Milton schwantes-isaías-69-10

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  • Schwantes é sem dúvida um dos maiores biblistas do século XX, sua contribuição para a pesquisa acadêmica é imensurável
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Milton schwantes-isaías-69-10

  1. 1. Maiêut. dig. R. Fil. Ci. afins, Salvador, v. 2/3, p. 54-64 , maio 2007/dez. 2008 54 “Dize a este povo: para que não entenda”!: observações exegéticas sobre Isaías 6,9-10 Milton Schwantes Professor da Universidade Metodista de São Paulo (Umesp). Coordenador da Bibliografia Bíblica Latina- Americana. Membro do Conselho Editorial da revista Maiêutica Digital, da Faculdade Batista Brasileira. E-mail: milton.schwantes@metodista.br Resumo Na unidade de Isaías 6-9, o assim chamado memorial profético de Isaías sobre a guerra siro- efraimita, em 734 e 733 a.C., o conceito “este povo” assume um significado específico e historicamente concreto. Não designa o conjunto da população, mas de um de seus setores específico. Proponho que este sentido “específico” reside em que “este povo” designa as elites do estado judaíta, em Jerusalém. Esta hipótese já tem sido assinalada por outros autores, mas não foi, por eles, vista em suas devidas consequências. Say to this people: for who do not understand!": comments exegesis on Isaiah 6,9-10 Abstract At the Isaiah 6-9, the so-called prophetic memorial of Isaiah on the war-efraimita Siro in 734 and 733 BC, the term "this people" has a specific meaning and historically specific. No means the whole population, but one of its specific sectors. I propose that this sense "specific" is that "this people" means the elites of the state judaíta in Jerusalem. This hypothesis has been reported by other authors, but it was not for them, in their view due consequences. INTRODUÇÃO Os vs. 9-10 começam novo assunto no cap. 61 de Isaías. O relato passa de imediato à instrução do enviado. Consiste ela do ir, do falar (v. 9) e do fazer (v. 10). Não se anota expressamente que Isaías se dispôs a ser o enviado e que isso foi aceito pelo Senhor. Mas isso se pressupõe no contexto do relato narrativo do cap. 6. Portanto, podemos dar destaque a este dois versículos, os v. 9-10, e buscar sua compreensão. Esta é a meta do presente artigo: concentrar-se em Isaías 6,9-10 em busca de correlacionar seus conteúdos a um sentido específico da expressão “este povo”. Entenderei que esta expressão está relacionada às elites de Jerusalém.
  2. 2. Maiêut. dig. R. Fil. Ci. afins, Salvador, v. 2/3, p. 54-64 , maio 2007/dez. 2008 55 TRADUZINDO Vejamos uma tradução dos dois versículos em questão: 9 E (ele) disse: Vai e dize a este povo: Ouvi constantemente e não entendais! Vede continuamente e não compreendais! 10 Enche de gordura o coração deste povo! Seus ouvidos faze pesados, seus olhos fecha,2 para que não olhe com seus olhos, com seus ouvidos não ouça, seu coração não entenda, e, em consequência, se converta e se cure. O JEITO DE SER A fórmula “vai e dize” é comum, tanto em se tratando de mensageiros (confira 1Rs 18, 8;2Rs 8,10), quanto em se tratando de profetas (confira 2Sm 7,5; Is 38,5). Em todo caso, essa ‘fórmula de envio’ sempre encaminha para uma tarefa concreta. Isso significa que o “ir” (hlk) de Isaías ocorre em função de uma tarefa concreta. Logo, o v. 9 não está convocando Isaías para um cargo mas para uma missão específica. Essa conclusão que se impõe a partir do texto hebraico confirma a observação, conforme as quais o cap. 6 não representa o início da atividade de Isaías, mas nela um momento e uma mensagem especial. O “ir” inclui necessariamente a saída do templo. O retumbante canto dos serafins fora até o limite do templo (v. 4). Agora, Isaías é impelido a ultrapassar este limite: do templo ao povo. Uma das questões que com isso se coloca é a seguinte: passo a passo observávamos como nos v. 1-8 toda linguagem provinha do culto; estávamos no templo. Será que continua esse tipo de linguagem? A outra questão que se impõe é: será que o enviado terá sucesso? Por ora só podemos anotar as perguntas.
  3. 3. Maiêut. dig. R. Fil. Ci. afins, Salvador, v. 2/3, p. 54-64 , maio 2007/dez. 2008 56 A tarefa consiste em “dizer”. Esse verbo ‘mr “dizer” é um verbo corriqueiro, como se pode ver em sua constante repetição em nosso próprio capítulo. Um verbo mais solene como qr’ “proclamar” está reservado para os serafins (v. 3-4). Isaías não “proclama”, ele simplesmente “diz a (ou: contra?) este povo”. A expressão “este povo” (ha-‘am ha-seh) tem uma conotação especial. Ela sempre tem conotação negativa em Isaías; para “este povo” não há esperança. Ela quase só se encontra em textos após o cap. 6: 6,10; 8,6.11-12; 9,15;28, 11.14; 29, 13s, confira ainda 14,32.3 Antes de Is 6, a formulação “este povo” não aparece em Isaías, mas somente “povo” (3,5), “meu/seu povo”. Também este “meu/seu povo” (isto é, povo de Javé) tem culpa (1,3; 3,14; 5,13.25), porém com ele Deus está sensibilizado (2,6;3, 5.12.14-15, veja 10,2). Quando Deus diz ‘meu povo’, então porque está lutando por seu povo; diz-se “este povo”, então porque o rejeitou. Mas, afinal, quem é “este povo”? São todos os integrantes de Judá, Jerusalém, Israel? Ou, “este povo” é uma grandeza bem específica? Teremos que voltar a estas perguntas (PICCOLI, 1992). Portanto, já na “fórmula de envio” está claro que o Senhor perdeu a esperança com alguém, com “este povo”. O conteúdo da mensagem (v. 9b) e da ação (v. 10), das quais o profeta é incumbido corroboram o que a expressão “este povo” faz pressentir. A MENSAGEM O conteúdo da mensagem é terrível! Ela é introduzida como outras palavras proféticas, por um “[...] apelo à atenção [...]” (KOCH, 1974) (“ouvi”) e um “apelo à observação” (“vede”). Os apelos à atenção são muito freqüentes entre os profetas (vê Is 1,2.10; 7,13; 28,14.23; 32,9; 33,13; 36,13, confira Am 3,1; 4,1; 5,1 etc.). Menos freqüente é o apelo à observação (veja Jr 2,10.19.23.31; 3,2; 5,1; 2Rs 7,14 etc.). Mas, a junção desses dois apelos4 por certo que se justifica a partir do contexto: Isaías retoma os dois verbos centrais do v.1-8: “ver” (v. 1) e “ouvir” (v. 8)! Também, o fato de os dois imperativos (xime‘u “ouvi”, re’u “vede”) serem reforçados por infinitivos absolutos (xamoa‘, ra’o) tem um sentido bem especial. É que nesse caso (BUDDE, 1972, § 46c.), o infinitivo expressa continuidade e repetição. Portanto, com os dois apelos, o profeta indica para várias de suas palavras, em que acusava e ameaçava5 “este povo.”
  4. 4. Maiêut. dig. R. Fil. Ci. afins, Salvador, v. 2/3, p. 54-64 , maio 2007/dez. 2008 57 Isaías inicia, pois, como se fosse formular uma palavra de censura e ameaça. Mas qual nada! Ao invés do conteúdo dessa palavra – que em pensamentos se deve imaginar – o profeta já apresenta a reação dos ouvintes a ela. Aquilo que, formalmente, é a palavra (não entendais! não compreendais!), já é a reação dos ouvintes. E, de fato, entendimento e conhecimento são exatamente o que, por outras passagens do profeta, falta ao povo (1,3; 5,13.19; 27,11; 29,24). Ele não “entende” (byn k.) e não “conhece” (yd‘); tanto um quanto o outro verbo referem-se a conhecimento teórico e prático (veja Is 1,3 e 29,15-16). Portanto, não se deve querer ver no v. 9 uma palavra que Isaías, nesses termos, dirigiu a ouvintes. Uma tal palavra nem mesmo se encontra em seu livro! Aqui já estamos diante do resultado de sua pregação. E o resultado consistiu numa catástrofe: ninguém ouviu (30,15)! Consequentemente este v. 9 pressupõe que Is 6 tenha sido formulado depois de uma certa época de atividade profética. O acontecimento da visão não coincide com sua formulação, como acima já havíamos percebido. A linguagem do v. 9 não é a mesma dos versículos anteriores. Nos v. 1-8, a linguagem provinha do culto. O v. 9 é diferente. O estilo dos apelos à atenção e à observação eventualmente provém da instrução escolar (Pv 4,1; 7,24; 22,17; Jó 13,6; 33,3). O verbo byn “entender” usa-se muito na sabedoria (Pv 2,5.9; 14,15; 19,25 etc.) e yd‘ “conhecer” em todo caso – em Isaías diferente que em Oséias (WOLFF, 1964, p. 182-205) – não deve ser localizado no ambiente do culto. Essa diferença de linguajar do v. 9 para os vs. 1-8 continua nos vs.10-13? O v. 10, ao menos, não são palavras do culto. São antes, falando modernamente, palavras de “médico”, de observador do corpo humano. Com elas, a mensagem terrível do v. 9 é ainda radicalizada. Pois, agora, não se trata só da palavra e da sua reação nos ouvintes (v. 9), mas da própria ação profética que irá impedir até mesmo o ouvir, o ver e o entender. [Os verbos da primeira parte do v. 10 estão no hifil que sempre tem significado causativo]. Também, nessa sua ação, o instrumento do profeta certamente não é outro que o da palavra. O terrível é que o v. 9 ainda pressupunhaapossibilidade do ouvirever. Atéisso énegado no v. 10. O v. 10 nega o que é normal!
  5. 5. Maiêut. dig. R. Fil. Ci. afins, Salvador, v. 2/3, p. 54-64 , maio 2007/dez. 2008 58 O normal é que o “coração” [leb ou lebad] entenda [byn “entender”]. É o que os textos pressupõem: Is 32,4; Pv 2,2; Ec 8,5; Da 10,12, veja Dt 8,5; Jó 17,4; Ec 7,2. Entender é propriamente a função do coração. É a sua tarefa. Mas essa função precípua do coração de princípio é rejeitada e tornada impossível. A preposição pen “para que não” é a “conjunção da rejeição” (KÖHLER, 1985, p. 765). O coração não pode mais assumir sua tarefa, porque ele é engordado [xmn “engordar”]. Parece-me que com essa expressão o profeta não só se refere ao estado doentio de adiposidade do coração. Refere-se, ao meu ver, muito mais à neutralização do coração que à semelhança de um pedaço de carne é embebido em óleo ou banha para assim ser conservado. Dessa maneira o coração perde sua função. Vê-se logo que nessa neutralização do coração consiste a ação mais importante de Isaías: além de ser citado em primeiro lugar e de não ser instrumento6 (como olhos e ouvidos)7 mas sujeito do conhecimento, o coração afinal é o centro da vontade e da decisão [funções que nós hoje atribuímos à cabeça, ao cérebro]. Este centro vital é posto fora de funcionamento. Isso equivale à doença de morte. – No entanto, mais outra particularidade chama atenção quanto ao coração. Ora, a expressão “coração/ouvidos/olhos deste povo” é curiosa. Pois, nela, se junta um vocábulo da corporeidade e individualidade (“coração”) a um vocábulo da política e coletividade (“povo”). Nesse pequeno detalhe, pode-se ilustrar quão impossível seria querer centrar o Antigo Testamento unicamente no coração do indivíduo ou somente na coletividade do povo. O normal é que se “ouça” (xm‘ “ouvir”) com o “ouvido” (’osen). É o que outros textos bíblicos pressupõem: Is 11,3; Jr 26,11; Sl 22,12; Jó 13,1 etc. Ouvir é a função do ouvido. É sua tarefa. Ela, porém, é negada, rejeitada (pen). A inaptidão do ouvido para sua função, todavia, não se deve a uma surdez doentia, o que o hebraico expressaria com o verbo hrx k. “ser surdo”. A surdez é causada (hifil!) pela palavra profética que “faz pesado” (kbd hi.) o ouvido. Este verbo não nos dá a possibilidade de sabermos claramente de que maneira o ouvido ficou obstruído (tornou-se pesada a orelha a ponto de encobrir o ouvido? ìmpurezas teriam entulhado a orelha?). Também em Is 59,1 e Zc 7,11 o verbo kbd é relacionado ao ouvido, contudo sem deixar transparecer qual é o mal concreto.8 O normal é que se “veja” (r’h) com os “olhos” (‘ayin). É o que outros textos pressupõem: Gn 45,12; Dt 3,21; Is 6,5; Jr 5,21 etc. Ver é a função dos olhos. Ela, porém, é
  6. 6. Maiêut. dig. R. Fil. Ci. afins, Salvador, v. 2/3, p. 54-64 , maio 2007/dez. 2008 59 rejeitada (pen). Mas, também os olhos não estão doentes nem são cegos, pois para expressá-lo o hebraico tem termos específicos: ‘iver “cego”. Os olhos “foram colados” (hifil!). Se entendemos corretamente o verbo x‘‘ hi. “colar”, “tapar”, “grudar” – só usado por Isaías (29,19; 32,3?) – então por cima dos olhos é passada uma camada pegajosa que impossibilita a visão. Portanto: coração, ouvidos e olhos do povo não estão possuídos por anormalidades doentias, mas por doença voluntativa. Através de sua ação, o profeta torna o povo incomunicável (olhos e ouvidos) e incapaz de pensar (coração). Estas condições geraram a morte “deste povo”. A catástrofe se assemelha àquela de Gn 11, da assim chamada torre de Babel! A finalidade última dessa ação profética é que “este povo” não “se converta e se cure”. Nesta frase tão pequenina final está o alvo último do v.10 (o final do v.10 não participa da disposição quiástica do v. 10). Mas sua autenticidade e sua compreensão são muito discutidas: Parece-me que o problema básico está na compreensão dessa frase: Em discussão, está a tradução do verbo xvb. Significa “retornar”, mas, quando lhe precede outro verbo, pode expressar a repetição da ação do verbo subseqüente. Esse é o caso no v.13 e em Gn 26,18; 30,31; Jr 18,4 etc. E, também, o poderia ser em nossa frase va-xab ve- repa’ lo que então se traduziria por: “e novamente se cure”. A sugestão para assim traduzir o v.10 é antiga. É defendida por GESENIUS, (1962, p. 811), KAISER (1963, p. 57), SAUER et al. (1970, p. 279-284). Ela, no entanto, é improvável por três motivos: primeiro e principalmente, porque a Septuaginta não traduziu xvb por palin “novamente” (como no v.13!), mas por epistrefo “retornar”. - Segundo, porque a tradição masorética diferencia claramente entre os dois verbos em questão: o primeiro va-xab é um ‘perfeito hebraico’ + ve, enquanto que o segundo ve-rapa’ é um ‘perfeito consecutivo’. Isso significa que va-xab inclusive tem que ser traduzido por “e, em conseqüência, se converta”, pois trata-se de um perfeito hebraico que continua um imperfeito (yabin). – Terceiro, porque Isaías usa o verbo
  7. 7. Maiêut. dig. R. Fil. Ci. afins, Salvador, v. 2/3, p. 54-64 , maio 2007/dez. 2008 60 xvb em outros textos: 7,3; 30,15. Concluindo: no final do v. 10 xvb não deve ser traduzido por “novamente”, mas por “retornar”, “converter-se”. Em discussão, também está a pergunta pelo sujeito na parte final do v. 10: Deus ou “este povo”? Deus não pode ser sujeito; pois, vs. 9-10 são palavra de Deus. Deus falaria de si na primeira pessoa, como se pode ver na própria Septuaginta. Só resta “este povo” como sujeito, o que também é o mais lógico no v. 10. Nesse caso, temos um le reflexivo em rapa’ lo: “e se cure.” Por fim, em discussão, está a autenticidade do final do v. 10. FOHRER, (1960) e SAUER (1970, p. 284), por exemplo, consideram-no um acréscimo posterior ao texto de Isaías. É verdade que a parte final do v. 10 caia fora da estrutura quiástica do restante do versículo. E é verdade que essa parte final seja difícil de entender. Mas nem um e nem outro argumento servem de base para considerá-lo como acréscimo posterior. Podemos, pois, atribuir as últimas palavras do v. 10 ao nosso profeta e podemos traduzi- las por “e, em conseqüência, se converta e se cure”. Essa é a consequência última da palavra e da ação de Isaías. “Este povo” não terá mais chance para “retornar” e “se converter” (xvb) e para se “curar” (rp’ Is 19,22; 30,26). xvb “converter-se” exprime o retorno ao local de saída, no caso a volta ao convívio original com o Senhor. O verbo rp’ “curar” expressa essa situação ideal. Este verbo está no nível das outras expressões que no v. 10 se referem ao corpo humano. Naturalmente, como os outros verbos do v. 10 não dizem respeito só à cura do corpo doente. Trata-se de cura total (Os 6,1), incluindo também perdão (Sl 103,3). Em relação ao final do v. 10 se impõe mais outra observação. Pois, aquilo que Isaías nega como possibilidade atual para “este povo”, ele anteriormente aguardara. Is 30,15 indica nessa direção: a conversão (xubah) teria sido a salvação, “mas não o quisestes”. Em alguma fase de sua atividade, o profeta deve ter falado da necessidade do “retornar”. Sim, a partir de 7,3, sabemos que essa fase ocorreu quando nasceu o filho xe’ar yaxub “Um-resto-volta”. Ela só pode ter ocorrido antes de Is 6! Em Is 6,10, essa possibilidade está aniquilada, rejeitada (pen!).
  8. 8. Maiêut. dig. R. Fil. Ci. afins, Salvador, v. 2/3, p. 54-64 , maio 2007/dez. 2008 61 Com isso, estamos encaminhando para o problema que os vs. 9-10 representam na tradição da fé cristã: Deus mesmo fecha seu povo para sua palavra!? Deus como motivador da incredulidade!? Esse motivo passou ao Novo Testamento, onde Isaías 6,9-10 é várias vezes retomado (Mt 13,14s; Mc 4,12; Lc 8,10; Jo 12,40; At 28,26-27) e o assunto está presente no apóstolo Paulo (Rm 9,18; 11,7-25). De lá passou para a dogmática cristã, para a doutrina de providência e predestinação. Nosso texto de Is 6,9-10 situa-se dentro dessa tradição. Mas, por certo, não podemos discutir, aqui, essa problemática em sua amplitude. Podemos arriscar algumas observações a partir do texto de Isaías 6,9-10: Já a tradução grega, a Septuaginta, mostra que a afirmação de Deus como causador da incredulidade foi inquietante. Na LXX, o povo (e não o profeta sob mando de Deus) é responsável por coração, ouvidos e olhos fechados. E, só nessa formulação(!), Is 6,9-10 passou ao Novo Testamento. Se, porém, o próprio povo se tivesse fechado à palavra, como o quer a Septuaginta e, com ela, o Novo Testamento, então Is 6,9-10 deixa de conter uma afirmação inquietante. Na verdade, pelo texto masorético a impossibilidade de crer provém do próprio Deus. Contudo, a tradução da Septuaginta também não se encontra num caminho totalmente errado. Pois, vê-se que no Antigo Testamento um mesmo acontecimento de incredulidade pode ser tido como causado por Deus e pelas pessoas. Compara Ex 4,21 com 1Sm 6,6, e Is 6,9-10 com Zc 7,11 para comprová-lo. A incredulidade como culpa humana e a incredulidade ocasionada por Deus evidentemente estão entre si relacionados. No próprio texto de Is 6,9-10 se percebe este relacionamento. Pois a afirmação dos v.9- 10 não nasceu como frase absoluta, como dogma. Mesmo que ainda não tenhamos estudado todo o contexto de Is 6, já se pode afirmar que Is 6 pressupõe a experiência profética e a decepção de Isaías com uma parte de seus ouvintes. vs. 9-10 nasceram nessa situação de rejeição real da palavra profética. É experiência, não dogma. Decisivo neste particular é a expressão “este povo”. Pois, ela não se refere ao conjunto da população. Refere-se antes a um grupo social específico. Acontece que, no hebraico, o termo ‘am não se refere genericamente a “povo”, mas concretamente a setores sociais específicos. Sim, também é possível que ‘am se aplique, em geral, a ‘povo’ no sentido de população ou habitante. Mas este não é o caso em Is
  9. 9. Maiêut. dig. R. Fil. Ci. afins, Salvador, v. 2/3, p. 54-64 , maio 2007/dez. 2008 62 6-9, onde a expressão ha-‘am ha-seh não visa abrigar terminologicamente o povo em geral, mas setores sociais específicos, circunscritos aos senhores do poder.9 CONCLUINDO Ao concluir este estudo, seria, porém, insuficiente ver nos v. 9-10 só a explicação da experiência. Ora, foi Deus quem endureceu o coração deste povo e não o inverso. Para entender melhor o endurecimento como ação divina, convém tomar em conta que Is 6,9-10 não são um texto isolado. Também o coração de faraó foi endurecido: Ex 4,21; 7,3.13; 8,11; 1Sm 6,6. (HESSE, 1955, p. 74; RAD, 1974, p. 144-166). Nesse endurecimento do Faraó, reside a catástrofe do Egito (veja Ex 14,20-31; 15,19.21). Algo semelhante ocorre em Is 6,9- 10. O contexto de vs. 9-10 é o v. 11. V.11 é o anúncio da destruição das condições de vida de “este povo”. Este anúncio da destruição total dos totalitários em Israel/Judá é, sem dúvida, a característica específica dos profetas do 8º século: Amós (8,2 + 9,1-4), Oséias (1,2-9), Miquéias (3,12.).10 Como se vê no v. 11, o anúncio desse fim de “este povo”, causado pelo Senhor(!), é a tarefa de Isaías. Diante desse fim que vem não há nem mesmo chance de mudança e conversão (veja Is 9,1-2+3-9 e 7,10-17). Nesse sentido, vs. 9-10 não representam nada de extraordinário. São só o outro lado do fim, sua concretização pessoal. NOTAS 1 Veja a respeito de Isaías 6 e, em especial, dos v. 9-10: Croatto, José Severino, Isaías 1-39, Petrópolis: Vozes, 1989. 247p. (Comentário Bíblico); Kaiser, Otto. Der Prophet Jesaja - Kapitel 1-12, Goettingen, Vandenhoeck & Ruprecht. 5. ed., 1981. p. 132-133. (Das Alte Testament Deutsch, 17), e Wildberger, Hans. Jesaja, Neukirchen, Neukirchener Verlag, 1968/1969, p. 230-261; Duhm, Berhard. Das Buch Jesaja, Goettingen, Vandenhoeck & Ruprecht, 5. ed., 1968. p. 64-69; Muller, Ênio. Isaías 1 a 12. Curitiba: Missão /Encontrão, 1992. p.73-82. (Em Diálogo com a Bíblia, 19/1); Schoekel, Luis Alonso. Profetas I – Isaias e Jeremías. Madrid: Ediciones Cristiandad, 1980. p.138-145. 2 Ou: “cola”. 3 Quando no livro de Isaías se fala da esperança para o povo de Deus (10,24; 11,11.16; 25,8; 26,11.20; 28,5; 30,19.26; 32,13.18), nunca é usada a formulação “este povo.” 4 O duplo apelo é igualmente freqüente no linguajar profético (Is 1,2.10; 28,23; Os 5,1 etc.). Hans Walter Wolff designa-o de “fórmula para introduzir uma doutrinação.”
  10. 10. Maiêut. dig. R. Fil. Ci. afins, Salvador, v. 2/3, p. 54-64 , maio 2007/dez. 2008 63 Dodekapropheton 1 - Hosea, Neukirchen, Neukirchener Verlag, 2., 1965, p.122-123. [Biblischer Kommentar Altes Testament, 14/1]). Deste comentário há tradução ao inglês. 5 Penso que o apelo para ver não quer dizer que o povo deva ter visões (assim a Vulgata), mas que se conscientize de sua culpa. 6 No texto hebraico de Isaías, encontrado em Qumrã, na Septuaginta e na Vulgata também o coração é ‘instrumento’, como olhos e ouvidos. 7 Trata-se, na segunda parte do v.10, da preposição be “em”/“com” instrumental: be-‘enav “com seus olhos”, be-‘osnav “com teus ouvidos”. 8 Em Ex 8,11.28; 9,7.34; 10,1 e 1Sm 6,6, a raiz verbal kbd refere-se ao coração e em Gn 48,10 aos olhos. 9 Veja a respeito de detalhes desta argumentação a dissertação de mestrado de Daniel Piccoli, A expressão “este povo” no Livro de Emanuel. 10 Veja a respeito meu ensaio sobre Amós: meditações e estudos. São Leopoldo, Sinodal, 1987. Observe, em especial, o cap. 3. REFERÊNCIAS CROATTO, José Severino. Isaías 1-39. Petrópolis: Vozes, 1989. (Comentário Bíblico). DUHM, Berhard. Das Buch Jesaja. 5. ed. Goettingen: Vandenhoeck & Ruprecht, 1968. FOHRER, Georg. Das Buch Jesaja 1. Band Kapitel 1-23, 1960. (Zürcher Bibelkommentare). GESENIUS, Wilhelm. Hebräisches und aramäisches Handwörterbuch über das Alte Testament. 18. ed. Berlin: Springer Verlag, 1962. HESSE, Franz. Das Verstockungsproblem im Alten Testament. Eine frömmigkeitsgeschichtliche Untersuchung, 1955. Beihefte zur Zeitschrift für die alttestamentliche Wissenschaft, 74]. HOLLENBERG-BUDDE. Gramática elementar da língua hebraica. São Leopoldo: Faculdade de Teologia, 1972. KAISER, Otto. Der Prophet Jesaja Kapitel 1-12. 2. ed. Goettingen: Vandenhoeck & Ruprecht, 1963. (Das Alte Testament Deutsch, 17). KAISER, Otto. Der Prophet Jesaja - Kapitel 1-12. 5. ed. Goettingen: Vandenhoeck & Ruprecht, 1981. (Das Alte Testament Deutsch, 17). KOCH, Klaus. Was ist Formgeeschichte? methoden der bibelexegese. 3. ed. 1974.
  11. 11. Maiêut. dig. R. Fil. Ci. afins, Salvador, v. 2/3, p. 54-64 , maio 2007/dez. 2008 64 KÖHLER, Ludwig. Lexicon in veteris testamenti libros. Leiden: E. J. Brill, 1985. MULLER, Ênio. Isaías 1 a 12. Curitiba: Missão/Encontrão, 1992. (Em Diálogo com a Bíblia, 19/1); PICCOLI, Daniel. Profecia e grupos dominantes em conflito. 1992. 167 f. Dissertação (Mestrado em Teologia)-Faculdade de Teologia Nossa Senhora da Assunção, São Paulo, 1992. PROFECIA e grupos dominantes em conflito. Revista de Cultura Teológica, São Paulo, v. 1, n. 1, p. 7-14, 1992. RAD, Gerhard von. Teologia do Antigo Testamento. São Paulo: ASTE, 1974. v. 2. SAUER, George. Die Umkehrungsforderung in der Verkündigung Jesajas. In: ______. Wort- Gebot-Glaube em honra a Walther Eichrodt, 1970. (Abhandlungen zur Theologie des Alten und Neuen Testaments, 59). SCHOEKEL, Luis Alonso. Profetas I: Isaias e Jeremías. Madrid: Cristiandad, 1980. SCHWANTES, Milton. Amós: meditações e estudos. São Leopoldo: Sinodal, 1987. WILDBERGER, Hans. Jesaja. Neukirchen: Neukirchener Verlag, 1968/1969. WOLFF, Hans Walter. Dodekapropheton 1: Hosea. 2. ed. Neukirchen: Neukirchener Verlag, 1965. (Biblischer Kommentar Altes Testament, 14/1). WOLFF, Hans Walter. Wissen um Gott’ bei Hosea als Urform von Theologie. In:______. Gesammelte Studien zum Alten Testament. Munique: Christian Kaiser Verlag, 1964. [Theologische Bücherei, 22]. Artigo recebido em 06/03/2008 e aceito para publicação em 25/06/2008.

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