O Egito - by Léon Denis - 1889

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Esoterismo no Egito Antigo

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O Egito - by Léon Denis - 1889

  1. 1. Depois da Morte By Léon Denis Traduzido do Francês Après la Mort 1889 Giotto - A Lamentação O Egito Às portas do deserto erguem-se os templos, os pilonos e as pirâmides,florestas de pedra debaixo de um céu de fogo. As esfinges, retraídas esonhadoras, contemplam a planície, e as necrópoles, talhadas na rocha,abrem seus sólios profundos à margem do rio silencioso. É o Egito, terraestranha, livro venerável, no qual o homem moderno apenas começa asoletrar o mistério das idades, dos povos e das religiões.i A Índia, diz a maior parte dos orientalistas, comunicou ao Egito a suacivilização e a sua fé; outros, não menos eruditos, afirmam que, em época
  2. 2. remota, já a terra de Ísis possuía suas próprias tradições. ii Estas são a herançade uma raça extinta, a vermelha, que ocupava todo o continente austral, e quefoi aniquilada por lutas formidáveis contra os brancos e por cataclismosgeológicos. A Esfinge de Gizé, anterior em vários milhares de anos à grandepirâmide,iii e levantada pelos vermelhos no ponto em que o Nilo se juntavaentão ao mar,iv é um dos raros monumentos que esses tempos remotos noslegaram. A leitura das estrelas,v a dos papiros encontrados nos túmulos, permitereconstituir a história do Egito, ao mesmo tempo em que essa antiga doutrinado Verbo-Luz, divindade de tríplice natureza, simultaneamente inteligência,força e matéria: espírito, alma e corpo, que oferece uma analogia perfeitacom a filosofia da Índia. Aqui, como lá, encontra-se, debaixo da grosseiraforma cultual, o mesmo pensamento oculto. A alma do Egito, o segredo dasua vitalidade, o do seu papel histórico, é a doutrina oculta dos seussacerdotes, cuidadosamente velada sob os mistérios de Ísis e Osíris, eexperimentalmente analisada, no fundo dos templos, por iniciados de todasas classes e de todos os países. Sob formas austeras, os princípios dessa doutrina eram expressos peloslivros sagrados de Hermes, que constituíam uma vasta enciclopédia. Ali seencontravam classificados os conhecimentos humanos, mas nem todos oslivros chegaram até nós. A ciência religiosa do Egito foi-nos restituídasobretudo pela leitura dos hieróglifos. Os templos são igualmente livros, epode-se dizer que na terra dos faraós as pedras têm voz. Um dos grandes sábios modernos, Champollion, descobriu três espéciesde escrita nos manuscritos e sobre os templos egípcios.vi Por aí ficouconfirmada a opinião dos antigos, isto é, que os sacerdotes empregavam trêsclasses de caracteres: os primeiros, demóticos, eram simples e claros; ossegundos, hieráticos, tinham um sentido simbólico e figurado; os outros eramhieróglifos. É o que Heráclito exprimia pelos termos de falante, significantee ocultante. Os hieróglifos tinham um triplo sentido e não podiam ser decifrados semchave. A esses sinais aplicava-se a lei da analogia que rege os mundos:natural, humano e divino, e que permite exprimir os três aspectos de todas ascoisas por combinações de números e figuras, que reproduzem a simetriaharmoniosa e a unidade do Universo. É assim que, num mesmo sinal, oadepto lia, ao mesmo tempo, os princípios, as causas e os efeitos, e essalinguagem tinha para ele extraordinário valor. Saído de todas as classes dasociedade, mesmo das mais ínfimas, o sacerdote era o verdadeiro senhor doEgito; os reis, por ele escolhidos e iniciados, só governavam a nação a titulo
  3. 3. de mandatários. Altas concepções, uma profunda sabedoria, presidiam aosdestinos desse país. No meio do mundo bárbaro, entre a Assíria feroz,apaixonada, e a África selvagem, a terra dos faraós era como uma ilhaaçoitada pelas ondas em que se conservavam as puras doutrinas, a ciênciasecreta do mundo antigo. Os sábios, os pensadores, os diretores de povos, gregos, hebreus,fenícios, etruscos, iam beber nessa fonte. Por intermédio deles, o pensamentoreligioso derramava-se dos santuários de Ísis sobre todas as praias doMediterrâneo, fazendo despontar civilizações diversas, dessemelhantesmesmo, conforme o caráter dos povos que as recebiam, tornando-semonoteísta, na Judéia, com Moisés, politeísta, na Grécia, com Orfeu, porémuniforme em seu princípio oculto, em sua essência misteriosa. O culto popular de Ísis e de Osíris não era senão uma brilhante miragemoferecida à multidão. Debaixo da pompa dos espetáculos e das cerimôniaspúblicas ocultava-se o verdadeiro ensino dos pequenos e grandes mistérios.A iniciação era cercada de numerosos obstáculos e de reais perigos. Asprovas físicas e morais eram longas e múltiplas. Exigia-se o juramento desigilo, e a menor indiscrição era punida com a morte. Essa temível disciplinadava forma e autoridade incomparáveis à religião secreta e à iniciação. Àmedida que o adepto avançava em seu curso, descortinavam-se-lhe os véus,fazia-se mais brilhante a luz, tornavam-se vivos e animados os símbolos. A Esfinge, cabeça de mulher em corpo de touro, com garras de leão easas de águia, era a imagem do ser humano emergindo das profundezas daanimalidade para atingir a sua nova condição. O grande enigma era ohomem, trazendo em si os traços sensíveis da sua origem, resumindo todosos elementos e todas as forças da natureza inferior. Deuses extravagantes com cabeça de pássaros, de mamíferos, deserpentes, eram outros símbolos da vida, em suas múltiplas manifestações.Osíris, o deus solar, e Ísis, a grande Natureza, eram celebrados por todaparte; mas, acima deles, havia um Deus inominado, de que só se falava emvoz baixa e com timidez. Antes de tudo, o neófito aprendia a conhecer-se. O hierofante falava-lheassim: “Oh! alma cega, arma-te com o facho dos mistérios e, na noite terrestre,descobrirás teu dúplice luminoso, tua alma celeste. Segue esse gênio divino eque ele seja teu guia, porque tem a chave das tuas existências passadas efuturas.”
  4. 4. No fim de suas provas, fatigado pelas emoções, tendo dez vezes encaradoa morte, o iniciado via aproximar-se dele uma imagem de mulher, trazendoum rolo de papiros. “Sou tua irmã invisível, dizia ela, sou tua alma divina, e isto é o livro datua vida. Ele encerra as páginas cheias das tuas existências passadas e aspáginas brancas das tuas vidas futuras. Um dia as desenrolarei todas diantede ti. Agora me conheces. Chama-me e eu virei.” Enfim, na varanda do templo, debaixo do céu estrelado, diante de Mênfisou Tebas adormecidas, o sacerdote contava ao adepto a visão de Hermes,transmitida vocalmente de pontífice a pontífice e gravada em sinaishieroglíficos nas abóbadas das criptas subterrâneas. Um dia, Hermes viu o espaço, os mundos e a vida, que em todos oslugares se expandia. A voz da luz que enchia o infinito revelou-lhe o divinomistério: “A luz que viste é a Inteligência Divina que contêm todas as coisas sobseu poder e encerra os moldes de todos os seres. “As trevas são o mundo material em que vivem os homens da Terra. “O fogo que brota das profundezas é o Verbo Divino: Deus é o Pai, o Verbo é o Filho, sua união faz a Vida. “O destino do Espírito humano tem duas fases: cativeiro na matéria,ascensão na luz. As almas são filhas do céu, e a viagem que fazem é umaprova. Na encarnação perdem a reminiscência de sua origem celeste. Cativaspela matéria, embriagadas pela vida, elas se precipitam como uma chuva defogo com estremecimentos de volúpia, através da região do sofrimento, doamor e da morte, até à prisão terrestre em que tu mesmo gemes, e em que avida divina parece-te um sonho vão. “As almas inferiores e más ficam presas à Terra por múltiplosrenascimentos, porém as almas virtuosas sobem voando para as esferassuperiores, onde recobram a vista das coisas divinas. Impregnam-se com alucidez da consciência esclarecida pela dor, com a energia da vontadeadquirida pela luta. Tornam-se luminosas, porque possuem o divino em sipróprias e irradiam-no em seus atos. Reanima pois teu coração, ó Hermes, etranqüiliza teu espírito obscurecido pela contemplação desses vôos de almassubindo a escala das esferas que conduz ao Pai, onde tudo se acaba, ondetudo começa eternamente. E as sete esferas disseram juntas: Sabedoria!Amor! Justiça! Beleza! Esplendor! Ciência! Imortalidade!”.vii O pontífice acrescentava:
  5. 5. “Medita sobre esta visão. Ela encerra o segredo de todas as coisas.Quanto mais souberes compreendê-la, tanto mais verás se alargarem os seuslimites, porque governa a mesma lei orgânica os mundos todos. Entretanto, ovéu do mistério cobre a grande verdade, pois o conhecimento total desta sópode ser revelado àqueles que atravessarem as mesmas provas que nós. Épreciso medir a verdade segundo as inteligências, velá-la aos fracos porqueos tornaria loucos, ocultá-la aos maus que dela fariam arma de destruição. Aciência será tua força, a fé tua espada, o silêncio teu escudo.” A ciência dos sacerdotes do Egito ultrapassava em bastantes pontos aciência atual. Conheciam o Magnetismo, o Sonambulismo, curavam pelosono provocado e praticavam largamente a sugestão. É o que eles chamavam“Magia”.viii O alvo mais elevado a que um iniciado podia aspirar era a conquistadesses poderes, cujo emblema era a coroa dos magos. “Sabei, diziam-lhe, o que significa esta coroa. Tua vontade, que se une aDeus para manifestar a verdade e operar a justiça, participa, já nesta vida, dapotência divina sobre os seres e sobre as coisas, recompensa eterna dosespíritos livres”. O gênio do Egito foi prostrado pela onda das invasões. A escola deAlexandria colheu algumas das suas parcelas, que transmitiu ao Cristianismonascente. Antes disto, porém, os iniciados gregos tinham feito penetrar asdoutrinas herméticas na Hélade. É aí que vamos encontrá-las.
  6. 6. i Ver as obras de François Lenormant e Maspéro.ii Maneton atribui aos templos egípcios uma tradição de trinta mil anos.iii Um manuscrito da quarta dinastia (4000 anos a.C.) relata que a Esfinge, enterrada nas areias e olvidada desde séculos, foi encontrada fortuitamente nessa época. (Histoire d’Orient, por Lenormant.)iv O delta atual foi formado pelas aluviões sucessivas depositadas pelo Nilo.v Colunas herméticas.vi L’Egypte sous le Pharaons, por Champollion.vii Ver Pimander. o mais autêntico dos livros de Hermes Trimegisto.viii Diodoro da Sicilia e Estrabão referem que os sacerdotes do antigo Egito sabiam provocar a clarividência com um fim terapêutico. Galien menciona um templo perto de Mênfis, célebre por curas hipnóticas.

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