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O Segredo dos Girassóis, da autora Adriana Matheus, narra a trajetória de três pessoas distintas entre si: uma bruxa, um monge e um jovem conde. Mas o que poderiam ter em comum três pessoas tão diferentes? Estariam eles unidos pelo amor ou pelo destino? Nessa fantástica trama de ódio, amor e intrigas, a autora transforma os horrores da Inquisição espanhola em uma magnífica estória em que a fantasia, o romance e a magia misturam-se a uma trama de mistério e sedução. Convida-se o leitor a viajar através do tempo astral com a personagem principal, Anna Goldin, em uma fantástica aventura cheia de suspense, bom humor e assassinatos misteriosos. Anna Goldin vai mostrar ao leitor que, mesmo no meio dos horrores da Inquisição, ela ainda conseguiu sonhar e ser determinada em suas ideias de liberdade e de igualdade de expressão e religião, conseguindo manter também a dignidade, honrando o valor de uma verdadeira amizade. Anna descobre que o seu único e verdadeiro amor é também o inquisidor que a condenou à fogueira na vida passada. Ela passa por várias decepções até que descobre que mais uma vez havia sido traída pelas pessoas nas quais ela mais confiava...

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  1. 1. O Segredo dos Girassóis O diário de Anna Goldin Adriana Matheus
  2. 2. O Segredo Dos Girassóis O Dário de Anna Goldin Proibida a reprodução total ou parcial desta obra, de qualquer forma ou por qualquer meio eletrônico,mecânico, inclusive através de processos xerográficos, sem permissão expressa da autora. (Lei nº 5.988 14/12/73). Adriana Matheus amatheus07@hotmail.com 2ª Edição 2012 CIP. Brasil. Catalogação na Publicação. M427s - Matheus, Adriana, 1970. O Segredo dos Girassóis / Adriana Matheus - Juiz de Fora - MG. 410 p. : il. ISBN: 978-85-7878-028-9 Ficção brasileira. 2. Romance espírita I.Título. Projeto Gráfico e Impressão: Clube de Autores e Agbook Edição de capa: Ruy Alhadas www.alhadasdesign.com Diagramação: Adriana Matheus Revisão ortográfica: Texto Legal http://textolegal.weebly.com 2
  3. 3. Segredo dos Girassóis O Diário de Anna Goldin Adriana Matheus Pelo Espírito do Padre Ângelo Wallejo Moralles “O amor é infinito e solene e quando é verdadeiro atravessa as barreiras do impossível, para que sempre possamos estar juntos.” (Padre Ângelo Wallejo Moralles). Agradecimentos Especiais Ao senhor Wanderley Luiz de Oliveira, presidente da Associação de Cultura Luso-Brasileira/ JF- MG, por todo o incentivo dado a esta obra. Ao Senhor Roberto Dilly, diretor do Museu do Crédito Real/JF - MG, que tão generosamentecedeu o salão para o lançamento desta obra. À Drª. Maria Auxiliadora Assis, que é uma das maiores colaboradoras desta obra e, também,patrocinadora. Às amigas Átria Maria Alves e Dulcinéia de Assis Teixeira, cujo apoio e participação foramindispensáveis para que esta obra fosse publicada. A Stéphanie Lyanie e à equipe da Texto Legal. Sem essa equipe fantástica e incrível, esta obranão estaria tão lindamente corrigida. Ofereço esta obra à Academia de Letras da Manchester Mineira/Juiz de Fora - MG, por tantohomenagear os pequenos e grandes autores de nossa cidade – valorizando, assim, a nossa culturaliterária. Adriana Matheus À autora 3
  4. 4. NOTA DA AUTORA Nesta incrível história de ficção, a autora convida o leitor a viajar através do tempo astral emuma fantástica aventura, cheia de suspense, bom humor e sedução. Sua principal personagem, AnnaGoldin, vai mostrar ao leitor que, mesmo no meio dos horrores da Inquisição, ela ainda conseguiusonhar e ser determinada em seus ideais de liberdade e igualdade, conseguindo manter, também, adignidade, e honrando o valor de uma verdadeira amizade. Mas o que poderiam ter em comum três pessoas tão diferentes? Uma bruxa, um monge e um jovem conde, unidos pelo destino nessa fantástica trama de ódio,amor e intrigas. É isso que o leitor terá que desvendar. E, por isso, Anna Goldin está convidando-osa participar desta incrível história! Sejam bem-vindos! Como percebi que teria que escrever esta obra? Na verdade, depois de um acidente, sonhei com toda essa incrível história durante uma semana,consecutivamente. Cheguei a comentar com algumas pessoas, que me disseram não passar de merossonhos. Confesso que procurei respostas em muitos lugares. Mas esqueci de um lugar muito simplese particular: dentro de mim. Pois é lá que está a resposta para todas as perguntas frequentes emnossas vidas. Muitas vezes, somos teimosos e medrosos demais para ouvir aquela voz que estásempre nos mostrando o caminho. Temos medo do que parece ser imaginário ou sobrenatural, masnão temos medo de correr o risco de conhecer um desconhecido real da internet. Os espíritos nãopodem nos fazer mal algum. Influenciam-nos somente se abrirmos caminho para isso. O poder estátodo em nossa mente, na nossa caixinha de segredos, no nosso computador portátil e inigualável - océrebro. Como descobri que era médium? Na verdade, como todas as pessoas, sempre fui. Só não aceitava aquela voz dentro de mim. Como tomei conhecimento da existência do Padre Ângelo Wallejo Moralles? Oito meses depois do acidente e já bem melhor, um belo dia eu estava sentada na frente dacreche onde costumava deixar meus filhos. O mais novo deles estava em adaptação. Por essemotivo, tinha que ficar até mais tarde presente neste local. Sentei-me em um banquinho, do lado defora. Como não havia nada para fazer, peguei um bloco de notas e um lápis que sempre traziacomigo. Comecei a rabiscar para ver se conseguia desenhar o rosto que frequentemente aparecia-me em sonhos. Mas, para minha surpresa, comecei a perder os sentidos, como uma tonteirairregular. De repente, minha mão começou a escrever sozinha. A princípio, tremi - confesso. Mas,depois, fui dando asas àquele fenômeno. Quando parei para ler, eram quase duas páginas demensagens. Detalhe importante: aquela letra não era minha. Fiquei tão fascinada com aquilo quecomentei erroneamente com várias pessoas, que saíram achando-me uma doidivanas. Hoje, muitasdestas pessoas já receberam mensagens de seus entes falecidos, psicografadas por mim. Graças aDeus, aprendi a lidar com meu dom com a sabedoria do silêncio. Ganhei credibilidade e respeito.Descobri minha missão. Sempre que tenho tempo, dedico à caridade espiritual. Mas ainda souaprendiz. Quem foi e quem é Anna Shaara para mim? Anna foi uma grande mulher que não se rendeu às normas e às vontades dos homens. Naverdade, Anna Shaara sou eu, é você que está lendo esta obra por mera curiosidade. A Anna sãotodas as mulheres que lutaram, que lutam e sempre lutarão por um sonho de igualdade; mas - acimade tudo - que têm um dom e o usam para o bem. Ela é aquela mulher que faz de tudo para ver seuhomem, seu amor feliz. É a mulher sábia que, ao invés de brigar, cala-se e espera o momento certode falar e agir. A Anna é a voz dentro de cada uma de nós. Ela é o momento, a oportunidade que temos de nosredimir dos erros e das falhas do passado. Quando Anna Shaara voltou em minha vida? 4
  5. 5. Foi através de uma viagem astral (também chamada de auto-hipnose), onde mostrou toda a suasabedoria. Tive certeza de que estava na hora de contar ao mundo minhas experiências com osespíritos. Espero que esta obra seja de grande valia para todos vocês que, mesmo por curiosidade,começaram a lê-la. Mais uma vez, deixo minha eterna gratidão. “Se o homem trabalha em prol da caridade, ele deve tentar entender a verdade, mesmo que amesma não seja mostrada pelos olhos do aparelho. Se ele trabalha em prol de si mesmo, continuaráconfuso e no escuro constante de seus pensamentos atordoados. Felizes aqueles cuja compreensãode reconhecer os seus próprios erros torna-os sábios. E essa virtude faz com que eles ajudem o seupróximo em caridade e abstinência, sem interrogações ou especulações. Pois o maior dom divinoestá em ouvir e servir com humildade e perseverança”. Muita paz e muita luz. (Padre Ângelo Wallejo Moralles - 1795 a 1838). 5
  6. 6. SumárioCapitulo I - O diário de Anna.........................................................................................9Capitulo II - A iniciação................................................................................................35Capitulo III - O Livro das Sombras.............................................................................73Capitulo IV - O Segredo de Elizabeth........................................................................144Capitulo V - A Despedida............................................................................................196CapituloVI - O Mosteiro..............................................................................................224Capitulo VII - O Segredo dos Girassóis......................................................................252 6
  7. 7. Pelo espírito do padre: Ângelo Wallejo Moralles Prólogo Estou com vinte e seis anos e vejo que minha vida acabou-se. Vivi nesta curta jornada terrenatudo o que uma pessoa com seus sessenta anos viveu ao longo de sua existência. Mas é claro que, emquestão de sofrimentos, fui uma expert. Envelheci muito em três anos aqui, enclausurada nestecalabouço frio e escuro, onde fico relembrando os fatos e as situações vividas desde a minha maistenra infância. Outro dia, pude ver meu reflexo em uma poça d’água que se acumulou no chão,causada pelas diversas goteiras que caem do teto. Quase não me reconheci. A maioria dos meusdentes caiu. Estou tão maltrapilha e suja! Eles quase conseguiram sujar, também, minha alma. Masconsegui separá-la do meu corpo, para que não fosse maculada pela perversidade humana. Sinto tanto frio; estou tão cansada e enfraquecida! As dores, antes insuportáveis, agora jáparecem mais brandas. Já quase não sinto mais a minha perna. A corrente presa à minha coxaesquerda já tinha parado a circulação, e a sensibilidade já não era mais a mesma. Estou presa a esteobjeto há um ano ou mais. Não me lembro exatamente de quanto tempo estou aqui. A princípio, paraevitar a loucura e a perda de memória, fiz tracinhos nas paredes. Mas, com o tempo, fui meesquecendo até de me levantar para comer o pão e a água que me trazem. Temo não conseguir colocar neste diário tudo o que me ocorreu durante toda a minha existência.Tenho a esperança de um dia alguém me achar ou se lembrar de mim. Caso isso não venha a ocorrer,sei que minha amiga Juanita encontrará um meio deste diário chegar até às mãos de Maria. Queroque meus irmãos de alma saibam o que passei por amar e por não negar minhas origens. Os horrorese as injustiças que aconteceram em minha vida, envolvendo seres considerados acima do bem e domal, deixo aqui registrados. Não aumentei e nem inventei absolutamente nada. Algumas pessoas que se diziam com o poder de direcionar o destino de outras, só pelo simplesfato de terem nas mãos um documento chamado Bula Papal, tornaram a minha vida e a de outrasmulheres a mais miserável possível. Pessoas que se julgavam Deus ou mensageiros Dele. Sereshumanos como eu, mas que pareciam viver em um mundo mental paralelo ao nosso. Parecia que, aoolharem uma mulher, viam nela outra forma de vida aparente. Suas formas de manipular a populaçãoeram tão convictas que causavam cegueira e histeria em massa – e, logo, uma espécie de aliança cegaentre a população e os inquisidores. Na verdade, a voz do povo não era a voz de Deus, mas sim a vozdo inquisidor. Minha história é muito complexa . Se algum dia esse diário for encontrado e lido por outraspessoas, elas poderão ficar atordoadas e confusas com os relatos registrados aqui. Mas que fique bemclaro que este é o meu diário. O diário da minha vida terrena, onde conto a minha trajetória comomortal, mulher, bruxa e como um ser humano esquecido pelo mundo contraditório. Nesta história devida passada, faço aqui duas regressões e mostro o lado obscuro real da Inquisição. Conto como opreconceito contra as mulheres era superior ao sentimento maior: o amor verdadeiro. A religiosidadeera usada para encobrir o lado negro dos sacerdotes. O dinheiro comprava e vendia tudo, até a almahumana. Os sacerdotes e seus monarcas seguidores fanáticos tinham uma única vontade: manter asmulheres submissas e a população humilde e sem cultura sob os seus pés. Mas, na verdade, osmonarcas também eram marionetes destes discípulos do diabo. Pessoas que se mascaravam com umabondade hipócrita, para não mostrarem a verdadeira face escondida debaixo de peles de cordeiros.
  8. 8. O segredo dos girassóis Adriana Matheus Espero, em nome de Deus, que a humanidade um dia possa evoluir para o seu próprio bem. Eque estas almas, ao encarnarem, também possam redimir-se destes pecados que cometeram contra ahumanidade. Vivi em um tempo muito desequilibrado e hostil, em que mesmo os que tinham certoestudo viviam na ignorância e no flagelo espiritual. As pessoas não tinham o direito de ir e vir. Aspalavras, nem em pensamentos poderiam permanecer. Se eu pudesse, aconselharia todos a refletiremsobre seus atos e as consequências que podem advir deles. Amem como se hoje fosse a primeira vez.Esqueçam o passado, deixem as mágoas e quem os magoou para trás. Porque a única coisa querealmente importa é o amor e o perdão. Espero, minha querida Maria, que encontre este diário e que esta história da qual fez parte sejacontada para todos os nossos irmãos e irmãs, de geração em geração. Tenho certeza de que nãopassei por todas estas coisas em vão. Aprendi muito com a senhora. Sua sabedoria, bondade ebenevolência foram minha fonte de inspiração para eu estar aqui, hoje, lutando em registrar estaspalavras. Lembra-se, Maria, de quando mais atrás me ensinou a agradecer a Deus por todos os segundosde nossas vidas, mesmo que eles fossem os últimos? Agradeço, sim, a Ele, mas nunca me esqueço dasenhora. Minhas orações são para você, bem como meu amor e gratidão, minha amiga, minha mãe.Sim, pois a senhora foi a única mãe que conheci. Embora minha vida tenha sido tão curta, pude refletir e compreender que nunca devemos pararde lutar pelo que sonhamos e acreditamos. Sempre lutei e nunca temi ou me arrependo de terchegado às últimas consequências. Nunca desisti do meu único e verdadeiro amor, embora ele tenhame traído e me abandonado. Nunca desejei mal a ele, mesmo sabendo que pode estar nos braços deoutra mulher. Não odeio nem mesmo meus algozes, pois fazem parte da construção da minhahistória. Aceitei o dom da mediunidade graças à senhora, Maria, pois aprendi a ser responsável emais humana. Sei que são curtos os meus dias aqui, minha cara amiga. Mas morro com dignidade eorgulho em saber que me assumo como sou: uma bruxa. A senhora ensinou-me que a responsabilidade de um médium dobra quando ele ensina algumacoisa a outra pessoa. Espero estar sendo coerente com as palavras aqui. Pois, assim como fui suadiscípula, terei discípulos que ouvirão minha história e far-me-ão de exemplo. Sei destaresponsabilidade e não quero ser uma lenda e nem um exemplo, pois também falhei. Apenas querocontar como tudo aconteceu comigo. Achei que, por amor, poderia superar os sofrimentos que meseriam impostos. Mas, agora, tenho certeza de que não sabia o quanto o ser humano pode ser cruelem arquitetar uma forma de torturar o outro. A maldade do ser humano é infinita e sem igual. Seguindo com a minha história... 8
  9. 9. O segredo dos girassóis Adriana Matheus I - O Diário de Anna A madrugada estava cinza, como o meu coração... Senti o vento frio entrar pela janela, beijando meu rosto suavemente, como se fosse um cumprimento casual e afetuoso. Estávamos perto do término do outono. As folhas das árvores caíam como plumas ao chão! E meus sonhos também. Sentia-me muito só. Algo em meu coração estava tentando falar, num silêncio descompassado.Naquela época, eu via beleza em tudo ao meu redor. Mesmo nas horas de tristeza, conseguia vercoisas boas. Mas alguma coisa parecia estar errada. Minhas noites sem dormir eram agonizantes. Eu tinha um choro preso na garganta e, às vezes,sentia raiva de nada aparente. Não sabia explicar o que era e, depois de andar quase a noite toda peloquarto, fui à janela observar a rua e senti o vento úmido, que bateu em meu rosto, ainda molhadopelas lágrimas. Os poucos transeuntes que se atreviam a andar pelas ruas pareciam estar congeladose enroscavam-se em seus casacos de lã, como caracóis em uma conchinha. Um redemoinho juntavaas folhas caídas ao chão, fazendo-as bailar sobre a calçada, como em uma brincadeira de ciranda. À medida que a neblina subia, mostrava ao longe o espetáculo e a beleza escondida por trásdaquela cortina acinzentada, criada pelo crepúsculo misterioso da floresta negra. Sentia-me umaprivilegiada por morar no fim daquela ruazinha de pedras calcárias, muito polida pelo tempo. Eutinha não só a magia das montanhas ao longe, mas o cenário mais perfeito de todo o mundo! O lugar onde morávamos, para mim, não tinha preço. Podia ser o mais simples e o mais isolado,mas, com certeza, era o melhor lugar deste mundo, simplesmente por ser o nosso habitat. O cenário era mesmo incrível! Eu jamais me cansaria de admirá-lo. Da janela do meu quarto,podia ver, desde a esquina, a outra extremidade da rua sem saída. Havia uma pequena trilha de terra,que dava para um misterioso bosque Mal Assombrado, como diziam os viajantes que por alipassavam - também citado nas cantigas das escravas como Floresta negra, ou ainda chamado deBosque dos Mortos pelos supersticiosos do vilarejo. Muitas lendas foram criadas em torno desse bosque. Na verdade, não sei se poderiam chamaressas histórias de lendas, pois em certo ponto do bosque não havia nenhum tipo de vegetação ou vidaaparente. Sua terra era seca, e isso se ocasionou depois que os moradores mais antigos queimaramuma jovem amarrada a uma árvore, petrificada, acusando-a de bruxaria. Eu nunca havia tido acoragem de ir até lá por medo do que ouvia, mas ficava observando seu estranho silêncio da minhajanela nas noites de solidão. Nunca vi ou ouvi uma ave gorjear por lá. Ouvira dizer que nenhum ser vivente ou em seu juízo perfeito atrever-se-ia a colocar seus pésnaquele local obscuro e sinistro. Eu, nas muitas vezes em que perdia o sono durante a noite, juravater ouvido gemidos e clamores vindos daquele bosque. Sombras pareciam sair do bosque, ou eraapenas a minha mente que as imaginava? Sempre preferi acreditar que fosse a minha imaginação, enunca mencionei isso nem mesmo para minha amada Maria. À frente de minha casa, logo na esquina, antes de subir a pequena trilha, ficava a mansão dosSorancos Del Castilho, gente sisuda, aparentemente orgulhosa e pouco amistosa. Eles eram judeusconvertidos ao cristianismo. Só os víamos nas missas aos domingos e, mesmo assim, sentavam-selonge de todos. Eram pessoas que pouco se viam transitar pelas ruas. A senhora Del Castilho e suasfilhas vestiam-se mais discretas do que o normal, sempre com roupas austeras e escuras. Não eram nada sociáveis. Não iam a festas, não convidavam e sempre era possível vê-losobservando as pessoas de soslaio. Eram reservados e isolados. Eu mesma tive a impressão de tervisto um ou outro me observando pelas costas. Mas, quando me virava, tentando achar o que estavame incomodando, não via nada. Eles pareciam fantasmas: apareciam onde menos esperávamos, esumiam da mesma forma. Gentinha realmente estranha... 9
  10. 10. O segredo dos girassóis Adriana Matheus Diziam que eles eram muito ricos, e que seus dízimos superavam as expectativas paroquiais. OSenhor Del Castilho parecia um lorde, com suas botinas e suas abotoaduras de brilhante. Em questãode status, essa família, por certo, era a mais rica do condado. O restante da vizinhança morava amuitos metros à frente. Por isso, sentia-me muito tranquila em relação à paz e ao sossego. Por parte de meus pais, meus avós foram os pioneiros daquele vilarejo. Eles fizeram muitasbenfeitorias, como o belo caminho feito de cerejeiras, que foram exclusivamente trazidas daInglaterra para enfeitar as laterais daquela larga ruazinha - o que dava, além de graça e beleza, certomistério ao trajeto. Era incrível o enorme tapete de flores que se estendia para passarmos no outono.O vilarejo ainda era pequeno e mais parecia um labirinto, porque todas as ruas se cruzavam. Todosse conheciam, mas poucos eram amigos, e os mais jovens de certos recursos financeiros eramenviados à Europa para estudarem e, na maioria das vezes, não retornavam à casa paterna. A vida nocampo não lhes convinha mais. Mas, por certo, Salamanca cresceria muito com os tempos queviriam. Se chegasse qualquer estranho ao vilarejo, em questão de pouco tempo todos os moradoresficavam sabendo da novidade. Era engraçada a maneira como os habitantes daquele pequeno vilarejocomportavam-se. Tão primitivos! Naquele tempo, eu já não era vista com muito bons olhos. Mas era por motivos corriqueiros equestionáveis, pois as pessoas achavam-me esnobe. Mas eu não o era. Pelo contrário, era uma jovemmedrosa e muito tímida, esquivava-me das pessoas por não saber como me comportar no meio delas.E também tinha o fato de que a minha madrasta nunca me deixara participar das reuniões do nossoconselho. Muitas das jovens de minha idade não podiam opinar, mas sempre estavam presentes a talevento, pois era uma maneira de se socializar e, claro, de arrumar um pretendente. Quando raramenteeu podia sair, era sempre na companhia da minha ama Alicia ou de minha amada Maria, governantada casa. Assim seguiram-se meus dias, sem nenhuma emoção ou aventura - o que era um tédio, poismeu espírito gritava por aventuras e coisas diversas, que nunca pude realizar na minha curtaexistência. Lembro-me, ainda, de minha casa: era bem grande. Mas não era uma casa acolhedora, porquefaltava paz e harmonia. Fiz uma rápida e breve descrição dos detalhes. Na verdade, o que eu maisgostava não estava lá dentro. Nunca fui muito detalhista. Algumas coisas deixei passar em vão, nãopor falta de percepção, mas porque esta realmente não era a casa dos meus sonhos. Quando somoscrianças, tudo é bom, tudo são flores. Encontramos divertimento até no meio das lágrimas, e luz nomeio das trevas. Fazemos refúgio no silêncio, e nossos corações não guardam rancor. Vivi até metade de meus dezenove anos a triste e turbulenta história que me trouxe a este terrívellugar. E no meio do ódio, da inveja e da ambição, consegui criar para mim um mundo imaginário.No meio de coisas velhas e usadas, vivia minha vida de fantasias. Cresci amargurada, medrosa, tímida e isolada do mundo. Sem dúvida, minhas roupas eramcaras. Não porque zelavam por mim, mas porque eu não podia aparecer maltrapilha perante aspessoas da sociedade. E também isso mostraria a real situação financeira da minha família: apesar daostentação, a falta de recursos financeiros era escondida a todo custo. A maioria dos vestidos nunca usei, mas minha madrasta fazia questão de gastar mesmo assim.Por não ter nenhum amigo com quem pudesse falar, eu ficava a maior parte do tempo no sótão, nacozinha ou com os criados. Aprendi a fazer muitas coisas domésticas apenas observando, pois osescravos e criados não me deixavam tocar em nada: tinham medo de uma represália. Eu era asinhazinha, um enfeite de porcelana e sem nenhuma utilidade. Eu não gostaria que tivesse sidoassim, mas as circunstâncias e a própria época em que vivi ajudaram muito para isso. Enfrentei o mundo por amor. Enfrentei os homens e a Igreja para mostrar que também nós,mulheres, temos o direito à igualdade, a ir e vir. E que somos livres em expressão de religião,vontade e igualdade. Enfrentei o ódio nos olhos, no coração e nas atitudes de muitas mulheres porquem lutei. Mas eu as entendia. Na verdade, bem no íntimo, todas aquelas mulheres gostariam de 10
  11. 11. O segredo dos girassóis Adriana Matheusestar no meu lugar - não na dor, é claro, mas em coragem e determinação! Coragem de nunca senegar e de falar o que pensava. E determinação de lutar pelos ideais e também por um lugar ao sol,entre homens preconceituosos e ditadores. Não me arrependo do que fiz, mas do que nunca pude fazer. Minhas irmãs de almas sofrerammuito mais do que eu, no cativeiro de uma masmorra fria e sombria. Pois viveram a vida toda sob ojugo dos homens, que muitas vezes eram seus amados. Embora a maioria delas tivesse escravos, elaseram escravas do silêncio e da submissão. Ser uma bruxa não foi e jamais será fácil. Eu vivia em ummundo de falsidades, onde o luxo e o dinheiro encobriam qualquer falha humana. Minha casa era muito grande, com muitas passagens secretas. Algumas descobri a duras penas,para me esconder de minha madrasta. Os corredores eram enormes e, ao sairmos do meu quarto,passávamos pelos aposentos do casal e por mais oito outros, ainda vazios, que às vezes eram usadospelos hóspedes. Seguindo pelo corredor largo, com uma passadeira cor de carne e desenhosgeométricos, chegávamos ao antigo quarto de minha mãe, cuja porta nunca era aberta. Os motivoseram desconhecidos e alheios para mim, até então. Eu sempre sentia certo arrepio naquele corredor, pois era de pouca iluminação e dava-me aimpressão de ter uma pessoa atrás de mim. Aliás, toda a casa me dava certo arrepio. Por fim,chegava a uma escadaria, que era meio em caracol, toda de mármore branco, com corrimão demadeira muito encerada. Eu adorava escorregar no corrimão quando não tinha ninguém por perto. Àdireita, ao final do corredor, era o sótão onde guardavam quinquilharias - meus tesouros. Na verdade,toda a memória da minha família estava lá em cima. As escadinhas eram estreitas e de madeira; o sótão mais parecia uma velha torre onde merefugiava da bruxa má. Meu esconderijo antissurras, pois, quando minha madrasta se desentendiacom meu pai, era em mim que descontava seu ódio. Como se eu tivesse alguma coisa a ver comdesentendimentos entre eles... Os dois pareciam cão e gato, não conseguiam ficar perto um do outropor meros segundos sem se engalfinhar. Minha madrasta era muito exigente e só queria saber degastar. Eu tinha mania de ficar no topo da escadaria, encostada no beiral, olhando o andar de baixo eescutando as conversas e discussões de meu pai. Chegava a ficar tonta, pois os ladrilhos do hall deentrada davam a impressão de vermos um enorme tabuleiro de xadrez, já que o piso era quadrangularem tons de preto e branco. À esquerda, seguia-se para o escritório de meu pai, que era quase comouma passagem secreta, por ficar embaixo da escada. No fim da escada, à direita, existia um grandesalão de bailes, onde tínhamos a mais bela varanda, toda em mármore branco. No salão, existiam enormes pilares, dando certo ar de templo romano. Por ser tudo muitobranco, quando criança eu pensava ser o céu. Sentia-me uma fada e rodopiava, abrindo os braços. Àesquerda, ainda no final da escadaria, seguia-se para a cozinha, por um enorme corredor de tábuacorrida. Minúsculos quadros familiares foram pendurados em suas laterais. Eu o chamava decorredor dos espíritos. Ao chegarmos à enorme cozinha, tínhamos um gigantesco fogão de lenha, onde Tereza criava asmais deliciosas receitas junto à escrava Joana, sua auxiliar. Havia uma grande e pesada mesa decarvalho, no centro. Panelas de bronze, muito areadas, foram penduradas por toda parte. Eu ficavaali, em pé, ao lado das cozinheiras, observando aquela fantástica e misteriosa forma de alquimia. Erao meu segundo local preferido. O simples mexer de Joana com a colher de pau nos grandes caldeirões fascinava-me. A magiasimples da mistura dos temperos me fascinava! Nascia em mim o desejo de ter o meu própriocaldeirão. Por várias vezes, brincando de cozinhar, juntei algumas ervas e coloquei-as dentro de umacaneca de água quente, dando à pequena escrava Inaynmin, filha de Joana, aquele chá com a minhamistura de ervas. Dizia a ela que os anjos lhe dariam bons sonhos. O estranho é que a menina diziadormir muito bem toda vez que tomava meus chás. 11
  12. 12. O segredo dos girassóis Adriana Matheus A cozinha também era, para mim, um refúgio onde me escondia da minha madrasta. Pois ela meperseguia por toda a casa, não importando onde eu estivesse. Mas na cozinha ela não entrava, porqueachava indigno do seu status de senhora. O sótão já estava ficando vulnerável, e a história que Maria contava sobre lá ser mal assombradojá não estava surtindo muito efeito - o que passou as ser perigoso para mim, pois minha madrasta jánão cria mais nos tais fantasmas. Então, tive de me refugiar nos corredores, dentro das paredes entreum quadro e outro, como um animalzinho assustado. Algumas dessas passagens davam nos fundosda cozinha, onde eu aparecia inesperadamente no meio das cozinheiras que, na maioria das vezes,levavam um grande susto. Tereza colocou-me a alcunha de pequena sombra, pois às vezes, quandoela olhava para trás, lá estava eu como num passe de mágica. Tínhamos, ao lado de fora, um enorme pátio com uma fonte d’água e um poço. Da escada dosfundos da cozinha, que dava para esse pátio, podíamos ver várias montanhas ao fundo. Sem sombrasde dúvida, não existia nada mais lindo do que a visão daquelas montanhas! O cenário era tão incrívele mágico! A impressão que eu tinha, ao ver o sol despontando no horizonte, era que ele as fazia mudar decor, para um verde quase azulado. Sentia-me especial por estar fazendo parte da obra de um GrandeMestre. Nenhum pincel pintaria nada tão perfeito! Eu não gostava da minha casa, mas amava o lugaronde vivia. Essas lembranças de infância vieram à tona saudosamente. E especialmente naquele dia - vinte eum de julho de 1819 - acordei muito cedo: exatamente às duas da madrugada. O galo mal tinhacantado e lá estava eu de pé. Tudo o que eu tinha aprendido até aquele momento foi com os livros.Em minha solidão, eu lia muito - o que me foi de grande valia em meu aprendizado. Muitos desseslivros foram encontrados no sótão, junto aos pertences de minha falecida mãe. Andei de um ladopara o outro do quarto, como uma galinha que havia perdido seus pintinhos. Algo me estavaincomodando em demasia. Minhas mãos suavam e meus sentidos estavam aguçados. Por causa dossonhos confusos e pesadelos - que eram constantes - eu via sombras nas paredes e vultos ao meulado, constantemente. Parecia haver pessoas perto de mim, vozes falavam ao meu ouvidodiariamente. Por não ter nenhum conhecimento, sentia medo. Não sabia o que eram e o que queriamcomigo. Eu tampava os ouvidos com as mãos, na tentativa de não as escutar. Outras vezes, eurespondia e conversava com elas. Às vezes eu as remedava, e tais gestos faziam minha madrastapensar que eu era insubordinada. Apanhei muito por causa das vozes. E elas pareciam ficar cada vez mais irritadas com aproximidade da minha madrasta. Erroneamente, eu achava que eram fantasmas. Mas o pior de tudoisso é que eu não podia contar a ninguém, porque as pessoas considerar-me-iam insana. Ou meentregariam nas mãos de um exorcista - o que anteciparia o meu destino. Especialmente naquela madrugada, elas estavam muito mais agitadas do que de costume. Antes,elas eram assustadoras e davam a impressão de estarem muito aflitas. Ora cantavam em línguasestranhas, ora falavam todas juntas. Isso me confundia. Deixei aquelas aflitas lembranças para trás um pouco e voltei à janela. Fiquei horas observandoa montanha e sua neblina misteriosa Queria esquecer aquelas almas que desesperadamente mechamavam. Senti-me um pouco egoísta, mas precisava me distanciar antes que elas voltassem aquerer falar comigo. Pois cada vez que eu pensava nelas, parecia estar atraindo-as para junto de mim.Além de toda aquela confusão com as vozes, havia também os maus presságios, que estavamacarretando o meu espírito e, como nuvens, confundiam também os meus sentidos. Eu achava queera devido à ausência de meu pai, e também pela falta de noticias dele. Mas era uma mistura desaudade, solidão e devaneios, em uma mente jovem e atordoada por uma mediunidade ainda nãotrabalhada. Algo estava para acontecer. Algo que mudaria a minha vida para sempre. Lembrei-me de Maria,que dizia que eu havia nascido com dons especiais. E que, ao completar meus vinte e um anos, as 12
  13. 13. O segredo dos girassóis Adriana Matheuscoisas ficariam melhores. Bom, eu faria vinte no ano seguinte e tinha a esperança de que as coisaspudessem melhorar a partir dali. E que meus dons, ao aflorarem, trouxessem-me um pouco mais depaz. Na verdade, não sabia se eu poderia chamar aquelas tormentas de dons. Só sabia que elas eramespirituais. O meu medo de vê-los era tão grande que, de alguma forma, trazia-os para bem perto demim. Às vezes pensava serem coisas da minha mente. Mas, com o decorrer do tempo, meus sentidosforam aguçando ainda mais; passei a ter estranhas visões de fatos que ainda não tinham acontecido.Na maioria, eram sonhos que mais pareciam pesadelos. Tudo era uma incógnita para mim. Mariachamava essas coisas de premonições. Eu via a vida das pessoas e, se alguém mentisse, sabia queestava mentindo. Não sabia o porquê de estar acontecendo comigo. Eu era totalmente leiga nosassuntos da magia. E isso era algo agonizante, pois me deixava irrequieta e depressiva. Mas o certo éque minha vidinha monótona, sem graça e atordoada estava para mudar da água para o vinho. E issoaconteceu muito rápido. Quando meu corpo se arrepiava e me dava calafrios, era a forma de os meus sentidos de bruxame avisarem que algo ruim estava para acontecer. Mas, por não ter noção, a depressão passou atomar conta de mim. Chorava por qualquer coisa e sem motivos aparentes. Algo estava erradocomigo. E ninguém sabia como agir: eu precisava de ajuda, mas o socorro não vinha! Muitas vezesansiava por ver o mensageiro, que nunca chegava dando notícias de meu pai. Era mais uma fuga paraescapar da depressão. Estava ficando louca. Meus pensamentos mudavam de direção, como o ventode lugar. Onde estaria o mensageiro? Precisava vê-lo. Na verdade, ele só passaria às sete e trinta, seuhorário normal. De quinze em quinze dias, sempre nos trazia uma carta de meu pai, mas eu já nãoestava aguentando de tanta ansiedade. Fazia um mês sem notícias; meu coração estava apertado. Não havia conhecido minha mãe. Meu pai, no entanto, era tudo o que eu tinha naquelemomento. Minha madrasta era perversa e fingia ter um falso afeto por mim. Nunca me pegara aocolo ou fizera um afago em meus cabelos quando eu ainda era criança. Pelo contrário, humilhava-mecom palavras hostis e sempre me batia por qualquer motivo. Suas ameaças de me colocar em umconvento eram constantes. Era impressionante a falsidade e o fingimento daquela mulher. Na frentede meu pai, sempre me tratava com sorrisinhos forçados e uma delicadeza inexistente. Aliás, tudonela era demasiadamente falso. Lembro-me de certa vez, depois de ter apanhado muito e ter ficado com o corpo coberto porhematomas, ter sido trancada dentro do guardarroupa um dia inteiro. Gritei, quase desfaleci, mas elanão deixou ninguém me tirar de lá. Fiquei em estado catatônico. Maria, naquele dia, ficou do lado defora da porta, cantando para mim, tentando mostrar que eu não estava sozinha. Jamais me atrevi acontar para meu pai, pois Maria dizia que ele não podia ter aborrecimentos, devido à saúde instável.Ele estava com sérios problemas de coração e bebia muito. A crueldade de minha madrasta não estava só na forma como ela me tratava. Também era cruelcom os criados e escravos. Ela deixou um escravo, de nome Sandoval, sem comer por dias. E omesmo já havia feito comigo. Só que, por ser criança, adoeci e fiquei de cama. Maria convenceu meupai a chamar o doutor, e ambos quiseram saber por que eu estava tão debilitada. Minha madrastaentrou no meio da conversa, dizendo-lhes que eu estava muito angustiada devido às constantesausências de meu pai, e que eu havia perdido o apetite de tanta tristeza. Ela sempre encontrava ummeio de se livrar de sua culpa. Ela tinha certo requinte de crueldade e fazia meu pai sentir-sepéssimo. Ele, naquele dia, bebeu até cair em um canto da casa. Eu e Maria o achamos e o colocamospara dormir em um sofá. Maria não tinha medo dela, mas sabia que, se contasse, ela se vingaria emmim. Eu estava completamente indefesa e nas mãos daquela famigerada. Sua beleza e falsidadeseduziram meu pobre pai, que estava carente e solitário, com uma pequena menina recém-nascidanos braços. Não que Maria não estivesse dando conta do recado. Mas as cobranças entre os amigos eo preconceito da sociedade, por ele ser um viúvo ainda jovem, pesaram-lhe muito. É claro que sua 13
  14. 14. O segredo dos girassóis Adriana Matheusposição socioeconômica e o título de nobreza dela também colaboraram para aquela união deconveniências. Não sei o que fizeram de errado, mas ele se viu obrigado a se casar às pressas com a jovemcondessa Marli Del Prat, filha do duque e também viúvo George Von Del Prat. Meu pai foi um ricocomerciante, mas estava passando por muitas dificuldades financeiras, causadas pelos gastos de suajovem esposa. Isso tudo pesava em seu bolso e em seu coração. Ele era uma pessoa de pouco seabrir, o que poderia estar causando os seus supostos problemas de saúde. Alguns de nossos criadosestavam conosco há anos - como Maria, que havia sido praticamente criada em nossa residência.Seria muito injusto colocá-la na rua de uma hora para outra. Maria, que abdicou de toda a sua vidapara cuidar de mim, por amor e fidelidade a uma promessa feita à minha mãe em seu leito de morte...Passávamos por uma enorme crise financeira, enquanto a condessa gastava horrores em bailes,roupas e joias, desperdiçando o pouco que ainda tínhamos. Por ser muito jovem quando se casou com meu pai, passou a disputar comigo sua atenção. Erade uma beleza muito rara em meu país. Era filha de alemães e holandeses. E sua união com meu pai,que também era um fidalgo, embora falido, fora de grande valia política. Com essa união, seusparentes teriam livre acesso de trânsito dentro da Espanha, entre outros benefícios políticos. Minha madrasta era uma mulher esbelta, com formas muito bem definidas e fartas. Cabelosmuito negros e olhos azuis; sua voz tinha um tom suave e aveludado. Deixava os fidalgos, por assimdizer, abobalhados. Sua pele era rosada como o pêssego, seus lábios eram finos e havia uma pequenapinta sobre eles. Vestia-se sempre com as melhores roupas, embora exagerasse no brilho. E as joias, então? Eram sempre as mais caras! Não poupara o seu dote, esbanjando até aseconomias que meu pai fez no decorrer dos anos. Por isso, chegamos quase à beira da miséria. Com os gastos irregulares da condessa, meu pai passou, então, a fazer longas viagens, natentativa de fazer novos investimentos para salvar as finanças. A Europa era promissora e, por isso,ele ficava por meses fora de casa. Porém, minha madrasta não dava trégua com os gastos e continuava a esbanjar as poucaseconomias que nos restavam. Às vezes, ela parecia fazer aquelas coisas na tentativa desesperada deobter a atenção do meu pai – pois, devido à sua rara permanência em casa, estava deixando de ladoas obrigações como esposo. Mas, na minha cabeça, era por maldade mesmo que a senhora esposa de meu pai fazia todasaquelas coisas terríveis! Cheguei a flagrar meu pai soluçando pelos cantos da casa. Mas, a qualquerproximidade e tentativa de ajudá-lo, ele se esquivava e saía à francesa. Por dias trancava-se em seu escritório. Ele aparentemente não tinha muita alternativa, pois, secolocasse os pés para fora de seu refúgio, sua esposa o seguia tagarelando, exigindo e reclamandocoisas corriqueiras e sem muita importância. Eram visíveis, vergonhosas e humilhantes as discussõesdos dois perante a criadagem, que ficava debochando às escondidas. E quando ele não aguentavamais, a agressão passava da verbal para a física. Minha madrasta tinha seus defeitos, por certo, maseu não suportava ver meu pai espancando-a. Vi aquela mulher muitas vezes ter que ficar sem podercolocar o rosto para fora de seus aposentos por causa dos visíveis hematomas. A desculpa usada eraque ela estava indisposta ou com uma constipação muito forte. Os amigos de meu pai, por assim dizer, só o procuravam para farras e bebedeiras. Ele era umfraco e não sabia dar um rumo à sua vida. Estávamos vivendo em uma guerra fria e silenciosa. Umjogo de interesses e mágoas, em que a mais prejudicada era eu. Com tanta repressão, também aprendia abaixar a cabeça para tudo o que eles dissessem. Cheguei a pensar em suicídio, mas era covardedemais para isso. E por não conseguir me imaginar longe de meu pai e de Maria, sempre me calei,escondendo comigo suas tramoias. Os anos foram passando e a condessa não tomava jeito mesmo;passou a viver de armações para arrancar dinheiro de meu pai e outros fidalgos, que frequentavamminha casa na ausência de meu pai. Nunca tive voz ativa, meu pai só fazia presença e a pobre Marianão passava de um capacho, como o resto da criadagem. A autoridade-mor da casa era mesmo de sua 14
  15. 15. O segredo dos girassóis Adriana Matheusmajestade Marli Del Prat. Entre outras coisas, ela queria tudo só para si. Inclusive, o meu lugar comoherdeira única. Seu comportamento era detestável e nauseante, pois às vezes, para chamar atenção, ela secomportava como uma menininha, fazendo trejeitos e mesuras irritantes. Mas era só meu pai virar ascostas que sua personalidade aflorava, dando lugar à verdadeira pessoa escondida atrás daquelaaparência frágil e ingênua que a condessa criara como personagem, para engambelar a todos do sexomasculino. Mediante tudo isso, eu sabia que era improvável meu pai acreditar em mim. Eles não sesuportavam, mas tinham que manter as aparências e cumprir seus deveres perante a sociedade. Se eunão morasse naquela casa e se todos os dias não estivesse presenciando tanta falsidade e falta decaráter, certamente também não acreditaria! Pois aquela doce e jovem senhora e aquele tão elegantecavalheiro eram, na verdade, duas pessoas repletas de artimanhas. Quando meu pai viajava - além das festas constantes, que iam até altas horas -, a condessatambém se embriagava pelos cantos, enquanto eu era obrigada a ficar trancada em meu quarto, paranão ver o que realmente acontecia. Suas risadas altas e histéricas no corredor incomodavam-me e,por várias vezes, tive que tampar meus ouvidos, colocando chumaços de algodão para não ouvir asatrocidades que saíam ecoando pelo corredor. Como desejava ter tido outra vida...! Não podia ver,mas sabia que ela estava com outros homens. Não seria difícil flagrá-la nas proximidades do nossojardim com os lordes e os fidalgos, frequentadores de suas constantes festas noturnas. E se alguém avisse, ela se justificava, dizendo que fazia aquilo para o bem de todos e das finanças. Se não tivesse vindo de uma família de nobres, eu a consideraria uma cortesã, devido à suaconduta leviana e vulgar. Minha vida naquela casa foi triste, sem sentido. Estava a me transformarem uma pessoa revoltada. Minha luta era comigo mesma, eu não poderia me transformar naquelapessoa vazia e sem vida que eles queriam que eu fosse. Maria ensinou-me que, quando alguém deixamorrer os sonhos, a vida acaba. Ela dizia que só não sonhava quem não tinha a capacidade pararealizar. Eu tinha sonhos... e eram muitos. Só não sabia onde eles estavam naquele momento. Nunca frequentei escola, mas estudei em casa. Tive aulas de língua estrangeira, piano eliteratura. Minha professora, a Senhorita Ludmila Lavenier, era minha única companhia, depois deMaria. Tinha mais ou menos trinta anos, embora aparentasse ser mais jovem. Era de origemholandesa e herdou o sobrenome de seu avô paterno, que era francês. E por ter sido criada e educadana França, seu sotaque era encantador. Por muitas vezes desejei que ela tivesse conhecido meu paiantes de minha madrasta. Ela era culta, simpática e divertida. Sua cultura era consequência de suasmuitas viagens pela Europa. Sempre muito elegante, discreta e muito ponderada ao se dirigir àspessoas. Tinha um tom de voz paciente e educado. Era admirável ver uma mulher muito além doséculo XVIII, conhecedora de várias culturas e mestre em disciplina familiar. Comentavam as más línguas que ela tinha vários amantes, e que era uma mulher com ideiasmuito opostas. Alguns chegavam a dizer que ela não era nada feminina em seu jeito de pensar. Maseram apenas boatos maliciosos. Ela mesma me contou que amou apenas uma pessoa em toda a suavida e que, por proibição dos pais dele, não puderam se casar, por causa de sua inferioridadefinanceira. Por isso, ela resolveu seguir em frente como educadora particular de finas senhoritas. Suas histórias eram incríveis! Contou-me que certa vez almoçou com o próprio rei, sentou-se àmesa real como sua convidada de honra. Não era o tipo de pessoa que desse ouvido a comentários emexericos dos outros. Era livre e independente, como eu gostaria de ter sido. Também me cotousobre as damas da corte para quem já tinha ensinado suas aulas de piano, e sobre os romancessecretos no palácio real. Ríamos muito. Senhorita DLú - era como gostava de ser chamada - foialtamente recomendada pela Senhora Carllota Gonzalez, uma governanta amiga de Maria, quetrabalhava na mansão do Marquez de Miqueias. Foi uma pena quando meu pai teve de dispensar seusserviços por causa dos ciúmes da condessa e, é claro, por causa da nossa situação financeira, que nãoia nada bem. O resto, aprendi por conta própria. 15
  16. 16. O segredo dos girassóis Adriana Matheus Assustei-me quando Maria entrou em meu quarto sem bater, com a bandeja de café. Maria erauma mulher gentil, educadíssima e extremamente respeitável. Podia-se dizer qualquer coisa sobreMaria, menos duvidar de sua conduta, inabalável. Era uma mulher de estatura baixa, rechonchudacomo um empanado de frango. Fazia questão de manter seus cabelos negros presos em um coqueperfeito. Tinha os olhos grandes e negros, lábios largos e era muito severa com os seus subalternos.Usava luto constantemente em sinal de respeito à memória de minha mãe. E ficou muito aborrecidaquando papai casou-se novamente, embora nunca se atrevesse a dizer. Nunca se exaltava e constantemente usava de ironia em suas conversas. Acho que herdei suamaneira de ser. Ela nunca conseguiu dizer-me não. Mas, às vezes, colocava-me de castigo, o que erapior do que levar chineladas. E ali, naquele momento, observando-a de costas, percebi que seu peso,embora não condizente com sua estatura, dava-lhe certo charme, porque mantinha uma posturaelegante e ereta. Deveria ter sido muito bela quando ainda jovem. Por certo, foi desejada entre oshomens. A pobre mulher não se casou, não tinha filhos, passou a vida toda se dedicando a mim e ameu pai. Era filha de espanhóis ciganos. Tinha o estranho costume de prever o futuro através das cartasdo tarô. Por várias vezes, às escondidas, abriu o baralho para mim, sempre usando um ritual. Certavez, quando abriu o tarô para mim, depois de muito fitá-lo, começou a chorar. Fiquei sem saber oporquê daquele pranto incessante. Minhas tentativas de interrogação foram em vão, e de nadaadiantava tentar consolá-la, pois seu pranto era incessante. Maria abraçou-me e disse: _ Tem um triste futuro, minha filha! Precisa comer alguma coisa. Abriu as janelas e afastou as cortinas de organza e seda cor-de-rosa. Ajeitou a bandeja com odesjejum na mesinha de lanches, que era de cristal e cobre decorado, trazida da Inglaterra por minhamãe. Em seguida, saiu enxugando as lágrimas e dizendo, entre dentes, que os afazeres a esperavam,deixando-me com as respostas ao vento mais uma vez. Sempre tão atenciosa e dedicada, mas muitometiculosa e misteriosa quando se tratava das cartas. Detalhei a mesinha novamente naquelemomento nostálgico de minha vida e lembrei-me de meu pai, que certa vez contou-me que minhamãe ficava horas escrevendo suas receitas e seus poemas ali. Ele dizia que ela era cheia de mistérios.Interrompi novamente meus pensamentos, pois a copeira entrou, trazendo uma ânfora com águamorna e colocando-na na bacia de porcelana chinesa. _ Não vai comer menina? - perguntou a copeira. _ Daqui a pouco, estou meio sem fome agora. Ela saiu, fazendo-me ameaças de que, se eu não comesse tudo, chamaria o doutor. Só de pensar,senti arrepios! Ele era um velhote horrível, com cara de louco. Fumava um charuto fedorento, o seucheiro pessoal dava-me náuseas. Sua barriga salientava-se por cima daquela roupa encardida, que jánão via água há séculos. Sem contar que metade de seu rosto ocultava-se em algum lugar entre abarba e o tenebroso bigode. Se olhássemos muito, víamos uma saliva escorrendo no canto externodos lábios. Eu ficava doente só em pensar que o teria perto de mim, colocando-me aquelas mãosamareladas pelo tabaco. Nunca o vi lavar as mãos para me examinar. Toda vez que ele ia me visitarquando criança - para exames rotineiros ou qualquer outra coisa -, se eu estivesse doente, ficava pior.E se eu não estivesse, aí ficava mesmo. Arregalei os olhos de pavor! Sentei-me na cama, coloquei abandeja no colo e comi tudo o que havia no desjejum, pois, com certeza, ela cumpriria sua promessa.Ela, sorrindo, parecia ter lido meus pensamentos. Aliás, sempre fazia isso. Dei uma espreguiçadelagostosa no ar e empurrei a bandeja vazia. Voltei para a janela, fiquei por horas observando ojardineiro Joseph, enquanto ele cuidava das rosas com dedicação e minúcia. Vi Maria levando paraele café e sequilhos. Ele sempre estava próximo dela e pareciam tão felizes! Maria sorriu e saiu emseguida, toda faceira. 16
  17. 17. O segredo dos girassóis Adriana Matheus Não demorou muito e logo estava de volta para buscar a bandeja. Tinha nos lábios um sorrisoque não era habitual. Definitivamente, Joseph a fazia muito bem. Deu um suspiro profundo antes deme fazer um convite para passar sua folga com ela: _ Senhorita Anna, gostaria de passar o fim de semana comigo na casa da minha irmã que morano interior? Perguntei se tinha avisado à senhora minha madrasta, o que confirmou entusiasmadíssima com acabeça. Pediu que me apresasse e saiu toda satisfeita porta afora. Fazia muito tempo que eu não a via daquele jeito. Maria sempre tivera permissão para ir visitarseus parentes no interior e, por certo, não era essa a causa de sua súbita alegria. Daria tudo para sabero que Joseph tinha-lhe falado. Tomei um banho caprichado, com os sais que ela fizera para mim.Escolhi um dos meus mais lindos vestidos. Mas este era adorável, em tom areia, todo rendado e commuitos babados. Seu decote deixava meus ombros à mostra. Olhei-me no espelho e senti-me bemousada, mas mantive a discrição quanto aos exageros. Gostava de ficar admirando-me ao espelho eali, olhando o retrato de minha mãe, comecei a fazer comparações entre nós duas. Naquele momento,percebi o quanto me parecia com ela. Meus olhos eram cor de mel, puxando para verde. Meus cabelos tinham cachos largos e eram deum tom castanho quase dourado. Minha pele, morena clara, era perfeita e sem nenhuma mácula.Meus lábios eram grossos. Definitivamente, eu a mistura perfeita das raças. Minha mãe era inglesa,de pele muito clara e olhos muito azuis. Seus cabelos eram de um tom castanho-claro, quase louro.Fitando-a naquela fotografia, achei-a parecida com um anjo. Eu havia herdado dela não só a beleza,mas também a elegância e o tom polido na fala. Minha cintura era extremamente fina e eu só usava oespartilho por mero capricho. Esse tipo de arrogância e vaidade foi uma coisa das quais me arrependide ter tido. Embora ela tivesse morrido quando nasci, esses eram os comentários a seu respeito. Naaparência, achava-me igual à minha mãe, e sentia muito orgulho disso! Meu pai não ficou atrás. Eleera um espanhol muito alto, olhos cor de mel, pele bronzeada e cabelos claros e lisos, ombros largose fortes. Lembro-me de vê-lo, quando eu era criança, depois de chegar de suas caçadas, montado emseu cavalo baio. Ele se parecia com um personagem de contos de fadas. Ficava louca, esperando queele me colocasse em sua garupa e me levasse para cavalgar em seu colo. A sensação de proteção eliberdade era um misto formidável. Que pena não podermos voltar atrás no passado, no exatomomento em que fomos mais felizes... Neste momento, mediante tanto sofrimento, é que percebocomo eu tinha uma vida fútil e, por certo, poderia ter feito mais pelo meu semelhante. Às vezes ele tentava ser durão com os empregados, mas seu coração era bom e acabava voltandoatrás. E quando sorria... era perfeito! Seu olhar era penetrante e sedutor. Aposto que mamãe, ao vê-lo, apaixonou-se imediatamente. Esse era o tipo de amor que eu queria para mim: eterno everdadeiro. Eu tinha certeza de que ele ainda a amava, pois sempre trazia consigo, dentro do relógiode bolso, um retrato dela. Mesmo casado com minha madrasta, ele ainda, às escondidas, ficavafitando com ternura aquele retrato. Ao se casar com a condessa, meu pai tornou-se carrancudo e grosseiro, afastando-se de mim diaapós dia. Passei a me sentir culpada por minha mãe ter falecido durante o parto. E minha madrasta,ao perceber meus temores infundáveis, passou a agredir-me, chamando-me de pequena maldição.Dizia ser eu a culpada pela morte da minha mãe e pelo fato de ela nunca ter engravidado. Mas, umdia, meu pai a ouviu e interveio por mim. Disse-lhe que nunca mais queria vê-la fazer-me taisacusações levianas. A condessa engoliu seu ódio por mim naquele dia, e subiu para seus aposentos,fingindo estar se sentindo mal. Não me lembro de ter visto meu pai procurar por ela e pedir-lhedesculpas, como sempre estava acostumado a fazer. Essa foi a única vez, desde que me entendia porgente, que vi meu pai manifestar-se a meu favor. Usei uma fita negra de veludo ao redor do meu pescoço, com um camafeu de marfim de minhamãe. Agora só faltava a sombrinha cor de palha, com delicadas rosinhas azuis e outras com cor de 17
  18. 18. O segredo dos girassóis Adriana Matheusdamasco. Seu cabo era todo talhado à mão, e havia sido meu avô quem o fizera para mim. Agora simestava pronta para meu passeio naquele final de semana, que seria praticamente um dos últimos comMaria. Havia meses que eu não saía de casa. Por isso, não poupei esforços e caprichei naquelamanhã. Levei uma maleta com tudo que julguei ser necessário. Não me esqueci de colocar algunsmimos para presentear os donos da casa onde passaríamos o final de semana. Levei comigo minhaseconomias. Achei que seria o momento exato de gastá-las. Maria entrou no quarto, de repente, e fitou-me de cima abaixo. Ironizou, ao perguntar ondeseria o baile. Senti-me encabulada e corei de imediato. Ela ainda continuou a brincar, dizendo que,daquela forma, eu iria arrumar pretendentes com muita facilidade. Sorri meio sem graça e falei que,se fosse somente para desfilar ao lado de um homem triste e carrancudo como meu pai, só paramostrar à sociedade que eu era capaz de arrumar marido, preferiria acabar solteirona e comendobolachas com chá. _ Minha nossa! Pensei que eu iria poder descansar um dia! Mas, pelo que vejo, vou ter quecuidar de uma solteirona carrancuda - disse Maria, dando uma sonora gargalhada. _ Ah, Maria! Jamais me apaixonarei! Somente se o amor for verdadeiro e duradouro. Mas seique isso será impossível de acontecer, pois a nossa sociedade só visa o materialismo. E, levando emconta a situação financeira atual de minha família, isso será praticamente impossível, pois meu dotenão é considerado tão valioso como o de algumas jovens do condado! Também temos que levar emconta outro fato não menos importante. _ E qual seria? - perguntou Maria, curiosíssima. _ O fato de que a senhora minha madrasta pode ter furtado meu mísero dote antes mesmo de euter tido a chance de usá-lo. Dessa vez, nos duas caímos em risos. Mas ela ainda prosseguiu, tentando corrigir o meupensamento de depreciação para comigo mesma: _ Não quero que diga sandices, criança tola. Por certo, um jovem mancebo irá se apaixonar porti do jeito que é. Não podemos julgar todas as pessoas somente por conhecermos uma. Afinal, osdedos das mãos não têm o mesmo tamanho. _ Hummm... E quem seria essa pessoa tão escrupulosa e tão pouco materialista, que vê umamoça pelo que ela é, e não pelo dote que ela possui? E quanto aos dedos das mãos, Maria, eu já osobservei. Não são iguais, por certo, mas têm o mesmo tamanho, só estão posicionados de formadiferente. Basta observá-los e verá que estou correta. Ah, Maria, nós fazemos parte de uma grandepeça teatral, na qual só mudam os personagens! E o cenário? Às vezes! Mas a história é sempre amesma. Principalmente para nós, mulheres, que somos nada mais nada menos do que merasmarionetes nas mãos dos nossos senhores. Não existe casamento sem conveniência, Maria. Valemoso dote que possuímos, ou seja, o dote que levamos como bagagem. Ouso dizer que a própriacondessa foi uma dessas vítimas. _ Agora sei que a senhorita já não está mais em seu juízo perfeito! A senhora Del Prat? Umavítima? Nunca! _ Maria, acha que ela também não foi obrigada por seu pai a casar com um homem viúvo, queainda trazia de bagagem uma filha nos braços? Pense bem, não deve ter sido fácil para ela, ter que secasar só porque já estava com vinte e oito anos. Temos nossas diferenças, isso é certo. Mas nãoposso culpá-la por ser como é. Ela é mais uma vítima de nossa sociedade. Já pensou o que é ter quever seus sonhos sufocados? E se ver aprisionada a uma vida infrutífera e sem volta? Não é a senhoramesma quem disse que, quando os sonhos morrem, morremos com eles? Por isso ela desconta toda asua ira em mim. E ainda deve, por certo, sentir-se completamente frustrada por não poder ter tidofilhos. Até agora, com quarenta e oito anos, isso deve ser horrível! Imagine só como a sociedade emque ela vive cobra dela o tempo inteiro. Todos nós temos problemas. Os delas são ainda piores queos meus. Acredite! 18
  19. 19. O segredo dos girassóis Adriana Matheus _ A senhorita está completamente certa. Mas isso não quer dizer que ela deva sair por aí,pisando nas pessoas menos favorecidas. _ Concordo com a senhora! Mas não somos ninguém para julgá-la. Ela foi criada com tudo dobom e do melhor, nunca soube o que é sequer trocar a própria roupa. Ela foi mimada em demasia.Tornou-se prepotente, ou quer que a vejamos assim. Já a flagrei muitas vezes, depois de suas festas,fitando o horizonte, visando sabe-se lá Deus o quê! Ela, de fato, não ama meu pai, mas ainda prefereficar com ele a voltar para sua casa na Alemanha. Imagine o que diriam de uma mulher, com o títulode nobreza que ela possui, se alguém soubesse que ela saiu da casa de seu marido? Não a veriamcom respeito. E o que ainda é pior, não se casaria novamente, principalmente por não poder darfuturos herdeiros. Tenho certeza de que a severidade do conde, seu pai, e ainda as cobranças dasociedade repressora são piores do que os apertos e a solidão que tem passado aqui. Ou a senhoraacha que uma pessoa como ela não é solitária? _ Por certo tem razão, minha querida e doce Anna, mas não consigo entender como consegueachar qualidades em pessoas como essa senhora. _ Não é questão apenas de ver qualidades nela; é questão de entendê-la, como mulher e comoser humano. E ela só é maldosa porque é revoltada. Prefiro ver as pessoas por outro ângulo. Casoassim não fizesse, odiaria mais gente do que a quantidade de cabelos que tenho em minha cabeça.Não me importo com o que ela faz comigo. Vai ver ela está certa, nunca encontrarei um bom homempara mim. _ Pois lhe digo que isso acontecerá em breve, e rezo para que Deus lhe perdoe pelo passo queterá que dar. Sinto não poder interferir em seu destino, minha filha. Pois, caso pudesse, garanto-lheque ele seria muito mais ameno do que o previsto. E agora pare com suas ideias mirabolantes einocentes a respeito do ser humano. Para mim, pessoas más escolhem ser como são. E saiu, olhando os dedos das mãos. _ Por que, Maria? - gritei. Viu isso em suas cartas de tarô? Estiquei meu pescoço, tentando achar sua face. Quando ela se virou abruptamente para mim,notei profunda tristeza em seu olhar. _ Por que nunca me responde a essa pergunta tão simples? - indaguei insistente. _ Talvez porque esta resposta seja simples demais, e só possa ser respondida pela senhorita!Lembre-se: todas as respostas estão dentro da gente. Agora chega de conversa e siga-me, pois vamosacabar nos atrasando. Segui-a, em silêncio e cheia de controvérsias mentais. Se todas as respostas estavam dentrode nós, por que sempre errávamos em nossos julgamentos? Ao descermos a escadaria, Maria foi até a cozinha para dar as ordenanças finais à criadagem.Fiquei entre os dois últimos degraus, observando tudo à minha volta. A mobília, embora fosse muitocara e exuberante, era de extremo exagero e de um mau gosto imperdoável. Observei tudo a meuredor e fechei os olhos para me lembrar até dos mínimos detalhes. Estranhas a sensação de perda e asaudade antecipada que tomaram conta de mim naquele momento. Era como se eu não fosse maisver aquilo tudo de novo. Senti medo e tristeza. Minha madrasta observava-me do alto da escada. Ela era como uma sombra constante em minhavida. Às vezes, tinha a impressão de tê-la em frente a mim enquanto dormia. Não resistindo, ela dissealgo para me ofender. _ Desse jeito voltará casada, com um plebeu. Aliás, é bem o seu tipo. Nunca se parecerá comigo,não conseguirá um bom partido e jamais terá um homem a seus pés. Acha mesmo que pode copiar-me? Criança tola! Não tente, não sou sua mãe, nunca quis ser. Não vê que sou a mulher do seu pai, eque ele já a esqueceu há muito tempo? O seu reinado acabou, minha querida - se é que um diaexistiu! A condessa disse essas coisas enquanto descia a escada, cambaleando. Dessa vez, excedeu-seem sua soberba, arrogância e presunção. E a maneira com a qual falava a respeito de meu pai ferveu 19
  20. 20. O segredo dos girassóis Adriana Matheusmeu sangue. Mas Deus me deu forças para não perder a paciência. Levei em consideração que elanão estava sóbria naquele momento. Na verdade, senti pena dela. O cheiro da bebida era tão forteque me tonteou, devido à pouca distância que ela fez questão de manter para me assustar - o queconseguiu. Em seus olhos, percebi um ódio aterrorizante. Fiquei tão nervosa e indignada – e, ao mesmo tempo, assustada -, pois não sabia o porquê deela realmente me odiar tanto. Eu sabia que eu poderia ter respondido à altura. Mas não o fiz.Desvencilhei-me dela o mais rápido possível, e saí porta afora, às pressas. Pude, ainda, ouvir seusgritos histéricos e rompantes pelo lado de fora. _ Vê se arruma um plebeu, velho, gordo e fedido por lá e suma com ele para bem longe dasminhas vistas. Assim, vai poupar-me o trabalho de ter que eu mesma despachá-la para o inferno! Ergui minha a cabeça e fui até o jardim, onde estava nosso jardineiro Joseph. Aproximei-medele e abaixei-me para cumprimentá-lo melhor. Eu estava tremendo tanto que ele, parecendo terpercebido, mas também não querendo deixar transparecer para que eu não ficasse ainda maisconstrangida, cortou um botão de rosas com um gesto de delicadeza, dando-me em seguida. Por fim,disse, ainda de cabeça baixa: _ Uma rosa para uma linda flor! Sabe, senhorita, a patroa ladra mas não morde. No fundo, elasente tanto medo da senhorita quanto a senhorita dela. Sorri em agradecimento e aproximei-me, inclinando-me e segurando sua cabeça com as mãospara lhe dar um beijo na testa. Na verdade, eu compreendia o que ele estava tentando me dizer.Imagine só: minha madrasta com medo de mim! Embora parecesse hilário, era a mais pura verdade.Só que, naquele momento, eu só conseguia ver o medo que eu sentia dela. Joseph era um velhinho simpático e muito agradável. Quando eu era criança, sempre me contavahistórias e contos folclóricos sobre o povo cigano, e era fantástico ouvi-lo. Levantei-me para olhar aoredor e admirar o esplendor do magnífico jardim. Eram tantas flores! Rosas de todas as cores etamanhos, margaridas, gerânios, florzinhas do campo, violetas, dálias, cravos, jasmins, orquídeas,papoulas, plantas ornamentais... Tudo aquilo tinha cheiro de amor e fazia-me muito bem. Todaaquela beleza misturava-se ao perfume da hortelã, da alfazema e do alecrim. A condessa tentou fazer com que meu pai acabasse com o jardim por várias vezes. Mas elesempre ficou em cima do muro e nunca deu uma resposta positiva a ela. Aliás, seria novidade se elefosse negativo a alguma coisa relacionada a ela. Para essa questão, ele apenas disse que iria pensar.Minha madrasta continuou insistindo com esse assunto por muito tempo. Mas, depois de nunca ouvirum sim conclusivo, acabou desistindo por certo tempo. Quando se casou, trouxe consigo toda uma decoração pavorosa, inclusive as estatuetasmonstruosas e sem nexo que passaram a decorar o belo jardim da minha família. O pior é que ela asfixou no centro, próximo à janela do meu quarto. Lembro-me de quando eu era pequena: aoescurecer, sempre que olhava pela janela, tapava os olhos com as mãozinhas, pois me davam muitomedo. Elas eram como pessoas decepadas e, na minha mente frutífera e infantil, mexiam-se epareciam estar caminhado em minha direção. Eu corria para debaixo das cobertas, deixando de forasomente o pequenino nariz para respirar. Eu suava e tremia tanto que, quando Maria vinha dar-meboa noite, tinha que trocar minhas roupinhas molhadas. Ela sempre me acalentava com suas cantigasde ninar, na tentativa de me acalentar até que eu dormisse. O cavalariço Sr. Lorenzo aproximou-se de mim por trás, assustando-me. _ Calma, senhorita Anna! Só vim saber se está tudo bem, pois ouvi quando a Senhora Del Pratestava a gritar com a senhorita exasperadamente. Ela fez algum mal à senhorita? _ Não, Sr. Lorenzo, ela apenas ladrou um pouco além da conta. Foi só, juro! Ele pareceu não crer; então reforcei, olhando em seus olhos. _ Sim. Está tudo bem. Deve ser a astenia causada pela ausência de meu pai, ou o excesso delicor de jenipapo. _ Ah, por certo a Senhora deve estar precisando de uns calmantes em dosagem maior. 20
  21. 21. O segredo dos girassóis Adriana Matheus _ Oh, não diga isso! Não se pode misturar calmantes a licores. Começamos a dar gargalhadas. Lorenzo conseguiu descontrair-me, afinal. Maria veio emseguida e disse: _ Imagine só, esses criados jovens não fazem nada direito! _ Maria, Maria! Não estaria sendo a senhora exigente demais com os pobres coitados? Não estátentando tirar o lugar da senhora Del Prat, está? Maria fez-me um ar de desaprovação pelo meu comentário esdrúxulo. Lorenzo já haviacolocado nossas bagagens na carruagem. Abriu-nos a porta para entrarmos. Seguimos, então, nossocaminho em direção ao enorme portão verde musgo, com pontas em formato de lança e pintadas emdourado. O enorme brasão da família Del Prat estava logo à frente. A passarela toda, de pedrasgrandes e polidas pelo passar dos anos, dava à entrada um ar de realeza. Pude ver a estufa ondeJoseph cultivava as mudas; era logo na lateral do jardim. Quatro bancos foram colocados no decorrerdo caminho, dois de cada lado. Um escravo veio abrir o portão. E, pela primeira vez, senti-me em liberdade, longe daquelesmuros de medo e tristeza. Suspirei aliviada. Mas era estranho, pois a sensação de que nunca maisveria tudo aquilo novamente não me largava. Minha sombra olhava-nos às escondidas, por trás das cortinas da grande janela de vidro da salade estar. Parecia uma ave de rapina. O que será que se passava naquela cabeça louca e cheia deluxúria? Sacudi minha cabeça, rindo comigo mesma. Maria pareceu ler os meus pensamentos - aliás,ela era a minha sombra mental e era constrangedor, às vezes, ter os pensamentos invadidos. Comoque em um impulso, Maria disse: _ Pare de criar caraminholas nessa cabecinha, menina! Dei de ombros, virando o rosto para o outro lado, mas percebi que ela também sorria. Maria erauma mulher muito perspicaz e, por isso, achei melhor centralizar meus pensamentos na paisagem aomeu redor. As ruazinhas eram estreitas e encantadoras, com suas belas e elegantes casas, todas decoradascom jardins repletos de flores, pois era a moda trazida da Europa. As árvores frondosas, quecercavam de um lado a outro as calçadas, pareciam ter sido colocadas ali naquele momento, só parapassarmos numa passarela harmoniosa. Muitas pessoas afoitas já transitavam para lá e para cá. Senhoritas pareciam ocupadíssimas emdesfilar seus modelitos muito comportados e elegantes, num flerte compulsivo para atrair a atençãodos cavaleiros, que desfilavam na outra calçada. Afinal, ficar solteira poderia se tornar uma coisaescandalosa e dispendiosa para os pais. Estes juntavam dinheiro durante toda a vida para que suasfilhas não se casassem sem um dote adequado. Moçoilas em época de se casar só frequentam bailes em companhia de suas aias ou de seus pais.Jamais sozinhas, por medo dos mexericos. Sendo que a irmã mais velha é quem deveria se casarprimeiro, e a irmã mais nova, caso houvesse uma, tinha que ficar cuidando da mãe. Se o namorofirmasse, deveria durar um ano na sala da moça, que tinha que estar acompanhada de seus pais eoutras pessoas. Então, o próximo passo seria o noivado, que deveria durar apenas o tempo de oenxoval ficar pronto - isso queria dizer na semana seguinte, pois a maioria das mães fazia o enxovaldas filhas assim que as meninas nasciam. Claro que as jovens enamoradas também tinham quebordar grande parte do enxoval, logo que estivessem em fase casadoura. As meninas já estavamprontas para o casamento a partir dos doze anos, caso fossem nobres, e a partir dos quatorze adezoito anos, caso não tivessem título de nobreza. Isso significava que eu estava passando do tempode arrumar um marido. Todos procuravam um bom partido para suas filhas. Não se importavam com os sentimentosdelas. Na esperança de um futuro seguro, o amor era o de menor valor. Isso não era o que eu queriapara mim. Sempre me esquivei de senhores mais velhos. 21
  22. 22. O segredo dos girassóis Adriana Matheus Certa vez, em um jantar de que fui obrigada a participar em minha casa, meu pai apresentou-mea um fidalgo com o triplo de minha idade, sendo que eu tinha dezesseis anos nessa época. O velhoterodeou-me a noite toda e não consegui desvencilhar-me dele. O cheiro da bebida misturou-se aocheiro da roupa velha, que devia ter estado guardada desde o século XV. Isso era nauseante! Suasmãos eram oferecidas demais. O único jeito foi dizer que estava me sentindo muito mal. Comcerteza, era mais uma que a condessa havia aprontado para se livrar de mim, pois pude vê-la com seuolhar de deboche às escondidas. Mas, graças a Deus, a falsa dor de cabeça que forjei salvou-me maisuma vez. E, nesse dia, apertei os olhos ao passar na direção da condessa, constatando a minha vitória- o que causou uma torcida em seu leque de estimação. Voltei a observar a paisagem de Salamanca, enquanto Lorenzo contornava a praça central.Então, pude ver a linda fonte de águas no meio da praça. Depois de algumas horas, chegamos aonosso primeiro destino. Paramos à frente de uma enorme mansão cor-de-rosa. Era a mansão e oateliê de madame Hortência Vigald. Ela era uma senhora rechonchuda, de olhos grandes e amendoados. Seus seios eram fartos esalientavam-se por cima de suas vestes, repletas de rendas e outras mesuras. Para completar o visualexótico, ela ainda usava uma peruca loura cheia de cachinhos. Isso a fazia parecer uma boneca detrapo mal feita e assustadora de se ver à noite, sentada em uma cadeira no escuro. Ao ver-me, sempre me abraçava fortemente e melava-me com seus beijos babentos. Como eradifícil ser uma jovem educada e de boa índole, meu Deus! Tinha vontade de sair correndo. Às vezes,tinha a impressão de que ela poderia me morder com aqueles dentes enormes e escurecidos pelotempo. Mas também poderia correr o risco de ser engolida por aqueles lábios extremamente grandese lambuzados de açúcar, pela quantidade diária de doces degustados. Ao chegarmos, ela estava de péà soleira da porta, comendo uma brevidade. Ao ver-nos, correu em nossa direção, dizendo: _ Oh, querida, como está linda! E cada vez mais parecida com Elizabeth! Veio ver algunsmodelitos para si, meu bem? _ Não - salvou-me Maria. Viemos buscar a encomenda da Senhora Del Prat. Estávamos partindode viagem e, como não teremos tempo de buscá-la na volta, levaremos desde já a encomendaconosco. _ Oh, entrem! Pedirei a Gülia que lhes busque a encomenda. Sentemos, por favor! Aceitam umaxícara de chá com biscoitos? Façam-me companhia, queridas, nunca recebo visitas para o chá! Até parece, pensei comigo. Todas as clientes que por ali aparecessem por certo seriam motivopara madame Hortência tomar chá com biscoito - o que explicava sua forma rechonchuda. _ Não, senhora! Estamos com muita pressa e, além do mais, já fizemos nosso desjejum matinal. _ Oh, ficarei um tanto ofendida! Sabe como gosto da menina, embora quase não a tenha vistoultimamente. Por fim, aceitamos uma xícara chá para que ela não tivesse uma síncope. _ Então, querida, como está seu pai? Já retornou de viagem? _ Não, ainda não. E já fez um mês hoje. Confesso que estou bastante preocupada com a ausênciade notícias por parte dele. Isso anda me tirando o sono. _ Não diga! Mas com certeza não aconteceu nada de grave com Sir Juan. Nisso eu aposto! Sabescomo são os homens... Fique despreocupada, querida! Noticia ruim corre rápido. Ele é mesmo umhomem lindo! - suspirou ela. Um verdadeiro colírio para os meus olhinhos cansados! Se não fossecasado... e se eu tivesse um pouquinho menos de idade, candidatar-me-ia como sua madrasta! Umamadrasta boazinha, é claro! - fez esse comentário sorvendo, em seguida, um gole de chá. Por certo, ela teria que ter muito menos idade mesmo. Ela usava termos antigos, como se aindaestivesse no século XV, e forçava um falso francês. Na verdade, seus vestidos eram cópias exatas deluxo da moda francesa. Suas costureiras, sim, eram as verdadeiras artistas, pois madame Hortêncianunca sequer colocou suas mãos em uma agulha para coser. Eu e Maria nos entreolhamos, contendo uma sonora gargalhada. 22
  23. 23. O segredo dos girassóis Adriana Matheus _ Ah, mas aposto que existe algum jovem mancebo para consolar essa ausência! Olhei novamente para Maria, em busca de socorro. E suspirei quando pude ver que Güliaentrava, trazendo um enorme pacote nas mãos, que foi direto para as mãos do lacaio. Este o entregoupara Lorenzo, que nos aguardava pacientemente do lado de fora. Todo aquele movimento foi umalívio, pois me salvou de ter que responder às tolas interrogações de madame Hortência. Embora eunão tivesse uma vida social ativa, Madame Hortência fazia-me parecer que eu levava uma vidaagitada e pública, pois eu sempre tinha a obrigação de ter algo para contar a ela. Maria, percebendo meu constrangimento, apressou-a, dizendo que realmente precisávamos ir.Ufa, graças a Deus!, pensei comigo. _ Porque não escolhe um dos modelitos? – insistiu, ainda, na saída. _ Tenho tantos que acabaria tendo que dividir meu pouco espaço com eles! _ Entendo... Mas realmente sei que não precisa do brilho das lantejoulas e paetês para ser feliz.Tem o seu próprio brilho, e isso é nato. Disse isso num tom engraçado e baixo. Rimos todas ao mesmo tempo, pois nos lembramos deque, certa vez, a senhora Del Prat encomendou um vestido tão espalhafatoso e reluzente que maldava para ver suas caríssimas joias penduradas ao pescoço. Foi uma noite difícil aquela, pois minhamadrasta chamou mais atenção do que a noiva ou a própria rainha. A noiva era uma pupila de muita estima de Sua Majestade. Por isso, esta fez questão de estarpresente entre os convivas. A condessa só foi convidada por causa de seu titulo de nobreza, mastinha que aparecer a todo custo. A rainha, ao vê-la, disfarçava e educadamente esquivava-se a cadaproximidade da Deusa do sol. Naquele dia, minha madrasta superou-se em seus exageros. Doía avista de todos ao olhar para aquela figura brilhante. Meu pai e eu ficamos em um canto distante dela,é claro. Percebi seu constrangimento mediante tantos sussurros zombeteiros. Já dentro da carruagem, não sabíamos se ríamos das lembranças reluzentes da condessa ou senos deliciávamos dos fuxicos de Madame Hortência. O dia estava lindo e o sol resolveu dar o ar de sua graça naquela fria manhã de outono. Aopegarmos a estrada, contemplávamos a paisagem magnífica. Eu estava encantada com tantasnovidades que vinham surgindo à beira do caminho. Conversamos muito sobre coisas banais do dia-a-dia. Não tocamos em assuntos que não nos eram convenientes ao espírito. Durante todo o trajeto, cantarolamos canções ciganas e ríamos por qualquer coisa. Maria fez detudo para que eu me desligasse dos problemas corriqueiros e domésticos. Depois de uma rápidaparada para nos refrescar à beira de uma velha mina d’água, comemos o delicioso lanche que Mariahavia trazido em uma cesta. E seguimos a nossa longa jornada pela empoeirada estrada do norte daEspanha. Afinal, pela altura do sol, já devia ser meio dia. Dentro da carruagem, adormeciprofundamente, encostada aos ombros de Maria. Só despertei quando a carruagem passou por umapedra saliente. Maria bateu no teto e gritou para que o cocheiro tomasse mais cuidado. Depoisdaquele susto, perguntei se já havíamos chegado. _ Quase! - respondeu-me Maria - Continue a dormir! – prosseguiu, com um tom na voz quemais parecia um bocejo. Não conseguia dormir mais e comecei a olhar as folhas das árvores caídas ao chão, formandouma espécie de tapete celestial. Casinhas de colonos ao longe, muitos gados a pastar. O cheiro domato e o silêncio ensurdecedor fizeram-me adormecer novamente. Uma voz ao longe pareciachamar-me Anna, Anna! Sinto sua falta... Encontre-me, por favor! Meus olhos foram ficando cada vez mais pesados e, por fim, caí no abismo dos sonhos. Sonheique estava em um mosteiro, todo feito em pedras calcárias de cor escura. O lugar mais parecia umaruína. Havia um enorme jardim, totalmente abandonado, onde só os girassóis sobreviviam. Muitosmonges trabalhavam nas plantações, tentando salvar o pouco que lhes restava da seca, que eraeminente. Outros cuidavam dos animais magros e doentes. Alguns, ainda, varriam incessantemente opatíbulo, cuja terra havia invadido todo o mosteiro. Aquilo me pareceu mais um ato de loucura 23
  24. 24. O segredo dos girassóis Adriana Matheuscoletiva. Ao longe, ouvi um coro com música gregoriana - misturada às orações, pareciam lamentose suplícios. No patíbulo do mosteiro, logo na entrada, havia um monge, que me olhava de um jeito hostil,quase humilhante. Parecia ser uma espécie de abade. Ele era sério, atarracado, baixo e corcunda. Suapele era avermelhada, manchada e descamada por causa do mau tempo. O que o diferenciava dosdemais monges era apenas uma enorme cruz na frente de suas vestes, encardidas e rasgadas.Algumas freiras circulavam de um lado para o outro, como que hipnotizadas. Vi-me descer de umacarruagem, e seguraram meus finos braços, empurrando-me aos safanões para dentro do mosteiro.Tentei fugir, mas as mãos que me seguravam eram fortes e severas. Eu olhava para trás, tentandopedir socorro à Maria. Ela nada parecia poder fazer. As lágrimas desciam incessantes dos olhos deminha amada amiga, que ficava cada vez mais para trás. Tentei fugir inutilmente. Gritei por socorro e deixei o pranto rolar. Chamei por Maria, até que avi cair por terra, como que sem forças. Meu corpo tremia. O desespero tomou conta de mim, porsaber que estava ficando longe de meus familiares. Tentei agarrar-me onde dava. Todos ao redorolhavam-me e viravam seus rostos, numa repulsa sem explicação. Uma jovem freira ainda tentou desgrudar-me daqueles braços e mãos, mas outras a puxaram e sóouvi dizerem-me para ter fé. Outra freira, bem mais velha, veio receber-nos à porta do convento. Erauma senhora carrancuda e com ares de perversidade. Provavelmente, a madre superiora. Sua expressão de algoz conseguiu gelar minha alma. Mandou-me calar a boca aos berros,advertindo-me que ali não era lugar para toda aquela histeria. Por fim, levaram-me para dentro,forçosamente. Virei para trás, dando uma última olhada para meu pai, que ficou na entrada,conversando com a suposta madre. Deixaram-me só, em um corredor onde havia um enorme banco, uma mesa, uma cadeira e umarmário antigo, onde pareciam guardar arquivos e documentos. A sala era escura e não tinha sequerum vaso de plantas. De repente, ouvi um barulho e a porta se abriu. Estremeci como vara de bambu ao vento. Mas,ao contrário de quem pensei que fosse, entrou um monge de hábito marrom e cabeça baixa eencapuzada. Aproximou-se de mim lentamente, ajoelhou-se e fitou-me os olhos. Seus olhos eram corde mel, sua pele, muito branca, e seu rosto angelical escondia-se por trás de uma fina e rala barbaruiva. Aqueles olhos meigos passaram-me segurança e calor. Abaixou o capuz, esticando para mimsuas brancas mãos. Seus dedos eram logos e finos; sua pele tinha uma maciez que arrepiou todo omeu corpo. Sua proximidade era tamanha que pude ver as pequenas sardas por baixo dos pelosruivos de seus braços. Embora a barba estivesse por fazer, ela lhe dava um ar de intelecto. Seustraços eram finos e ele mais parecia um lorde. E, por certo, era de origem inglesa ou holandesa. Fiquei gelada e catatônica, e cheguei a pensarser um dos loucos que havia visto ao chegar. Mas ele me passou tanta paz e tranquilidade ao pegarnovamente em minhas mãos, trêmulas e geladas, que novamente acalmei. Então, disse simplesmente: _ Estou à sua espera há tanto tempo, Anna. Perdoe-me por tê-la deixado! Nunca mais nossepararemos, prometo! De repente, num piscar de olhos, estávamos sem mais nem menos em um despenhadeiro, ondese via todo o mar da Espanha, lindo e de um azul inigualável! A areia, muito branca, completavaaquela paisagem. O vento soprava forte, como se estivesse me dizendo algo que eu não conseguidecifrar naquele momento. Podia sentir o cheiro da maresia nas minhas narinas. Fiquei muitoagoniada com aquela sensação. Meus cabelos estavam soltos e voavam com as minhas vestes, todaem algodão fino e transparente. Ele segurou minhas mãos, e comecei a me sentir segura e feliznovamente, como nunca havia sentido antes em toda a minha vida. O vento era forte demais e frio. A estranha sensação voltou. Comecei a tentar desesperamentesoltar minhas mãos das dele. O cheiro da maresia foi se transformando em cheiro de medo. Por fim, 24
  25. 25. O segredo dos girassóis Adriana Matheuso monge soltou minhas mãos e senti seus dedos desprendendo-se dos meus. Caminhou em direção aodespenhadeiro. Meu coração disparava ao ver a agonia em seus olhos. O brilho daquele olhar feliz transformou-se em súplicas. O musgo viçoso daquele olhar agora era nada mais do que escuridão. De repente, aescuridão tomou conta de tudo ao meu redor e vozes tenebrosas cercaram-me. Ele me deu um sorrisotriste, com os lábios fechados. Virou-se de costas, caindo no despenhadeiro, gritando o meu nomenum apelo desesperado. Seu corpo caiu nos rochedos e o mar revolto ficou batendo nele, já sem vida. Gritei como loucae percebi que eu não estava mais ali, que era só mais um sonho. Vozes chamavam-me, misturando-se ao barulho das ondas. Tudo começou a virar fumaça eacordei suada e chorando muito, com Maria ao meu lado, chamando-me: _ O que houve, filha? - perguntou Maria, passando as mãos no meu rosto, tentando enxugar aslágrimas que ainda desciam como fonte de tristeza. Entre soluços, disse-lhe: _ Sonhei com o monge novamente, Maria, aquele dos meus sonhos de criança! Já fazia tantotempo que não sonhava mais com ele! O engraçado é que sempre sei que estou sonhando, sei que aqualquer momento irei acordar. Às vezes chego a ouvir meus suspiros dormindo, e até vejo meucorpo em seu estado de repouso. Por que isso está acontecendo comigo de novo, Maria? Ele sematou? Pois o vi caindo no mar! Não consigo entender o que realmente houve com ele. Tentei salvá-lo, mas já era tarde demais, juro! Ele se foi muito rápido. Quem é ele, Maria? Por que esses sonhosincessantes? Maria aproximou minha cabeça do peito, na tentativa de me acalentar, pois eu já não conseguiafalar. Apenas soluçava. _ Calma, querida, vamos resolver tudo isso hoje. Minha irmã Helena saberá ajudá-la. Não existepessoa melhor neste mundo que entenda mais sobre este assunto do que ela. Olhei-a, espantada. _ Pensei que fosse a senhora a entender desses assuntos? _ Não. Abandonei o meu povo e agora não faço nada mais além de por cartas e fazer meus chás.Agora enxugue essas lágrimas. Chegamos ao nosso destino. Devemos nos preparar para descer comdiscrição. Afinal, não queremos que ninguém veja seus olhos inchados. Ou vai querer que pensemcoisas de uma mocinha tão fina? Embora soubesse que Maria só estava ironizando, não me incomodava nem um pouco com oque os outros pensariam de mim. Só queria uma explicação plausível para tudo o que estavaacontecendo comigo. Queria que aqueles sonhos parassem logo e que eu pudesse dormirtranquilamente alguma vez na vida. Eram seis horas da tarde quando paramos em frente a uma casa grande, toda feita de pedrasescuras, com portinholas duplas e largas de madeira, pintadas com tinta azul envelhecida edesgastadas pelo tempo. Abriam-se de cima para baixo. Suas janelas eram estreitas e muito altas,dando a impressão de ser uma igreja. Alguns cipós teimavam em subir por toda a parede do lado defora, dando a ela um ar de casa medieval. Observei várias mulheres colocando suas roupas - muitoalvas - nos grandes varais que estavam na lateral. Outras trabalhavam em fiares e, ainda, teciamtapeçarias. Crianças corriam e gritavam como loucas, brincando umas com as outras, sujando-se deterra e de barro, sem ninguém para lhes privar a liberdade. Todos estavam tão ocupados em seus afazeres que não deram a menor importância para a nossachegada. Avistei um celeiro a uns cem metros, onde deveriam guardar seus cavalos e outros animaisde grande porte. Um pouco mais ao longe, via-se um moinho d’água - com sua enorme pá girando sem parar – e,do outro lado, havia uma mata fechada, que parecia guardar todos os segredos daquele povomisterioso. 25
  26. 26. O segredo dos girassóis Adriana Matheus Animais domésticos circulavam por toda parte. Árvores frondosas e gigantescas cercavam toda acasa. A mata, constituída por cedros, pinheiros, oliveiras e árvores frutíferas, formava uma cercaviva. Por isso, não dava para vê-la ao longe ou mesmo da parte mais próxima da estrada. A própriafloresta era o muro que guardava toda aquela beleza e simplicidade. Senti no ar uma grande manifestação de bondade e respeito em todos à minha volta, embora nãotivessem manifestado seu interesse por nós. A energia era tão viva que quase podíamos tocá-la. As flores do campo cercavam toda a casa. Um beiral de pedras, feito pelos moradores dafloresta, cercava um canteiro com ervas para chá, muito bem cuidado. O lugar era mesmo mágico,pois uma enorme paz tomou conta de mim assim que pisei lá. A terra era fértil e viam-se seus frutos.E muitos gatos circulavam por todo o lugar. Fomos recebidas por uma senhora grisalha e uma jovemmuito bonita, aparentando ter a mesma idade que eu. A senhora era a irmã de Maria, e a moçoila erasua sobrinha. Vieram correndo, pois fazia muito tempo que não se viam. Abraçaram-se com umcalor fraternal. _ Seja muito bem vinda à nossa humilde floresta!- disse Dona Helena, olhando em minhadireção. A mocinha apresentou-se, esticando a mão e dizendo: _ Meu nome é Bernadete e aquela, como já sabe, é Helena, minha tia. Sou filha de Dolores eGuiñllo, mas tia Helena me criou, pois ambos faleceram em um trágico acidente. Não falemos sobrecoisas ruins! Venha, entre! Não fique aí em pé, parada. Entre, conheça a casa e minhas outras irmãs.- disse Bernadete, percebendo que eu havia ficado para trás. Ao entrar, apresentou-me à outra senhora com olhar gentil, que estava sovando a massa para ospães na cozinha. Em seguida, apresentou-me às suas outras duas irmãs: Loylla, a mais jovem, eEmanuelle, a mais velha. _ Fique calma! Estou achando-a um tanto tensa. Deixe que meu noivo Magald cuide de suasmalas. Aqui ninguém mexe em nada. _ Imagine, não pensei nisso! É que estou tendo problemas para dormir. E estou com um poucode dor de cabeça. _ Então venha se refrescar e tomar um chá de camomila com hortelã. Bernadete levou-me para seu quarto, onde me refresquei e também troquei de roupas. Coloqueium vestido simples, de algodão azul, que ela me emprestou, pois meus vestidos não eram adequadospara o campo. Trocamos presentes. Dei-lhe uma caixinha de música de cristal e bronze, onde umcasal de bailarinos dançava ao som de uma valsa vienense. _ Era de minha mãe - disse a ela, estendendo as mãos. _ É lindíssima! Mas não sei se posso aceitá-la. _ Ficarei muito ofendida se não aceitar. Tenho certeza de que ficará perfeita na mesinha decabeceira do seu novo quarto! E ela tem um segredo, veja. - mostrei-lhe uma abertura falsa no fundo.Poderá guardar suas economias aqui dentro sem que seu marido perceba. Ela corou e disse: _ Se é assim... Abraçou-me e depois seguiu em direção ao criado mudo, de onde tirou um livro,cujas páginas eram de papiro e a capa era de couro, todo trabalhado à mão, com desenhos em relevo.Disse que tinha sido seu avô que lhe havia dado. Foi uma troca que ele fizera com um cigano amigodele. Ela ainda disse que suas páginas eram mágicas, e como não levava o menor jeito para escrever,gostaria que eu ficasse com ele. _ Na verdade, meu avô contava essas histórias para eu adormecer. O que eu quero é me casarcom Magald o quanto antes, ter muitos filhos, e ser feliz enquanto vivermos. Sabia que Bernadete e seu noivo estavam passando por muitas dificuldades, pois Mariacomentou comigo enquanto vínhamos pela estrada. Então, tentei ajudá-los, dando-lhes minhaseconomias. O obséquio não era muito, mas sei que daria para ajudar na festa de casamento.Bernadete agradeceu-me tanto que me deixou encabulada. Sua vida não era nada fácil, mas, mesmo 26

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