SlideShare uma empresa Scribd logo
1 de 18
Baixar para ler offline
POLÍTICAS
CULTURAIS
ANAIS
Seminário Internacional
XI
FICHA TÉCNICA
Anais do XI Seminário Internacional de Políticas Culturais
Realização
Setor de Políticas Culturais da FCRB
Laboratório de Ações Culturais – LBAC-UFF
Parceria
Secretaria das Culturas da Cidade de Niterói
Organização
Lia Calabre
Adélia Zimbrão
Alexandre Domingues
Comissão acadêmica
Adélia Zimbrão
Albino Rubim
Alexandre Barbalho
Alexandre Domingues
Eula Cabral
Lia Calabre
Marcelo Viana
Luiz Augusto Rodrigues
Mediadores
Adélia Zimbrão
Alexandre Domingues
Clarissa Semensato
Deborah Lima
Eula Cabral
Lia Baron
Luiz Augusto Rodrigues
Marcelo Viana
Raquel Moreira
Tânia Vicente
Vivian Fonseca
Editoração
Renata Duarte
Normatização técnica e padronização de artigos
Anderson Albérico
Ana Torrezan
Cícera Vieira
Isabela Freitas
Karen Kristien
Mariana Franco
Marina Martinez
Raquel Moreira
Tânia Vicente
Seminário Internacional de Políticas Culturais (11. : 2020 : Rio de Janeiro, RJ)
Anais do XI Seminário Internacional de Políticas Culturais [recurso eletrônico] /
Organização Lia Calabre, Adélia Zimbrão [e] Alexandre Domingues. – Divinópolis (MG):
Meus Ritmos Editora, 2021.
1 e-book em formato pdf (1118 p).
ISBN . 978-65-00-23239-4
Política cultural – Conferência. I. Calabre, Lia, org. II. Zimbrão, Adélia, org. III.
Domingues, Alexandre, org. IV. Fundação Casa de Rui Barbosa. V. Título.
CDD 306
ANAIS DO XI SEMINÁRIO INTERNACIONAL
DE POLÍTICAS CULTURAIS
Organização
Lia Calabre
Adélia Zimbrão
Alexandre Domingues
Divinópolis
2021
S
U
M
Á
R
I
O
116•	 PATRIMÔNIO AUDIOVISUAL E O ESPELHAMENTO DE MEMÓRIA
E IDENTIDADE NA REGIÃO DOS INCONFIDENTES: AS POLÍTICAS CULTURAIS
EM PROL DA CONSTITUIÇÃO DE ACERVO DE IMAGENS EM MOVIMENTO
NA TV UFOP
Aline de Queiroz Lopes
Adriano Medeiros da Rocha
128•	 UMA INTRODUÇÃO À HISTÓRIA DA BANDA MUNICIPAL DE
PORTO ALEGRE (1912-1931)
Álvaro Santi
142•	 POLÍTICA CULTURAL OU CULTURA PARA FINS POLÍTICOS?
INSTRUMENTALIZAÇÃO DA CULTURA NO ESTADO NOVO
Ana Carolina Viana Gonçalves dos Santos
152•	 VIDAS E OLHARES DA RUA O OUTRO MUNDO VISTO DO LADO
DE CÁ DO JARDIM SÃO JOÃO
Ana Lúcia Pardo
166•	 O PAPEL DO PRODUTOR NO TEATRO DE REVISTAS – CRÍTICA,
DEBOCHE E ENTRETENIMENTO EM UM SÓ PALCO
Ana Luisa Soares da Silva
176•	 10 ANOS DO SEMINÁRIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS
CULTURAIS: UMA ANÁLISE DA TEMÁTICA DA GESTÃO PÚBLICA DA CULTURA
Ana Torrezan de Souza
186•	 SABERES E INCERTEZAS: REFLEXÕES SOBRE A CRIAÇÃO DE UM
CENTRO DE FORMAÇÃO
Andréa de Araujo Nogueira
Mauricio Trindade da Silva
196•	 ACESSIBILIDADE DOS ACERVOS MUSEAIS A PARTIR DA PNM:
CONTRIBUIÇÕES DA INICIAÇÃO CIENTÍFICA NO MAPEAMENTO DAS
COLEÇÕES ETNOGRÁFICAS NO SUDESTE, CENTRO-OESTE E SUL DO PAÍS
Andressa Oliveira dos Santos
Leticia de Carvalho Pereira
Adriana Russi
128
XI Seminário Internacional de Políticas Culturais • Niterói • 2020
UMA INTRODUÇÃO À HISTÓRIA DA BANDA MUNICIPAL DE PORTO
ALEGRE (1912-1931)
Álvaro Santi1
RESUMO: O artigo utiliza os achados iniciais de uma pesquisa sobre a história da Banda Municipal
de Porto Alegre para refletir sobre o papel desta instituição nas políticas de cultura locais, ao
longo da primeira metade do Século XX. Instituída inicialmente como atividade complementar
de uma escola pública noturna, e posteriormente transformada no principal equipamento cultural
do Município, a Banda marcou época ao manter uma agenda regular de concertos ao ar livre,
privilegiando o repertório operístico, devido tanto à nacionalidade predominante de seus dirigentes
e instrumentistas, quanto ao gosto da elite local. Coroamento de um conjunto de reformas urbanas
empreendido no longo período de domínio do Partido Republicano Rio-Grandense, destinava-se a
educar o povo sob os moldes da cultura europeia e ao mesmo tempo demonstrar ao visitante o grau
de civilização atingido pela cidade.
PALAVRAS-CHAVE: Estado e instituições culturais no Brasil, história das políticas culturais,
história das bandas de música, políticas culturais na República Velha (1889-1930).
1	INTRODUÇÃO
Este artigo utiliza os achados iniciais de uma pesquisa sobre a história da Banda Municipal
de Porto Alegre para refletir sobre o papel desta instituição nas políticas de cultura locais, ao longo
da primeira metade do Século XX. Em sua feição atual, a Banda foi (re)criada em 1979, após breve
existência “em caráter experimental”, em 1976, por atos do então prefeito nomeado Guilherme Villela.
(PORTO ALEGRE, 1976; 1979) Vinculado à Secretaria Municipal de Educação e Cultura, o conjunto
era composto de 40 músicos-instrumentistas, além de mestre, contramestre, copista-arquivista e o
auxiliar deste. Com a criação da Secretaria Municipal da Cultura (SMC), em 1988, a Banda foi
incorporada ao novo órgão e seus integrantes, ao quadro de servidores estatutários. Posteriormente, o
número de músicos-instrumentistas aumentou para 50.2
Em 2019, a Banda realizou 35 apresentações
para um público estimado em 6.702 espectadores.3
1	 Prefeitura de Porto Alegre RS. Mestre em Letras e Bacharel em Música (UFRGS); Especialista em Gestão e
Políticas Culturais (Universitat de Girona-Itaú Cultural) asanti@portoalegre.rs.gov.br
2	 No momento, 12 vagas de Músicos-instrumentistas encontram-se em aberto, além dos cargos de Mestre e
Auxiliar de copista-arquivista. Cfe. Portal da Transparência. http://www2.portoalegre.rs.gov.br/transparencia. Acesso
em 5 mar. 2020.
3	 Segundo o Portal de Gestão. https://portalgestao.procempa.com.br, consultado em 5 mar. 2020.
129
XI Seminário Internacional de Políticas Culturais • Niterói • 2020
Sua história, entretanto, remonta ao início do Século XX, durante a longa gestão do engenheiro
José Montaury de Aguiar Leitão (1897-1923), ao longo da qual o Rio Grande do Sul experimentava
transformações importantes, com o incremento do sistema de transportes, estimulando a indústria
e o comércio e contribuindo para colocar a economia de Porto Alegre à frente dos municípios mais
antigos de Pelotas e Rio Grande. (MONTEIRO, 1995, p. 15, 37). Na Capital, realizavam-se obras
de saneamento, um novo cais; implantava-se a iluminação pública, bondes elétricos, serviços de
assistência pública, telefonia; enquanto surgiam diversos prédios públicos que viriam a se tornar
marcos arquitetônicos, como a Biblioteca Pública e a Faculdade de Direito. Na área artística, destaca-
se a criação do Instituto de Belas Artes, em 1908. (BAKOS, 2013, p. 85) Os investimentos do
Município eram viabilizados mediante contração de empréstimos em moeda estrangeira (em 1909 e
1922).A Capital beneficiava-se então do crescente trânsito pelo seu porto de mercadorias vindas do
exterior, do centro do país e da região colonial; e do investimento de capitais excedentes gerados pelo
comércio na nascente atividade industrial, cujo crescimento fazia contraponto à crise da pecuária,
vindo a alterar o perfil produtivo do Estado. Já em 1920, a indústria gaúcha era a terceira do país, e o
Estado possuía o maior número de empresas individuais. (MONTEIRO, 1995, p. 46-7)
Criticado por não realizar intervenções urbanísticas mais ousadas (a exemplo do que se fazia
no Rio de Janeiro e São Paulo), Montaury defendeu-se alegando haver priorizado as necessidades
básicas da população como “água, esgoto, limpeza pública, iluminação”, bem como o equilíbrio
das finanças públicas. (MONTEIRO, 1995, p. 38) Após 26 anos no cargo, teve sua reeleição vetada
pelo acordo de Pedras Altas, firmado com a oposição após a Revolução de 1923, obrigando o PRR a
apresentar o também engenheiro Octavio Francisco da Rocha como seu sucessor.
2	 A BANDA DA ESCOLA HILÁRIO RIBEIRO
Aestreia da primeira Banda de Música Municipal de PortoAlegre ocorre em 20 de setembro de
1912, data alusiva à Revolução Farroupilha, quando se distribuíram prêmios, “aos alunos de melhor
nota” da Escola Municipal Hilário Ribeiro. O grupo fora organizado como um desdobramento das
aulas de música ali oferecidas aos trabalhadores, a maior parte empregados do próprio Município
em atividades como a capina das ruas. Da estreia até a última menção encontrada, em novembro de
1921, a banda seria ouvida em diversas ocasiões, eventualmente compartilhando espaço com bandas
similares, chegando a ter 38 integrantes em 1917, com idades entre cinco e 16 anos. Seus dirigentes,
o mestre Honorato Rosa e o contramestre André Avelino Rodrigues, atuavam como professores de
música na escola.
130
XI Seminário Internacional de Políticas Culturais • Niterói • 2020
A esta altura, alguns municípios do Estado já possuíam suas bandas municipais, cuja presença
em eventos cívicos é registrada nas páginas d’AFederação.4
Ao longo da década de 1910, praticamente
todos os municípios contarão com suas próprias bandas, proliferação que parece responder mais à
necessidade cotidiana de música do que a algum programa de governo. Na capital, anteriormente
à Banda Municipal, há registros de outras bandas – civis e militares – em diversas apresentações,
remontando ao Século XIX. (DAMASCENO, 1956, p. 244, 363; SANMARTIN, 1969, p. 20-1, 23,
25, 33, 35)
3	 O PROJETO DA NOVA “BANDA-ORCHESTRA”
No mês seguinte, A Federação5
publicava o documento “Banda-Orquestra Municipal de Porto
Alegre: Projeto de organização apresentado ao Intendente Municipal pelos maestros José Corsi (1880-
1938) e José de Andrade Neves”. Andrade Neves acabava de assumir a direção do Conservatório de
Música do Instituto de Belas Artes, e sua participação aqui parece ter-se limitado à elaboração do
projeto, cuja execução ficaria a cargo de Corsi, italiano radicado no Rio Grande do Sul, quem desde
1913 dirigia seu próprio estabelecimento de ensino musical, o Instituto Porto Alegre. Corsi assinava
o projeto como presidente do Centro Musical Porto Alegrense – organização que ajudara a fundar, em
1920, e que mais tarde daria origem ao primeiro Sindicato de Músicos. (A Federação, 8 abr. 1925, 4)
Tem início então a história “oficial” da Banda, em 19 de maio de 1925, quando o Conselho
Municipal autorizou o intendente a “reorganizar” a instituição. (PORTO ALEGRE, v. 27, 18 mai.
1925) Embora Corte Real tenha transcrito o termo “reorganizar” em seu livro (1984, p. 49-70) – por
trinta anos a principal fonte sobre a história da instituição - ele só viria a ser explicado trinta anos
mais tarde por Bohrer, que resgatou a história da Banda “original”, assinalando as diferenças entre
esta, que “possibilitava acesso ao trabalho e à instrução a um determinado número de crianças, ao
mesmo tempo que garantia mão de obra barata para os serviços da municipalidade”, e a nova, “que
acompanhava uma proposta de modernização da cidade e dos costumes, atenta, principalmente, à
difusão de uma identidade social e cultural determinada e desejada”, como indicadores do nível de
civilização e de “branqueamento” da população que se pretendia para a cidade. (2014, p. 56-66)
O projeto divide-se em duas partes, sendo a primeira uma justificativa e a segunda dedicada
aos aspectos práticos. O grupo teria “um mínimo” de 42 instrumentistas, admitidos por concurso,
além de dez aprendizes (a serem formados em escola própria), sob direção de um maestro, auxiliado
por um segundo maestro ou “ensaiador”. (A Federação, 8 abr. 1925, p. 4). Meses mais tarde, um
4	 As primeiras bandas municipais cuja existência é referida pelo jornal são as de Santo Amaro (1904), Itaqui
(1908), Uruguaiana (1910) e Caxias do Sul (1911).
5	 Jornal do Partido Republicano Rio-Grandense (depois, Partido Republicano Liberal), tendo circulado entre
1884 e o golpe do Estado Novo, em novembro de 1937.
131
XI Seminário Internacional de Políticas Culturais • Niterói • 2020
“Regulamento” irá detalhar o aspecto disciplinar, com proibições de utilizar uniformes e instrumentos
(do Município) fora do serviço, apresentar-se “sem o decoro necessário”, atuar em serviços particulares
sem autorização prévia e, em hipótese alguma, tocar “em cabarés ou casas congêneres”. O quadro
passa a ter 60 músicos, somando-se a estes um Inspetor, um Vice-Inspetor, 1º e 2o
Maestros-Dirigentes
e um Secretário, totalizando 65 membros. (A Federação, 15 out. 1926, p. 48)
A parte introdutória contém um histórico das “bandas militares ou conjuntos de harmonia
municipais nas grandes nações”, destacando no Brasil a Banda da Força Pública de São Paulo e
a do Corpo de Bombeiros do Rio de Janeiro, deixando de mencionar outras que atestam “a pouca
prática e quase nenhuma cultura musical dos seus organizadores”, que recebem subsídios públicos
sem fiscalização adequada, com resultados discutíveis. Tais bandas, em vez de propagarem a “cultura
musical, desvirtuam o gosto artístico do povo executando produções banais de autores sem renome ou
composições sem nexo da lavra do próprio ensaiador”. É provável que os autores tivessem em mente
também a antiga Banda Municipal, porém as páginas d’A Federação não seriam o lugar adequado
para criticar a iniciativa do intendente anterior. (A Federação, 8 abr. 1925, p. 4)6
Na música nacional, cita-se com orgulho Carlos Gomes, graças a quem tornou-se o Brasil “o
único país da América que teve um grande compositor de óperas que alcançou os louros das mais
cultas plateias do mundo”. Falecido então há quase trinta anos (em 1896), Gomes mantinha-se no topo
do panteão nacional, devido ao prestígio da ópera entre nossas elites. Infenso aos ideais da Semana
de Arte Moderna (1922), o projeto adotava um paradigma cultural perfeitamente eurocêntrico, num
momento em que a obsessão pelo progresso implicava a negação de qualquer elemento de cultura
popular que pudesse macular a imagem civilizada da sociedade dominante. Da mesma forma, as
reformas nos centros urbanos serviam para “purificá-los”, à medida que expulsavam os portadores
de culturas tradicionais, cujo convívio era motivo de vergonha para a elite. Era preciso “apagar a
nódoa das raças inferiores e dos povos culturalmente atrasados instalados no território nacional”.
(TRAVASSOS, 2000, p. 34-5)
4	 O MAIS REFINADO PRODUTO CULTURAL GLOBAL: A ÓPERA
A partir da inauguração do Teatro São Pedro, em 1858, Porto Alegre tentava se firmar como
uma escala eventual para as companhias de ópera, entre Buenos Aires e o Rio de Janeiro. Antes da
popularização do rádio e do cinema, tratava-se do produto cultural mais refinado e complexo, cujos
custos elevados de produção e circulação só podiam ser arcados pelas classes urbanas abastadas.
Na capital da República, seu prestígio era imenso e remontava aos tempos de D. João VI. Com o
6	 BOHRER (2014, p. 64) assinala a coincidência de o novo projeto ter sido publicado logo após o falecimento
de Honorato Rosa, indicando que a administração municipal pudesse estar aguardando o melhor momento para lançá-
lo sem desmerecer a iniciativa anterior (e seu antigo mestre).
132
XI Seminário Internacional de Políticas Culturais • Niterói • 2020
Municipal de São Paulo e o Colón de Buenos Aires, inaugurados na mesma época, formou-se um
atraente tripé para a circulação das companhias. Os padrões de gosto na capital do País seguiam as
“tendências vigentes em matéria de gosto musical e operístico nos grandes centros líricos italianos”,
respondendo os compositores deste país por mais da metade dos espetáculos. A produção nacional
correspondia a seis por cento, porém parte significativa era cantada em italiano. (MICELI, 2006, p.
304, p. 309-11)
De forma pouco surpreendente, a ópera dominava também o gosto do público porto-alegrense,
ao qual se oferecia a oportunidade de “participar de um pouco da grandeza” das metrópoles distantes,
além de constituir um “ornamento indispensável, [...] fator ostensivo e assumido de distinção de
classe”. Contudo, apesar do Teatro São Pedro ser mais antigo do que os municipais do Rio e São
Paulo, é somente a partir do início do século XX que irão se tornar mais regulares as temporadas de
ópera, ainda que se alternem períodos de penúria com outros de fartura. (LOPEZ, 1989, p. 143-4) A
imprensa exercia papel importante para o sucesso da atividade, anunciando as atrações vindouras com
antecedência, alimentando a expectativa e a venda de ingressos; e publicando críticas que podiam ser
decisivas para abreviar ou prolongar as temporadas – que duravam semanas ou até meses; além de
“educar” o público sobre como se comportar. Em 1902, estreiam quase simultaneamente duas óperas
de compositores locais, motivo de júbilo para a Capital: Sandro, de Murillo Furtado, e Carmela, de
José de Araújo Vianna - ambas cantadas em italiano. (MORITZ, 1975, p. 159-64)
5	 A NOVA “BANDA-ORCHESTRA”: DA FORMAÇÃO À ESTREIA
Em 28 de abril de 1925, publica-se edital para preenchimento das vagas de instrumentistas,
assinado pelo “inspetor” José Corsi. Não encontramos registros sobre a continuidade do processo
seletivo, mas sabe-se que Corsi viajou a Buenos Aires em busca de um maestro, tendo lá conhecido
José Leonardi (1880-1957), trompetista e formado em instrumentação para banda pelo Conservatório
Vincenzo Bellini, de Palermo. (CONEDERA, 2017, p. 204) Leonardi teria vindo então a Porto Alegre
para entrevistar-se com Octavio Rocha, que ratificou o convite.Aquele, porém, sustentou que somente
com os músicos locais seria impossível formar uma banda “de primeira qualidade”, sugerindo que
o Município patrocinasse a vinda de outros, diretamente da Itália. (Paranhos, apud CONEDERA, p.
181-2)
Seu diagnóstico, em concordância com o projeto de Corsi e Andrade Neves, era atestado pela
escassez de músicos dessa especialidade registrados no Centro Musical Porto-Alegrense à época.
(SIMÕES, 2011, p. 173) No entanto, devem ter pesado também na sua sugestão, aceita pelo intendente,
a amizade e o desejo de ajudar compatriotas em dificuldades. (Paranhos, apud CONEDERA, p. 181-
2) Dessa forma, em novembro de 1925 desembarcaram em Porto Alegre dezoito instrumentistas (a
maior parte italianos), provenientes de Buenos Aires e, posteriormente, “um maior número” destes
133
XI Seminário Internacional de Políticas Culturais • Niterói • 2020
foi contratado no sul da Itália (CORTE REAL, 1984, p. 51), juntando-se a 16 músicos locais. (A
Federação, 7 jul. 1926, p. 5) Leonardi aparentemente é quem seleciona os músicos, processo sobre o
qual contudo nos faltam informações, bem como sobre a viagem do elenco até Porto Alegre.
A Banda Municipal, tendo ao centro o maestro Leonardi.7
6	 DA ESTREIA À MORTE DO PATRONO OCTAVIO ROCHA (1926-1928)
A primeira apresentação da nova Banda ocorreria em 13 de junho de 1926, no Teatro São
Pedro, “verdadeiro acontecimento artístico”, que lotou o teatro com “o que a sociedade de Porto
Alegre tem de distinto”, público que aplaudiu “com entusiasmo todos os números do bem organizado
programa”, integralmente composto por trechos de óperas, com exceção de uma peça de Mozart. Das
cinco óperas, três eram italianas (Mascagni, Boito e Giordano), uma alemã (Wagner) e uma brasileira
(Carlos Gomes, cantado em italiano). (A Federação, 14 jun. 1926, p. 3)
7	 Publicada na revista Máscara.Ano XI, n. 1-2, jan-fev. 1928, p. 60, sem crédito do autor, com a seguinte legenda:
“Um dos motivos de orgulho para a cidade e de glória para seu operoso intendente: a Banda Municipal. Organizá-la
foi uma prova de coragem. Dar-lhe o brilho disciplinar que ela apresenta, uma demonstração do acerto do dr. Otávio
Rocha na escolha do seu fiscal, o maestro José Corsi. O maestro Corsi, numa revelação flamante de energia correu os
maiores centros artísticos da Europa, e improvisando-se propagandista das nossas maravilhas naturais e benignidade
do clima, conseguiu atrair músicos de valor que formam um núcleo de disseminação musical no Rio Grande, pois eles
são os professores de uma escola gratuita criada pelo dr. Otávio Rocha.”
134
XI Seminário Internacional de Políticas Culturais • Niterói • 2020
Se o predomínio da ópera adequava-se ao gosto das classes abastadas, como vimos, por outro
lado pode parecer inadequada a criação de um conjunto instrumental para executar obras líricas -
em cuja essência está o canto. O propósito da Municipalidade, contudo, era colocar à disposição de
camadas mais amplas da população “a mais alta expressão” da arte musical. Desenhada especialmente
para o espaço aberto, a banda utiliza somente instrumentos de percussão e sopro, menos sensíveis ao
clima e com maior volume sonoro do que as cordas - numa época em que não havia equipamentos
para amplificar o som. Sendo quase impossível transpor para esse ambiente a totalidade do drama
lírico, a solução encontrada foi oferecer trechos e adaptações instrumentais dessas obras.
No mês seguinte, a banda apresenta-se pela primeira vez na Praça Senador Florêncio, onde
para ela se faz construir um coreto, prometendo duas retretas semanais.8
No repertório, as poucas
exceções à ópera incluem composições do mestre Leonardi.Além desse local, a Banda eventualmente
se fará presente em outros logradouros públicos, especialmente em datas comemorativas, quando
também desfila pelas ruas centrais da cidade.
Em 19 de novembro de 1927, inaugura-se a sede própria da Banda, o Auditório Araújo Vianna,
um palco construído ao ar livre, dotado de concha acústica, sob o qual fica a área para ensaios, aulas
e atividades administrativas. Para justificar o alto investimento9
, o intendente recorre aos aplausos
da população, que acorria às retretas “com um interesse digno da sua cultura”; e aos elogios “de
personalidades artísticas que nos visitaram”. Com o intuito de tornar os concertos “cada vez mais
atraentes” e “despertar gradualmente no espírito do público os princípios educativos e didáticos da
arte musical”, a Banda executava também (de fato, raramente) programas “de caráter popular”. (A
Federação, 15 out. 1927, p. 13) Noticiada com discrição, talvez para não alimentar críticas em face
às dificuldades enfrentadas pelas finanças públicas, a inauguração teria atraído cinco mil pessoas. O
mais ambicioso projeto musical da história do Estado dava mostras de inegável prestígio, ao fincar
raízes em plena Praça da Matriz, junto às sedes dos três poderes, da Igreja Católica e do principal
teatro.10
A escolha de José de Araújo Vianna (1872-1916) para denominar a nova “praça de concertos”
era natural. Filho da terra, após estudar na Itália, lograra reconhecimento no Rio de Janeiro com sua
ópera Carmela, falecendo com apenas 44 anos, no auge da carreira. (CORTE REAL, 1984, p. 235-9;
CAVALHEIRO LIMA, 1956)
Em 27 de fevereiro de 1928, falece Octavio Rocha, sucedido no governo por seu vice, Alberto
Bins, líder empresarial, de origem alemã. Para além da Banda e doAuditório, a gestão de Rocha ficaria
8	 Meta que raramente será atingida. Até o final deste ano de 1926, por exemplo, encontramos menção a 25
apresentações na praça. Os termos “concerto” e “retreta” são usados de forma alternada e indistinta na divulgação dos
programas pelo jornal.
9	 Inicialmente orçado em 75 contos de réis, o projeto teria custado pelo menos 119 contos, até a edição do
relatório anual do Intendente, em 15 de outubro, valor correspondente a 15% do total despendido na rubrica “Construção
e remodelação de praças e jardins” (819 contos).
10	 Não obstante, teria vida curta, sendo demolido em 1960 para dar lugar ao novo prédio da Assembleia
Legislativa.
135
XI Seminário Internacional de Políticas Culturais • Niterói • 2020
marcada por “grandes reformas urbanas que reorganizam o espaço global da cidade”. Inspiradas nas
que Pereira Passos havia empreendido no Rio de Janeiro, buscavam “integrar as camadas populares
urbanas aos valores e às formas de sociabilidade burguesas”. Para fazer frente às melhorias, promoveu
reformas fiscal e administrativa, além de contratar dois novos empréstimos e alinhavar um terceiro.
(Monteiro, 1995, p. 52-4, 55-6; BAKOS, 2013, p. 62-66, 37). A análise do orçamento, porém, traz
à tona as prioridades da gestão. Na proposta para o ano de 1925, por exemplo, destina-se montantes
menores a obras de águas e esgotos do que ao “embelezamento da cidade”. Já para 1928, previa-se
para a Banda 350 contos de réis (2,7% da despesa ordinária), cerca de duas vezes o que se destinava
à Diretoria de Higiene (170 contos) e metade do que se pretende investir na Iluminação Pública (700
contos). (A Federação, 12 dez. 1927, p. 4)
Em complemento, foram implementadas medidas para combater problemas sociais como o
jogo (que pelas possibilidades de ganho fácil ameaçavam a consolidação de uma moral do trabalho)
e o alcoolismo (que tornava o trabalhador imprestável). (MONTEIRO, 1995, p. 81, 86) Imbuídos
de uma missão civilizadora, governos e imprensa moviam uma cruzada contra essas práticas (e
também contra a prostituição e a mendicância), visando firmar “novos padrões de vida e os valores da
burguesia em ascensão” e integrar “as classes populares à sociedade moderna”, através das virtudes
da operosidade, da higiene, da economia, da previdência, da boa aparência. (MONTEIRO, 1995, p.
89)
7	 A GESTÃO DE ALBERTO BINS, ATÉ O FINAL DO CONTRATO (1928-1931)
Em maio, inaugura-se a Escola de Música Dr. Octavio Rocha, prevendo Alberto Bins que
de ora em diante a Banda tornar-se-ia ainda “mais simpática aos olhos da população, pois incluía...
a educação e a formação artística de jovens patrícios”, os quais seriam seus futuros integrantes. (A
Federação, 7 mai. 1928, p. 4). Em 13 de junho, segundo aniversário da Banda, esta executa um
programa especial com autores nacionais “que até agora faziam falta nos programas”, entre os quais
Araújo Vianna. (A Federação, 5 jun. 1928, p. 3).
Em 15 de outubro, Bins assumiria como novo intendente, dando continuidade à gestão anterior.
Na mesma data, seu “Relatório” anual ao Conselho informa que a Banda, com um quadro de 55
instrumentistas, ofereceu 56 audições públicas no ano. OAuditório é ali descrito com capacidade para
1500 espectadores sentados, iluminação “moderna e abundante”, refletores nas colunas das “pérgolas
pompeanas” e um microfone ligado ao estúdio da Rádio Sociedade Gaúcha (fundada no ano anterior),
permitindo que os concertos sejam ouvidos “não só em qualquer localidade do Estado, como em São
Paulo e Montevidéu.” A Escola de Música, ora com 61 alunos, dedica-se a “formar um núcleo de
bons instrumentistas nacionais e difundir uma verdadeira cultura musical, acessível gratuitamente à
mocidade”, por meio dos “métodos mais aperfeiçoados das escolas clássicas”. O custo da Banda, em
136
XI Seminário Internacional de Políticas Culturais • Niterói • 2020
1927, alcançara 379 contos de réis, sendo a nona maior entre as 24 rubricas ordinárias, correspondendo
a 2,7% da despesa, que crescera mais de 40% entre os exercícios de 1926 e 1927 (enquanto a despesa
total cresceu 17%). O patrimônio (instrumentos e partituras) estava avaliado em 36 contos, ao final
de 1926; e em 49 contos ao final do ano seguinte. Já a dívida do Município ultrapassava, ao final de
1927, 90 mil contos, aos quais vieram se somar outros 18 mil (US$ 2,25 milhões), contratados por
Alberto Bins em março de 1928. (A Federação, 15 out. 1928)
No próximo relatório anual, Bins voltará a elogiar a Banda e sua recepção pelo público, que
assistiu a 118 apresentações, com a execução de mais de 750 peças musicais, no período de julho
de 1928 a junho de 1929, registrando melhorias em sua sede e aquisição de obras para o acervo,
que contava então com 260 peças. A Escola de Música contabilizava 84 alunos, com “resultados
satisfatórios” nos exames, “conseguindo-se, assim, selecionar elementos que dispõem de real vocação
artística que serão, ao final do curso, aproveitados na Banda.” (Bins, apud CONEDERA, 2017, p.
191) A situação financeira é dada pelo intendente como “perfeitamente regularizada, com o justo
equilíbrio orçamentário”, desde o final do ano anterior. Contudo, a dívida total ultrapassava, em 30
de junho de 1929, os 115 mil contos (contra 90 mil ao final de 1927), alcançando a despesa com seu
serviço 49,5% da arrecadação anual (10,5 mil de 21,3 mil), percentagem que o intendente admite ser
“em verdade anormal, mas natural num período de transformação por que estamos atravessando”. (A
Federação, 15 out. 1929, p. 10-11)
No ano seguinte, o país mal emerge da convulsão revolucionária, deflagrada em três de outubro,
mas na imprensa local há espaço para refletir se convém mais à cidade uma banda ou uma orquestra,
pois aproxima-se o término do contrato de cinco anos da maioria dos músicos. Afirma um articulista
que no “mundo musical” (porto-alegrense) trava-se uma “luta aberta” entre dois “partidos”: os que
desejam a conservação da Banda Municipal e os que desejam uma sinfônica. Reconhecendo que, em
tese, uma orquestra “é melhor meio de expressão artística do que uma banda”; e sendo o objetivo de
ambas levar a boa música a milhares de pessoas; pondera que a cidade não dispõe de local adequado
para uma orquestra, concluindo que a Banda seria, por ora, o corpo musical melhor capacitado para os
fins de “educação popular”. (Estado do Rio Grande, 1 dez. 1930, p. 5) O artigo marca talvez o início
de um debate que terá seu desenlace somente duas décadas mais tarde, quando, em três de março de
1953, o Município firmará convênio com a Orquestra Sinfônica de Porto Alegre (OSPA)11
, colocando
à disposição desta todos os recursos da Banda, incluindo os músicos remanescentes, espaço para
ensaios, acervo e saldo orçamentário, além de suspender as nomeações de novos integrantes. Em 1957,
os cargos da Banda seriam declarados em extinção, ocorrendo em 1963 sua derradeira apresentação,
com quadro já extremamente reduzido. (CORTE REAL, p. 62-68)
11	 Criada em 1950 como uma associação civil, a OSPA seria encampada pelo Governo do Estado do Rio Grande
do Sul somente em 1963. Atualmente é uma fundação vinculada à Secretaria de Estado da Cultura.
137
XI Seminário Internacional de Políticas Culturais • Niterói • 2020
Após a Revolução, Alberto Bins é mantido no cargo – agora intitulado “prefeito”. Em novo
relatório, ele assegura que a Banda “continua correspondendo aos intuitos visados pela administração
que nos antecedera, pelo interesse que a população lhe vem dispensando, como se verifica da notável
assistência... às suas audições artísticas.” (Bins, apud CONEDERA, 2017, p. 191) Entretanto, as
perspectivas para a Banda são sombrias. Em 29 de dezembro, o Estado repercute editorial do Correio
do Povo da véspera, que criticava a extinção próxima da Banda. (Estado do Rio Grande, 29 dez. 1930,
p. 3) No dia 30 de abril, realizava-se a última apresentação da Banda, nessa formação.12
O prefeito
teria oferecido aos músicos a possibilidade de manter o conjunto, mas reduzindo os salários, o que
não foi aceito.Final de uma “era de ouro”, do sonho (delírio?) de Octavio Rocha, não era ainda o fim
da Banda, que retornaria aos palcos em 15 de novembro, graças ao apoio do interventor do Estado,
Flores da Cunha, num formato “mais de acordo com as possibilidades financeiras do momento.”
(SIMÕES, 2011, p. 197-8).
A Banda Municipal em concerto, no palco do Auditório Araújo Vianna, inaugurado em 19/11/1927.13
8	 CONSIDERAÇÕES FINAIS
Conforme afirmamos no início do texto, este resulta de uma pesquisa em andamento. Por este
motivo e pela exiguidade do espaço, encerra-se aqui o relato cronológico, finalizando com algumas
reflexões, com foco no período estudado.
12	 CORTE REAL (1984, p. 55, 65) dá como última apresentação o dia 4 de março; enquanto Simões registra 1º
de maio. O Relatório de Alberto Bins ao Interventor do Estado Flores da Cunha em 12 dez. 1931 confirma a data de
30 de abril.
13	 Autor desconhecido. Acervo do Museu Joaquim José Felizado.
138
XI Seminário Internacional de Políticas Culturais • Niterói • 2020
A iniciativa, patrocinada pelo intendente Octavio Rocha em 1925, de instituir uma banda
musical “importando” número significativo de músicos do exterior, chama a atenção pela ousadia
e atraiu críticas pelas despesas que acarretou ao erário municipal, em dificuldades devido ao alto
comprometimento com empréstimos estrangeiros. Contudo, distante de ser um capricho de um
governante melômano, a (re)criação da Banda, em formato e com propósitos radicalmente distintos
do modesto conjunto escolar que a antecedeu, adquire sentido como parte do ambicioso projeto de
“modernização” da cidade, no qual lhe está destinado um papel importante.
O PRR, que governou o Estado e a capital gaúcha ao longo de praticamente toda a República
Velha, foi fortemente influenciado pela doutrina positivista de Augusto Comte (1798-1857), para
quem “as principais dificuldades sociais” não eram “essencialmente políticas, mas sobretudo morais,
de sorte que sua solução possível depende realmente das opiniões e dos costumes, muito mais do
que das instituições”. (apud VÉLEZ, 2010, p. 99-100) O pensamento comteano teve em Júlio de
Castilhos, patriarca republicano falecido em 1903, um entusiástico discípulo, que adaptou aquela
doutrina para seus próprios fins, resultando no que viria a se chamar o “castilhismo”. Antiliberal, seu
pensamento político pressupunha um estado autocrático e uma sociedade moralizadora, “na qual o
móvel inspirador dos cidadãos era a procura da virtude”. (VÉLEZ, 2010, p. 25).
Buscando conciliar a conservação da ordem e a promoção do progresso, o positivismo supunha
que leis científicas, similares às que explicam a Natureza, presidiam à evolução das sociedades, que
a partir do estágio mais primitivo (ou teológico, que recorre à religião para explicar os fenômenos
naturais) chegariam ao estágio ideal, o positivo, “caracterizado pelo primado da razão e da ciência...
estágio final do progresso humano, em que os detentores do conhecimento científico - uma elite
de sábios - comandariam a sociedade.” (PESAVENTO, 1988, p. 98) Ainda que não haja, na obras
de Comte, um pensamento propriamente estético (WEIMER, 2003, p. 100), a reivindicação de que
a arte possa (ou deva) servir para a educação e o “aperfeiçoamento moral” da humanidade tem
profundas raízes no pensamento ocidental, adquirindo maior desenvolvimento a partir do Iluminismo.
(BELFIORE, 2010, p. 124-45) É o que pode justificar o uso da música pelo Estado como um recurso
para a formação de cidadãos. Não de qualquer música, bem entendido. Para os iluministas, a Grande
Arte, “fundada nos valores da verdade, do bem e da beleza”, para o cultivo do emergente indivíduo
burguês, encontra-se idealmente distante tanto da arte frívola e ornamental, feita sob encomenda para
agradar a aristocracia decadente; quanto da arte vulgar, própria da ralé, igualmente destituída de valor.
(BELFIORE, p. 127-8)
Não se sabe se Júlio de Castilhos teria aprovado a iniciativa de Rocha, já que aquele defendia
o afastamento do Estado não apenas da Igreja, mas do ensino superior, sob o argumento que, não
cabendo àquele adotar uma religião oficial, tampouco uma ciência oficial seria desejável, sobretudo
para assegurar a liberdade dessa ciência. Se o Estado, “não sendo religioso, também não pode ser
cientista”, como poderia ser artista? (Castilhos, apud ROSA, 1930, p. 492). Não há como negar,
139
XI Seminário Internacional de Políticas Culturais • Niterói • 2020
entretanto, que nas sociedades modernas emergentes as instituições culturais, sejam ou não estatais,
exercem funções convergentes às do Estado, como a de fornecer espaços de reconciliação, numa
sociedade dividida por conflitos ou contradições; ou oferecer alguma segurança contra a anarquia
potencial em épocas de rápida transformação social; ou abrigarem as mais altas expressões do ser
humano. (LLOYD, 1998, p. 1)
140
XI Seminário Internacional de Políticas Culturais • Niterói • 2020
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
BAKOS, Margaret Marchiori. Porto Alegre e seus eternos intendentes. 2. ed. Porto Alegre: Edipucrs, 2013.
220 p. (Série História, 11)
BELFIORE, Eleonora; BENNETT, Oliver. The social impact of the arts: An intellectual history. New York:
Palgrave MacMillan, 2010.
BOHRER, Felipe Rodrigues. A música na cadência da história: Raça, classe e cultura em Porto Alegre no
pós-abolição. Dissertação de Mestrado. Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal
do Rio Grande do Sul. 2014.
CAVALHEIRO LIMA, J. C. Araújo Viana: vida e obra. Porto Alegre: Divisão de Cultura-Diretoria de Artes
(Secretaria de Educação e Cultura-RS), 1956.
CONEDERA, Leonardo de Oliveira. Músicos no Novo Mundo: A presença de musicistas italianos na Banda
Municipal de Porto Alegre (1925-1950). Tese de Doutorado. Programa de Pós-Graduação em História da
Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul. 2017.
CORTE REAL, Antônio Tavares. Subsídios para a história da música no Rio Grande do Sul. 2a. ed. rev.
aum. Porto Alegre: Movimento, 1984.
DAMASCENO, Athos. Palco, Salão e Picadeiro em Porto Alegre no Século XIX: Contribuição para o
estudo do processo cultural no Rio Grande do Sul. Porto Alegre: Globo, 1956. (Col. Província, v. 11)
LLOYD, David; THOMAS, Paul. Culture and the State. Routledge, 1997.
LOPEZ, Luiz Roberto. A música no Theatro: um corte histórico na vida da província. In: GOLIN, Cida et
al. Theatro São Pedro: palco da cultura. Porto Alegre: Instituto Estadual do Livro, 1989. p. 143-215.
MICELI, Sérgio. Entre o palco e a televisão. In: Estatísticas do Século XX. Rio de Janeiro: Instituto Brasileiro
de Geografia e Estatística, 2006. p. 301-343.
MONTEIRO, Charles. Porto Alegre, urbanização e modernidade: A construção social do espaço urbano.
Porto Alegre: Edipucrs, 1995.
MORITZ, Paulo Antônio. Ópera. In: DAMASCENO, Athos et al. O Teatro São Pedro na Vida Cultural do
Rio Grande do Sul. Porto Alegre: Departamento de Assuntos Culturais - Secretaria de Educação e Cultura-
RS, 1975. p. 155-245.
PESAVENTO, Sandra. A burguesia gaúcha: Dominação do capital e disciplina do trabalho. RS 1889-1930.
Porto Alegre: Mercado Aberto, 1988.
PORTO ALEGRE. Livro de Atas do Conselho Municipal. V. 27. [Arquivo Histórico de Porto Alegre Moyses
Vellinho]
141
XI Seminário Internacional de Políticas Culturais • Niterói • 2020
PORTO ALEGRE, Prefeitura Municipal. Decreto 65, de 27 ago. 1926.
PORTO ALEGRE, Prefeitura Municipal. Decreto 5471, de 22 mar. 1976
PORTO ALEGRE, Prefeitura Municipal. Decreto 7065, de 20 nov. 1979.
PORTO ALEGRE. Prefeitura Municipal Lei 6.099, de 4 fev. 1988.
ROSA, Othelo. Júlio de Castilhos: Perfil biográfico e escritos políticos. Porto Alegre: Livraria do Globo,
1930.
SANMARTIN, Olintho. Um Ciclo de Cultura Social. Porto Alegre: Sulina, 1969.
SIMÕES, Júlia da Rosa. Ser músico e viver da música no Brasil: Um estudo da trajetória do Centro
Musical Porto-Alegrense (1920-1933). Dissertação de Mestrado. Programa de Pós-Graduação em História da
Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul. 2011.
TRAVASSOS, Elizabeth. Modernismo e música brasileira. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2000. (Descobrindo
o Brasil)
VÉLEZ RODRÍGUEZ, Ricardo. Castilhismo, uma filosofia da República. Brasília: Senado Federal, 2010.
WEIMER, Günter. A vida cultural e a arquitetura na República Velha Rio-grandense. (1895-1945) Porto
Alegre: Edipucrs, 2003.

Mais conteúdo relacionado

Mais procurados

Apresentação Fundação Cultural
Apresentação Fundação CulturalApresentação Fundação Cultural
Apresentação Fundação CulturalLucas Junior
 
Plano Municipal de Cultura de Porto Alegre
Plano Municipal de Cultura de Porto AlegrePlano Municipal de Cultura de Porto Alegre
Plano Municipal de Cultura de Porto AlegreAlvaro Santi
 
Plano municipal - CULTURA- social - 2012
Plano municipal - CULTURA- social  - 2012Plano municipal - CULTURA- social  - 2012
Plano municipal - CULTURA- social - 2012Rosane Domingues
 
A HistóRia Da MúSica
A HistóRia Da MúSicaA HistóRia Da MúSica
A HistóRia Da MúSicaHOME
 
Palestra cultura na terra do parecis 2012
Palestra cultura na terra do parecis 2012Palestra cultura na terra do parecis 2012
Palestra cultura na terra do parecis 2012romuloculturamt
 

Mais procurados (6)

Apresentação Fundação Cultural
Apresentação Fundação CulturalApresentação Fundação Cultural
Apresentação Fundação Cultural
 
Plano Municipal de Cultura de Porto Alegre
Plano Municipal de Cultura de Porto AlegrePlano Municipal de Cultura de Porto Alegre
Plano Municipal de Cultura de Porto Alegre
 
Plano municipal - CULTURA- social - 2012
Plano municipal - CULTURA- social  - 2012Plano municipal - CULTURA- social  - 2012
Plano municipal - CULTURA- social - 2012
 
Relatório 1ª cmc
Relatório 1ª cmcRelatório 1ª cmc
Relatório 1ª cmc
 
A HistóRia Da MúSica
A HistóRia Da MúSicaA HistóRia Da MúSica
A HistóRia Da MúSica
 
Palestra cultura na terra do parecis 2012
Palestra cultura na terra do parecis 2012Palestra cultura na terra do parecis 2012
Palestra cultura na terra do parecis 2012
 

Semelhante a Uma introdução à história da Banda Municipal de Porto Alegre (1912-1931)

A rte cidade e patrimonio cultural
A rte cidade e patrimonio culturalA rte cidade e patrimonio cultural
A rte cidade e patrimonio culturalAna Costa E Silva
 
Políticas Culturais no Brasil - Lia Calabre
Políticas Culturais no Brasil - Lia CalabrePolíticas Culturais no Brasil - Lia Calabre
Políticas Culturais no Brasil - Lia CalabreLuana Colosio
 
Santi,A.PartiturasdaBMPANotíciadeumAcervoHistórico.pdf
Santi,A.PartiturasdaBMPANotíciadeumAcervoHistórico.pdfSanti,A.PartiturasdaBMPANotíciadeumAcervoHistórico.pdf
Santi,A.PartiturasdaBMPANotíciadeumAcervoHistórico.pdfAlvaro Santi
 
Relatório 1ª Conferência Municipal de Cultura do Rio de Janeiro (2009)
Relatório 1ª Conferência Municipal de Cultura do Rio de Janeiro (2009)Relatório 1ª Conferência Municipal de Cultura do Rio de Janeiro (2009)
Relatório 1ª Conferência Municipal de Cultura do Rio de Janeiro (2009)Gabriela Agustini
 
Artigo Gnattali A N P P O M2011
Artigo  Gnattali  A N P P O M2011Artigo  Gnattali  A N P P O M2011
Artigo Gnattali A N P P O M2011Aparecida Valiatti
 
Peças Gráficas para divulgação do espetáculo "Quando Efe"
Peças Gráficas para divulgação do espetáculo "Quando Efe"Peças Gráficas para divulgação do espetáculo "Quando Efe"
Peças Gráficas para divulgação do espetáculo "Quando Efe"Alegria Design
 
Produção Editorial - Cliente: Fundação Abrinq
Produção Editorial - Cliente: Fundação AbrinqProdução Editorial - Cliente: Fundação Abrinq
Produção Editorial - Cliente: Fundação AbrinqVinícius Gorgulho
 
Por uma reestrutura_ao_da_filarmonica_de_pocinhos (1)
Por uma reestrutura_ao_da_filarmonica_de_pocinhos (1)Por uma reestrutura_ao_da_filarmonica_de_pocinhos (1)
Por uma reestrutura_ao_da_filarmonica_de_pocinhos (1)Eduardo Araujo
 
Políticas setoriais no brasil
Políticas setoriais no brasilPolíticas setoriais no brasil
Políticas setoriais no brasilElena Barros
 
SEMANA DE ARTE MODERNA - ROSIANE.pptx
SEMANA DE ARTE MODERNA - ROSIANE.pptxSEMANA DE ARTE MODERNA - ROSIANE.pptx
SEMANA DE ARTE MODERNA - ROSIANE.pptxROSIANERODRIGUESALVE1
 
Um retrato da Cultura Brasileira da Era Vargas ao Regime Militar
Um retrato da Cultura Brasileira da Era Vargas ao Regime MilitarUm retrato da Cultura Brasileira da Era Vargas ao Regime Militar
Um retrato da Cultura Brasileira da Era Vargas ao Regime Militarjosafaslima
 

Semelhante a Uma introdução à história da Banda Municipal de Porto Alegre (1912-1931) (20)

A Música em Ribeirão Preto
A Música em Ribeirão PretoA Música em Ribeirão Preto
A Música em Ribeirão Preto
 
Artigo pra7
Artigo pra7Artigo pra7
Artigo pra7
 
A rte cidade e patrimonio cultural
A rte cidade e patrimonio culturalA rte cidade e patrimonio cultural
A rte cidade e patrimonio cultural
 
Políticas Culturais no Brasil - Lia Calabre
Políticas Culturais no Brasil - Lia CalabrePolíticas Culturais no Brasil - Lia Calabre
Políticas Culturais no Brasil - Lia Calabre
 
Revista Metropolis
Revista MetropolisRevista Metropolis
Revista Metropolis
 
Sarau da Cooperifa
Sarau da CooperifaSarau da Cooperifa
Sarau da Cooperifa
 
Santi,A.PartiturasdaBMPANotíciadeumAcervoHistórico.pdf
Santi,A.PartiturasdaBMPANotíciadeumAcervoHistórico.pdfSanti,A.PartiturasdaBMPANotíciadeumAcervoHistórico.pdf
Santi,A.PartiturasdaBMPANotíciadeumAcervoHistórico.pdf
 
Relatório 1ª Conferência Municipal de Cultura do Rio de Janeiro (2009)
Relatório 1ª Conferência Municipal de Cultura do Rio de Janeiro (2009)Relatório 1ª Conferência Municipal de Cultura do Rio de Janeiro (2009)
Relatório 1ª Conferência Municipal de Cultura do Rio de Janeiro (2009)
 
Artigo gnattali anppom2011
Artigo gnattali anppom2011Artigo gnattali anppom2011
Artigo gnattali anppom2011
 
Artigo Gnattali A N P P O M2011
Artigo  Gnattali  A N P P O M2011Artigo  Gnattali  A N P P O M2011
Artigo Gnattali A N P P O M2011
 
Peças Gráficas para divulgação do espetáculo "Quando Efe"
Peças Gráficas para divulgação do espetáculo "Quando Efe"Peças Gráficas para divulgação do espetáculo "Quando Efe"
Peças Gráficas para divulgação do espetáculo "Quando Efe"
 
5b
5b5b
5b
 
Produção Editorial - Cliente: Fundação Abrinq
Produção Editorial - Cliente: Fundação AbrinqProdução Editorial - Cliente: Fundação Abrinq
Produção Editorial - Cliente: Fundação Abrinq
 
Paper de rogério proena leite
Paper de rogério proena leitePaper de rogério proena leite
Paper de rogério proena leite
 
Por uma reestrutura_ao_da_filarmonica_de_pocinhos (1)
Por uma reestrutura_ao_da_filarmonica_de_pocinhos (1)Por uma reestrutura_ao_da_filarmonica_de_pocinhos (1)
Por uma reestrutura_ao_da_filarmonica_de_pocinhos (1)
 
Políticas setoriais no brasil
Políticas setoriais no brasilPolíticas setoriais no brasil
Políticas setoriais no brasil
 
616 665-1-pb
616 665-1-pb616 665-1-pb
616 665-1-pb
 
SEMANA DE ARTE MODERNA - ROSIANE.pptx
SEMANA DE ARTE MODERNA - ROSIANE.pptxSEMANA DE ARTE MODERNA - ROSIANE.pptx
SEMANA DE ARTE MODERNA - ROSIANE.pptx
 
Teses pr roosevelt.epx5-a4
Teses pr roosevelt.epx5-a4Teses pr roosevelt.epx5-a4
Teses pr roosevelt.epx5-a4
 
Um retrato da Cultura Brasileira da Era Vargas ao Regime Militar
Um retrato da Cultura Brasileira da Era Vargas ao Regime MilitarUm retrato da Cultura Brasileira da Era Vargas ao Regime Militar
Um retrato da Cultura Brasileira da Era Vargas ao Regime Militar
 

Mais de Alvaro Santi

O Conselho Estadual de Cultura e o Incentivo à Cultura no RS: relato de expe...
O Conselho Estadual de Cultura e o Incentivo à Cultura no RS:  relato de expe...O Conselho Estadual de Cultura e o Incentivo à Cultura no RS:  relato de expe...
O Conselho Estadual de Cultura e o Incentivo à Cultura no RS: relato de expe...Alvaro Santi
 
Projeto Observatório da Cultura
Projeto Observatório da Cultura Projeto Observatório da Cultura
Projeto Observatório da Cultura Alvaro Santi
 
Relatorio observatorio 2017 2018
Relatorio observatorio 2017 2018Relatorio observatorio 2017 2018
Relatorio observatorio 2017 2018Alvaro Santi
 
Fumproarte 15 anos
Fumproarte 15 anosFumproarte 15 anos
Fumproarte 15 anosAlvaro Santi
 
Organizações da Sociedade Civil na cultura: avanços na transparência e avalia...
Organizações da Sociedade Civil na cultura: avanços na transparência e avalia...Organizações da Sociedade Civil na cultura: avanços na transparência e avalia...
Organizações da Sociedade Civil na cultura: avanços na transparência e avalia...Alvaro Santi
 
Metas do Plano Municipal de Cultura
Metas do Plano Municipal de CulturaMetas do Plano Municipal de Cultura
Metas do Plano Municipal de CulturaAlvaro Santi
 
Carnaval 2006 2017
Carnaval 2006 2017Carnaval 2006 2017
Carnaval 2006 2017Alvaro Santi
 
SMC em Dados - Relatório do Observatório da Cultura 2010-2016
SMC em Dados - Relatório do Observatório da Cultura 2010-2016SMC em Dados - Relatório do Observatório da Cultura 2010-2016
SMC em Dados - Relatório do Observatório da Cultura 2010-2016Alvaro Santi
 
Seminário Mecenas na República: o Financiamento Público à Cultura
Seminário Mecenas na República: o Financiamento Público à CulturaSeminário Mecenas na República: o Financiamento Público à Cultura
Seminário Mecenas na República: o Financiamento Público à CulturaAlvaro Santi
 
Relatório 2013-2016
Relatório 2013-2016Relatório 2013-2016
Relatório 2013-2016Alvaro Santi
 
Fumproarte: 15 anos de um modelo brasileiro de fomento à cultura
Fumproarte: 15 anos de um modelo brasileiro de fomento à culturaFumproarte: 15 anos de um modelo brasileiro de fomento à cultura
Fumproarte: 15 anos de um modelo brasileiro de fomento à culturaAlvaro Santi
 
Indicadores culturais e o novo modelo de gestão da Prefeitura de Porto Alegre
Indicadores culturais e o novo modelo de gestão da Prefeitura de Porto AlegreIndicadores culturais e o novo modelo de gestão da Prefeitura de Porto Alegre
Indicadores culturais e o novo modelo de gestão da Prefeitura de Porto AlegreAlvaro Santi
 
Livro "Usos do tempo livre e práticas culturais dos porto-alegrenses"
Livro "Usos do tempo livre e práticas culturais dos porto-alegrenses"Livro "Usos do tempo livre e práticas culturais dos porto-alegrenses"
Livro "Usos do tempo livre e práticas culturais dos porto-alegrenses"Alvaro Santi
 
Pesquisa tempo livre v. 17092015
Pesquisa tempo livre v. 17092015Pesquisa tempo livre v. 17092015
Pesquisa tempo livre v. 17092015Alvaro Santi
 
Conselho Municipal de Cultura de Porto Alegre 2015-7
Conselho Municipal de Cultura de Porto Alegre 2015-7Conselho Municipal de Cultura de Porto Alegre 2015-7
Conselho Municipal de Cultura de Porto Alegre 2015-7Alvaro Santi
 
Evolução dos orçamentos públicos da cultura no Brasil do Século XXI (Slides)
Evolução dos orçamentos públicos da cultura no Brasil do Século XXI (Slides)Evolução dos orçamentos públicos da cultura no Brasil do Século XXI (Slides)
Evolução dos orçamentos públicos da cultura no Brasil do Século XXI (Slides)Alvaro Santi
 
Evolução dos orçamentos públicos de cultura no Brasil do Século XXI
Evolução dos orçamentos públicos de cultura no Brasil do Século XXIEvolução dos orçamentos públicos de cultura no Brasil do Século XXI
Evolução dos orçamentos públicos de cultura no Brasil do Século XXIAlvaro Santi
 
Cultura: Ranking dos municípios gaúchos
Cultura: Ranking dos municípios gaúchosCultura: Ranking dos municípios gaúchos
Cultura: Ranking dos municípios gaúchosAlvaro Santi
 
Conselho Municipal de Cultura de Porto Alegre: uma proposta de reformulação
Conselho Municipal de Cultura de Porto Alegre: uma proposta de reformulaçãoConselho Municipal de Cultura de Porto Alegre: uma proposta de reformulação
Conselho Municipal de Cultura de Porto Alegre: uma proposta de reformulaçãoAlvaro Santi
 
Apresentação dos foruns regionais de cultura
Apresentação dos foruns regionais de culturaApresentação dos foruns regionais de cultura
Apresentação dos foruns regionais de culturaAlvaro Santi
 

Mais de Alvaro Santi (20)

O Conselho Estadual de Cultura e o Incentivo à Cultura no RS: relato de expe...
O Conselho Estadual de Cultura e o Incentivo à Cultura no RS:  relato de expe...O Conselho Estadual de Cultura e o Incentivo à Cultura no RS:  relato de expe...
O Conselho Estadual de Cultura e o Incentivo à Cultura no RS: relato de expe...
 
Projeto Observatório da Cultura
Projeto Observatório da Cultura Projeto Observatório da Cultura
Projeto Observatório da Cultura
 
Relatorio observatorio 2017 2018
Relatorio observatorio 2017 2018Relatorio observatorio 2017 2018
Relatorio observatorio 2017 2018
 
Fumproarte 15 anos
Fumproarte 15 anosFumproarte 15 anos
Fumproarte 15 anos
 
Organizações da Sociedade Civil na cultura: avanços na transparência e avalia...
Organizações da Sociedade Civil na cultura: avanços na transparência e avalia...Organizações da Sociedade Civil na cultura: avanços na transparência e avalia...
Organizações da Sociedade Civil na cultura: avanços na transparência e avalia...
 
Metas do Plano Municipal de Cultura
Metas do Plano Municipal de CulturaMetas do Plano Municipal de Cultura
Metas do Plano Municipal de Cultura
 
Carnaval 2006 2017
Carnaval 2006 2017Carnaval 2006 2017
Carnaval 2006 2017
 
SMC em Dados - Relatório do Observatório da Cultura 2010-2016
SMC em Dados - Relatório do Observatório da Cultura 2010-2016SMC em Dados - Relatório do Observatório da Cultura 2010-2016
SMC em Dados - Relatório do Observatório da Cultura 2010-2016
 
Seminário Mecenas na República: o Financiamento Público à Cultura
Seminário Mecenas na República: o Financiamento Público à CulturaSeminário Mecenas na República: o Financiamento Público à Cultura
Seminário Mecenas na República: o Financiamento Público à Cultura
 
Relatório 2013-2016
Relatório 2013-2016Relatório 2013-2016
Relatório 2013-2016
 
Fumproarte: 15 anos de um modelo brasileiro de fomento à cultura
Fumproarte: 15 anos de um modelo brasileiro de fomento à culturaFumproarte: 15 anos de um modelo brasileiro de fomento à cultura
Fumproarte: 15 anos de um modelo brasileiro de fomento à cultura
 
Indicadores culturais e o novo modelo de gestão da Prefeitura de Porto Alegre
Indicadores culturais e o novo modelo de gestão da Prefeitura de Porto AlegreIndicadores culturais e o novo modelo de gestão da Prefeitura de Porto Alegre
Indicadores culturais e o novo modelo de gestão da Prefeitura de Porto Alegre
 
Livro "Usos do tempo livre e práticas culturais dos porto-alegrenses"
Livro "Usos do tempo livre e práticas culturais dos porto-alegrenses"Livro "Usos do tempo livre e práticas culturais dos porto-alegrenses"
Livro "Usos do tempo livre e práticas culturais dos porto-alegrenses"
 
Pesquisa tempo livre v. 17092015
Pesquisa tempo livre v. 17092015Pesquisa tempo livre v. 17092015
Pesquisa tempo livre v. 17092015
 
Conselho Municipal de Cultura de Porto Alegre 2015-7
Conselho Municipal de Cultura de Porto Alegre 2015-7Conselho Municipal de Cultura de Porto Alegre 2015-7
Conselho Municipal de Cultura de Porto Alegre 2015-7
 
Evolução dos orçamentos públicos da cultura no Brasil do Século XXI (Slides)
Evolução dos orçamentos públicos da cultura no Brasil do Século XXI (Slides)Evolução dos orçamentos públicos da cultura no Brasil do Século XXI (Slides)
Evolução dos orçamentos públicos da cultura no Brasil do Século XXI (Slides)
 
Evolução dos orçamentos públicos de cultura no Brasil do Século XXI
Evolução dos orçamentos públicos de cultura no Brasil do Século XXIEvolução dos orçamentos públicos de cultura no Brasil do Século XXI
Evolução dos orçamentos públicos de cultura no Brasil do Século XXI
 
Cultura: Ranking dos municípios gaúchos
Cultura: Ranking dos municípios gaúchosCultura: Ranking dos municípios gaúchos
Cultura: Ranking dos municípios gaúchos
 
Conselho Municipal de Cultura de Porto Alegre: uma proposta de reformulação
Conselho Municipal de Cultura de Porto Alegre: uma proposta de reformulaçãoConselho Municipal de Cultura de Porto Alegre: uma proposta de reformulação
Conselho Municipal de Cultura de Porto Alegre: uma proposta de reformulação
 
Apresentação dos foruns regionais de cultura
Apresentação dos foruns regionais de culturaApresentação dos foruns regionais de cultura
Apresentação dos foruns regionais de cultura
 

Último

O OCIDENTAL E O ABSOLUTISMO OS INDIGENAS E OS DEUSES DA POLINESIA E DA FILIPI...
O OCIDENTAL E O ABSOLUTISMO OS INDIGENAS E OS DEUSES DA POLINESIA E DA FILIPI...O OCIDENTAL E O ABSOLUTISMO OS INDIGENAS E OS DEUSES DA POLINESIA E DA FILIPI...
O OCIDENTAL E O ABSOLUTISMO OS INDIGENAS E OS DEUSES DA POLINESIA E DA FILIPI...ignaciosilva517
 
655444444444444444444444444444444265.pdf
655444444444444444444444444444444265.pdf655444444444444444444444444444444265.pdf
655444444444444444444444444444444265.pdfLEANDROSPANHOL1
 
Normas planejamento familiar exercito 2024.pdf
Normas planejamento familiar exercito 2024.pdfNormas planejamento familiar exercito 2024.pdf
Normas planejamento familiar exercito 2024.pdfRevista Sociedade Militar
 
10 Ideias de Propostas de plano de governo para Candidatos a Prefeito
10 Ideias de Propostas de plano de governo para Candidatos a Prefeito10 Ideias de Propostas de plano de governo para Candidatos a Prefeito
10 Ideias de Propostas de plano de governo para Candidatos a PrefeitoRogério Augusto Ayres de Araujo
 
Resolução Forças Armadas - direitos Humanos e 1964.pdf
Resolução Forças Armadas - direitos Humanos e 1964.pdfResolução Forças Armadas - direitos Humanos e 1964.pdf
Resolução Forças Armadas - direitos Humanos e 1964.pdfRevista Sociedade Militar
 

Último (6)

O OCIDENTAL E O ABSOLUTISMO OS INDIGENAS E OS DEUSES DA POLINESIA E DA FILIPI...
O OCIDENTAL E O ABSOLUTISMO OS INDIGENAS E OS DEUSES DA POLINESIA E DA FILIPI...O OCIDENTAL E O ABSOLUTISMO OS INDIGENAS E OS DEUSES DA POLINESIA E DA FILIPI...
O OCIDENTAL E O ABSOLUTISMO OS INDIGENAS E OS DEUSES DA POLINESIA E DA FILIPI...
 
655444444444444444444444444444444265.pdf
655444444444444444444444444444444265.pdf655444444444444444444444444444444265.pdf
655444444444444444444444444444444265.pdf
 
Normas planejamento familiar exercito 2024.pdf
Normas planejamento familiar exercito 2024.pdfNormas planejamento familiar exercito 2024.pdf
Normas planejamento familiar exercito 2024.pdf
 
10 Ideias de Propostas de plano de governo para Candidatos a Prefeito
10 Ideias de Propostas de plano de governo para Candidatos a Prefeito10 Ideias de Propostas de plano de governo para Candidatos a Prefeito
10 Ideias de Propostas de plano de governo para Candidatos a Prefeito
 
CALDAS Marinha DEFESA apresentada ao STF
CALDAS Marinha DEFESA apresentada ao STFCALDAS Marinha DEFESA apresentada ao STF
CALDAS Marinha DEFESA apresentada ao STF
 
Resolução Forças Armadas - direitos Humanos e 1964.pdf
Resolução Forças Armadas - direitos Humanos e 1964.pdfResolução Forças Armadas - direitos Humanos e 1964.pdf
Resolução Forças Armadas - direitos Humanos e 1964.pdf
 

Uma introdução à história da Banda Municipal de Porto Alegre (1912-1931)

  • 2. FICHA TÉCNICA Anais do XI Seminário Internacional de Políticas Culturais Realização Setor de Políticas Culturais da FCRB Laboratório de Ações Culturais – LBAC-UFF Parceria Secretaria das Culturas da Cidade de Niterói Organização Lia Calabre Adélia Zimbrão Alexandre Domingues Comissão acadêmica Adélia Zimbrão Albino Rubim Alexandre Barbalho Alexandre Domingues Eula Cabral Lia Calabre Marcelo Viana Luiz Augusto Rodrigues Mediadores Adélia Zimbrão Alexandre Domingues Clarissa Semensato Deborah Lima Eula Cabral Lia Baron Luiz Augusto Rodrigues Marcelo Viana Raquel Moreira Tânia Vicente Vivian Fonseca Editoração Renata Duarte Normatização técnica e padronização de artigos Anderson Albérico Ana Torrezan Cícera Vieira Isabela Freitas Karen Kristien Mariana Franco Marina Martinez Raquel Moreira Tânia Vicente Seminário Internacional de Políticas Culturais (11. : 2020 : Rio de Janeiro, RJ) Anais do XI Seminário Internacional de Políticas Culturais [recurso eletrônico] / Organização Lia Calabre, Adélia Zimbrão [e] Alexandre Domingues. – Divinópolis (MG): Meus Ritmos Editora, 2021. 1 e-book em formato pdf (1118 p). ISBN . 978-65-00-23239-4 Política cultural – Conferência. I. Calabre, Lia, org. II. Zimbrão, Adélia, org. III. Domingues, Alexandre, org. IV. Fundação Casa de Rui Barbosa. V. Título. CDD 306
  • 3. ANAIS DO XI SEMINÁRIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS CULTURAIS Organização Lia Calabre Adélia Zimbrão Alexandre Domingues Divinópolis 2021
  • 4. S U M Á R I O 116• PATRIMÔNIO AUDIOVISUAL E O ESPELHAMENTO DE MEMÓRIA E IDENTIDADE NA REGIÃO DOS INCONFIDENTES: AS POLÍTICAS CULTURAIS EM PROL DA CONSTITUIÇÃO DE ACERVO DE IMAGENS EM MOVIMENTO NA TV UFOP Aline de Queiroz Lopes Adriano Medeiros da Rocha 128• UMA INTRODUÇÃO À HISTÓRIA DA BANDA MUNICIPAL DE PORTO ALEGRE (1912-1931) Álvaro Santi 142• POLÍTICA CULTURAL OU CULTURA PARA FINS POLÍTICOS? INSTRUMENTALIZAÇÃO DA CULTURA NO ESTADO NOVO Ana Carolina Viana Gonçalves dos Santos 152• VIDAS E OLHARES DA RUA O OUTRO MUNDO VISTO DO LADO DE CÁ DO JARDIM SÃO JOÃO Ana Lúcia Pardo 166• O PAPEL DO PRODUTOR NO TEATRO DE REVISTAS – CRÍTICA, DEBOCHE E ENTRETENIMENTO EM UM SÓ PALCO Ana Luisa Soares da Silva 176• 10 ANOS DO SEMINÁRIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS CULTURAIS: UMA ANÁLISE DA TEMÁTICA DA GESTÃO PÚBLICA DA CULTURA Ana Torrezan de Souza 186• SABERES E INCERTEZAS: REFLEXÕES SOBRE A CRIAÇÃO DE UM CENTRO DE FORMAÇÃO Andréa de Araujo Nogueira Mauricio Trindade da Silva 196• ACESSIBILIDADE DOS ACERVOS MUSEAIS A PARTIR DA PNM: CONTRIBUIÇÕES DA INICIAÇÃO CIENTÍFICA NO MAPEAMENTO DAS COLEÇÕES ETNOGRÁFICAS NO SUDESTE, CENTRO-OESTE E SUL DO PAÍS Andressa Oliveira dos Santos Leticia de Carvalho Pereira Adriana Russi
  • 5. 128 XI Seminário Internacional de Políticas Culturais • Niterói • 2020 UMA INTRODUÇÃO À HISTÓRIA DA BANDA MUNICIPAL DE PORTO ALEGRE (1912-1931) Álvaro Santi1 RESUMO: O artigo utiliza os achados iniciais de uma pesquisa sobre a história da Banda Municipal de Porto Alegre para refletir sobre o papel desta instituição nas políticas de cultura locais, ao longo da primeira metade do Século XX. Instituída inicialmente como atividade complementar de uma escola pública noturna, e posteriormente transformada no principal equipamento cultural do Município, a Banda marcou época ao manter uma agenda regular de concertos ao ar livre, privilegiando o repertório operístico, devido tanto à nacionalidade predominante de seus dirigentes e instrumentistas, quanto ao gosto da elite local. Coroamento de um conjunto de reformas urbanas empreendido no longo período de domínio do Partido Republicano Rio-Grandense, destinava-se a educar o povo sob os moldes da cultura europeia e ao mesmo tempo demonstrar ao visitante o grau de civilização atingido pela cidade. PALAVRAS-CHAVE: Estado e instituições culturais no Brasil, história das políticas culturais, história das bandas de música, políticas culturais na República Velha (1889-1930). 1 INTRODUÇÃO Este artigo utiliza os achados iniciais de uma pesquisa sobre a história da Banda Municipal de Porto Alegre para refletir sobre o papel desta instituição nas políticas de cultura locais, ao longo da primeira metade do Século XX. Em sua feição atual, a Banda foi (re)criada em 1979, após breve existência “em caráter experimental”, em 1976, por atos do então prefeito nomeado Guilherme Villela. (PORTO ALEGRE, 1976; 1979) Vinculado à Secretaria Municipal de Educação e Cultura, o conjunto era composto de 40 músicos-instrumentistas, além de mestre, contramestre, copista-arquivista e o auxiliar deste. Com a criação da Secretaria Municipal da Cultura (SMC), em 1988, a Banda foi incorporada ao novo órgão e seus integrantes, ao quadro de servidores estatutários. Posteriormente, o número de músicos-instrumentistas aumentou para 50.2 Em 2019, a Banda realizou 35 apresentações para um público estimado em 6.702 espectadores.3 1 Prefeitura de Porto Alegre RS. Mestre em Letras e Bacharel em Música (UFRGS); Especialista em Gestão e Políticas Culturais (Universitat de Girona-Itaú Cultural) asanti@portoalegre.rs.gov.br 2 No momento, 12 vagas de Músicos-instrumentistas encontram-se em aberto, além dos cargos de Mestre e Auxiliar de copista-arquivista. Cfe. Portal da Transparência. http://www2.portoalegre.rs.gov.br/transparencia. Acesso em 5 mar. 2020. 3 Segundo o Portal de Gestão. https://portalgestao.procempa.com.br, consultado em 5 mar. 2020.
  • 6. 129 XI Seminário Internacional de Políticas Culturais • Niterói • 2020 Sua história, entretanto, remonta ao início do Século XX, durante a longa gestão do engenheiro José Montaury de Aguiar Leitão (1897-1923), ao longo da qual o Rio Grande do Sul experimentava transformações importantes, com o incremento do sistema de transportes, estimulando a indústria e o comércio e contribuindo para colocar a economia de Porto Alegre à frente dos municípios mais antigos de Pelotas e Rio Grande. (MONTEIRO, 1995, p. 15, 37). Na Capital, realizavam-se obras de saneamento, um novo cais; implantava-se a iluminação pública, bondes elétricos, serviços de assistência pública, telefonia; enquanto surgiam diversos prédios públicos que viriam a se tornar marcos arquitetônicos, como a Biblioteca Pública e a Faculdade de Direito. Na área artística, destaca- se a criação do Instituto de Belas Artes, em 1908. (BAKOS, 2013, p. 85) Os investimentos do Município eram viabilizados mediante contração de empréstimos em moeda estrangeira (em 1909 e 1922).A Capital beneficiava-se então do crescente trânsito pelo seu porto de mercadorias vindas do exterior, do centro do país e da região colonial; e do investimento de capitais excedentes gerados pelo comércio na nascente atividade industrial, cujo crescimento fazia contraponto à crise da pecuária, vindo a alterar o perfil produtivo do Estado. Já em 1920, a indústria gaúcha era a terceira do país, e o Estado possuía o maior número de empresas individuais. (MONTEIRO, 1995, p. 46-7) Criticado por não realizar intervenções urbanísticas mais ousadas (a exemplo do que se fazia no Rio de Janeiro e São Paulo), Montaury defendeu-se alegando haver priorizado as necessidades básicas da população como “água, esgoto, limpeza pública, iluminação”, bem como o equilíbrio das finanças públicas. (MONTEIRO, 1995, p. 38) Após 26 anos no cargo, teve sua reeleição vetada pelo acordo de Pedras Altas, firmado com a oposição após a Revolução de 1923, obrigando o PRR a apresentar o também engenheiro Octavio Francisco da Rocha como seu sucessor. 2 A BANDA DA ESCOLA HILÁRIO RIBEIRO Aestreia da primeira Banda de Música Municipal de PortoAlegre ocorre em 20 de setembro de 1912, data alusiva à Revolução Farroupilha, quando se distribuíram prêmios, “aos alunos de melhor nota” da Escola Municipal Hilário Ribeiro. O grupo fora organizado como um desdobramento das aulas de música ali oferecidas aos trabalhadores, a maior parte empregados do próprio Município em atividades como a capina das ruas. Da estreia até a última menção encontrada, em novembro de 1921, a banda seria ouvida em diversas ocasiões, eventualmente compartilhando espaço com bandas similares, chegando a ter 38 integrantes em 1917, com idades entre cinco e 16 anos. Seus dirigentes, o mestre Honorato Rosa e o contramestre André Avelino Rodrigues, atuavam como professores de música na escola.
  • 7. 130 XI Seminário Internacional de Políticas Culturais • Niterói • 2020 A esta altura, alguns municípios do Estado já possuíam suas bandas municipais, cuja presença em eventos cívicos é registrada nas páginas d’AFederação.4 Ao longo da década de 1910, praticamente todos os municípios contarão com suas próprias bandas, proliferação que parece responder mais à necessidade cotidiana de música do que a algum programa de governo. Na capital, anteriormente à Banda Municipal, há registros de outras bandas – civis e militares – em diversas apresentações, remontando ao Século XIX. (DAMASCENO, 1956, p. 244, 363; SANMARTIN, 1969, p. 20-1, 23, 25, 33, 35) 3 O PROJETO DA NOVA “BANDA-ORCHESTRA” No mês seguinte, A Federação5 publicava o documento “Banda-Orquestra Municipal de Porto Alegre: Projeto de organização apresentado ao Intendente Municipal pelos maestros José Corsi (1880- 1938) e José de Andrade Neves”. Andrade Neves acabava de assumir a direção do Conservatório de Música do Instituto de Belas Artes, e sua participação aqui parece ter-se limitado à elaboração do projeto, cuja execução ficaria a cargo de Corsi, italiano radicado no Rio Grande do Sul, quem desde 1913 dirigia seu próprio estabelecimento de ensino musical, o Instituto Porto Alegre. Corsi assinava o projeto como presidente do Centro Musical Porto Alegrense – organização que ajudara a fundar, em 1920, e que mais tarde daria origem ao primeiro Sindicato de Músicos. (A Federação, 8 abr. 1925, 4) Tem início então a história “oficial” da Banda, em 19 de maio de 1925, quando o Conselho Municipal autorizou o intendente a “reorganizar” a instituição. (PORTO ALEGRE, v. 27, 18 mai. 1925) Embora Corte Real tenha transcrito o termo “reorganizar” em seu livro (1984, p. 49-70) – por trinta anos a principal fonte sobre a história da instituição - ele só viria a ser explicado trinta anos mais tarde por Bohrer, que resgatou a história da Banda “original”, assinalando as diferenças entre esta, que “possibilitava acesso ao trabalho e à instrução a um determinado número de crianças, ao mesmo tempo que garantia mão de obra barata para os serviços da municipalidade”, e a nova, “que acompanhava uma proposta de modernização da cidade e dos costumes, atenta, principalmente, à difusão de uma identidade social e cultural determinada e desejada”, como indicadores do nível de civilização e de “branqueamento” da população que se pretendia para a cidade. (2014, p. 56-66) O projeto divide-se em duas partes, sendo a primeira uma justificativa e a segunda dedicada aos aspectos práticos. O grupo teria “um mínimo” de 42 instrumentistas, admitidos por concurso, além de dez aprendizes (a serem formados em escola própria), sob direção de um maestro, auxiliado por um segundo maestro ou “ensaiador”. (A Federação, 8 abr. 1925, p. 4). Meses mais tarde, um 4 As primeiras bandas municipais cuja existência é referida pelo jornal são as de Santo Amaro (1904), Itaqui (1908), Uruguaiana (1910) e Caxias do Sul (1911). 5 Jornal do Partido Republicano Rio-Grandense (depois, Partido Republicano Liberal), tendo circulado entre 1884 e o golpe do Estado Novo, em novembro de 1937.
  • 8. 131 XI Seminário Internacional de Políticas Culturais • Niterói • 2020 “Regulamento” irá detalhar o aspecto disciplinar, com proibições de utilizar uniformes e instrumentos (do Município) fora do serviço, apresentar-se “sem o decoro necessário”, atuar em serviços particulares sem autorização prévia e, em hipótese alguma, tocar “em cabarés ou casas congêneres”. O quadro passa a ter 60 músicos, somando-se a estes um Inspetor, um Vice-Inspetor, 1º e 2o Maestros-Dirigentes e um Secretário, totalizando 65 membros. (A Federação, 15 out. 1926, p. 48) A parte introdutória contém um histórico das “bandas militares ou conjuntos de harmonia municipais nas grandes nações”, destacando no Brasil a Banda da Força Pública de São Paulo e a do Corpo de Bombeiros do Rio de Janeiro, deixando de mencionar outras que atestam “a pouca prática e quase nenhuma cultura musical dos seus organizadores”, que recebem subsídios públicos sem fiscalização adequada, com resultados discutíveis. Tais bandas, em vez de propagarem a “cultura musical, desvirtuam o gosto artístico do povo executando produções banais de autores sem renome ou composições sem nexo da lavra do próprio ensaiador”. É provável que os autores tivessem em mente também a antiga Banda Municipal, porém as páginas d’A Federação não seriam o lugar adequado para criticar a iniciativa do intendente anterior. (A Federação, 8 abr. 1925, p. 4)6 Na música nacional, cita-se com orgulho Carlos Gomes, graças a quem tornou-se o Brasil “o único país da América que teve um grande compositor de óperas que alcançou os louros das mais cultas plateias do mundo”. Falecido então há quase trinta anos (em 1896), Gomes mantinha-se no topo do panteão nacional, devido ao prestígio da ópera entre nossas elites. Infenso aos ideais da Semana de Arte Moderna (1922), o projeto adotava um paradigma cultural perfeitamente eurocêntrico, num momento em que a obsessão pelo progresso implicava a negação de qualquer elemento de cultura popular que pudesse macular a imagem civilizada da sociedade dominante. Da mesma forma, as reformas nos centros urbanos serviam para “purificá-los”, à medida que expulsavam os portadores de culturas tradicionais, cujo convívio era motivo de vergonha para a elite. Era preciso “apagar a nódoa das raças inferiores e dos povos culturalmente atrasados instalados no território nacional”. (TRAVASSOS, 2000, p. 34-5) 4 O MAIS REFINADO PRODUTO CULTURAL GLOBAL: A ÓPERA A partir da inauguração do Teatro São Pedro, em 1858, Porto Alegre tentava se firmar como uma escala eventual para as companhias de ópera, entre Buenos Aires e o Rio de Janeiro. Antes da popularização do rádio e do cinema, tratava-se do produto cultural mais refinado e complexo, cujos custos elevados de produção e circulação só podiam ser arcados pelas classes urbanas abastadas. Na capital da República, seu prestígio era imenso e remontava aos tempos de D. João VI. Com o 6 BOHRER (2014, p. 64) assinala a coincidência de o novo projeto ter sido publicado logo após o falecimento de Honorato Rosa, indicando que a administração municipal pudesse estar aguardando o melhor momento para lançá- lo sem desmerecer a iniciativa anterior (e seu antigo mestre).
  • 9. 132 XI Seminário Internacional de Políticas Culturais • Niterói • 2020 Municipal de São Paulo e o Colón de Buenos Aires, inaugurados na mesma época, formou-se um atraente tripé para a circulação das companhias. Os padrões de gosto na capital do País seguiam as “tendências vigentes em matéria de gosto musical e operístico nos grandes centros líricos italianos”, respondendo os compositores deste país por mais da metade dos espetáculos. A produção nacional correspondia a seis por cento, porém parte significativa era cantada em italiano. (MICELI, 2006, p. 304, p. 309-11) De forma pouco surpreendente, a ópera dominava também o gosto do público porto-alegrense, ao qual se oferecia a oportunidade de “participar de um pouco da grandeza” das metrópoles distantes, além de constituir um “ornamento indispensável, [...] fator ostensivo e assumido de distinção de classe”. Contudo, apesar do Teatro São Pedro ser mais antigo do que os municipais do Rio e São Paulo, é somente a partir do início do século XX que irão se tornar mais regulares as temporadas de ópera, ainda que se alternem períodos de penúria com outros de fartura. (LOPEZ, 1989, p. 143-4) A imprensa exercia papel importante para o sucesso da atividade, anunciando as atrações vindouras com antecedência, alimentando a expectativa e a venda de ingressos; e publicando críticas que podiam ser decisivas para abreviar ou prolongar as temporadas – que duravam semanas ou até meses; além de “educar” o público sobre como se comportar. Em 1902, estreiam quase simultaneamente duas óperas de compositores locais, motivo de júbilo para a Capital: Sandro, de Murillo Furtado, e Carmela, de José de Araújo Vianna - ambas cantadas em italiano. (MORITZ, 1975, p. 159-64) 5 A NOVA “BANDA-ORCHESTRA”: DA FORMAÇÃO À ESTREIA Em 28 de abril de 1925, publica-se edital para preenchimento das vagas de instrumentistas, assinado pelo “inspetor” José Corsi. Não encontramos registros sobre a continuidade do processo seletivo, mas sabe-se que Corsi viajou a Buenos Aires em busca de um maestro, tendo lá conhecido José Leonardi (1880-1957), trompetista e formado em instrumentação para banda pelo Conservatório Vincenzo Bellini, de Palermo. (CONEDERA, 2017, p. 204) Leonardi teria vindo então a Porto Alegre para entrevistar-se com Octavio Rocha, que ratificou o convite.Aquele, porém, sustentou que somente com os músicos locais seria impossível formar uma banda “de primeira qualidade”, sugerindo que o Município patrocinasse a vinda de outros, diretamente da Itália. (Paranhos, apud CONEDERA, p. 181-2) Seu diagnóstico, em concordância com o projeto de Corsi e Andrade Neves, era atestado pela escassez de músicos dessa especialidade registrados no Centro Musical Porto-Alegrense à época. (SIMÕES, 2011, p. 173) No entanto, devem ter pesado também na sua sugestão, aceita pelo intendente, a amizade e o desejo de ajudar compatriotas em dificuldades. (Paranhos, apud CONEDERA, p. 181- 2) Dessa forma, em novembro de 1925 desembarcaram em Porto Alegre dezoito instrumentistas (a maior parte italianos), provenientes de Buenos Aires e, posteriormente, “um maior número” destes
  • 10. 133 XI Seminário Internacional de Políticas Culturais • Niterói • 2020 foi contratado no sul da Itália (CORTE REAL, 1984, p. 51), juntando-se a 16 músicos locais. (A Federação, 7 jul. 1926, p. 5) Leonardi aparentemente é quem seleciona os músicos, processo sobre o qual contudo nos faltam informações, bem como sobre a viagem do elenco até Porto Alegre. A Banda Municipal, tendo ao centro o maestro Leonardi.7 6 DA ESTREIA À MORTE DO PATRONO OCTAVIO ROCHA (1926-1928) A primeira apresentação da nova Banda ocorreria em 13 de junho de 1926, no Teatro São Pedro, “verdadeiro acontecimento artístico”, que lotou o teatro com “o que a sociedade de Porto Alegre tem de distinto”, público que aplaudiu “com entusiasmo todos os números do bem organizado programa”, integralmente composto por trechos de óperas, com exceção de uma peça de Mozart. Das cinco óperas, três eram italianas (Mascagni, Boito e Giordano), uma alemã (Wagner) e uma brasileira (Carlos Gomes, cantado em italiano). (A Federação, 14 jun. 1926, p. 3) 7 Publicada na revista Máscara.Ano XI, n. 1-2, jan-fev. 1928, p. 60, sem crédito do autor, com a seguinte legenda: “Um dos motivos de orgulho para a cidade e de glória para seu operoso intendente: a Banda Municipal. Organizá-la foi uma prova de coragem. Dar-lhe o brilho disciplinar que ela apresenta, uma demonstração do acerto do dr. Otávio Rocha na escolha do seu fiscal, o maestro José Corsi. O maestro Corsi, numa revelação flamante de energia correu os maiores centros artísticos da Europa, e improvisando-se propagandista das nossas maravilhas naturais e benignidade do clima, conseguiu atrair músicos de valor que formam um núcleo de disseminação musical no Rio Grande, pois eles são os professores de uma escola gratuita criada pelo dr. Otávio Rocha.”
  • 11. 134 XI Seminário Internacional de Políticas Culturais • Niterói • 2020 Se o predomínio da ópera adequava-se ao gosto das classes abastadas, como vimos, por outro lado pode parecer inadequada a criação de um conjunto instrumental para executar obras líricas - em cuja essência está o canto. O propósito da Municipalidade, contudo, era colocar à disposição de camadas mais amplas da população “a mais alta expressão” da arte musical. Desenhada especialmente para o espaço aberto, a banda utiliza somente instrumentos de percussão e sopro, menos sensíveis ao clima e com maior volume sonoro do que as cordas - numa época em que não havia equipamentos para amplificar o som. Sendo quase impossível transpor para esse ambiente a totalidade do drama lírico, a solução encontrada foi oferecer trechos e adaptações instrumentais dessas obras. No mês seguinte, a banda apresenta-se pela primeira vez na Praça Senador Florêncio, onde para ela se faz construir um coreto, prometendo duas retretas semanais.8 No repertório, as poucas exceções à ópera incluem composições do mestre Leonardi.Além desse local, a Banda eventualmente se fará presente em outros logradouros públicos, especialmente em datas comemorativas, quando também desfila pelas ruas centrais da cidade. Em 19 de novembro de 1927, inaugura-se a sede própria da Banda, o Auditório Araújo Vianna, um palco construído ao ar livre, dotado de concha acústica, sob o qual fica a área para ensaios, aulas e atividades administrativas. Para justificar o alto investimento9 , o intendente recorre aos aplausos da população, que acorria às retretas “com um interesse digno da sua cultura”; e aos elogios “de personalidades artísticas que nos visitaram”. Com o intuito de tornar os concertos “cada vez mais atraentes” e “despertar gradualmente no espírito do público os princípios educativos e didáticos da arte musical”, a Banda executava também (de fato, raramente) programas “de caráter popular”. (A Federação, 15 out. 1927, p. 13) Noticiada com discrição, talvez para não alimentar críticas em face às dificuldades enfrentadas pelas finanças públicas, a inauguração teria atraído cinco mil pessoas. O mais ambicioso projeto musical da história do Estado dava mostras de inegável prestígio, ao fincar raízes em plena Praça da Matriz, junto às sedes dos três poderes, da Igreja Católica e do principal teatro.10 A escolha de José de Araújo Vianna (1872-1916) para denominar a nova “praça de concertos” era natural. Filho da terra, após estudar na Itália, lograra reconhecimento no Rio de Janeiro com sua ópera Carmela, falecendo com apenas 44 anos, no auge da carreira. (CORTE REAL, 1984, p. 235-9; CAVALHEIRO LIMA, 1956) Em 27 de fevereiro de 1928, falece Octavio Rocha, sucedido no governo por seu vice, Alberto Bins, líder empresarial, de origem alemã. Para além da Banda e doAuditório, a gestão de Rocha ficaria 8 Meta que raramente será atingida. Até o final deste ano de 1926, por exemplo, encontramos menção a 25 apresentações na praça. Os termos “concerto” e “retreta” são usados de forma alternada e indistinta na divulgação dos programas pelo jornal. 9 Inicialmente orçado em 75 contos de réis, o projeto teria custado pelo menos 119 contos, até a edição do relatório anual do Intendente, em 15 de outubro, valor correspondente a 15% do total despendido na rubrica “Construção e remodelação de praças e jardins” (819 contos). 10 Não obstante, teria vida curta, sendo demolido em 1960 para dar lugar ao novo prédio da Assembleia Legislativa.
  • 12. 135 XI Seminário Internacional de Políticas Culturais • Niterói • 2020 marcada por “grandes reformas urbanas que reorganizam o espaço global da cidade”. Inspiradas nas que Pereira Passos havia empreendido no Rio de Janeiro, buscavam “integrar as camadas populares urbanas aos valores e às formas de sociabilidade burguesas”. Para fazer frente às melhorias, promoveu reformas fiscal e administrativa, além de contratar dois novos empréstimos e alinhavar um terceiro. (Monteiro, 1995, p. 52-4, 55-6; BAKOS, 2013, p. 62-66, 37). A análise do orçamento, porém, traz à tona as prioridades da gestão. Na proposta para o ano de 1925, por exemplo, destina-se montantes menores a obras de águas e esgotos do que ao “embelezamento da cidade”. Já para 1928, previa-se para a Banda 350 contos de réis (2,7% da despesa ordinária), cerca de duas vezes o que se destinava à Diretoria de Higiene (170 contos) e metade do que se pretende investir na Iluminação Pública (700 contos). (A Federação, 12 dez. 1927, p. 4) Em complemento, foram implementadas medidas para combater problemas sociais como o jogo (que pelas possibilidades de ganho fácil ameaçavam a consolidação de uma moral do trabalho) e o alcoolismo (que tornava o trabalhador imprestável). (MONTEIRO, 1995, p. 81, 86) Imbuídos de uma missão civilizadora, governos e imprensa moviam uma cruzada contra essas práticas (e também contra a prostituição e a mendicância), visando firmar “novos padrões de vida e os valores da burguesia em ascensão” e integrar “as classes populares à sociedade moderna”, através das virtudes da operosidade, da higiene, da economia, da previdência, da boa aparência. (MONTEIRO, 1995, p. 89) 7 A GESTÃO DE ALBERTO BINS, ATÉ O FINAL DO CONTRATO (1928-1931) Em maio, inaugura-se a Escola de Música Dr. Octavio Rocha, prevendo Alberto Bins que de ora em diante a Banda tornar-se-ia ainda “mais simpática aos olhos da população, pois incluía... a educação e a formação artística de jovens patrícios”, os quais seriam seus futuros integrantes. (A Federação, 7 mai. 1928, p. 4). Em 13 de junho, segundo aniversário da Banda, esta executa um programa especial com autores nacionais “que até agora faziam falta nos programas”, entre os quais Araújo Vianna. (A Federação, 5 jun. 1928, p. 3). Em 15 de outubro, Bins assumiria como novo intendente, dando continuidade à gestão anterior. Na mesma data, seu “Relatório” anual ao Conselho informa que a Banda, com um quadro de 55 instrumentistas, ofereceu 56 audições públicas no ano. OAuditório é ali descrito com capacidade para 1500 espectadores sentados, iluminação “moderna e abundante”, refletores nas colunas das “pérgolas pompeanas” e um microfone ligado ao estúdio da Rádio Sociedade Gaúcha (fundada no ano anterior), permitindo que os concertos sejam ouvidos “não só em qualquer localidade do Estado, como em São Paulo e Montevidéu.” A Escola de Música, ora com 61 alunos, dedica-se a “formar um núcleo de bons instrumentistas nacionais e difundir uma verdadeira cultura musical, acessível gratuitamente à mocidade”, por meio dos “métodos mais aperfeiçoados das escolas clássicas”. O custo da Banda, em
  • 13. 136 XI Seminário Internacional de Políticas Culturais • Niterói • 2020 1927, alcançara 379 contos de réis, sendo a nona maior entre as 24 rubricas ordinárias, correspondendo a 2,7% da despesa, que crescera mais de 40% entre os exercícios de 1926 e 1927 (enquanto a despesa total cresceu 17%). O patrimônio (instrumentos e partituras) estava avaliado em 36 contos, ao final de 1926; e em 49 contos ao final do ano seguinte. Já a dívida do Município ultrapassava, ao final de 1927, 90 mil contos, aos quais vieram se somar outros 18 mil (US$ 2,25 milhões), contratados por Alberto Bins em março de 1928. (A Federação, 15 out. 1928) No próximo relatório anual, Bins voltará a elogiar a Banda e sua recepção pelo público, que assistiu a 118 apresentações, com a execução de mais de 750 peças musicais, no período de julho de 1928 a junho de 1929, registrando melhorias em sua sede e aquisição de obras para o acervo, que contava então com 260 peças. A Escola de Música contabilizava 84 alunos, com “resultados satisfatórios” nos exames, “conseguindo-se, assim, selecionar elementos que dispõem de real vocação artística que serão, ao final do curso, aproveitados na Banda.” (Bins, apud CONEDERA, 2017, p. 191) A situação financeira é dada pelo intendente como “perfeitamente regularizada, com o justo equilíbrio orçamentário”, desde o final do ano anterior. Contudo, a dívida total ultrapassava, em 30 de junho de 1929, os 115 mil contos (contra 90 mil ao final de 1927), alcançando a despesa com seu serviço 49,5% da arrecadação anual (10,5 mil de 21,3 mil), percentagem que o intendente admite ser “em verdade anormal, mas natural num período de transformação por que estamos atravessando”. (A Federação, 15 out. 1929, p. 10-11) No ano seguinte, o país mal emerge da convulsão revolucionária, deflagrada em três de outubro, mas na imprensa local há espaço para refletir se convém mais à cidade uma banda ou uma orquestra, pois aproxima-se o término do contrato de cinco anos da maioria dos músicos. Afirma um articulista que no “mundo musical” (porto-alegrense) trava-se uma “luta aberta” entre dois “partidos”: os que desejam a conservação da Banda Municipal e os que desejam uma sinfônica. Reconhecendo que, em tese, uma orquestra “é melhor meio de expressão artística do que uma banda”; e sendo o objetivo de ambas levar a boa música a milhares de pessoas; pondera que a cidade não dispõe de local adequado para uma orquestra, concluindo que a Banda seria, por ora, o corpo musical melhor capacitado para os fins de “educação popular”. (Estado do Rio Grande, 1 dez. 1930, p. 5) O artigo marca talvez o início de um debate que terá seu desenlace somente duas décadas mais tarde, quando, em três de março de 1953, o Município firmará convênio com a Orquestra Sinfônica de Porto Alegre (OSPA)11 , colocando à disposição desta todos os recursos da Banda, incluindo os músicos remanescentes, espaço para ensaios, acervo e saldo orçamentário, além de suspender as nomeações de novos integrantes. Em 1957, os cargos da Banda seriam declarados em extinção, ocorrendo em 1963 sua derradeira apresentação, com quadro já extremamente reduzido. (CORTE REAL, p. 62-68) 11 Criada em 1950 como uma associação civil, a OSPA seria encampada pelo Governo do Estado do Rio Grande do Sul somente em 1963. Atualmente é uma fundação vinculada à Secretaria de Estado da Cultura.
  • 14. 137 XI Seminário Internacional de Políticas Culturais • Niterói • 2020 Após a Revolução, Alberto Bins é mantido no cargo – agora intitulado “prefeito”. Em novo relatório, ele assegura que a Banda “continua correspondendo aos intuitos visados pela administração que nos antecedera, pelo interesse que a população lhe vem dispensando, como se verifica da notável assistência... às suas audições artísticas.” (Bins, apud CONEDERA, 2017, p. 191) Entretanto, as perspectivas para a Banda são sombrias. Em 29 de dezembro, o Estado repercute editorial do Correio do Povo da véspera, que criticava a extinção próxima da Banda. (Estado do Rio Grande, 29 dez. 1930, p. 3) No dia 30 de abril, realizava-se a última apresentação da Banda, nessa formação.12 O prefeito teria oferecido aos músicos a possibilidade de manter o conjunto, mas reduzindo os salários, o que não foi aceito.Final de uma “era de ouro”, do sonho (delírio?) de Octavio Rocha, não era ainda o fim da Banda, que retornaria aos palcos em 15 de novembro, graças ao apoio do interventor do Estado, Flores da Cunha, num formato “mais de acordo com as possibilidades financeiras do momento.” (SIMÕES, 2011, p. 197-8). A Banda Municipal em concerto, no palco do Auditório Araújo Vianna, inaugurado em 19/11/1927.13 8 CONSIDERAÇÕES FINAIS Conforme afirmamos no início do texto, este resulta de uma pesquisa em andamento. Por este motivo e pela exiguidade do espaço, encerra-se aqui o relato cronológico, finalizando com algumas reflexões, com foco no período estudado. 12 CORTE REAL (1984, p. 55, 65) dá como última apresentação o dia 4 de março; enquanto Simões registra 1º de maio. O Relatório de Alberto Bins ao Interventor do Estado Flores da Cunha em 12 dez. 1931 confirma a data de 30 de abril. 13 Autor desconhecido. Acervo do Museu Joaquim José Felizado.
  • 15. 138 XI Seminário Internacional de Políticas Culturais • Niterói • 2020 A iniciativa, patrocinada pelo intendente Octavio Rocha em 1925, de instituir uma banda musical “importando” número significativo de músicos do exterior, chama a atenção pela ousadia e atraiu críticas pelas despesas que acarretou ao erário municipal, em dificuldades devido ao alto comprometimento com empréstimos estrangeiros. Contudo, distante de ser um capricho de um governante melômano, a (re)criação da Banda, em formato e com propósitos radicalmente distintos do modesto conjunto escolar que a antecedeu, adquire sentido como parte do ambicioso projeto de “modernização” da cidade, no qual lhe está destinado um papel importante. O PRR, que governou o Estado e a capital gaúcha ao longo de praticamente toda a República Velha, foi fortemente influenciado pela doutrina positivista de Augusto Comte (1798-1857), para quem “as principais dificuldades sociais” não eram “essencialmente políticas, mas sobretudo morais, de sorte que sua solução possível depende realmente das opiniões e dos costumes, muito mais do que das instituições”. (apud VÉLEZ, 2010, p. 99-100) O pensamento comteano teve em Júlio de Castilhos, patriarca republicano falecido em 1903, um entusiástico discípulo, que adaptou aquela doutrina para seus próprios fins, resultando no que viria a se chamar o “castilhismo”. Antiliberal, seu pensamento político pressupunha um estado autocrático e uma sociedade moralizadora, “na qual o móvel inspirador dos cidadãos era a procura da virtude”. (VÉLEZ, 2010, p. 25). Buscando conciliar a conservação da ordem e a promoção do progresso, o positivismo supunha que leis científicas, similares às que explicam a Natureza, presidiam à evolução das sociedades, que a partir do estágio mais primitivo (ou teológico, que recorre à religião para explicar os fenômenos naturais) chegariam ao estágio ideal, o positivo, “caracterizado pelo primado da razão e da ciência... estágio final do progresso humano, em que os detentores do conhecimento científico - uma elite de sábios - comandariam a sociedade.” (PESAVENTO, 1988, p. 98) Ainda que não haja, na obras de Comte, um pensamento propriamente estético (WEIMER, 2003, p. 100), a reivindicação de que a arte possa (ou deva) servir para a educação e o “aperfeiçoamento moral” da humanidade tem profundas raízes no pensamento ocidental, adquirindo maior desenvolvimento a partir do Iluminismo. (BELFIORE, 2010, p. 124-45) É o que pode justificar o uso da música pelo Estado como um recurso para a formação de cidadãos. Não de qualquer música, bem entendido. Para os iluministas, a Grande Arte, “fundada nos valores da verdade, do bem e da beleza”, para o cultivo do emergente indivíduo burguês, encontra-se idealmente distante tanto da arte frívola e ornamental, feita sob encomenda para agradar a aristocracia decadente; quanto da arte vulgar, própria da ralé, igualmente destituída de valor. (BELFIORE, p. 127-8) Não se sabe se Júlio de Castilhos teria aprovado a iniciativa de Rocha, já que aquele defendia o afastamento do Estado não apenas da Igreja, mas do ensino superior, sob o argumento que, não cabendo àquele adotar uma religião oficial, tampouco uma ciência oficial seria desejável, sobretudo para assegurar a liberdade dessa ciência. Se o Estado, “não sendo religioso, também não pode ser cientista”, como poderia ser artista? (Castilhos, apud ROSA, 1930, p. 492). Não há como negar,
  • 16. 139 XI Seminário Internacional de Políticas Culturais • Niterói • 2020 entretanto, que nas sociedades modernas emergentes as instituições culturais, sejam ou não estatais, exercem funções convergentes às do Estado, como a de fornecer espaços de reconciliação, numa sociedade dividida por conflitos ou contradições; ou oferecer alguma segurança contra a anarquia potencial em épocas de rápida transformação social; ou abrigarem as mais altas expressões do ser humano. (LLOYD, 1998, p. 1)
  • 17. 140 XI Seminário Internacional de Políticas Culturais • Niterói • 2020 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BAKOS, Margaret Marchiori. Porto Alegre e seus eternos intendentes. 2. ed. Porto Alegre: Edipucrs, 2013. 220 p. (Série História, 11) BELFIORE, Eleonora; BENNETT, Oliver. The social impact of the arts: An intellectual history. New York: Palgrave MacMillan, 2010. BOHRER, Felipe Rodrigues. A música na cadência da história: Raça, classe e cultura em Porto Alegre no pós-abolição. Dissertação de Mestrado. Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. 2014. CAVALHEIRO LIMA, J. C. Araújo Viana: vida e obra. Porto Alegre: Divisão de Cultura-Diretoria de Artes (Secretaria de Educação e Cultura-RS), 1956. CONEDERA, Leonardo de Oliveira. Músicos no Novo Mundo: A presença de musicistas italianos na Banda Municipal de Porto Alegre (1925-1950). Tese de Doutorado. Programa de Pós-Graduação em História da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul. 2017. CORTE REAL, Antônio Tavares. Subsídios para a história da música no Rio Grande do Sul. 2a. ed. rev. aum. Porto Alegre: Movimento, 1984. DAMASCENO, Athos. Palco, Salão e Picadeiro em Porto Alegre no Século XIX: Contribuição para o estudo do processo cultural no Rio Grande do Sul. Porto Alegre: Globo, 1956. (Col. Província, v. 11) LLOYD, David; THOMAS, Paul. Culture and the State. Routledge, 1997. LOPEZ, Luiz Roberto. A música no Theatro: um corte histórico na vida da província. In: GOLIN, Cida et al. Theatro São Pedro: palco da cultura. Porto Alegre: Instituto Estadual do Livro, 1989. p. 143-215. MICELI, Sérgio. Entre o palco e a televisão. In: Estatísticas do Século XX. Rio de Janeiro: Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, 2006. p. 301-343. MONTEIRO, Charles. Porto Alegre, urbanização e modernidade: A construção social do espaço urbano. Porto Alegre: Edipucrs, 1995. MORITZ, Paulo Antônio. Ópera. In: DAMASCENO, Athos et al. O Teatro São Pedro na Vida Cultural do Rio Grande do Sul. Porto Alegre: Departamento de Assuntos Culturais - Secretaria de Educação e Cultura- RS, 1975. p. 155-245. PESAVENTO, Sandra. A burguesia gaúcha: Dominação do capital e disciplina do trabalho. RS 1889-1930. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1988. PORTO ALEGRE. Livro de Atas do Conselho Municipal. V. 27. [Arquivo Histórico de Porto Alegre Moyses Vellinho]
  • 18. 141 XI Seminário Internacional de Políticas Culturais • Niterói • 2020 PORTO ALEGRE, Prefeitura Municipal. Decreto 65, de 27 ago. 1926. PORTO ALEGRE, Prefeitura Municipal. Decreto 5471, de 22 mar. 1976 PORTO ALEGRE, Prefeitura Municipal. Decreto 7065, de 20 nov. 1979. PORTO ALEGRE. Prefeitura Municipal Lei 6.099, de 4 fev. 1988. ROSA, Othelo. Júlio de Castilhos: Perfil biográfico e escritos políticos. Porto Alegre: Livraria do Globo, 1930. SANMARTIN, Olintho. Um Ciclo de Cultura Social. Porto Alegre: Sulina, 1969. SIMÕES, Júlia da Rosa. Ser músico e viver da música no Brasil: Um estudo da trajetória do Centro Musical Porto-Alegrense (1920-1933). Dissertação de Mestrado. Programa de Pós-Graduação em História da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul. 2011. TRAVASSOS, Elizabeth. Modernismo e música brasileira. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2000. (Descobrindo o Brasil) VÉLEZ RODRÍGUEZ, Ricardo. Castilhismo, uma filosofia da República. Brasília: Senado Federal, 2010. WEIMER, Günter. A vida cultural e a arquitetura na República Velha Rio-grandense. (1895-1945) Porto Alegre: Edipucrs, 2003.