BEHAVIORISMO METODOLÓGICO E BEHAVIORISMO RADICAL
Maria Amélia Matos (Dept. Psicologia - USP)
Palestra apresentada no II En...
- O Positivismo Social de Auguste Comte, considerando que a ciência é uma atividade do homem, e o homem um ser social, pos...
Vocês notam como o behaviorista metodológico começa a escorregar nas frases 3 e 4 e a apresentar rachaduras em seu modelo....
Vou agora voltar atrás e falar do Behaviorismo Radical de uma forma um pouco mais sistemática. O Behaviorismo Radical é um...
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Estas leis de organização que regem todas as relações de um campo são, na hipótese gestaltista, apenas leis de
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Interpretação:
Consiste em descobrir a razão para as ações. Mesmo que a sua atenção e a de um amigo estejam dirigidas para...
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Comportamento Organizacional - texto para resumo

  1. 1. BEHAVIORISMO METODOLÓGICO E BEHAVIORISMO RADICAL Maria Amélia Matos (Dept. Psicologia - USP) Palestra apresentada no II Encontro Brasileiro de Psicoterapia e Medicina Comportamental, Campinas, out/93. Versão revisada encontra-se publicada em: Bernard Rangé (org) Psicoterapia comportamental e cognitiva: pesquisa, prática, aplicações e problemas. Campinas, Editorial Psy, 1995. -------------------------------------------- BEHAVIORISMO como vocês já devem saber é uma palavra de origem inglesa, que se refere ao estudo do comportamento:"Behavior", em inglês. O Behaviorismo surgiu no começo deste século como uma proposta para a Psicologia, para tomar como seu objeto de estudo o comportamento, ele próprio, e não como indicador de alguma outra coisa, como indício da existência de alguma outra coisa que se expressasse pelo ou através do comportamento. Na Idade Média, a igreja explicava a ação, o comportar-se pelo homem pela posse de uma alma. No início deste século, os cientistas o faziam pela existência de uma mente. As faculdades ou capacidades da alma causavam e explicavam o comportamento deste homem. Os objetos e eventos criavam idéias em suas mentes e estas impressões mentais ou idéias geravam seu comportamento. Vejam que ambas são posições essencialmente dualistas: o homem é concebido como tendo duas naturezas, uma divina e uma material, ou uma mental e uma física, como quiserem. É uma posição difícil, conflitante, porque devo demonstrar como essas naturezas contatuam, já que estão em planos diferentes. Notem além disso, a circularidade do argumento: ao mesmo tempo em que essa alma ou mente causavam e explicavam o comportamento, esse comportamento era a única evidência desta alma ou desta mente. No mentalismo, o acesso às idéias ou imagens se faria somente através da introspecção, que seria então revelada através de uma ação, gesto ou palavra. Temos aqui um modelo causal de ciência: (a) o indivíduo passivo recebe impressões do mundo; (b) estas impressões são impressas na sua mente constituindo sua consciência; (c) que é então a entidade agente responsável por, ou local onde ocorrem processos responsáveis por nossas ações. É preciso destacar que os processos cognitivos, tão falados hoje em dia, são uma forma de animismo ou mentalismo, em suas origens. A cognição é algo a que não tenho acesso direto mas que fica evidente no comportamento lingüístico das pessoas, no seu resolver problemas, no seu lembrar, etc., esquecendo que linguagem é produto de comportamento verbal; que solução de problemas é produto de contingências alternativas, e que lembrar é produto de manipulação de estímulos discriminativos. O cognitivista recupera o conceito de consciência quando afirma estados disposicionais e/ou motivacionais que poderiam ser modificados de fora (instruções) ou de dentro (auto-controle) através de reestruturações cognitivas alcançadas por trocas verbais (ou seja, o comportamento verbal do outro é decodificado por mim e meu relato verbal, versão moderna da introspecção, dá acesso ao outro às minhas cognições). Estes estados disposicionais assim modificados, agiriam então afetando e modificando comportamentos expressos. Não estou negando que existam crenças, sugestões, representações etc., mas estas são formas de se comportar, são classes de respostas, não eventos mediacionais, não causas diretas do comportamento. Aceito consciência como uma metáfora, um resumo de minhas experiências passadas (assim também aceito personalidade, como um conceito equivalente a repertório comportamental). Mas rejeito consciência como self, como agente decisor, causador, ou mediador do comportamento. De qualquer modo, o Behaviorismo surgiu em oposição ao mentalismo e ao introspeccionismo. Em fins do século passado a ciência de modo geral começou a colocar uma forte ênfase na obtenção de dados ditos objetivos, em medidas, em definições claras, em demonstração e experimentação. Esta influência se fez sentir na Psicologia, no começo deste século, com a proposta behaviorista feita por Watson em 1924: "Por que não fazemos daquilo que podemos observar, o corpo de estudo da Psicologia?" Ou, em outras palavras: - estudar o comportamento por si mesmo; - opor-se ao mentalismo; - aderir ao evolucionismo biológico; - adotar o determinismo materialístico; - usar procedimentos objetivos na coleta de dados, rejeitando a introspecção; - realizar experimentação; - realizar testes de hipótese de preferência com grupo controle; - observar consensualmente. * Com exceção das duas últimas características, as demais também se aplicam ao que mais tarde veio a se chamar behaviorismo Radical. Notem que estamos aqui diante de duas vertentes: uma filosófica (expressa nas quatro primeiras frases) e uma metodológica (expressa nas quatro últimas). Elas refletem a influência de várias tendências sobre o pensamento científico desde o final do século passado até o começo deste:
  2. 2. - O Positivismo Social de Auguste Comte, considerando que a ciência é uma atividade do homem, e o homem um ser social, postula a natureza social do conhecimento científico, rejeita a introspecção e estabelece como critério de verdade o observável consensual, isto é, o observável partilhado e sancionado pelo outro. - O Positivismo Lógico do Círculo de Viena, considerando que eu só tenho acesso à informação que meus sentidos me trazem, não posso ter informações sobre minha consciência, cuja natureza difere da de meu corpo. É verdade que não posso negá-la, mas também não posso estudá-la. (É interessante que esta influência também levou ao idealismo e ao subjetivismo: já que não tenho acesso a nada senão minhas sensações, o mundo não existe, somente minhas impressões dele, só minhas idéias são reais). -O Operacionismo, derivado da influência do Positivismo Lógico sobre a Física: se somente tenho acesso às informações que meus sentidos trazem, então a linguagem pela qual expresso e estruturo essas informações é o mais importante em ciência. A definição dos conceitos é fundamental, e definir é descrever as operações envolvidas no processo de medir o conceito. Essa descrição deve ser objetiva e referir-se a termos observáveis. "Observação", pois, tornou-se um termo e uma operação fundamental para o Behaviorismo: ela define a categoria "comportamento", seu objeto de estudo. Comportamento é o observável e, por definição, observável pelo outro, isto é, externamente observável. Comportamento, para ser objeto de estudo do behaviorista, deve ocorrer afetando os sentidos do outro, deve poder ser contado e medido pelo outro. Dai dizer-se que em observação o que importa é a concordância de observadores, e portanto, a necessidade de um treino rigoroso nos procedimentos de registro e análise. Esta ênfase no procedimento de medida, na operação de acessamento levou mais tarde a que se comunicasse a aderência a estas características de BEHAVIORISMO METODOLÓGICO. Mas o que é comportamento? E é aqui que as coisas começam a rachar. Comportamento não era visto como mais uma função biológica, isto é, própria do organismo vivo, e que se realiza em seu contato com o ambiente em que vive, como o respirar, o digerir. Dentro de uma Física newtoniana mecanicista da época, todo fenômeno devia ter uma causa (uma concepção funcionalista falaria em condições), e dentro da rejeição mentalista a causa do comportamento não poderia ser a mente, seria então algo externo ao organismo e observável, o ambiente, o estímulo. Vejam que afinal a concepção behaviorista é tão dualista quanto a posição mentalista: o corpo precisa ser animado pela alma tanto quanto o comportamento é expressão da mente ou produto da instigação do estímulo. A palavra "estímulo" veio de Pavlov (outra influência sofrida por Watson e os behavioristas da época e da qual também Skinner não conseguiu se livrar), e referia-se à troca de energia entre o ambiente e o organismo, quanto à operação realizada pelo experimentador em seu laboratório, uma parte ou mudança em parte do mundo físico que causava uma mudança no organismo ou parte do organismo, a resposta. Essa mudança observável no organismo biológico seria o comportamento. A manipulação experimental por excelência seria a reprodução desse modelo, a operação S-R. E é por isso que esta forma de behaviorismo ficou sendo conhecida por muitos como "a Psicologia da contração muscular e da secreção glandular". Diante deste quadro vamos parar um pouco e analisar cinco frases: 1. Eu estou falando. 2. Eu escrevi esta palestra. 3. Eu vejo vocês. 4. Eu estou com sede. 5. Eu estou com dor dente. Enquanto falo, vocês estão vendo mudanças em meu organismo e ouvindo o produto destas mudanças, os sons da minha fala. Vocês não viram meu comportamento de escrever, mas se concordarmos sobre a operação que define o escrever (deslocamento de minha mão segurando um objeto por sobre uma superfície deixando nela inscrições), vocês também concordarão que o produto do escrever, este papel, é sua evidência. Qual a evidência consensual da frase 3? Ninguém vê ou ouve o meu "ver", e o meu ver só tem produtos para mim, não para vocês. No entanto o behaviorista metodológico aceitaria esta frase como um bom exemplo de descrição do comportamento de ver, assim como aceitaria meu registro da salivação de cão como evidência dessa salivação. Meu registro equivale a dizer que eu vi o cão salivar! Este registro seria aceito porque outras pessoas também poderiam relatar ter visto o cão salivar, a salivação do cão é observável consensualmente. Mas o que está em pauta aqui não é o salivar, e sim o meu ver. Esta contradição não foi resolvida pelo Behaviorismo Metodológico. E se várias pessoas relatarem que viram o cão salivar, isto será considerado um relato válido. Assim, um comportamento que em si não é observável e não poderia ser objeto de estudo do behaviorista metodológico, torna-se não obstante, fonte de dados para a construção da ciência deste behaviorista! Já a frase 4 não apresenta evidência observável exatamente, nem produto, nem referencial externo acessível por todos. Neste momento o Behaviorismo Metodológico se deixou contaminar pela fisiologia, versão na qual subsiste até hoje. "Eu posso invadir o organismo e medir o equilíbrio hídrico dos tecidos, esta medida é um indicador da minha sede." Esta medida é um indicador do equilíbrio hídrico dos tecidos do meu corpo, não da minha sensação! Não do meu comportamento de sentir! (a linguagem é insuficiente, eu deveria dizer simplesmente "do meu sentir", mas sentir está vinculado a sentir emoção, sentir estados afetivos).
  3. 3. Vocês notam como o behaviorista metodológico começa a escorregar nas frases 3 e 4 e a apresentar rachaduras em seu modelo. Ele muda seu objeto de estudo para não mudar sua insistência num critério social de verdade. Mas a verdade é que eu sinto dor-de- dente! Assim como vocês não podem observar o "meu ver", não podem observar "meu sentir sede", e não podem observar "meu sentir dor-de dente". Isto contudo não torna estas sensações menos reais para mim. E é aqui que começa a ficar evidente uma primeira e fundamental diferença entre o behaviorismo proposto por Skinner e aquele praticado pelos behavioristas metodológicos: o homem é a medida de todas as coisas, não o social. Influenciado pelo Positivismo Lógico, Skinner aceita que o que existe para o indivíduo, existe! (daí aceitar e defender uma metodologia do N=1). Mas, para não cair no subjetivismo e idealismo, é importante analisar as evidências desta existência. E aqui estamos diante de um ponto importante (e difícil) que aproxima Skinner e os fenomenólogos: a evidência da existência do mundo, de um evento, etc. É a experiência do observador. A tarefa pois da ciência é analisar esta experiência, e ele inclui aqui, como essencial, a análise da experiência do cientista como parte do processo de construção do conhecimento científico (daí a importância do estudo do comportamento verbal para Skinner. A análise do comportamento verbal me permitiria estudar as circunstâncias em que essa experiência se deu, e assim entendê-la). Ora, ocorre que a experiência que alguém tem de uma situação é um evento privado. E Skinner assim a aceita. Para Skinner, os estudos de eventos internos inclui-se legitimamente dentro do campo de estudos da Psicologia, de uma ciência do comportamento. Assim ele é radical em dois sentidos: por negar radicalmente (i.e., negar absolutamente) a existência de algo que escapa ao mundo físico, que não tenha uma existência identificável no espaço e no tempo (mente, consciência, cognição); e por radicalmente aceitar (i.e., aceitar integralmente) todos os fenômenos comportamentais. O behaviorista metodológico não nega a existência da mente, mas nega-lhe status científico ao afirmar que não podemos estudá-la pela sua inacessibilidade. O behaviorista radical nega a existência da mente e assemelhados, mas aceita estudar eventos internos. Esta posição de Skinner se insere dentro da tradição do Positivismo Lógico, mas ao mesmo tempo se constitui num desvio desta forma de positivismo, talvez por ter sido mais influenciado por Mach que por Bridgman, e mais por Wittgenstein que por Carnap. Já que só temos informação do mundo pelos sentidos, porque excluir sensações do mundo interno e privilegiar as do mundo externo? Porque o critério de objeto da ciência deveria ser dado pela natureza do sistema sensorial envolvido? (proprioceptivo, interoceptivo e exteroceptivo). Nesse sentido, Skinner (embora reconhecendo a dificuldade de se ter acesso ao primeiro) não separa mundo interno de mundo externo. E é por isso que para ele não existem estímulos e respostas, existe uma unidade interativa Comportamento-Ambiente (não esquecendo que Ambiente é tudo aquilo que é externo ao Comportamento, não importando se é um piscar de luz, um desequilíbrio hídrico, um derrame de adrenalina, ou um objeto ausente associado a um evento presente; não importando se sua relação com o comportamento é de contiguidade espaço/temporal (o que é exigido pelo mecanismo metodológico para a troca de energias) ou não. É por isso que a psicologia proposta por Skinner não é uma psicologia S-R. Para ele não existe Comportamento (no sentido de não "podemos entender") sem as circunstâncias em que ocorre; e não tem sentido falarmos em circunstâncias sem a especificação do comportamento que circunstanciam. Mas, porque afinal, o behaviorista metodológico rejeita estudar eventos internos se reconhece sua existência? Porque dá importância filosófica à diferença na localização -interna/externa- de eventos; porque praticamente equaciona eventos internos com eventos mentais; por que rejeita a introspecção? Para o behaviorista metodológico, a evidência de que vejo vocês é que os outros vêem vocês. A evidência que vocês existem é que outros vêem vocês. A existência do mundo e do comportamento, a natureza do conhecimento que tenho deles é a experiência partilhada. Para o behaviorista radical, a evidência de que vejo vocês é meu comportamento, a evidência de que vocês existem também é meu comportamento. Para o behaviorista metodológico, o louco e o mentiroso são associados por não partilharem das experiências do outro. Para o behaviorista radical, o louco se comporta na ausência da coisa vista (como eu o faço em sonhos, nas minhas rememorações etc.) com mais freqüência do eu que faço, mas de acordo com as mesmas leis. Está sob controle de outras contingências, não as do aqui e agora, o mentiroso também. Mas atenção! Ao observar eventos internos não estou observando nem minha mente nem minha personalidade, e sim meu próprio corpo. Dizer que tenho dor-de-dente não é evidência da existência de uma dor-de-dente; não é relato da dor-de-dente (ou seja, o equivalente verbal da dor); é uma verbalização que precisa ser explicada, entendida, interpretada, é um comportamento que eu digo que ocorre na presença de determinadas sensações internas; que um dentista diz que ocorre na presença de determinada condição da minha gengiva/dente, etc., mas que pode também ocorrer na presença de uma tarefa aborrecida que não desejo executar. Dizer que tenho dor-de-dente pode ser considerado um meio, assim como as descrições minhas e do meu dentista, das condições existentes, para começar a entender minhas sensações. Mas como sua natureza é verbal, esse entendimento não se dará enquanto não entendermos melhor o que é comportamento verbal e como é adquirido. Evento privado é um objeto de estudo válido para a ciência, sua existência não precisa ser colocada sob critérios sociais, basta um observador, mas seus dados precisam ser replicáveis, preciso entender melhor suas variáveis. Acredito que evento interno é o protótipo da concepção skinneriana de comportamento como unidade interativa: nele mais que em qualquer outro exemplo, definitivamente não posso separar comportamento e ambiente. Evento interno pode ser uma mudança no ambiente interno, pode ser uma reação a essa mudança, ou pode ser o efeito interno de mudanças externas. Algumas vezes posso identificar seu antecedente remoto externo, mas o imediato interno se mescla irremediavelmente com o evento comportamental.
  4. 4. Vou agora voltar atrás e falar do Behaviorismo Radical de uma forma um pouco mais sistemática. O Behaviorismo Radical é uma forma de behaviorismo praticada por B.F.Skinner e adotada por vários outros psicólogos: Ferster, Sidman, Schoenfeld, Catania, Hineline, Jack Michael, etc. Constitue-se numa interpretação filosófica (isto é, baseada numa ideologia) de dados obtidos através da investigação sistemática do comportamento (o corpo desta investigação propriamente dita é a Análise Experimental/Funcional do Comportamento). Esta interpretação descreve basicamente relações funcionais entre Comportamento e Ambiente (isto é, relações entre discriminações de mudanças na realidade observada e descrições das condições em que essas mudanças se dão) (como produto temos, não explicações realistas, não relações de causa-efeito, não leis baseadas no modelo da Física Mecânica de troca de energia, e sim a construção de seqüências regulares de eventos que eventualmente poderão ser descritas por funções matemáticas). O behaviorista radical rejeita o mentalismo por ser materialista, e acaba com o dualismo por acreditar que o comportamento é uma função biológica do organismo vivo. Não preciso da mente para respirar, não explico a digestão por processos cognitivos, porque explicaria o comportamento por um ou outro? O behaviorista radical propõe que existam dois tipos de transações entre o Comportamento e o Ambiente: a) conseqüências seletivas (que ocorrem após o comportamento e modificam a probabilidade futura de ocorrerem comportamentos equivalentes, i.e., da mesma classe); b) contextos que estabelecem a ocasião para o comportamento ser afetado por suas conseqüências (e que portanto ocorreriam antes do comportamento e que igualmente afetariam a probabilidade desse comportamento). Estas duas classes possíveis de interações são denominadas "contingências" e constituem as duas classes conceituais fundamentais para a análise do comportamento. Relações funcionaissão estabelecidas na medida em que registramos mudanças na probabilidade de ocorrência dos comportamentos que procuramos entender em relação a mudanças quer nas conseqüências, quer nos contextos, quer em ambos. Por lidarmos com explicações funcionais e não causais, o importante é coletar informações ao longo do tempo, repetidas do mesmo evento, com os mesmos personagens (o behaviorista metodológico prefere observações pontuais em diferentes sujeitos, ou seja, o estudo em grupo, o que leva à estatística para descrever e/ou anular a variabilidade. Para o radical isto é uma heresia, de vez que estou tentando estudar a experiência daquele sujeito. Ao coletarmos registros ao longo do tempo devemos comparar o sujeito consigo mesmo, sua história passada é sua linha de base. Mas, por outro lado, indivíduos de uma mesma espécie partilham de um mesmo conjunto de contingências filogenéticas, e indivíduos com histórias passadas semelhantes podem partilhar de contingências ontogenéticas semelhantes e, portanto, para certas variáveis é possível descrever funções semelhantes para diferentes indivíduos. Para sua rejeição do mentalismo/cognitivismo como explicação do comportamento, e por sua posição não reducionista diante de eventos neurais (Skinner não aceita que eventos fisiológicos/neurológicos expliquem o comportamento, estas são outras tantas funções biológicas a serem explicadas. O comportamento é um campo de estudo em si mesmo. Evidentemente que há interação entre essas funções do organismo, mas essa relação não é de causalidade.) O behaviorismo radical é considerado um ambientalista e acusado de esvaziar o organismo, de estudar uma caixa preta... Não! Estas críticas se originam de uma postura pré-galileica, do que poderíamos chamar organocentrismo em Psicologia. O homem é o fenômeno de interesse, é a origem de todas as coisas, não sua interação com o universo. Para Skinner, o organismo não é nem gerente nem iniciador de ações, é o palco onde as interações Comportamento-Ambiente de dão. (Texto disponível em http://www.cfh.ufsc.br/~wfil/matos.htm) ------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------- A TEORIA DA GESTALT (Texto de autoria doProfessor Paulo Francisco Slompda FACED, UFRGS - slomp@ufrgs.br,disponível em http://www.chasqueweb.ufrgs.br/~slomp/gestalt/gestalt-poligrafo.pdf) (Texto adaptado de BOCK, Ana Maria. Psicologias. Uma introdução ao estudo de psicologia. São Paulo: Saraiva, 2004. pág. 50-57.) A PSICOLOGIA DA FORMA A Psicologia da Gestalt é uma das tendências teóricas mais coerentes e coesas da história da Psicologia. Seus articuladores se preocuparam em construir não só uma teoria consistente, mas também uma base metodológica forte, que garantisse a consistência teórica. Gestalt é um termo alemão de difícil tradução. O termo mais próximo em português seria forma ou configuração, que não é muito utilizado por não corresponder exatamente ao seu real
  5. 5. significado em Psicologia. No final do século passado muitos estudiosos procuravam compreender o fenômeno psicológico em seus aspectos naturais (principalmente no sentido da mensurabilidade). A Psicofísica estava em voga. Ernst Mach (1838-1916), físico, e Chrinstiam von Ehrenfels (1859-1932), filósofo e psicólogo, desenvolviam uma psicofísica com estudos sobre as sensações (o dado psicológico) de espaço-forma e tempo-forma (o dado físico) e podem ser considerados como os mais diretos antecessores da Psicologia da Gestalt. Max Wertheimer, Wolfgang Köhler e Kurt Koffka, baseados nos estudos psicofísicos que relacionaram a forma e sua percepção, construíram as bases de uma teoria eminentemente psicológica. Eles iniciaram seus estudos pela percepção e sensação do movimento. Os Gestaltistas estavam preocupados em compreender quais os processos psicológicos envolvidos na ilusão de ótica, quando o estímulo físico é percebido pelo sujeito com uma forma diferente do que ele é na realidade. É o caso do cinema. Uma fita cinematográfica é composta de fotogramas com imagens estáticas. O movimento que vemos na tela é uma ilusão de ótica causada pelo fenômeno da pós-imagem retiniana (qualquer imagem que vemos demora um pouco para se 'apagar' em nossa retina). As imagens vão se sobrepondo em nossa retina e o que percebemos é um movimento. Mas o que de fato é projetado na tela é uma fotografia estática, tal como uma seqüência de slides. A PERCEPÇÃO A percepção é o ponto de partida e um dos temas centrais dessa teoria. Os experimentos com a percepção levaram os gestaltistas ao questionamento da psicologia associacionista. O Behaviorismo, dentro de sua preocupação com a objetividade, estuda o comportamento através da relação estímulo-resposta, procurando isolar um estímulo unitário que corresponderia à uma dada resposta e desprezando os conteúdos da consciência, pela impossibilidade de controlar cientificamente essas variáveis. A Gestalt entende que é de suma importância a disposição em que são apresentados à percepção os elementos unitários que compõem o todo. Uma de suas formulações bastante conhecidas é a de que "o todo é diferente da soma das partes". Ou seja, a percepção que temos de um todo não é o resultado de um processo de simples adição das partes que o compõem. A indissociabilidade da parte em relação ao todo permite que quando vemos o fragmento de um objeto ocorra uma tendência à restauração do equilíbrio da forma, proporcionando assim o entendimento do que foi percebido. Esse fenômeno perceptivo é norteado pela busca de fechamento, simetria e regularidade dos pontos que compõem uma figura (objeto). Rudolf Arnheimdá um bom exemplo da tendência à restauração do equilíbrio na relação parte-todo: "De que modo o sentido da visão se apodera da forma? Nenhuma pessoa dotada de um sistema nervoso normal apreende a forma alinhavando os retalhos da cópia de suas partes (...) o sentido normal da visão apreende sempre um padrão global". Os fenômenos perceptivos que encontramos nas figuras abaixo são explicados pelos psicólogos da Gestalt como sendo regidos pela lei básica da percepção visual: qualquer padrão de estímulo tende a ser visto de tal modo que a estrutura resultante é tão simples quanto as condições dadas permitem. Percebemos a figura 1 como um quadrado e não como uma figura inclinada ou qualquer outra figura apesar de também conterem os quatro pontos. Se forem acrescentados mais quatro pontos à figura 1, o padrão mudará e então perceberemos um círculo (fig. 2). FIGURA 1 Figura 2 A BOA-FORMA
  6. 6. A partir desses fenômenos da percepção a Gestalt procura explicar como chegamos a compreender aquilo que percebemos. Se os elementos percebidos não apresentam equilíbrio, simetria, estabilidade, simplicidade e regularidade, não será possível alcançar a boa-forma. O elemento que objetivamos compreender deve ser apresentado em seus aspectos básicos, de tal maneira que a tendência à boa-forma conduza ao entendimento. Essa formulação representa uma das conseqüências pedagógicas da psicologia da Gestalt. O exemplo da figura 3 ilustra a noção de boa-forma. Temos a convicção de que o segmento de reta a é maior que o segmento de reta b, mas a realidade é que ambos têm o mesmo comprimento, e portanto estamos diante de uma ilusão de ótica provocada por um efeito de campo. Para tirar qualquer dúvida você pode medir as retas ou desenhar inicialmente duas retas paralelas com o mesmo comprimento e posteriormente acrescentar os demais traços que constituem a figura. Faça o teste! É importante destacar que depois de nos certificarmos de que se trata de uma ilusão, mesmo assim continuamos sendo iludidos. Figura 3 A maneira como estão distribuídos os elementos que compõem as duas figuras não resultam em uma configuração com equilíbrio, simetria, estabilidade, regularidade e simplicidade suficientes para garantir a boa-forma. Ou seja, nesse caso as leis que comandam o funcionamento da percepção nos impedem de perceber a realidade tal qual ela é. Em outros casos, mais favoráveis, são essas mesmas leis perceptivas que nos permitem compreender a realidade. A tendência da percepção em buscar a boa-forma permitirá a relação figura-fundo. Quanto mais clara estiver a forma (boaforma), mais clara será a separação entre figura e fundo. Figura 4 Quando isso não ocorre, torna-se difícil distinguir o que é figura e o que é fundo, como é o caso da figura 4. Nessa figura ambígua o que é figura em um momento torna-se fundo quando logo a seguir centramos o foco da percepção no outro aspecto. É importante destacar que não é possível ver a taça e os perfis ao mesmo tempo. CAMPO PSICOLÓGICO O campo psicológico é entendido como um campo de forças que atua na percepção, nos levando a procurar a boa- forma. Figurativamente podemos relacioná-lo a um campo magnético criado por um imã (a força de atração e repulsão). Esse campo de força psicológico tem uma tendência que garante a busca da melhor forma possível em situações que não estão muito estruturadas. Esse processo ocorre de acordo com os seguintes princípios: INSIGHT A psicologia da Gestalt entende a aprendizagem como uma decorrência da forma como as partes estão organizadas no todo. As teorias associacionistas entendem que a aprendizagem ocorre através da associação de elementos que anteriormente estavam isolados e assim, por um processo aditivo, passa-se de um conhecimento simples a um complexo. Os métodos de alfabetização podem nos auxiliar a pensar algumas questões relativas a diferentes maneiras
  7. 7. de conceber a aprendizagem. Os chamados métodos sintéticos entendem que deve-se inicialmente ensinar a criança a nomear, grafar e reproduzir o valor sonoro de todas as letras (elementos mais simples) e, depois disso, ela estará apta a associar as letras entre si para formar sílabas. Na seqüência ela associará sílabas entre si para formar palavras e finalmente formará orações. Os chamados métodos analíticos seguem um caminho exatamente oposto pois primeiramente é apresentado o todo (palavra, frase ou texto), enquanto unidade de significação, e somente após partem para o exame das partes e das relações que elas mantém entre si para formarem esse todo. Quanto à questão do insight, podemos dizer que nem sempre as situações vividas por nós apresentam-se de forma clara que permitam uma compreensão imediata. Essas situações dificultam a aprendizagem porque não permitem uma definição da figura-fundo, impedindo a relação parte-todo. Acontece, às vezes, de estarmos olhando uma figura ou estarmos pensando em algo que nos parece bastante obscuro e, de repente, sem que tenhamos tido qualquer processo de compreensão aditivo (somando as partes mais simples), a relação figura-fundo elucida-se. A esse fenômeno é dado o nome de insight. O termo designa uma compreensão imediata e súbita. ------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------- A INTELIGÊNCIA E A PERCEPÇÃO (Fragmentos do capítulo 3 de: PIAGET, Jean. Psicologia da inteligência. Rio de Janeiro: Fundo de Cultura, 1958. pág. 83-92) (Texto de autoria do Professor Paulo Francisco Slomp da FACED, UFRGS - slomp@ufrgs.br, disponível em http://www.chasqueweb.ufrgs.br/~slomp/gestalt/gestalt- poligrafo.pdf) A percepção é o conhecimento que temos dos objetos ou dos movimentos por contato direto e atual. (...) Segundo a Gestalt, as estruturas intelectuais preexistem no todo ou em parte, desde o primeiro momento, sob a forma de organizações comuns à percepção e ao pensamento. Essa teoria descreve as leis da estruturação do conjunto que regem tanto a percepção, a motricidade e as funções elementares, como o próprio raciocínio e, particularmente, o silogismo (Wertheimer). (...) A hipótese de uma relação estrita entre a percepção e a inteligência foi sustentada, em todos os tempos, por alguns e rejeitada por outros. Somente no século passado os autores iniciaram a buscar apoio experimental para suas teses, sendo que anteriormente inúmeros filósofos refletiram sobre esta questão. (...) Hering (respondendo a Helmholtz) afirmava que a intervenção do conhecimento intelectual em nada modificava uma percepção. Experimentamos a mesma ilusão de ótica mesmo depois de conhecer os valores objetivos dos dados percebidos. Assim concluía que o raciocínio não intervém na percepção. (...) Von Ehrenfels descobriu, em 1891, as qualidades perceptivas do conjunto, tais como a de certa melodia que se reconhece, embora uma transposição modifique todas as notas (não podendo nenhuma sensação elementar permanecer a mesma). (...) Podemos esperar, segundo a escola de Berlim, uma explicação acerca da inteligência a partir das estruturas perceptivas, ao invés de fazer intervir, de maneira incompreensível, o raciocínio na percepção como tal. (...) A teoria da forma renovou a posição de um grande número de problemas e sobretudo forneceu uma teoria completa sobre a inteligência que permanecerá, mesmo para os seus adversários, um modelo de interpretação psicológica coerente. A idéia central da teoria da forma afirma que os sistemas mentais jamais se constituem pela síntese ou pela associação de elementos, dados em estado isolado, antes de sua reunião, mas consistem sempre em totalidades organizadas, desde o início, sob uma forma ou estrutura de conjunto. Assim, uma percepção não é mais síntese das sensações prévias: ela é regida em todos os níveis por um campo, cujos elementos são interdependentes pelo mesmo fato de serem percebidos em conjunto. Um só ponto negro, por exemplo, visto numa grande folha de papel, não seria percebido como elemento isolado, embora único, conquanto se destaque como caráter de figura sobre um fundo constituído pelo papel, e pelo fato de que esta relação, figura x fundo, supõe a organização do campo visual inteiro. Isto é tanto mais certo quando, a rigor, poderíamos ter visto a folha, como o objeto (a figura) e o ponto negro, como um buraco, isto é, como a única parte visível do fundo. Por que então preferimos o primeiro modo de percepção? E por que se em vez de um ponto, víssemos três ou quatro bem próximos, não poderíamos reuni-los em forma virtual de triângulos ou quadriláteros? Porque os elementos percebidos em um mesmo campo são, imediatamente, ligados em estruturas de conjunto, obedecendo a leis precisas, que são as leis de organização.
  8. 8. Estas leis de organização que regem todas as relações de um campo são, na hipótese gestaltista, apenas leis de equilíbrio, regendo, ao mesmo tempo, as correntes nervosas, determinadas pelo contato psíquico com os objetos exteriores, e pelos próprios objetos, reunidos num circuito total, abarcando, pois, simultaneamente, o organismo e seu meio próximo. Assim, deste ponto de vista um campo perceptivo (ou motor, etc.) é comparável a um campo de forças (eletromagnéticas, etc.) e é regido por princípios análogos de mínimum, de mínima ação etc. Em presença de múltiplos elementos imprimimos-lhe, então, uma forma de conjunto que não é uma forma qualquer, mas a mais simples possível que exprime a estrutura de campo; serão pois as regras de simplicidade, de regularidade, de simetria, de proximidade etc. as que determinarão a forma percebida. Daí uma lei essencial chamada de prenhez de todas as formas possíveis, a que se impõe é sempre melhor, a melhor equilibrada. Ademais, uma boa-forma é sempre suscetível de ser transposta, exatamente como a melodia, da qual mudamos todas as notas. Mas esta transposição, que demonstra a independência do todo em relação às partes, explica-se também pelas leis de equilíbrio: as relações são as mesmas entre os novos elementos que terminam na mesma forma de conjunto que as relações entre elementos anteriores, não graças a um ato de comparação, mas a uma reformação do equilíbrio, exatamente como a água de um canal, que recobra a mesma forma horizontal, mas em níveis diferentes, depois da abertura de cada comporta. A caracterização dessas boas-formas, bem como o estudo dessas transposições, provocaram inúmeros trabalhos experimentais, de verdadeiro interesse. O que se deve notar, antes de tudo, como essencial à teoria, é que as leis de organização são concebidas como independentes do desenvolvimento, e, por conseguinte, comuns a qualquer nível. Fácil é de perceber esta afirmação, se a limitarmos à organização funcional ou equilíbrio sincrônico dos comportamentos, pois a necessidade desse último rege os níveis em qualquer grau. (...) Assim é que os psicólogos da Forma se esforçaram, acumulando impressionante material, para mostrar que as estruturas perceptivas são as mesmas na criança e no adulto e, sobretudo, nos vertebrados de qualquer categoria. (...) Três aplicações da teoria da forma ao estudo da inteligência devem ser especialmente consideradas: a de Köhler, sobre a inteligência sensório-motora, a de Wertheimer, sobre a estrutura do silogismo, e a de Duncker sobre o ato da inteligência em geral. Para Köhler a inteligência aparece quando a percepção não se prolonga diretamente em movimentos suscetíveis de assegurar a conquista do objetivo. Um chimpanzé, na sua jaula, procura alcançar uma fruta que se encontra fora do alcance de sua mão; uma objeto intermediário é então necessário, e o seu emprego definirá a complicação própria da ação inteligente. Em que consiste esta última? Se um bastão for posto à disposição do símio, mas numa posição qualquer, será visto como um objeto indiferente. Colocado paralelamente ao braço poderá ser subitamente percebido como possível prolongamento da mão. Até então sem significação, o bastão passa a tê-la, pelo fato de sua incorporação na estrutura do conjunto. O campo, pois, passará a ser reestruturado e essas súbitas reestruturações caracterizam, segundo Köhler, o ato da inteligência: a passagem de uma estrutura pior para uma melhor constitui a essência da compreensão, simples continuação, conseqüentemente, mas mediata ou indireta da própria percepção. Este mesmo princípio explicativo encontramos em Wertheimer, na sua interpretação gestaltista do silogismo. A premissa maior é uma forma comparável a uma estrutura perceptiva. Todos os homens constitui um conjunto que se representa centrado no interior do conjunto de mortais. A premissa menor procede do mesmo modo: Sócrates é um indivíduo centrado no círculo de homens. A operação que tirará de tais premissas a conclusão: portanto, Sócrates é mortal, vem, conseqüentemente, apenas estruturar o conjunto, fazendo desaparecer o círculo intermediário (homens), depois de tê-lo situado com seu conteúdo no grande círculo (os mortais). O raciocínio é pois uma recentração: Sócrates é como descentrado da classe de homens para tornar a recentrar-se na classe dos mortais. O silogismo depende assim da organização geral das estruturas. (...) Finalmente, Duncker estuda as relações dessas compreensões bruscas (Einsicht, Insight ou reestruração inteligente) com a experiência, para dar o tiro de misericórdia no empirismo associacionista, que a noção de Gestalt contradiz desde o princípio. Ao analisar os diversos problemas da inteligência ele conclui que em todos os domínios a experiência adquirida desempenha um papel somente secundário no raciocínio. A experiência não tem significação para o pensamento, senão em função da organização atual. A estrutura do campo presente determina os possíveis apelos às experiências passadas, ora tornando-as inúteis, ora disciplinando uma evocação e uma utilização das recordações. O raciocínio é, assim, um combate que forja suas próprias armas, e tudo se explica por leis de organização, independentes da história do indivíduo, assegurando, no total, uma unidade profunda das estruturações do todo nível, desde as formas perceptivas elementares as suas mais altas formas de pensamento. (...)
  9. 9. ------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------- UNIVERSIDADE FEDERAL DE PELOTAS DEPARTAMENTO DE ADMINISTRAÇÃO E TURISMO CURSO DE ADMINISTRAÇÃO DISCIPLINA: COMPORTAMENTO ORGANIZACIONAL Profª Drª Maria da Graça Gomes Ramos O processo de percepção Os indivíduos usam o processo perceptivo para prestar atenção e selecionar, organizar, interpretar e recuperar as informações do ambiente ao redor deles. As pessoas vêem as coisas de maneira diferente. Cada pessoa tem interpretação própria do que arbitrariamente considera ser o mundo real. Percepção é o processo através do qual as pessoas processam as informações que afetam seus sentimentos e ações e os de outras pessoas. É o processo pelo qual as pessoas escolhem, organizam e reagem às informações do mundo que as rodeia. Essa informação é obtida através dos cinco sentidos: visão, audição, tato, paladar e olfato. A percepção não é necessariamente igual a realidade, assim como as percepções e respostas de duas pessoas não serão necessariamente as mesmas quando descrevem o mesmo fato. Através da percepção as pessoas transformam as informações em respostas que envolvem sentimentos e ação. A percepção é um modo de formar impressões sobre si mesmo, sobre outra pessoa e sobre as experiências diárias da vida. Também constitui um filtro, através do qual a informação passa antes de causar efeito sobre a pessoa. A percepção trata das várias maneiras pelas quais as pessoas interpretam as coisas no mundo exterior e como agem com base nessas percepções. Assim sendo, dentro das organizações as reações perceptivas provavelmente variam entre gerentes e ou subordinados. Administrando o processo perceptivo Para atingir o sucesso, os gerentes precisam estar atentos ao processo perceptivo, aos estágios envolvidos e ao impacto que o processo perceptivo pode ter sobre suas próprias respostas e sobre as de outros. A administração da impressão é a tentativa sistemática de se comportar de uma forma que crie e mantenha a impressão desejada por uma pessoa aos olhos dos outros. As primeiras impressões são especialmente importantes porque influenciam como as pessoas respondem umas às outras. Como pode ser administrado o processo perceptivo A gestão do processo perceptivo envolve: - A administração da impressão de si mesmos e dos outros; - A administração dos estágios de atenção e seleção da informação; - Administração do estágio de organização da informação; - Administração do estágio de interpretação da informação; - Administração do estágio de armazenamento e recuperação da informação; - Ser sensível aos efeitos das distorções comuns de percepção. Fatores que influenciam o processo perceptivo Alguns fatores contribuem para a diferença da percepção e do processo perceptivo entre pessoas no trabalho. Incluem características do perceptor, do percebido e da situação.
  10. 10. O perceptor Experiências anteriores do indivíduo, necessidades, motivos, personalidade, valores e atitudes podem influenciar no processo perceptivo. Uma pessoa que tenha uma grande necessidade de realização tende a perceber uma situação em função dessa necessidade. O Percebido: As características da pessoa percebida, objeto ou acontecimento são importantes no processo de percepção. Características essas como, contraste, intensidade, separação da figura com o chão, tamanho, movimento e repetição ou novidade. A intensidade pode variar em termos de brilho, cor, profundidade, som, etc. falar cochichando ou gritando contrasta da conversa em tom normal. O conceito é conhecido como “separação entre figura e chão” e depende da imagem que é percebida como figura e da que é percebida como fundo de cenário. Em termos de tamanho, pessoas muito baixas ou muito altas costumam ser percebidas diferentemente e com mais rapidez que as pessoas de altura média. O Ambiente O contexto físico, social e organizacional do ambiente também pode influir no processo perceptivo. Uma conversa com a chefia pode ser percebida diferentemente acontecendo na área de recepção ou na sala dela com as portas fechadas. Estágios do Processo perceptivo: Os estágios de informação-processamento são divididos em : atenção da informação e seleção, organização da informação, interpretação da informação e recuperação da informação. Atenção e seleção: Nossos sentidos são constantemente bombardeados por muitas informações e por tal, precisamos filtrá-los, caso contrário ficaríamos rapidamente incapacitados por causa da sobrecarga de informações. Essa filtragem seletiva permite entrar apenas uma pequena parte de todas as informações disponíveis. Parte dessa seletividade vem do processamento controlado- decisão consciente de qual informação devemos prestar atenção e qual devemos desconsiderar. Contrastando com o processamento controlado, a filtragem também pode ocorrer sem a conscientização do perceptor. Organização: É preciso organizar as informações com eficiência. Podemos fazê-lo através de esquemas. Esquemas são processos cognitivos que representam o conhecimento organizado a respeito de um determinado conceito ou estímulo desenvolvido por meio de experiência. Um auto-esquema contém informações sobre a própria aparência, comportamento e personalidade da pessoa. Exemplo: Alguém com um esquema de determinação tem tendência a se perceber nos termos deste aspecto em muitos casos, principalmente nos que exigem liderança. O termo protótipo ou estereótipo, é freqüentemente usado para classificar tipos e grupos segundo características semelhantes percebidas. Uma vez criado o protótipo, ele é armazenado na memória duradoura e recuperado quando necessário, para comparar como uma pessoa se enquadra nas características do protótipo. Estereótipos podem ser pensados como protótipos baseados em características demográficas, tais como sexo, idade, capacitação física e grupos étnicos e raciais. Esquema de roteiro é definido como uma estrutura de conhecimento que descreve a seqüência apropriada de acontecimentos em uma dada situação. Exemplo: Um gerente experiente usa o esquema de roteiro para tomar as medidas apropriadas para uma reunião. Os esquemas são importantes não só no estágio da organização; eles afetam outros estágios do processo de percepção.
  11. 11. Interpretação: Consiste em descobrir a razão para as ações. Mesmo que a sua atenção e a de um amigo estejam dirigidas para a mesma informação e que vocês a organizem da mesma maneira, você pode interpretá-la diferentemente ou dar atributos diferentes aos motivos pelos quais teve a percepção. Recuperação: A memória é um importante componente do processo perceptivo. Cada um dos estágios anteriores forma uma parte da memória e contribui para os estímulos ou informações armazenadas lá. A informação arquivada na memória precisa ser recuperada para ser usada. Isso constitui o estágio de recuperação do processo perceptivo. Todos já tivemos a experiência de não conseguir recuperar informações armazenadas na memória, de tal modo que apenas parte da informação é recuperada. Aí os esquemas desempenham papel importante, pois dificultam a lembrança de coisas que não estão incluídas nos mesmos. Os protótipos formados são difíceis de mudar e tendem a durar por muito tempo e muitas vezes dificultam o processo de recuperação de informações. Resposta ao processo perceptivo: envolvem pensamento, sentimento e classificação de ações. Distorções Perceptivas Algumas distorções podem tornar o processo perceptivo impreciso e afetar a resposta. São os estereótipos e protótipos, o efeito halo, a percepção seletiva, efeito contraste, a projeção e a expectação. Estereótipos ou protótipos: Os estereótipos também podem tornar a recuperação de informações imprecisa. Eles escondem as diferenças individuais e podem impedir que uma gerência conheça as pessoas como indivíduos e avalie precisamente suas necessidades, preferências e habilidades. Efeito Halo: O efeito halo acontece quando um certo atributo de uma pessoa ou de uma situação é usado para formar uma impressão geral sobre a pessoa ou situação. Assim como os estereótipos, essas distorções acontecem mais no estágio de organização da percepção. Por exemplo, quando encontramos uma pessoa nova, um sorriso agradável pode nos dar uma primeira impressão positiva- de uma pessoa calorosa, honesta. Desse modo, assim como no caso do estereótipo as diferenças individuais ficam ofuscadas. Os efeitos halo são especialmente importantes np processo de avaliação de desempenho, pois podem influenciar na avaliação do desempenho do subordinado pelo gerente. Exemplo: pessoas que não faltam ao trabalho tendem a ser encaradas como inteligentes e responsáveis, enquanto que as que faltam são vistas como pessoas com desempenho inferior. Essas são conclusões que podem ser válidas ou não, cabe ao gerente obter as informações verdadeiras, não permitindo que o efeito halo provoque avaliações tendenciosas e equivocadas. Percepção seletiva: É a tendência de destacar os aspectos de uma situação, pessoa ou objeto que estejam em consistência com suas necessidades, valores ou atitudes. Tem impacto mais forte no estágio da atenção do processo perceptivo. Por exemplo, quando é solicitado à diferentes executivos de uma fábrica que apontem o principal problema num caso de política da empresa e cada um deles escolhe como problemas consistentes, aqueles relacionados com suas atribuições da área de trabalho. Projeção: É a atribuição de características pessoais para outros indivíduos. É provável que ocorra no estágio de interpretação da percepção. Exemplo: quando gerentes presumem que as necessidades de seus subordinados são iguais as suas. A projeção pode ser controlada através de um alto grau de autoconscientização e empatia - a capacidade de enxergar uma situação como os outros a vêem. Efeito Contraste:O efeito contraste ocorre quando as características de uma pessoa são contrastadas com as de outras encontradas logo em seguida, e essas tem uma graduação maior ou menor das mesmas
  12. 12. características. A distorção perceptiva pode acontecer, quando alguém por exemplo, faz um discurso depois de outro palestrante brilhante. Tanto gerentes como funcionários precisam ter presente a possível distorção perceptiva que o efeito contraste pode criar no ambiente de trabalho. Expectação: É a tendência de criar ou encontrar em outra situação ou indivíduo aquilo que realmente você espera num primeiro momento. As vezes a expectação é chamada de efeito pigmaleão. Através da expectação, você pode criar no trabalho uma situação que espera encontrar. Teoria da Atribuição A teoria da atribuição ajuda, examinando como as pessoas tentam : 1- entender as causas de um determinado evento; 2- avaliar a responsabilidade do evento; 3- avaliar as qualidades pessoais dos envolvidos no evento. Ao aplicar a teoria da atribuição, ficamos mais preocupados com o comportamento de uma pessoa se ele foi causado interna ou externamente. Acreditamos que as causas internas estão sob o controle da pessoa – por exemplo: o desempenho de Mário é baixo porque ele é preguiçoso. Causas externas estão fora da pessoa. Exemplo: Você acha que o desempenho de Rita é ruim porque a máquina dela é antiquada. De acordo com a teoria da atribuição, os três fatores que influenciam a determinação interna ou externa são a distinção, o consenso e a consistência. A distinção analisa quão consistente é o comportamento da pessoa em situações diferentes. Se o desempenho de Mário ´é baixo, independentemente da máquina que ele está trabalhando, tendemos a dar a seu baixo desempenho uma atribuição interna; se o seu baixo desempenho, é incomum, tendemos a atribuir isso a uma causa externa. O consenso leva em conta a probabilidade de os que enfrentam uma situação semelhante reagirem da mesma forma. Se as outras pessoas que usam máquinas iguais às de Rita tem um desempenho ruim, tendemos dar ao desempenho dela uma atribuição externa; se os outros não têm resultados ruins, atribuímos as causas internas o mau desempenho de Rita. A consistência leva em consideração se uma pessoa reage da mesma forma ao longo do tempo. Se Mário tem um registro constante de mau desempenho, a tendência é dar a isso uma atribuição interna. Se for um incidente isolado, atribui-se o mau desempenho de Mário a uma causa externa. Existem dois erros que têm impacto sobre a determinação interna versus externa- o erro fundamental de atribuição e a autotendência de desvio. O erro fundamental de atribuição acontece quando há tendência de subestimar a influência de fatores situacionais e superestimar a influência de fatores pessoais ao avaliar o comportamento de alguém. A autotendência de desvio é quando há tendência de negar a responsabilidade pessoal nos problemas de desempenho, mas de aceitar a responsabilidade pessoal nos desempenhos de sucesso. Resumindo: tendemos a superestimar os fatores internos e subestimar os fatores externos no comportamento de outras pessoas. Por outro lado, tendemos a atribuir nosso próprio sucesso aos fatores internos e o fracasso aos fatores externos. Bibliografia DUBRIN, Andrew J. Fundamentos do Comportamento Organizacional. São Paulo: Pioneira Thomson Learning, 2003 MULLINS, Laurie J. Gestão da hospitalidade e comportamento organizacional. 4ed. Porto Alegre: Bookman, 2004 SCHERMERHORN, Jr., John R.;HUNT,James G.;OSBORN, Richard N. Trad. Sara Rivka Gedanke. Fundamentos de Comportamento Organizacional.2ed. Porto Alegre: Bookman, 1999. -------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------

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