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modernização cuja “razão mundial burguesa”, as leis históricas destrutivas e regrasdemocráticas são apenas pura expressão....
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Comentários contextuais acerca do livro o colapso da modernização, de robert kurz

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Este texto foi produzido originalmente como requisito para obtenção de nota na disciplina Modernização e Contradições Espaço-Temporais, ministrada pelo Prof. Dr. Anselmo Alfredo, no Programa de Pós-Graduação em Geografia Humana da Universidade de São Paulo. Agradeço ao geógrafo e doutorando em Geografia Humana (FFLCH/USP) Thiago Araújo Santos pelas inúmeras colaborações, críticas e sugestões.

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  1. 1. COMENTÁRIOS CONTEXTUAIS ACERCA DO LIVRO O COLAPSO DA MODERNIZAÇÃO, DE ROBERT KURZ1 José Arnaldo dos Santos Ribeiro Junior2 O propósito deste texto é tecer alguns apontamentos críticos ao livro “O Colapso daModernização: da derrocada do socialismo de caserna à crise da economia mundial”, dofilósofo alemão Robert Kurz3. O leitor não deve esperar aqui um esquematismo maniqueístaque tenta ver o lado bom ou mal das coisas, tampouco uma análise sistêmica cujo simplesenquadramento causal fornece as respostas efetivas. A intenção é estabelecer um diálogo comKurz na perspectiva da crítica como aproximação apontando seus limites, possibilidades,perspectivas e desdobramentos políticos. Como o próprio título do livro expõe, trata-se da realização de uma análise que buscademonstrar o esgotamento do atual momento econômico para entender como a crise dosocialismo é, na visão do autor, manifestação de uma crise econômica a nível mundial umavez que a mundialização da mercadoria abarca tanto o socialismo, quanto o capitalismo, namedida em que a crise é o “momento” no qual as totalidades contraditórias da produção demercadorias se esgotam simultaneamente ao processo de acumulação. A audácia de Kurz está em tratar o declínio do socialismo numa perspectiva para alémda “vitória” do capitalismo: buscando fugir da dicotomia e de modelos maniqueístas abstratos,como capitalismo versus socialismo, o autor concebe o conjunto da história do sistemamundial como a produção de mercadorias. Assim, para o autor, o aumento da concorrência a nível mundial é o resultado da“vitória capitalista” como consequência do desenvolvimento das forças produtivas. Oaumento da produtividade leva ao capital a perder a faculdade de explorar trabalho a partir domomento em que a ciência e a tecnologia se tornaram forças produtivas.1 Este texto foi produzido originalmente como requisito para obtenção de nota na disciplina Modernização eContradições Espaço-Temporais, ministrada pelo Prof. Dr. Anselmo Alfredo, no Programa de Pós-Graduaçãoem Geografia Humana da Universidade de São Paulo. Agradeço ao geógrafo e doutorando em GeografiaHumana (FFLCH/USP) Thiago Araújo Santos pelas inúmeras colaborações, críticas e sugestões.2 Bacharel e Licenciado em Geografia pela Universidade Federal do Maranhão (UFMA). Mestrando emGeografia Humana na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da Universidade de SãoPaulo (USP). Membro do Grupo de Estudos: Desenvolvimento, Modernidade e Meio Ambiente (GEDMMA) edo Núcleo de Estudos e Pesquisa do Sindicalismo (NEPS). Integrante da Rede Justiça nos Trilhos.3 Além de filósofo, Kurz é também ensaísta. Ganhou visibilidade com o referido livro aqui comentado, mastambém com a publicação do Manifesto contra o trabalho em 1999. Kurz foi membro do Grupo Krisis de 1986até 2004 quando criaram um novo grupo: EXIT! CRISE E CRÍTICA DA SOCIEDADE DAS MERCADORIAS.
  2. 2. No entanto, Kurz coloca em cheque a perspectiva da “vitória do capitalismo”argumentando que tanto a crise do socialismo real quanto o triunfo capitalista fazem parte domesmo colapso da modernização. É, indubitavelmente, uma forma de ver o colapso e a crise,a globalização e o “fim da história4” numa outra perspectiva, de um modo de considerar osacontecimentos sob outro ponto de vista. E é justamente esta “outridade” do argumentodiscursivo de Robert Kurz que torna sua crítica vigorosa e nos convida a pensar amodernização sob o prisma da crise. Este pequeno panorama geral sobre a obra, que será mais adiante melhor comentada,serve para que possa apresentar ao leitor (e julgo ter apresentado) a tese central do livro demaneira clara e objetiva que justificam o movimento teórico-racional de Kurz no que tange ostermos da análise crítica da igualização socialismo-capitalismo. Não obstante, uma pergunta paira no ar: não estaria Kurz sendo por demaispretensioso ao reduzir a crise econômica, a histórica econômica e as relações econômicasinternacionais à centralidade da mercadoria? Outra questão: ao igualizar socialismo ecapitalismo como sistemas de produção de mercadorias Kurz não estaria anuviando asdiferenças que permeiam estes sistemas? As perguntas podem ter respostas distintas. Proponho-me a oferecer uma resposta paracada uma. A meu ver, quando Kurz centraliza a crise, a história e as relações internacionaiseconômicas na produção de mercadorias ele está autonomizando a lógica econômica da lógicasocial total, ou ainda, está subsumindo a lógica social total à lógica econômica. Não podemosdesconsiderar, por exemplo, [...] o fato de Marx ter explicitado no subtítulo de sua obra maior, O Capital, que não se tratava de uma obra de economia, mas sim de “crítica da economia política”. Sua fina e rigorosa análise da formação social que praticamente viu nascer o levou a perceber que havia uma sociedade que se estruturava reduzindo o homem e tudo que implicava as relações sociais, natureza incluída, à economia. Com toda razão dedicou seu primeiro capítulo à análise da mercadoria e seu fetichismo. Fazer a crítica da economia era o cerne da crítica à sociedade que se organizava em torno dela e implicava superar a economia como fundamento da sociedade. Em outras palavras, a crítica da economia política serve para fazer a crítica do capitalismo, mas não serve para construir outra sociedade. São outros horizontes de sentido para a vida, para além da economia, que devem ser criados (PORTO-GONÇALVES, 2011: 4). É o movimento de Kurz que o leva a igualizar capitalismo e socialismo como sistemasde produção de mercadorias. Essa igualização não permite ver a diferença (já estou na4 Nas palavras de Fukuyama (apud VESENTINI, 2007: 63): O que testemunhamos [a Perestroika e o colapso daURSS, a queda do muro de Berlim] não é apenas o final da guerra fria, mas o fim da história como tal, ou seja, oponto final da evolução ideológica da humanidade e a universalização da democracia liberal ocidental como aforma final do governo humano.
  3. 3. resposta da segunda pergunta) entre a competição5 desenfreada do capitalismo e os ideaishumanísticos do socialismo. Mais ainda: apesar de concordar com a perspectiva anti-dicotômica do autor, a meu ver, ele não escapa da abordagem de continuum. Explico melhor.O subtítulo do livro de Kurz é esclarecedor: “Da derrocada do socialismo de caserna à criseda economia mundial”. Ou seja, ele defende que é justamente o progresso da mercadorizaçãoque responde pelas mudanças expressivas da sociedade, seja ela “socialista de caserna”(estatista), ou capitalista. Em minha análise, o autor justapõe (ou melhor, aproxima) asociedade socialista à sociedade capitalista subsumindo posteriormente todas elas ao sistemaprodutor de mercadorias. Assim, ao analisar a abordagem de continuum de Kurz compreendo que ele não fogedo dualismo na medida em que considera o socialismo de caserna e o capitalismo numaperspectiva de integração, ou se preferir, modernização da economia mundial. Decorre que,para o autor, não há contraposição entre o socialismo de caserna e o capitalismo. Kurz atesta ainda que a novidade da crise está assentada na incorporação da ciência aoprocesso produtivo e que, portanto a classe trabalhadora entra em declínio de importância.Acrescentaria que não apenas a ciência, mas também a tecnologia, se converteram em forçasprodutivas. Mas essa conversão não se deve a qualquer entidade sobrenatural, mas sim a seressociais concretos que lançam mão dos mais diversos mecanismos (como a ciência e atecnologia) para continuar o processo de acumulação. A metacrítica de Kurz assenta-se na perspectiva que o conflito de sistemas (1992:13)é pouco relevante. Tampouco o abandono do socialismo e a tese do fim da história possuemqualquer fundamento. No verão de 1989, o americano Francis Fukuyama, vice-diretor da equipe de planejamento do Ministério do Exterior dos Estados Unidos, proclamou precipitadamente, num artigo para o magazine trimestral National Interest, “o fim da história” - sentença que se disseminou na velocidade de um raio e tem sido citada a torto e a direito. Como se isso não bastasse, o autor fundamenta sua tese na ideia de Hegel de uma “forma definitiva, racional, da sociedade e do Estado” que teria sido por fim alcançada na figura bastante peculiar do american way of life. [...] Mas a evidência de uma vitória relativa do mundo ocidental, a bem da verdade, mal pode ser contestada se vigorarem ainda os critério do conflito de sistemas precedente e se não se puder pensar numa metacrítica. E esta é precisamente a questão. Pois será mesmo que o Ocidente agiu com plena consciência e autoconsciência naquele terreno em que agora presume pisar como vencedor? (KURZ, 1992:14)5 Cabe assinalar que a noção de competição é uma noção biológica, e implica uma relação desarmônica, ouseja, uma relação na qual pelo menos uma das espécies é lesada.
  4. 4. Kurz tem uma argumentação forte, poderosa, sofisticada, diria mais: tentadora. Ele nosdesafia a fugir das formações sociais aparentemente opostas (1992:16); cutuca nossa “análiseclassista”; advoga um “fetichismo do capital”; aproxima Lênin de Weber: Em nenhum outro lugar esse ethos protestante do trabalhador abstrato dentro de uma sociedade transformada numa máquina de trabalho, declarado por Max Weber como característica constitutiva ideológica e histórica do capitalismo, foi posto em prática com mais fervor e rigor do que no movimento operário e nas formações sociais do socialismo real (1992:18). O socialismo do movimento operário nunca esteve muito distante dessa criação fetichista da motivação do antigo protestantismo. Enquanto este colocou o trabalho abstrato a serviço da religião, aquele transformou o trabalho abstrato numa religião secularizada, a do endeusamento da riqueza nacional, transcendente aos fins vinculados às necessidades humanas; precisamente para a Rússia, à beira da modernidade burguesa, o socialismo era um substituto mais ou menos adequado dos elementos constitutivos religiosos do modo de produção capitalista na Europa Ocidental, desde a Reforma (1992, p.19). Mas, se o socialismo e o capitalismo são formações sociais aparentemente opostas issosignifica dizer que em essência capitalismo e socialismo são formações “paralelas”, ou seja,estão do mesmo lado no jogo mundial de produção de mercadorias? Quando Kurz aproximaWeber e Lênin não estaria ele negando factualmente o potencial revolucionário do trabalhocomo mecanismo de emancipação, por exemplo, das “amarras da natureza”? A meu ver, Kurzaproxima indevidamente via instrumento analítico (a categoria trabalho) Weber e Lênin. EmWeber, ou melhor, em sua análise do espírito do capitalismo, a lógica do trabalho estáassociada ao ethos da riqueza como ética da vida; já em Lênin, ou melhor, no socialismo, otrabalho não é um mecanismo igual ao da ética protestante (do trabalho) e do espírito docapitalismo: isso porque o trabalho é no socialismo, como adverti anteriormente, mecanismode emancipação social, meio de desenvolvimento político e de formação de uma consciênciacrítica de classe. Kurz parece não ver diferença entre um sistema “político-religioso”(capitalismo) e um sistema, civilizatório e disciplinador (eu estou ciente disso), que traz emseu seio ideais humanísticos por excelência como: desenvolvimento social, saúde pública dequalidade, moradia digna, aposentadoria, estabilidade financeira, condições dignas deemprego, etc. Kurz parece confundir trabalho a serviço da religião, meio de se atingir riqueza,salvação divina, ética individualista de vida, com trabalho a serviço da consciência de classe,do desenvolvimento social (mas também individual) do mundo. É o raciocínio “mais oumenos constitutivo” que igualiza todo o trabalho, que não percebe as diferenças internas eexternas do trabalho no campo socialista em relação ao habitus capitalista. Ainda que o trabalho, como labor no sentido antigo, como estafa e moléstia, ocupasse completamente o horizonte da vida da maioria das pessoas, isso acontecia por causa do grau de desenvolvimento relativamente baixo das forças produtivas no
  5. 5. “metabolismo entre os homens e a natureza” (Marx); o trabalho era, portanto, uma necessidade imposta pela natureza, porém precisamente por isso nenhum dispêndio abstrato de força de trabalho e nenhuma atividade social que traz em si sua própria finalidade (KURZ, 1992: 21). O vaivém do meu argumento será inevitável: Kurz não enxerga no trabalho mais doque uma estafa ou moléstia. Sua “crítica estafante” enxerga no trabalho mais um engenhoalienador; não se permite ver que o fato do homem encontrar-se dependente da Natureza pararealizar a sua vivência e reprodução não o torna escravo do trabalho6. Após isso, a crítica do autor se concentra no processo histórico da modernidade noqual dois regimes de produção de mercadorias se relacionam: estatismo e monetarismo. Kurzargumenta, por exemplo, que o socialismo real é um “regime modernizador protocapitalistade sociedades burguesas atrasadas” (1992: 28). Nesse sentido, tanto o estatismo do socialismoreal, quanto o estado social e regulador keynesiano se tornam produtos do mercado. Mas, Kurz ao operar o Estado como resultado do avanço do desenvolvimento domercado, em poucas palavras, como produto do próprio mercado, retira o foco, por exemplo,de aspectos importantes, principalmente de dimensão política. Há de se notar certo “silêncio”acerca da relação entre Estado e Nação, da Segurança Nacional, isso tudo em virtude de sefocalizar o Estado como produto do mercantilismo. A meu ver, seria interessante pensar oEstado como a produção de uma escala política de atuação de um determinado segmentosocial (a burguesia) como sugeriu o próprio Marx7. Interessante é a apropriação que Kurz faz de Tocqueville8 (1805-1859) parademonstrar a conexão e a continuidade despótica entre o Antigo Regime e a Revolução. Parao autor, Tocqueville é o “Marx da crítica das instituições políticas das democracias modernas,na base da forma produtora de mercadorias” (1992: 33). Kurz compartilha com Tocqueville a“ilusão subjetiva burguesa”, “as formas que não tem sujeito”, ou “a vontade do verdadeirosujeito constituído na forma mercadoria”, uma “força desconhecida”, “que não pode refrear asi mesma”. Sobre a forma-mercadoria é verdade que Marx (2003: 57, grifos meus) disse que “ariqueza das sociedades onde rege a produção capitalista configura-se em ‘imensa6 Não se trata em Marx, obviamente, de achar que “o trabalho dignifica o homem”. Trata-se sobretudo dereconhecer o caráter ontológico do trabalho compreensível nos Manuscritos econômico-filosóficos.7 Todavia, não basta dizer apenas que o Estado é o comitê político da burguesia. O geógrafo marxista DavidHarvey (2011, p.68) observou que “uma das maiores lacunas do Manifesto [do partido comunista] é a sua faltade atenção para a organização territorial”; Além disso, Harvey (idem, ibidem) atesta que “o Estado é só uma dasmuitas instituições mediadoras que influi na dinâmica da luta mundial de classes”.8 O historiador político Alexis de Tocqueville ficou famoso pela obra A democracia na América.
  6. 6. acumulação de mercadorias’, e a mercadoria, isoladamente considerada, é a formaelementar dessa riqueza”. Todavia, é importante observar também esta passagem: Não é com seus pés que as mercadorias vão ao mercado, nem se trocam por decisão própria. Temos, portanto, de procurar seus responsáveis, seus donos. As mercadorias são coisas; portanto inermes diante do homem. Se não é dócil, pode o homem empregar força, em outras palavras, apoderar-se dela. Para relacionar essas coisas, umas com as outras, como mercadorias, têm seus responsáveis de comportar- se, reciprocamente, como pessoas cuja vontade reside nessas coisas, de modo que um só se aposse da mercadoria do outro, alienando a sua, mediante o consentimento do outro, através, portanto, de um ato voluntário. É mister, por isso, que reconheçam, um nó no outro, a qualidade de proprietário privado (MARX, 2003: 109, grifos meus). Porém, ainda inquieta-me a assertiva da “ausência de sujeito”. Marx e Engels aoabordarem a ampliação do raio de mercado pela burguesia a nível mundial atestam muito bemque esse fenômeno não ocorre de forma natural ou sem sujeito como leva a crer Kurz; pelocontrário, o ator principal desse fenômeno é sempre evidenciado em suas falas como nestanotável passagem do Manifesto Comunista: Através da exploração do mercado mundial, a burguesia deu um caráter cosmopolita à produção e ao consumo de todos os países. [...] as antigas indústrias nacionais foram destruídas e continuam a ser destruídas a cada dia. [...] Em lugar das velhas necessidades, satisfeitas pela produção nacional, surgem necessidades novas, que para serem satisfeitas exigem os produtos das terras e dos climas mais distantes. Em lugar da antiga auto-suficiência e do antigo isolamento local e nacional desenvolve- se em todas as direções, um intercâmbio universal, uma universal interdependência das nações (MARX; ENGELS, 2008: 49). Após lançar mão de Tocqueville para justificar e “igualizar” revolucionários eabsolutistas para depois subsumi-los ao capital, ao sistema de produção de mercadorias, Kurzapoia-se agora em Fichte9 (1762-1814) para “abrir mão de Marx” e de sua crítica da economiapolítica já que todas as características decisivas do socialismo estatal (mercado planejado,direito ao trabalho e monopólio estatal do comércio exterior) já estavam em Fichte. Todavia, mais interessante que a apropriação do Estado racional de Fichte é a naturezadupla do Estado que aparece em Kurz. Por um lado a forma moderna do Estado é parteira dosistema produtor de mercadorias e, por outro, é componente inextricável deste último, o quelevou Kurz a acertadamente reconhecer que o capitalismo jamais pretendeu a liberdade demercado ou ainda o movimento histórico ondulatório (1992: 40), a dominação dialética doestatismo e do monetarismo. Em suma, para Kurz, o socialismo real repetiu e “realizou” asideias mercantilistas tardias de Fichte.9 O referido filósofo foi um dos expoentes máximos do idealismo filosófico alemão.
  7. 7. Em minha opinião, quando Kurz “abriu mão de Marx” para se apoiar em Fichte e daífazer sua crítica do socialismo real, “esqueceu” da crítica que Marx faz do Estado, seja eleracional ou não, como mecanismo/fator de alienação. Marx tinha bem em mente o quesignificava o Estado. Apesar de nunca ter produzido uma teoria do Estado, Marx foi umferrenho crítico do Estado, como bem demonstrou em sua obra Crítica da Filosofia do Direitode Hegel10: “Como se o povo não fosse o Estado real! O Estado é abstracto; só o povo éconcreto” (MARX, 1983: 44). Como Lallement (2004: 111-112) aponta “[...] longe de ser asolução para todos os problemas sociais, o Estado é na realidade - inclusive em regimesdemocráticos - apenas um fator de alienação”. É por “desconhecer” estas críticas que Kurz diz: A teoria de Marx, vulgarizada por interpretações unilaterais até tornar-se “marxismo”, foi privada de sua crítica decisiva da forma do sistema burguês moderno de reprodução; a crítica da forma mercadoria que culmina no conceito do fetichismo, criado por Marx, foi eliminada e empurrada para um além teórico e histórico, difamada como nebulosa, ou degradada a um fenômeno mental puramente subjetivo. No lugar de um conceito de forma do sistema produtor de mercadorias e de sua condicionalidade histórica aparece, dessa maneira, um conceito reduzido das “classes em conflitos”, como suposta razão última da socialização; [...] Desse modo, uma categoria social analítica, a “classe trabalhadora”, transformou-se numa pessoa coletiva com identidade consistente que, independentemente de pessoas empíricas, “atua” de forma quase biográfica (1992: 44-45, grifos meus). Kurz qualifica de “marxismo vulgar” aquele segmento do marxismo que centra suasanálises em torno do materialismo histórico e da luta de classes. Para ele, os marxistasvulgares não compreenderam que a crítica decisiva de Marx está na forma-mercadoria queculmina no conceito de fetichismo. O desconhecimento disto, na análise de Kurz, levou aredução do marxismo ao conceito de luta de classes destituído de pessoas empíricas. Ora, mas será realmente que a crítica decisiva de Marx está na forma mercadoria ouisto seria uma transposição particular que Kurz faz do Capital (a obra) para universalizar nopensamento marxiano? Concordo com Kurz que Marx não pode ser reduzido ao conceito deluta de classes, mas daí a concluir que a crítica central e decisiva de Marx repousa na forma-mercadoria é, no mínimo, questionável. As classes sociais não são um sujeito secundário no10 As concepções marxianas da Crítica da Filosofia do Direito de Hegel, obra do ano de 1843, caracterizam-sepelas críticas ferozes e contundentes, de Marx, ao endeusamento do Estado, por parte de Hegel, haja vista esteúltimo, subordina ao Estado a Sociedade Civil e a Família na obra Princípios da Filosofia do Direito. Nestaobra, por exemplo, Hegel vê no monarca o “Homem-Deus”, bem como no autoritarismo do Estado, auniversalização e a expressão da razão. Marx, ao contrário, em sua crítica, ressalta frequentemente a importânciada Sociedade Civil e da Família, pois ambos influenciam simultaneamente o Estado, haja vista são seuspressupostos. A louvação que Hegel faz junto ao Estado, personificados no monarca e nos funcionáriosexecutivos, os representantes, mais tarde será invertida por Marx quando o proletariado assumirá o papelprincipal na sociedade.
  8. 8. pensamento de Marx, se fosse desta forma, o que levaria Marx a escrever o ManifestoComunista11? Se a relação social da mercadoria fosse totalmente ausente de sujeito e asclasses fossem realmente secundárias porque Marx haveria de escrever As lutas de classe emFrança? A meu ver, quem mistifica a forma-mercadoria como metassujeito social, quem faz aascensão dela aos céus é Robert Kurz. Marx, ao contrário, tem total consciência do poderrevolucionário do proletariado que é sim dotado de indivíduos políticos unidos por umatotalidade dialética (uma conexão unitária subjetivo-objetiva). Se a contradição, por exemplo,o motor interno que produz os acontecimentos (CHAUÍ, 2008), em Hegel é do Espíritoconsigo mesmo, aparece em Marx e Engels concretamente como luta de classes, como bemexpressa a obra O 18 Brumário de Luís Bonaparte12. Um aspecto chama atenção no que respeita ao sistema produtor de mercadorias. Kurzdeixa claro que o sistema produtor de mercadorias é o próprio capital e que a ele tudo ésubsumido. Mas uma palavra faz toda diferença: sistema. A ideia de sistema para o autor,pelo menos na minha ótica, leva a uma leitura repetitiva a que nada escapa reproduzindosempre o mesmo movimento. Seria um mecanicismo? Exemplo: não há diferença(significativa) entre a ética do trabalho e o espírito do socialismo; é como se tudo fosse“trabalho” num movimento hermético que autossubsume; ou quando Kurz escreve que osocialismo não era uma alternativa histórica ao capitalismo posto que ele é parte do sistemaprodutor de mercadorias. Kurz vê o todo, em tudo, em toda parte do mundo; não importa acondição histórica: a lógica do sistema produtor de mercadorias é simplesmente, pelo menosna minha leitura de Kurz, intemporal: a condição já está dada, não há “transformação”. Depois desta crítica “sistemática” um argumento de Kurz chama atenção no seu livro:a qualidade capitalista da “acumulação socialista primitiva”. O autor provoca o nossopensamento e nos incita a pensar uma acumulação primitiva em termos socialistas: Se sob o regime stalinista foi estabelecida temporariamente a bagatela de uma pena de morte por simples atrasos, para forçar o adestramento das massas agrárias da11 Junto, é sempre importante dizer, com o também filósofo alemão e revolucionário comunista Friedrich Engels(1820-1895). Escreveu, também com Marx, A ideologia alemã e A sagrada família. Dono de vastosconhecimentos sobre política, economia e filosofia, Engels foi um fervoroso defensor do proletariadorevolucionário e da filosofia materialista. Publicou ainda: A situação da classe trabalhadora na Inglaterra,Ludwig Feuerbach e o fim da filosofia clássica alemã e A origem da família, da propriedade privada e doEstado.12 Possivelmente, uma das melhores obras de Marx para se analisar metodologicamente a política enquanto lutapelo poder. Nesta obra o materialismo histórico é posto em prática para se analisar o golpe de Estado deNapoleão III (Luís Bonaparte) em França. Marx faz uma análise minuciosa das disputas políticas dos atoresenvolvidos (burguesia, camponeses, proletários, o Estado) no espaço da França que é onde se desenrola(ousamos dizer assim) as principais lutas classistas e sociais. Não é a toa que a França é o foco privilegiado dasanálises políticas (enquanto luta pelo poder) de Marx expresso não apenas nessa obra, mas também em GuerraCivil na França e Lutas de Classes em França.
  9. 9. Rússia, que não estavam acostumadas com as necessidades objetivas da disciplina fabril, isso não representa apenas uma continuação direta da “militarização da economia” trotskista do período da guerra civil: representa também um reflexo do violento processo de modernização levado a cabo por uma acumulação primitiva de capital, tal como já descrita por Marx, em cores parecidas, ao analisar a industrialização da Inglaterra (KURZ, 1992: 54, grifos meus). Minha argumentação em relação à Kurz vai ao sentido do adestramento das massasagrárias. Não entrarei em discussão sobre a questão do trabalho como forma de emancipaçãoposto que esse é um ponto de divergência minha em relação ao autor, mas sim na forma comoKurz (1992, p.56-57) constrói um argumento lógico sobre a acumulação socialista primitiva(de capital). Mais a frente ratifica: Enquanto não se trata da “construção do socialismo”, mas da construção recuperadora do capitalismo, Stálin tem toda razão. Pelo menos uma parte dos recursos para a histórica acumulação primitiva da Europa ocidental foi obtida mediante a expansão colonial desde o século XVI (sem esquecer a enorme quantidade de ouro roubado na América do Sul). Essas possibilidades realmente não existiam mais para a União Soviética. Mas, se o capital monetário exigido tinha de ser obtido exclusivamente “dentro do país”, isso significava que o “material humano” do próprio “país” tinha de ser explorado sem piedade e transformado rigorosamente em produtores de riqueza abstrata, isto é, em produtores de dinheiro ou mais-valia. De fato, estas duas assertivas acima supracitadas são aspectos extremamente profícuosda crítica da acumulação socialista primitiva de capital e a sua relação com o adestramentodas massas agrárias que Kurz promove acerca da questão do campesinato. Com efeito, oadestramento das massas agrárias feito na União Soviética dá razão ao autor: O fim do Estado czarista baseou-se no desenvolvimento de grandes greves industriais, no fomento da desordem e inquietação dos camponeses e na deserção em massa do exército em março de 1917 (Primeira Guerra Mundial). A volta dos soldados camponeses, cansados da guerra, trouxe consigo a revolução do meio rural. Os camponeses foram obrigados a retornar à comuna, entregando-lhe as terras que tinham comprado ou que lhes tinham sido cedidas em propriedade pela própria comuna. No campo o poder passou às mãos dos camponeses soldados, organizados em soviets camponeses, que não eram mais que os antigos conselhos comunais com uma nova roupagem revolucionária. A superfície ocupada pelas comunas, entre 1917 e 1918, proveio de uns 76 milhões de hectares de propriedade de camponeses particulares e 46 milhões de grandes proprietários. Em janeiro de 1918 a terra foi socializada por meio de Lei. Os bolcheviques viram-se obrigados a permitir que os camponeses ocupassem a terra, porque assim o desejava a maioria do povo. Com isto, conseguiram o apoio da massa rural. Os comunistas iniciaram tentativas de nacionalizar todas as terras expropriadas, enquanto que os camponeses queriam que a terra e os equipamentos fossem deles e de suas comunas (SANZ-PASTOR, 1988:22 apud OLIVEIRA, 2007, p.74). É importante destacar que, apesar da ala intelectual do proletariado ter dirigido arevolução na Rússia, foram os camponeses quem fizeram a revolução numa aliança com oproletariado. Outro aspecto importante é o fato da propriedade da terra na unidade camponesaser familiar (mais precisamente propriedade privada familiar) no qual ele trabalha na terra
  10. 10. junto com sua família. Daí decorre o efeito nefasto da coletivização forçada das terras naUnião Soviética. Como bem relatou Oliveira (2007, p. 74): Iniciou-se assim, um processo de revoltas dos camponeses, que passaram a oporem- se aos novos métodos adotados pelo poder central soviético e que duraram até 1929. Deste ano em diante, foi feita a coletivização forçada dos camponeses que provocou a morte de mais de 12 milhões deles. Pela força o Estado soviético liderado por Stalin, dominou e passou a planificar sua agricultura. Os camponeses foram sendo convertidos em uma engrenagem a mais da vontade política do Estado soviético. Assim, foram obrigados a força a irem para uma forma de cooperativa, o kolkhoz, ou então, igualmente pela força, uma parte dos camponeses foram transformados em assalariados de empresas estatais no campo, os solvkozes. Assim, na União Soviética socialista a terra era propriedade da nação e distribuía-se em: os kolkozes que eram as fazendas coletivas dadas pelo Estado em usufruto perpétuo aos camponeses organizados em cooperativas, para cultivo comum; os solvkozes que eram as fazendas administradas pelo próprio Estado, e onde ele remunerava os operários agrícolas através de um salário; as parcelas individuais, que eram as áreas reservadas aos membros do kolkhoz ou do solvkhoz, contíguas à suas casas, para desfrute familiar de horta, pomar e pequeno criatório; e as fazendas auxiliares, organizadas por empresas e instituições, a fim de abastecerem, não a comunidade em geral, porém os próprios obreiros dessas entidades. Categoricamente, Kurz conhecia esta realidade das massas agrárias russas e as pistasde seu raciocínio e a sua crítica ao socialismo fazem bastante sentido. O mercado planificadoacabou levando ao totalitarismo soviético dado a necessidade do Estado impor a planificação.Além disso, percebe-se a tentativa de proletarização forçada das massas agrárias, docamponês, como consequência de uma política partidária/estatal/revolucionária que concebe ocamponês como resíduo social e que, portanto, vê na proletarização e no antagonismo com aburguesia a única forma de vencer o capitalismo, uma vez que o desenvolvimento docapitalismo no campo faria com que o camponês ou se transformasse em um pequenocapitalista ou se proletarizasse, nos termos de Lênin13 e Kautsky14. Essa qualidade capitalista da acumulação socialista primitiva consequentemente levouao congelamento do estatismo e a militarização da sociedade. Nesse aspecto, Kurz destaca umregime estadista de acumulação e faz uma crítica tenaz ao Estado como engrenagem damecânica capitalista e não como polo oposto a ele. Contudo, a crítica do autor, em minha leitura, beira a crítica da direita. Isso porqueraramente Kurz promove uma crítica ao capital ou ao sistema produtor de mercadorias. Pelo13 Lênin explorou tal questão em seu famoso livro: O desenvolvimento do capitalismo na Rússia: O processo deformação do mercado interno para a grande indústria. São Paulo: Abril Cultural, 1982. No raciocínio dorevolucionário russo, a desintegração do campesinato por uma diferenciação interna geraria camponeses ricos(pequenos capitalistas) e camponeses pobres (que inevitavelmente teriam que se assalariar). Ou seja: o própriodesenvolvimento do capitalismo e de suas relações de produção engendraria o desaparecimento do campesinato.14 Kautsky, por sua vez, pensava que o desenvolvimento das relações capitalistas no campo levaria aproletarização do campesinato. Tal análise está desenvolvida em seu livro A Questão Agrária. Trad. C.IPEROIG. 3ª. ed. São Paulo: Proposta Editorial, 1980.
  11. 11. contrário, ele “apenas” se restringe a subsumir tudo ao capital, retira o foco da análisemarxiana da luta de classes e acusa-a de sociologismo; E mais: privilegia o automovimento dodinheiro como uma verdadeira entidade da sociedade das mercadorias. Enfim, o cerne da obra de Kurz, parece-me que já fora entendido. Assim ele prossegueao longo do texto defendendo o fim da sociedade do trabalho e mesmo dizendo que osocialismo será possivelmente lembrado no futuro como “uma nota de rodapé” (1992:85).Importante, porém, é a crítica que o autor faz da crise ecológica (1992:86) como crise docapital na medida em que desvela em sua faceta ambiental, pelo menos compreendo dessaforma, a racionalidade irracional (nesse sentido Kurz discorda de Weber) do sistema produtorde mercadorias. No bojo da discussão, a intentona socialista de “planejar racionalmente o mercado”não passa de uma ilusão em virtude de ser o capital o sujeito automático do processo históricode modernização e não a ilusão da vontade política de uma subjetividade burguesa, como dizKurz. Daí ele deduzir que o resultado lógico do socialismo real foi a economia de escassezcuja burocracia estatal mercantil e fechada não foi capaz de compreender o socialismo comoimanente ao capital (1992:111). Fatalmente, os países socialistas e os de Terceiro Mundo se iludiram tantoestruturalmente - troca do modelo - quanto que historicamente - acreditando que haveria maisuma vez o milagre econômico15. Na realidade, o sistema produtor de mercadorias foi o granderesponsável pela colonização de povos e territórios simultaneamente ao processo daacumulação primitiva necessário ao processo de produção do capital. Esta dupla articulação,ao lado da consolidação do estado-nação como elemento integrante do sistema produtor demercadorias serviram para a imposição da lógica do capital e, nesse sentido, nem a UniãoSoviética no dizer de Kurz, escapou da exageração do elemento estatista (1992:179) quecontribuiu para a destruição de sistemas ecológicos fechados e de estruturar tradicionais. Por isso tudo, o sistema mundial produtor de mercadorias está em crise (KURZ,1992:185). Logo, tanto os “perdedores” quanto os “vencedores” devem afastar de si própriosas falsas ilusões posto que o único elemento autoconsciente nesse sistema moribundo é aforma-mercadoria que sociabiliza criticamente as personas existentes. Assim, “profetiza” Kurz (1992:187) as revoltas vão aumentar e não diminuir. Issocomo consequência do automovimento do dinheiro o verdadeiro fundamento do processo de15 A rigor, a intensa e generalizada internacionalização do capital ocorreu no âmbito da intensa e generalizadainternacionalização do processo produtivo. Os “milagres econômicos” que se sucedem ao longo da Guerra Fria edepois dela são também momentos mais ou menos notáveis dessa internacionalização (IANNI, 2007, p. 62).
  12. 12. modernização cuja “razão mundial burguesa”, as leis históricas destrutivas e regrasdemocráticas são apenas pura expressão. Como decorrência lógica, a normalidade capitalista éa forma de ser da anormalidade do sistema produtor de mercadorias, expressa tão bem pelacrise ecológica. Mas essa crise ecológica é ela mesma uma expressão da crise do capital quese disseminou tal qual um “tumor maligno por metástases em um corpo aparentementesaudável” (KURZ, 1992:194). Esse verdadeiro “câncer social” de que nos fala Kurz se expressa, em sua visão, nocolapso do sistema financeiro global e na decadência das estruturas sociais. Após o início daera das trevas que Kurz profetiza, a necessidade de superação da crise se impõe, mas não pelaadministração estatista: “a crise seria apenas superável se um consciente movimento social desupressão acabasse com a mera administração dessa crise, movimento que teria de derrubar,com violência maior ou menor, também esses aparatos” (KURZ, 1992: 210). Para o autor,está claro que o Estado apenas administra a crise principalmente em períodos emergenciais. A incapacidade que o capitalismo adquiriu de explorar a massa global do trabalhoabstrato produtivamente explorado, a paralisação em número crescente de recursos materiaisem países, a transformação da ciência em força produtiva e o próprio momento crítico domarxismo, são para Kurz modificações fundamentais que caracterizam a sociedade mundial.A saída da crise para o autor é a “razão prática, que pode ser imanente, isto é, que se limita àsuperação de determinada situação histórica” (KURZ, 1992, p.215-216). Daí decorre, paraKurz, a incapacidade da razão crítica iluminista de fornecer a saída para a crise do sistemaprodutor de mercadorias. Para finalizar, uma pergunta fica no ar após apreciarmos o julgamento contundente deRobert Kurz: não seria esta própria razão prática, enfim, a própria crítica do autor, uma formade ser da crise do sistema produtor de mercadorias? REFERÊNCIASCHAUÍ, Marilena. O que é ideologia. 2ªed. São Paulo: Brasiliense, 2008.HARVEY, David. A geografia do Manifesto. TRAD. G. ONDETTI; L. PEREIRA; L. F.ALMEIDA. Disponível em http://www4.pucsp.br/neils/downloads/v4_artigo_david.pdf.Acesso em 21 de setembro de 2011.IANNI, Octavio. Teorias da Globalização. 14ª ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira,2007.
  13. 13. KAUTSKY, Karl. A questão agrária. Trad. C. IPEROIG. 3ª. ed. São Paulo: PropostaEditorial, 1980.KURZ, Robert. O Colapso da Modernização: da derrocada do socialismo de caserna àcrise da economia mundial. TRAD. Karen Elsabe BARBOSA. Rio de Janeiro: Paz e Terra,1992.LALLEMENT, Michel. História das ideias sociológicas: das origens a Max Weber.2ªed.Trad. Ephraim F. ALVES. Petrópolis, RJ: Vozes, 2004. Partes II e III. pp.85-321.LÊNIN, Vladimir. O desenvolvimento do capitalismo na Rússia: O processo de formaçãodo mercado interno para a grande indústria. São Paulo: Abril Cultural, 1982.MARX, Karl Heinrich. O capital: crítica da economia política. Livro I. Trad. ReginaldoSANT’ANNA. 21ªed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2003.MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. Manifesto do Partido Comunista. Trad. PietroNASSETTI. 2ª ed. 1ª reimp. São Paulo: Martin Claret, 2008.MARX, Karl Heinrich. Crítica da Filosofia do Direito de Hegel. 2ªed. Portugal-Brasil:Editorial Presença, 1983.OLIVEIRA, Ariovaldo Umbelino. Modo de Produção Capitalista, Agricultura e ReformaAgrária. São Paulo: FFLCH, 2007, 184p.PORTO-GONÇALVES, Carlos Walter. Ou Inventamos ou Erramos. Encruzilhadas daIntegração Regional Sul-americana. Anais do V Simpósio Internacional de GeografiaAgrária/VI Simpósio Internacional de Geografia Agrária. Belém, UFPA, 7 a 11 de novembrode 2011.VESENTINI, J. W. Novas Geopolíticas. 4ª ed. 1ª reimp. São Paulo: Contexto, 2007.

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