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Recomendações Éticas para a Produção e Divulgação Científica
                    Mariangela Amendola




                                                           1
Mariângela Amendola
       Profa. Dra. Matemática Aplicada e Computação Científica
                Faculdade de Engenharia Agrícola - FEAGRI
              Universidade Estadual de Campinas - UNICAMP




Recomendações Éticas para a Produção e Divulgação Científica




                          28 de Junho de 2010




                                                                 2
Mariângela Amendola
       Profa. Dra. Matemática Aplicada e Computação Científica
                Faculdade de Engenharia Agrícola - FEAGRI
              Universidade Estadual de Campinas - UNICAMP




Recomendações Éticas para a Produção e Divulgação Científica




                                   Trabalho de Conclusão do Curso
                                                  de
                             Pós-graduação em Jornalismo Científico
                              Laboratório de Jornalismo - LABJOR
                      Universidade Estadual de Campinas - UNICAMP




                          28 de Junho de 2010




                                                                      3
Agradecimentos




       Agradeço aos professores Amarildo, Conceição, Cristiane, Geraldo,
Graça, Herton, Lea e Simone, pela inclusão e discussão do tema nas
disciplinas desse curso; aos membros dos grupos de alunos dos trabalhos
dessas disciplinas, pelas discussões ao longo da elaboração dos trabalhos que
contemplaram o tema; ao LNCC, pelas oportunidades de apresentar palestras
sobre o tema em seus eventos; a FEAGRI, pela autorização para a minha
participação no curso; à minha mãe, minha babá Maria Dondon, aos amigos
(as): André, Cesare, Gi, Haroldo, Lala, Luci, Marina, Marlene, Rô, Rodolfo,
Sandramalta, Sonia, Valéria e Willinha, pelo incentivo nessa minha atuação
(“a esta altura da vida!” ou “para quê?” - disseram os outros).




                                                                           4
As Coisas (Arnaldo Antunes)

As coisas têm peso
Massa, volume, tamanho
Tempo, forma, cor
Posição, textura, duração
Densidade, cheiro, valor
Consistência, profundidade
Contorno, temperatura
Função, aparência, preço
Destino, idade, sentido
As coisas não têm paz
As coisas não têm paz
As coisas não têm paz
As coisas não têm paz
As coisas têm peso
Massa, volume, tamanho
Tempo, forma, cor
Posição, textura, duração
Densidade, cheiro, valor
Consistência, profundidade
Contorno, temperatura
Função, aparência, preço
Destino, idade, sentido
As coisas não têm paz
As coisas não têm paz
As coisas não têm paz
As coisas não têm paz




                              5
Resumo

Este trabalho mostra os resultados da análise da compilação de artigos
referentes a conduta ética na produção e divulgação científica, que revelam
argumentos que servem de suporte para a implementação de um conjunto de
recomendações para a prática científica nas universidades e institutos de
pesquisa do Brasil. Tal compilação se deu pela leitura de artigos científicos e
informes relacionados ao tema com os quais nos deparamos a partir de meados
de 2003, seguiu sendo complementada desta mesma forma até o início de
2009 e, desde então, de forma particular a partir das discussões do tema nas
diversas disciplinas do curso de Jornalismo Científico do LABJOR /
UNICAMP. Os resultados obtidos, que já serviram para palestras por nós
ministradas em eventos científicos nacionais, bem como para o
encaminhamento de sugestões para sociedades científicas, unidades da
UNICAMP e jornalistas científicos, revelam que o tema, em geral, não vem
sendo discutido e/ou divulgado nas universidades e institutos de pesquisa do
Brasil. Essa revelação justifica esse trabalho, cujos resultados levam à
recomendação de que parte da responsabilidade de todo cientista seja garantir
que os seus alunos e orientados recebam educação crítica que contemple
conceitos e procedimentos éticos tanto para a produção quanto para a
divulgação científica de seus resultados. De forma complementar
recomendamos que as sociedades científicas brasileiras disponham de
representantes de sua comunidade para este fim e que jornalistas científicos
considerem essas recomendações. A partir da implementação dessas
recomendações, sugerimos que as universidades e instituições de pesquisa do
Brasil estabeleçam regras para a punição dos envolvidos nos distintos tipos de
imposturas, a exemplo do que vem sendo feito em outros países.

Palavras-chave: ética na produção científica, ética na divulgação científica, orientações
para a prática científica




                                                                                       6
Sumário


 1. Introdução                         08

 2. Objetivo                           11


 3. Material e métodos                 11

 4. Resultados e discussões            20


 5. Considerações finais               50

 6. Trabalhos futuros                  50


 7. Bibliografia complementar citada   51

 8. Anexos                             53




                                        7
1. Introdução



      A produção do conhecimento em áreas científicas denominadas
“ciências duras”, como a matemática de nosso domínio, segue uma orientação
pré-estabelecida que traduz o que se entende por método científico.

       Mas o método científico não é o único fator que serve de orientação
para a produção científica destas e de outras áreas que se servem de seus
resultados, em particular nas universidades aonde os atuais critérios de
avaliação dos cientistas (professores ou alunos que fazem ciência), vem
revelando outro tipo de orientação: a “motivação” extraordinária, no sentido
de fora de ordem, para a divulgação de resultados por meio de publicações e
patentes.

      A observação sobre a referida motivação tem sido alvo de discussão em
várias esferas de decisões brasileiras, que vão de reuniões universitárias locais
a congressos nacionais, como a recente 4a Conferência Nacional de Ciência,
Tecnologia e Inovação, realizada em Brasília, de 24 a 28 de maio de 2010
(www.cgee.org.br/cncti4), cujas conclusões vem sendo divulgadas não só nos
meios científicos como em outros meios sociais, e nem sempre acompanhadas
de argumentos que revelam o que está em jogo, principalmente para esses
últimos.

      Neste contexto, Mário Novello, físico do Centro Brasileiro de Pesquisas
Físicas, Rio de Janeiro, em entrevista a Ricardo Mioto, da Folha de S. Paulo,
em 30 de maio de 2010, disse:

                “a razão pela qual Newton fazia aquilo não tinha nada ver com
                a razão pela qual um bolsista faz as coisas hoje em dia”.

      Entretanto em sua fala, Novello não incorpora, ao lado do bolsista, seu
orientador (um pesquisador já consagrado), nem alinhava comentários sobre a
produção científica dos pesquisadores das universidades brasileiras em geral
que, no sentido darwiniano, não é comparável à de Newton, e assim, não
incorpora, também deste lado, o mesmo orientador.

      Refletir sobre os diversos fatores que motivam os cientistas a fazerem o
que fazem nas universidades, portanto, se mostra relevante e atemporal.


                                                                               8
Sobre esses fatores, anotamos o que comentou o professor Marcio
Barreto, da Faculdade de Ciências Aplicadas da Universidade Estadual de
Campinas, em palestra realizada aos estudantes do curso de J. C. da mesma
universidade, em 17 de maio de 2010:

              “Esses critérios (de avaliação dos cientistas) são válidos desde
              que não assumam um caráter absoluto, tal como é a tendência
              atual. É preciso tê-los como parte da avaliação, mas há outras
              formas quantitativas e principalmente qualitativas que devem
              ser colocadas em pé de igualdade com os atuais indicativos.
              Além disso, o que os cientistas fazem, não é adequadamente
              divulgado, apesar de ter implicações sociais e políticas para a
              sociedade como um todo”.

      Essa afirmação chama atenção para um outro fator que, com raras
exceções, não pertence ao cotidiano dos cientistas, e cuja responsabilidade
pode ser atribuída não só a quem produz ciência, como também, aos que
divulgam ciência: quando não os próprios cientistas, os profissionais
designados para esse fim.

       Se, com relação a esse fator capaz de revelar implicações (e benefícios!)
para a sociedade, não há nenhuma regra brasileira em vigor (ver Pesquisa
FAPESP no 164 ou www.pesquisafapesp.br), a adequação da divulgação, em
geral, pode ser remetida à educação brasileira. É o que afirma o escritor Mario
Prata que, em entrevista ao Caderno C do jornal Correio Popular em 27 de
maio de 2010, ao ser questionado sobre ser a falta de tempo a responsabilidade
pela má qualidade dos textos da imprensa, ainda que se referindo à imprensa
de modo geral, respondeu:

              “Também, mas não só. O problema é o ensino no Brasil, que é
              péssimo. O nível é baixo demais”.

      Um pouco mais otimista, entretanto, e referindo-se a divulgação
especializada, informou Mariluce Moura, editora chefe da Revista FAPESP,
em palestra realizada aos estudantes do curso de J. C. da UNICAMP, em 07
de junho de 2010:

               “os jornalistas de ciência (do Brasil) tem feito esforços
              consideráveis para melhorar conhecimentos e atuação,
              incluindo atualização com as novas ferramentas de divulgação


                                                                              9
oriundas da Internet, mas mostra-se necessária a formação
              contínua em jornalismo científico”.

       Essa informação de alguma forma, senão da mesma, remete à educação
a referida adequação da divulgação, mesmo que não atribuindo somente ao
divulgador e sim também aos cientistas a responsabilidade pela divulgação
científica de boa qualidade.

       A educação no sentido amplo, portanto, é a única força capaz de vencer
o jogo de fatores relacionados à motivação para a produção e a divulgação
científica, no sentido de ser capaz de formar adequadamente profissionais,
cientistas e/ou divulgadores científicos.

       Nesse sentido, mostra-se relevante questionar a responsabilidade de
todo cientista, como afirmou a pesquisadora Cecília Nunes, do Instituto
Nacional de Pesquisas da Amazônia, durante o II Congresso Fluminense de
Iniciação Científica e Tecnológica da Universidade Estadual do Norte
Fluminense, encerrado em 10 de junho de 2010:

               “É preciso que todos aqueles que fazem ciência - inclusive os
              estudantes de iniciação científica - tenham uma visão crítica da
              sociedade”.

       Essas considerações, também contempladas no trabalho da disciplina
Seminários de Ciência e Cultura (ES 655) do curso de Jornalismo Científico
(J. C.), justificam o trabalho que segue.




                                                                           10
2. Objetivo


       O objetivo geral é mostrar os resultados da análise da compilação de
artigos referentes à conduta ética na produção e divulgação científica, para
revelar argumentos que sirvam de suporte para a implementação de um
conjunto de recomendações para a prática científica nas universidades e
institutos de pesquisa do Brasil.

     Os objetivos específicos são estabelecidos de acordo com as descrições
do material e do método usados que seguem.


3. Material e método


       Este trabalho usa como material a compilação de artigos e informes
relacionados ao tema focado, não pela pesquisa bibliográfica -usual em
trabalhos acadêmicos-, mas porque foram os artigos com os quais casualmente
nos deparamos a partir de meados de 2003 (ocasião de interesse particular).
Tal compilação seguiu da mesma forma até o início de 2009, ora porque
dispostos na mídia especializada, como o Jornal da UNICAMP, a Revista
FAPESP e o Jornal Folha de S. Paulo, e ora porque enviados por colegas que
sabem do nosso interesse no tema. Além disso, usa o que foi compilado de
forma particular após 2009 a partir: i) das discussões do tema por nós
persistentemente inseridas nas diversas disciplinas do curso de J. C. da
UNICAMP; ii) dos trabalhos apresentados nessas disciplinas (individuais ou
dos grupos dos quais fizemos parte); iii) de artigos internacionais dispostos em
blogs; iv) das palestras por nós ministradas em eventos científicos promovidos
pelo Laboratório Nacional de Computação Científica (LNCC/MCT) nos anos
de 2009 e 2010; v) do retorno (ou não) de nossa sugestão da mesma discussão
junto a Sociedade Brasileira de Matemática Aplicada e Computacional –
SBMAC e a Faculdade de Engenharia Agrícola - FEAGRI/UNICAMP.

       Observamos que, apesar da total pertinência ao tema, não fazemos uso
do que buscamos de forma orientada e em livros, como: i) Sokal e Bricmont
(2001) - físicos que abriram o debate sobre os parâmetros de rigor intelectual e
honestidade, e ii) Pracontal (2004) - matemático e especialista em divulgação
científica que discorre sobre os vários tipos de imposturas científicas,
apontando meios para identificá-las.


                                                                             11
O método de análise é a identificação de artigos referentes ao tema que
ressaltam os conceitos de ética, ciência e divulgação científica como
especificados no que segue.

Ética




            Fonte: www.nature.com/nature/journal/v451/n7177/full/451397a

       O conceito de ética focado neste trabalho refere-se não àquele associado
às pesquisas que envolvem seres humanos no sentido de os mesmos serem
parte da experimentação, posto que para essas há regulamentação estabelecida
e disponibilizada (e.g. Diniz et al, 2008), e sim ao associado às pesquisas que
envolvem seres humanos no sentido de os mesmos serem consumidores do
que se produz e/ou se divulga como científico nas diversas áreas de
conhecimento.

      Para discussões aprofundadas sobre o conceito de ética e sua evolução
temporal remetemos à leitura especializada (e.g. Srour, 1998; Bursztyn, 2001).
E, para os propósitos desse trabalho, no que tange a ética na produção e
divulgação científica, consideramos especialmente as imposturas científicas
referentes ao plágio e autoria em publicações de revistas especializadas, sob o
ponto de vista do que consta em Monteiro et al (2004)- divulgado na Revista
FAPESP de abril de 2005.

      A despeito de terem sido elaborados para a área médica de acordo com
o International Committee of Medical Journals Editors (ICMJE), os critérios
de autoria defendidos por Monteiro et al (2004) servem para quaisquer outras
áreas de conhecimento e, portanto, seguem copiados.




                                                                            12
O ICMJE recomenda que o crédito deva ser dado com base
no preenchimento de três condições:

1. Contribuição substancial na concepção e planejamento, ou
aquisição de dados, ou análise e interpretação de dados;
2. Redação e elaboração do artigo ou revisão intelectual crítica
deste;
3. Aprovação da versão final a ser publicada.

    O ICMJE recomenda, ainda, que em estudos multicêntricos
com grande número de participantes, o grupo deverá identificar
os indivíduos que aceitam a responsabilidade direta pelo
manuscrito.

        Além disso, o documento revisado pelo ICMJE ratifica
que:

• Obtenção de financiamento, coleta de dados ou supervisão
geral de um grupo de pesquisa não são, por si só, critérios para
autoria ou co-autoria.

• Todas as pessoas designadas como autoras ou co-autoras
deverão qualificar-se, e todas qualificadas deverão ser listadas.

• Cada autor ou co-autor deverá ter participado suficientemente
do trabalho para ter responsabilidade pública sobre segmentos
apropriados do conteúdo.

• A ordem dos autores e co-autores será decidida pelo grupo que
deverá estar apto a explicá-la.

       Quanto à seção Agradecimentos, o ICMJE sugere:

• Outras pessoas que tenham dado contribuições substanciais e
diretas para o trabalho, mas que não possam ser consideradas
autores, podem ser citadas na seção Agradecimentos; se
possível, suas contribuições específicas devem ser descritas.
Apoio financeiro também deverá ser mencionado nesta seção.




                                                              13
• Pessoas que colaboraram com o estudo, mas cuja contribuição
             não justifica autoria ou co-autoria, podem ser listadas nos
             Agradecimentos      como     “investigadores  clínicos”    ou
             “investigadores participantes”, seguidas da sua função ou
             contribuição,    por    exemplo,      “coleta  de     dados”,
             “encaminhamento e cuidados aos pacientes do estudo”, etc.

             • Considerando-se que os leitores podem inferir que as pessoas
             listadas em agradecimentos endossam os resultados e
             conclusões, todas devem dar permissão por escrito para serem
             agradecidas.


Ciência, Produção e Divulgação Científica




    Por um lado, sobre a questão o que é ciência, Morin (2008) afirma que a
mesma não tem resposta científica;

             “Científico aquilo que é reconhecido como tal pela maioria dos
             cientistas”.

      Desta forma, para efeitos do que nos propomos, tomamos o termo
ciência como explicado por Nobel (2009):

             “Ciência é o termo usado para designar o conjunto de fatos e
             teorias que explicam esses fatos; tudo que é produzido por
             instituições que desenvolvam atividades científicas; e maneira
             particular de trabalhar reconhecida como método científico”.


                                                                        14
Notamos que não é objetivo deste trabalho apresentar a evolução das
discussões do conceito de ciência ao longo do tempo e segundo os estudiosos
que se ocuparam disso, para o que remetemos, por exemplo, a Kuhn (1962)
em particular, e à bibliografia da disciplina Estudos Sociais da Ciência e
Tecnologia (ES 695) do curso de J. C. da UNICAMP.

      Por outro lado, sobre a questão sobre o que é divulgação científica, nos
apoiamos nas orientações de José Reis - pesquisador de renome internacional
e pioneiro nacional em aliar a sua carreira científica ao trabalho de explicar
ciência de forma didática através da imprensa, o que se estabeleceu pelo que
atualmente se entende por jornalismo científico e divulgação cientifica.




      Fonte: Olson, J. 2008



       Para identificar os distintos meios de fazer circular informações
científicas reconhecendo aqueles que o fazem no sentido de Reis, podem ser
consideraras as especificações que constam em Bueno (1984):

               Difusão - todo e qualquer processo ou recurso utilizado para
               veicular informações científicas e tecnológicas em periódicos
               especializados, banco de dados, sistemas de informação
               acoplados aos institutos, páginas de C&T de jornais e revistas e
               programas de rádio e televisão dedicados à ciência.
               Disseminação - transmissão de pesquisa ou estudo do cientista
               para seus pares, por meio de revistas especializadas. Destina-se
               a especialistas da mesma área (intra-pares) ou de áreas distintas
               (extra-pares). Não pretende atingir o público leigo.
               Divulgação - pressupõe a transposição da linguagem
               especializada para a não-especializada, com intenção de tornar
               o conteúdo acessível ao público em geral.


                                                                             15
Jornalismo Científico: divulgação de ciência e tecnologia
              pelos meios de comunicação segundo o modo de produção
              jornalística. Seu objetivo é promover a democratização do
              conhecimento para que os cidadãos entendam melhor o mundo.

       No que segue, entretanto, consideramos a expressão divulgação
científica sem distinção aos limitantes dessas especificações, devido a difusão
e a disseminação serem, no presente contexto, as fontes geradoras para a
divulgação científica e o jornalismo científico, como explicado nas disciplinas
Oficina de J. C. I (ES 616) e Oficina de J. C. II (ES 696) do curso de J. C..
Sendo assim, atenção especial será dada à divulgação científica realizada
pelos que produzem ciência.


Educação

       Tendo em vista as considerações da introdução desse trabalho, que
remetem à educação os questionamentos apontados no tema, consideramos a
figura que segue (Aquarela de Debret), para exemplificar que a diversidade de
interpretações diante de um objeto, um texto, uma ação, um tema, uma reação,
um resultado, um fenômeno ou uma imagem, é dependente do conhecimento
que o indivíduo domina ao se deparar com o mesmo.

      Esta figura vem sendo usada nas aulas de Cálculo Numérico (FA 374)
sob nossa responsabilidade na Faculdade de Engenharia Agrícola
FEAGRI/UNICAMP, a qual, por nossa sugestão, serviu para discussões na
disciplina Linguagem (ES 476) desse curso de J. C., ocasião que gerou frutos
mais bem fundamentados pela teoria de Análise do Discurso, como
brilhantemente desenvolvido pela professora responsável.

       No caso do uso dessa figura em FA 374, a finalidade é mostrar
argumentos para o aprendizado das novas técnicas matemáticas ensinadas na
mesma, cujos alunos, oriundos do ciclo básico, persistentemente se mostram
desacreditados da aplicabilidade de mais uma disciplina de matemática em
suas vidas profissionais futuras, sem ter noção do que nela vão aprender. E a
estratégia usada passa, da sugestão de alguns minutos para a contemplação e
busca de erros da aquarela para, em seguida, revelar o mistério tentando
convencê-los de nossos argumentos uma vez que o erro foi apontado somente
em 1994, e porque um aluno de engenharia mecânica -a origem do erro está
no mecanismo retratado.


                                                                            16
O que almejamos com esta metáfora, portanto, é ressaltar a
responsabilidade da educação de modo geral, e em particular a caracterizada
“como crítica que contemple conceitos e procedimentos éticos tanto para a
produção quanto para a divulgação científica”, no sentido de que, se nada for
ensinado e, portanto, conhecido sobre esses conceitos e procedimentos, nada
poderá ser cobrado, e a tendência será a de perpetuação da crítica, nesse
sentido, afirmada. Neste contexto ressaltamos o que consta em Diniz (2008, p.
362):


              “A incorporação de valores e a aquisição de competência ética
              são processos que exigem reflexão e devem ser iniciados já nas
              primeiras etapas da formação profissional. A utilização de
              metodologias ativas de ensino-aprendizagem pode contribuir
              para a capacitação dos futuros pesquisadores e prepará-los para
              enfrentar e minimizar possíveis conflitos de interesse no
              cotidiano da prática científica”.




                                                                          17
Outras Considerações

       Para delimitar a compilação de artigos para a análise das questões éticas
relacionadas à produção ou divulgação científica, reconhecemos a atuação dos
seguintes atores inter relacionados:


      i)     responsáveis de instituições e órgãos de fomento a pesquisa;
      ii)    cientistas;
      iii)   divulgadores científicos; e
      iv)    cidadãos e o meio ambiente


dentre os quais selecionamos: ii) e iii), posto que i) e iv), ainda que mostrem
relações com os itens selecionados, são amplamente discutidos nas disciplinas
Ciência, Tecnologia e Sociedade (ES 644), Políticas Públicas e Sociedade (ES
617), e Instituições e Políticas de C&T (ES 656) do curso de J. C., os quais
contemplam vasta bibliografia.

       Desta forma, os cientistas e os divulgadores científicos, em particular os
próprios cientistas - como já especificamos, cujas atuações também já foram
discutidas, ainda que com outro enfoque, nas disciplinas Fontes de Informação
em Ciência e Tecnologia (ES 646) e Oficina de J. C. II (ES 696),
respectivamente, são os atores passíveis da análise em questão.

      Ainda, no que se refere a percepção pública dos cientistas, tomamos
como referencial o que consta em Vogt e Polino (2003), onde, dentre outras
conclusões se encontra a obtida a partir do Gráfico 1, que segue comentada
pelos autores:


              “À margens das interpretações que se poderiam fazer sobre a
              diferença entre os dois grupos de países, o conjunto de dados
              evidencia um tipo de público que parece sentir que a motivação
              dos cientistas e as funções positivas da ciência não são
              suficientes para a tomada de decisões políticas. Isto reflete uma
              posição de alta racionalidade na dinâmica da política científica,
              no sentido de que a qualidade de especialista não leva,
              necessariamente, à racionalidade das decisões políticas”.



                                                                              18
Gráfico 1.




      Além disso, apontamos como complementar a observação, divulgada
pelo comentarista Arnaldo Jabor na Rede Globo de Televisão, na ocasião do
terremoto do Haiti ocorrido em janeiro de 2010, que, após citar pesquisas de
ponta que vem sendo realizas e divulgadas (Jabor, 2010), ressaltou:

              “...e a miséria brutal sendo ignorada pela ciência e tecnologia”.

      As conclusões de Vogt e Polino e a observação complementar de Jabor
caracterizam fatores da atuação dos cientistas que requerem atenção,
principalmente se alinhadas com a afirmação de Oliveira (2002), especialista
em divulgação científica:

              “O direito à informação por si só justificaria a essência de
              divulgar C&T para o grande público como forma de
              socialização do conhecimento. (...) Além disso, a maior parte
              dos investimentos em C&T é oriunda dos cofres públicos, ou
              seja, da própria sociedade para quem deve retornar os
              benefícios resultantes de tais investimentos”.

      Do que foi estabelecido até então, fica evidente o fio condutor seguido
para atingir os objetivos propostos nesse trabalho. Sendo assim, no que segue
são apresentados os apontamentos, se não da maioria mantida em arquivo, dos
principais artigos compilados, que seguem ora na íntegra e ora em partes de
acordo com o que queremos ressaltar e apontar do conteúdo dos mesmos.



                                                                             19
4. Resultados e discussões


       Uma das raras vezes que o Jornal da Unicamp (JU) publicou sobre o
tema, ocorreu em sua edição de agosto de 2003, onde se encontra o artigo
“Códigos de Conduta em Física”, em que o professor Marcelo Knobel, do
Instituto de Física da UNICAMP, comentou sobre o então atual (2002) código
da Sociedade Brasileira de Física, de qual conclusão emprestamos a afirmação
sobre a responsabilidade de todo cientista:

             “...
             Além disso, o novo código inclui uma clara sugestão de que
             ética deve ser parte integrante da educação do Físico, indicando
             que é parte integrante da responsabilidade de todo cientista que
             seus estudantes recebam treinamento específico em ética
             profissional.
             ...
             Está lançada a discussão...”


      Desde então não encontramos mais nenhum artigo sobre o tema no JU,
mas, posteriormente, tomamos conhecimento de uma reportagem divulgada
em uma edição de novembro de 1993 do jornal Folha de S. Paulo, sobre a
ocorrência de um caso de plágio na Faculdade de Engenharia de Alimentos -
FEA/UNICAMP (p.21).

       Observamos que esse jornal (Folha de S. Paulo), publica com alguma
frequencia artigos referentes à atuação dos cientistas e dos divulgadores
científicos, apresentando não somente os resultados de pesquisas de ponta
como também críticas sobre a importância dessas pesquisas, denúncias de
imposturas científicas como o plágio, interpretações de resultados de forma
adequada ao público em geral, sendo grande parte de autoria dos jornalistas
científicos Marcelo Gleiser e Marcelo Leite, sendo deste último o livro
“Ciência: use com cuidado” Leite (2008). Dentre esses e os que seguiram após
2008, selecionamos o que antecedeu o início do primeiro semestre do curso de
J. C., em 16 de abril de 2009, e sobre o qual, no fim do mesmo semestre,
apresentamos o trabalho de ES 695. O artigo e o trabalho são apresentados na
integra (p.22-23 e p.23-26).




                                                                          20
21
Folha de S.Paulo, domingo, 15 de março
                     de 2009

      +Marcelo Leite
     Fraudes e fraudes

Há incentivos demais para
obter resultados e publicar
rápido

Por que os cientistas cometem falsificações? Será que o número
de fraudes em pesquisa está aumentando? São perguntas difíceis
de responder. Fabricar ou adulterar dados é a mais completa
negação da ética científica (e jornalística, aliás). Veracidade,
mais até do que fidedignidade e precisão, constitui a pedra
angular da ciência. No dia em que não for mais possível confiar
nas informações de artigos de pesquisa enviados para
publicação num periódico científico, o alicerce da ciência estará
arruinado. Há muita gente convencida de que a quantidade de
contrafações está, sim, em expansão. Gente como Horace
Freeland Judson, que aprendi a admirar depois de ler seu
monumental "The Eighth Day of Creation" (O Oitavo Dia da
Criação, monumental história da biologia molecular, de 1978,
até hoje sem edição em português). Em outro livro, "The Great
Betrayal" (A Grande Traição), de 2004, Judson traça um
panorama sombrio da pesquisa contemporânea. Há incentivos
demais para obter resultados e publicar, rápido. Jovens
pesquisadores competitivos e supervisores lenientes, na sua
avaliação, compõem a mistura corrosiva que solapa as
fundações do edifício científico. Essa parece ser a raiz mais
comum da falsificação, fonte das dezenas de casos noticiados a
cada ano. Poucos se tornam notícia de primeira página, como os
falsos clones humanos do sul-coreano Woo-Suk Hwang. Não
merecem manchetes doutorandos ou pós-doutorandos ávidos
por resultados que os mantenham no páreo por bolsas e
posições no laboratório. Vários são estudantes estrangeiros,
como Nima Afshar, da Universidade da Califórnia em São
Francisco, que adulterou imagens de chips de DNA para fazer
aparecerem os efeitos esperados com culturas de leveduras. Ou


                                                              22
como Peili Gu, do Baylor College of Medicine, do Texas, outro
caso de PhotoShop. Ou como Mai Nguyen, que falsificou dados
de estudo sobre câncer -todos casos pescados na newsletter
"The Scientist". Há ocorrências muito mais graves, porém, por
afetar milhares de pessoas. Um caso recente é o de Scott
Reuben, respeitado anestesiologista de Massachusetts, nos
Estados Unidos, acusado de falsificações em 21 artigos,
segundo noticiou "The Scientist" na quarta-feira. Esses
trabalhos ajudaram a estabelecer o estado-da-arte em analgesia
multimodal, uso combinado de medicamentos para tratar dor
pós-operatória. Parece inacreditável que alguém fabrique
resultados cuja falsidade pode levar as pessoas a sentirem mais
dor, mas acontece. Por essas e por outras é que não se deve
confiar cegamente nos cientistas (nem nos jornalistas), ainda
que a maioria seja veraz. Nada se compara em matéria de dano
social, contudo, a Andrew Wakefield. Ele é o autor de um artigo
de 1998 no respeitado periódico médico "The Lancet" tido
como o iniciador da popular hipótese de que o autismo é
causado pela vacina MMR (contra sarampo, caxumba e
rubéola). A taxa de vacinação britânica caiu de 92% para menos
de 80%, desde então. Os casos de sarampo passaram de 56 em
1998 para 1.348 em 2008, com duas mortes. O jornal "The
Sunday Times" noticiou em 8 de fevereiro que Wakefield teria
alterado dados sobre pelo menos 11 das 12 crianças descritas no
estudo. Tudo, claro, para reforçar o suposto vínculo entre o
autismo e a vacina -coisa de que muitos pais brasileiros
desinformados e irresponsáveis se acham convencidos, a
despeito do que lhes dizem os médicos.



    ES 695- J. C. LABJOR/UNICAMP Junho de 2009

    Aluna: Mariangela Amendola

    O que motiva a produção científica?

          Antes de tentar argumentar para a elaboração de
    qualquer resposta sobre a questão proposta como título
    deste ensaio, apontamos que a mesma faz parte de um
    conjunto de questões relacionadas, dentre as quais: O que é

                                                            23
ciência? Porque, dentre as idéias ou ações geradas pelos
diversos grupos sociais, só algumas, “merecem” esta
classificação? Onde estão e como se relacionam os atores
sociais que produzem e/ou divulgam ciência? Por quem
esses atores são reconhecidos como tais e como se
relacionam entre si e com os demais atores sociais? No que
estas produções ou divulgações influenciam as decisões de
políticas públicas? Quem produz e/ou divulga ciência, o
faz com qual finalidade, interesse e autonomia? Quem está
preocupado com estas questões e as correspondentes
respostas? E porque?

       Ainda que formular e buscar respostas a este
conjunto de questões pareça não pertencer ao cotidiano
intelectual da maioria dos indivíduos da sociedade que não
são de grupos específicos de estudiosos sociais, o mesmo
não acontece no cotidiano existencial dos primeiros.

       Esta afirmação se justifica porque, ao longo da vida,
todos os indivíduos são submetidos a regras que regem os
diversos grupos sociais aos quais pertencem, dentre outros
a família, a comunidade vizinha, a escola, o local de
trabalho, a cidade e o país, que, embora temporal e
aparentemente em equilíbrio, por serem passíveis de
interações, experimentam uma dinâmica. Assim, enquanto
a análise desta dinâmica permanece com destaque na
atuação dos referidos grupos de estudiosos, tanto estes,
bem como todos os atores dos demais grupos sociais
necessitam se ocupar com a geração de meios capazes de
garantir sua cidadania e sobrevivência, o que se dá,
geralmente, quando da busca pela especialidade
profissional. Ressalta-se que há outros grupos específicos:
o dos que se ocupam com a descoberta ou a invenção, o
desenvolvimento e a implementação ou a inovação de
meios para melhorar a qualidade de vida dos indivíduos,
como fazem, dentre outros, os especialistas das áreas de
saúde e de educação; os dentre esses que o fazem segundo
metodologias sujeitas a comprovação teórico-experimental;
e outro, que não exclui os primeiros, dos que se ocupam
pela divulgação dos meios então desenvolvidos.


                                                         24
Como fruto da desejável interação entre os atores
dos distintos grupos, e também por sorte, interesse,
afinidade, aptidão, ou empenho, todos poderiam acumular
um nível mínimo do conhecimento gerado das diversas
atuações: o nível capaz de revelar a aptidão para questionar
as causas que levam ao estabelecimento, ajuste ou
transformação das referidas regras, para então, poderem
desfrutar, se adequar ou adequar as regras. Nota-se que
associado ao conceito de regras se encontra o conjunto de
crenças, paradigmas ou enigmas que revelam o
conhecimento construído, ainda que temporal, capaz de
levar à interpretação individual do que constitui a natureza
e os indivíduos.

       Entretanto, tais regras bem como, e principalmente,
os objetivos da ocupação dos grupos ressaltados, nem
sempre são genuínos ou conhecidos, o que pode levar não
a melhorias e sim a desastres na qualidade de vida dos
indivíduos, em especial aos menos favorecidos de
educação.

       É neste sentido que se pode reconhecer a pertinência
da questão proposta como título deste ensaio, para a qual
voltamos à luz do que constou no artigo publicado na FSP
de 15/3/2009 de Marcelo Leite [1], cujo título é “Fraudes e
fraudes”, e onde o autor discorre sobre fraudes científicas,
sugere que “não se deve confiar cegamente em cientistas
(nem em jornalistas)”, e por fim detalha os impactos
danosos gerados em 1998 pela divulgação de um artigo
iniciador da hipótese de que o autismo é causado pela
vacina contra sarampo, caxumba e rubéola, como uma
forma de ressaltar o que explica a atual necessidade de
publicação por certos grupos de cientistas.

      Observamos que, embora não haja estimativas sobre
quantos são os indivíduos que são atraídos para este tipo de
divulgação, é razoável sugerir que, dentre os que têm
condições intelectuais e/ou oportunidade para a leitura, a
maioria - agentes passivos do que é produzido e divulgado
como científico-, se “assustaria” ao ler tal artigo, cujo


                                                         25
autor, felizmente (?) também é cientista e divulgador
científico.

        Tal sugestão segue com a inclusão da palavra
felizmente porque, independentemente de experiências
individuais ou sociais, os leitores: cientistas, jornalistas ou
leigos, além de assustados, permaneceriam desconfortáveis
na qualidade de cidadão não fosse o empenho do referido
autor tanto em apontar o que motiva certos cientistas a
produzirem e/ou a publicarem fraudes, quanto em
apresentar dados comprovados sobre as conseqüências
sociais desastrosas deste tipo de produção / publicação.
Mas este empenho, que por um lado convence o leitor de
que não há o que justifique as fraudes, por outro, não
fornece elementos para que os mesmos sejam capazes de
elaborar uma conclusão sobre a isenção daqueles, pois o
autor não apresenta qualquer informação complementar
sobre punições aos autores e/ou divulgadores de fraudes;
daí a inclusão da interrogação após a palavra felizmente:
uma estratégia de enfraquecê-la, mas não para desmerecer
a atuação do autor do artigo - exemplar na tentativa de
promover aquelas interações desejáveis-, mas sim para
clamar por mais e mais efetivas interações, também junto
aos responsáveis pelos grupos sociais a que pertencem os
cientistas.

        Os argumentos que levaram à inclusão da
interrogação foram tomados por mim, eu: cidadã, cientista
e aprendiz de divulgadora científica, como mais um
incentivo para a continuidade da busca de um referencial
teórico capaz de garantir a futura prática da divulgação
científica que contemple a minimização de qualquer
desconforto para todo tipo de cidadão. Neste sentido, pode
ser encontrar na disciplina “Estudos Sociais da Ciência e
da Tecnologia” do curso de Jornalismo Científico do
LABJOR/UNICAMP, dentre outras fontes de informação
de     estudiosos   especializados,    uma     bibliografia
fundamental.




                                                            26
A escolha pela apresentação integral desse artigo, que evidencia nosso
interesse particular pelo tema e daí a escolha para o referido trabalho de nossa
autoria, se deve ao fato do mesmo tornar público questionamentos
comparáveis às originadas de nossas inquietações frente a ocorrência de
diversos casos de imposturas intelectuais que, lamentavelmente, só tomamos
conhecimento e/ou divulgamos de maneira informal, as quais, em geral não
levaram à quaisquer punições dos envolvidos.

      De outra forma, a Revista FAPESP, que somente recente, tímida e
ocasionalmente divulga informações relacionadas a desvios de conduta que
levaram à punição dos envolvidos, mas não foi encontrado nenhum
envolvendo cientistas ou divulgadores brasileiros.

      Os demais artigos relacionados ao tema que foram divulgados tanto
pelo jornal Folha de S. Paulo de modo geral, quanto pela Revista FAPESP,
seguem intercalados e em uma certa ordem que não é cronológica.
Observamos que não acompanhamos os casos relatados.

       O que segue foi selecionado porque foi publicado coincidentemente na
época em que preparávamos a primeira palestra sobre o tema de questões
éticas para ser apresentada à comunidade do LNCC/MCT.


                                 Folha de S. Paulo - 17/11/2009
              Trabalho de reitora da USP é acusado de outro plágio

              Trabalho assinado pela reitora Suely Vilela e outros
              pesquisadores da USP que já estava sob suspeita por plágio é
              acusado agora de copiar mais dados.
              ...
              Assim como na primeira denúncia, a suspeita é que eles tenham
              utilizado no artigo sob suspeita mais trechos de estudos de um
              grupo da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) sem
              informar o crédito.
              ...

      Esta ocorrência lembrou-nos de outros dois artigos de nossos arquivos,
sobre a acusação de plágio na USP e a sobre a cópia de trechos sem a devida
referência bibliográfica:



                                                                             27
Folha de S. Paulo 29/06/2007
            Físicos da USP acusam chefe do Instituto de Física de plágio

            Uma acusação de plágio que envolve artigos científicos
            assinados pelo diretor do IF (Instituto de Física), da
            Universidade de São Paulo, Alejandro Szanto de Toledo, abriu
            ontem uma crise entre os professores da entidade. A denúncia,
            que circula internamente entre um grupo de físicos desde abril,
            aponta entre os artigos plagiados dois trabalhos do professor
            Mahir Hussein, da própria usp, recém-aposentado.


                               Folha de S. Paulo - 09/2008
            Marcelo Leite - Vergonha na USP
            Todo contribuinte que sustenta a USP deve preocupar-se com
            o modo como o caso de plágio foi tratado pela reitoria

            A Universidade de São Paulo, maior e melhor instituição
            pública de pesquisa e ensino superior do Brasil, faz 75 anos em
            2009. Quando ela ainda tinha 45 anos, formei-me em
            jornalismo na sua Escola de Comunicações e Artes, mas
            prossegui como aluno de filosofia (estudo que, infelizmente,
            nunca concluí).
            ...
            Hoje me pergunto se ainda devo ter orgulho de ser ex-aluno da
            USP. No centro da preocupação com minha "alma mater" (mãe
            nutridora), como dizem os norte-americanos e os britânicos,
            está o caso de plágio em seu Instituto de Física.
            Não pelo caso em si, que é menor, mesquinho mesmo. Briga de
            comadres por migalhas de micropoder institucional. Nem vem
            ao caso quem acusa quem, só que professores titulares admitem
            copiar trechos de artigos científicos de outros sem a devida
            referência bibliográfica.


      Ainda do ano de 2009, encontramos ainda outros três exemplos de
impostura científica, sendo duas ocorrências brasileiras, uma com
possibilidade de retratação e outra sem qualquer conseqüência, e uma a
coreana com indicativo de punição:


                                                                        28
Folha de S. Paulo - 07/05/2009
Periódico científico publica dois estudos plagiados na
íntegra
Um caso de plágio envolvendo dois estudos publicados no
periódico científico "Revista Analytica" surpreendeu os autores
dos artigos originais. Publicados em 2007, os dois trabalhos
eram cópias de artigos anteriores da primeira à última palavra,
com alterações apenas nos títulos. A revista "Química Nova",
da SBQ (Sociedade Brasileira de Química), que havia publicado
os estudos originais, negocia agora uma forma de retratação
(anulação) dos plágios. Um dos artigos, um estudo que
descrevia um novo método para controle de qualidade de
cachaça, foi copiado do grupo do químico Ivo Küchler,
professor da UFF (Universidade Federal Fluminense).

                     Folha de S. Paulo - 10/07/2009
Unicamp diz que Dilma cursou mestrado, mas não o
terminou
A Unicamp informou por meio de nota que a ministra Dilma
Rousseff (Casa Civil) foi aluna dos programas de mestrado e
doutorado da universidade mas não concluiu a elaboração e a
defesa de teses nos cursos -necessários para a obtenção dos
títulos de mestre e doutor. A Unicamp havia informado que
Dilma não havia sido nem mesmo aluna do mestrado, mas
retificou o dado.
...
O currículo da ministra na Plataforma Lattes - base de dados
acadêmicos do CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento
Científico e Tecnológico)- indicava que ela havia preparado e
defendido a tese de mestrado. Após a revista "Piauí" deste
mês ter indicado o erro, Dilma admitiu o equívoco e disse que
não preparou a tese em virtude do trabalho em cargos públicos.


                     Folha de S. Paulo - 25/08/2009
Promotoria pede cadeia para coreano que fraudou pesquisa
Promotores da Coreia do Sul pediram ontem uma pena de
quatro anos de prisão para o cientista que caiu em desgraça após
um escândalo envolvendo clonagem em 2005. Hwang Woo-
suk, que publicou artigos fraudados na revista "Science" sobre


                                                             29
clonagem humana, é acusado de desvio de verba pública,
             prevaricação e compra ilegal de óvulos para sua pesquisa.
             Todas as acusações relacionadas às denúncias de fraude. Um
             promotor disse que Hwang manchou a imagem da Coreia do
             Sul no exterior e que merecia punição exemplar. Hwang pediu
             clemência. O caso será julgado no dia 19 de outubro.

      Seguem mais outros exemplos de outro tipo de impostura, ocorridas em
anos distintos, sendo uma envolvendo estudantes de pós-graduação brasileiros
cujas conseqüências não encontramos, outra envolvendo um cientista japonês
que acabou sendo preso, e ainda outra mais antiga, relacionando vários casos
de punições a cientistas japoneses.

                                  Folha de S. Paulo–19/08/2007

             União cobra R$ 54 milhões de ex-bolsistas
                   Doutorandos receberam ajuda para estudar no exterior e
             não teriam cumprido as exigências ou abandonado estudos
             Supostas irregularidades vão de falsificação de diplomas a
             descumprimento de acordo para permanecer no Brasil com o fim
             da pós-graduação.

                   Desde 2002, o governo federal pediu a devolução de cerca
             de R$ 54 milhões que ex-bolsistas de doutorado favorecidos por
             ajuda oficial teriam recebido de forma irregular.
             O levantamento da CGU (Controladoria Geral da União)
             envolve a Capes (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal
             de Nível Superior) e o CNPq (Conselho Nacional de
             desenvolvimento Científico e Tecnológico) -principais
             fomentadores do benefício. Os motivos dos processos variam de
             irregularidades como o abandono dos estudos até a falsificação
             de documentos

                                  Pesquisa FAPESP – 10/1009
             Desvio e embaraço
             Um cientista japonês conhecido por seu trabalho com
             supramoléculas foi preso sob a acusação de desviar fundos de
             pesquisa. Tatsuo Wada, retido no dia 8 de setembro, trabalha no
             Instituto de Ciência Avançada em Wako, que integra uma rede


                                                                          30
de laboratórios de pesquisa conhecida como Riken. O caso
causa embaraços para a Riken, que recebe um generoso
orçamento anual de US$ 1 bilhão e, em 92 anos de existência,
jamais enfrentou um escândalo dessa dimensão. “Vamos lançar
mão de medidas de precaução e redobrar nossa vigilância para
que o instituto possa atender às expectativas da população”,
desculpou-se o presidente da Riken, Ryoji Noyori, segundo a
revista Nature. Tatsuo Wada é conhecido por criar sistemas
orgânicos supramoleculares – conjunto de moléculas orgânicas
cuja forma, tamanho e orientação podem ser manipulados para
transmitir informações. A polícia de Tóquio o acusa de
transferir 11 milhões de ienes por meio de ordens de pagamento
fictícias. O dinheiro foi parar em contas da Akiba Sangyo,
empresa que distribui material científico. O presidente da
empresa, Etsuo Kato, também foi preso.


                      Pesquisa FAPESP – 02/2007
Punições exemplares
Uma seqüência de punições a pesquisadores do Japão sugere
que o governo e a comunidade científica do país deflagraram
uma cruzada contra más condutas acadêmicas. Em dezembro
passado, duas importantes universidades demitiram cientistas
que publicaram artigos questionados e uma professora demitiu-
se de uma terceira instituição, acusada de desvio de recursos.
A Universidade de Osaka anunciou a demissão de um de seus
membros por haver fabricado dados de uma pesquisa. Segundo
jornais japoneses, trata-se do químico Akio Sugino, co-autor de
um estudo publicado em julho no Journal of Biological
Chemistry. Segundo a revista Science, um comitê interno
concluiu que Sugino agiu sozinho. Mas, em meio ao escândalo,
um outro co-autor do artigo cometeu suicídio. Uma
investigação promovida pela Universidade Waseda, em Tóquio,
concluiu que uma professora desviou para sua conta particular
recursos públicos destinados a bolsistas. Kazuko Matsumoto, a
acusada, nega a malversação, mas renunciou ao cargo. Por fim,


                                                            31
a Universidade de Tóquio demitiu Kazunari Taira e Hiroaki
             Kawasaki por práticas de pesquisa não confiáveis envolvendo
             artigos publicados nas revistas Nature, Nature Biotechnology e
             Proceedings of the National Academy of Sciences. Foi a
             primeira vez que as universidades de Tóquio e de Osaka
             tomaram medidas tão drásticas. Antigamente, os escândalos
             eram abafados ou resultavam em punições discretas. Mas, com
             o crescimento da competição por recursos, passou-se a exigir
             mais transparência. Em 2006 as três universidades criaram
             códigos de conduta e comitês para investigar fraudes.




      Seguem outros artigos sobre ocorrencias americanas, um que relata
imposturas envolvendo a adulteração de imagens e conclui com uma
recomendação exemplar, e outro que comenta sobre um programa para
detectar plágio e apresenta uma estatística alarmadora:

                                 Pesquisa FAPESP – 11/2009
             A cultura do Photoshop
             A manipulação de imagens que ilustram artigos científicos tira
             o sono dos editores de publicações acadêmicas. Num encontro
             sobre plágio realizado em Londres, Virginia Barbour, editora
             chefe da PLoS Medicine, revista publicada pela Public Library
             of Science (PLoS), apresentou dados de um estudo que vem
             avaliando imagens de artigos aceitos para publicação. Ao longo
             de um ano, a revista encontrou adulterações em três artigos,
             num universo de 13 papers averiguados. Num dos casos,
             pesquisadores duplicaram a foto de um teste western blot. Em
             outro, fundiram imagens sem informar que buscavam realçar
             um efeito. Barbour disse que os autores deram explicações
             satisfatórias e que nenhum dos artigos foi rejeitado. Mas
             reiterou que modificar imagens sem avisar constitui
             falsificação. “Há uma cultura nas universidades segundo a qual
             não há nada de errado em alterar fotos e isso precisa ser
             discutido”, disse à revista Nature. No rol das investigações

                                                                        32
sobre má conduta abertas entre 2007 e 2008 pelo Escritório de
              Integridade da Pesquisa do U.S. Department of Health and
              Human Services.



                                   Pesquisa FAPESP – 11/2008
              Flagrantes de plágio
              Um grupo de pesquisadores da Universidade do Sudoeste do
              Texas, em Dallas, criou um programa de computador que
              identifica plágios em artigos científicos ao fazer o cruzamento
              de milhares de textos publicados em revistas especializadas.
              Com base no monitoramento realizado pelo software, a equipe
              texana, liderada por Harold Garner, criou uma base de dados
              sugestivamente batizada de Déjà Vu, que reúne 75 mil resumos
              listados na base Medline em que há evidências de cópia de
              outros textos. Em entrevista à revista Nature, Garner disse que
              181 artigos são rematadas cópias de outros textos – em um
              quarto deles a similaridade beira os 100%. Tanto as publicações
              que reproduziram os textos clonados quanto os pesquisadores
              vitimados pelo plágio são alertados depois que o software faz o
              seu trabalho. O biogerontologista francês Eric Le Bourg ficou
              surpreso ao ver um artigo que publicou no jornal Experimental
              Gerontology ser integralmente reproduzido no Korean Journal
              of Biological Sciences, mas com a assinatura de Hak-Ryul Kim,
              da Universidade de Seul. “Era puro copy e paste. Até os
              gráficos eram copiados”, disse. Pelo menos 22 plagiadores de
              12 países são reincidentes, diz Garner, que se queixa da
              relutância de certas publicações em denunciar o plágio.
              Segundo ele, seus alertas não surtiram nenhum efeito em 50%
              dos casos e, mesmo quando há retratação, ela nem sempre é
              comunicada à PubMed, a consagrada base de dados de resumos



      Um outro artigo sobre ocorrências na China chama a atenção por
publicar um menu de imposturas com punições pre-estabelecidas, e outro mais
representativo do universo das imposturas é o que mostra os resultados de uma

                                                                          33
renião de 52 países, cuja afirmação é pioneira em afirmar que a pressão para
que os pesquisadores publiquem a qualquer custo foi a causa mais mencionada
para o avanço das fraudes:

                                  Pesquisa FAPESP – 05/2009
             O menu das más condutas
             Num esforço para combater fraudes e condutas desonestas no
             meio acadêmico, o Ministério da Educação da China publicou
             uma espécie de índex de atos e comportamentos inadequados,
             assim como estipulou punições para quem praticá-los. De
             acordo com o documento, cometer plágio, falsificar dados e
             referências, fraudar currículos e usar o nome de outros
             pesquisadores sem pedir permissão poderá dar punição com
             demissão, suspensão do financiamento de projetos de pesquisa,
             cassação de prêmios e processos na Justiça. As medidas são
             uma resposta a um recente escândalo envolvendo a
             Universidade Zhejiang, na cidade de Hangzhou, onde dois
             professores de ciências farmacêuticas, He Haibo e Li Lianda,
             perderam seus cargos acusados de plágio. Em 2006 o governo
             chinês já havia criado um esquema para monitorar projetos de
             pesquisa depois de uma série de acusações envolvendo condutas
             desonestas. “As medidas buscam criar um mecanismo de
             prevenção que mantenha o campo acadêmico livre de fraudes”,
             disse à agência SciDev.Net Xu Mei, a porta-voz do ministério.
             Para Hou Zinyi, professor de direito da Universidade Nankai,
             na cidade de Tianjin, as iniciativas do governo são superficiais.
             Segundo ele, é preciso aliviar a pressão sobre os pesquisadores,
             principalmente os mais jovens, que se veem obrigados a
             publicar artigos em grande quantidade e acabam recorrendo a
             trapaças.


                                  Pesquisa FAPESP – 11/2007
             Buracos na rede
             Cerca de 300 pessoas de 52 países, entre cientistas, editores de
             periódicos acadêmicos, autoridades e gestores de universidades,


                                                                           34
reuniram-se durante três dias em Lisboa no final de setembro
para discutir o desafio de combater a desonestidade no ambiente
de pesquisa, com destaque para plágios, fraudes e falsificações
em artigos científicos.

...

É certo que episódios de desonestidade científica estão longe
de ser novidade.

...

Citou-se, por exemplo, o escasso hábito de promover a
retratação de artigos fraudulentos publicados em revistas
científicas. A taxa de retratação de artigos na base PubMed, por
exemplo, está estacionado em apenas 0,02% desde 1994. “O
que ouvimos aqui confirma que as condutas impróprias estão
muito mais disseminadas do que se imagina, ainda que nem
sempre se configurem crimes”, diz Ian Halliday, presidente da
ESF. A pressão para que os pesquisadores publiquem a
qualquer custo foi a causa mais mencionada para o avanço das
fraudes. Enquanto o número de publicações dos Estados Unidos
está estagnado, países como China, Coréia do Sul, Cingapura,
Hong Kong e Taiwan vêm ampliando anualmente em 15% sua
produção, segundo dados apresentados por Ovid Tzeng, da
Universidade National Yang Ming, em Taiwan. “Os sistemas de
ranqueamento são muito severos em Taiwan, Hong Kong e
outras localidades da Ásia. Os governos destinam fundos de
acordo com o ranking e perguntam apenas: quantos artigos você
publicou? Quem consegue publicar um paper na Nature recebe
US$ 1 mil em dinheiro vivo”, afirmou Tzeng. “Devemos pedir
às agências de fomento, governos e instituições que revisem
suas regras para reduzir a pressão por aumentar a quantidade de
artigos publicados, especialmente para os pesquisadores muito
jovens. Isso pode ser feito sem comprometer a qualidade e pode
até realçá-la”, disse Peter Tindemans, da Fundação Européia da
Ciência.

                                                             35
As imposturas envolvendo cientistas brasileiros que divulgam seus
resultados em revistas internacionais consagradas, também se revelam por
outros meios, como a divulgada no artigo que segue, cuja consequencia
também desconhecemos:

                                    Pesquisa FAPESP – 11/2005
             A polêmica do artigo
             Como às vezes acontece, o feitiço pode ter virado contra o
             feiticeiro. Se a revista Cell, um dos periódicos internacionais
             mais respeitados da área de ciências da vida, queria desacreditar
             o artigo publicado em sua edição de 23 de julho de 2004 pela
             equipe do médico Antonio Teixeira, da Universidade de
             Brasília (UnB), a forma de lidar com o caso talvez não tenha
             sido das mais transparentes, nem eficaz em seus propósitos.
             Pondo fim a uma negociação de meses com os autores
             brasileiros do estudo em questão, que havia fornecido as
             primeiras evidências de que trechos do genoma do parasita
             Trypanosoma cruzi, causador da doença de Chagas, poderiam
             se incorporar ao DNA de animais, inclusive do homem, o
             periódico cancelou a validade do artigo num comunicado de
             dois parágrafos e cerca de 120 palavras divulgado em 23 de
             setembro deste ano. Fez isso à revelia dos autores, sem
             apresentar razões inequívocas para seu comportamento. O
             procedimento unilateral acabou gerando críticas em relação à
             política editorial da Cell e jogou ainda mais luz sobre o estudo
             dos pesquisadores de Brasília.
             A revista argumentou que, “depois de cuidadosa e extensiva
             revisão dos dados (de Teixeira) por especialistas independentes
             da área”, era forçada a retirar o artigo porque havia dúvidas
             sobre o local do DNA do hospedeiro em que o genoma do
             parasita teria se alojado. Mas não apresentou nenhuma
             evidência de fraude, deslize ético ou má conduta da equipe
             brasileira que redigira o polêmico artigo, situações que
             normalmente são invocadas quando uma publicação resolve
             cancelar os escritos de um pesquisador. A comunidade
             científica, brasileira e internacional, estranhou o procedimento


                                                                           36
da Cell e reclamou publicamente em reportagens e artigos que
              saíram em meios de comunicação daqui e do exterior. A reação
              levou a editora da Cell, Emilie Marcus, a voltar ao assunto num
              texto maior, o editorial da edição de 21 de outubro passado,
              intitulado “Controvérsia da retratação”. Resultado da polêmica:
              o artigo cancelado, aquele que não era boa ciência segundo o
              periódico, chegou a ser o segundo mais lido no site da própria
              revista e o editorial explicativo estava na 11ª posição na mesma
              lista no final do mês passado. Baiano de 63 anos, Teixeira
              desenvolve a linha de pesquisa que redundou no artigo da Cell
              há mais de uma década e meia. Ele se diz perplexo com o
              desenrolar dos acontecimentos, inclusive com as reações de
              solidariedade que recebeu de colegas do Brasil e de fora do
              país. “Jamais poderia imaginar que a atitude arrogante da
              revista pudesse sensibilizar tantas pessoas no mundo”, afirma o
              pesquisador da UnB, que defende a validade de seus dados.
              “Outros laboratórios estão tentando reproduzir os nossos
              resultados.” O tempo, como sempre, dirá quem tem razão.


      Um artigo que merece destaque é o que foi publicado pelo Observatório
da Impprensa, em sua edição 558, com observações importantes sobre o
plágio, mas refereindo-se somente aos praticados por alunos. Além disso,
citando leis que não são divulgadas, e não sabemos se praticadas ou em vigor,
ainda que afirmando com propriedade sobre a inexistência de fiscalização.
Esse artigo segue copiado na íntegra:

                             Observatório da Imprensa-06/10/2009
                         (http://www.observatoriodaimprensa.com.br)
              MÍDIA & EDUCAÇÃO

              O trabalho acadêmico e o plágio

              Por Eliezer Belo

              Algumas coisas chamam a atenção quando fogem da
              regularidade. Foi o que se pode perceber durante este mês de
              setembro de 2009. Por duas vezes, em uma mesma emissora e

                                                                           37
um mesmo programa jornalístico, enfatizou-se a questão das
compras de monografias.

A monografia tem sido o "calcanhar de Aquiles" de muitos
estudantes, coisa percebida no ambiente acadêmico nas últimas
décadas. Na verdade, ela sempre foi uma profunda dor de
cabeça para muitos. Mas o que vem chamando a atenção para
tal é o fator de que, atualmente, muitos desses trabalhos estão
sendo acusados de plágio. Um fator interessante em todo esse
contexto é que pouco se fala nas condições em que os alunos
dos cursos de graduação estão envolvidos, no que diz respeito
aos aspectos legais, educacionais, à compreensão da natureza do
trabalho acadêmico, culturais e tecnológicos.

Em relação ao plágio, ele se caracteriza (conforme Lei nº 9.610
de 19/02/1998) consistentemente pelo uso não autorizado ou
não referenciado pelo pesquisador. Quando a lei expressa "a
proteção recairá sobre a forma literária ou artística, não
abrangendo o seu conteúdo científico ou técnico, sem prejuízo
dos direitos que protegem os demais campos da propriedade
imaterial". Com isso a materialização de uma obra científica é
apoderada pelo autor a partir de sua configuração, ou seja, o
texto em si. Apropriação desse texto (inciso I, Art. 7, Lei 9.610)
configura a apropriação indébita. Porém, o Art. 108, quando
trata das punições reza "Quem,[...] deixar de indicar ou de
anunciar, como tal, o nome, pseudônimo ou sinal convencional
do autor e do intérprete, além de responder por danos morais,
está obrigado a divulgar-lhes a identidade [...]". Dentro desse
aspecto, o trabalho acadêmico, seguindo os critérios da ABNT -
NBR 6023, eximir-se-á do plágio pelo uso orientado dos textos
fidedignos de pesquisa.

Consciência e importância

A produção do trabalho acadêmico tem por objetivo inserir o
aluno à pesquisa. Ele advém dos "recortes" (recortes aqui são
aqueles que se apresentam nos trabalhos acadêmicos, em
formato de citação, e aparecem devidamente referenciados) de
pesquisas já efetivadas por pesquisadores já inseridos no
processo pesquisa.


                                                               38
O que dá caráter científico a um trabalho é exatamente sua
fundamentação, que faz uso de uma metodologia própria de
pesquisa e se apodera de um objeto manipulável e com
regularidades. A materialidade da pesquisa consiste na coleta de
dados feita pelo pesquisador, seja pela observação laboratorial,
com recursos às literaturas ou feita em campo.

O laboratório, a literatura e o campo nunca estiveram tão
próximos aos pesquisadores como agora. De que forma? Pelos
meios digitais, especificamente pela internet. Tempo e espaço
estão reduzidos ao "click". O aluno que está sendo inserido no
campo da pesquisa deve ter construído em si a importância do
trabalho acadêmico, principalmente a monografia. Sem a
consciência da utilidade acontece a banalização e a
desconsideração. Sendo assim, fica muito fácil, e até uma
"tentação" para o aluno, desassistido, buscar outros meios para
efetivar "seu" trabalho. A consciência e importância do trabalho
acadêmico devem iniciar sua construção desde o primeiro
momento que o aluno se insere no ambiente acadêmico e
acompanhado até a sua saída.

Pertinência e metodologia

A monografia deve ser encarada como a primeira especialização
do aluno, sabendo que é, a partir do tema proposto, ela que o
orientará no que diz respeito às suas futuras investidas
acadêmicas. Caso o aluno ignore essa condição, dificilmente
terá sucesso após sua formação. Sem querer poetizar, o trabalho
acadêmico deve produzir no aluno o sentimento de quem pintou
um belo quadro, obra única (fazendo uso de tintas produzidas
por outros, mas misturadas por criatividade única), ou escreveu
uma poesia, sentimento único (fazendo usa de palavras
utilizadas por outros, mas com articulações únicas), essa é a
autenticidade do trabalho acadêmico. Para muitos o término da
monografia e sua apresentação à banca examinadora já foi
considerado um rito de passagem, mais significativa do que a
colação de grau ou a recebimento do diploma.

Não se pode ignorar que as Instituições de Ensino Superior
(algumas delas) deixam de assumir compromisso com o aluno,


                                                             39
ou seja, não cumprem o papel educacional. Isso está claro, é só
vermos as condições em que alguns alunos saem "formados" de
certas faculdades e universidades. É de toda compreensão que
as responsabilidades são recíprocas. Mas a questão maior é que,
mesmo o colegiado e o setor pedagógico vendo a situação de
descaso em que certos alunos encaram a graduação, ignoram.
Parece que o que mais importa para essas Instituições de ensino
são as "mensalidades quitadas". Mensalidade quitada está
virando sinônimo de "formação continuada".

Se há um acompanhamento do aluno da definição do tema para
o projeto, questionamentos sobre a pertinência do tema, a
proposição metodológica e o desenvolvimento seqüencial e
assistido por um orientador, dificilmente ele se ocupará com a
desonestidade de se apropriar indebitamente da produção
intelectual de outro.

Regras e fiscalização

Ignorar a figura do orientador, para conter gastos também é
imoral, assim como ir à internet e copiar alguma coisa para
enxertar um trabalho (apesar da lei do mercado sustentar que a
contenção de gastos é justa). A regra do mercado educacional é
"quanto mais tempo o aluno gasta em sala de aula, ou sendo
assistido, maior será o gasto, que é igual a prejuízo". Mas as
regras da educação e da pedagogia são "orientar e facilitar até
que se consolide o processo ensino-aprendizagem".

Retirar dos cursos de graduação o TCC ou os artigos periódicos,
como meios de avaliação, também não será uma postura
responsável, eles ainda são um meio possível, dentro de nosso
contexto, de produzir um profissional ou pesquisador envolvido
com as questões de imanência de sua formação.

Seria justo que o MEC fiscalizasse mais, tanto as IES, no que
diz respeito à qualidade de serviços educacionais, não usando
apenas como critério a instalação física e a titulação do corpo
docente, mas tudo o que envolve o compromisso educacional;
como também às produções acadêmicas de conclusão de curso.
Pelo MEC seria o caminho que, imparcialmente, alcançaria
tanto que o que explora a necessidade comercial do ensino

                                                            40
como o que se serve dela. Existem regras? Sim. Uma porção
             delas, expressas nas portarias no MEC. Existe fiscalização?
             Não. O mercado educacional, no que diz respeito à seriedade
             que se deve dar à formação das pessoas e à fiscalização, é "terra
             de ninguém".

       Um outro tipo de informação que merce ser comentado é que, a despeito
da ter sido divulgado em diversos meios, com no Jornal Nacional da Rede
Globo, mereceu somente um pequeno comentário no que constou na Revista
FAPESP. A importância dessa informação, segundo nossa interpretação, é o
fato de a mesma revelar o descrédito do pesquisador para com seus pares, a
partir do que podemos sugerir a ocorrência de imposturas intelectuais em seu
meio acadêmico; de outra forma, a que se deveria atribuir tal descrédito?
Segue o que foi publicado.


                                  Pesquisa FAPESP – 04/2010

             O gênio rejeita US$ 1 milhão
             O matemático russo Grigory Perelman, 43 anos, recusou mais
             um prêmio em reconhecimento à proeza de resolver a
             conjectura de Poincaré, considerada uma questão central da
             topologia, área da matemática que estuda as propriedades
             geométricas que não mudam quando objetos são distorcidos,
             esticados ou encolhidos. Segundo o jornal Pravda, Perelman
             rejeitou o prêmio de US$ 1 milhão oferecido pelo Instituto Clay
             de Matemática (CMI, na sigla em inglês), de Massachusetts. Ele
             publicou a solução da conjectura em artigos na internet em 2002
             e 2003. Em 2006 foi indicado para receber a cobiçada Fields
             Medal, concedida a grandes matemáticos com menos de 40
             anos, mas recusou o prêmio, tachando-o de irrelevante. Ele
             também tinha rejeitado um prêmio do Congresso Europeu de
             Matemáticos, em 1996, sob o argumento de que não reconhecia
             nos pares que concederam a honraria autoridade para julgar seu
             feito.




                                                                           41
Segue ainda um artigo recentemente publicado, que trata da impostura
de um cientista, mas de um egípcio.

                                   Folha de S. Paulo - 03/01/2010
              L.I.X.O.
              Marcelo Leite

              Físico egípcio descobre como pôr
              a estatística a serviço de si mesmo

              ...
              Há alguns problemas com a produção do egípcio, no entanto. Nos
              últimos anos, seus adversários se deram conta de que mais de 300
              dos 400 artigos publicados por El Naschie o foram no próprio
              "CSF" por ele editado.
              ...

      Outro artigo, desta vez brasileiro,e que, portanto, merece atenção é o que
mostra a informação de ocorrência de plágio na Faculdade de Direito (!!!), e da
USP (!!!), que foi publicado tanto na Folha de S.Paulo quanto no Jornal da
Ciência (JC) (SBPC), mas que não concluiu com qualquer punição:

                                 Folha de S. Paulo 06/02/2010
              Universidade "inocenta" professor titular da Faculdade de
              Direito e afirma que problemas foram só em formalidades



                                   JC de 08/02/2010
              A USP decidiu arquivar uma investigação de plágio contra um
              docente da sua Faculdade de Direito e isentá-lo de qualquer
              penalidade -apesar de uma comissão de sindicância ter apontado
              irregularidades no trabalho apresentado por ele no concurso
              para professor titular, ápice da carreira.


       E, de imposturas de outras naturezas ainda seguem artigos publicados
que colocam em questão a atuação de pesquisadores de renome, que foram
enfaticamente divulgados, como os que seguem.



                                                                             42
Folha de S. Paulo 04/04/2010
+MARCELO LEITE
Promessa não cumprida

Qualquer criança sabe que o
câncer continua a ser uma doença
grave


No dia 26 de junho fará dez anos que Bill Clinton, Francis
Collins -hoje diretor dos poderosos Institutos Nacionais de
Saúde (NIH) dos EUA, então chefe do Projeto Genoma
Humano (PGH)- e Craig Venter, da empresa competidora
Celera, se reuniram na Casa Branca para anunciar o fim do
sequenciamento (soletração) do conteúdo dos 23 pares de
cromossomos humanos. Como muita coisa de que esse trio
participou, nada ali era bem verdadeiro, e quase tudo cheirava a
encenação.


                        Folha de S. Paulo – abril de 2010

Freud na berlinda

Livro do francês Michel Onfray contra o pai da psicanálise
gera polêmica antes mesmo de chegar às livrarias
...

No livro, lançado na quarta passada, Onfray se entrega com
indisfarçável deleite ao ataque contra Freud e o freudismo.

...

Segundo Onfray, o médico formado em Viena toma emprestado
conceitos de Schopenhauer e Nietzsche sem honrar suas fontes;
dissimula os fracassos terapêuticos da psicanálise; pretende ser
um cientista e, ao mesmo tempo, se apresenta como
"conquistador de um continente desconhecido", tomando seus
desejos por realidade; é um burguês ávido de celebridade;
persegue dinheiro e glória; mantém uma relação adúltera com a

                                                             43
cunhada, que vivia em sua casa; é um falocrata, misógino e
            homofóbico.

      As principais revistas científicas internacionais também mostram
preocupação com imposturas, como a publicada na Nature que segue.

                                 Nature Vol 464 |no. 7293 | 29 April 2010
                                 www.nature.com/nature

            Under suspicion
            When Nature or its sister journals receive serious allegations
            about data or author conduct, they follow a clear procedure
            to work out whether the published record needs to be
            revised.
                 A particularly exciting research paper catches your eye.
            You start to read it in detail, carefully studying the methods,
            figures, data and logic. To your growing horror, you realize that
            a few of the blots and gel images look as though they have been
            digitally manipulated. You immediately inform the journal of
            your suspicions and are told that the editors will ‘look into it’.
            But after months of silence, you begin to wonder if that phrase
            is just a euphemism for inaction.
                 It isn’t — certainly not at Nature or any of the other
            Nature-branded
            journals. We make a concerted effort to forestall such problems
            by spot-checking the images in at least two papers of each issue
            before publication. Even so, Nature journals that publish a
            substantial number of gels and blots still receive up to five
            reports of image manipulation per journal per year — and few
            of these cases can be handled quickly.
                 When we receive a complaint, we first do our own tests on
            the figures to see whether the charges have merit. We also take
            a careful look at the paper as a whole. Some claims of
            fraudulent image manipulation turn out to be mistaken. Others
            we suspect of being clumsy attempts to slur the reputations of
            others.
                 Occasionally, our examination suggests that something
            may be amiss. We then ask the authors for the original data and
            an explanation of what has happened. This is to help us
            understand whether the images really were manipulated and, if


                                                                           44
so, why. This request for authors to provide us with
explanations holds true for almost all other types of allegations,
from authors not sharing materials as expected to charges of
fabricated data or plagiarism.
     Intent is key — we often find that no data have been
fabricated, but that poor practice and a lack of education have
allowed unexplained gel splices, for example, to slip past co-
authors before submission or during the revision process.
Taking into account the authors’ response, together with our
comparison of the original images with the published figures,
we will hopefully find that the apparent problems are either
nonexistent or easily remedied. If we conclude otherwise, we
will then contact the authors’ home institution. This step is
necessary because, unlike universities and other such
institutions, journals don’t have the resources or the legal
authority to investigate allegations fully, or to make formal
findings of research misconduct.
     At Nature, we usually wait for the results of a formal
inquiry before correcting the record — hence the seeming
inaction. Institutions vary in their practices, and some are more
efficient than others. Institutions that accept government grants
in the United States must have a researchintegrity officer to
handle such allegations, but they are not obliged to share their
information with us. We urge institutions to produce a redacted
version of their final report that protects the innocent, but that
indicates the extent of the investigation and the findings on each
allegation. Because this is not general practice, we are not
always sure that we concur with the actions suggested by the
institution’s investigating committee. To see exactly what was
examined, we are forced to request clarifications, which delays
revisions to the public record further.
       At times, we have to resort to the US Freedom of
Information Act to obtain enough information to correct the
literature appropriately.
     If the institute is not in the United States, lines of
responsibility are less clear. Determining whom to contact is not
straightforward and convincing parties that an investigation is
needed and getting useful information back is not a reliable
process. Sometimes, this means it can be difficult to judge if the
investigation has been thorough and fair.


                                                               45
The complexity of a case, which is not always readily
             apparent, also has a bearing on how quickly a verdict can be
             reached. If an institution’s report concludes that misconduct
             occurred, we usually insist on a retraction — and will issue the
             retraction ourselves if the authors refuse to comply. But when
             an institution’s investigation cites lesser problems such as
             ‘beautification’ of the images, ‘sloppy science’ or ‘inadequate
             record-keeping’ — sometimes misconduct is suspected but
             cannot be proven — we will base our response on the specifics
             of the case.
                  If there were no data fraud and no intent to deceive, for
             example, and if only one or two images were involved, we
             would allow the authors to publish an erratum and supply
             appropriate data, figures, original gels or images as
             supplementary information. Such an erratum can enhance the
             authors’ reputation for honesty. But if most of the figures are
             problematic, we will strongly urge the authors to retract the
             paper, even if they were cleared of misconduct and even if the
             paper’s main conclusions have been verified independently by
             other labs. The logic is that the published paper did not
             accurately reflect the data as they were collected.
                  We urge all readers or reviewers who think that images or
             other information have been inappropriately handled to bring
             your concerns to the attention of the editors. By doing so you
             help increase the reliability of the literature, and so prevent the
             waste of both time and money following up fraudulent leads
             and fabricated insights. We strongly believe that it is in our best
             interest to correct errors that we have published, once we have
             as much information as we are likely to get — a practice that all
             journals should embrace. ■
             © 20 Macmillan Publishers Limited. 10 All rights reserved


       Muitas outras informações relacionadas ao tema são publicadas em
diferentes blogs dos quais recebemos comunicação por e-mail como por
exemplo: i) o sugerido pelo Labjor/UNICAMP, que se encontra no
http://www.the-scientist.com/blog, de onde, sem anotar a edição, copiamos as
figuras que seguem, a primeira por mostrar que não há razão para atribuir a
ocorrência de fraudes ou plágios somente aos alunos, e a segunda por mostrar
que a maioria das ocorrências não são adequadamente reportadas:


                                                                             46
ou ii) cujos autores não são populares ou referidos nos meios por nós
selecionados, de onde copiamos o que segue por servir de exemplo de outro
tipo de impostura, em que são citados autores de renomes com o propósito de
inferir pela qualidade do artigo:




                                                                        47
IREvalEtAl
             William Webber’s Research Blog
             http://blog.codalism.com/?p=773

             Citing papers that you’ve never read — or that were never
             written


             A regrettably common practice in academic writing is to cite
             papers because someone else cites those papers, without having
             read them yourself. Justin warns about this in his book on
             writing for computer science, and I know he personally has a
             few good anecdotes. The practice is particularly amusing when
             the paper is incorrectly referenced or simply doesn’t exist; the
             original citer has made a mistake, and this has been blindly
             carried forward by their imitators. Via Edel Garcia comes The
             Most Influential Paper Gerard Salton Never Wrote, an article by
             David Dubin tracing the history of the vector space model as
             applied to the field of information retrieval. In this article,
             Dubin points out that a highly cited paper, “A Vector Space
             Model for Information Retrieval”, published by Gerard Salton
             in 1975 in the Journal of the American Society for Information
             Science, does not in fact exist.

      Um outro caso que consta de nossos arquivos, que chama ainda mais a
atenção por ter sido comprovado, sugere o que pode ser atribuído às origens
do problema no Brasil:

                                 i)Quem foi Paula Souza (Google)
             O professor Antônio Francisco de Paula Souza foi o fundador
             da Escola Politécnica de São Paulo - Poli, hoje integrada à
             Universidade de São Paulo. Engenheiro, político e professor,
             Paula Souza nasceu em Itu, em 1843. De uma família de
             estadistas, foi um liberal, tendo lutado pela República e
             Abolição da Escravatura. Em 1892 elegeu-se deputado estadual,
             ficando poucos meses no cargo, pois o Marechal Floriano
             Peixoto convocou-o ao Ministério do Exterior. Formado em
             Engenharia em Carlsruhe, na Alemanha, e em Zurique, na
             Suíça, foi em toda a sua vida pública um empreendedor e forte
             oposicionista da centralização do poder político-administrativo


                                                                          48
da Monarquia. Educador, esteve ligado à Poli por 25 anos. Seu
              desejo era introduzir no Brasil um ensino técnico voltado para a
              formação de profissionais preocupados com o trabalho e não
              apenas com discussões acadêmicas. Seu dinamismo em criar
              obras é um exemplo dessa preocupação. Criou um conceito
              novo de ensino, convidou especialistas europeus e americanos
              para lecionar na Poli, à frente da qual esteve como primeiro
              diretor, de 24 de novembro de 1894 abril de 1917, quando
              faleceu, em São Paulo.

                                  ii) Por outra fonte de informação

              Na página 214 do livro "Campinas, das origens ao futuro", de
              autoria de Dr. Antonio da Costa Santos (Toninho - PT 13),
              o prefeito de Campinas, assassinado em 10 / 09/ 2001-
              encontra-se a nota no 145:

              "O autor pôde constatar, através de documento abaixo
              reproduzido, oferecido pela Reitoria da Universidade de
              Karlsruhe, Alemanha, que Paula Souza nunca foi diplomado por
              esta instituição de ensino, contrariamente ao afirmado pela
              competente bibliografia no Brasil".


       Finalmente, analisando o conjunto de artigos compilados e comentados
anteriormente, podemos afirmar que a ocorrência de imposturas científicas
não é um problema só do Brasil, a despeito de deixar evidente que nesse caso
(nacional) nada foi encontrado sobre a aplicação de penalidades aos
envolvidos, e, portanto, nada podermos apontar sobre o que poderia servir de
exemplo a ser seguido para a prática ética da produção e divulgação científica
brasileira. Essa análise das discussões dos resultados se mostra como pilar e
orientação para nossas recomendações apresentadas nas considerações finais,
as quais seguimos em nossa atuação descrita nos anexos referidos nas
mesmas.




                                                                           49
5. Considerações Finais


       Ainda que sem autoridade para concluir sobre “estado da arte” dos
fatores que motivam a produção e a divulgação científica, porque dispondo
somente de uma compilação de artigos referentes ao tema selecionados por
um método previamente estabelecido, recomendamos que parte da
responsabilidade de todo cientista seja garantir que os seus alunos e orientados
recebam educação crítica que contemple conceitos e procedimentos éticos
tanto para a produção quanto para a divulgação científica de seus resultados.

       De forma complementar recomendamos que as sociedades científicas
brasileiras disponham de representantes de sua comunidade para este fim, a
exemplo do que propusemos à Sociedade Brasileira de Matemática Aplicada e
Computacional (SBMAC) da qual fazemos parte (ver Anexo 1, Anexo 2-a e
Anexo 2-b), que todos os cursos das universidades e dos institutos de pesquisa
brasileiros se responsabilizem pelo oferecimento de pelo menos uma palestra
sobre o tema, a exemplo das que ministramos no LNCC/MCT e da que
sugerimos à Comissão de Pesquisa da FEAGRI/UNICAMP - unidade da
UNICAMP a que pertencemos (ver Anexo 3), e que jornalistas científicos
responsáveis considerem essas recomendações, a exemplo da que sugerimos à
Revista FAPESP e da que foi aceita no blog do físico Marcelo Gleiser (ver
Anexo 4).

      A partir da implementação dessas recomendações, sugerimos que as
universidades e instituições de pesquisa do Brasil estabeleçam regras para a
punição dos envolvidos nos distintos tipos de imposturas, a exemplo do que
vem sendo feito em outros países.


6. Trabalhos futuros


     O conteúdo desse trabalho pode ser usado como parte complementar do
PROJETO “Percepção Pública da Ciência pelos Cientistas”, anunciado pelo
Dr Carlos Vogt aos alunos do curso de J. C. em 14 de junho de 2010.




                                                                             50
7. Bibliografia complementar citada

Bueno, W. C. Jornalismo Científico no Brasil: aspectos teóricos e práticos.
São Paulo, CJE/ECA/USP, 1988.

Bertolli Filho, C. Elementos fundamentais para a prática do jornalismo
científico. BOCC. Biblioteca On-line de Ciências da Comunicação 2006; 1: 1-
32.

Bursztyn, M. Ciência, ética e sustentabilidade. 2. ed. São Paulo: Cortez;
Brasília, DF: UNESCO, 2001.

Diniz, D. , Sugai, A., Guilhem, D., Squinca, F. Ética em Pesquisa: temas
Globais. Editora UNB, Brasília. 2008. 404p.


Knobel, M. Comunicação em aula da disciplina Fontes de Informação do
curso de Jornalismo Científico do Labjor, UNICAMP, Campinas-SP, 2009.

Kuhn, T. The struture of scientific revolutions.Chicago, University Press.
1962.

Leite, A. P. R., Araújo, M. D. A. Reflexões sobre a Ética nas Organizações:
Uma Abordagem Inicial sobre a Eticidade nas Universidades Brasileiras. III
Encontro Nacional de Pesquisadores em Gestão Social. Juazeiro-BA. Maio de
2009.

Leite, M. Ciência: use com cuidado. Campinas, SP: Editora da Unicamp.
2008.

Leite, M. Fraudes e fraudes. Folha de São Paulo. 15/03/2009

Monteiro R, Jatene FB, Goldenberg S, Población D.A., Pellizzon R.F.
Critérios de autoria em trabalhos científicos: um assunto polêmico e delicado.
Rev bras cir cardiovasc [on line]. 2004, 19(4): I-VIII.

Morin, E. Ciência com Consciência. Rio de Janeiro: Editora Bertrand Brasil.
2008. 12ª edição. 350p

Oliveira de, F. Jornalismo científico. Editora Contexto. 2002: 42.


                                                                           51
Olson, J. C. Newton and Copernicus. In: The Comic Strip as a Medium for
Promoting Science Literacy. California State University Northridge, 2008.

Pracontal, M. A impostura científica em dez lições. São Paulo: Editora
UNESP, 2004. 453p.

Sokal, A., Bricmont, J. Imposturas intelectuais. Rio de Janeiro, Record, 2001.

Srour, R. H. Poder, cultura e ética nas organizações. Rio de Janeiro, Campus,
1998, p. 270-71.

Vogt, C. & Polino, C. Percepção pública de ciência: Resultados da pesquisa na
Argentina, Brasil, Espanha e Uruguai. Campinas, SP, Ed. Unicamp; São
Paulo, SP. 2003.




                                                                             52
8. Anexos

ANEXO 1


  No final do ano de 2009, o Presidente da Society Industrial Applied
Mathematics - SIAM, em carta à essa comunidade, manifestou sua
"preocupação" diante da crescente ocorrência de plágios (Anexo 1.1). Essa
notícia circulou por e-mail entre pesquisadores de diversas universidades e
institutos de pesquisa da área de Matemática Aplicada.

  Uma outra notícia, que também circulou pelos mesmos caminhos, constou
da exclusão de um artigo científico já publicado na revista Advances in
Engineering Software (Anexo 1.2).

   Diante destas, dentre outras ocorrências de mesma natureza que tomei
conhecimento, eu escrevi informalmente a diversos membros da SBMAC para
trocar idéias no sentido de propor que alguma providência fosse tomada para
alertar a comunidade sobre o problema de conduta de cientistas, bem como, e
principalmente, educar os mais jovens.

  Nada aconteceu.

   Coincidentemente era o período em que os sócios da SBMAC poderiam
sugerir nome para as conferências especiais do "Congresso Nacional de
Matemática Aplicada e Computacional" - CNMAC 2010, ocasião em que, a
exemplo de anos anteriores, me manifestei, desta vez com a sugestão do tema
"Ética na produção e divulgação científica", e o nome do Prof Marcelo
Knobel, que fora nosso professor da disciplian "Fontes de Informação" do
curso de J. C.

   O referido professor aceitou o convite, mas a diretoria da SBMAC não
selecionou o seu nome.

    Posteriormente, enviamos à Revista FAPESP o que consta no Anexo 1.1
junto com a sugestão da inclusão do tema para a pauta, o que não foi
contemplado até a presente data.




                                                                        53
ANEXO 1.1



       SIAM NEWS

       Integrity Under Attack: The State of Scholarly Publishing

       December 4, 2009
       Talk of the Society Douglas N. Arnold


       Scientific journals are surely important. They provide the most
       effective means for disseminating and archiving scientific
       results, and so are a key part of an enterprise on which our
       health, security, and prosperity ultimately depend. Publications
       are used by universities, funding agencies, and others as a
       primary measure of research productivity and impact. They play
       a decisive role in hiring, promotion, and salary decisions, and in
       the ranking of departments, institutions, even nations. With big
       rewards tied to publication, it is not surprising that some people
       engage in unethical behavior, abuse, and downright fraud. Still,
       when I started to look at the issues more closely, I was appalled
       by what I found. In this column, I give a few troubling
       examples of misconduct by authors and by journals in applied
       mathematics. One conclusion I draw is that common
       bibliometrics---such as the impact factor for journals and
       citation counts for authors---are easily manipulated not only in
       theory, but also in practice, and that their use in ranking and
       judging should be curtailed.

       SIAM places great value on scholarly publishing, of course, and
       we are taking strong actions to ensure the integrity of our own
       publications and to protect our authors from theft of their work.
       But we are still struggling to decide just what actions we should
       take. So I invite the thoughts of members of the SIAM
       community. If you have witnessed troubling incidents in journal
       publication, let me know. Do you think such incidents are on
       the rise? Should SIAM be doing more? Should we look beyond
       our own publications and authors?


                                                                      54
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Recomendações Éticas...

  • 1. Recomendações Éticas para a Produção e Divulgação Científica Mariangela Amendola 1
  • 2. Mariângela Amendola Profa. Dra. Matemática Aplicada e Computação Científica Faculdade de Engenharia Agrícola - FEAGRI Universidade Estadual de Campinas - UNICAMP Recomendações Éticas para a Produção e Divulgação Científica 28 de Junho de 2010 2
  • 3. Mariângela Amendola Profa. Dra. Matemática Aplicada e Computação Científica Faculdade de Engenharia Agrícola - FEAGRI Universidade Estadual de Campinas - UNICAMP Recomendações Éticas para a Produção e Divulgação Científica Trabalho de Conclusão do Curso de Pós-graduação em Jornalismo Científico Laboratório de Jornalismo - LABJOR Universidade Estadual de Campinas - UNICAMP 28 de Junho de 2010 3
  • 4. Agradecimentos Agradeço aos professores Amarildo, Conceição, Cristiane, Geraldo, Graça, Herton, Lea e Simone, pela inclusão e discussão do tema nas disciplinas desse curso; aos membros dos grupos de alunos dos trabalhos dessas disciplinas, pelas discussões ao longo da elaboração dos trabalhos que contemplaram o tema; ao LNCC, pelas oportunidades de apresentar palestras sobre o tema em seus eventos; a FEAGRI, pela autorização para a minha participação no curso; à minha mãe, minha babá Maria Dondon, aos amigos (as): André, Cesare, Gi, Haroldo, Lala, Luci, Marina, Marlene, Rô, Rodolfo, Sandramalta, Sonia, Valéria e Willinha, pelo incentivo nessa minha atuação (“a esta altura da vida!” ou “para quê?” - disseram os outros). 4
  • 5. As Coisas (Arnaldo Antunes) As coisas têm peso Massa, volume, tamanho Tempo, forma, cor Posição, textura, duração Densidade, cheiro, valor Consistência, profundidade Contorno, temperatura Função, aparência, preço Destino, idade, sentido As coisas não têm paz As coisas não têm paz As coisas não têm paz As coisas não têm paz As coisas têm peso Massa, volume, tamanho Tempo, forma, cor Posição, textura, duração Densidade, cheiro, valor Consistência, profundidade Contorno, temperatura Função, aparência, preço Destino, idade, sentido As coisas não têm paz As coisas não têm paz As coisas não têm paz As coisas não têm paz 5
  • 6. Resumo Este trabalho mostra os resultados da análise da compilação de artigos referentes a conduta ética na produção e divulgação científica, que revelam argumentos que servem de suporte para a implementação de um conjunto de recomendações para a prática científica nas universidades e institutos de pesquisa do Brasil. Tal compilação se deu pela leitura de artigos científicos e informes relacionados ao tema com os quais nos deparamos a partir de meados de 2003, seguiu sendo complementada desta mesma forma até o início de 2009 e, desde então, de forma particular a partir das discussões do tema nas diversas disciplinas do curso de Jornalismo Científico do LABJOR / UNICAMP. Os resultados obtidos, que já serviram para palestras por nós ministradas em eventos científicos nacionais, bem como para o encaminhamento de sugestões para sociedades científicas, unidades da UNICAMP e jornalistas científicos, revelam que o tema, em geral, não vem sendo discutido e/ou divulgado nas universidades e institutos de pesquisa do Brasil. Essa revelação justifica esse trabalho, cujos resultados levam à recomendação de que parte da responsabilidade de todo cientista seja garantir que os seus alunos e orientados recebam educação crítica que contemple conceitos e procedimentos éticos tanto para a produção quanto para a divulgação científica de seus resultados. De forma complementar recomendamos que as sociedades científicas brasileiras disponham de representantes de sua comunidade para este fim e que jornalistas científicos considerem essas recomendações. A partir da implementação dessas recomendações, sugerimos que as universidades e instituições de pesquisa do Brasil estabeleçam regras para a punição dos envolvidos nos distintos tipos de imposturas, a exemplo do que vem sendo feito em outros países. Palavras-chave: ética na produção científica, ética na divulgação científica, orientações para a prática científica 6
  • 7. Sumário 1. Introdução 08 2. Objetivo 11 3. Material e métodos 11 4. Resultados e discussões 20 5. Considerações finais 50 6. Trabalhos futuros 50 7. Bibliografia complementar citada 51 8. Anexos 53 7
  • 8. 1. Introdução A produção do conhecimento em áreas científicas denominadas “ciências duras”, como a matemática de nosso domínio, segue uma orientação pré-estabelecida que traduz o que se entende por método científico. Mas o método científico não é o único fator que serve de orientação para a produção científica destas e de outras áreas que se servem de seus resultados, em particular nas universidades aonde os atuais critérios de avaliação dos cientistas (professores ou alunos que fazem ciência), vem revelando outro tipo de orientação: a “motivação” extraordinária, no sentido de fora de ordem, para a divulgação de resultados por meio de publicações e patentes. A observação sobre a referida motivação tem sido alvo de discussão em várias esferas de decisões brasileiras, que vão de reuniões universitárias locais a congressos nacionais, como a recente 4a Conferência Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação, realizada em Brasília, de 24 a 28 de maio de 2010 (www.cgee.org.br/cncti4), cujas conclusões vem sendo divulgadas não só nos meios científicos como em outros meios sociais, e nem sempre acompanhadas de argumentos que revelam o que está em jogo, principalmente para esses últimos. Neste contexto, Mário Novello, físico do Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas, Rio de Janeiro, em entrevista a Ricardo Mioto, da Folha de S. Paulo, em 30 de maio de 2010, disse: “a razão pela qual Newton fazia aquilo não tinha nada ver com a razão pela qual um bolsista faz as coisas hoje em dia”. Entretanto em sua fala, Novello não incorpora, ao lado do bolsista, seu orientador (um pesquisador já consagrado), nem alinhava comentários sobre a produção científica dos pesquisadores das universidades brasileiras em geral que, no sentido darwiniano, não é comparável à de Newton, e assim, não incorpora, também deste lado, o mesmo orientador. Refletir sobre os diversos fatores que motivam os cientistas a fazerem o que fazem nas universidades, portanto, se mostra relevante e atemporal. 8
  • 9. Sobre esses fatores, anotamos o que comentou o professor Marcio Barreto, da Faculdade de Ciências Aplicadas da Universidade Estadual de Campinas, em palestra realizada aos estudantes do curso de J. C. da mesma universidade, em 17 de maio de 2010: “Esses critérios (de avaliação dos cientistas) são válidos desde que não assumam um caráter absoluto, tal como é a tendência atual. É preciso tê-los como parte da avaliação, mas há outras formas quantitativas e principalmente qualitativas que devem ser colocadas em pé de igualdade com os atuais indicativos. Além disso, o que os cientistas fazem, não é adequadamente divulgado, apesar de ter implicações sociais e políticas para a sociedade como um todo”. Essa afirmação chama atenção para um outro fator que, com raras exceções, não pertence ao cotidiano dos cientistas, e cuja responsabilidade pode ser atribuída não só a quem produz ciência, como também, aos que divulgam ciência: quando não os próprios cientistas, os profissionais designados para esse fim. Se, com relação a esse fator capaz de revelar implicações (e benefícios!) para a sociedade, não há nenhuma regra brasileira em vigor (ver Pesquisa FAPESP no 164 ou www.pesquisafapesp.br), a adequação da divulgação, em geral, pode ser remetida à educação brasileira. É o que afirma o escritor Mario Prata que, em entrevista ao Caderno C do jornal Correio Popular em 27 de maio de 2010, ao ser questionado sobre ser a falta de tempo a responsabilidade pela má qualidade dos textos da imprensa, ainda que se referindo à imprensa de modo geral, respondeu: “Também, mas não só. O problema é o ensino no Brasil, que é péssimo. O nível é baixo demais”. Um pouco mais otimista, entretanto, e referindo-se a divulgação especializada, informou Mariluce Moura, editora chefe da Revista FAPESP, em palestra realizada aos estudantes do curso de J. C. da UNICAMP, em 07 de junho de 2010: “os jornalistas de ciência (do Brasil) tem feito esforços consideráveis para melhorar conhecimentos e atuação, incluindo atualização com as novas ferramentas de divulgação 9
  • 10. oriundas da Internet, mas mostra-se necessária a formação contínua em jornalismo científico”. Essa informação de alguma forma, senão da mesma, remete à educação a referida adequação da divulgação, mesmo que não atribuindo somente ao divulgador e sim também aos cientistas a responsabilidade pela divulgação científica de boa qualidade. A educação no sentido amplo, portanto, é a única força capaz de vencer o jogo de fatores relacionados à motivação para a produção e a divulgação científica, no sentido de ser capaz de formar adequadamente profissionais, cientistas e/ou divulgadores científicos. Nesse sentido, mostra-se relevante questionar a responsabilidade de todo cientista, como afirmou a pesquisadora Cecília Nunes, do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia, durante o II Congresso Fluminense de Iniciação Científica e Tecnológica da Universidade Estadual do Norte Fluminense, encerrado em 10 de junho de 2010: “É preciso que todos aqueles que fazem ciência - inclusive os estudantes de iniciação científica - tenham uma visão crítica da sociedade”. Essas considerações, também contempladas no trabalho da disciplina Seminários de Ciência e Cultura (ES 655) do curso de Jornalismo Científico (J. C.), justificam o trabalho que segue. 10
  • 11. 2. Objetivo O objetivo geral é mostrar os resultados da análise da compilação de artigos referentes à conduta ética na produção e divulgação científica, para revelar argumentos que sirvam de suporte para a implementação de um conjunto de recomendações para a prática científica nas universidades e institutos de pesquisa do Brasil. Os objetivos específicos são estabelecidos de acordo com as descrições do material e do método usados que seguem. 3. Material e método Este trabalho usa como material a compilação de artigos e informes relacionados ao tema focado, não pela pesquisa bibliográfica -usual em trabalhos acadêmicos-, mas porque foram os artigos com os quais casualmente nos deparamos a partir de meados de 2003 (ocasião de interesse particular). Tal compilação seguiu da mesma forma até o início de 2009, ora porque dispostos na mídia especializada, como o Jornal da UNICAMP, a Revista FAPESP e o Jornal Folha de S. Paulo, e ora porque enviados por colegas que sabem do nosso interesse no tema. Além disso, usa o que foi compilado de forma particular após 2009 a partir: i) das discussões do tema por nós persistentemente inseridas nas diversas disciplinas do curso de J. C. da UNICAMP; ii) dos trabalhos apresentados nessas disciplinas (individuais ou dos grupos dos quais fizemos parte); iii) de artigos internacionais dispostos em blogs; iv) das palestras por nós ministradas em eventos científicos promovidos pelo Laboratório Nacional de Computação Científica (LNCC/MCT) nos anos de 2009 e 2010; v) do retorno (ou não) de nossa sugestão da mesma discussão junto a Sociedade Brasileira de Matemática Aplicada e Computacional – SBMAC e a Faculdade de Engenharia Agrícola - FEAGRI/UNICAMP. Observamos que, apesar da total pertinência ao tema, não fazemos uso do que buscamos de forma orientada e em livros, como: i) Sokal e Bricmont (2001) - físicos que abriram o debate sobre os parâmetros de rigor intelectual e honestidade, e ii) Pracontal (2004) - matemático e especialista em divulgação científica que discorre sobre os vários tipos de imposturas científicas, apontando meios para identificá-las. 11
  • 12. O método de análise é a identificação de artigos referentes ao tema que ressaltam os conceitos de ética, ciência e divulgação científica como especificados no que segue. Ética Fonte: www.nature.com/nature/journal/v451/n7177/full/451397a O conceito de ética focado neste trabalho refere-se não àquele associado às pesquisas que envolvem seres humanos no sentido de os mesmos serem parte da experimentação, posto que para essas há regulamentação estabelecida e disponibilizada (e.g. Diniz et al, 2008), e sim ao associado às pesquisas que envolvem seres humanos no sentido de os mesmos serem consumidores do que se produz e/ou se divulga como científico nas diversas áreas de conhecimento. Para discussões aprofundadas sobre o conceito de ética e sua evolução temporal remetemos à leitura especializada (e.g. Srour, 1998; Bursztyn, 2001). E, para os propósitos desse trabalho, no que tange a ética na produção e divulgação científica, consideramos especialmente as imposturas científicas referentes ao plágio e autoria em publicações de revistas especializadas, sob o ponto de vista do que consta em Monteiro et al (2004)- divulgado na Revista FAPESP de abril de 2005. A despeito de terem sido elaborados para a área médica de acordo com o International Committee of Medical Journals Editors (ICMJE), os critérios de autoria defendidos por Monteiro et al (2004) servem para quaisquer outras áreas de conhecimento e, portanto, seguem copiados. 12
  • 13. O ICMJE recomenda que o crédito deva ser dado com base no preenchimento de três condições: 1. Contribuição substancial na concepção e planejamento, ou aquisição de dados, ou análise e interpretação de dados; 2. Redação e elaboração do artigo ou revisão intelectual crítica deste; 3. Aprovação da versão final a ser publicada. O ICMJE recomenda, ainda, que em estudos multicêntricos com grande número de participantes, o grupo deverá identificar os indivíduos que aceitam a responsabilidade direta pelo manuscrito. Além disso, o documento revisado pelo ICMJE ratifica que: • Obtenção de financiamento, coleta de dados ou supervisão geral de um grupo de pesquisa não são, por si só, critérios para autoria ou co-autoria. • Todas as pessoas designadas como autoras ou co-autoras deverão qualificar-se, e todas qualificadas deverão ser listadas. • Cada autor ou co-autor deverá ter participado suficientemente do trabalho para ter responsabilidade pública sobre segmentos apropriados do conteúdo. • A ordem dos autores e co-autores será decidida pelo grupo que deverá estar apto a explicá-la. Quanto à seção Agradecimentos, o ICMJE sugere: • Outras pessoas que tenham dado contribuições substanciais e diretas para o trabalho, mas que não possam ser consideradas autores, podem ser citadas na seção Agradecimentos; se possível, suas contribuições específicas devem ser descritas. Apoio financeiro também deverá ser mencionado nesta seção. 13
  • 14. • Pessoas que colaboraram com o estudo, mas cuja contribuição não justifica autoria ou co-autoria, podem ser listadas nos Agradecimentos como “investigadores clínicos” ou “investigadores participantes”, seguidas da sua função ou contribuição, por exemplo, “coleta de dados”, “encaminhamento e cuidados aos pacientes do estudo”, etc. • Considerando-se que os leitores podem inferir que as pessoas listadas em agradecimentos endossam os resultados e conclusões, todas devem dar permissão por escrito para serem agradecidas. Ciência, Produção e Divulgação Científica Por um lado, sobre a questão o que é ciência, Morin (2008) afirma que a mesma não tem resposta científica; “Científico aquilo que é reconhecido como tal pela maioria dos cientistas”. Desta forma, para efeitos do que nos propomos, tomamos o termo ciência como explicado por Nobel (2009): “Ciência é o termo usado para designar o conjunto de fatos e teorias que explicam esses fatos; tudo que é produzido por instituições que desenvolvam atividades científicas; e maneira particular de trabalhar reconhecida como método científico”. 14
  • 15. Notamos que não é objetivo deste trabalho apresentar a evolução das discussões do conceito de ciência ao longo do tempo e segundo os estudiosos que se ocuparam disso, para o que remetemos, por exemplo, a Kuhn (1962) em particular, e à bibliografia da disciplina Estudos Sociais da Ciência e Tecnologia (ES 695) do curso de J. C. da UNICAMP. Por outro lado, sobre a questão sobre o que é divulgação científica, nos apoiamos nas orientações de José Reis - pesquisador de renome internacional e pioneiro nacional em aliar a sua carreira científica ao trabalho de explicar ciência de forma didática através da imprensa, o que se estabeleceu pelo que atualmente se entende por jornalismo científico e divulgação cientifica. Fonte: Olson, J. 2008 Para identificar os distintos meios de fazer circular informações científicas reconhecendo aqueles que o fazem no sentido de Reis, podem ser consideraras as especificações que constam em Bueno (1984): Difusão - todo e qualquer processo ou recurso utilizado para veicular informações científicas e tecnológicas em periódicos especializados, banco de dados, sistemas de informação acoplados aos institutos, páginas de C&T de jornais e revistas e programas de rádio e televisão dedicados à ciência. Disseminação - transmissão de pesquisa ou estudo do cientista para seus pares, por meio de revistas especializadas. Destina-se a especialistas da mesma área (intra-pares) ou de áreas distintas (extra-pares). Não pretende atingir o público leigo. Divulgação - pressupõe a transposição da linguagem especializada para a não-especializada, com intenção de tornar o conteúdo acessível ao público em geral. 15
  • 16. Jornalismo Científico: divulgação de ciência e tecnologia pelos meios de comunicação segundo o modo de produção jornalística. Seu objetivo é promover a democratização do conhecimento para que os cidadãos entendam melhor o mundo. No que segue, entretanto, consideramos a expressão divulgação científica sem distinção aos limitantes dessas especificações, devido a difusão e a disseminação serem, no presente contexto, as fontes geradoras para a divulgação científica e o jornalismo científico, como explicado nas disciplinas Oficina de J. C. I (ES 616) e Oficina de J. C. II (ES 696) do curso de J. C.. Sendo assim, atenção especial será dada à divulgação científica realizada pelos que produzem ciência. Educação Tendo em vista as considerações da introdução desse trabalho, que remetem à educação os questionamentos apontados no tema, consideramos a figura que segue (Aquarela de Debret), para exemplificar que a diversidade de interpretações diante de um objeto, um texto, uma ação, um tema, uma reação, um resultado, um fenômeno ou uma imagem, é dependente do conhecimento que o indivíduo domina ao se deparar com o mesmo. Esta figura vem sendo usada nas aulas de Cálculo Numérico (FA 374) sob nossa responsabilidade na Faculdade de Engenharia Agrícola FEAGRI/UNICAMP, a qual, por nossa sugestão, serviu para discussões na disciplina Linguagem (ES 476) desse curso de J. C., ocasião que gerou frutos mais bem fundamentados pela teoria de Análise do Discurso, como brilhantemente desenvolvido pela professora responsável. No caso do uso dessa figura em FA 374, a finalidade é mostrar argumentos para o aprendizado das novas técnicas matemáticas ensinadas na mesma, cujos alunos, oriundos do ciclo básico, persistentemente se mostram desacreditados da aplicabilidade de mais uma disciplina de matemática em suas vidas profissionais futuras, sem ter noção do que nela vão aprender. E a estratégia usada passa, da sugestão de alguns minutos para a contemplação e busca de erros da aquarela para, em seguida, revelar o mistério tentando convencê-los de nossos argumentos uma vez que o erro foi apontado somente em 1994, e porque um aluno de engenharia mecânica -a origem do erro está no mecanismo retratado. 16
  • 17. O que almejamos com esta metáfora, portanto, é ressaltar a responsabilidade da educação de modo geral, e em particular a caracterizada “como crítica que contemple conceitos e procedimentos éticos tanto para a produção quanto para a divulgação científica”, no sentido de que, se nada for ensinado e, portanto, conhecido sobre esses conceitos e procedimentos, nada poderá ser cobrado, e a tendência será a de perpetuação da crítica, nesse sentido, afirmada. Neste contexto ressaltamos o que consta em Diniz (2008, p. 362): “A incorporação de valores e a aquisição de competência ética são processos que exigem reflexão e devem ser iniciados já nas primeiras etapas da formação profissional. A utilização de metodologias ativas de ensino-aprendizagem pode contribuir para a capacitação dos futuros pesquisadores e prepará-los para enfrentar e minimizar possíveis conflitos de interesse no cotidiano da prática científica”. 17
  • 18. Outras Considerações Para delimitar a compilação de artigos para a análise das questões éticas relacionadas à produção ou divulgação científica, reconhecemos a atuação dos seguintes atores inter relacionados: i) responsáveis de instituições e órgãos de fomento a pesquisa; ii) cientistas; iii) divulgadores científicos; e iv) cidadãos e o meio ambiente dentre os quais selecionamos: ii) e iii), posto que i) e iv), ainda que mostrem relações com os itens selecionados, são amplamente discutidos nas disciplinas Ciência, Tecnologia e Sociedade (ES 644), Políticas Públicas e Sociedade (ES 617), e Instituições e Políticas de C&T (ES 656) do curso de J. C., os quais contemplam vasta bibliografia. Desta forma, os cientistas e os divulgadores científicos, em particular os próprios cientistas - como já especificamos, cujas atuações também já foram discutidas, ainda que com outro enfoque, nas disciplinas Fontes de Informação em Ciência e Tecnologia (ES 646) e Oficina de J. C. II (ES 696), respectivamente, são os atores passíveis da análise em questão. Ainda, no que se refere a percepção pública dos cientistas, tomamos como referencial o que consta em Vogt e Polino (2003), onde, dentre outras conclusões se encontra a obtida a partir do Gráfico 1, que segue comentada pelos autores: “À margens das interpretações que se poderiam fazer sobre a diferença entre os dois grupos de países, o conjunto de dados evidencia um tipo de público que parece sentir que a motivação dos cientistas e as funções positivas da ciência não são suficientes para a tomada de decisões políticas. Isto reflete uma posição de alta racionalidade na dinâmica da política científica, no sentido de que a qualidade de especialista não leva, necessariamente, à racionalidade das decisões políticas”. 18
  • 19. Gráfico 1. Além disso, apontamos como complementar a observação, divulgada pelo comentarista Arnaldo Jabor na Rede Globo de Televisão, na ocasião do terremoto do Haiti ocorrido em janeiro de 2010, que, após citar pesquisas de ponta que vem sendo realizas e divulgadas (Jabor, 2010), ressaltou: “...e a miséria brutal sendo ignorada pela ciência e tecnologia”. As conclusões de Vogt e Polino e a observação complementar de Jabor caracterizam fatores da atuação dos cientistas que requerem atenção, principalmente se alinhadas com a afirmação de Oliveira (2002), especialista em divulgação científica: “O direito à informação por si só justificaria a essência de divulgar C&T para o grande público como forma de socialização do conhecimento. (...) Além disso, a maior parte dos investimentos em C&T é oriunda dos cofres públicos, ou seja, da própria sociedade para quem deve retornar os benefícios resultantes de tais investimentos”. Do que foi estabelecido até então, fica evidente o fio condutor seguido para atingir os objetivos propostos nesse trabalho. Sendo assim, no que segue são apresentados os apontamentos, se não da maioria mantida em arquivo, dos principais artigos compilados, que seguem ora na íntegra e ora em partes de acordo com o que queremos ressaltar e apontar do conteúdo dos mesmos. 19
  • 20. 4. Resultados e discussões Uma das raras vezes que o Jornal da Unicamp (JU) publicou sobre o tema, ocorreu em sua edição de agosto de 2003, onde se encontra o artigo “Códigos de Conduta em Física”, em que o professor Marcelo Knobel, do Instituto de Física da UNICAMP, comentou sobre o então atual (2002) código da Sociedade Brasileira de Física, de qual conclusão emprestamos a afirmação sobre a responsabilidade de todo cientista: “... Além disso, o novo código inclui uma clara sugestão de que ética deve ser parte integrante da educação do Físico, indicando que é parte integrante da responsabilidade de todo cientista que seus estudantes recebam treinamento específico em ética profissional. ... Está lançada a discussão...” Desde então não encontramos mais nenhum artigo sobre o tema no JU, mas, posteriormente, tomamos conhecimento de uma reportagem divulgada em uma edição de novembro de 1993 do jornal Folha de S. Paulo, sobre a ocorrência de um caso de plágio na Faculdade de Engenharia de Alimentos - FEA/UNICAMP (p.21). Observamos que esse jornal (Folha de S. Paulo), publica com alguma frequencia artigos referentes à atuação dos cientistas e dos divulgadores científicos, apresentando não somente os resultados de pesquisas de ponta como também críticas sobre a importância dessas pesquisas, denúncias de imposturas científicas como o plágio, interpretações de resultados de forma adequada ao público em geral, sendo grande parte de autoria dos jornalistas científicos Marcelo Gleiser e Marcelo Leite, sendo deste último o livro “Ciência: use com cuidado” Leite (2008). Dentre esses e os que seguiram após 2008, selecionamos o que antecedeu o início do primeiro semestre do curso de J. C., em 16 de abril de 2009, e sobre o qual, no fim do mesmo semestre, apresentamos o trabalho de ES 695. O artigo e o trabalho são apresentados na integra (p.22-23 e p.23-26). 20
  • 21. 21
  • 22. Folha de S.Paulo, domingo, 15 de março de 2009 +Marcelo Leite Fraudes e fraudes Há incentivos demais para obter resultados e publicar rápido Por que os cientistas cometem falsificações? Será que o número de fraudes em pesquisa está aumentando? São perguntas difíceis de responder. Fabricar ou adulterar dados é a mais completa negação da ética científica (e jornalística, aliás). Veracidade, mais até do que fidedignidade e precisão, constitui a pedra angular da ciência. No dia em que não for mais possível confiar nas informações de artigos de pesquisa enviados para publicação num periódico científico, o alicerce da ciência estará arruinado. Há muita gente convencida de que a quantidade de contrafações está, sim, em expansão. Gente como Horace Freeland Judson, que aprendi a admirar depois de ler seu monumental "The Eighth Day of Creation" (O Oitavo Dia da Criação, monumental história da biologia molecular, de 1978, até hoje sem edição em português). Em outro livro, "The Great Betrayal" (A Grande Traição), de 2004, Judson traça um panorama sombrio da pesquisa contemporânea. Há incentivos demais para obter resultados e publicar, rápido. Jovens pesquisadores competitivos e supervisores lenientes, na sua avaliação, compõem a mistura corrosiva que solapa as fundações do edifício científico. Essa parece ser a raiz mais comum da falsificação, fonte das dezenas de casos noticiados a cada ano. Poucos se tornam notícia de primeira página, como os falsos clones humanos do sul-coreano Woo-Suk Hwang. Não merecem manchetes doutorandos ou pós-doutorandos ávidos por resultados que os mantenham no páreo por bolsas e posições no laboratório. Vários são estudantes estrangeiros, como Nima Afshar, da Universidade da Califórnia em São Francisco, que adulterou imagens de chips de DNA para fazer aparecerem os efeitos esperados com culturas de leveduras. Ou 22
  • 23. como Peili Gu, do Baylor College of Medicine, do Texas, outro caso de PhotoShop. Ou como Mai Nguyen, que falsificou dados de estudo sobre câncer -todos casos pescados na newsletter "The Scientist". Há ocorrências muito mais graves, porém, por afetar milhares de pessoas. Um caso recente é o de Scott Reuben, respeitado anestesiologista de Massachusetts, nos Estados Unidos, acusado de falsificações em 21 artigos, segundo noticiou "The Scientist" na quarta-feira. Esses trabalhos ajudaram a estabelecer o estado-da-arte em analgesia multimodal, uso combinado de medicamentos para tratar dor pós-operatória. Parece inacreditável que alguém fabrique resultados cuja falsidade pode levar as pessoas a sentirem mais dor, mas acontece. Por essas e por outras é que não se deve confiar cegamente nos cientistas (nem nos jornalistas), ainda que a maioria seja veraz. Nada se compara em matéria de dano social, contudo, a Andrew Wakefield. Ele é o autor de um artigo de 1998 no respeitado periódico médico "The Lancet" tido como o iniciador da popular hipótese de que o autismo é causado pela vacina MMR (contra sarampo, caxumba e rubéola). A taxa de vacinação britânica caiu de 92% para menos de 80%, desde então. Os casos de sarampo passaram de 56 em 1998 para 1.348 em 2008, com duas mortes. O jornal "The Sunday Times" noticiou em 8 de fevereiro que Wakefield teria alterado dados sobre pelo menos 11 das 12 crianças descritas no estudo. Tudo, claro, para reforçar o suposto vínculo entre o autismo e a vacina -coisa de que muitos pais brasileiros desinformados e irresponsáveis se acham convencidos, a despeito do que lhes dizem os médicos. ES 695- J. C. LABJOR/UNICAMP Junho de 2009 Aluna: Mariangela Amendola O que motiva a produção científica? Antes de tentar argumentar para a elaboração de qualquer resposta sobre a questão proposta como título deste ensaio, apontamos que a mesma faz parte de um conjunto de questões relacionadas, dentre as quais: O que é 23
  • 24. ciência? Porque, dentre as idéias ou ações geradas pelos diversos grupos sociais, só algumas, “merecem” esta classificação? Onde estão e como se relacionam os atores sociais que produzem e/ou divulgam ciência? Por quem esses atores são reconhecidos como tais e como se relacionam entre si e com os demais atores sociais? No que estas produções ou divulgações influenciam as decisões de políticas públicas? Quem produz e/ou divulga ciência, o faz com qual finalidade, interesse e autonomia? Quem está preocupado com estas questões e as correspondentes respostas? E porque? Ainda que formular e buscar respostas a este conjunto de questões pareça não pertencer ao cotidiano intelectual da maioria dos indivíduos da sociedade que não são de grupos específicos de estudiosos sociais, o mesmo não acontece no cotidiano existencial dos primeiros. Esta afirmação se justifica porque, ao longo da vida, todos os indivíduos são submetidos a regras que regem os diversos grupos sociais aos quais pertencem, dentre outros a família, a comunidade vizinha, a escola, o local de trabalho, a cidade e o país, que, embora temporal e aparentemente em equilíbrio, por serem passíveis de interações, experimentam uma dinâmica. Assim, enquanto a análise desta dinâmica permanece com destaque na atuação dos referidos grupos de estudiosos, tanto estes, bem como todos os atores dos demais grupos sociais necessitam se ocupar com a geração de meios capazes de garantir sua cidadania e sobrevivência, o que se dá, geralmente, quando da busca pela especialidade profissional. Ressalta-se que há outros grupos específicos: o dos que se ocupam com a descoberta ou a invenção, o desenvolvimento e a implementação ou a inovação de meios para melhorar a qualidade de vida dos indivíduos, como fazem, dentre outros, os especialistas das áreas de saúde e de educação; os dentre esses que o fazem segundo metodologias sujeitas a comprovação teórico-experimental; e outro, que não exclui os primeiros, dos que se ocupam pela divulgação dos meios então desenvolvidos. 24
  • 25. Como fruto da desejável interação entre os atores dos distintos grupos, e também por sorte, interesse, afinidade, aptidão, ou empenho, todos poderiam acumular um nível mínimo do conhecimento gerado das diversas atuações: o nível capaz de revelar a aptidão para questionar as causas que levam ao estabelecimento, ajuste ou transformação das referidas regras, para então, poderem desfrutar, se adequar ou adequar as regras. Nota-se que associado ao conceito de regras se encontra o conjunto de crenças, paradigmas ou enigmas que revelam o conhecimento construído, ainda que temporal, capaz de levar à interpretação individual do que constitui a natureza e os indivíduos. Entretanto, tais regras bem como, e principalmente, os objetivos da ocupação dos grupos ressaltados, nem sempre são genuínos ou conhecidos, o que pode levar não a melhorias e sim a desastres na qualidade de vida dos indivíduos, em especial aos menos favorecidos de educação. É neste sentido que se pode reconhecer a pertinência da questão proposta como título deste ensaio, para a qual voltamos à luz do que constou no artigo publicado na FSP de 15/3/2009 de Marcelo Leite [1], cujo título é “Fraudes e fraudes”, e onde o autor discorre sobre fraudes científicas, sugere que “não se deve confiar cegamente em cientistas (nem em jornalistas)”, e por fim detalha os impactos danosos gerados em 1998 pela divulgação de um artigo iniciador da hipótese de que o autismo é causado pela vacina contra sarampo, caxumba e rubéola, como uma forma de ressaltar o que explica a atual necessidade de publicação por certos grupos de cientistas. Observamos que, embora não haja estimativas sobre quantos são os indivíduos que são atraídos para este tipo de divulgação, é razoável sugerir que, dentre os que têm condições intelectuais e/ou oportunidade para a leitura, a maioria - agentes passivos do que é produzido e divulgado como científico-, se “assustaria” ao ler tal artigo, cujo 25
  • 26. autor, felizmente (?) também é cientista e divulgador científico. Tal sugestão segue com a inclusão da palavra felizmente porque, independentemente de experiências individuais ou sociais, os leitores: cientistas, jornalistas ou leigos, além de assustados, permaneceriam desconfortáveis na qualidade de cidadão não fosse o empenho do referido autor tanto em apontar o que motiva certos cientistas a produzirem e/ou a publicarem fraudes, quanto em apresentar dados comprovados sobre as conseqüências sociais desastrosas deste tipo de produção / publicação. Mas este empenho, que por um lado convence o leitor de que não há o que justifique as fraudes, por outro, não fornece elementos para que os mesmos sejam capazes de elaborar uma conclusão sobre a isenção daqueles, pois o autor não apresenta qualquer informação complementar sobre punições aos autores e/ou divulgadores de fraudes; daí a inclusão da interrogação após a palavra felizmente: uma estratégia de enfraquecê-la, mas não para desmerecer a atuação do autor do artigo - exemplar na tentativa de promover aquelas interações desejáveis-, mas sim para clamar por mais e mais efetivas interações, também junto aos responsáveis pelos grupos sociais a que pertencem os cientistas. Os argumentos que levaram à inclusão da interrogação foram tomados por mim, eu: cidadã, cientista e aprendiz de divulgadora científica, como mais um incentivo para a continuidade da busca de um referencial teórico capaz de garantir a futura prática da divulgação científica que contemple a minimização de qualquer desconforto para todo tipo de cidadão. Neste sentido, pode ser encontrar na disciplina “Estudos Sociais da Ciência e da Tecnologia” do curso de Jornalismo Científico do LABJOR/UNICAMP, dentre outras fontes de informação de estudiosos especializados, uma bibliografia fundamental. 26
  • 27. A escolha pela apresentação integral desse artigo, que evidencia nosso interesse particular pelo tema e daí a escolha para o referido trabalho de nossa autoria, se deve ao fato do mesmo tornar público questionamentos comparáveis às originadas de nossas inquietações frente a ocorrência de diversos casos de imposturas intelectuais que, lamentavelmente, só tomamos conhecimento e/ou divulgamos de maneira informal, as quais, em geral não levaram à quaisquer punições dos envolvidos. De outra forma, a Revista FAPESP, que somente recente, tímida e ocasionalmente divulga informações relacionadas a desvios de conduta que levaram à punição dos envolvidos, mas não foi encontrado nenhum envolvendo cientistas ou divulgadores brasileiros. Os demais artigos relacionados ao tema que foram divulgados tanto pelo jornal Folha de S. Paulo de modo geral, quanto pela Revista FAPESP, seguem intercalados e em uma certa ordem que não é cronológica. Observamos que não acompanhamos os casos relatados. O que segue foi selecionado porque foi publicado coincidentemente na época em que preparávamos a primeira palestra sobre o tema de questões éticas para ser apresentada à comunidade do LNCC/MCT. Folha de S. Paulo - 17/11/2009 Trabalho de reitora da USP é acusado de outro plágio Trabalho assinado pela reitora Suely Vilela e outros pesquisadores da USP que já estava sob suspeita por plágio é acusado agora de copiar mais dados. ... Assim como na primeira denúncia, a suspeita é que eles tenham utilizado no artigo sob suspeita mais trechos de estudos de um grupo da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) sem informar o crédito. ... Esta ocorrência lembrou-nos de outros dois artigos de nossos arquivos, sobre a acusação de plágio na USP e a sobre a cópia de trechos sem a devida referência bibliográfica: 27
  • 28. Folha de S. Paulo 29/06/2007 Físicos da USP acusam chefe do Instituto de Física de plágio Uma acusação de plágio que envolve artigos científicos assinados pelo diretor do IF (Instituto de Física), da Universidade de São Paulo, Alejandro Szanto de Toledo, abriu ontem uma crise entre os professores da entidade. A denúncia, que circula internamente entre um grupo de físicos desde abril, aponta entre os artigos plagiados dois trabalhos do professor Mahir Hussein, da própria usp, recém-aposentado. Folha de S. Paulo - 09/2008 Marcelo Leite - Vergonha na USP Todo contribuinte que sustenta a USP deve preocupar-se com o modo como o caso de plágio foi tratado pela reitoria A Universidade de São Paulo, maior e melhor instituição pública de pesquisa e ensino superior do Brasil, faz 75 anos em 2009. Quando ela ainda tinha 45 anos, formei-me em jornalismo na sua Escola de Comunicações e Artes, mas prossegui como aluno de filosofia (estudo que, infelizmente, nunca concluí). ... Hoje me pergunto se ainda devo ter orgulho de ser ex-aluno da USP. No centro da preocupação com minha "alma mater" (mãe nutridora), como dizem os norte-americanos e os britânicos, está o caso de plágio em seu Instituto de Física. Não pelo caso em si, que é menor, mesquinho mesmo. Briga de comadres por migalhas de micropoder institucional. Nem vem ao caso quem acusa quem, só que professores titulares admitem copiar trechos de artigos científicos de outros sem a devida referência bibliográfica. Ainda do ano de 2009, encontramos ainda outros três exemplos de impostura científica, sendo duas ocorrências brasileiras, uma com possibilidade de retratação e outra sem qualquer conseqüência, e uma a coreana com indicativo de punição: 28
  • 29. Folha de S. Paulo - 07/05/2009 Periódico científico publica dois estudos plagiados na íntegra Um caso de plágio envolvendo dois estudos publicados no periódico científico "Revista Analytica" surpreendeu os autores dos artigos originais. Publicados em 2007, os dois trabalhos eram cópias de artigos anteriores da primeira à última palavra, com alterações apenas nos títulos. A revista "Química Nova", da SBQ (Sociedade Brasileira de Química), que havia publicado os estudos originais, negocia agora uma forma de retratação (anulação) dos plágios. Um dos artigos, um estudo que descrevia um novo método para controle de qualidade de cachaça, foi copiado do grupo do químico Ivo Küchler, professor da UFF (Universidade Federal Fluminense). Folha de S. Paulo - 10/07/2009 Unicamp diz que Dilma cursou mestrado, mas não o terminou A Unicamp informou por meio de nota que a ministra Dilma Rousseff (Casa Civil) foi aluna dos programas de mestrado e doutorado da universidade mas não concluiu a elaboração e a defesa de teses nos cursos -necessários para a obtenção dos títulos de mestre e doutor. A Unicamp havia informado que Dilma não havia sido nem mesmo aluna do mestrado, mas retificou o dado. ... O currículo da ministra na Plataforma Lattes - base de dados acadêmicos do CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico)- indicava que ela havia preparado e defendido a tese de mestrado. Após a revista "Piauí" deste mês ter indicado o erro, Dilma admitiu o equívoco e disse que não preparou a tese em virtude do trabalho em cargos públicos. Folha de S. Paulo - 25/08/2009 Promotoria pede cadeia para coreano que fraudou pesquisa Promotores da Coreia do Sul pediram ontem uma pena de quatro anos de prisão para o cientista que caiu em desgraça após um escândalo envolvendo clonagem em 2005. Hwang Woo- suk, que publicou artigos fraudados na revista "Science" sobre 29
  • 30. clonagem humana, é acusado de desvio de verba pública, prevaricação e compra ilegal de óvulos para sua pesquisa. Todas as acusações relacionadas às denúncias de fraude. Um promotor disse que Hwang manchou a imagem da Coreia do Sul no exterior e que merecia punição exemplar. Hwang pediu clemência. O caso será julgado no dia 19 de outubro. Seguem mais outros exemplos de outro tipo de impostura, ocorridas em anos distintos, sendo uma envolvendo estudantes de pós-graduação brasileiros cujas conseqüências não encontramos, outra envolvendo um cientista japonês que acabou sendo preso, e ainda outra mais antiga, relacionando vários casos de punições a cientistas japoneses. Folha de S. Paulo–19/08/2007 União cobra R$ 54 milhões de ex-bolsistas Doutorandos receberam ajuda para estudar no exterior e não teriam cumprido as exigências ou abandonado estudos Supostas irregularidades vão de falsificação de diplomas a descumprimento de acordo para permanecer no Brasil com o fim da pós-graduação. Desde 2002, o governo federal pediu a devolução de cerca de R$ 54 milhões que ex-bolsistas de doutorado favorecidos por ajuda oficial teriam recebido de forma irregular. O levantamento da CGU (Controladoria Geral da União) envolve a Capes (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior) e o CNPq (Conselho Nacional de desenvolvimento Científico e Tecnológico) -principais fomentadores do benefício. Os motivos dos processos variam de irregularidades como o abandono dos estudos até a falsificação de documentos Pesquisa FAPESP – 10/1009 Desvio e embaraço Um cientista japonês conhecido por seu trabalho com supramoléculas foi preso sob a acusação de desviar fundos de pesquisa. Tatsuo Wada, retido no dia 8 de setembro, trabalha no Instituto de Ciência Avançada em Wako, que integra uma rede 30
  • 31. de laboratórios de pesquisa conhecida como Riken. O caso causa embaraços para a Riken, que recebe um generoso orçamento anual de US$ 1 bilhão e, em 92 anos de existência, jamais enfrentou um escândalo dessa dimensão. “Vamos lançar mão de medidas de precaução e redobrar nossa vigilância para que o instituto possa atender às expectativas da população”, desculpou-se o presidente da Riken, Ryoji Noyori, segundo a revista Nature. Tatsuo Wada é conhecido por criar sistemas orgânicos supramoleculares – conjunto de moléculas orgânicas cuja forma, tamanho e orientação podem ser manipulados para transmitir informações. A polícia de Tóquio o acusa de transferir 11 milhões de ienes por meio de ordens de pagamento fictícias. O dinheiro foi parar em contas da Akiba Sangyo, empresa que distribui material científico. O presidente da empresa, Etsuo Kato, também foi preso. Pesquisa FAPESP – 02/2007 Punições exemplares Uma seqüência de punições a pesquisadores do Japão sugere que o governo e a comunidade científica do país deflagraram uma cruzada contra más condutas acadêmicas. Em dezembro passado, duas importantes universidades demitiram cientistas que publicaram artigos questionados e uma professora demitiu- se de uma terceira instituição, acusada de desvio de recursos. A Universidade de Osaka anunciou a demissão de um de seus membros por haver fabricado dados de uma pesquisa. Segundo jornais japoneses, trata-se do químico Akio Sugino, co-autor de um estudo publicado em julho no Journal of Biological Chemistry. Segundo a revista Science, um comitê interno concluiu que Sugino agiu sozinho. Mas, em meio ao escândalo, um outro co-autor do artigo cometeu suicídio. Uma investigação promovida pela Universidade Waseda, em Tóquio, concluiu que uma professora desviou para sua conta particular recursos públicos destinados a bolsistas. Kazuko Matsumoto, a acusada, nega a malversação, mas renunciou ao cargo. Por fim, 31
  • 32. a Universidade de Tóquio demitiu Kazunari Taira e Hiroaki Kawasaki por práticas de pesquisa não confiáveis envolvendo artigos publicados nas revistas Nature, Nature Biotechnology e Proceedings of the National Academy of Sciences. Foi a primeira vez que as universidades de Tóquio e de Osaka tomaram medidas tão drásticas. Antigamente, os escândalos eram abafados ou resultavam em punições discretas. Mas, com o crescimento da competição por recursos, passou-se a exigir mais transparência. Em 2006 as três universidades criaram códigos de conduta e comitês para investigar fraudes. Seguem outros artigos sobre ocorrencias americanas, um que relata imposturas envolvendo a adulteração de imagens e conclui com uma recomendação exemplar, e outro que comenta sobre um programa para detectar plágio e apresenta uma estatística alarmadora: Pesquisa FAPESP – 11/2009 A cultura do Photoshop A manipulação de imagens que ilustram artigos científicos tira o sono dos editores de publicações acadêmicas. Num encontro sobre plágio realizado em Londres, Virginia Barbour, editora chefe da PLoS Medicine, revista publicada pela Public Library of Science (PLoS), apresentou dados de um estudo que vem avaliando imagens de artigos aceitos para publicação. Ao longo de um ano, a revista encontrou adulterações em três artigos, num universo de 13 papers averiguados. Num dos casos, pesquisadores duplicaram a foto de um teste western blot. Em outro, fundiram imagens sem informar que buscavam realçar um efeito. Barbour disse que os autores deram explicações satisfatórias e que nenhum dos artigos foi rejeitado. Mas reiterou que modificar imagens sem avisar constitui falsificação. “Há uma cultura nas universidades segundo a qual não há nada de errado em alterar fotos e isso precisa ser discutido”, disse à revista Nature. No rol das investigações 32
  • 33. sobre má conduta abertas entre 2007 e 2008 pelo Escritório de Integridade da Pesquisa do U.S. Department of Health and Human Services. Pesquisa FAPESP – 11/2008 Flagrantes de plágio Um grupo de pesquisadores da Universidade do Sudoeste do Texas, em Dallas, criou um programa de computador que identifica plágios em artigos científicos ao fazer o cruzamento de milhares de textos publicados em revistas especializadas. Com base no monitoramento realizado pelo software, a equipe texana, liderada por Harold Garner, criou uma base de dados sugestivamente batizada de Déjà Vu, que reúne 75 mil resumos listados na base Medline em que há evidências de cópia de outros textos. Em entrevista à revista Nature, Garner disse que 181 artigos são rematadas cópias de outros textos – em um quarto deles a similaridade beira os 100%. Tanto as publicações que reproduziram os textos clonados quanto os pesquisadores vitimados pelo plágio são alertados depois que o software faz o seu trabalho. O biogerontologista francês Eric Le Bourg ficou surpreso ao ver um artigo que publicou no jornal Experimental Gerontology ser integralmente reproduzido no Korean Journal of Biological Sciences, mas com a assinatura de Hak-Ryul Kim, da Universidade de Seul. “Era puro copy e paste. Até os gráficos eram copiados”, disse. Pelo menos 22 plagiadores de 12 países são reincidentes, diz Garner, que se queixa da relutância de certas publicações em denunciar o plágio. Segundo ele, seus alertas não surtiram nenhum efeito em 50% dos casos e, mesmo quando há retratação, ela nem sempre é comunicada à PubMed, a consagrada base de dados de resumos Um outro artigo sobre ocorrências na China chama a atenção por publicar um menu de imposturas com punições pre-estabelecidas, e outro mais representativo do universo das imposturas é o que mostra os resultados de uma 33
  • 34. renião de 52 países, cuja afirmação é pioneira em afirmar que a pressão para que os pesquisadores publiquem a qualquer custo foi a causa mais mencionada para o avanço das fraudes: Pesquisa FAPESP – 05/2009 O menu das más condutas Num esforço para combater fraudes e condutas desonestas no meio acadêmico, o Ministério da Educação da China publicou uma espécie de índex de atos e comportamentos inadequados, assim como estipulou punições para quem praticá-los. De acordo com o documento, cometer plágio, falsificar dados e referências, fraudar currículos e usar o nome de outros pesquisadores sem pedir permissão poderá dar punição com demissão, suspensão do financiamento de projetos de pesquisa, cassação de prêmios e processos na Justiça. As medidas são uma resposta a um recente escândalo envolvendo a Universidade Zhejiang, na cidade de Hangzhou, onde dois professores de ciências farmacêuticas, He Haibo e Li Lianda, perderam seus cargos acusados de plágio. Em 2006 o governo chinês já havia criado um esquema para monitorar projetos de pesquisa depois de uma série de acusações envolvendo condutas desonestas. “As medidas buscam criar um mecanismo de prevenção que mantenha o campo acadêmico livre de fraudes”, disse à agência SciDev.Net Xu Mei, a porta-voz do ministério. Para Hou Zinyi, professor de direito da Universidade Nankai, na cidade de Tianjin, as iniciativas do governo são superficiais. Segundo ele, é preciso aliviar a pressão sobre os pesquisadores, principalmente os mais jovens, que se veem obrigados a publicar artigos em grande quantidade e acabam recorrendo a trapaças. Pesquisa FAPESP – 11/2007 Buracos na rede Cerca de 300 pessoas de 52 países, entre cientistas, editores de periódicos acadêmicos, autoridades e gestores de universidades, 34
  • 35. reuniram-se durante três dias em Lisboa no final de setembro para discutir o desafio de combater a desonestidade no ambiente de pesquisa, com destaque para plágios, fraudes e falsificações em artigos científicos. ... É certo que episódios de desonestidade científica estão longe de ser novidade. ... Citou-se, por exemplo, o escasso hábito de promover a retratação de artigos fraudulentos publicados em revistas científicas. A taxa de retratação de artigos na base PubMed, por exemplo, está estacionado em apenas 0,02% desde 1994. “O que ouvimos aqui confirma que as condutas impróprias estão muito mais disseminadas do que se imagina, ainda que nem sempre se configurem crimes”, diz Ian Halliday, presidente da ESF. A pressão para que os pesquisadores publiquem a qualquer custo foi a causa mais mencionada para o avanço das fraudes. Enquanto o número de publicações dos Estados Unidos está estagnado, países como China, Coréia do Sul, Cingapura, Hong Kong e Taiwan vêm ampliando anualmente em 15% sua produção, segundo dados apresentados por Ovid Tzeng, da Universidade National Yang Ming, em Taiwan. “Os sistemas de ranqueamento são muito severos em Taiwan, Hong Kong e outras localidades da Ásia. Os governos destinam fundos de acordo com o ranking e perguntam apenas: quantos artigos você publicou? Quem consegue publicar um paper na Nature recebe US$ 1 mil em dinheiro vivo”, afirmou Tzeng. “Devemos pedir às agências de fomento, governos e instituições que revisem suas regras para reduzir a pressão por aumentar a quantidade de artigos publicados, especialmente para os pesquisadores muito jovens. Isso pode ser feito sem comprometer a qualidade e pode até realçá-la”, disse Peter Tindemans, da Fundação Européia da Ciência. 35
  • 36. As imposturas envolvendo cientistas brasileiros que divulgam seus resultados em revistas internacionais consagradas, também se revelam por outros meios, como a divulgada no artigo que segue, cuja consequencia também desconhecemos: Pesquisa FAPESP – 11/2005 A polêmica do artigo Como às vezes acontece, o feitiço pode ter virado contra o feiticeiro. Se a revista Cell, um dos periódicos internacionais mais respeitados da área de ciências da vida, queria desacreditar o artigo publicado em sua edição de 23 de julho de 2004 pela equipe do médico Antonio Teixeira, da Universidade de Brasília (UnB), a forma de lidar com o caso talvez não tenha sido das mais transparentes, nem eficaz em seus propósitos. Pondo fim a uma negociação de meses com os autores brasileiros do estudo em questão, que havia fornecido as primeiras evidências de que trechos do genoma do parasita Trypanosoma cruzi, causador da doença de Chagas, poderiam se incorporar ao DNA de animais, inclusive do homem, o periódico cancelou a validade do artigo num comunicado de dois parágrafos e cerca de 120 palavras divulgado em 23 de setembro deste ano. Fez isso à revelia dos autores, sem apresentar razões inequívocas para seu comportamento. O procedimento unilateral acabou gerando críticas em relação à política editorial da Cell e jogou ainda mais luz sobre o estudo dos pesquisadores de Brasília. A revista argumentou que, “depois de cuidadosa e extensiva revisão dos dados (de Teixeira) por especialistas independentes da área”, era forçada a retirar o artigo porque havia dúvidas sobre o local do DNA do hospedeiro em que o genoma do parasita teria se alojado. Mas não apresentou nenhuma evidência de fraude, deslize ético ou má conduta da equipe brasileira que redigira o polêmico artigo, situações que normalmente são invocadas quando uma publicação resolve cancelar os escritos de um pesquisador. A comunidade científica, brasileira e internacional, estranhou o procedimento 36
  • 37. da Cell e reclamou publicamente em reportagens e artigos que saíram em meios de comunicação daqui e do exterior. A reação levou a editora da Cell, Emilie Marcus, a voltar ao assunto num texto maior, o editorial da edição de 21 de outubro passado, intitulado “Controvérsia da retratação”. Resultado da polêmica: o artigo cancelado, aquele que não era boa ciência segundo o periódico, chegou a ser o segundo mais lido no site da própria revista e o editorial explicativo estava na 11ª posição na mesma lista no final do mês passado. Baiano de 63 anos, Teixeira desenvolve a linha de pesquisa que redundou no artigo da Cell há mais de uma década e meia. Ele se diz perplexo com o desenrolar dos acontecimentos, inclusive com as reações de solidariedade que recebeu de colegas do Brasil e de fora do país. “Jamais poderia imaginar que a atitude arrogante da revista pudesse sensibilizar tantas pessoas no mundo”, afirma o pesquisador da UnB, que defende a validade de seus dados. “Outros laboratórios estão tentando reproduzir os nossos resultados.” O tempo, como sempre, dirá quem tem razão. Um artigo que merece destaque é o que foi publicado pelo Observatório da Impprensa, em sua edição 558, com observações importantes sobre o plágio, mas refereindo-se somente aos praticados por alunos. Além disso, citando leis que não são divulgadas, e não sabemos se praticadas ou em vigor, ainda que afirmando com propriedade sobre a inexistência de fiscalização. Esse artigo segue copiado na íntegra: Observatório da Imprensa-06/10/2009 (http://www.observatoriodaimprensa.com.br) MÍDIA & EDUCAÇÃO O trabalho acadêmico e o plágio Por Eliezer Belo Algumas coisas chamam a atenção quando fogem da regularidade. Foi o que se pode perceber durante este mês de setembro de 2009. Por duas vezes, em uma mesma emissora e 37
  • 38. um mesmo programa jornalístico, enfatizou-se a questão das compras de monografias. A monografia tem sido o "calcanhar de Aquiles" de muitos estudantes, coisa percebida no ambiente acadêmico nas últimas décadas. Na verdade, ela sempre foi uma profunda dor de cabeça para muitos. Mas o que vem chamando a atenção para tal é o fator de que, atualmente, muitos desses trabalhos estão sendo acusados de plágio. Um fator interessante em todo esse contexto é que pouco se fala nas condições em que os alunos dos cursos de graduação estão envolvidos, no que diz respeito aos aspectos legais, educacionais, à compreensão da natureza do trabalho acadêmico, culturais e tecnológicos. Em relação ao plágio, ele se caracteriza (conforme Lei nº 9.610 de 19/02/1998) consistentemente pelo uso não autorizado ou não referenciado pelo pesquisador. Quando a lei expressa "a proteção recairá sobre a forma literária ou artística, não abrangendo o seu conteúdo científico ou técnico, sem prejuízo dos direitos que protegem os demais campos da propriedade imaterial". Com isso a materialização de uma obra científica é apoderada pelo autor a partir de sua configuração, ou seja, o texto em si. Apropriação desse texto (inciso I, Art. 7, Lei 9.610) configura a apropriação indébita. Porém, o Art. 108, quando trata das punições reza "Quem,[...] deixar de indicar ou de anunciar, como tal, o nome, pseudônimo ou sinal convencional do autor e do intérprete, além de responder por danos morais, está obrigado a divulgar-lhes a identidade [...]". Dentro desse aspecto, o trabalho acadêmico, seguindo os critérios da ABNT - NBR 6023, eximir-se-á do plágio pelo uso orientado dos textos fidedignos de pesquisa. Consciência e importância A produção do trabalho acadêmico tem por objetivo inserir o aluno à pesquisa. Ele advém dos "recortes" (recortes aqui são aqueles que se apresentam nos trabalhos acadêmicos, em formato de citação, e aparecem devidamente referenciados) de pesquisas já efetivadas por pesquisadores já inseridos no processo pesquisa. 38
  • 39. O que dá caráter científico a um trabalho é exatamente sua fundamentação, que faz uso de uma metodologia própria de pesquisa e se apodera de um objeto manipulável e com regularidades. A materialidade da pesquisa consiste na coleta de dados feita pelo pesquisador, seja pela observação laboratorial, com recursos às literaturas ou feita em campo. O laboratório, a literatura e o campo nunca estiveram tão próximos aos pesquisadores como agora. De que forma? Pelos meios digitais, especificamente pela internet. Tempo e espaço estão reduzidos ao "click". O aluno que está sendo inserido no campo da pesquisa deve ter construído em si a importância do trabalho acadêmico, principalmente a monografia. Sem a consciência da utilidade acontece a banalização e a desconsideração. Sendo assim, fica muito fácil, e até uma "tentação" para o aluno, desassistido, buscar outros meios para efetivar "seu" trabalho. A consciência e importância do trabalho acadêmico devem iniciar sua construção desde o primeiro momento que o aluno se insere no ambiente acadêmico e acompanhado até a sua saída. Pertinência e metodologia A monografia deve ser encarada como a primeira especialização do aluno, sabendo que é, a partir do tema proposto, ela que o orientará no que diz respeito às suas futuras investidas acadêmicas. Caso o aluno ignore essa condição, dificilmente terá sucesso após sua formação. Sem querer poetizar, o trabalho acadêmico deve produzir no aluno o sentimento de quem pintou um belo quadro, obra única (fazendo uso de tintas produzidas por outros, mas misturadas por criatividade única), ou escreveu uma poesia, sentimento único (fazendo usa de palavras utilizadas por outros, mas com articulações únicas), essa é a autenticidade do trabalho acadêmico. Para muitos o término da monografia e sua apresentação à banca examinadora já foi considerado um rito de passagem, mais significativa do que a colação de grau ou a recebimento do diploma. Não se pode ignorar que as Instituições de Ensino Superior (algumas delas) deixam de assumir compromisso com o aluno, 39
  • 40. ou seja, não cumprem o papel educacional. Isso está claro, é só vermos as condições em que alguns alunos saem "formados" de certas faculdades e universidades. É de toda compreensão que as responsabilidades são recíprocas. Mas a questão maior é que, mesmo o colegiado e o setor pedagógico vendo a situação de descaso em que certos alunos encaram a graduação, ignoram. Parece que o que mais importa para essas Instituições de ensino são as "mensalidades quitadas". Mensalidade quitada está virando sinônimo de "formação continuada". Se há um acompanhamento do aluno da definição do tema para o projeto, questionamentos sobre a pertinência do tema, a proposição metodológica e o desenvolvimento seqüencial e assistido por um orientador, dificilmente ele se ocupará com a desonestidade de se apropriar indebitamente da produção intelectual de outro. Regras e fiscalização Ignorar a figura do orientador, para conter gastos também é imoral, assim como ir à internet e copiar alguma coisa para enxertar um trabalho (apesar da lei do mercado sustentar que a contenção de gastos é justa). A regra do mercado educacional é "quanto mais tempo o aluno gasta em sala de aula, ou sendo assistido, maior será o gasto, que é igual a prejuízo". Mas as regras da educação e da pedagogia são "orientar e facilitar até que se consolide o processo ensino-aprendizagem". Retirar dos cursos de graduação o TCC ou os artigos periódicos, como meios de avaliação, também não será uma postura responsável, eles ainda são um meio possível, dentro de nosso contexto, de produzir um profissional ou pesquisador envolvido com as questões de imanência de sua formação. Seria justo que o MEC fiscalizasse mais, tanto as IES, no que diz respeito à qualidade de serviços educacionais, não usando apenas como critério a instalação física e a titulação do corpo docente, mas tudo o que envolve o compromisso educacional; como também às produções acadêmicas de conclusão de curso. Pelo MEC seria o caminho que, imparcialmente, alcançaria tanto que o que explora a necessidade comercial do ensino 40
  • 41. como o que se serve dela. Existem regras? Sim. Uma porção delas, expressas nas portarias no MEC. Existe fiscalização? Não. O mercado educacional, no que diz respeito à seriedade que se deve dar à formação das pessoas e à fiscalização, é "terra de ninguém". Um outro tipo de informação que merce ser comentado é que, a despeito da ter sido divulgado em diversos meios, com no Jornal Nacional da Rede Globo, mereceu somente um pequeno comentário no que constou na Revista FAPESP. A importância dessa informação, segundo nossa interpretação, é o fato de a mesma revelar o descrédito do pesquisador para com seus pares, a partir do que podemos sugerir a ocorrência de imposturas intelectuais em seu meio acadêmico; de outra forma, a que se deveria atribuir tal descrédito? Segue o que foi publicado. Pesquisa FAPESP – 04/2010 O gênio rejeita US$ 1 milhão O matemático russo Grigory Perelman, 43 anos, recusou mais um prêmio em reconhecimento à proeza de resolver a conjectura de Poincaré, considerada uma questão central da topologia, área da matemática que estuda as propriedades geométricas que não mudam quando objetos são distorcidos, esticados ou encolhidos. Segundo o jornal Pravda, Perelman rejeitou o prêmio de US$ 1 milhão oferecido pelo Instituto Clay de Matemática (CMI, na sigla em inglês), de Massachusetts. Ele publicou a solução da conjectura em artigos na internet em 2002 e 2003. Em 2006 foi indicado para receber a cobiçada Fields Medal, concedida a grandes matemáticos com menos de 40 anos, mas recusou o prêmio, tachando-o de irrelevante. Ele também tinha rejeitado um prêmio do Congresso Europeu de Matemáticos, em 1996, sob o argumento de que não reconhecia nos pares que concederam a honraria autoridade para julgar seu feito. 41
  • 42. Segue ainda um artigo recentemente publicado, que trata da impostura de um cientista, mas de um egípcio. Folha de S. Paulo - 03/01/2010 L.I.X.O. Marcelo Leite Físico egípcio descobre como pôr a estatística a serviço de si mesmo ... Há alguns problemas com a produção do egípcio, no entanto. Nos últimos anos, seus adversários se deram conta de que mais de 300 dos 400 artigos publicados por El Naschie o foram no próprio "CSF" por ele editado. ... Outro artigo, desta vez brasileiro,e que, portanto, merece atenção é o que mostra a informação de ocorrência de plágio na Faculdade de Direito (!!!), e da USP (!!!), que foi publicado tanto na Folha de S.Paulo quanto no Jornal da Ciência (JC) (SBPC), mas que não concluiu com qualquer punição: Folha de S. Paulo 06/02/2010 Universidade "inocenta" professor titular da Faculdade de Direito e afirma que problemas foram só em formalidades JC de 08/02/2010 A USP decidiu arquivar uma investigação de plágio contra um docente da sua Faculdade de Direito e isentá-lo de qualquer penalidade -apesar de uma comissão de sindicância ter apontado irregularidades no trabalho apresentado por ele no concurso para professor titular, ápice da carreira. E, de imposturas de outras naturezas ainda seguem artigos publicados que colocam em questão a atuação de pesquisadores de renome, que foram enfaticamente divulgados, como os que seguem. 42
  • 43. Folha de S. Paulo 04/04/2010 +MARCELO LEITE Promessa não cumprida Qualquer criança sabe que o câncer continua a ser uma doença grave No dia 26 de junho fará dez anos que Bill Clinton, Francis Collins -hoje diretor dos poderosos Institutos Nacionais de Saúde (NIH) dos EUA, então chefe do Projeto Genoma Humano (PGH)- e Craig Venter, da empresa competidora Celera, se reuniram na Casa Branca para anunciar o fim do sequenciamento (soletração) do conteúdo dos 23 pares de cromossomos humanos. Como muita coisa de que esse trio participou, nada ali era bem verdadeiro, e quase tudo cheirava a encenação. Folha de S. Paulo – abril de 2010 Freud na berlinda Livro do francês Michel Onfray contra o pai da psicanálise gera polêmica antes mesmo de chegar às livrarias ... No livro, lançado na quarta passada, Onfray se entrega com indisfarçável deleite ao ataque contra Freud e o freudismo. ... Segundo Onfray, o médico formado em Viena toma emprestado conceitos de Schopenhauer e Nietzsche sem honrar suas fontes; dissimula os fracassos terapêuticos da psicanálise; pretende ser um cientista e, ao mesmo tempo, se apresenta como "conquistador de um continente desconhecido", tomando seus desejos por realidade; é um burguês ávido de celebridade; persegue dinheiro e glória; mantém uma relação adúltera com a 43
  • 44. cunhada, que vivia em sua casa; é um falocrata, misógino e homofóbico. As principais revistas científicas internacionais também mostram preocupação com imposturas, como a publicada na Nature que segue. Nature Vol 464 |no. 7293 | 29 April 2010 www.nature.com/nature Under suspicion When Nature or its sister journals receive serious allegations about data or author conduct, they follow a clear procedure to work out whether the published record needs to be revised. A particularly exciting research paper catches your eye. You start to read it in detail, carefully studying the methods, figures, data and logic. To your growing horror, you realize that a few of the blots and gel images look as though they have been digitally manipulated. You immediately inform the journal of your suspicions and are told that the editors will ‘look into it’. But after months of silence, you begin to wonder if that phrase is just a euphemism for inaction. It isn’t — certainly not at Nature or any of the other Nature-branded journals. We make a concerted effort to forestall such problems by spot-checking the images in at least two papers of each issue before publication. Even so, Nature journals that publish a substantial number of gels and blots still receive up to five reports of image manipulation per journal per year — and few of these cases can be handled quickly. When we receive a complaint, we first do our own tests on the figures to see whether the charges have merit. We also take a careful look at the paper as a whole. Some claims of fraudulent image manipulation turn out to be mistaken. Others we suspect of being clumsy attempts to slur the reputations of others. Occasionally, our examination suggests that something may be amiss. We then ask the authors for the original data and an explanation of what has happened. This is to help us understand whether the images really were manipulated and, if 44
  • 45. so, why. This request for authors to provide us with explanations holds true for almost all other types of allegations, from authors not sharing materials as expected to charges of fabricated data or plagiarism. Intent is key — we often find that no data have been fabricated, but that poor practice and a lack of education have allowed unexplained gel splices, for example, to slip past co- authors before submission or during the revision process. Taking into account the authors’ response, together with our comparison of the original images with the published figures, we will hopefully find that the apparent problems are either nonexistent or easily remedied. If we conclude otherwise, we will then contact the authors’ home institution. This step is necessary because, unlike universities and other such institutions, journals don’t have the resources or the legal authority to investigate allegations fully, or to make formal findings of research misconduct. At Nature, we usually wait for the results of a formal inquiry before correcting the record — hence the seeming inaction. Institutions vary in their practices, and some are more efficient than others. Institutions that accept government grants in the United States must have a researchintegrity officer to handle such allegations, but they are not obliged to share their information with us. We urge institutions to produce a redacted version of their final report that protects the innocent, but that indicates the extent of the investigation and the findings on each allegation. Because this is not general practice, we are not always sure that we concur with the actions suggested by the institution’s investigating committee. To see exactly what was examined, we are forced to request clarifications, which delays revisions to the public record further. At times, we have to resort to the US Freedom of Information Act to obtain enough information to correct the literature appropriately. If the institute is not in the United States, lines of responsibility are less clear. Determining whom to contact is not straightforward and convincing parties that an investigation is needed and getting useful information back is not a reliable process. Sometimes, this means it can be difficult to judge if the investigation has been thorough and fair. 45
  • 46. The complexity of a case, which is not always readily apparent, also has a bearing on how quickly a verdict can be reached. If an institution’s report concludes that misconduct occurred, we usually insist on a retraction — and will issue the retraction ourselves if the authors refuse to comply. But when an institution’s investigation cites lesser problems such as ‘beautification’ of the images, ‘sloppy science’ or ‘inadequate record-keeping’ — sometimes misconduct is suspected but cannot be proven — we will base our response on the specifics of the case. If there were no data fraud and no intent to deceive, for example, and if only one or two images were involved, we would allow the authors to publish an erratum and supply appropriate data, figures, original gels or images as supplementary information. Such an erratum can enhance the authors’ reputation for honesty. But if most of the figures are problematic, we will strongly urge the authors to retract the paper, even if they were cleared of misconduct and even if the paper’s main conclusions have been verified independently by other labs. The logic is that the published paper did not accurately reflect the data as they were collected. We urge all readers or reviewers who think that images or other information have been inappropriately handled to bring your concerns to the attention of the editors. By doing so you help increase the reliability of the literature, and so prevent the waste of both time and money following up fraudulent leads and fabricated insights. We strongly believe that it is in our best interest to correct errors that we have published, once we have as much information as we are likely to get — a practice that all journals should embrace. ■ © 20 Macmillan Publishers Limited. 10 All rights reserved Muitas outras informações relacionadas ao tema são publicadas em diferentes blogs dos quais recebemos comunicação por e-mail como por exemplo: i) o sugerido pelo Labjor/UNICAMP, que se encontra no http://www.the-scientist.com/blog, de onde, sem anotar a edição, copiamos as figuras que seguem, a primeira por mostrar que não há razão para atribuir a ocorrência de fraudes ou plágios somente aos alunos, e a segunda por mostrar que a maioria das ocorrências não são adequadamente reportadas: 46
  • 47. ou ii) cujos autores não são populares ou referidos nos meios por nós selecionados, de onde copiamos o que segue por servir de exemplo de outro tipo de impostura, em que são citados autores de renomes com o propósito de inferir pela qualidade do artigo: 47
  • 48. IREvalEtAl William Webber’s Research Blog http://blog.codalism.com/?p=773 Citing papers that you’ve never read — or that were never written A regrettably common practice in academic writing is to cite papers because someone else cites those papers, without having read them yourself. Justin warns about this in his book on writing for computer science, and I know he personally has a few good anecdotes. The practice is particularly amusing when the paper is incorrectly referenced or simply doesn’t exist; the original citer has made a mistake, and this has been blindly carried forward by their imitators. Via Edel Garcia comes The Most Influential Paper Gerard Salton Never Wrote, an article by David Dubin tracing the history of the vector space model as applied to the field of information retrieval. In this article, Dubin points out that a highly cited paper, “A Vector Space Model for Information Retrieval”, published by Gerard Salton in 1975 in the Journal of the American Society for Information Science, does not in fact exist. Um outro caso que consta de nossos arquivos, que chama ainda mais a atenção por ter sido comprovado, sugere o que pode ser atribuído às origens do problema no Brasil: i)Quem foi Paula Souza (Google) O professor Antônio Francisco de Paula Souza foi o fundador da Escola Politécnica de São Paulo - Poli, hoje integrada à Universidade de São Paulo. Engenheiro, político e professor, Paula Souza nasceu em Itu, em 1843. De uma família de estadistas, foi um liberal, tendo lutado pela República e Abolição da Escravatura. Em 1892 elegeu-se deputado estadual, ficando poucos meses no cargo, pois o Marechal Floriano Peixoto convocou-o ao Ministério do Exterior. Formado em Engenharia em Carlsruhe, na Alemanha, e em Zurique, na Suíça, foi em toda a sua vida pública um empreendedor e forte oposicionista da centralização do poder político-administrativo 48
  • 49. da Monarquia. Educador, esteve ligado à Poli por 25 anos. Seu desejo era introduzir no Brasil um ensino técnico voltado para a formação de profissionais preocupados com o trabalho e não apenas com discussões acadêmicas. Seu dinamismo em criar obras é um exemplo dessa preocupação. Criou um conceito novo de ensino, convidou especialistas europeus e americanos para lecionar na Poli, à frente da qual esteve como primeiro diretor, de 24 de novembro de 1894 abril de 1917, quando faleceu, em São Paulo. ii) Por outra fonte de informação Na página 214 do livro "Campinas, das origens ao futuro", de autoria de Dr. Antonio da Costa Santos (Toninho - PT 13), o prefeito de Campinas, assassinado em 10 / 09/ 2001- encontra-se a nota no 145: "O autor pôde constatar, através de documento abaixo reproduzido, oferecido pela Reitoria da Universidade de Karlsruhe, Alemanha, que Paula Souza nunca foi diplomado por esta instituição de ensino, contrariamente ao afirmado pela competente bibliografia no Brasil". Finalmente, analisando o conjunto de artigos compilados e comentados anteriormente, podemos afirmar que a ocorrência de imposturas científicas não é um problema só do Brasil, a despeito de deixar evidente que nesse caso (nacional) nada foi encontrado sobre a aplicação de penalidades aos envolvidos, e, portanto, nada podermos apontar sobre o que poderia servir de exemplo a ser seguido para a prática ética da produção e divulgação científica brasileira. Essa análise das discussões dos resultados se mostra como pilar e orientação para nossas recomendações apresentadas nas considerações finais, as quais seguimos em nossa atuação descrita nos anexos referidos nas mesmas. 49
  • 50. 5. Considerações Finais Ainda que sem autoridade para concluir sobre “estado da arte” dos fatores que motivam a produção e a divulgação científica, porque dispondo somente de uma compilação de artigos referentes ao tema selecionados por um método previamente estabelecido, recomendamos que parte da responsabilidade de todo cientista seja garantir que os seus alunos e orientados recebam educação crítica que contemple conceitos e procedimentos éticos tanto para a produção quanto para a divulgação científica de seus resultados. De forma complementar recomendamos que as sociedades científicas brasileiras disponham de representantes de sua comunidade para este fim, a exemplo do que propusemos à Sociedade Brasileira de Matemática Aplicada e Computacional (SBMAC) da qual fazemos parte (ver Anexo 1, Anexo 2-a e Anexo 2-b), que todos os cursos das universidades e dos institutos de pesquisa brasileiros se responsabilizem pelo oferecimento de pelo menos uma palestra sobre o tema, a exemplo das que ministramos no LNCC/MCT e da que sugerimos à Comissão de Pesquisa da FEAGRI/UNICAMP - unidade da UNICAMP a que pertencemos (ver Anexo 3), e que jornalistas científicos responsáveis considerem essas recomendações, a exemplo da que sugerimos à Revista FAPESP e da que foi aceita no blog do físico Marcelo Gleiser (ver Anexo 4). A partir da implementação dessas recomendações, sugerimos que as universidades e instituições de pesquisa do Brasil estabeleçam regras para a punição dos envolvidos nos distintos tipos de imposturas, a exemplo do que vem sendo feito em outros países. 6. Trabalhos futuros O conteúdo desse trabalho pode ser usado como parte complementar do PROJETO “Percepção Pública da Ciência pelos Cientistas”, anunciado pelo Dr Carlos Vogt aos alunos do curso de J. C. em 14 de junho de 2010. 50
  • 51. 7. Bibliografia complementar citada Bueno, W. C. Jornalismo Científico no Brasil: aspectos teóricos e práticos. São Paulo, CJE/ECA/USP, 1988. Bertolli Filho, C. Elementos fundamentais para a prática do jornalismo científico. BOCC. Biblioteca On-line de Ciências da Comunicação 2006; 1: 1- 32. Bursztyn, M. Ciência, ética e sustentabilidade. 2. ed. São Paulo: Cortez; Brasília, DF: UNESCO, 2001. Diniz, D. , Sugai, A., Guilhem, D., Squinca, F. Ética em Pesquisa: temas Globais. Editora UNB, Brasília. 2008. 404p. Knobel, M. Comunicação em aula da disciplina Fontes de Informação do curso de Jornalismo Científico do Labjor, UNICAMP, Campinas-SP, 2009. Kuhn, T. The struture of scientific revolutions.Chicago, University Press. 1962. Leite, A. P. R., Araújo, M. D. A. Reflexões sobre a Ética nas Organizações: Uma Abordagem Inicial sobre a Eticidade nas Universidades Brasileiras. III Encontro Nacional de Pesquisadores em Gestão Social. Juazeiro-BA. Maio de 2009. Leite, M. Ciência: use com cuidado. Campinas, SP: Editora da Unicamp. 2008. Leite, M. Fraudes e fraudes. Folha de São Paulo. 15/03/2009 Monteiro R, Jatene FB, Goldenberg S, Población D.A., Pellizzon R.F. Critérios de autoria em trabalhos científicos: um assunto polêmico e delicado. Rev bras cir cardiovasc [on line]. 2004, 19(4): I-VIII. Morin, E. Ciência com Consciência. Rio de Janeiro: Editora Bertrand Brasil. 2008. 12ª edição. 350p Oliveira de, F. Jornalismo científico. Editora Contexto. 2002: 42. 51
  • 52. Olson, J. C. Newton and Copernicus. In: The Comic Strip as a Medium for Promoting Science Literacy. California State University Northridge, 2008. Pracontal, M. A impostura científica em dez lições. São Paulo: Editora UNESP, 2004. 453p. Sokal, A., Bricmont, J. Imposturas intelectuais. Rio de Janeiro, Record, 2001. Srour, R. H. Poder, cultura e ética nas organizações. Rio de Janeiro, Campus, 1998, p. 270-71. Vogt, C. & Polino, C. Percepção pública de ciência: Resultados da pesquisa na Argentina, Brasil, Espanha e Uruguai. Campinas, SP, Ed. Unicamp; São Paulo, SP. 2003. 52
  • 53. 8. Anexos ANEXO 1 No final do ano de 2009, o Presidente da Society Industrial Applied Mathematics - SIAM, em carta à essa comunidade, manifestou sua "preocupação" diante da crescente ocorrência de plágios (Anexo 1.1). Essa notícia circulou por e-mail entre pesquisadores de diversas universidades e institutos de pesquisa da área de Matemática Aplicada. Uma outra notícia, que também circulou pelos mesmos caminhos, constou da exclusão de um artigo científico já publicado na revista Advances in Engineering Software (Anexo 1.2). Diante destas, dentre outras ocorrências de mesma natureza que tomei conhecimento, eu escrevi informalmente a diversos membros da SBMAC para trocar idéias no sentido de propor que alguma providência fosse tomada para alertar a comunidade sobre o problema de conduta de cientistas, bem como, e principalmente, educar os mais jovens. Nada aconteceu. Coincidentemente era o período em que os sócios da SBMAC poderiam sugerir nome para as conferências especiais do "Congresso Nacional de Matemática Aplicada e Computacional" - CNMAC 2010, ocasião em que, a exemplo de anos anteriores, me manifestei, desta vez com a sugestão do tema "Ética na produção e divulgação científica", e o nome do Prof Marcelo Knobel, que fora nosso professor da disciplian "Fontes de Informação" do curso de J. C. O referido professor aceitou o convite, mas a diretoria da SBMAC não selecionou o seu nome. Posteriormente, enviamos à Revista FAPESP o que consta no Anexo 1.1 junto com a sugestão da inclusão do tema para a pauta, o que não foi contemplado até a presente data. 53
  • 54. ANEXO 1.1 SIAM NEWS Integrity Under Attack: The State of Scholarly Publishing December 4, 2009 Talk of the Society Douglas N. Arnold Scientific journals are surely important. They provide the most effective means for disseminating and archiving scientific results, and so are a key part of an enterprise on which our health, security, and prosperity ultimately depend. Publications are used by universities, funding agencies, and others as a primary measure of research productivity and impact. They play a decisive role in hiring, promotion, and salary decisions, and in the ranking of departments, institutions, even nations. With big rewards tied to publication, it is not surprising that some people engage in unethical behavior, abuse, and downright fraud. Still, when I started to look at the issues more closely, I was appalled by what I found. In this column, I give a few troubling examples of misconduct by authors and by journals in applied mathematics. One conclusion I draw is that common bibliometrics---such as the impact factor for journals and citation counts for authors---are easily manipulated not only in theory, but also in practice, and that their use in ranking and judging should be curtailed. SIAM places great value on scholarly publishing, of course, and we are taking strong actions to ensure the integrity of our own publications and to protect our authors from theft of their work. But we are still struggling to decide just what actions we should take. So I invite the thoughts of members of the SIAM community. If you have witnessed troubling incidents in journal publication, let me know. Do you think such incidents are on the rise? Should SIAM be doing more? Should we look beyond our own publications and authors? 54