Jornal cidadão diagramado dez 2011

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Jornal cidadão diagramado dez 2011

  1. 1. Jornal-laboratório produzido pelos alunos de Jornalismo da Universidade Cruzeiro do Sul Ano XII - Número 40 - Dezembro de 2011Aula de música nas escolas passa Arquivo Déborah Aranhosa ser obrigatória em todo o país Nova lei gera controvérsia entre profissionais da área. Página 6 Agressividade ao volante pode trazer sérias consequências Especialistas explicam o que leva os motoristas a agirem de modo agressivo e sugerem formas de lidar com esse problema. Página 3 Espetáculo a céu abertoApesar de não agradarem a todos e serem alvo Campeões em superaçãode repressão, os artistas de rua não desistem de Atletas com necessidades especiais relatam a importância do esporte na apresentar seu trabalho. Página 7 recuperação de sua autoestima. Página 2 Depender do transporte Rafael Biazão público traz transtornos à pessoa com deficiência As principais reclamações envolvem o desres- peito ao Estatuto da Pessoa com Deficiência. Página 6 Cleane Brito Acadêmicos do Tatuapé comemora 60 anos Conheça a trajetória da escola que recebeu prêmio de melhor samba- enredo do Carnaval 2012, com música em homenagem à cantora e compositora Leci Brandão. Página 5 Ecopontos da Talita Cricca prefeitura recolhem entulho gratuitamente O material recolhido é reciclado e pode ser Passatempo profissional usado em obras de Relatos de quem vive Nossos entrevistados revelam por que decidi- ou já viveu nas ruas calçamento, sarjetas e Santos (foto) afirma que foi acolhido e fez ram deixar de lado uma carreira profissional estabilizada para se dedicarem a um hobby. asfalto. Página 4 amigos no período em que esteve desabrigado. Página 3 Página 4
  2. 2. PÁGINA 2 - DEZEMBRO DE 2011 ESPORTE Editorial Paraolimpíadas: uma forma de recomeçar A prática esportiva pode recuperar a autoestima e a força de vontade de pessoas com deficiência Primeira experiência Déborah Aranhos Esta é a primeira edição do Jornal Cidadão elabora- da pelos alunos do 3º e 4º semestres do curso de Jor- nalismo, campi Anália Fran- co e São Miguel Paulista. A editoria Esporte (p. 2) apresenta histórias de supera- ção de atletas com necessida- des especiais que encontra- ram no voleibol uma forma de recuperar a autoestima. Em Comportamento (p. 3), são discutidas as causas da agressividade dos moto- ristas no trânsito da cidade de São Paulo. A editoria Mercado de Trabalho (p. 3) traz relatos de pessoas que transformaram seus hobbies em profissão. Os jogadores do SESI treinam às segundas, quartas e sextas na unidade de Suzano A reciclagem de entu- lho é o tema da editoria Daniele Motta Consegui construir uma família, fazer. Depois de passar 12 anos, eu ção de alto nível como essa (Pa- Meio Ambiente (p. 4), servi- Déborah Aranhos ter a minha casa, aprendi a valo- os vejo como qualquer outra pes- rapanamericano), ninguém ficou ço oferecido gratuitamente Gabriela Gundim rizar mais a vida”. Quanto ao pre- soa. Cobro, brigo, mando embora sabendo”. A atleta acredita que o pela prefeitura em diversos conceito, o atleta diz que não leva quando tem que mandar. Para mim, problema com a divulgação também Segundo dados levantados pelo a sério. “A gente sofre mais com os é exatamente igual. É muito fácil é o que faz com que a procura pelo ecopontos espalhados pela Instituto Brasileiro de Geografia olhares das pessoas. Às vezes você adaptar o treino para o deficiente.” esporte seja escassa. cidade, mas ainda pouco Estatística (IBGE) no último censo chega perto e as pessoas se afastam, Uma das conquistadoras da “Hoje eu não vivo sem o esporte, conhecido pela população. realizado no Brasil, em 2000 exis- mas a gente leva na brincadeira”. vaga nas Paraolimpíadas de Lon- o esporte é a minha vida. Eu moro Em Urbano (p. 4), são tiam cerca de 24,6 milhões de pesso- A seleção Brasileira Feminina dres foi Regiane Cristina Costa, no interior de São Paulo, venho de apresentados relatos de pes- as que se declararam portadoras de de Vôlei Paraolímpico conseguiu 36 anos. Para ela, essa é uma gran- São José do Rio Preto (para Suzano) soas que viveram e ainda vi- deficiência, número que correspon- recentemente o vice-campeonato de vitória, pois o vôlei feminino toda semana para treinar, então são vem nas ruas de São Paulo, de a 14,5% da população, que cres- Parapanamericano, o que garantiu é um pouco esquecido. Segundo quase oito horas de viagem”, revela dentre eles, Kaká, que hoje ceu 20 milhões entre 2000 e 2010. sua classificação para as Paraolimpí- Regiane, o time está treinando e Regiane, que afirma ter sido a práti- é líder de uma ONG que tem Ações para a inclusão de pessoas adas de Londres. “Foi a primeira vez se desempenhando muito para ca esportiva a responsável por tê-la como objetivo resgatar a au- com deficiência têm sido feitas por que uma equipe feminina de volei- “chegar lá e fazer bonito”. “Falta livrado da depressão após ter sofrido toestima dessas pessoas, e instituições como o Serviço Social bol sentado conseguiu se classificar muita divulgação ainda, porque o acidente que lhe causou a ampu- Salústio Pessoa, que sonha da Indústria (SESI), que abre suas para uma Paraolimpíada”, afirma a gente sediando uma competi- tação do membro inferior direito. instalações esportivas para incenti- o orientador de esportes de rendi- em terminar os estudos para var a prática de esportes adaptados. mento Ronaldo Oliveira, 41 anos. conquistar uma vida melhor. O voleibol é umas dessas modali- Treinador de pessoas com de- A história da escola de dades, que, para Antônio Carlos de ficiência há mais de uma década, samba Acadêmicos do Ta- Oliveira Pinto, 31 anos, jogador do Oliveira diz que, para ele, treiná- tuapé, fundada em 1952 time de vôlei adaptado do SESI, foi -los não tem nada de especial. “O e premiada por melhor uma opção para voltar a viver bem treino que eu dou para qualquer samba-enredo do Carnaval e recuperar a autoestima. “A prática pessoa, eu dou para eles. É só ques- 2012, é o assunto da editoria do esporte me ajudou tanto finan- tão de verificar qual a deficiência e Memória (p.5). ceiramente como intelectualmente. o tipo de adaptação que você vai A editoria Educação (p. Déborah Aranhos Déborah Aranhos 6) aborda os prós e con- tras da nova lei que de- termina a obrigatoriedade do ensino de música nas escolas públicas e priva- Observação: algumas pessoas declararam possuir mais de um tipo de defi- das do país ainda este ano. ciência. Por isto, quando somadas as ocorrências de deficiências, o número Em Direitos Humanos (p. é maior do que 24,6 milhões. 6), pessoas com deficiência falam das dificuldades que Paraolimpíadas Escolares enfrentam ao utilizar o trans- porte público (ônibus e Me- As Paraolimpíadas Escolares são a principal competição en- trô). Lucimara e Bernardo, tre alunos da rede pública e privada de todo o país. O evento, moradores da Zona Leste, que já está em sua 5ª edição e ocorre sempre no mês de agos- criticam o despreparo dos to, conta com a participação de adolescentes de 12 a 19 anos. A competição ajuda a recuperar a força de vontade e autoestima funcionários em relação a de jovens que têm deficiência desde pequenos e sofrem com dificul- seus direitos e revelam como dades financeiras. São aproximadamente 1.200 atletas que são inclusos lidam com o preconceito. na sociedade e se tornam mais saudáveis com a prática dos esportes. A editoria Cultura (p. 7) Antônio Carlos diz não ter escolhido Regiane joga na Seleção de Vôlei Vários tipos de modalidades fazem parte das Paraolimpía- apresenta o trabalho de artis- o vôlei, e sim ter sido escolhido pelo Paraolímpico e encontrou no es- das Escolares, entre elas, natação, futebol, vôlei, atletismo e bocha. tas de rua da cidade, como o esporte porte uma saída para a superação músico Tiago Ortaet e a es- tátua viva Ruan Fernandes. Professores Orientadores: Esperamos que essa Jornal-Laboratório do Curso de Jornalismo da Drª. Flávia Serralvo e Ms. Regina Tavares  nossa primeira experiên- Reitora Pró-Reitor de Extensão e Universidade Cruzeiro do Sul Também participaram desta edição: cia em jornalismo impresso Profª. Drª. Sueli Cristina Marquesi Assuntos Comunitários Ano XII – Número 40 – Dezembro de 2011 Aline Santos, André Miranda, Cristiano Hurtado, Pró-Reitor de Graduação Prof. Dr. Renato Padovese Telefone para contato: (11) 2037-5706 Daniela Gomes, Dener Sabino, Efraim Caetano, agrade a você, leitor. Prof. Dr. Luiz Henrique Amaral Coordenador dos Cursos Tiragem: 1.500 exemplares Estefano Perez, Kaíque Ferreira, Marco Antônio Boa leitura! Pró-Reitor de Pós-Graduação e Pesquisa de Comunicação Social Impressão: Jornal Última Hora (11) 4226-7272 Ramos, Mariana Rocha, Maurício Pizani, Prof. Dr. Danilo Antonio Duarte Prof. Ms. Carlos Barros Monteiro Diagramação Final: Eduardo Vianna Nataly Sales e Vitor Araújo
  3. 3. PÁGINA 3 - DEZEMBRO DE 2011 COMPORTAMENTO Trânsito: agressividade atrás do volanteEspecialistas analisam as causas do comportamento agressivo dos motoristas que trafegam pelas ruas da capital paulista Gustavo Oliveira Joaz Nunes Lucilene Gomes Suellen Grangeiro Antônio Adriano de Jesus Dias,39 anos, motorista desde os 18, sen-te na pele diariamente os problemasacarretados pelo estresse no trânsito.Ele revela que, para extravasar suaraiva em determinados momentos dodia, bate no volante e no painel de seuveículo, pois fica muito irritado e nãoconsegue pensar em mais nada. O trânsito caótico e os motoris-tas com pouca capacidade de con-duzir veículos são as causas da irrita-ção de Dias, e isso influencia em suavida fora do trabalho. “Quando euchego em casa, quero ficar quieto,sozinho e não quero conversar nemcom a minha esposa. Às vezes ela Dias sofreu um AVC (acidente vascular cerebral) e, segundo os médicos, a principal causa foi seu trabalho como motoristame pergunta alguma coisa e eu peçopara me deixar em paz. São reflexos Já na década de 1950, os Estúdios Analisando esse tipo de comporta- tanos precisam se conscientizar de Para Pelegi, uma série de medidasdo estresse que passei no trânsito”. Walt Disney desenvolveram uma ani- mento, a psicóloga Leila Letícia Silva, que talvez o transporte coletivo seja que tenham como prioridade o trans- Dias reconhece o fato de que a mação em que o personagem Pateta do CAS–PM, conclui que as pessoas mais viável. É necessário mesmo es- porte público poderiam ser tomadas,maioria dos motoristas muda de com- vivencia exatamente a situação des- estão se tornando intolerantes, pois elas tar sozinho dentro de um carro? Po- tais como preferência no trânsito paraportamento ao conduzir um veículo, crita por Carla a respeito dos motoris- dependem daquele veículo para chegar demos recorrer àquelas situações de ônibus que transportam o mesmo queprincipalmente se a pessoa tem um tas das grandes metrópoles. Segundo ao compromisso no horário marcado, grupo para sair, cada dia no carro de 100 carros; duas vias exclusivas paraproblema em casa ou no trabalho e Alexandre Pelegi, coordenador do desencadeando a má educação e o des- uma pessoa. Essa é a solução”, pro- os coletivos circularem, com semá-assume o volante, qualquer coisa é Núcleo de Comunicação Social de respeito com a sinalização. “Os paulis- põe Leila. foro e operações de tráfego que deemmotivo para ficar com raiva. Educação de Trânsito da Secretaria preferência a sua circulação, além da Segundo a psicóloga Carla Cris- Municipal de Transportes (SMT), o implantação do pedágio urbano. Lucilene Gomestine de Almeida Zottino, do Centro desenho mostra que, quando o con- A psicóloga Carla defende a me-de Apoio Social da Polícia Militar dutor é pedestre, comporta-se como lhoria do processo seletivo para adqui-(CAS–PM), as pessoas têm comporta- uma pessoa pacata e gentil. Em con- rir a Carteira Nacional de Habilitaçãomentos diferentes quando são pedes- trapartida, quando está dirigindo seu (CNH), tendo em vista que se visatres e quando estão atrás do volante. carro, transforma-se em um monstro. principalmente ao lucro. “Não é inte-“Como pedestres, são mais fragiliza- “Se uma pessoa está andando de ressante para o psicólogo que está ava-das. Já com o carro, mostram a força carro na rua e fica nervosa porque o liando ver o perfil do motorista, nemque têm e passam a se comportar de trânsito não anda e começa a buzinar é viável reprovar muita gente para nãouma forma diferente, passam a agir insistentemente, não será multada por perder clientes”. Carla afirma aindacomo se estivessem acima do pedestre, buzinar, mas o motorista que fizer isso que um maior rigor no momento dausam o carro como forma de poder”. será condenado de forma moral pelos avaliação identificaria se a pessoa temCarla ressalta que essa situação vem se demais, por demonstrar sua agressi- tendência a ter mais agressividade eagravando devido ao estresse do dia a vidade através de uma ação sonora, a Pelegi, que atua na Secretaria Municipal de Transportes de São Paulo, impulsividade ao conduzir essa “arma”dia, mas sua origem é bastante antiga. buzina”, afirma Pelegi. acredita que é preciso priorizar o transporte público que é o veículo. MERCADO DE TRABALHO Hobby: quando a diversão vira profissão Em busca da satisfação profissional, pessoas transformam seus hobbies em atividades lucrativas Carolina Coutinho Peregrino, 37 anos. Ele trabalhava pessoas procuram em suas profissões Talita Cricca Denis Pritsch como diretor de marketing de uma hoje em dia é a satisfação com o que Diego Motoda casa noturna quando, para cortar estão exercendo. “Atualmente, as pes- custos, passou a ser o responsável soas estão em busca do trabalho que Diante de uma época de globali- pelas fotos do local. “Comprei uma as satisfaça, que esteja envolvido comzação, o mercado de trabalho é sub- maquininha fotográfica, mandei o sua área de interesse”, afirma Denise.metido a inúmeras mudanças: novas fotógrafo embora e comecei a tirar Vale ressaltar que tanto Márciaoportunidades surgem, enquanto as fotos eu mesmo. Não foi uma op- quanto Peregrino estavam consolida-outras tornam-se antigas e deixam ção de profissão e, até então, não era dos em suas carreiras antes de optaremde existir. Com as inovações tecno- um hobby, mas, de certa forma, eu por seguir seus hobbies. Apesar de aslógicas, o mercado fica cada vez mais me divertia fazendo aquilo”, revela. duas histórias citadas terem sido bem-competitivo entre empresas que, Assim, Peregrino deu início a -sucedidas, é preciso tomar cuidadoconsequentemente, passam a exi- uma carreira que o levou a traba- ao se lançar a uma nova experiênciagir ainda mais de seus candidatos. lhar em diversas revistas, como Ca- profissional para não se arrepender Uma das carreiras mais inovado- pricho, Tititi e Contigo. Fotogra- depois. Márcia confessa que deixouras na atualidade é o trabalho baseado Do hobby à profissão: Alexandre Peregrino, que antes era diretor de fou também para a revista Playboy, a culinária como um “plano B”, jáem hobbies. Pessoas que optam por marketing de uma casa noturna, hoje é fotógrafo profissional familiarizando-se então com o estilo que levou um bom tempo até aban-trabalhar com algo de que gostam de fotografia com o qual passaria donar de fato a sua profissão para se(que, até então, era apenas uma for- também trabalhou como diretora de “Etiquetéssima” e pelo site “Cozinha a trabalhar: nudez e sensualidade. “aventurar” com os livros de cozinha.ma de diversão ou lazer) passam a de- arte na revista Claudia e foi colunista da Márcia”. No início, conciliava Deixar que um hobby torne-se Um hobby, por mais prazerosodicar-se à prática, utilizando-a como do UOL. Porém, optou por abrir mão seu trabalho com suas receitas, para uma profissão foge do padrão exigido que seja, também exige dedicação,meio de sobrevivência. de sua carreira ao sentir necessidade que pudesse se manter. No entanto, pela sociedade atual. Por conta disso, entusiasmo, especialização e conhe- Márcia Zoladz, 56 anos, é exem- de se dedicar a assuntos relacionados atualmente, dedica-se inteiramente não é raro que uma decisão como cimentos no assunto. Embora, paraplo de profissional que abandonou ao mundo da culinária, que tanto à culinária. “Eu não diria que errei a essa, quando tomada, seja submetida muitos, essa utilização seja simples euma carreira e se dedicou inteiramen- apreciava e que surgiu após sua visita minha carreira. Sempre gostei mui- a diversas críticas direcionadas a sua fácil, sua prática demanda todos oste a um hobby. Formada em design a uma feira do livro, em Frankfurt. to de trabalhar com comunicação utilização como plano de carreira, requisitos de uma tarefa comum nográfico com passagem pelo Califor- Hoje, Márcia tem diversos livros de massa, mas sempre admirei as bem como a própria adaptação do ambiente de trabalho. A grande dife-nia College of Arts, em Oakland, nos de receitas publicados no Brasil e na comidas e suas histórias”, comenta. indivíduo no uso cotidiano de seu rença está no prazer em fazê-la e ter aEUA, e com estudos de pós-gradua- Alemanha, tais como “Muito prazer” Outro profissional que aban- hobby como trabalho. Para a analista consciência da elaboração de algo queção em Comunicação na Ruhr-Uni- (2000) e “Brigadeiros e Bolinhas” donou sua profissão para seguir de recursos humanos Denise Couti- realmente lhe proporcione benefí-versität, em Bochum, Alemanha, ela (2011). Ela é responsável pelo blog um hobby é o fotógrafo Alexandre nho, além de bons salários, o que as cios, tanto ao corpo quanto à mente.
  4. 4. MEIO AMBIENTE DEZEMBRO DE 2011 - PÁGINA 4 Reciclagem de entulho cresce em São Paulo Prefeitura tem serviço que recolhe o material gratuitamente, mas população sofre com descarte irregular Aline Romero recicláveis, como vidro e alumínio, Gisele Moniz Gisele Moniz somam quase 6 mil metros cúbicos. E a tendência é melhorar. “Vai con- tinuar dando certo, sim, e ficando Benedito Carlos de Souza, 50 cada vez melhor”, acredita Souza.anos, trabalha com reciclagem de Segundo ele, a reciclagem de entu-entulho há cerca de um ano. “Não lho é uma área promissora, e ele nãoé fácil, mas é um trabalho, e é dig- tem planos de sair dela tão cedo.no”. Souza trabalha no ecoponto A presença dos ecopontos na ci-Jardim São Nicolau, um dos 45 dade ajuda as pessoas que, depois deecopontos da prefeitura de São uma reforma simples em casa, nãoPaulo, que são postos de entrega sabem o que fazer com o entulho.voluntária de entulho. Os postos Por falta de informação, a maioriaforam criados principalmente para desse lixo é dispensada em terrenosevitar o descarte irregular de entu- baldios e esquinas, o que prejudi-lho, que muitas vezes vai parar em ca a população. Luzinete da Silva,acostamentos, praças municipais 69 anos, é moradora do Jardime terrenos baldios. A criação dos Nordeste, na Zona Leste de Sãoecopontos deu à população a chan- Paulo, e sofre com esse problema.ce de descartar, gratuita e correta- Segundo ela, o entulho se acumulamente, esse tipo de material, além na beira do córrego Tiquatira, per-de incentivar outra questão im- to de onde mora. “As pessoas nãoportante: a reciclagem do entulho. têm consciência, os ratos e outros Segundo Laura Maria Mar- bichos aparecem aqui por causaques Paulo, técnica em edificações Entulho recolhido no ecoponto Jardim São Nicolau desses lixos amontoados. Quandoformada pelo Instituto Paula Sou- chove, a gente só vê os sofás e espu-za, a reciclagem desse material na colhido passa por uma máquina de lho, Souza era segurança e se diz à reciclado, precisa ir para um ater- mas boiando.” Luzinete não sabiaconstrução civil é vantajosa sob trituramento até atingir diferentes vontade com o novo emprego. Para ro e ter um descarte específico”, da existência dos ecopontos.muitos aspectos. “A vantagem prin- tamanhos de pedra e areia, o último ele, a parte mais difícil do trabalho afirma a técnica em edificações. O que falta é principalmentecipal é a preservação dos recursos estágio de trituração. Esse material, é o relacionamento com o públi- Cada pessoa pode levar gra- conscientização. “Convencer as pes-naturais”, afirma Laura. “Quando depois de triturado, substitui seus co: “A gente lida com muita gente tuitamente para o ecoponto até soas a fazer a coisa certa é muito di-você usa uma areia que veio de re- equivalentes naturais com a mes- mal educada, que não entende 10 metros cúbicos de material por fícil. Aqui do lado do ecoponto temciclagem, você poupa a da jazida ma garantia de qualidade, e pode que o ecoponto tem regras, limi- dia. De acordo com o site da pre- uma praça, e os carros vêm e deixamnatural, preservando esse recurso ser usado em todo tipo de obras tes e normas. Tem material que a feitura, entre janeiro e agosto des- o entulho jogado lá, quando pode-e deixando de simplesmente des- de calçamento, sarjetas e asfalto. gente não pode receber e ainda as- te ano, os ecopontos recolheram riam deixar aqui de graça”, contacartar o entulho, que pode ser re- “O entulho reciclado só não pode sim as pessoas vêm e insistem em mais de 30 mil metros cúbicos só Souza. Se é preconceito? “Não, éaproveitado”. Os benefícios da re- ser usado em obras estruturais, na discutir”. Alguns materiais resul- de entulho. Os volumosos, como preguiça mesmo”, ele completa e ri.ciclagem não param por aí: o custo construção de prédios, por exem- tantes da construção civil, como móveis velhos e restos de podas de Para saber mais sobre a entregada obra pode cair muito quando plo, mas em todo o resto o material gesso, tintas e solventes, não po- árvores, também são recolhidos nos voluntária de entulho, localizaçãosão usados materiais reciclados. pode ser substituído pelo reciclado dem ser descartados no ecopon- ecopontos, e, no mesmo período, e horário de funcionamento dos O processo de reciclagem é re- sem problemas”, explica Laura. to. “Esse tipo de material é consi- as entregas somaram mais de 120 ecopontos, acesse: www.prefeitura.lativamente simples. O entulho re- Antes de trabalhar com entu- derado lixo tóxico e não pode ser mil metros cúbicos de material. Os sp.gov.br. URBANO Superação e felicidade também moram na rua Apesar das dificuldades de viver nas ruas, há quem consiga sorrir e sonhar com um futuro melhor Cleane Brito nossa equipe foi conhecer um pou- com ele, Pessoa trabalha esporadi- Rafael Galindo co mais da história de algumas pes- camente como cabeleireiro e conta Raphael Rufino soas que vivem ou viveram nas ruas com doações de ONGs, como a Raquel Torres da capital. Marivaldo da Silva San- Anjos da Noite. tos, 36 anos, saiu de Feira da San- Liderada por Antenor Ferrei- tana, na Bahia, com o intuito de ra, 58 anos, conhecido com Kaká, O que mais se vê pelas esquinas conseguir uma situação de vida me- a ONG Anjos da Noite foi criadade São Paulo são pessoas dormindo lhor. Porém, envolveu-se com dro- depois de um encontro com umpelos cantos, enfiadas em buracos gas, álcool e prostituição, o que o morador de rua em uma noiteou em caixas de papelão, tentando prejudicou em seu emprego e o fez muito fria de São Paulo. “O senhorse proteger do frio, da violência e, perder o contato com sua família. estava em uma situação deplorável,principalmente, da indiferença hu- “Você é um semianalfabeto, ne- com uma blusa totalmente rasgadamana. Um estudo feito pela Funda- gro, nordestino e, se você sair dessa e sem calçados. Eu o levei para to-ção Instituto de Pesquisas Econô- empresa hoje, não terá outra opor- mar um lanche e lá conversamos.micas (FIPE) em 2009 revelou que tunidade na vida”. Foi essa frase, Ao nos despedirmos, ele segurouexistem cerca de 18.000 moradores pronunciada pelo antigo patrão de em minha mão e disse: ‘você é umde rua em São Paulo, porém, segun- Santos durante uma conversa sobre anjo da noite’. Essas palavras ecoa-do a prefeitura da cidade, o número seu emprego, que o fez abandonar o Pessoa saiu de Fortaleza para tentar uma vida melhor em São Paulo. ram em minha cabeça e foi aí quetotal é de cerca de 13.000 morado- trabalho e passar a morar nas ruas. Hoje, reside em uma propriedade invadida no bairro da Mooca resolvi montar o grupo Anjos dares. Deles, 84% são homens com Hoje, ele diz que essa frase teve Noite”, revela Kaká, que traba-idade média de 40 anos. A maior papel fundamental na sua mudan- Além disso, retomou e concluiu anos, deixou Fortaleza em busca lha ainda como coordenador departe dos desabrigados está concen- ça de vida em todos os aspectos. os estudos por meio de um dos de uma vida melhor em São Paulo, estágios obrigatórios da Supe-trada no centro da cidade, que con- Nas ruas, Santos foi acolhido e projetos sociais que auxiliam pes- por acreditar que, aqui, teria mais rintendência Federal da Agri-ta com 40 albergues da prefeitura. fez alguns amigos. “O interessante soas que estão em situação de rua. oportunidades para concluir seus cultura no Estado de São Paulo.Neles, cada morador de rua custa é que, quando você chega às ruas, Atualmente, Santos trabalha estudos. Assim como Santos, ele já O objetivo principal da ONGR$ 350,00 mensais ao governo. as pessoas que vivem lá já sabem como orientador ambiental institu- morou nas ruas da capital e hoje re- é resgatar a autoestima dos mora- Todos os dados citados ante- exatamente a qual grupo você vai cional na ONG BomPar, que ofe- side em uma propriedade invadida dores de rua para possibilitar suariormente foram divulgados pela pertencer”, comenta. Após presen- rece oportunidades para moradores no bairro da Mooca. “Sei que essa reintegração social. “A mídia expõeFIPE, já que os moradores de rua ciar o assassinato de alguns de seus de rua trabalharem como agentes situação de vida não é fácil, mas te- e não propõe mudanças. É neces-não participam do censo do Ins- colegas, a conclusão era inevitável: comunitários. Para fazer parte do nho total certeza de que os estudos sário desmistificar essa imagem detituto Brasileiro de Pesquisa de ou ele mudava aquela situação ou quadro de colaboradores da ONG, são o caminho para minhas con- que morador de rua é marginal. NãoGeografia e Estatística (IBGE), viveria nas ruas para sempre. A par- é preciso atender a dois pré-requi- quistas”. Sem emprego fixo e com a basta só mudar o nome de favela parapois não possuem residência e, na tir daí, Santos começou a passar sitos: já ter vivido em situação de rua e responsabilidade de cuidar da mãe comunidade. É preciso uma quebramaioria das vezes, nem mesmo RG. as noites em albergues, por con- ter concluído o ensino fundamental. idosa e de uma sobrinha pequena de paradigma entre a sociedade, o Com base nessas estatísticas, siderar que lá estaria mais seguro. Salústio Nonato Pessoa, 46 que vieram do Ceará para viver governo e a mídia”, propõe Kaká.
  5. 5. MEMÓRIA DEZEMBRO DE 2011 - PÁGINA 5 Acadêmicos do Tatuapé: 60 anos de tradição A história de uma comunidade que, além de unida, tem a música correndo nas veias e nos pés Eliene Santana Gustavo Lima Rafael Biazão Tayane Garcia O samba começou na Praça daSé, e o sucesso a tornou uma daspioneiras do Carnaval de São Pau-lo. O dia 26 de outubro de 1952marcou o início de uma trajetóriade força, dedicação e união. Ini-cialmente chamada de Unidos deVila Isabel, a Acadêmicos do Ta-tuapé foi fundada por OsvaldoVilaça, conhecido como “Mala”,na época, morador da região. “Em1964, ele veio morar no bairroe mudou o nome da escola paraGrêmio Recreativo Escola de Sam-ba Acadêmicos do Tatuapé, comoé conhecida hoje”, conta o vice--presidente, Eduardo dos Santos. Ainda garoto, ele iniciou suasparticipações no Carnaval por volta Compositores recebem prêmio de melhor samba-enredo do Carnaval 2012dos seis anos e conta que enfrentou Rafael Biazãodificuldades devido às condições fi- 1968, com a classificação da Aca- do três anos sem desfilar. Retorna-nanceiras. “Sou de uma época em dêmicos do Tatuapé como vice- ram à avenida em 1991 e conquista-que o cara tinha um calçado. Ele -campeã do Grupo de Acesso. A ram o 5º lugar no Grupo de Seleçãousava o mesmo para ir trabalhar, ir partir daí, começaram a desfilar A. Em 2003, com o enredo “Abramà missa, para tudo. No Carnaval, no Grupo Especial. “A quadra era Alas Para o Rei Abacaxi”, de Babúpintávamos os sapatos com cal para na rua Antônio de Barros, e a es- Energia, foram campeões do Grupoque eles ficassem brancos para o des- cola saía no bairro com uma taça de Acesso. Venceram grandes no-file. Depois era só lavar e continuar na mão, de porta em porta, pe- mes do Carnaval, como a Impera-usando. Hoje, a pessoa tem um para gando dinheiro para fazer o Car- dor do Ipiranga, Pérola Negra, Tomo ensaio, outro para a apresentação naval”, revela Roberto Munhoz, Maior e Mancha Verde.e outro para desfilar. Não sei se o presidente, sobre a diferença en- Munhoz, Santos e o coordena-Carnaval de antigamente era mais tre os cenários de hoje e da época. dor de casais Marcos Antônio dabonito do que o atual. Mas essas O declínio ocorreu em 1987, Silva, conhecido como Toninho,coisas, como pintar o calçado, era quando foram desclassificados do destacam o mesmo ponto como oalgo romântico”, recorda Santos. Grupo 2 - União das Escolas de grande diferencial: ser uma “escola- As recompensas chegaram em Samba Paulistanas (UESP), passan- -família”. “Nunca ouvimos falar que alguém foi visto usando drogas Ilza Moraes, que começou como baiana e hoje faz parte da harmonia da Rafael Biazão aqui, e jamais veremos isso. Quan- escola, literalmente veste a camisa da Acadêmicos do Tataupé. “Aqui, do as pessoas chegam são bem para mim, é como uma família” recebidas, e quando vão embora choram de saudade. Pai, mãe e fi- do “O Domingo é Especial”, in- tive repressão no meu trabalho. lhos desfilam. Isto é uma família”, terpretado pelo carioca Preto Jóia, Aqui no Tatuapé, tenho liberdade comenta Toninho. tricampeão da Sapucaí e vencedor total para trabalhar”, declara Xuxa. Ilza Moraes, 58 anos, desfila há de dois Estandartes de Ouro: em Leci acompanhou de perto a es- nove anos na escola. Ela começou 1989 (melhor samba-enredo) e colha do enredo. “A história da Aca- como baiana e hoje faz parte da 1993 (melhor intérprete). dêmicos do Tatuapé é da Zona Les- harmonia. “Na época em que fui A escola irá para a avenida no te. Tenho uma grande identificação convidada, fazia parte do projeto dia 19 de fevereiro de 2012 e, em com eles. Sempre cantei aqui, mas de caminhada do shopping Metrô meio ao Carnaval, irá comemorar não esperava que fossem lembrar de Tatuapé. A professora convidou al- os seus 60 anos de história e tradi- mim em seus 60 anos. Estou muito gumas senhoras para serem baianas ção. A música homenageará a can- feliz”, comenta. Tanto a identidade da escola. Eu fui, gostei e fiquei, e tora e compositora Leci Brandão, e da escola quanto a da cantora estão quero continuar por muito tempo. conta com direção do Carnavalesco na letra do enredo “Da arte do sam- A Tatuapé, para mim, é como uma Mauro Xuxa, que tem 31 anos de ba, nasci pra comunidade, defesa e família”. Este ano, a Acadêmicos experiência. “Um dos maiores pro essência, sou guerreira, sou LeciA cantora Leci Brandão, entre o mestre-sala e a porta-bandeira, é a do Tatuapé conquistou o 6º lugar blemas na minha função são deter- Brandão!”, que buscou unir ambashomenageada no Carnaval 2012 no Grupo de Acesso, com o enre- minações da escola. Mas eu nunca em uma só canção.
  6. 6. EDUCAÇÃO DEZEMBRO DE 2011 - PÁGINA 6 Lei determina educação musical nas escolas Após 40 anos de ausência, a disciplina de música volta a fazer parte da grade curricular brasileira Fernando Aumada Fernando Aumada ção motora, audição, entre outros. auxílio a matérias básicas, como Ma- Maris Landim O ensino de música já fez parte temática e Física. Renata Vieira das grades curriculares das escolas do Souza acredita que, se mais jo- país, porém, foi retirado na década vens tivessem acesso a aulas de mú- De acordo com a Lei 11.769, de 1970. A senadora Roseana Sar- sica, a criminalidade diminuiria.aprovada em 2008, todas as escolas ney apresentou ao Congresso o pro- “Todo tempo depositado na músicado país devem ter em sua grade cur- jeto de retorno dessa disciplina, que não foi desperdício, mas, se eu nãoricular aulas de música, ou incluir surgiu com a mobilização do GAP tivesse depositado esse tempo, ondeum conteúdo mínimo e obrigatório (Grupo de Articulação Parlamentar eu estaria? Assistindo à TV, jogandonas aulas de artes dos ensinos infan- Pró-Música), formado por 86 enti- videogame? Talvez pelo lugar ondetil e fundamental. O prazo para que dades, como associações, universida- eu moro e pela falta de instrução,as escolas se adaptem à lei acaba este des e cooperativas de músicos. até nas drogas”.ano. Essa nova disciplina tem como O ano de 2011 é o prazo final Por mais que o planejamentoobjetivo principal desenvolver a mu- para que todas as escolas, públicas e seja de livre escolha e responsabi-sicalidade, ou seja, ritmo, coordena- privadas, incluam o ensino de músi- lidade da instituição de ensino, o ca em sua grade curricular. A nova Ministério da Educação recomenda Arquivo pessoal lei, aprovada pelo ex-presidente Luiz que, além das noções básicas de mú- Inácio Lula da Silva, altera a LDB sica, dos cantos cívicos nacionais e (Lei de Diretrizes e Bases da Educa- dos sons de instrumentos de orques- ção), que determina o aprendizado tra, os alunos aprendam cantos, rit- de Artes, mas não especifica o conte- mos, danças e sons de instrumentos údo. Seu principal objetivo não é for- Souza estuda música há sete anos e acredita que, se mais jovens tives- regionais e folclóricos para, assim, mar músicos, e sim desenvolver sen- sem acesso a aulas de música, a criminalidade diminuiria conhecerem a diversidade cultural sibilidade, criatividade e integração. do Brasil. “A música ajuda na formação tigo da lei que previa a formação espe- trar tal conteúdo na maneira em que Alexandre Ulbanele, regente do intelectual, na construção do cífica de professores na área musical este dispositivo está proposto”. pela Universidade de São Paulo e ser humano através dos conceitos para ministrar a disciplina. As razões Gabriel Souza, 15 anos, é aluno Mestre em Musicologia e Etnomu- trabalhados. E a importância disso do veto foram publicadas oficial- de música desde os 8 anos. Suas pri- sicologia pela Universidade Estadual no aspecto mundo é que a música mente pela Subchefia para Assuntos meiras aulas foram no serviço social Paulista, acredita que a exigência do te situa na sociedade, tanto na parte Jurídicos da Presidência da Repúbli- do grupo Perseverança, que, em par- ensino de música nas escolas foi mal cultural, social e filosófica”, afirma ca e publicadas no Diário Oficial da ceria com a prefeitura de São Paulo, planejada. “Essa lei é tardia e está o professor de música Elias Gomes. União ainda em agosto. De acordo auxilia crianças de baixa renda. Seu sendo discutida há mais de dez anos Para ele, existe uma grande defici- com o texto, “a música é uma prá- primeiro instrumento foi o violão, e no Congresso. O problema é que ência de profissionais de música no tica social e no Brasil existem diver- hoje toca quase todos os instrumen- não existe interesse em fazer conhe- país, e essa nova lei é um grande sos profissionais atuantes nessa área tos de corda. “Desde que comecei, a cer música, porque, se você conhece passo para o Brasil suprir essa neces- sem formação acadêmica ou oficial música se tornou um grande hobby. música, você para de consumir asGomes: “A música ajuda na forma- sidade, porém, deve-se atentar para em música e que são reconhecidos Hoje, já não vejo mais um futuro músicas que você consome. Isso geração do intelectual, na construção o planejamento da forma de ensino. nacionalmente. Esses profissionais sem ela”, comenta o adolescente. um problema grave, porque tudodo ser humano” O ex-presidente Lula vetou o ar- estariam impossibilitados de minis- Para ele, a música serviu ainda como gira em torno da idiotização”. DIREITOS HUMANOS Utilizar o transporte público ainda é um desafio para pessoas com deficiência Moradores da Zona Leste revelam se os seus direitos têm sido respeitados nos ônibus e no Metrô da cidade Anderson Duschek Anderson Duschek do as crianças forem ensinadas, na braços, ela tem que conviver com qualificado e satisfatório. Mas, Eduardo Silva escola, a respeitar e a auxiliar as o descaso e muitas vezes a ignorân- segundo a Secretaria Municipal Rafaela Pietra pessoas com deficiência, ao invés de cia dos funcionários que não reco- da Pessoa com Deficiência e Mo- agirem com descaso ou indiferença. nhecem os direitos garantidos pelo bilidade Reduzida, existem mais Lucimara Novaes de Oliveira, Estatuto do Deficiente, no qual de 5.633 ônibus adaptados cir- Andando pela cidade, pode- 42 anos, funcionária aposentada é permitido, por exemplo, que o culando na cidade e mais de 140mos observar a quantidade de pes- do Metrô, também convive com acompanhante do deficiente físico mil bilhetes especiais distribuídossoas com deficiência que procuram uma deficiência e depende do também não pague pela passagem. para pessoas com deficiência quetratamento em São Paulo e que transporte público para se locomo- “A dificuldade do acesso ao necessitam de acompanhante.convivem com a necessidade de ver. Ela perdeu os movimentos dos transporte público pode dificultar Por meio de sua assessoria, autilizar o transporte público para braços devido a uma doença dege- o tratamento da pessoa com defici- Secretaria alega também que to-esse fim. Renan Augusto Bernar- nerativa que foi identificada origi- ência e afeta sua disponibilidade e dos os funcionários do transportedo, 19 anos, é um desses cidadãos. nalmente como uma tendinite e, acesso à cultura e ao lazer”, afirma público da cidade de São PauloEle convive com agenesia sacral e após uma cirurgia, não possui con- a psicóloga Alessandra Quintana são treinados para lidar com osmielomeningocele, uma má for- dições de realizar tarefas simples, Narti, que trabalha com pessoas equipamentos e com a pessoa commação da coluna e uma leve difi- como vestir-se, comer ou tomar em situação social precária. Ela deficiência dentro dos veículosculdade de locomoção que o fazem banho sozinha. Ela, que conta com ressalta que o cidadão que convive adaptados, que são constantemen-mancar, e conta com o transporte a ajuda da mãe e dos filhos, man- com uma deficiência passa a sentir, te revisados. Ainda de acordo compúblico para fazer seu tratamento tém uma vida ativa, apesar das difi- devido ao preconceito e às dificul- a Secretaria, conforme o Estatutona Associação de Assistência às culdades de locomoção, indo cons- dades, que não está bem situado da Pessoa com Deficiência, “OsCrianças com Deficiência (AACD) tantemente ao shopping e fazendo na sociedade, o que atinge forte- prestadores de serviço de transpor-às terças-feiras. diversos programas em família. mente sua autoestima, fazendo-o te público interestadual de passa- Bernardo, que utiliza o trans- A aposentada diz que prefere ficar isolado e não lutar por seus geiros são obrigados a reservar, emporte público para realizar diversas utilizar o Metrô, pois os funcioná- direitos, e que a pessoa com defici- cada viagem, quantidade de assen-atividades, como o estudo, espor- rios são muito prestativos e estão ência deve ir contra estes fatores e tos equivalente a 5% (cinco porte, lazer e trabalho, critica o desca- sempre disponíveis para ajudá-la a fazer valer a lei. cento) da capacidade indicada deso dos passageiros e, segundo ele, se locomover pelas estações, e res- A psicóloga acredita que o cada veículo”, por isso os funcio-o maior problema é fazer valer seu salta que, apesar de já ter tido que transporte público e os passa- nários devem também fiscalizar odireito dentro do ônibus. Ele ale- esperar por atendimento, nunca foi geiros não estão preparados para uso devido dos assentos durante osga que já precisou discutir e brigar maltratada, o que não é o caso dos receber esses cidadãos e que não percursos do ônibus e Metrô, paracom outras pessoas para usufruir ônibus. Lucimara conta que, além há um número suficiente de fun- que a lei não se torne um mero re- Bernardo afirma que já precisouo direito ao assento preferencial e de ser mais complicado andar de cionários devidamente treinados lato formal e seja aplicada correta- brigar para garantir o direito deacredita que isso só mudará quan- ônibus por conta da paralisia nos para realizar um atendimento mente no cotidiano urbano. utilizar o assento preferencial
  7. 7. PÁGINA 7 - DEZEMBRO DE 2011 CULTURA Juliana CardosoArte nas ruas: grupo de teatro Buraco d’Oráculo empolga público infantil na Zona Leste A tortuosa caminhada do artista de rua Eles fazem das ruas seu palco e lá recebem aplausos e xingamentos, mas nada os tira do espetáculo Tamiris Gomes tua viva, a arte vai além do dinhei- micidade para entreter. ro arrecadado. “Eu gosto de alegrar Em contrapartida, há a deprecia- Heila Lima os outros, essa é minha função. ção ao trabalho realizado por artistas de Henrique Santiago Eu assusto os outros e eles gos- rua. Em novembro de 2010, Gilberto Tamiris Gomes tam. A gente tem que fazer as coi- Kassab, prefeito de São Paulo, causou sas não por dinheiro, tem que polêmica com a “Operação Delega- fazer por amor. Eu faço isso por- da”, que proibiu o trabalho de artistas Estátuas vivas, músicos, poetas que eu me sinto bem”, afirma. de rua na Avenida Paulista, principale dançarinos representam o mundo De acordo com o pintor de centro financeiro da capital. Contudo,da arte de rua. O trabalho de um azulejos Marcos Aparecido, 39 em julho deste ano, a prefeitura assi-saltimbanco (denominação atri- anos, o êxito de seu trabalho ga- nou um decreto que permitiu a regula-buída a atores de rua que se apre- rante sua sobrevivência. “É uma mentação desses profissionais, porém,sentavam na antiguidade) consiste arte artesanal, mas eles [os poli- com restrições que proíbem a vendaem apresentar a arte que domina ciais] falam que eu só poderia estar de produtos do artista, a reserva depublicamente em locais de gran- demonstrando meu trabalho e não espaço para apresentação e o desres-de movimentação de pessoas. Em vendendo, mas a gente precisa co- peito aos limites da lei do silênciotroca, recebe o reconhecimento do mer e pagar aluguel, então eu me (“Psiu”). Sobre o ocorrido, Tiagoespectador com aplausos e algum arrisco e vendo meus trabalhos”. Ortaet, 28 anos, professor de artes“trocado”, que vai desde moedas a O apreço pela arte também na rede estadual, é contrário à leinotas de dinheiro de grande valor, atinge o público infantil. O grupo dos artistas de rua. “Artista não pre-que serve como compensação ao de teatro de rua Buraco d’Oráculo cisa de cartilha. Desde que as leis deseu esforço após o espetáculo de rua. apresenta-se há mais de 13 anos no convivência sejam respeitadas, pre- A prática da arte urbana ser- bairro de São Miguel Paulista, Zona zando pela ética e o respeito, não háve tanto como sustento para a vida Leste de São Paulo, e também nas limites para a criação artística, atéquanto válvula de escape por meio dependências das estações de trens porque todo artista é um contesta-da qual a expressão de seu trabalho da CPTM (Companhia Paulista de dor nato, ele é o personagem da vidaartístico é realizada. Segundo Ruan Trens Metropolitanos). O conteúdo real que sempre irá subverter a reali-de Freitas Fernandes, 49 anos, está- das apresentações do grupo visa à co- dade a fim de expressar suas ideias”. Tamiris Gomes Músico traduz sua arte em forma de notas musicais Espetáculos a céu aberto não vida. “Em 2009, numa situação agradam a todos. O gerente de loja no Metrô Tucuruvi, estávamos re- Zinel Silva Teixeira de Souza, 36 alizando uma performance teatral anos, comenta que a montagem de intitulada “Ecos”, sobre os maus aparelhos de som é perturbadora. tratos às crianças. Na ocasião, 25 “Eu não tenho nada contra, mas eu alunos e eu caminhávamos na cal- não gosto do barulho, o som muito çada da estação, mascarados, com alto. Me incomoda”. Mas o profis- tochas e carregando um caixão. sional, que trabalha no centro da Imediatamente, os seguranças do cidade, mostra-se tolerante quanto Metrô agiram truculentos, disse- ao trabalho dos artistas de rua. “O ram que não podíamos ficar ali”. pessoal às vezes chama a polícia. São muitos os percalços que Eu jamais vou fazer isso, porque envolvem a vida de um artista de é o meio de vida dele. Ele está ga- rua, mas isso não impede que a nhando o pão de cada dia. É o tra- arte seja veiculada e esteja viva na balho dele, eu gostando ou não.” sociedade. Com dificuldades ou Aliada ao preconceito, está a não, sempre haverá um artista barreira da repressão à base da vio- para se apresentar nos mais diver- lência à qual os artistas são subme- sos locais, pois sua vida é dividida tidos. Ortaet relembra uma inter- como as máscaras do teatro gre-Fernandes, 49 anos: ator que representa estátua viva no centro de São Paulo venção artística que marcou sua go: entre a alegria e a tragédia.
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