Cidadao 34 completo 1

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Cidadao 34 completo 1

  1. 1. Jornal-laboratório produzido pelos alunos de Jornalismo da Universidade Cruzeiro do Sul - Ano X - Número 34 - Agosto de 2009 Brasil sofreArquivo Nacional/Correio da Manhã reflexos da ditadura Nos 30 anos da Lei de Anistia, marco do pro- cesso de redemocratização do Brasil, em agosto de 1979, o jornal Cidadão reúne histórias de so- breviventes da ditadura militar (1964-1985). Gen- te como o advogado Alcídio Boano, de 81 anos, que vive em São Paulo e se diz o “orgulho” dos filhos e netos. Ou o aposentado Michéas Almeida, o “Zezinho do Araguaia”, de 71 anos, morador de Goiás que roda o país relatando como ele e outras centenas de brasileiros resistiram ao regime. Foram perseguidos, censurados, torturados. Organizações de direitos humanos estimam 426 mortos e desa- parecidos, mas ainda não se sabe o total de vítimas porque os arquivos militares permanecem inacessí- veis. O alijamento político-ideológico inspira esta edição a reportar outras formas de exclusão na so- ciedade contemporânea. Páginas 6 e 7 Habilidosos, analfabetos, Alexandre Caetano/Divulgação Teatro desperta transgêneros e excluídos o senso crítico Aceitar o diferente é uma das na Silva vive situação semelhan- Uma obra de arte permite muitas principais condições para se vi- te. Ela é cega e usuária de um leituras. Estudantes de Jornalismo da ver em comunidade. Conheça programa público que escreve Universidade Cruzeiro do Sul assis- histórias de pessoas que são dis- cartas e recebe ajuda dos volun- tem ao espetáculo teatral “Eldorado” criminadas por causa da opção tários para estudar exercícios de e desenvolvem variados pontos de sexual, por não saber ler ou por matemática. “O problema não vistas sobre ele. O trabalho solo con- saber demais, os “superdota- é não enxergar, mas sim não cebido e interpretado por Eduardo dos”. A auxiliar bancária Nedi- ver”, diz. Páginas 2, 3 e 4 Okamoto narra a travessia de um sertanejo cego em busca de sen-Joel Hayashi tidos para a vida. A musa que o acompanha na aventura é uma rabeca. A música o levará ao longe em sua jornada inte- rior. Páginas 10 e 11 Povo da floresta fica à margem na Amazônia Índios, caboclos e ribeirinhos pelos que a habitam. As pessoas fazem parte do povo da Ama- estão sujeitas a duas violências: a zônia. Apesar de comporem humana, dos grileiros e muitos uma população de cerca de 23 religiosos que manipulam situa- milhões, eles vivem à margem em ções a seu favor, e a natural, pois termos de cidadania. Fala-se a floresta também lhes é hostil. muito da região brasileira sob a Há variedade de malárias, jaca- ótica ambiental, mas pouco se faz rés e piranhas. Página 12
  2. 2. PÁGINA 2 - AGOSTO DE 2009 COMPORTAMENTO Fotos Divulgação EDITORIAL Exclusão pelo avesso A ditadura militar que calou e san- grou o Brasil entre 1964 e 1985 legou um dos períodos mais tristes da histó- ria de um país que já carrega sequelas dos períodos de colonização e de escravi- dão, para citar duas manchas indelé- veis. Ao retratar aqueles 21 anos de prisão, tortura e censura, aproveitamos para expor outras formas de exclusão nos dias de hoje. No dicionário, a palavra exclusão ganha definições como: ato de ser incom- patível com, pôr de lado, eliminar, aban- donar. Em uma análise mais apurada identificamos uma referência aos seres de uma comunidade, a relação com o ou- tro. Afinal, o incluído é incompatívelRobytt Moon Thara Wells Llady Metteora com quem? Eliminado de onde? Quem o abandona? Os excluídos, portanto, são parte da sociedade e não um grupo isola-Transgêneros usam talento contra estigma do como imaginamos em um primeiro momento. Identificar esse fato e como ele se dáPara elas, nem a universidade é garantia de boa colocação no mercado de trabalho é um dos passos para compreender o qua- dro social contemporâneo. Nesta edição do jornal-laboratório Cidadão, uma Acácio Brindo completo, profissionalizante técnico Alguns órgãos públicos esclarecem A maior parte das transgêneros produção dos estudantes de Jornalismo em contabilidade, fala três idiomas e as pessoas “transgêneros”, como a Co- trabalha como profissionais da noite. da Universidade Cruzeiro do Sul, tra- O mercado de trabalho está difícil fez alguns cursos, como edição em ví- ordenadoria de Assuntos da Diversi- De acordo com a Articulação Nacional balharemos o tema da exclusão por ân-para qualquer cidadão. Imagine para deo, técnico em escritório e adminis- dade Sexual (Cads) e o Centro de Re- das Travestis e Transexuais (Antra), gulos em que ela geralmente não é reco-as pessoas “transgênero”. Elas são tração de empresas. Poderia estar em ferência da Diversidade (CRD). cerca de 90% delas estão inseridas na nhecida. Esse olhar passa, por exemplo,transexuais, drag queens e travestis em qualquer universidade e, inclusive, con- A Cads tem o objetivo de pro- prostituição. pelos marginalizados por meio da pala-busca de uma oportunidade digna na seguir bolsa integral. mover, estimular e divulgar toda A drag queen e maquiadora Llady vra, os chamados analfabetos ou semia-sua área de formação. “Quando estudava eu era muito ação que combata a homofobia, as- Metteora, de Tatuí, na região de Soro- nalfabetos, ou pelo policial militar que Na maioria dos casos o precon- feminina, mas ainda não era travesti sim como criar um espaço de comu- caba, nível técnico em nutrição e dieté- não pode voltar para a casa fardado.ceito começa na infância quando são fisicamente. Mesmo assim, o precon- nicação com a sociedade como um tica, trabalhou por algum tempo nes- Poucos fazem questão de abrir osdescobertos os primeiros indícios de ceito vinha de todos os lados. Tinha todo. O CRD oferece oficinas profis- sa área e não gostou. olhos para enxergá-los, mas o fato é queque algo diferente acontece. Diferen- trabalho em gru- si on al i z an te s, “Desde criança eu já era diferen- esses brasileiros existem. Grande partete, sim, porém nada a ver com aber- po e ninguém me atendimento psi- te dos meus amiguinhos na escola. da população não usufrui seus direitosração ou doença como muitos pen- queria por moti- “As transgêneros são cológico e social, Era um menino afeminado, mas de cidadania e essa problemática se refle-sam ou dizem. vos de queimação seres humanos e têm espaço de conve- creio que fui privilegiado aqui no te na sociedade como um todo. É um A drag queen, estilista e maquia- de filme [vergo- direitos que não estão niência, orienta- interior, pois as pessoas são mais ciclo do qual quem se considera integra-dora Robytt Moon, faculdade incom- nha]. Na hora do ção sobre saúde e tolerantes. Atualmente como ma- do, hoje, amanhã será parte dos excluí- sendo asseguradospleta de educação física, largou os es- intervalo vinham aconselhamento quiadora tenho mais destaque e é o dos de cabelos brancos.tudos em Presidente Prudente (SP) agressões verbais pela Constituição” jurídico. que amo fazer. No Brasil não existe Nosso objetivo é revelar as outras Thara Wellsporque estava descontente. “O pre- e morais. O pre- Ambos são graduação nessa área, como na Eu- facetas da exclusão. Afinal, reconhecerconceito está inserido nas pessoas e conceito talvez ligados à Prefeitu- ropa e nos EUA, mas se tivesse que é o primeiro passo para mudar, paranos próprios gays. Não tenho inte- seja um defeito de fábrica do ser hu- ra de São Paulo e estão localizados na escolher outra área eu faria Letras”, transformar algo. Do contrário, paira aresse de voltar a estudar. Ganho mais mano”, afirma Thara. zona central da cidade. Apesar de re- diz Llady. inércia, o comodismo. Com a palavra, acomo drag queen e pretendo abrir mi- “Todos os gays aspiram ao res- cém criados, cumprem um papel im- Entre os brasileiros, as transgê- consciência de cada um.nha loja”, diz. Ela vive afastada da peito e à aceitação hetero, mas, se nós portante. Entretanto, ao serem ques- neros compõem a categoria que maisfamília que não aceita seu trabalho e mesmos não nos suportamos no tionados sobre dados reais quanto ao sofre preconceito na própria comu-seu estilo de vida. sentido de que gay não gosta de tran- mercado de trabalho, esquivam-se por nidade LGBTT (lésbicas, gays, bisse- Em geral, a falta de apoio fami- sex, que não gosta de sapata [lésbi- meio de gerúndios com um “estarei xuais, travestis e transgêneros). For-liar é outro fator decisivo para o aban- ca], que não gosta de drag queen, que te enviando ou conversando sobre o mam-se poucas profissionais nasdono dos estudos. A travesti Thara não gosta da pintosa. Como quere- assunto após o feriado”. A reporta- universidades e, mesmo com o di- ReitoraWells – entrevistadora e escritora bis- mos que os heteros nos aceitem e gem procurou as duas entidades du- ploma nas mãos, não conseguem Sueli Cristina Marquesisexta em Sorocaba (SP) – sobrevive respeitem, se internamente não nos rante duas semanas, mas não obteve atuar no mercado de trabalho para o Pró-reitor de Graduação Carlos Augusto Baptista de Andradeda prostituição. Ela tem segundo grau suportamos?”, questiona Thara. mais informações. qual estudaram. Pró-reitor de Pós-graduação e Pesquisa Luiz Henrique Amaral Quem é quem mances com fantasias e maquiagens O circo midiático faz a sua parte Pró-reitor de Extensão e Assuntos Comunitários exageradas. Não é assim 24 horas por Renato Padovese Coordenador do Curso de Transgênero – Pessoa cuja expres- dia, encarando isso mais como tra- Muita gente rejeita ser atendida as barreiras de Hollywood. Comunicação Social são de gênero não corresponde ao balho ou diversão. por uma médica transexual, mas ado- Na televisão, desde os anos 70, os Carlos Barros Monteiro papel social atribuído ao gênero de Cads – Coordenadoria de Assun- ra ver na madrugada de Carnaval o bai- programas de auditório como Chacri- nascimento. O termo também tem tos da Diversidade Sexual. le Scala Gay, que acontece no Rio de nha, Silvio Santos ou Bolinha tenta- sido utilizado para definir pessoa que CRD – Centro de Referência da Di- Janeiro. A sociedade costuma rir da vam de alguma forma dar visibilidade está constantemente em trânsito en- versidade. diferença e não a aceita com respeito e ao grupo e traziam travestis e transe- Jornal-laboratório do Curso de Comunicação Social tre um gênero e outro. LGBTT – Lésbicas, gays, bis- dignidade. Ao exibir programas des- xuais em quadros de dublagem. (Jornalismo) Transexual – Pessoa que nasce com sexuais, travestis e transgêneros. se tipo, a televisão também colabora “A luz no fim do túnel poderia da Universidade Cruzeiro do Sul Ano X - Número 34 um sexo, mas tem identificação ex- APOGLBT - A Associação da Para- para a situação de exclusão e não de ser as leis mais rígidas de inclusão so- Agosto de 2009 cessiva com o sexo oposto. Nasce da do Orgulho de Gays, Lésbicas, aceitação, como deveria ser. cial, porém vejamos o exemplo das Tiragem: 3 mil exemplares Telefone para contato: homem, mas tem cabeça de mulher Bissexuais e Travestis e Transexuais Não existem documentários ou cotas para negros que geram polêmi- (11) 2037-5706 e se sente mulher, e vice-versa. O tran- foi fundada em 1999, como uma filmes na programação aberta, e os cas e controvérsias”, diz Llady Met- Impressão: sexual rejeita o próprio corpo e seu organização em defesa da diversida- poucos, feitos geralmente no exte- teora. “O que concluímos disso é que Jornal Última Hora do ABC (11) 4226-7272 sexo biológico. Necessita de uma ci- de sexual. Sua missão é lutar por rior, como Transamerica (2005) – Glo- antes de tudo o nosso pensamento rurgia de redesignação sexual. uma sociedade mais justa e inclusi- bo de Ouro de melhor atriz para Feli- deve mudar. Devemos parar com a Travesti – Pessoa que tem as duas va, que reconheça direitos iguais para city Huffman – não passam na “Tela exclusão velada e compreendermos Professores-orientadores identidades de gênero: masculina e todos. Para garantir o cumprimento Quente” da Rede Globo. Transamerica que, independentemente de usar Dirceu Roque de Sousa e Valmir Santos feminina. Não há desejo de mudan- do estatuto, há um conselho de só- ficou pouquíssimo tempo em cartaz saias, passar batom ou vestir unifor- Participaram desta edição ça de sexo biológico. cios fundadores; um conselho de éti- nos cinemas de São Paulo. me militar, as transgêneros são seres André Atti, André Polone, David Santana, Drag queen ou transformista – ca norteia as decisões da diretoria e Recentemente, o filme Brokeback humanos e têm direitos que não es- Dayse Estevam, Felipe Gueller e Pessoa que se apresenta e faz perfor- outro, fiscal, examina suas ações. Mountain (2005), do diretor Ang Lee, tão sendo assegurados pela Consti- Natalia Bittencourt. foi outro marco ao conseguir romper tuição”, afirma Thara Wells. (A.B.)
  3. 3. VOLUNTARIADO AGOSTO DE 2009 - PÁGINA 3 Lidiana Dourado A cega, a prova de matemática, o gravador e a voz da voluntária “Acho que estou no caminho cer- suas necessidades. Manuseia o grava-to”, diz Nedina Silva, 45 anos, auxi- dor com uma concentração invejável.liar bancária, ao iniciar seu atendimen- Ela, que mora em uma casa assisten-to no posto do Escreve Cartas em Ita- cial, conta que já precisou pedir ajudaquera, Zona Leste. Ela, deficiente vi- na rua para uma pessoa desconhecidasual, chega com um sorriso no rosto e ler seu material de estudo.logo demonstra desenvoltura ao falar Muito ativa e focada em seu de-com as voluntárias. Gravador numa senvolvimento profissional, a estu-mão e muitas folhas na outra, explica dante conta que após a gravação doque precisa da leitura dos exercícios de conteúdo ainda terá de passar os da-matemática para estudar para uma pro- dos para o braile, um sistema de leitu-va do curso de qualificação fornecido ra desenvolvido para deficientes vi-por uma universidade parceira do ban- suais e cujas letras e números são in-co em que trabalha e que decidirá seu dicados por pontos em relevo identi-futuro profissional: seu contrato é re- ficados por meio do tato. Seus dedosnovável de acordo com o desempenho são cortados devido à atividade que éconquistado no curso e no dia a dia. feita com o uso de reglete, material Logo, nota-se a mobilização dos específico para a escrita braile. É cons-voluntários e do gerente da unidade, tituído essencialmente de duas placasMarcelo Ribeiro Pedrosa, em dispo- de metal e plástico, fixas em um ladonibilizar uma sala reservada para o com dobradiças, de modo a permitirmelhor atendimento de Nedina. As a introdução do papel. Ponto porvoluntárias se preocupam em ler as ponto, as pessoas cegas, com punção,equações e seus enunciados de forma formam o braile. “O problema não éclara para o fácil entendimento da goi- não enxergar, mas sim não ver”, diz.ana simpática que não perde a opor- Ao final brinda a repórter e a vo- SOLIDARIEDADE - Voluntárias do programa Escreve Cartas na unidade Poupatempo de Itaqueratunidade de agradecer pelo serviço. luntária com um abraço apertado e Às 11 horas o expediente das vo- emociona com sua força de vontadeluntárias se encerra e uma nova cola-boradora inicia seu turno. A repórterdivide a tarefa com a voluntária Simo- em superar dificuldades que, para ela, parecem nada. “Coloca aí: obrigada Simone, agradeço ao programa Escre- Programa público ajudane Santiago, que demonstra muita ale-gria em colaborar. Nedina sinaliza seo ritmo de leitura está adequado às ve Cartas e semana que vem eu volto porque ainda tenho muito trabalho pela frente.” (A.P.M.) analfabetos a enviar cartas No serviço do Poupatempo, pedidos vão de juras de Ana Paula Monteiro amor a palavras esperançosas de participação na TV Ana Paula Monteiro tinada a Gugu, na qual uma dona de gionalismo, acolher expressões como casa de baixa renda pede uma reforma “painho” ou “padinho”, comuns no Patrícia, Simone, Izabel, Cinthia... de sua casa devido a problemas de Nordeste. A ideia é profissionalizar o Sabe o que essas pessoas têm em co- mofo que afetam sua saúde. A volun- voluntariado e conscientizá-lo quan- mum? A vontade de ser útil à socie- tária escreve a carta e em seguida lê o to à importância da atividade para a dade e a coragem de agir para realizar teor para que a senhora confirme se o sociedade. esse objetivo. Todas elas dedicam conteúdo está exatamente como soli- O programa Escreve Cartas foi duas horas de seu tempo, uma vez citado. Enquanto as palavras são li- criado pelo Governo do Estado de por semana, para ser voluntárias no das, lágrimas rolam pelo rosto da São Paulo em novembro de 2001, projeto Escreve Cartas, voltado aos mulher que, por i nspi rado e m cidadãos com dificuldades em ler e meio do texto, vê um personagem escrever, em comunicar-se por meio sua situação ser Os voluntários recebem do filme “Cen- de cartas. retratada como treinamento específico tral do Brasil” A cada dia uma nova surpresa. um filme e se co- (1998), dirigido Nos postos de atendimento do Pou- move com a pró- e são orientados a não por Walter Salles.INCLUSÃO - Simone auxilia a bancária Nedina, deficiente visual patempo, nas Zonas Leste e Sul da pria história. interferir no regionalismo O analfabetis- cidade, além de Guarulhos e São Ber- Muitos enre- das pessoas. mo no Brasil atin- nardo do Campo, os voluntários con- dos são contados ge hoje 7,5% da Você tem uma caneta? vivem com os mais diferentes pedi- a esses voluntá- população, uma dos: correspondências comerciais, re- rios preparados para se manter neu- herança do passado de escravidão que Lidiana Dourado Poupatempo. A natureza original do clamações e pedidos ao presidente tros durante a redação da carta e prati- marca a história do país. Quem não trabalho, explícita no próprio nome Lula, cartas afetivas a parentes distan- car sigilo absoluto quanto à identida- sabe ler, escrever e interpretar as pala- Um senhor se aproxima, pede do programa, tem ficado em segun- tes, filhos presos etc. Mas as campeãs de dos cidadãos que procuram o ser- vras e textos faz parte de um grandeuma caneta e senta-se à mesa. Como do plano. são as missivas destinadas a progra- viço. Além de redigir e ler, eles tam- grupo de pessoas, as excluídas pela faltase esperasse por uma resposta, levan- Há algumas décadas ser alfabeti- mas de televisão, como os dos apre- bém preenchem formulários e elabo- de compreensão da palavra. Existemta a cabeça e observa o horizonte. A zado definia que tipo de pessoa você sentadores Gugu Liberato, Netinho ram currículos. O trabalho exige boa diferentes iniciativas com o objetivomulher sentada a sua frente oferece era. Para votar era preciso saber ler e de Paula e Silvio Santos. caligrafia e dedicação. Por isso, recebem de incluir esse contingente à sociedadeajuda. Ele, sem pestanejar, entrega ca- escrever. Segundo o jurista e escritor Uma das voluntárias conta que foi treinamento de oito horas, são orien- e a divulgação desses serviços contri-neta e papel com um sorriso estam- Rui Barbosa (nascido em novembro procurada para escrever uma carta des- tados inclusive a não interferir no re- bui para mantê-lo ativo.pado no rosto. de 1849 – falecido em março de 1923), Essa tem sido a rotina de alguns por exemplo, essa exigência era justa evoluntários do projeto Escreve Cartas.O programa foi criado pelo governo libertadora. E em seu entendimento seria coerente excluir os analfabetos Paradoxo das boas intenções de escrever cartas? O Cidadão pôde constatar quepaulista em 2001, inspirado em uma uma vez que eles deveriam ser educa- Ajudar ou ser ajudado? Infor- para o preenchimento de formulá- o projeto em sua essência é validopersonagem do filme “Central do Bra- dos para usufruir de seus direitos. mar ou ser informado? Será que de- rios do próprio Poupatempo. De e gratificante para aqueles que o fa-sil”. Dora, interpretada por Fernanda Atualmente, qualquer pessoa veríamos assumir a responsabilida- acordo com a assessoria do progra- zem, mas isso não tem sido o su-Montenegro, era uma mulher que es- maior de 16 anos tem direito ao voto. de de dar aquilo que todas as pes- ma, o projeto é divulgado em todos ficiente para tornar melhor a vidacrevia cartas para analfabetos na Central Porém, em 2007, o Instituto Brasilei- soas devem ter, já que, por lei, todo os grandes veículos de comunicação daqueles que o recebem. Afinal dedo Brasil, estação ferroviária carioca. Na ro de Geografia e Estatística (IBGE) cidadão tem direito à educação? e jornais de bairro da Capital e da contas, como um analfabeto po-ficção, o serviço era cobrado. Aqui, não, revelou a existência de 14 milhões de O programa Escreve Cartas dá Grande São Paulo. No entanto, essa deria ler no jornal, revista ou inter-o atendimento é gratuito. analfabetos no país. assistência a pessoas que tenham di- difusão do serviço não tem atingido net uma reportagem que oferece as- Atualmente 284 voluntários de- Saber ler e escrever pode não ser ficuldades para ler ou escrever. Se- o público desejado. sistência a pessoas com dificulda-dicam duas horas semanais do seu mais um critério para definir votos, tenta e oito voluntários do Poupa- Surge então um questionamento: de para redigir? Ou, quantas pes-tempo para escrever cartas para cida- mas ainda é um detalhe relevante. Pois tempo de Itaquera dedicam-se a um se o projeto é de fato divulgado e soas com baixo grau de escolarida-dãos que têm dificuldades em ler ou uma pessoa incapaz de escrever uma propósito: dar aos cidadãos a opor- ampliado, chegando inclusive a outras de têm acesso a programas educa-escrever. Nunca foi difícil atrair cola- carta não sofre apenas com a exclusão tunidade de se expressar. regiões da Grande São Paulo, como tivos? Que tal inovar e usar umboradores para a proposta de ajudar o do dia a dia, como pegar ônibus, pa- Porém, o projeto tem perdido Guarulhos e São Bernardo do Cam- veículo de comunicação simples eoutro. No entanto, o usuário tem pro- gar contas, ler uma placa. Sofre tam- suas características, sendo procura- po, por que a procura da população direto como o rádio ou estimularcurado o serviço mais para preencher bém por não poder exercer seus direi- do na maioria das vezes somente tem sido para outros fins que não o o imbatível boca a boca? (L.D.)formulários justamente do próprio tos como gostaria.
  4. 4. PÁGINA 4 - AGOSTO DE 2009 SOCIEDADE Eles são excluídos porque sabem demaisConheça histórias de “superdotados” vítimas de discriminação justamente porque são demasiado habilidosos Cibele Sugano Cibele Sugano Thiago Batista Núcleos do Vanessa Lira MEC atuam Ele é formado em administração, desde 2005fala inglês, alemão e espanhol comfluência. Não teve dificuldades para ar- Muitos casos de alta habilida-ranjar empregos, geralmente em em- de só são descobertos quando apresas multinacionais. Possui imóvel criança entra na escola. O descom-e carro próprio, mas, apesar do currí- passo com o resto da turma torna-culo, M.L.D.L., 34 anos, morador da se latente. O Ministério da Educa-Zona Norte de São Paulo, é hoje um ção (MEC) diz que os alto habili-homem frustrado. “Sinto-me deslo- dosos são um foco específico dacado. Parece que não me encontro, que Secretaria de Educação Especial quenão sou daqui.” tem realizado cursos para profes- O que deveria ser um dom torna- sores e gestores. Além disso, há osse um fardo para muitos alto habili- Núcleos de Atividades para Altasdosos, popularmente conhecidos Habilidades/Superdotação, instala-como “superdotados”. Como eles dos a partir de 2005 em todas asaprendem muito rápido, as atividades capitais, segundo a pasta, com oque não lhes são suficientemente desa- fim de oferecer atividades para ofiadoras tornam-se monótonas. Resul- aluno, além de capacitar responsá-tado: acabam sendo apáticos a tudo. veis e professores. Todas essas ini-Ou, ao contrário, muito ativos, ansio- ciativas visam a educação inclusiva.sos e, por vezes, até nervosos com as Aliás, não se usa mais o termopessoas com as quais convivem. “superdotado” justamente por car- A gestora administrativa da As- regar em si essa conotação exclu-sociação para Altos Habilidosos e DESLOCADO - Mesmo formado em administração e empregado, M.L.D.L. sente-se um adulto frustrado dente. Quem é “super” não é nor-S u p e r do ta do s mal. Já o “alto habilidoso” sabeem São Paulo dante Rafael So- fui excluído de jogos esportivos, nun- timule a ambos equilibradamente. O fazer algo muito bem e não tem(Apahsd), Ga- “Tive problemas de linsk, 21 anos, ca fui bom nisso, digamos assim. Já Poit é um curso extracurricular para demérito algum em ser o que mui-briela Toscanini, caráter emocional e morador de Vali- fui deixado de lado em formaturas e alunos com habilidades especiais que tos gostariam: um talento nato.28 anos, diz que psicológico, mas nhos, no interior convite de festas só por ser alto habi- busca vencer a barreira do preconceitomuitas escolas paulista, que teve lidoso”, afirma. com a sociedade. Para a psicóloga éainda não sabem todos ligados à diversos proble- O estudante, que hoje diz saber importante que não haja a segregação fala, entende e questiona demais. Hálidar com isso. convivência social” mas emocionais. lidar melhor consigo mesmo, afirma do alto habilidoso. “Já trabalhamos casos de crianças que se tornam agres-“Os professores Rafael Solinsk Desde os 5 anos que os relacionamentos afetivos o aju- com aulas separadas das outras turmas, sivas a ponto de se mutilarem ou atéacham que a crian- ele começou a de- daram de forma significativa. “Minha mas não obtivemos sucesso. O aluno cometerem suicídio.ça é hiperativa, possui Transtorno de monstrar altas habilidades em mate- namorada, a Caroline, teve um papel com alta habilidade necessita da intera- A adolescente L.B.B., 16 anos,Déficit de Atenção, é rebelde. Muitas mática, física e química, desenvolven- insubstituível. Fez-me enxergar atra- ção com os demais.” Por esse motivo, moradora da Zona Oeste, teve umainclusive acabam sendo medicadas do-as melhor do que as demais áreas. vés dos algoritmos e ver o coração.” o curso não substitui a escola. vida estudantil complicada. Foi “con-quando na verdade a causa é outra”, “Tive vários problemas de caráter A psicóloga do Programa Objeti- Um aspecto essencial é que os pais vidada” a sair da escola por sua extre-afirma. emocional e psicológico, mas todos vo de Incentivo ao Talento (Poit), saibam identificar se o filho é um alto ma agitação: aos 6 anos liderou um Foi o que aconteceu com o estu- ligados à convivência social. Sempre Christianne Vita, diz que o desenvol- habilidoso. A partir daí, deve-se enca- movimento na classe; aos 8, negou-se vimento racional minhá-lo a espa- a fazer uma prova, alegando que a pro- Einstein e Leonardo da Vinci deve vir sempre acompanhado de Há casos de crianças ços que lidarão de maneira correta fessora sabia que ela já tinha entendi- do tudo. A mãe, Rosemary, trocou a também foram discriminados saúde emocional. Os dois se com- que se tornam para que seu po- tencial seja desen- menina de escolas dez vezes. Como resultado, L.B.B. isolava-se. Foi só por pletam e o alto ha- agressivas a ponto de volvido. Gabriela meio de terapia com profissionais es- se mutilarem ou até Internet Jorge Gomes (1879-1955). Este ale- bilidoso precisa diz que muitos pecializados em alta habilidade que sua mão foi físico e mate- conviver num cometerem suicídio pais não aguen- inteligência passou a caminhar ao lado Através dos séculos mático e até hoje é co- ambiente que es- tam o filho que de uma vida emocional equilibrada.algumas pessoas se nhecido por sua ge-destacam por causa desua alta capacidade in- nialidade. Desde a in- fância, Einstein mos- Mitos e verdades na vida do alto habilidosotelectual. Esses indiví- trou-se diferenciado Thiago Dias Cibele Suganoduos diferenciados são em relação às outras Acredita-se que o altodenominados alto ha- crianças. Em vez de habilidoso seja bom embilidosos. A história da praticar jogos infantis, tudo, o que não é verdade.humanidade reserva al- preferia construir com- Ele pode se destacar em al-guns bons exemplos a O pintor Da Vinci plicadas estruturas gumas áreas e ser completa-serem citados. com cubos de madei- mente normal ou fraco Um deles é Leonardo, nascido em ra e grandes castelos com cartas de ba- mesmo em outras. É co-1452 na localidade de Vinci, Itália. ralho, alguns de até 14 andares. Aos 7 mum casos de pessoas queEle foi um dos maiores pintores do anos ele demonstrou o Teorema de se destacam na intelectuali-Renascimento e possivelmente seu Pitágoras, para surpresa de seu tio, que dade, mas, enquanto prati-maior gênio, por ser também anato- dias antes lhe ensinara os fundamen- cante de esportes, não acer-mista, engenheiro, matemático, mú- tos da geometria. tam um movimento. A psi-sico, naturalista, arquiteto e escultor. Porém, Einstein era um fracasso cóloga Christianne Vita dizEm 1506 trabalhou principalmente para disciplinas que exigiam capacida- que são oito as áreas de ha-em Florença, onde possivelmente te- de de memorização, como geografia e bilidade: intelectual; verbalnha pintado sua obra história. Em conse- ou linguística; lógico-mate- Internetmais famosa: Mona quência dessas dificul- mática e científica; criativida-Lisa. Mas, apesar de ser dades, ele se desinte- de; motivacional; liderança;genial em várias áreas, ressava por tais aulas psicomotora e musical. No Christianne: espaço desafiador Gabriela: “Habilidosos têm direitos”Da Vinci não teve edu- – o que provocava rea- caso de crianças, essas habi-cação formal e nem sa- ções violentas de seus lidades podem ser identificadas com intelecto. A psicóloga diz que o adul- briela Toscanini, relata que há alu-bia latim, sendo consi- professores. Um deles testes específicos. to alto habilidoso pode tornar-se nos comunicativos e sem diferençasderado por muitos um chegou inclusive a di- Mas a genialidade nem sempre frustrado se não conseguir identifi- de sociabilidade com outras pes-iletrado e até inculto. zer que Einstein era será identificada e exercida com todo car e usar todo o seu potencial. soas. Mas a maioria dos casos é deMorreu em 1519. um péssimo exemplo vigor. No caso de adultos, não há Existe também o mito de que pessoas que se isolam pelo próprio Outra pessoa de para os outros estu- testes que identifiquem essas habili- as pessoas que tem alta habilidade fato de serem consideradas diferen-múltiplas habilidades dantes e que nunca se- dades, com exceção do de quociente na área intelectual são antissociais. tes e não, necessariamente, por se-foi Albert Einstein O físico Albert Einstein ria alguém na vida. de inteligência (Q.I.) que só atinge o Porém, a gestora da Apahsd, Ga- rem introvertidas. (C.S.)
  5. 5. SAÚDE AGOSTO DE 2009 - PÁGINA 5 Autismo é exercício contínuo de superação Família de Gabriel relata dificuldades com o desrespeito diante das necessidades especiais do outro Arquivo Pessoal Mônica Garcia de Almeida Talita Dario Pais devem ajudar no tratamento Com apenas 2 anos de idade, a Guilhermo Romero mo, as dificuldades podem ser diferentes de família de Gabriel Vitoir, 8 anos, úni- Jansen Asses acordo com o ambiente que a criança convi- co filho, residente em São Paulo, já ve. É definida uma programação diária para notava que havia algo errado com o O Cidadão entrevistou a sexólo- estimular estas crianças, visando adquirir menino. “Ele não falava e demorouga e psicóloga Daniela Formiga de habilidades que tenham funções práticas muito para começar a andar”, declaraSousa, especialista em terapia ocupa- (contato social, verbalizações e autonomia). Debora Vitoir, mãe de Gabriel.cional, que esclareceu algumas das dú- Cidadão - Os pais normalmente pas- O grau de autismo de Gabriel évidas mais frequentes sobre o autis- sam pelo tratamento com os filhos? leve. Mesmo assim, sua família enfren-mo. Segue abaixo a entrevista. Daniela - Sim, é de fundamental impor- ta o preconceito diariamente. “Muitas tância a participação dos pais. Eles preci- vezes, no ônibus, as pessoas olhamCidadão - O que é o autismo? sam aprender comportamentos mais adapta- estranhamente e perguntam o moti-Daniela - O autismo é um transtorno tivos para lidarem com os seus filhos e são vo de ele descer pela porta da frente.congênito que compromete o desenvolvimen- eles que colocam em prática as mudanças Ou, quando ele chora e faz algum ba-to do indivíduo. Afeta suas relações sociais necessárias no ambiente que a criança convi- rulho diferente, as pessoas ficam in-e sua capacidade de comunicação. O autista ve, para atingir os objetivos propostos e dis- comodadas”, comenta Débora, quepossui comportamentos estereotipados e re- cutidos em terapia. confessa ficar indignada com as pes- SOLIDARIEDADE - Gabriel, de 8 anos, tem o apoio integral da famíliapetitivos, seu interesse por atividades é res- Cidadão - Qual o problema mais co- soas que não têm respeito pelas crian-trito e existe uma tendência ao isolamento. mum que encontramos nas crianças? ças com necessidades especiais e com ca atividades de uma criança normal, política pública de saúde a maioria dosCidadão - Como o psicólogo pode E nos pais? os adolescentes que parecem não co- frequenta escola, está em tratamento autistas pode receber o tratamentoajudar? Daniela - Na psicoterapia a maior difi- nhecer os princípios da cidadania. psicoterápico, faz terapia ocupacional adequado.Daniela - O psicólogo pode ajudar a mini- culdade que encontramos é em relação à co- Débora diz que, no início, foi e recebe acompanhamento fonoau- A Prefeitura de São Paulo, por in-mizar os sintomas e fazer com que a criança municação, visto que nem sempre é possível muito difícil para todos aceitarem a diológico. Todos os tratamentos e a termédio da Secretaria Municipal deconsiga lidar com mais tolerância às ativida- compreender a linguagem utilizada por elas. ideia de que Gabriel precisaria de cui- escola são custeados pela família, que Educação, afirma que existem institui-des que antes lhe pareciam confusas. Com os pais, é preciso antes de qualquer coisa dados especiais e conviver com o pro- tem um gasto mensal de R$ 3.470,00. ções conveniadas especialmente paraCidadão - Quais são os métodos uti- trabalhar a aceitação. Só após eles elabora- blema. “Primeiramente, rejeitei a ideia, Débora lamenta o descaso do go- crianças com transtornos globais men-lizados no tratamento? rem o luto do filho ideal e perfeito é possível pois é muito difícil saber que um fi- verno, porque os autistas com trata- tais, além de serviços com o CentroDaniela - É preciso um plano terapêutico reconhecer as potencialidades da criança e as- lho está doente. Procurei fazer mais mentos especializados podem progre- de Formação e Acompanhamento àindividual, embora o diagnóstico seja o mes- sim serem aliados no tratamento. exames, mas tudo levava ao mesmo dir no aprendizado. “Gabriel, por Inclusão (Cefai), Atuação do Profes- diagnóstico. Aceitar o problema foi o exemplo, cada dia descobre uma nova sor e Acompanhamento à Inclusão Conheça os principais sintomas mais difícil, e depois ir atrás de solu- ções. Pesquisei muito sobre o assunto, habilidade, como mascar chiclete, di- zer ‘oi’ e ‘tchau’ aos familiares e pro- (Paai), Salas de Apoio à Inclusão (Saai) e Escolas Municipais de Educação Arquivo Pessoal novidades a respeito de tratamentos, fessores e ir ao banheiro sozinho, o Especial (EMEE). Segundo a consultora medicações, especialistas”, recorda. que não conseguia antes”, declara sua Outras informações pelo site:e psicóloga, especialista em Gabriel é saudável e hoje prati- mãe. Apenas por intermédio de uma www.portalsme.prefeitura.sp.gov.br.terapia ocupacional, Rena-ta Sara de Oliveira, que pres-ta atendimento em clínica Pessoa com deficiência tem direito à vida sexualprivada, em São Paulo, o Hevlyn Celsotratamento mais comum Hevlyn Celso* Muitas vezes as fa-empregado para os autis- mílias temem o mo-tas consiste em análises As pessoas com deficiências, as- mento em que seus fi-comportamentais, segui- sim como qualquer cidadão, têm di- lhos com deficiência de-das de atividades práticas reito a exercer sua sexualidade. No cidem namorar, poisque reforcem as alterações entanto, no cotidiano, esse assunto é querem protegê-los depositivas de comporta- cercado por preconceitos da sociedade pessoas mal intenciona-mento do paciente, de- e até das famílias que acreditam que das e de decepções. Demonstradas na interação seus filhos não possuem essa necessi- fato, conforme Martacom o terapeuta. dade humana. Gil, estudos internacio- Os sintomas mais re- Em março passado, durante o nais demonstram quelevantes de autismo são simpósio “Síndrome de Down - In- os casos de abuso tripli-baixo contato visual, fixa- clusão para a Autonomia”, realizado cam em relação a ho-ção em objetos, hiperati- no Memorial da América Latina, a pes- mens e mulheres comvidade ou apatia total, quisadora Marta Gil, representante do deficiência intelectual.movimentos repetidos, ir- AOS PAIS - Renata sugere se informar mais Amankay Instituto de Estudos e Pes- A saída não está naritabilidade, humor instá- quisas, tratou dessa questão: “Ainda proibição, mas no diá-vel e uma frequência expressiva de rentes” dos filhos. permanecem tabus. Ou é um anjo ino- logo e orientação – fun-posturas bizarras, entre outros. Os portadores de autismo neces- cente, então você nega todo o desejo, NAMORO - Simões e Juliana, juntos desde 2008 damentais para que eles De acordo com Renata, a aceita- sitam de acompanhamento espe- todo o tesão, toda a vontade de ter próprios tenham auto-ção pelos pais do transtorno do fi- cializado de pediatras, neurologistas, uma escolha amorosa, de viver uma Carpe Diem e aborda a dificuldade de nomia e consciência das responsabili-lho é um grande problema para os psiquiatras, psicólogos, fonoaudiólo- afetividade. Ou você vai para o outro estar ao lado do namorado. “Olha, dades e cuidados ao relacionar-se afe-profissionais que tratam de autistas. gos, pedagogos e fisioterapeutas, para lado da gangorra, fala de erotismo exa- tenho e não tenho, porque o encon- tivamente. “A pessoa com deficiênciaA psicóloga afirma ainda que, inicial- que possam ampliar suas capacidades cerbado”, explica. tro muito pouco. Ele é um cliente aqui tem o mesmo direito à sexualidade quemente, procura munir os pais de e habilidades. Com auxílio adequado, Segundo ela, a maioria das famílias do Carpe, o nome dele é Jean, mas, as pessoas normais, e isso é uma for-muitas informações sobre a doença, é possível a um autista, dependendo tenta se esquivar da questão para não assim, a família não deixa, eu vivo mais ma de exclusão. Se eles podem viver napara que possam agir com calma e do grau da doença, frequentar escolas “despertá-la” junto aos adolescentes, na teoria do que na prática”, afirma prática, porque a gente não pode? Étranquilidade diante das ações “dife- convencionais. por exemplo. “Como vai despertar? A Beatriz. Ela diz que só o vê na asso- possível, sim, eles terem a sua própria sociedade está falando disso o tempo ciação, nunca saíram juntos. “As famí- sexualidade”, argumenta Beatriz. Sexualidade, um tema tabu todo; nesse assunto eles já estão liga- dos.” A pesquisadora relata que, na ci- lias não dão o suporte necessário para que o relacionamento aconteça.” Saiba mais sobre o assunto nos dade, os 24 postos especializados em João Alberto Simões, 23 anos, e sites da Associação para Valoriza- Com a dificuldade de estabelecer de autismo geralmente se assustam controle de doenças sexualmente trans- sua namorada Juliana Pontes de Ca- ção e Promoção de Excepcionaisrelacionamento e até mesmo decifrar ao se deparar com sensações novas co- missíveis e Aids nunca receberam a vi- margo Diegues, 29 anos, são colegas (www.avape.org.br), da Associaçãoo desejo por meio de feições e demons- mo, por exemplo, a de que seu pênis sita de uma pessoa com deficiência em de Beatriz no Grupo ADID de Tea- para o Desenvolvimento Inte-trar afeto, o autista não perde sua cairá quando ficar ereto. busca de informações ou preservativos. tro. Eles se encontravam durante os gral do Down (www.adid.org.br)libido, precisa aprender a controlar Existem algumas organizações A reportagem conversou com al- ensaios e às vezes iam juntos ao cine- e da Associação Carpe Diemseus instintos e se reeducar para a se- não governamentais (ONGs) que gumas pessoas com síndrome de ma e ao shopping. O namoro come- (www.carpediem.org.br).xualidade. realizam esse papel, mas a família deve Down para saber o que pensam sobre çou com um beijo durante uma caro- Quando alcançam a puberdade, os conversar sobre o assunto, buscar a o assunto. A atriz Beatriz Paiva, 32 na para a associação. Agora, enfrentamjovens devem ser orientados, princi- melhor forma de ajudar o autista a anos, relações públicas da Federação a distância: ela se mudou para Bocai- * A estudante elege a história de vida de pessoas com síndrome de Down como temapalmente no que se refere à masturba- conviver de modo tranquilo com sua Nacional das Associações de Síndro- na, no interior paulista, o que torna do trabalho de conclusão de curso (TCC)ção, pois os adolescentes portadores sexualidade. me de Down, frequenta a Associação os encontros mais difíceis. no final do ano.
  6. 6. PÁGINA 6 - AGOSTO DE 2009 POLÍTICARetrato de presos políticos na ditadura militar Vítimas do regime que vigorou no Brasil entre 1964 e 1985 narram perseguições, censura e tortura Arquivo Pessoal Antonia Romano tado, usando os impostos que a gen- trabalhadores que se manifestavam Denisa Silva te pagou”, comenta sobre o ex-coro- contra a ditadura. nel. “Eu prefiro olhar para frente a Boano recusou-se a oferecer o do- No último dia 25 de abril foi lan- olhar para trás”, completa. cumento e, no início de 1975, foi oçada a segunda edição do livro “Dos- Diante de todo esse cenário que primeiro da diretoria a ser preso e tor-siê Ditadura: Mortos e Desaparecidos envolveu milhares de pessoas, entre turado. Logo depois, outros dez dire-Políticos no Brasil (1964-1985)”, or- mortos, desaparecidos, torturados, tores foram para a cadeia. “Eles amar-ganizado por Crimeia de Almeida, Ja- perseguidos, presos e seus familiares, ravam o pé e os braços, e aí era fio nasnaína de Almeida Teles, Suzana K. o Cidadão entrevistou duas vítimas pernas, fio nos braços e no pescoço.Lisboa e Maria Amélia Teles. A obra da ditadura militar. São pessoas que Cheguei a ter 32 perfurações dos fiosatualiza os números de mortos e de- sofreram e sofrem com as tristes mar- descascados. Levei chutes nos testícu-saparecidos durante esse período. cas do regime mi- los. O primeiro e Estima-se o total de 426 mortos e litar e tentam, ain- o segundo doíamdesaparecidos. O número de vítimas da hoje, recons- “Levei chutes nos muito; no tercei-não é definitivo, pois não foi possível truir suas vidas, testículos. O primeiro ro, desmaiei”,o acesso aos arquivos militares. Mes- sempre com a e o segundo doíam lembra Boano,mo assim, as investigações conti- sombra do passa- que pensou que ia muito; no terceiro,nuam e espera-se em breve ter o nú- do. Um deles é o morrer.mero oficial de pessoas que sofreram advogado Alcídio desmaiei” O processo Alcídio Boanoas penas do regime militar. Boano, hoje com para sua libertação Janaína Teles é filha de César e 81 anos, que vive durou seis meses.Maria Amélia, militantes do Partido em São Paulo e se diz o “orgulho” O DOI-Codi queria que o sindicalistaComunista do Brasil (PC do B) na dos dois filhos e quatro netos. O se- confessasse 12 reuniões consideradasditadura militar. Aos 5 anos, ela pre- gundo entrevistado é o aposentado “subversivas”. No entanto, para ele,senciou a bárbara tortura de seus pais Michéas Almeida, o Zezinho do Ara- eram “365 reuniões por ano”, relata.e hoje, aos 42 anos, é historiadora e guaia, 71 anos. Ele mora atualmente O então delegado do Dops, Alcidesuma das autoras, ao lado de familia- em Goiás e ministra palestras no Ins- Sigilus, ameaçou devol-vê-lo ao DOI-res, de uma ação na Justiça contra o tituto Araguaia. Codi por causa dessa recusa, o que nãoex-coronel Carlos Alberto Brilhante Em 1974, Alcídio Boano era pre- aconteceu.Ustra, apontado como responsável sidente do Sindicato dos Condutores Os breves relatos de Boano dãopor sequestros, mortes e torturas no de Veículos de São Paulo. Trinta e cin- uma ideia do que significa ter sido umDepartamento de Operações de In- co anos depois, ele relata as repressões preso político e encarcerado na dita-formações e Centro de Operações de que sofreu durante aquele momento dura. Por isso, encaixa-se no perfil deDefesa Interna, o histórico tão difí- um excluído pelo regime militar. EleDOI-Codi de São cil vivido por inú- diz ter sido vizinho de cela de Vladi-Paulo, entre 1970 “Não me afasto dos meros brasileiros. mir Herzog, jornalista que se tornoue 1974, à época o meus companheiros O sindicalista as- um mártir. Seu assassinato pelos mi- REALIZAÇÃO - Hoje, com 81 anos, Alcídio Boano é advogado atuanteórgão de inteli- de sofrimento para não sumiu o cargo litares retratou seu compromisso comgência e repressão por meio de um o ideal libertário. é um dos poucos sobreviventes da eles José Genoíno, hoje deputado fe- esquecer nunca maisdo governo. mandado de se- guerrilha. Em entrevista, ele conta um deral pelo Partido dos Trabalhadores. Quem tam- do meu passado” gurança, e lutou REAÇÃO NO CAMPO pouco de seus difíceis e trágicos dias “Tenho 47 anos de militância po- Zezinho do Araguaiabém sofreu sob o por algum tem- de militância política. lítica, 33 anos de clandestinidade, maisgoverno militar po para que as A Guerrilha do Araguaia aconte- Zezinho começou a atuar na Ju- de 80 nomes usados neste período.foi Ivo Herzog, filho de Vladimir Her- empresas de ônibus regularizassem o ceu no campo, na região do Bico do ventude Operária Católica. Foi para De 1975 a 1996 [21 anos], sofri umzog, jornalista da TV Cultura de São registro dos trabalhadores. Por essa Papagaio, às margens do rio Araguaia, Goiânia em 1959 e em 1962 filiou-se bloqueio psicológico e esta história fi-Paulo que, em 25 de outubro de 1975, iniciativa, foi considerado comunista entre cidades do Pará, Goiás e Tocan- ao PC do B de Goiás. Ali, começou cou ausente da minha vida e, hoje,apareceu morto nas dependências do e enviado para o Departamento de tins. É considerado o mais sério con- sua trajetória em defesa da condição volta e meia, lembro-me de pedaçosDOI-Codi, do 2º Exército de São Pau- Ordem Política e Social (Dops). fronto armado no campo entre as es- de camponês, visando a sua integra- desse passado. Aprendi uma lição: nãolo. Ivo engajou-se na criação do Insti- Eleito, pela terceira vez, para a di- querdas e o regime militar. Começou ção e o reconhecimento da região. “Es- me afasto dos meus companheiros detuto Vladimir Herzog, lançado em retoria geral do sindicato, teve suas cre- a se organizar em 1966, tendo à frente sas iniciativas faziam parte do treina- sofrimento para não esquecer nuncajunho, na Sala Cinemateca (Zona Sul). dencias negadas e ainda foi entregue ativistas do PC do B que se instalaram mento militar e reconhecimento dos mais do meu passado”, diz Zezinho.“Não gosto de saber que tem pessoas novamente ao Dops, que chegou a na região, mas o embate só iniciou de possíveis campos de batalhas, como Ele estima que restaram apenas 12que foram criminosas e ainda estão aí exigir do sindicalista a Ata do Dissí- fato em abril de 1972. preparação para uma ofensiva de milí- sobreviventes da guerrilha. Atualmen-vivendo em cima da máquina do Es- dio, porque nela havia o registro dos O paraense Zezinho do Araguaia cia”, afirma. te, planeja fundar um memorial em Arquivo Pessoal Sua adesão ao movimento era homenagem aos mortos e desapare- clandestina, e em todo o país aconte- cidos do Araguaia, na cidade de Xam- ciam movimentos sociais que encabe- bioá (GO). Em sua opinião, a guerri- çavam a investida na mata, reunindo lha foi uma investida contra a ditadu- os militantes mais expressivos, entre ra, a partir do campo. OEA julga Brasil por Guerrilha do Araguaia Wagner Luis Solà das com a imagem do país no cenário mundial e com os valores que terão No último dia 9 de abril, a Orga- de desembolsar em caso de indeniza- nização dos Estados Americanos ções. O ministro Paulo Vannuchi (Di- (OEA) abriu ação contra o Brasil no reitos Humanos) propôs aos Minis- caso da Guerrilha do Araguaia. Pela térios da Justiça, da Defesa e dos Di- primeira vez na história, o país irá à reitos Humanos uma diligência ao corte para prestar contas da detenção Araguaia com a participação da impren- ilegal, tortura e desaparecimento de 70 sa e familiares de desaparecidos para pessoas ligadas à guerrilha e campo- localizar corpos. neses daquela região durante a dita- O Grupo Tortura Nunca Mais tem dura militar. como objetivo defender os direitos Desde a criação dessas instâncias, humanos, por meio da luta contra a o Brasil era o único país da América violação a tais direitos e do apoio à do Sul imune a este tipo de ação. Seus causa, e também mostrar a história do vizinhos, Argentina, Uruguai e Chile, Brasil durante a ditadura. já prestaram contas para o mundo das O site do Grupo, sediado no Rio barbáries ocorridas no regime militar. de Janeiro, é www.tortura-nuncamais- Isso está tirando o sono das autori- rj.org.br. Há filiais nos Estados doHISTÓRIA - Durante a ditadura militar, Zezinho do Araguaia foi obrigado a trocar de nome mais de 80 vezes dades brasileiras, que estão preocupa- Paraná, Pernambuco e São Paulo.

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