Aconteceu no Século Vinte

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Você vai conhecer a história de um jovem que repentinamente perdeu tudo que possuía de bom na vida. Chegou à miséria absoluta e, mais que tudo, perdeu a identificação com a sociedade!
E você vai acompanhar sua intensa busca pela recuperação da felicidade perdida. Nessa busca, três histórias se intercalam, parecendo inicialmente nada terem em comum. Mas aos poucos, você perceberá as fortes relações entre elas até um final surpreendente e emocionante! Jeremias nasceu em São Paulo em 1940. Viveu a infância e a juventude imensamente feliz junto à família. Os costumes daquela época são relembrados com muita nostalgia e romantismo. Tornelli, um jovem de boa formação, perde sua família em um acidente aéreo e fica sozinho no mundo. Sem aptidões para tocar os negócios de seu pai, acaba perdendo todos os bens da família. Surgem doenças nervosas que o impedem de continuar trabalhando. Aos poucos, ele cede ao álcool e às drogas que o transformam num mendigo. Um sacerdote e um neurologista se empenham em recuperá-lo para uma nova vida. Ramalho sobe o rio Moa, no Acre, e vai lecionar numa estranha aldeia isolada nas selvas, a qual lhe reserva muitas surpresas e aventuras. Na viagem, ele conhece uma jovem da qual não consegue esquecer-se.

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Aconteceu no Século Vinte

  1. 1. Aconteceu noSéculo Vinte Romance
  2. 2. Daniel de CarvalhoAconteceu noSéculo Vinte Romance São Paulo 2011
  3. 3. Copyright © 2011 by Editora Baraúna SE Ltda Capa LuizDeLuca Projeto Gráfico e Diagramação Alline Benitez Parecer Literário Vanise Macedo Revisão gramatical Priscila Loiola Imagens Corel Gallery CIP-BRASIL. CATALOGAÇÃO-NA-FONTE SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ_________________________________________ C322a Carvalho, Daniel de Aconteceu no século vinte : romance / Daniel de Carvalho. - São Paulo : Baraúna, 2010. ISBN 978-85-7923-135-3 1. Romance brasileiro. I.Título. 10-0611. CDD: 869.93 CDU: 821.134.3(81)-3 08.02.10 18.02.10 017574_________________________________________ Impresso no Brasil Printed in Brazil DIREITOS CEDIDOS PARA ESTA EDIÇÃO À EDITORA BARAÚNA www.EditoraBarauna.com.br Rua Januário Miraglia, 88 CEP 04547-020 Vila Nova Conceição São Paulo SP Tel.: 11 3167.4261 www.editorabarauna.com.br www.livrariabarauna.com.br
  4. 4. Aconteceu no Século Vinte Dedico este romance Aconteceu no Século Vinte à minhaquerida esposa Neusa. Daniel de Carvalho Setembro de 2007 Piracicaba - SP 5
  5. 5. Daniel de Carvalho 6
  6. 6. Aconteceu no Século Vinte 1 TEMPESTADE Janeiro de 1970 Cidade de São Paulo Um bairro da periferia ESTAVA TÃO QUENTE naquele dia, às quatro horas datarde, que a cidade mais parecia um grande forno. O sol aindaardia insistentemente no céu azul desprovido de nuvens. Ocalor estava insuportável. Aquele calor causticante que queimae arde na pele. Numa ladeira de terra, cheia de terrenos baldiose casas empoeiradas, crianças descalças e suadas brincavam rui-dosamente correndo de um lado para outro sem se importarcom aquela fornalha. Cães corriam e ladravam misturando-seàs crianças em grande algazarra. Era possível ver as radiaçõesde calor emanando do cimento quente das calçadas e das te-lhas de barro que cobriam as pequenas casas. Estava abafado!O ar totalmente parado. Nenhum vento, nenhuma brisa pararefrescar. Os ramos das árvores, sem movimento, lembravama paisagem inerte de uma pintura. Casas, árvores, capim, tudoestava coberto por uma fina camada de pó proveniente da ter-ra estorricada. Algumas donas de casa cuidavam do quintal, 7
  7. 7. Daniel de Carvalhooutras lavavam roupas, e outras conversavam preguiçosamentejunto às cercas, removendo constantemente, com as costas damão, o suor acumulado na testa. Um homem de aparência esquisita vinha descendo a ladei-ra. Caminhava aos tropeços de forma vacilante. Alheio ao intensocalor e a tudo que o rodeava, seu caminhar era indeciso e des-compassado. Cada vez que seus calcanhares tocavam o solo, elecontorcia o rosto sentindo dolorosos trancos no peito. Seus pas-sos se alternavam entre vagarosos, como de um zumbi, e rápidos,como de quem foge de alguma coisa. Não conseguia caminharem linha reta. Ora descambava para a esquerda, ora para a direita,suportando com dificuldade o peso do corpo. Nem as mulheresque conversavam em frente de suas casas, nem as crianças na rua,tinham percebido até então a estranha figura daquele homem. O límpido azul do céu vinha cedendo espaço para nu-vens negras que se formavam ameaçadoramente. Uma brisamorna começou então a soprar timidamente. Brisa que aospoucos foi se tornando mais forte e mais fria. — Parece que vamos ter chuva! — comentou, olhandopara o céu e bocejando longamente, uma dona de casa queconversava na cerca com sua vizinha. — É melhor recolher a roupa do varal! — lembrou avizinha. — Vem pra dentro, João! — gritou outra senhora, cha-mando o filho que brincava na rua. Percebendo que o tempo estava prestes a mudar, as mulhe-res da vizinhança apressaram-se a chamar os filhos para entrar. Aquele homem continuava descendo a rua como senada mais existisse no mundo além dele mesmo. Seu sem- 8
  8. 8. Aconteceu no Século Vinteblante ausente não revelava seu estado interior, exceto pelasconstantes caretas de dor e de sofrimento físico. Seu olharfocalizava somente o horizonte. As crianças notaram sua pre-sença e pararam de brincar para observá-lo. Curiosas, tenta-ram falar com ele. Nenhuma resposta! Talvez ele nem tivessetomado conhecimento delas. O ventou passou a rugir furiosamente sacudindo portase janelas, ameaçando derrubar e arrastar tudo que encontrassepela frente. As mães, apreensivas com o temporal iminente, sa-íam à rua insistindo com os filhos para que entrassem. Então,elas perceberam aquele homem que parecia doente ou alcooli-zado. Uma delas aproximou-se: — O senhor precisa de ajuda? Esperou por uma resposta que não veio. Insistiu e nada!O homem continuou seu caminho ignorando-a por completo.Como o tempo começou a piorar rapidamente, a mulher deu deombros e voltou correndo para sua casa. Aos poucos, as criançastambém foram se recolhendo, até que a rua ficou deserta. Exce-to pela presença daquele indivíduo que a tudo ignorava. O vento começou a soprar com maior violência. Nuvensnegras tomaram conta do céu e escureceu rapidamente. Fortesrajadas de vento atingiam as casas e a vegetação ameaçandoromper vidraças e arrancar os galhos das árvores. A poeira darua era arremessada com força contra casas, árvores e arbustos.Rodamoinhos se formavam aqui e acolá carregando consigofolhas e detritos para todos os lados. As poucas janelas que ainda estavam abertas começarama ser fechadas rapidamente. Os moradores se davam conta dafúria da tempestade que se armava lá fora. Mas nada disso pa-recia afetar aquele homem. Ele mantinha sua sofrida caminha-da hesitante e irregular. 9
  9. 9. Daniel de Carvalho Se alguém ainda o estivesse observando, teria a impressão deque lhe era indiferente ir para frente, para os lados, parar ou prosse-guir, ir mais depressa ou mais devagar. Teria a impressão de que elesoubesse para onde desejava ir. Nem, se desejava ir a algum lugar! As rajadas de vento foram se tornando cada vez mais aterra-doras. O atrito contra as casas e outras barreiras naturais produziaassobios fantasmagóricos como o choro de almas penadas. Janelase portas eram sacudidas assustadoramente. Vibravam tanto, queas pessoas temiam que suas casas fossem arrancadas do chão. As roupas de um varal, que a dona de casa não tiveratempo de recolher, agitavam-se furiosamente contorcendo-see embaraçando-se umas às outras. Desesperada, a mulher saiue tentou recolhê-las. O vento quase a arrastava para longe. Osfortes jatos de poeira machucavam-lhe o rosto, os braços e aspernas. Seus cabelos esvoaçam enquanto ela tentava, em vão,tirar algumas peças do varal. Os pegadores não aguentavammais a pressão e as peças se soltavam voando para longe emziguezague. A mulher, atordoada, desistiu e voltou lutandocontra o vento, até conseguir entrar e trancar a porta. A fortíssima ventania não conseguia deter o homem,apenas dificultava ainda mais sua marcha. Ele estava impas-sível à fúria do vento e da poeira que chicoteavam seu rosto.Seus lábios, narinas, cabelos e sobrancelhas estavam cobertosde pó. Sentia o gosto da terra em sua garganta. Mas nada dissoimpedia sua marcha! A natureza parecia ter ficado de mal com os homens. Es-curecera por completo. Não eram ainda cinco da tarde e já pa-recia noite. Dentro das casas, o silêncio era total. Estavam commedo! Ninguém se aventurava a abrir portas ou janelas para vero que acontecia lá fora. Um repentino e violento estalo sacudiu 10
  10. 10. Aconteceu no Século Vintetoda a região. O barulho da trovoada, seguido pelo clarão dorelâmpago, foi alarmante. Os moradores das casas se agacharaminstantaneamente e permaneceram encolhidos até entenderemo que tinha acontecido. Com os corações disparados, se olha-vam assustados sem dizer uma só palavra. O trovão fora conco-mitante com o intenso clarão do relâmpago, o que indicava quea descarga elétrica ocorrera muito próxima do local. Lá fora, o homem deteve-se por uma fração de segundo,sem procurar, entretanto, proteger-se ou localizar de onde vie-ra o estrondo. Continuou sua marcha, indiferente e cambale-ante. Suas faces estavam rígidas. Os olhos vidrados e o olharperdido. Nenhuma expressão! Nada!... Nada que revelasse oque se passava em seu íntimo. Os raios começaram a riscar freneticamente o céu em to-das as direções, seguidos pelo ribombar das trovoadas. A chuvafinalmente desabou nervosa com toda a força que a natureza lhepermitia. Foi um aguaceiro indescritível. Uma tormenta! Sugeriaum ajustar de contas entre o céu e a terra. De repente, um curto-circuito num transformador e a consequente queda da energiaelétrica deixaram o bairro mergulhado em total escuridão. A estranha figura não dava a mínima demonstração de pre-tender abrigar-se. Estava com a roupa encharcada. Tinha seus pas-sos ainda mais dificultados pela lama que se formava. Era apenasum corpo se locomovendo na escuridão sob o violento temporal.Mas no interior daquele corpo ocorria uma tormenta ainda maisforte. Tão forte, que a fúria da natureza não conseguia incomodá-lo. Seu tormento era muito superior que a tormenta externa! Um segundo estrondo metálico, mais forte que o primei-ro, pareceu ter acabado com o mundo. Por alguns segundos,ficou tão claro como o dia, e o cenário se mostrou arrasador.Casas destelhadas, cercas caídas, árvores arrancadas como sefossem de brinquedo. A rua estava coberta de lama misturada 11
  11. 11. Daniel de Carvalhocom galhos, folhas e detritos de toda espécie. Veio um terceiro estrondo que finalmente deteve o ho-mem. Seu corpo se contorceu em profunda angústia. Seus pas-sos começaram a tender mais para o lado esquerdo, até que suaspernas roçaram um pequeno barranco que servia como meio-fio. Perdeu o equilíbrio. Esforçou-se para permanecer de pé, masas rajadas de água e vento o empurravam furiosamente comose quisessem liquidar de vez com o duelo. Seus joelhos não su-portaram. Caiu de quatro e suas mãos escorregaram na enxur-rada que corria turbulenta pelo meio-fio. Ficou com metade docorpo imerso na corredeira. Tentou ainda levantar-se, e comindescritível esforço, colocou-se de pé. Mas por pouco tempo.Ao tentar reiniciar a caminhada um tremor alucinatório tomouconta de seu corpo. Os nervos da face começaram a repuxar. Suatesta franziu e seus olhos se arregalaram ante uma dor insupor-tável. A tormenta externa somou-se à interna e ele finalmentetombou. Caiu de vez! Não levantou mais. Ficou inerte juntoao meio-fio. A turbulenta enxurrada aumentou de intensidadepassando ruidosamente por cima de seu corpo formando umgrande leque de água barrenta. Até que o encobriu totalmente.Já não se poderia distinguir o homem sob a água e a lama. Depois de quatro horas de temporal, a intensidade dachuva começou a diminuir. Já eram onze da noite, quandofinalmente parou de chover. A ladeira terminava numa várzeaque ficou totalmente inundada. O dia seguinte seria um trans-torno para toda a cidade. Dificilmente, os moradores daquelarua conseguiriam transpor a várzea para irem ao trabalho. Masa chuva passou de vez. Cessaram os relâmpagos e as trovoadas.A natureza deu-se por satisfeita. A iluminação elétrica foi res-tabelecida. Todos finalmente puderam dormir mais tranqui-los. O dia seguinte amanheceu lindo e ensolarado! 12
  12. 12. Aconteceu no Século Vinte 2 MARIA FUMAÇA Janeiro de 1945 Cidade de São Paulo Bairro de Santana ERA UMA SEXTA-FEIRA. O fim de tarde estava deli-cioso, com Sol ameno e uma brisa refrescante. A Rua AlfredoPujol estava com pouco tráfego naquele horário. De vez emquando, passava um automóvel ou um daqueles ônibus azuisda CMTC (Companhia Municipal de Transportes Coletivos).Bem no meio da rua, sobre o leito de macadame, destacavam-se os trilhos do trem que separavam as duas mãos de direção. O jovem Edmundo e seu filho Jeremias, de cinco anos,caminhavam pela calçada conversando animadamente. Era no-tório o grande afeto que envolvia aquelas duas criaturas. Jere-mias prestava atenção a todos os detalhes da rua e das casas.O menino observava, com curiosidade, as pessoas com quemeles cruzavam e as mulheres debruçadas nos peitoris das janelas.Fazia mil perguntas a Edmundo, que nem conseguia respondera uma das perguntas, e lá vinha outra. Era a vivacidade típica deuma criança que está começando a conhecer o mundo. 13
  13. 13. Daniel de Carvalho Repentinamente, um apito forte e agudo fez o menino es-tremecer. Jeremias estancou assustado. Voltou-se e viu, com osolhos arregalados e a respiração contida, aquilo que se aproxima-va! Apertou a mão do pai como quem pede proteção. Seu coraçãoestava disparado. Tentava entender o que era aquela “coisa”. — Pai! Que quê é aquilo que vem vindo lá no meio da rua? — Ahh! Aquilo? — respondeu Edmundo sorrindo. — Éo trem. É a Maria Fumaça! Jeremias, que nunca passara pela Rua Alfredo Pujol enunca vira um trem, continuava tenso e imóvel, olhando comum misto de medo e curiosidade para aquela coisa barulhentae espalhafatosa que se aproximava. — Vamos andando, Jeremias — disse Edmundo. Mas Jeremias estava hipnotizado e resistia ao leve esforçodo pai em puxá-lo para que continuassem a caminhar. Vendoque Jeremias estava tão interessado, Edmundo esperou que otrem passasse por eles. — Pai! Ele vai passar aqui perto!!! — exclamou Jeremiasapreensivo sem tirar os olhos da enorme composição que seaproximava soltando grande coluna de fumaça. A máquina apitou outra vez ao passar por Edmundo e Je-remias, reduzindo a velocidade e começando a fazer uma curvatotalmente à direita, como se estivesse envolvendo ameaçado-ramente o atônito Jeremias. — O que quê o trem tá fazendo, pai? — Está parando para os soldados que vêm da cidade,descerem. Jeremias não tirava os olhos do trem enquanto bombar-deava Edmundo com perguntas. Estava muito impressionado.Como lhe parecia imponente e assustadora a grande máquinade ferro que suava cuspindo brasas e exalando vapor! Ele nun-ca vira uma cena impressionante como aquela. 14
  14. 14. Aconteceu no Século Vinte As pessoas começaram a saltar das plataformas dos vagõesde madeira, mesmo antes de o trem parar por completo. Jeremias suspirou mais descontraído. — Pra onde os soldados vão? — Para aquele Quartel do Exército — respondeu Ed-mundo apontando para o outro lado da rua. Parados perto da locomotiva, Jeremias sentia o calor da cal-deira, o cheiro da fumaça da lenha e o cheiro do vapor. A MariaFumaça voltou a apitar enquanto os rangidos do atrito de ferro comferro acompanhavam o vagaroso reinício do movimento do trem. — Agora vamos, Jeremias! — voltou a insistir Edmundo,puxando levemente a mão do menino. Mas Jeremias só cedeu e voltou a caminhar depois queviu o último vagão desaparecer numa curva mais adiante. — Prá onde o trem tá indo agora, pai? — A próxima estação é a de Santa Teresinha. Depois ele pas-sa por muitas outras até chegar à última, que é a da Cantareira. — Aqui também é uma estação? — perguntou Jeremiasobservando todos aqueles soldados atravessando a rua e en-trando no quartel. — Aqui não é bem uma estação. É só uma parada conhe-cida como a Parada do Quartel. A essa altura, os dois já estavam começando a descer a ín-greme e curta ladeira que se iniciava bem em frente ao quartel. — Você não está curioso para conhecer a nossa nova casa?— perguntou Edmundo, acariciando os cabelos negros do filho. A família de Jeremias tinha se mudado para uma novacasa no dia anterior. Durante a mudança, o menino ficara comseus avós, onde seu pai fora buscá-lo naquela tarde. — A casa é bonita, pai? 15

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