
UM AMANHÃLouvada seja a misericórdiaDe Quem, completos meus setenta anosE selados meus olhos,Salva-me da venerada velhiceE...
O OURO DOS TIGRESAté a hora do ocaso amareloQuantas vezes terei contempladoO poderoso tigre de BengalaIr e vir pelo predes...
Esta obra foi revisada pelo grupo Digital Source para proporcionar, demaneira totalmente gratuita, o benefício de sua leit...
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  1. 1. O Ouro Dos Tigres *** JORGE LUIS BORGEShttp://groups.google.com/group/digitalsource
  2. 2. Este livro: O Ouro Dos Tigres , é parte integrante da coleção:JORGE LUIS BORGES–OBRAS COMPLETAS VOLUME II 1952-1972 Título do original em espanhol: Jorge Luis Borges – Obras Completas Copyright © 1998 by Maria Kodama Copyright © 1999 das traduções by Editora Globo S.A. 1ª Reimpressão-9/99 2ª Reimpressão-12/OO Edição baseada em Jorge Luis Borges – Obras Completas, publicada por Emecé Editores S.A., 1989, Barcelona – Espanha. Coordenação editorial: Carlos V. Frias Capa: Joseph Ubach / Emecé Editores Ilustração: Alberto Ciupiak Coordenação editorial da edição brasileira: Eliana Sá Assessoria editorial: Jorge Schwartz Este livro foi digitalizado por Raimundo do Vale Lucas, com a intenção de dar aos cegos a oportunidade de apreciarem mais uma manifestação do pensamento humano.. Revisão das traduções: Jorge Schwartz e Maria Carolina de Araujo Preparação de originais: Maria Carolina de Araujo Revisão de textos: Márcia Menin Projeto gráfico: Alves e Miranda Editorial Ltda. Fotolitos: AM Produções Gráficas Ltda. Agradecimentos a Adria Frizzi, Ana Giménez, Christopher E Laferl,Edgardo Krebs, Élida Lois, Eliot Weinberger, Enrique Fierro, Francisco Achcar, Haroldo de Campos, Ida Vitale, José Antônio Arantes e Maite Celada Direitos mundiais em língua portuguesa, para o Brasil, cedidos à EDITORA GLOBO S.A.
  3. 3. Avenida Jaguaré, 1485 CEP O534(-9O2 – Tel.: 3767-7OOO, São Paulo, SP e-mail: atendimento@edglobo.com.br Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta edição pode ser utilizada ou reproduzida – em qualquer meio ou forma, seja mecânico ou eletrônico, fotocópia, gravaçãoetc. – nem apropriada ou estocada em sistema de banco de dados, sem a expressa autorização da editora. Impressão e acabamento: Gráfica Círculo CIP-Brasil. Catalogação-na-fonte – Câmara Brasileira do Livro, SP Borges, Jorge Luis, 1899-1986. Obras completas de Jorge Luis Borges, volume 2 / Jorge Luis Borges. – São Paulo : Globo, 2OOO. Título original: Obras completas Jorge Luis Borges. Vários tradutores. v. 1. 1923-1949 / v. 2.1952-1972 ISBN 85-25O-2877-O (v. 1) ISBN 85-25O-2878-9 (v. 2) 1. Ficção argentina 1. Título. CDD-ar863.4 Índices para catálogo sistemático 1. Ficção : Século 2O : Literatura argentina ar863.4 1. Século 2O : Ficção : Literatura argentina ar863.4 O OURO DOS TIGRES El Oro de los Tigres Tradução de Josely Vianna Baptista
  4. 4. ♦ O OURO DOS TIGRES – 1972■ Prólogo■ Tamerlão (1336 – 1405)■ Espadas■ O passado■ Tankas■ Treze moedas Um poeta Oriental■ O deserto■ Chove■ Asterión■ Um poeta menor■ Gênesis, IV: 8■ Nortúmbria, 900 A. D.■ Miguel de Cervantes■ O Oeste■ Estância El Retiro■ O prisioneiro■ Macbeth■ Eternidades■ Susana Bombal■ A John Keats (1795 – 1821)■ Sonha Alonso Quijano■ A um César■ O cego■ On His Blindness■ A busca■ O perdido■ H.O.■ Religio Medici, 1643■ 1971■ Coisas■ O ameaçado■ Proteu■ Outra versão de Proteu■ Fala um busto de Jano■ O gaúcho■ A pantera■ Tu■ Poema da quantidade■ A sentinela■ Ao idioma alemão
  5. 5. ■ Ao triste■ O mar■ Ao primeiro poeta da Hungria■ O Advento■ A tentação■ 1891■ 1929■ A promessa■ O estupor■ Os quatro ciclos■ O sonho de Pedro Henríquez Ureña■ O palácio■ Hengist quer homens (449, A. D.)■ Episódio do inimigo■ À Islândia■ Ao espelho■ A um gato■ East Lansing■ Ao coiote■ Um amanhã■ O ouro dos tigresNotas
  6. 6. PRÓLOGO De um homem que completou os setenta anos recomendados por Davidpouco podemos esperar, salvo o manejo consabido de algumas destrezas, umaque outra ligeira variação e fartas repetições. Para eludir ou ao menos atenuaressa monotonia, optei por aceitar, talvez com temerária hospitalidade, amiscelânea de temas que se ofereceram a minha rotina de escrever. A parábolasucede à confidência, o verso livre ou branco ao soneto. No princípio dostempos, tão dócil à vaga especulação e às inapeláveis cosmogonias, não deveter havido coisas poéticas ou prosaicas. Tudo seria um pouco mágico. Thor nãoera o deus do trovão; era o trovão e o deus. Para um verdadeiro poeta, cada momento da vida, cada fato, deveria serpoético, já que profundamente o é. Que eu saiba, ninguém alcançou até hojeessa alta vigília. Browning e Blake se aproximaram mais do que qualqueroutro; Whitman a propôs, mas suas deliberadas enumerações nem semprepassam de catálogos insensíveis. Descreio das escolas literárias, que considero simulacros didáticos parasimplificar o que ensinam, mas, se me obrigassem a declarar de onde procedemmeus versos, diria que do simbolismo, essa grande liberdade, que renovou asmuitas literaturas cujo instrumento comum é o castelhano e que chegou, porcerto, até a Espanha. Conversei mais de uma vez com Leopoldo Lugones,homem solitário e soberbo; este costumava desviar o curso do diálogo parafalar de "meu amigo e mestre, Rubén Darío". (Creio, também, que devemossublinharas afinidades de nosso idioma, não seus regionalismos.) Meu leitor notará em algumas páginas a preocupação filosófica. Foiminha desde menino, quando meu pai revelou-me, com a ajuda do tabuleiro dexadrez (que era, lembro-me, de cedro), a corrida de Aquiles e da tartaruga. Quanto às influências que serão percebidas neste volume... Em primeirolugar, os escritores que prefiro –já citei Robert Browning –; depois, os que li erepito; depois, os que nunca li, mas que estão em mim. Um idioma é umatradição, um modo de sentir a realidade, não um arbitrário repertório desímbolos. J. L. B. Buenos Aires, 1972.
  7. 7. ____________________O O URO DO S TI G R ES____________________ (1972)
  8. 8. TAMERLÃO1 (1336-14O5)Meu reino é deste mundo. CarcereirosE cárceres e espadas executamA ordem que não repito. Minha palavraMais ínfima é de ferro. Até o secretoCoração das pessoas que não ouviramjamais meu nome em seus confins longínquosÉ instrumento dócil a meu arbítrio.Eu, que fui um rabadão da pradaria,Icei minhas bandeiras em PersépolisE mitiguei a sede dos cavalosNas águas do rio Ganges e do Oxus.Quando nasci, caiu do firmamentoUma espada com signos talismânicos;Eu sou, eu serei sempre, aquela espada.Já derrotei o grego e o egípcioE devastei as muitas, incansáveis,Léguas da Rússia com meus duros tártaros,Pirâmides de crânios erigi,Jungi a minha carroça quatro reisQue não quiseram acatar meu cetroE atirei às chamas em AlepoEsse Livro dos Livros, o Alcorão,Anterior aos dias e às noites.Eu, o rubro Tamerlão, tive em meu abraçoA branca Zenócrate do Egito,Casta como a neve das alturas.Recordo as pesadas caravanasE as nuvens de poeira do deserto,Recordo uma cidade de fumaçaE candeeiros de óleo nas tabernas.Sei tudo e posso tudo. Um agourentoLivro ainda não escrito revelou-meQue morrerei como os outros morremE que, por entre a pálida agonia,Ordenarei que meus arqueiros lancemFlechas de ferro contra o céu adverso
  9. 9. E embandeirem de negro o firmamentoPara não haver um homem que não saibaQue os deuses estão mortos. Sou os deuses.Que outros recorram à astrologiaJudiciária, ao compasso e ao astrolábio,Para saber quem são. Eu sou os astros.Em alvoradas incertas me perguntoPor que não saio nunca desta câmara,Por que não condescendo à homenagemDo clamoroso Oriente. Às vezes sonhoCom escravos, intrusos que desdouramO Tamerlão com dedos temeráriosE lhe dizem que durma e que não deixeDe tomar toda noite as pastilhasEncantadas da paz e do silêncio.A cimitarra busco e não a encontro.Busco no espelho o meu rosto; é outro.Por isso o quebrei e me puniram.Por que não compareço aos suplícios,Por que não vejo o machado e a cabeça?Essas coisas me inquietam, porém nadaPode ocorrer se Tamerlão se opõeE Ele, talvez, as queira sem saber.E eu sou Tamerlão. Rejo o PoenteE o Oriente de ouro, e no entanto...
  10. 10. ESPADASJoyeuse, Excalibur, Gram, Durendal.Suas velhas guerras andam pelo verso,Que é a única memória. O universoAo Norte e ao Sul as vai semeando igual.Persiste na espada a ousadiaDa destra mão viril, hoje pó e nada;No ferro ou no bronze, a estocadaQue foi sangue de Adão num primo dia.Cestas enumerei dessas distantesEspadas cujos homens deram morteA reis e a serpentes. Há outra sorteDe espadas, as murais e as reinantes.Deixa-me, espada, usar contigo a arte;Eu, que não mereci isso, manejar-te.
  11. 11. O PASSADOTudo era fácil, nos parece agora,Naquele plástico ontem irrevogável:Sócrates, que, apurada a cicuta,Discorre sobre a alma e seu caminho,Enquanto a morte azul lhe vai subindoPelos pés regelados; a implacávelEspada que retumba na balança;Roma, que impõe o numeroso hexâmetroAo obstinado mármore dessa línguaQue manejamos hoje, espedaçada;Os piratas de Hengist que atravessamA remo o temerário Mar do NorteE com as fortes mãos e a coragemFundam um reino que será o Império;O rei saxão que oferta ao da NoruegaSete palmos de terra e que cumpre,Antes que o sol decline, a promessaNa batalha de homens; os cavaleirosDo deserto, que cobrem o OrienteE ameaçam as cúpulas da Rússia;Um persa que relata a primeiraDas Mil e Uma Noites e não sabeQue deu início a um livro que os séculosDas outras gerações, ulteriores,Não entregarão ao quieto esquecimento;Snorri, que salva em sua perdida Tule,Sob a luz de crepúsculos morososOu na noite propícia à memória,As letras e os deuses da Germânia;O jovem Schopenhauer, que descobreUm projeto geral do universo;Whitman, que numa redação do Brooklin,Entre o cheiro de tinta e de tabaco,Toma e a ninguém conta a infinitaResolução de ser todos os homensE de um livro escrever que seja todos;Arredondo, que mata Idiarte Borda
  12. 12. Em certa manhã de MontevidéuE se entrega à justiça, declarandoTer agido sozinho e não ter cúmplices;O soldado que morre em chão normando,O que na Galiléia encontra a morte.Essas coisas podiam não ter sido.Quase não foram. Nós as concebemosEm um ontem fatal e inevitável.Não há outro tempo que o agora, este ápiceDo já será e do foi, daquele instanteEm que a gota cai na clepsidra.O ontem ilusório é um recintoDe imutáveis figuras de ceraOu de reminiscências literáriasQue o tempo irá perdendo em seus espelhos.Carlos Doze, Breno, Érico, o Vermelho,E a tarde inapreensível que foi tuaNa eternidade são, não na memória.
  13. 13. TANKAS2 1Alto no cimoTodo o jardim é lua,Lua de ouro.Mais precioso é o roçarDe tua boca na sombra. 2A voz da aveQue a penumbra escondeEmudeceu.Andas por teu jardim.E algo, eu sei, te falta. 3A alheia taça,A espada que foi espadaEm outra mão,A lua do caminho,Dize, acaso não bastam? 4Sob a luaO tigre de ouro e sombraOlha suas garras.Não sabe que na auroraDestroçaram um homem. 5Triste essa chuva
  14. 14. Que cai sobre o mármore,Triste ser terra.Triste não ser os diasDo homem, o sonho, o alvorecer. 6Não ter tombado,Como outros de meu sangue,Na batalha.Ser na inútil noiteO que conta as sílabas.
  15. 15. TREZE MOEDAS UM POETA ORIENTALDurante cem outonos diviseiTeu tênue disco.Durante cem outonos diviseiTeu arco sobre as ilhas.Durante cem outonosos meus lábiosNão foram menos silenciosos. O DESERTOO espaço sem tempo.A lua é da cor da areia.Agora, exatamente agora,Morrem os homens do Metauro e de Trafalgar.
  16. 16. CHOVEEm que ontem, em que pátios de Cartago,Cai também esta chuva? ASTÉRIONO ano me tributa meu pasto de homensE na cisterna há água.Em mimse estreitam os caminhos de pedra.De que posso queixar-me?Nos entardeceresPesa-me um pouco a cabeça de touro. UM POETA MENORA meta é o esquecimento.Eu cheguei antes.
  17. 17. GÊNESIS 4, 8Foi no primeiro deserto.Dois braços atiraram uma grande pedra.Não houve um grito. Houve sangue.Houve pela primeira vez a morte.Já não me lembro se foi Abel ou Caim. NORTÚMBRIA, 9OO A.D.Que antes do alvorecer o despojem os lobos;A espada é o caminho mais curto. MIGUEL DE CERVANTESCruéis estrelas e propícias estrelasPresidiram a noite de minha gênese;Devo às últimas o cárcereEm que sonhei o Quixote.
  18. 18. O OESTEO beco final com seu poente.Inauguração do pampa.Inauguração da morte. ESTÂNCIA EL RETIROO tempo joga um xadrez sem peçasAli no pátio. O rangido de uma ramaRasga a noite. Lá fora a planícieLéguas de pó e sonho esparrama.Sombras os dois, copiamos o que ditamOutras sombras: Heráclito e Gautama. O PRISIONEIROUma lima.A primeira das pesadas portas de ferro.Um dia serei livre.
  19. 19. MACBETHNossos atos prosseguem seu caminho,Que não conhece fim.Matei meu rei para que ShakespeareUrdisse sua tragédia. ETERNIDADESA serpente que cinge o mar e é o mar,O repetido remo de Jasão, a jovem espada de Sigurd.Só perduram no tempo as coisasQue não foram do tempo.
  20. 20. SUSANA BOMBALAlta na tarde, altiva e louvada,Cruza o casto jardim e está na exataLuz do instante irreversível e puroQue nos dá este jardim e a alta imagem,Silenciosa. Vejo-a aqui, nesta hora,Mas também a diviso num antigoFulgor crepuscular da Ur dos Caldeus,Ou então descendo a lenta escadariaDe um templo, que é inumerável póDo planeta e que foi pedra e soberba,Ou decifrando o mágico alfabetoDas estrelas de outras latitudes,Ou aspirando uma rosa na Inglaterra.Está onde houver música, no leveAzul, e no hexâmetro do grego,Em nossas solidões que a procuram,No liso espelho de água de uma fonte,No mármore do tempo, numa espada,Nessa serenidade do terraçoQue divisa poentes e jardins.E por detrás dos mitos e das máscaras,A alma, que está só. Buenos Aires, 3 de novembro de 197O.
  21. 21. A JOHN KEATS (1795-1821)Desde o princípio até a jovem morteA terrível beleza te espreitavaComo os outros a propícia sorteOu a adversa. Nas alvas te esperavaDe Londres, e nas páginas casuaisDe um dicionário de mitologia,Nas costumeiras dádivas do dia,Num rosto, numa voz, e nos mortaisLábios de Fanny Brawne. Oh, sucessivoE arrebatado Keats, que o tempo cega,O alto rouxinol e a uma gregaSerão tua eternidade, oh, fugitivo.Foste o fogo. Na pânica memóriaHoje não és as cinzas. És a glória.
  22. 22. SONHA ALONSO QUIJANODesperta aquele homem de um indistintoSonho de alfanjes e de campo chão,Toca de leve a barba com a mãoDuvidando se está ferido ou extinto.Não irão persegui-lo os feiticeirosQue juraram seu mal por sob a lua?Nada. O frio apenas. Apenas suaAmargura nos anos derradeiros.Foi o fidalgo um sonho de CervantesE Dom Quixote um sonho do fidalgo.O duplo sonho os confunde e algoEstá ocorrendo que ocorreu muito antes.Quijano dorme e sonha. Uma batalha:Os mares de Lepanto e a metralha.
  23. 23. A UM CÉSARNa noite favorável a esses lêmuresE a larvas que fustigam os defuntos,Quartearam inutilmente os profundosEspaços das estrelas os teus áugures.Do touro jugulado na penumbraAs vísceras em vão têm indagado;Em vão o sol desta manhã alumbraA espada fiel do pretoriano armado.No real palácio tua garganta esperaAssustada o punhal. Já os confinsDo império que regem teus clarinsPressentem as plegárias e a fogueira.De tuas montanhas o horror sagradoTem o tigre de ouro e sombra profanado.
  24. 24. O CEGO A Mariana Grondona IFoi despojado do diverso mundoE dos rostos, que são o que eram antes,Das ruas próximas, hoje distantes,E do côncavo azul, ontem profundo.Resta dos livros o que lhe consenteA memória, essa forma de olvidoQue retém o formato, não o sentido,E que reflete os títulos somente.O desnível espreita. Cada passoPode ser uma queda. Sou o lentoPrisioneiro de um tempo sonolentoQue não marca sua aurora nem seu ocaso.É noite. Não há outros. Com o versoDevo lavrar meu insípido universo. IIDesde meu nascimento, no ano noventa e noveDas côncavas parreiras e do algibe profundo,O tempo minucioso, que na memória é breve,Foi me furtando as formas visíveis deste mundo.Os dias e as noites limaram os perfisDessas letras humanas e dos rostos amados;Em vão interrogaram meus olhos fatigadosAs vazias bibliotecas e os vazios atris.O azul e o vermelho são agora cerração,Duas palavras inúteis. O espelho que miroÉ uma coisa cinzenta. No jardim eu aspiro,Amigos, uma lúgubre rosa da escuridão.Agora só perduram contornos amarelos,E só consigo ver para ver pesadelos.
  25. 25. ON HIS BLINDNESSIndigno dos astros e da aveQue sulca o azul profundo, ora secreto,Dessas linhas que são o alfabetoQue outros ordenam e do mármore graveCujo lintel meus fatigados olhosPerdem em sua penumbra, dessas rosasInvisíveis e das silenciosasProfusões de ouros e de vermelhosSou, mas não das Mil Noites e UmaQue abrem em minha sombra o mar e o alvorNem de Walt Whitman, esse Adão nomeadorDas crianças que existem sob a lua,Nem desses brancos dons do esquecimentoNem do amor que espero sem um lamento.
  26. 26. A BUSCANo fim de sua terceira geraçãoRegresso às planícies dos Acevedo,Os meus antepassados. VagamenteProcurei-os por esta velha casaBranca e retangular, entre o frescorDas duas galerias, e na sombraCrescente que projetam as colunas,Naquele intemporal grito do pássaro,Na chuva que ensombrece a varanda,Entre o crepúsculo de seus espelhos,Num reflexo, um eco, que foi seuE que agora é meu, sem que eu o saiba.Olhei para as ferragens do gradilQue fez parar as lanças do deserto,A palmeira partida pelo raio,Os negros touros de Aberdeen, a tarde,As casuarinas que eles nunca viram.Aqui foram a espada e o perigo,As duras proscrições e os levantes;Firmes sobre o cavalo, aqui regeramA sem princípio e a sem fim planuraOs estanceiros das longínquas léguas.Pedro Pascual, Miguel, Judas Tadeo...Quem me dirá se misteriosamente,Sob esse teto de uma única noite,E para além dos anos e do pó,Para além do cristal da relembrança,Não nos unimos e nos confundimos,Eu só no sonho, mas eles na morte.
  27. 27. O PERDIDOOnde estará minha vida, a que tudoPôde ser e não foi, a venturosaOu a de triste horror, essa outra coisaQue pôde ser a espada ou o escudoE que não foi? Onde estará o perdidoAntepassado persa ou norueguês,Onde o acaso de não me enceguecer,Onde a âncora e o mar, onde o olvidoDe ser quem sou? Onde estará a puraNoite que ao rude lavrador confiaO iletrado e laborioso dia,Conforme pede a literatura?Penso também naquela companheiraQue me queria, e quem sabe ainda queira.
  28. 28. H. O.Em certa rua há certa firme portaCom a campainha e o número precisoE um sabor de perdido paraíso,Que nos entardeceres não está abertaA minha passagem. Finda a jornada,Uma esperada voz me esperariaNa desagregação de cada diaE no sossego da noite enamorada.Essas coisas não são. Outra é minha sorte:As vagas horas, a memória impura,O exagero da literaturaE no limite a indesejada morte.Só desejo essa pedra. Meu pedidoSão duas datas abstratas e o olvido.
  29. 29. RELIGIO MEDICI, 1643Defende-me, Senhor. (O vocativoNão implica Ninguém. É só uma palavraDeste exercício que o enfado lavraE que na tarde do temor cultivo.)Defende-me de mim. Já o disseramMontaigne e Browne e um espanhol que ignoro;Algo me resta ainda de todo esse ouroQue meus olhos de sombra recolheram.Defende-me, Senhor, do impacienteDesejo de ser mármore e olvido;Defende-me de ser o já vivido,O que já fui irreparavelmente.Não da espada ou da vermelha lançaDefende-me, mas sim da esperança.
  30. 30. 1971Dois homens caminharam pela lua.Outros depois. O que pode a palavra,O que pode o que a arte sonha e lavra,Ante sua real e quase irreal fortuna?Ébrios de horror divino e de aventura,Esses filhos de Whitman haviam pisadoO páramo lunar, o invioladoOrbe que, antes de Adão, passa e perdura.O amor de Endímion em sua montanha,O hipogrifo, a curiosa esferaDe Wells, que em minha recordação é vera,Confirmam-se. De todos é a façanha.Não há na terra um homem que não sejaMais valente hoje e mais feliz. O diaImemorial se exalta de energiaPelo valor que essa Odisséia enseja,A dos amigos mágicos. A lua,Que o amor secular busca no firmamentoCom triste rosto e insatisfeito intento,Será seu monumento, eterna e una.
  31. 31. COISASO volume caído que os outrosEscondem ali no fundo da estanteE que os dias e as noites cobremDe lento pó silencioso. A âncoraDe Sídon que os mares da InglaterraOprimem em seu abismo cego e brando.O espelho que não repete ninguémQuando a casa permaneceu sozinha.As limalhas de unha que deixamosNo decorrer do tempo e do espaço.O pó indecifrável que foi Shakespeare.As modificações de uma nuvem.A simétrica rosa momentâneaQue deu o acaso certa vez aos vidrosOcultos do infantil caleidoscópio.Os remos de Argos, a primeira nave.As pegadas de areia que a ondaSonolenta e fatal desfaz na praia.Os matizes de Turner quando as luzesApagam-se na reta galeriaE não ressoa um passo na alta noite.O inverso do prolixo mapa-múndi.A tênue teia de aranha na pirâmide.A pedra cega e a mão curiosa.O sonho que eu tive antes da auroraE que esqueci ao clarear o dia.O princípio e o fim da epopéiaDe Finsburh, hoje alguns contados versosDe ferro, não comido pelos séculos.A letra inversa no mata-borrão.A tartaruga no fundo do algibe.O que não pode ser. O outro cornoDo unicórnio. O Ser que é Três e é Uno.O disco triangular. O inapreensívelInstante em que a flecha do eleata,No ar imobilizada, acerta o alvo.
  32. 32. A flor entre as páginas de Bécquer.O pêndulo que o tempo fez parar.O aço que Odin cravou na árvore.O texto de umas não cortadas folhas.O ressoar dos cascos no assaltoDe Junín, que de algum eterno modoNão cessou e é parte dessa trama.A sombra de Sarmiento nas calçadas.A voz que na montanha ouviu o pastor.Os ossos branqueando no deserto.A bala que matou Francisco Borges.O outro lado do tapete. As coisasQue ninguém olha, salvo o Deus de Berkeley.
  33. 33. O AMEAÇADOÉ o amor. Terei de me esconder ou fugir.Crescem as paredes de seu cárcere, como em um sonho atroz.A bela máscara mudou, mas como sempreé a única. De que me servirão meus talismãs: oexercício das letras, a vaga erudição, o aprendizadodas palavras que usou o áspero Norte para cantar seusmares e suas espadas, a serena amizade, as galerias daBiblioteca, as coisas comuns, os hábitos, o jovemamor de minha mãe, a sombra militar de meus mortos,a noite intemporal, o gosto do sonho?Estar contigo ou não estar contigo é a medida de meu tempo.O cântaro já se quebra sobre a fonte, já se levantao homem à voz da ave, já escureceram os queolham pelas janelas, mas a sombra não trouxe a paz.É, eu sei, o amor: a ansiedade e o alívio de ouvir tua voz,a espera e a memória, o horror de viver no sucessivo.E o amor com suas mitologias, com suas pequenas magias inúteis.Há uma esquina pela qual não me atrevo a passar.Agora os exércitos me cercam, as hordas.(Este quarto é irreal; ela não o viu.)O nome de uma mulher me delata.Dói-me uma mulher por todo o corpo.
  34. 34. PROTEUAntes que os remeiros de OdisseuFatigassem os mares cor de vinho,As inapreensíveis formas adivinhoDaquele deus cujo nome foi Proteu.Um pastor dos rebanhos desses maresQue possuía o dom da profeciaPreferia ocultar o que sabiaE entretecer uns oráculos díspares.Urgido pela gente, assumiaA forma de um leão, de uma fogueiraOu de árvore que ensombra a ribeiraOu de água que na água se perdia.Com Proteu, o egípcio, não te assombres,Tu, que és um e ao mesmo tempo muitos homens.
  35. 35. OUTRA VERSÃO DE PROTEUHabitante de areias receosas,Meio deus, meio fera marinha,Ignorou a memória, que definhaSobre o ontem e as perdidas coisas.Outro tormento padeceu ProteuNão menos cruel, saber o que encerraO futuro: uma porta que se cerraPara sempre, o troiano e o aqueu.Capturado, tomava a inapreensívelForma do furacão ou da fogueiraOu do tigre de ouro ou da panteraOu de água que na água é invisível.Tu também estás feito de inconstantesOntens e amanhãs.No entanto, antes...
  36. 36. FALA UM BUSTO DE JANONinguém abra nem feche qualquer portaSem honrar a memória de Bifronte,Que as preside. Abarco o horizonteDe incertos mares e de terra certa.Minhas duas faces divisam o que passouE o porvir. Posso vê-los similaresAos ferros, às discórdias e aos malesQue Alguém pôde apagar mas não apagouNem apagará. As duas mãos me faltamE sou de pedra imóvel. Não poderiaPrecisar se contemplo uma porfiaFutura ou a de ontens que se afastam.Vejo minha ruína: a coluna truncadaE as faces, que não vão se ver por nada.
  37. 37. O GAÚCHOFilho de algum extremo dessa planuraAberta, elementar, quase secreta,Puxava o firme laço que aquietaO firme touro de cerviz escura.Com o índio e o godo antes lutou,Morreu em rixas de baralho e tava;Deu a vida à pátria, que ignorava,E, assim perdendo, nada lhe restou.Hoje é pó de tempo e de planeta;Nomes não ficam, mas o seu perdura.Foi tantos outros e hoje é uma quietaPeça que move a literatura.Foi o matreiro, o sargento e a partida.Foi quem cruzou a heróica cordilheira.Foi soldado de Urquiza ou de Rivera,Tanto faz. Foi quem acabou com Laprida.Deus lhe estava distante. ProfessaramA antiga fé do ferro e da coragem,Que a súplica ou a soldo não dão margem.Por essa fé morreram e mataram.Entre os acasos de uma montoneraPereceu pela cor de uma divisa;Foi quem nada pediu, nem a efêmeraGlória, feita de alarde e de brisa.Foi o homem cinzento que, obscuro na pausadaPenumbra do galpão, sonha e mateia,Enquanto no oriente já clareiaA luz de outra deserta madrugada.Nunca disse: Sou gaúcho. Foi sua sorteNão imaginar a sorte que é dos outros.Não menos ignorante que nós, outros,Não menos solitário, entrou na morte.
  38. 38. A PANTERAAtrás das fortes grades a panteraRepetirá o enfadonho itinerário,Que é (mas não o sabe) seu fadárioDe negra jóia, aziaga e prisioneira.Vão e vêm aos milhares, em desfilesInfindáveis, mas é só uma e eternaA pantera fatal que em sua cavernaTraça a reta que um eterno AquilesTraça no sonho que sonhou o grego.Não sabe que há prados e montanhasDe cervos cujas trêmulas entranhasDeleitariam seu apetite cego.Em vão é vário o orbe. A jornadaQue cumpre cada qual já foi fixada.
  39. 39. TUUm só homem nasceu, um só homem morreu na terra.Afirmar o contrário é mera estatística, é uma adição impossível.Não menos impossível que somar o cheiro da chuva e o sonho que anteontemà noite sonhaste.Esse homem é Ulisses, Abel, Caim, o primeiro homem que ordenou as constelações,o homem que erigiu a primeira pirâmide, o homem que escreveu os hexagramas doLivro das Mutações, o forjador que gravou runas na espada de Hengist, oarqueiro Einar Tamberskelver, Luis de León, o livreiro que engendrou SamuelJohnson, o jardineiro de Voltaire, Darwin na proa do Beagle, um judeu na câmaraletal, com o tempo, tu e eu.Um só homem morreu em Ílion, no Metauro, em Hastings, em Austerlitz, emTrafalgar, em Gettysburg.Um só homem morreu nos hospitais, em barcos, na árdua solidão, naalcova do hábito e do amor.Um só homem fitou a vasta aurora.Um só homem sentiu no paladar o frescor da água, o gosto das frutase da carne.Falo do único, do uno, do que está sempre só. Norman, Oklahoma.
  40. 40. POEMA DA QUANTIDADEPenso nesse parco céu puritanoDe solitárias e perdidas luzesQue Emerson olharia tantas noitesEm meio à neve e ao rigor de Concord.Aqui são excessivas as estrelas.O homem é excessivo. As geraçõesInúmeras de aves e de insetos,Do jaguar constelado e da serpente,De galhos que se tecem e entretecem,Do café, da areia e das folhasOprimem as manhãs e nos prodigamSeu minucioso labirinto inútil.Talvez cada formiga que pisamosSeja única ante Deus, que a definePara a execução das regularesLeis que regem Seu curioso mundo.Não fosse assim, o universo inteiroSeria um erro e um oneroso caos.Os espelhos do ébano e da água,O espelho inventivo de um sonho,Os liquens e os peixes, as madréporas,Tartarugas alinhadas no tempo,Os vaga-lumes de uma única tarde,As araucárias e suas dinastias,As perfiladas letras de um volumeQue a noite não apaga são sem dúvidaNão menos pessoais e enigmáticasQue eu, que as confundo. Não me atrevoA julgar nem a lepra nem Calígula. São Paulo, 197O.
  41. 41. A SENTINELAEntra a luz e eu me lembro; está ali.Começa por dizer-me seu nome, que é (logo se entende) o meu.Volto à escravidão que durou mais de sete vezes dez anos.Impõe-me sua memória.Impõe-me as misérias de cada dia, a condição humana.Sou seu velho enfermeiro; obriga-me a lavar os seus pés.Espreita-me nos espelhos, no mogno, nos vidros das lojas.Uma ou outra mulher o rejeitou e devo compartilhar sua angústia.Dita-me agora este poema, que não me agrada.Exige-me o nebuloso aprendizado do duro anglo-saxão.Converteu-me ao culto idolátrico de militares mortos, com osquais talvez não pudesse trocar uma única palavra.No último lanço de escada sinto que está a meu lado.Está em meus passos, em minha voz.Minuciosamente o odeio.Percebo com prazer que quase não vê.Estou em uma cela circular e a infinita parede se estreita.Nenhum dos dois engana o outro, mas nós dois mentimos.Conhecemo-nos demais, inseparável irmão.Bebes a água de meu copo e devoras meu pão.A porta do suicida está aberta, mas os teólogos afirmam que nasombra ulterior do outro reino estarei eu, me esperando.
  42. 42. AO IDIOMA ALEMÃOMeu destino é a língua castelhana,O bronze de Francisco de Quevedo,Mas pela lenta noite caminhadaExaltam-me outras músicas mais íntimas.Umas me foram dadas pelo sangue –Oh, voz de Shakespeare e da Escritura –,E outras pelo acaso dadivoso,Mas a ti, doce língua da Alemanha,Solitário elegi e procurei.Por entre vigílias e gramáticas,Em meio à selva das declinações,Do dicionário, que jamais atinaCom o matiz preciso, me aproximei.Minhas noites são repletas de Virgílio,Disse uma vez; e diria tambémDe Hölderlin e de Angelus Silesius.Heine me deu seus altos rouxinóis;Goethe, a ventura de um amor tardio,A um só tempo indulgente e mercenário;Keller, a rosa que certa mão deixaNa mão daquele morto que a amavaE que não vai saber se é branca ou rubra.Tu, língua da Alemanha, és tua obraCapital: esse amor entrelaçadoDas palavras compostas, as vogaisAbertas, e esses sons que condescendemCom o estudioso hexâmetro do grego,Com teu rumor de selvas e de noites.Foste minha algum dia. Hoje, no lindeDe meus anos cansados, te divisoLongínqua como a álgebra e a lua.
  43. 43. AO TRISTEAí está o que foi: a dura espadaDo saxão e sua métrica de ferro,Os mares e as ilhas do desterroDo filho de Laertes, a douradaLua do persa e os infindos jardins,Os da filosofia e os da história,O ouro sepulcral que há na memóriaE sob a sombra o cheiro dos jasmins.E nada disso importa. O resignadoExercício do verso não te salva,Nem as águas do sonho nem a estrelaQue na arruinada noite esquece a alva.Uma única mulher é teu cuidado,Igual às outras todas, mas que é ela.
  44. 44. O MARO mar. O mar de Ulisses. Jovem mar.E o daquele outro Ulisses que a genteDo Islã alcunhou famosamenteDe Es-Sindibad do Mar. Do gris ondearDe Érico, o Vermelho, alto em sua proa,E o do tal cavaleiro que escreviaA um só tempo a epopéia e a elegiaDe sua pátria, no pântano de Goa.O mar de Trafalgar. O que a InglaterraCantou ao longo de sua longa história,O árduo mar que ensangüentou de glóriaNo diário exercício da guerra.Esse incessante mar que na afávelManhã segue sulcando a areia infindável.
  45. 45. AO PRIMEIRO POETA DA HUNGRIANeste período para ti futuroQue desconhece o áugure que a formaProibida do porvir vê nos planetasArdentes ou nas vísceras do touro,Nada me custaria, irmão e sombra,Buscar teu nome nas enciclopédiasE descobrir que rios refletiramTeu rosto, que hoje é perdição e pó,E que reis, que ídolos, que espadas,Que resplendor de tua infinita HungriaElevaram tua voz ao primo canto.As noites e os mares nos separam,As seculares modificações,Os climas, os impérios e os sangues.Porém nos une indecifravelmenteO misterioso amor pelas palavras,Nosso costume de sons e de símbolos.Semelhante ao arqueiro do eleata,Um homem só numa tarde vaziaDeixa correr sem fim esta impossívelSaudade, que tem por alvo uma sombra.Não nos veremos nunca face a face,Oh, antepassado que minha voz não alcança.Eu para ti não sou sequer um eco;Para mim sou um tormento e um arcano,Uma ilha de encanto e temores,Como talvez o sejam os homens todos,E como o foste tu, sob outros astros.
  46. 46. O ADVENTOSou o que fui na aurora, entre a tribo.Deitado em meu canto da caverna,Lutava por afundar nas obscurasÁguas do sonho. Espectros de animaisFeridos pelo estilhaço da flechaDavam horror à negrura. Mas algo,Talvez a execução de uma promessa,A morte de um rival sobre a montanha,Talvez o amor, ou uma pedra mágica,Me fora outorgado. Perdi tudo.Pelos séculos gasta, a memóriaSó guarda essa noite e sua manhã.Sentia desejo e medo. BruscamenteOuvi o surdo tropel interminávelDe um rebanho atravessando a aurora.Arco de roble, flechas que se cravam,Deixei-os e corri até a gretaQue se abre no extremo da caverna.Foi então que os vi. Brasa avermelhada,Cruéis os cornos, montanhoso o lombo,A crina lúgubre como os seus olhosQue espreitavam malvados. Aos milhares.São os bisões, eu disse. A palavraNunca antes passara por meus lábios,Mas senti que talvez fosse seu nome.Era como se eu nunca houvesse visto,Como se houvesse estado cego e mortoNo tempo antes dos bisões da aurora.Eles surgiam da aurora. Eram a aurora.Não quis que os outros profanassemAquele denso rio de brutezaDivina, de ignorância, de soberba,Indiferente como as estrelas.Pisotearam um cão do caminho;Teriam feito o mesmo com um homem.Depois os traçaria na caverna
  47. 47. Com ocre e cinábrio. Foram os DeusesDo sacrifício e das preces. NuncaDisse minha boca o nome de Altamira.Foram muitas minhas formas e mortes.
  48. 48. A TENTAÇÃOO general Quiroga vai a seu enterro;Convida-o o mercenário Santos PérezE sobre Santos Pérez está Rosas,A recôndita aranha de Palermo.Rosas, a for de bom covarde, sabeQue não há entre os homens um sequerMais vulnerável e frágil que o valente.Juan Facundo Quiroga é temerárioAté a insensatez. O fato podeMerecer o exame de seu ódio.Resolveu-se a matá-lo. Pensa e hesita.Por fim, dá com a arma que buscava.Será a sede e a fome de perigo.Quiroga busca o Norte. O próprio RosasO adverte, quase ao pé da carroça,Que circulam rumores de que LópezPremedita sua morte. RecomendaQue não empreenda a ousada travessiaSem uma escolta. Ele mesmo a oferece.Facundo sorriu. Pois não careceDe ladeiros. Ele se basta. A rangenteCarroça deixa as vilas para trás.Léguas de longa chuva a entorpecem,Neblina e lodo e as águas transbordadas.Por fim, avistam Córdoba. São vistosComo se fossem seus fantasmas.Todos já os davam por mortos. Noites antes,Córdoba inteira vira Santos PérezDistribuindo espadas. A partidaÉ de trinta cavaleiros da serra.Nunca se urdiu um crime de maneiraMais descarada, escreverá Sarmiento.Juan Facundo Quiroga não se altera.Busca o Norte. Em Santiago del EsteroSe entrega às cartas e a seu belo risco.Entre o ocaso e a aurora perde
  49. 49. Ou recebe centenas de onças de ouro.Recrudescem os alarmes. BruscamenteDecide regressar e dá a ordem.Por esses descampados e esses montesRetomam os caminhos do perigo.Em um sítio chamado Ojo de AguaO maestro de posta lhe revelaQue por ali já passou a partidaEncarregada de assassiná-loE que o espera em um lugar que nomeia.Ninguém deve escapar. Esta é a ordem.A determinação de Santos Pérez,O capitão. Facundo não se arreda.Está por nascer o homem que se atrevaA acabar com Quiroga, lhe responde.Os outros ficam pálidos e calam.Sobrevém a noite, em que somenteDorme o fatal, o forte, que confiaEm seus obscuros deuses. Amanhece.Não voltarão a ver outra manhã.Por que concluir a história que já foiContada para sempre? A carroçaToma o rumo de Barranca Yaco.
  50. 50. 1891Assim que o vislumbro, já o perco.Ajustado o decente traje preto,A testa estreita, o bigode ralo,E um lenço no pescoço como todos,Vai caminhando entre a gente da tardeEnsimesmado e sem fitar ninguém.Em uma das esquinas da rua PiedrasPede uma pinga brasileira. O hábito.Alguém grita um adeus. Não lhe responde.Há em seus olhos um rancor antigo.Outra quadra. Rajadas de milongaVêm de um pátio e o alcançam. Essas charangasEstão sempre amolando a paciência,Mas seu andar balança e ele nem nota.Levanta a mão e apalpa a firmezaDo punhal que há na cava do colete.Vai cobrar uma dívida. Está perto.Mais alguns passos e o homem pára.Há uma flor de cardo no saguão.Ouve o golpe do balde no algibeE uma voz que conhece muito bem.Empurra o portão que ainda está abertoComo se o esperassem. Esta noiteTalvez já esteja morto.
  51. 51. 1929Antes, a luz avançava mais cedoNa peça que dá para o último pátio;Agora o sobrado que fica ao ladoEncobre o sol, mas na difusa sombraSeu modesto inquilino está despertoDesde o amanhecer. E em silêncio,Para não perturbar os seus vizinhos,O homem está mateando e esperando.Outro dia vazio, como todos.E os ardores constantes de sua úlcera.Já não há mulheres em minha vida, pensa.Os amigos o enfadam. ImaginaQue os enfade também. Falam de coisasQue não entende, de arqueiros e de quadros.Não viu que horas são. Sem pressa algumaLevanta-se e barbeia-se com inútilEsmero. É preciso encher o tempo.O rosto que o espelho lhe devolveGuarda o aprumo que antes era seu.Envelhecemos mais que nosso rosto,Pensa, mas aí estão as comissuras,O bigode grisalho, a boca murcha.Pega o chapéu e sai. Já no vestíbuloVê um jornal aberto. Lê as grandes letras,Crises ministeriais em paísesQue são apenas nomes. Em seguidaNota a data da véspera. Um alívio;Não há mais motivo para seguir lendo.Lá fora, a manhã logo lhe deparaSua ilusão habitual de que algo estáComeçando e os pregões dos vendedores.Em vão o homem inútil dobra esquinasE passagens e tenta se perder.Vê com aprovação as casas novas,Algo, o vento sul, talvez, o anima.Cruza a Rivera, hoje chamada Córdoba,
  52. 52. E nem lembra que faz muitos anosQue seus passos a eludem. Duas, três quadras.Reconhece uma longa balaustrada,Os redondéis da sacada de ferro,Um muro eriçado de pedaçosDe vidro. Nada mais. Tudo mudou.Tropeça na calçada. Ouve a troçaDe alguns garotos. Não lhes dá atenção.Agora está andando lentamente.De repente pára. Algo aconteceu.Aí onde agora há uma sorveteria,Havia o Almacén de la Figura.(A história conta quase meio século.)Aí um desconhecido de ar avessoGanhou-lhe um longo truco, quinze e quinze,E ele insinuou que o jogo não era limpo.Evitou discutir, mas disse a ele:Vou lhe dar até o último centavo,Mas depois disso vamos para a rua.O outro respondeu que com o ferroNão ia se dar melhor que com as cartas.Não havia uma estrela. BenavidesLhe emprestou sua faca. A pelejaFoi dura. Na memória é só um instante,Um só imóvel fulgor, vertiginoso.Lançou-se numa longa punhalada,Que bastou. Depois, na dúvida, em outra.Ouviu o cair do corpo e do aço.E então sentiu pela primeira vezO corte em seu pulso e viu o sangue.Foi então que brotou de sua gargantaUma palavra grosseira, que reuniaA exultação, a ira e o assombro.Tantos anos e ele enfim resgatouA sorte de ser homem e ser valenteOu, pelo menos, a de tê-lo sidoAlgum dia, num dos ontens do tempo.
  53. 53. A PROMESSA Em Pringles, o doutor Isidro Lozano me contou a história. Fez isso com taleconomia que compreendi que já o fizera antes, como era previsível, muitasvezes; acrescentar ou alterar um pormenor seria um pecado literário. "O fato aconteceu aqui, em mil novecentos e vinte e tantos. Eu tinhavoltado de Buenos Aires com meu diploma. Certa noite, mandaram me chamar,do hospital. Levantei-me de mau humor, vesti-me e atravessei a praça deserta.Na sala de espera, o doutor Eudoro Ribera me disse que um dos malfeitores docomitê, Clemente Garay, tinha sido trazido com uma punhalada no ventre. Nóso examinamos; agora estou endurecido, mas na época mexeu comigo ver umhomem com os intestinos de fora. Estava com os olhos fechados e a respiraçãoera difícil. " O doutor Ribera me disse: – Não há mais nada a fazer, meu jovem colega. Vamos deixar que esteporqueira morra. Respondi-lhe que tinha me arrastado até ali depois das duas da manhã e quefaria o possível para salvá-lo. Ribera deu de ombros; lavei os intestinos,coloquei-os no lugar e costurei o ferimento. Não ouvi uma única queixa. No dia seguinte voltei. O homem não havia morrido; olhou-me, apertouminha mão e disse: – Para o senhor, obrigado, e meu cabo de prata para Ribera. Quando deramalta a Garay, Ribera já partira para Buenos Aires. "Desde essa data, todos os anos recebi um cordeirinho no dia de meuaniversário. Por volta de quarenta o presente cessou."
  54. 54. O ESTUPOR Um vizinho de Morón me contou o caso: "Ninguém sabe muito bem por que Moritán e o Pardo Rivarola seinimizaram e de modo tão rancoroso. Os dois eram do partido conservador eacho que se conheceram no comitê. Não me lembro de Moritán porque eu eramuito pequeno quando morreu. Dizem que a família era de Entre Ríos. OPardo sobreviveu a ele muitos anos. Não era um caudilho ou coisa parecida,mas tinha toda a pinta. Mais baixo do que alto, era pesado e muito pomposo novestir. Nenhum dos dois era frouxo, mas o mais reflexivo era Rivarola, comologo se viu. Há muito tempo ele tinha jurado Moritán, mas quis agir comprudência. Dou-lhe razão; se alguém mata alguém e tem de penar na prisão,está agindo como um sonso. O Pardo tramou bem o que ia fazer. " "Deviam ser sete horas da tarde, um domingo. A praça transbordava degente. Como sempre, aí estava Rivarola caminhando devagar, com seu cravona lapela e a roupa preta. Ia com a sobrinha. De repente afastou-a, sentou-se decócoras no chão e se pôs a adejar e cacarejar como se fosse um galo. Aspessoas lhe abriram cancha, assustadas. Um homem de respeito como o Pardo,fazendo uma coisa dessas, à vista e paciência de todo o Morón e num dia dedomingo! Meia quadra depois ele virou e, sempre cacarejando e esvoejando,enfiou-se na casa de Moritán. Empurrou o portão e de um salto entrou no pátio.A multidão se aglomerava na rua. Moritán, que ouviu a balbúrdia, veio lá dofundo. Ao ver esse monstruoso inimigo investindo contra ele, quis ganhar osquartos, mas um balaço o alcançou e depois outro. Rivarola foi levado entredois guardas. O homem forcejou, cacarejando. " "Um mês depois estava em liberdade. O médico forense declarou que elefora vítima de um súbito ataque de loucura. Por acaso o povo inteiro não otinha visto, comportando-se como um galo?"
  55. 55. OS QUATRO CICLOS Quatro são as histórias. Uma, a mais antiga, é a de uma forte cidadecercada e defendida por homens valentes. Os defensores sabem que a cidadeserá entregue ao ferro e ao fogo e que sua batalha é inútil; o mais famoso dosagressores, Aquiles, sabe que seu destino é morrer antes da vitória. Os séculosforam acrescentando elementos de magia. Já se disse que Helena de Tróia, pelaqual os exércitos morreram, era uma bela nuvem, uma sombra; já se disse queo grande cavalo oco no qual se ocultaram os gregos era também uma aparência.Homero não deve ter sido o primeiro poeta a referir a fábula; alguém, no séculocatorze, deixou esta linha que anda em minha memória: "The borgh brittenedand brent to brontes and askes".3 Dante Gabriel Rossetti iria imaginar que asorte de Tróia foi selada naquele instante em que Páris arde de amor porHelena; Yeats elegerá o instante em que se confundem Leda e o cisne que eraum deus. Outra, que se vincula à primeira, é a de um regresso. O de Ulisses, que,ao fim de dez anos errando por mares perigosos e demorando-se em ilhas deencantamento, volta a sua Ítaca; o das divindades do Norte que, uma vezdestruída a terra, vêem-na surgir do mar, verde e lúcida, e encontram perdidasno gramado as peças de xadrez com que antes jogaram. A terceira história é a de uma busca. Podemos ver nela uma variante daforma anterior. Jasão e o Velocino; os trinta pássaros do persa, que cruzammontanhas e mares e vêem o rosto de seu Deus, o Simurgh, que é cada umdeles e todos. No passado, todo cometimento era venturoso. Alguém roubava,no fim, as proibidas maçãs de ouro; alguém, no fim, merecia a conquista doGraal. Agora, a busca está condenada ao fracasso. O capitão Ahab dá com abaleia e a baleia o desfaz; os heróis de James ou de Kafka só podem esperar aderrota. Somos tão pobres de coragem e de fé que agora o happy-ending nãopassa de um mimo industrial. Não podemos acreditar no céu, mas sim noinferno. A última história é a do sacrifício de um deus. Átis, na Frígia, se mutila ese mata; Odin, sacrificado a Odin, Ele mesmo a Si Mesmo, pende da árvorenove noites a fio, ferido com uma lança; Cristo é crucificado pelos romanos.
  56. 56. Quatro são as histórias. Durante o tempo que nos resta, continuaremos a narrá-las, transformadas. O SONHO DE PEDRO HENRÍQUEZ UREÑA O sonho que Pedro Henríquez Ureña teve no alvorecer de um dos dias de1946 curiosamente não constava de imagens, mas de pausadas palavras. A vozque as dizia não era a sua, mas se parecia com a sua. O tom, não obstante aspossibilidades patéticas que o tema permitia, era impessoal e comum. Duranteo sonho, que foi breve, Pedro sabia que estava dormindo em seu quarto e quesua mulher estava a seu lado. Na escuridão, o sonho lhe disse: Há algumas noites, em uma esquina da rua Córdoba, discutiste comBorges a invocação do Anônimo Sevilhano "Oh, Morte, vem calada comocostumas vir na seta". Suspeitaram que era o eco deliberado de algum textolatino, já que essas translações correspondiam aos hábitos de uma época,totalmente alheia a nosso conceito de plágio, sem dúvida menos literário quecomercial. O que não suspeitaram, o que não podiam suspeitar, é que o diálogoera profético. Dentro de algumas horas, andarás apressado pela últimaplataforma de Constitución, para dar tua aula na Universidad de La Plata.Alcançarás o trem, porás a pasta na rede e te acomodarás em teu assento, juntoà janela. Alguém, cujo nome não conheço mas cujo rosto estou vendo, dirigiráa ti algumas palavras. Não lhe responderás, porque estarás morto. já te terásdespedido, como sempre, de tua mulher e de tuas filhas. Não lembrarás estesonho, porque teu esquecimento é necessário para que se cumpram os fatos.
  57. 57. O PALÁCIO O Palácio não é infinito. Os muros, os aterros, os jardins, os labirintos, as grades, as varandas, osparapeitos, as portas, as galerias, os pátios circulares ou retangulares, osclaustros, as encruzilhadas, os algibes, as antecâmaras, as câmaras, as alcovas,as bibliotecas, os desvãos, os cárceres, as celas sem saída e os hipogeus não sãomenos numerosos que os grãos de areia do Ganges, mas seu número tem umfim. Dos terraços, em direção ao poente, não falta quem divise as forjas, ascarpintarias, as cavalariças, os lenheiros e os casebres dos escravos. A ninguém é dado percorrer mais que uma parte infinitesimal do palácio.Alguns conhecem apenas os porões. Podemos perceber alguns rostos, algumasvozes, algumas palavras, mas o que percebemos é ínfimo. Ínfimo e precioso aomesmo tempo. A data que o aço grava na lápide e que os livros paroquiaisregistram é posterior a nossa morte; já estamos mortos quando nada nos toca,nem uma palavra, nem um desejo, nem uma memória. Eu sei que não estoumorto.
  58. 58. HENGIST QUER HOMENS (449 A.D.) Hengist quer homens. Eles virão dos confins de areia que se perdem em vastos mares, decasebres enfumaçados, de terras pobres, de profundos bosques de lobos, emcujo centro indefinido está o Mal. Os lavradores deixarão o arado e os pescadores as redes. Deixarão suas mulheres e seus filhos, porque o homem sabe que emqualquer lugar da noite pode encontrá-las e fazê-los. Hengist, o mercenário, quer homens. Ele os quer para debelar uma ilha que ainda não se chama Inglaterra. Vão segui-lo submissos e cruéis. Sabem que sempre foi o primeiro na batalha de homens. Sabem que umavez esqueceu seu dever de vingança e que lhe deram uma espada nua e que aespada fez sua obra. Atravessarão a remo os mares, sem bússola e sem mastro. Trarão espadas e broquéis, elmos com a forma do javali, conjuros paraque se multipliquem as messes, vagas cosmogonias, fábulas dos hunos e dosgodos. Conquistarão a terra, mas nunca entrarão nas cidades que Romaabandonou, porque são coisas demasiado complexas para sua mente bárbara. Hengist os quer para a vitória, para o saque, para a corrupção da carne epara o esquecimento. Hengist os quer (mas não o sabe) para a fundação do maior império, paraque o cantem Shakespeare e Whitman, para que dominem o mar as naus de
  59. 59. Nelson, para que Adão e Eva se afastem, de mãos dadas Q silenciosos, doParaíso que perderam. Hengist os quer (mas não o saberá) para que eu trace estas letras.
  60. 60. EPISÓDIO DO INIMIGO Tantos anos fugindo e esperando e agora o inimigo estava em minha casa.Da janela o vi subir penosamente pelo áspero caminho do cerro. Ajudava-secom um bastão, com o torpe bastão que em suas velhas mãos não podia seruma arma, e sim um báculo. Custou-me perceber o que esperava: a batida fracana porta. Fitei, não sem nostalgia, meus manuscritos, o rascunho interrompidoe o tratado de Artemidoro sobre os sonhos, livro um tanto anômalo aí, já quenão sei grego. Outro dia perdido, pensei. Tive de forcejar com a chave. Temique o homem desmoronasse, mas deu alguns passos incertos, soltou o bastão,que não voltei a ver, e caiu em minha cama, rendido. Minha ansiedade oimaginara muitas vezes, mas só então notei que se parecia, de modo quasefraternal, com o último retrato de Lincoln. Deviam ser quatro da tarde. Inclinei-me sobre ele para que me ouvisse. – Pensamos que os anos passam apenas para nós – disse-lhe –, maspassam também para os outros. Aqui nos encontramos, por fim, e o queaconteceu antes não tem sentido. Enquanto eu falava, ele desabotoara o casaco. A mão direita estava nobolso do paletó. Assinalava-me algo e senti que era um revólver. Disse-me então com voz firme: – Para entrar em sua casa, recorri à compaixão. Agora o tenho a minhamercê e não sou misericordioso. Ensaiei algumas palavras. Não sou um homem forte e só as palavraspodiam salvar-me. Atinei a dizer: – É verdade que há tempos maltratei um menino, mas você já não éaquele menino nem eu aquele insensato. Além disso, a vingança não é menosfátua e ridícula que o perdão. – Justamente porque já não sou aquele menino – replicou-me – tenho dematá-lo. Não se trata de uma vingança, mas de um ato de justiça. Seus
  61. 61. argumentos, Borges, são meros estratagemas de seu terror para que eu não omate. Você não pode fazer mais nada. – Posso fazer uma coisa – respondi. – O quê? – perguntou-me. – Acordar. E foi o que fiz.
  62. 62. À ISLÂNDIADe todas as regiões da bela terraQue minha carne e sua sombra fatigaramTu és a mais remota e a mais íntima,Última Tule, Islândia dos navios,Do firme arado e do constante remo,Das estendidas redes marinheiras,Da curiosa luz de tarde imóvelQue efunde o vago céu desde a alvoradaE do vento que procura os perdidosVelâmenes do viking. Terra sacraQue foste a memória da GermâniaE resgataste sua mitologiaDe uma selva de ferro e de seu loboE dessa nave que os deuses temem,Lavrada com as unhas dos defuntos.Islândia, eu longamente te sonheiDesde aquela manhã em que meu paiDeu à criança que fui e não morreuUma versão dessa Völsunga SagaQue agora decifra minha penumbraCom a ajuda do lento dicionário.Quando o corpo se cansa de seu homem,Quando o fogo declina e já é cinza,Cai bem a resignada aprendizagemDe uma empresa infinita; eu escolhiA de tua língua, esse latim do NorteQue abarcou as estepes e os maresDe um hemisfério e ressoou em BizâncioE pelas margens virgens desta América.Sei que não vou sabê-la, mas me esperamOs privilégios casuais da busca,Não o fruto sabiamente inalcançável.O mesmo vão sentir os que indagamOs astros ou a sucessão dos números...Só o amor, o ignorante amor, Islândia.
  63. 63. AO ESPELHOPor que persistes, incessante espelho?Por que repetes, misterioso irmão,O menor movimento de minha mão?Por que na sombra o súbito reflexo?És o outro eu sobre o qual fala o gregoE desde sempre espreitas. Na bruniduraDa água incerta ou do cristal que duraMe buscas e é inútil estar cego.O fato de não te ver e saber-teTe agrega horror, coisa de magia que ousasMultiplicar a cifra dessas coisasQue somos e que abarcam nossa sorte.Quando eu estiver morto, copiarás outroE depois outro, e outro, e outro, e outro...
  64. 64. A UM GATONão são mais silenciosos os espelhosNem mais furtiva a aurora aventureira;Tu és, sob a lua, essa pantera,Que divisam ao longe nossos olhos.Por obra indecifrável de um decretoDivino, buscamos-te inutilmente;Mais remoto que o Ganges e o poente,Tua é a solidão, teu o segredo.Teu dorso condescende à morosaCarícia de minha mão. Sem um ruído,Da eternidade que ora é olvido,Aceitaste o amor dessa mão receosa.Em outro tempo estás. Tu és o donoDe um espaço cerrado como um sonho.
  65. 65. EAST LANSINGOs dias e as noitesestão entretecidos (interwoven) de memória e de medo,de medo, que é um modo da esperança,de memória, nome que damos às fendas do férreo esquecimento.Meu tempo foi sempre um Jano bifronteque mira o ocaso e a aurora;meu propósito de hoje é celebrar-te, oh, futuro imediato.Regiões da Escritura e do machado,árvores que olharei e não verei,vento com pássaros que ignoro, gratas noites de frioque irão afundando no sonho e quem sabe na pátria,chaves de luz e portas giratórias que com o tempo serão hábitos,despertares em que me direi "Hoje é Hoje",livros que minha mão conhecerá,amigos e amigas que serão vozes,areias amarelas do poente, a única cor que me resta,tudo isso estou cantando e tambéma insofrível memória de lugares de Buenos Airesnos quais não fui felize nos quais não poderei ser feliz.Canto na véspera teu crepúsculo, East Lansing,Sei que as palavras que dito talvez sejam precisas,mas sutilmente serão falsas,porque a realidade é inapreensívele porque a linguagem é uma ordem de signos rígidos.Michigan, Indiana, Wisconsin, Iowa, Texas, Califórnia, Arizona;já tentarei cantá-las. 9 de março de 1972.
  66. 66. AO COIOTESéculo a século a areia infindávelDos diversos desertos têm sofridoTeus passos numerosos e o ganidoDe chacal cinza ou hiena. insaciável.Por séculos? Eu minto. Essa furtivaSubstância, o tempo, não te alcança, lobo;Teu é o puro ser, teu é o arroubo,Nossa, a torpe vida sucessiva.Foste um latido quase imaginárioNos confins do Arizona, nessa areiaOnde tudo é confim, e se incendeiaTeu perdido latido solitário.Símbolo de uma noite que eu possuía,Seja teu vago espelho esta elegia.
  67. 67. UM AMANHÃLouvada seja a misericórdiaDe Quem, completos meus setenta anosE selados meus olhos,Salva-me da venerada velhiceE das galerias de precisos espelhosDesses dias iguaisE dos protocolos, molduras e cátedrasE da assinatura de incansáveis papéisPara os arquivos do póE dos livros, que são simulacros da memória,E me prodiga o animoso desterro,Que talvez seja a forma essencial do destino argentino,E o acaso e a jovem aventuraE a dignidade do perigo,Conforme opinou Samuel Johnson.Eu, que sofri a vergonhaDe não ter sido aquele Francisco Borges que morreu em 1874Ou meu pai, que ensinou a seus discípulosO amor à psicologia e não acreditou nela,Esquecerei as letras que me deram alguma fama,Serei homem de Austin, de Edimburgo, da Espanha,E buscarei a aurora em meu ocidente.Na ubíqua memória serás minha,Pátria, e não na fração de cada dia.
  68. 68. O OURO DOS TIGRESAté a hora do ocaso amareloQuantas vezes terei contempladoO poderoso tigre de BengalaIr e vir pelo predestinado caminhoPor detrás das barras de ferro,Sem suspeitar que eram seu cárcere.Depois viriam outros tigres,O tigre de fogo de Blake;Depois viriam outros ouros,O metal amoroso que era Zeus,O anel que a cada nove noites4Engendra nove anéis e estes, nove,E não há um fim.Com os anos foram me deixandoAs outras belas coresE agora só me restamA vaga luz, a inextricável sombraE o ouro do princípio.Oh, poentes, oh, tigres, oh, fulgoresDo mito e da épica,Oh, um ouro mais precioso, teus cabelosQue estas mãos almejam. East Lansing, 1972.
  69. 69. Esta obra foi revisada pelo grupo Digital Source para proporcionar, demaneira totalmente gratuita, o benefício de sua leitura àqueles que nãopodem comprá-la ou àqueles que necessitam de meios eletrônicos paraler. Dessa forma, a venda deste e-book ou até mesmo a sua troca porqualquer contraprestação é totalmente condenável em qualquercircunstância. A generosidade e a humildade é a marca da distribuição,portanto distribua este livro livremente.Após sua leitura considere seriamente a possibilidade de adquirir ooriginal, pois assim você estará incentivando o autor e a publicação denovas obras.Se quiser outros títulos nos procure:http://groups.google.com/group/Viciados_em_Livros, será um prazer recebê-lo em nossogrupo. http://groups.google.com/group/Viciados_em_Livros http://groups.google.com/group/digitalsourceNOTAS:1 TAMERLÃO. Meu pobre Tamerlão havia lido, no final do século XIX, atragédia de Christopher Marlowe e algum manual de história.2 TANKAS. Quis adaptar a nossa prosódia a estrofe japonesa que consta de umprimeiro verso de cinco sílabas, de um de sete, de um de cinco e de doisúltimos de sete. Quem sabe como soarão estes exercícios a ouvidos orientais?A forma original prescinde também de rimas.3 OS QUATRO CÍCLOS. O verso em inglês médio quer dizer "A fortalezaarruinada e reduzida a incêndio e cinzas". Pertence ao admirável poemaaliterativo "Sir Gawain and the Green Knight", que guarda a primitiva músicado saxão, embora tenha sido composto séculos depois da conquista comandadapor Guilherme, o Bastardo.4 O ouro Dos Tigres. Para o anel das nove noites, o curioso leitor podeinterrogar o capítulo 49 da Edda Menor. O nome do anel era Draupnir.

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