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Produção
Autora: Tatiana Fernandes
Ilustrações: Weslley Wyzz e Tatiana Fernandes
Capa: Weslley Wyzz e Tatiana Fernandes
Revisão: Norma Kátia Rocha Cardoso
Projeto gráfico e diagramação: Weslley Wyzz
3
Sumário
Agradecimentos.......................................2
Sumário.......................................3
Introdução.......................................6
Meu aniversário.........................................9
Um dia normal.........................................16
4
Um presente peludo................................20
Um dia na casa da vovó..........................27
O dia do banho.........................................32
Um convite para o cinema......................35
O vestido....................................................42
Meu primeiro beijo..................................48
E a faculdade.............................................53
5
Eu só quero................................................56
Contatos.....................................................61
6
Introdução
Oi! Chamo-me Clarice, tenho quinze anos, filha
única de um pai que é escritor e de uma mãe que
é artista plástica. Eles não são renomados, mas
são muito talentosos. O meu pai se chama Vítor
e a minha mãe, Marta. O meu nome se deu pelo
estranho fato que minha mãe queria chamar-me
de Clara, mas o meu pai adora arroz, e quis hom-
enagear seu prato preferido, pra não ficar Clar-
roz, ele usou a tradução de arroz que no inglês é
rice, ficou Clarice Bizarro, né?! Bom, confesso que
o meu nome pode ser meio estranho, mas até que
gosto, pois é diferente. E o meu nome não é a úni-
ca coisa diferente na minha vida. Para começar,
sou a única ruiva da cidade onda moro, Ervilhas,
é composta em 99% descendentes de japoneses.
Eu e a minha família somos o 1%, e não é só isso
7
de diferente. A casa onde eu e minha família mo-
ramos é a única casa amarela da cidade, e quan-
do digo família estou referindome a meus pais e
o Kobe, meu cachorro. Moro nessa cidade desde
que nasci. Tenho uma amiga chamada Kira, es-
tudamos na mesma escola desde os 11 anos de
idade. Sou um pouco introvertida, até mesmo,
algumas vezes, com os meus pais. Sabe aquela
fase de complexidade da adolescência? Pois é,
estou passando por ela, e os meus pais parecem
não saber lidar muito com essa situação, pois eles
trabalham muito, posso dizer que o meu pai fica
umas 14 horas, por dia, escrevendo os seus liv-
ros no notebook, e a minha mãe tem seu próprio
estúdio de arte em casa. Ela, praticamente, mora
nesse estúdio. Tudo bem, mas aí você se pergunta,
e as tarefas da casa, e as refeições, quem faz? Bom,
escrever não é única coisa que o meu pai sabe faz-
8
er, é ele quem cozinha em casa. Como tarefas da
casa, cada um faz um pouco, por exemplo, eu fico
com as tarefas de limpar o meu quarto e cuidar
do Kobe e a minha mãe limpa a casa, quando não
está pintando. Contudo o drama todo não está só
no fato de os meus pais trabalharem muito e não
me derem muita atenção.
9
Capítulo 1
Meu aniversário
10
Dia 18 de março, meu aniversário. Um dia “le-
gal”. Você sabe o corre-corre para decorar e para
fazer o bolo, sem falar dos outros detalhes que
nem vou citar de tantos que são. O porquê das
aspas em “legal”? Não é devido ao corre - corre,
e ,sim ,ao fato de que eu estou a crescer, e quan-
do digo a crescer, não digo do tipo preferir fazer
compras com amigas ou preferir poder comprar
o que quiser ou mesmo ter uma festa de quinze
anos, por exemplo, e sim ao fato de ser tudo e
nada ao mesmo tempo. Sei que parece confuso,
mas é exatamente como me sinto em relação a
minha festa de aniversário. Acho que, de alguns
anos pra cá, não tenho tido mais todo aquele en-
tusiasmo que sentia quando criança, digo com a
preparação da minha própria festa, pois era as-
sim que eu comemorava o meu aniversário. Nor-
11
malmente, pessoas fazem surpresas, mas eu não
gosto de surpresas e sempre ajudei os meus pais
na minha festa de aniversário. Era tão divertido!
Se não me falha a memória, essa transição da ân-
sia que sentia ao preparar a minha própria fes-
ta começou aos 10 anos de idade, depois disso,
comecei a desanimar. Não é vergonha dos pais
ou algo do tipo, e sim, eu, simplesmente, não
consigo explicar o que é. Tenho passado por mo-
mentos bem complexos, enquanto preocupações
e sentimentos de “não sei o quê”. Foi assim que
nomeei esses sentimentos, pois é isso que tais sen-
timentos são para mim. Embora os “não sei quê”
estejam em mim a respeito do meu aniversário,
eu gosto das memórias e do sentido por trás dos
aniversários que já tive. Um exemplo deles, foi o
meu de 8 anos. Como todo amante de arte que
se preze, a minha mãe não poderia deixar de or-
12
ganizar e executar uma decoração, e o mais legal é
que me deixava ajudá-la. Ela não se importava se
eu não sabia desenhar lindamente, ela, simples-
mente, queria que eu fizesse o meu melhor. Ela
dizia que cada um poderia ser artista, cada um
teria uma obra única, que por mais que os outros
não achassem bonitos os meus desenhos, isso não
importava, pois era lindo porque eu os fiz. Era
tão divertido, sem falar da alegria que sentia em
poder fazer algo com ela. O que eu mais gosta-
va no dia do meu aniversário não era de ganhar
presente, e sim. poder ter um dia junto com os
meus pais. No dia do meu aniversário tínhamos
uma programação: mamãe ligava para a tia Jack;
papai acordava cedo para ir ao mercado comprar
ingredientes dos bolos. Já te explico porque dis-
se bolos; eu ficava por conta de fazer alguns en-
feites para a festa. Lembro-me também de como
13
era divertido ajudar a fazer os bolos. Era casca de
ovo, farinha, açúcar e chocolate para todo lado,
se duvidar até no teto. Eu disse bolos, porque eu
tenho um primo que é alérgico a chocolate, en-
tão tínhamos que fazer dois bolos. E quando se
aproximava a hora da festa, todos iam se arrumar
para poder comparecer. A campainha tocava e eu
já saía correndo para receber a vovó, a tia Jack,
seu marido e os meus dois primos, Lucca o que
eu disse que é alérgico a chocolate e minha prima
Catarine. Era um dia feliz. Tenho na memória a
cena de mim e os meus primos ao redor da pol-
trona florida da mamãe ouvindo a vovó contar
suas histórias, todas muito engraçadas. Ríamos
até doer a barriga e os adultos, como sempre, fa-
lando de coisas de adultos, exceto quando a vovó
resolvia cantar, pois todos paravam para ouvi-la,
mas era quase impossível só ouvir. Vovó era tão
14
alegre que eu acabava dançando com ela, todos
iam no embalo e quando víamos todos estavam
a dançar com a vovó. Quase desce uma lágrima
dos meus olhos com essa lembrança. É como se
pudesse sentir, agora mesmo, o cheiro do bolo de
chocolate inundando a sala, o som da doce voz da
vovó. Uma alegria que bailava conosco naquela
sala, o som que as gargalhadas faziam, quase que
uma música. Teve um episódio, nada legal, em
uma das minhas festas de aniversário. O meu pri-
mo Lucca, sem querer, acabou comendo um do-
cinho de chocolate e, com isso ele ficou muito ver-
melho, parecia um pimentão de tão corado que
estava, e o pior é que ele ficou sem ar. Tivemos
que levá-lo às pressas para o hospital. E a festa
acabou lá, mas posso dizer, com sinceridade, que
o melhor presente que ganhei naquele dia foi a
recuperação do meu primo. Boas memórias, mas
15
a realidade hoje não é nada agradável, visto que
não sei lidar muito bem com esses sentimentos
de “não sei o quê”. É como se eu não conseguisse
enxergar, com clareza, essa transição. Não é que
eu não goste mais de festas de aniversário, a dúvi-
da é: será que eu gosto ou não gosto, é o que com-
plica, mais ainda essa mudança. Mas, se eu gosto
ou não gosto mais, quem vai saber? Nem eu sei.
16
Capítulo 2
Um dia normal
Capítulo 2
17
Como de costume, seis horas da manhã, o des-
pertador apita seu terrível som avisando que é a
hora de acordar. Ainda com remela nos olhos e
muito sono (resultado de quem ficou lendo até
tarde), desligo o despertador. Pensa que eu o de-
sliguei e levantei na mesma hora? Não, dormi por
mais dez minutos, dez minutos que parece mais
com um minuto de tão rápido que passa. Por que
quando você vai ao dentista esses dez minutos
mais se parece com uma hora, e quando só que-
ro dormir mais um pouco, eles voam? Estou com
tanto sono que meus olhos mal se abrem, quando,
e fim, levanto-me. Vou em direção ao banheiro
para lavar o meu rosto, quando, de repente ,tomo
um susto com a minha imagem no espelho: cabelo
todo bagunçado, mais parecia que eu tinha levado
uma descarga elétrica e ... uma espinhaaaaa ! Ah,
18
não! Era tudo que eu precisava pra esse dia! De-
pois que eu me arrumei, fui para a cozinha tomar
meu café. Para minha tristeza, o primeiro horário
tinha que ser de Educação Física. Sabe chocolate
e abóbora? Não combinam, certo? É desse jeito
comigo e a Educação Física. Preferia ficar na bib-
lioteca me perdendo no mundo dos livros. Diga-
mos que eu não tenho coordenação motora para
esportes. O tempo passa e o sinal da escola toca.
Não moro muito longe da escola. Durante o meu
trajeto de volta para casa, vejo sempre as mesmas
coisas. O carro de sorvete da Senhora Yuki, não
resisto ao sorvete de chocolate que ela mesma faz.
Pego algumas moedas do meu bolso para pod-
er comprar o sorvete, o bolso estava furado e as
moedas que sobraram não dariam para comprar,
mas davam, pelo menos, para alguns chicletes de
banana. Continuo o meu trajeto e vejo o lindo jar-
19
dim de margaridas da Senhora Tokay. As flores
são tão lindas que se parecem com pinturas. Logo
mais à frente, vejo Suki, uma moça de 25 anos de
idade, que mora na mesma rua que eu, ela gos-
ta muito de cachorros, tanto que tirou das ruas o
pobre Tuki, um vira lata de pelo escuro e cego de
um olho. Virando à esquerda, vejo a minha casa.
Cheguei.
20
Capítulo 3
Um presente peludo
21
Sábado, uma manhã perfeita, sol meio tími-
do entre as nuvens, um vento suave que acaricia-
va meus cabelos. Já havia tomado o meu café da
manhã e estava só esperando os meus pais para
sairmos, não me pergunte para onde, nem eu sa-
bia. Depois de ter esperado por vinte minutos,
entrei em casa e cheguei perto da porta do quarto
deles. Ouvi -os discutindo sobre o fato de o papai
ter passado o aniversário de casamento deles es-
crevendo até meia noite em seu caderno. Mamãe
estava furiosa, saiu do quarto e foi para o estúdio
dela. Voou tinta até no teto, pois ela descontou a
raiva que sentia pintando loucamente. Enquan-
to isso, pude ver o meu pai, sentado na cama,
chorando, mesmo que timidamente Ele parecia
estar arrependido. Depois de uns dez minutos de
fúria da mamãe, choro do papai e sem eu saber o
22
que fazer, meu pai se levanta limpando as lágri-
mas. Eu estava olhando pela fresta da porta. De-
pois que o meu pai se formou, ele veio a mim so-
licitando que chamasse a mamãe para sairmos.
Definitivamente não tinha mais clima, mas fui até
o estúdio da mamãe, ela parecia mais calma, per-
guntei se ela iria conosco e, para minha surpre-
sa, ela disse sim. Entramos no carro e, durante o
trajeto, papai e mamãe não se olharam nem por
um segundo. No banco de trás do carro, via aque-
la cena triste, eu estava chateada por eles terem
discutido Eram raras as vezes que eu os via dis-
cutindo, pois se davam tão bem, mas nessa man-
hã foi diferente. No banco de trás eu torcia para
que o amor deles vencesse essa situação, eu não
suportaria ver a mamãe chorar e o papai de ca-
beça baixa sem ter ânimo até para escrever seus
livros. Depois de vinte minutos com uma vista de
23
árvores tortas, mas com sua delicadeza nas flores,
parecia pintar a imagem perfeita para a primave-
ra que se aproximava mais rápido do que o nosso
passeio, Pequenas florzinhas cor de rosa apare-
ciam discretamente nos arbustos de uma praça,
onde se podia ver crianças que pareciam estar
aprendendo a andar de bicicleta pela primeira
vez. Ao ver essa cena, lembrei-me de quando an-
dei de bicicleta pela primeira vez, parecia muito
com o que eu acabara de ver. Meu pai e minha
mãe estavam tão felizes de me ver andando soz-
inha de bicicleta. Lembro-me até de que meu pai
não segurou as lágrimas nesse dia. Eu também
não as segurei quando essa memória me veio à
mente. A lágrima desceu sem eu pudesse evitar,
pois, ao mesmo tempo em que fiquei emociona-
da com essa memória, triste, por eles não estar-
em felizes, como naquela lembrança. Chegamos,
24
disse papai, com a voz embargada pela tristeza.
Enxuguei as lágrimas. Descemos do carro, e logo
à frente avistei uma loja de animais. Entrei e logo
na entrada avistei um aquário tão lindo, era tão
grande que quase cobria a parede. Nunca tinha
visto um aquário como esse, havia tantos peixes
coloridos e exóticos. Não pude me conter de feli-
cidade, pois eu estava fascinada com o que eu via.
Sei que tenho quinze anos, mas, naqueles minu-
tos, voltei a ter cinco novamente. Porém, esse mo-
mento foi quebrado pelo som da voz do meu pai
me chamando para ver algo, quando deparei-me
com ele segurando um lindo cachorrinho. Sua
pelagem parecia com algodão e branca como a
neve. Fiquei tão feliz quando o papai disse que ele
era meu, quase não acreditei, pois nunca tive um
animal de estimação, exceto uma borboleta roxa
que encontrei na janela do meu quarto quando eu
25
tinha sete anos de idade, mas ela sobreviveu só
por oito minutos, quando o gato da vizinha con-
seguiu apanhá-la. Comecei a chorar de alegria, e
meus pais, ao verem essa cena de minha imensa
alegria por ter ganhado o cachorrinho, não con-
tiveram a emoção, e, por alguns segundos, se ol-
haram, depois de não terem se olhado nem uma
vez durante o trajeto. Papai colocou a mão sobre
o ombro da mamãe, ela cedeu dando-lhe um beijo
no rosto. Fomos para casa com o novo integrante
da família. Durante a volta, eu e meus pais dis-
cutimos sobre qual seria o nome dele. Papai deu
muitas sugestões de nomes engraçados, como,
por exemplo: Paçoquinha, Macarrão e até Couve
de Bruxelas. Eu ri tanto dessas opções de nomes
que o papai sugeriu, que minha barriga doeu de
tanto rir. Até que chegamos em um acordo, quan-
do a mamãe deu uma sugestão um tanto estranha,
26
mas legal. Ela olhou a marca do aparelho de som
que estava no carro onde estava escrito: Kobe. Por
mais estranho que pareça, gostamos do nome e o
cachorrinho passou a se chamar Kobe.
27
Capítulo 4
Um dia na casa da vovóUm dia na casa da vovó
28
Sábado, dia nublado e chuvoso. Só bastava o
cheiro da terra molhada vinda do quintal de casa
para despertar em mim memórias das quais eu
nunca quero esquecer. Ah! Como era bom, quan-
do em um dia como esse ia visitar minha avó.
Lembro-me de eu ir pulando nas poças de água,
do jardim de rosas, do balanço ao lado da casa,
onde ela me empurrava o mais forte e alto que
conseguia, dos biscoitos que fazíamos juntas, ela
até deixava eu por mais chocolate nos meus, das
histórias românticas e engraçadas que ela me con-
tava sobre ela e o vovô, da nossa brincadeira fa-
vorita: era só pegar os cobertores e alguns barban-
tes com auxílio de algumas vassouras que estava
pronta a ‘’nossa casinha‘’. E, nela, se foram horas
de histórias e canções que ela contava para mim
antes de dormir, ali mesmo, no seu colo de vó.
29
Tomada de saudade desses momentos, não pude
deixar de pensar o quão bom seria revivê-los com
minha avó. Toda saudade que senti me fez querer
visitá-la. Então, decidida de que queria vê-la, pedi
minha mãe que me levasse, pois ela morava um
pouco longe. Minha mãe abriu um sorriso dizen-
do que sim, ela me levaria e que estava feliz por eu
ter me interessada em ver minha avó novamente.
Devido ao fato de que depois que o vovô morreu,
ela ficou muito triste e já não era feliz como antes
do vovô morrer e, com isso, perdemos a conex-
ão que tínhamos. Peguei meu casaco cor de vio-
leta que minha vó fez para mim, mamãe pegou
a chave do carro e fomos. Durante o passeio,
mamãe colocou a música que ela e eu cantávamos
juntas. Depois de tanto tempo, foi divertido pod-
er compartilhar esse momento. Fazia tanto tempo
que eu e minha mãe não nos divertíamos assim,
30
já que ela e o papai trabalhavam muito e não da-
vam muita atenção para mim, mas não os culpava
por completo, pois percebia que não é só a falta
de tempo, e sim também com a realidade de que
eles pareciam não saber como lidar comigo nesta
transição que estava a viver. Mas enfim, o passeio
foi tão legal. Continuamos a cantar juntas, e num
dado momento ,com minha cabeça reclinada so-
bre a janela do carro, fiquei observando as gotas
da chuva que escorriam pelo vidro, até que, de
longe, avistei o mesmo jardim de rosas, o mesmo
balanço e a mesma casa, eu mal podia esperar para
revêla. Mamãe deixou-me na entrada da casa dela
e disse que me buscaria às cinco da tarde, e que
ela não poderia ficar, pois tinha encomendas de
pinturas a entregar. Enquanto caminhava em di-
reção à casa, vi as mesmas poças de água em que
eu pulava quando era mais nova, fiz o mesmo tra-
31
jeto pulando em cada uma delas até à porta, mas
não tenho mais cinco anos de idade, né? Apertei
a campainha, sem demora minha vó me atendeu
com sorriso no rosto e brilho nos olhos. Logo ela
me abraçou, um abraço longo e carinhoso. Entrei,
e isso foi necessário para fazer daquelas memóri-
as uma realidade nessa tarde chuvosa.
32
Capítulo 5
O Dia do banho
33
Domingo de manhã ensolarada, estávamos eu
e meu pai em casa, mamãe havia saído para visi-
tar a vovó. Nesse dia, meu pai não ficou durante
todo o tempo no notebook escrevendo seus liv-
ros, pelo contrário, ele me perguntou se eu queria
ajudar a dar banho no kobe. Fiquei feliz por ele
querer fazer algo comigo, mas também pensar no
desafio que seria, já que o kobe odeia tomar ban-
ho, mas aceitei. Foi só ele ouvir a palavra banho
que logo correu para dentro de casa e se enfiou
debaixo da primeira cama que viu. Tentei pegá-
lo, e enquanto eu tentava pegá-lo, meu pai encheu
o balde de água e sabão. Depois de muito tentar,
eu consegui pegá-lo, mas não acabou, porque ele
não desiste fácil. Meu pai me chamou, quando,
de repente, o kobe fugiu das minhas mãos e ficou
correndo por todo lado no quintal. Lá fomos eu o
34
papai correr atrás dele. O meu pai até caiu quan-
do tentou apanhá-lo, até que eu o peguei. Daí em
diante, foi um corre-corre para tentar dar banho
nele. Kobe não ficava quieto, espirrou água pra
tudo que é canto, eu fiquei ensopada, tinha sabão
até nos óculos do papai, mas conseguimos. Es-
távamos exaustos, mas felizes, pois fizemos isso
juntos. Foi tão divertido! Pude perceber que ele
é um bom pai, mesmo que ausente, às vezes, ele
tentava ser.
35
Capítulo 6
Um convite para o cinemaUm convite para o cinema
36
Como de costume, depois da aula sexta-fei-
ra, Kira e eu fomos à sorveteria pra conversarmos
e nos distrairmos um pouco. Planejamos ir ao
shopping comprar um vestido para o casamen-
to da irmã mais velha da mãe dela, então o ce-
lular tocou e ela teve que sair correndo. A casa
dela estava um caos por causa dos preparativos
do casamento, a senhora Hinata, mãe da Kira,
estava quase enlouquecendo e deixando a to-
dos loucos também. Eu continuei na sorveteria,
depois que Kira saiu, Lee, primo dela, apareceu.
Ele é da nossa turma, é um grande amigo, uma
das pessoas mais incríveis que conheci, desde cri-
ança, com ele sinto-me mais à vontade pra ser eu
mesma, pra conversar, contar segredos, ele sem-
pre me entende ,me faz rir como ninguém e eu
gosto disso. Lee se aproximou e perguntou sobre
37
Kira, contei o que tinha acontecido. Ele sentou-se
à mesa comigo, nós conversamos um pouco, ele
me contou sobre os problemas que estava tendo
com os pais que queriam mandá-lo para a casa de
uns parentes no Japão para estudar, mas Lee não
queria ir embora, isso estava causando muitas di-
vergências entre ele e os pais, deixando-o triste,
ele até tentava disfarçar, mas eu percebia. Tudo
isso me fez pensar que, apesar de um pouco dis-
tantes, meus pais e eu sempre fomos unidos e eu
sei que eles nunca me obrigariam a fazer algo que
não me deixasse eliz. Saímos da sorveteria. Lee
me acompanhou até em casa, ficamos calados du-
rante todo o caminho, mas eu tive a impressão de
que ele queria me dizer alguma coisa, e eu esta-
va certa. Quando chegamos à minha casa, Lee me
perguntou se eu queria ir ao cinema, eu disse que
tudo bem e perguntei quem mais iria, ele disse
38
que só eu e ele. Fiquei calada, então ele tentou me
explicar, mas não sei o que aconteceu com ele que,
de repente, começou a trocar palavras, não dizia
nada com nada, até começou a gaguejar um pou-
co, eu nunca o vi assim. Eu não aguentei e come-
cei a rir, então ele começou a rir também. Enfim,
quando paramos de rir, Lee conseguiu explicar.
Acontece que ele havia comprado dois ingressos
um pra ele e outro para o amigo, que acabou des-
marcando, então, ele decide me chamar. Fico me
perguntando, será que essa história dos ingres-
sos foi só uma desculpa pra me chamar pra sair?
Não! Isso deve ser apenas coisa da minha cabeça,
afinal, somos só amigos. Mas aquela reação dele
foi um pouco estranha. Marcamos de nos encon-
trarmos no cinema às seis da tarde. Achei mel-
hor assim. Entrei em casa, procurei meus pais, e
,como sempre, estavam ocupados; meu pai esta-
39
va trabalhando no seu livro e minha mãe falava
ao telefone com a mãe da Kira, pelo que eu en-
tendi era alguma coisa sobre o casamento, então
eu preferi não dizer nada sobre o cinema, melhor
falar depois. Até lá eu encontro a melhor forma de
falar pra eles que vou sair sozinha com um garo-
to, no fundo eu sei que eles não vão se incomodar
tanto, mas, mesmo assim, acho que vai ser uma
conversa um pouco estranha, no mínimo, difer-
ente. É difícil explicar, talvez esse sentimento en-
tre na classificação de “não sei o quê”. Fui para
o jardim brincar com o Kobe, acabei me atrasan-
do um pouco e tive que me arrumar bem rápido.
Quando desci, meus pais estavam na sala, eles me
perguntaram onde eu estava indo, eu disse que
ia ao cinema com o Lee, eles se olharam com um
leve sorriso no rosto e me perguntaram se iríamos
sozinhos, eu disse ,sim, e perguntei se não havia
40
problema, eles disseram que não, por que haveria
problema? Então papai me perguntou se eu que-
ria que ele me levasse ou buscasse, eu disse que
não precisava e saí. Como a cidade é pequena, o
cinema fica perto de casa, poucos minutos de ôni-
bus e pronto, chegamos. Lee estava me esperan-
do na entrada do cinema, tive a impressão de que
ele estava um pouco ansioso. Compramos pipoca
e entramos na sala de cinema. Não há muito o
que falar sobre o filme, eu não gostei muito. Na
volta, ele me acompanhou até em casa, mesmo
não morando perto da minha. Paramos um pou-
co na praça, perto do ponto de ônibus, e ficamos
conversando, quando percebi já tínhamos camin-
hado até a porta da minha casa, nos despedimos,
eu beijei a bochecha dele, que sorriu. Entrei e só
aí percebi o que tinha feito, mesmo sendo amigos
há muito tempo, nunca estivemos tão próximos.
41
Fiquei morrendo de vergonha! Olhei pela jane-
la e o vi parado olhando pra casa com o mesmo
sorriso, depois foi embora. Meus pais estavam na
cozinha conversando, entrei e eles me pergun-
taram como tinha sido o passeio, eu só disse que
tinha sido legal, eles me desejaram boa noite e fo-
ram para o quarto, eu fui para o meu logo depois.
Deitei na cama e fiquei pensando nas coisas que
aconteceram, no Lee, na nossa amizade e nessa
coisa nova que estava acontecendo entre a gente.
Ou era coisa da minha cabeça? Seja como for, isso
estava me deixando louca. Também pensava nos
meus pais, às vezes com aquele jeito mais livre
deles, parecem que não se importam comigo, mas
sei que estou enganada.
42
Capítulo 7
O vestido
Capítulo 7
O vestido
43
Não gosto muito de fazer compras. Parece es-
tranho uma garota de 15 anos dizer isso, mas é
verdade, não tenho paciência e olha que eu sou
muito paciente. Ficar olhando roupas, passar ho-
ras tentando encontrar um sapato que combinar
com tal roupa não é a minha praia, talvez porque
seja difícil encontrar algo que me agrade. Kira
passou na minha casa para irmos juntas ao shop-
ping como combinado, já que a cidade é pequena
e não há muitas opções de lojas, por isso tínham-
os que ir ao shopping na cidade ao lado, a sen-
hora Hinata ia com a gente, mas Kira disse que
ela não poderia mais, devido a um imprevisto,
minha mãe ouviu a conversa e se ofereceu para
nos levar. Saímos pouco antes do almoço. Ficamos
um tempão procurando o que queríamos. Kira
e mamãe escolheram vestidos lindos, o de Kira
44
era rosa claro e minha mãe escolheu um vestido
verde, não me surpreendeu, ela adora verde. As
horas passavam e eu não havia encontrado o meu
vestido. Nada me agradava, já estava quase de-
sistindo quando vi em uma vitrine o vestido per-
feito, o mais bonito que já vi! Azul com bolinhas
pretas! Ahhhhhh... pode parecer bizarro pra al-
guns, mas esse, definitivamente, é o meu gosto
pra roupa. É raro eu gostar tanto assim de um
vestido, pois tudo geralmente é tão igual nessa
cidade. Mas como nem tudo é perfeito, ele era um
pouco caro e eu fiquei sem jeito de pedir minha
mãe um vestido com aquele preço, então eu deix-
ei pra lá e tentei encontrar outro vestido, não tive
sucesso na busca, preferi continuar procurando
outro dia. Compramos o que faltava e voltamos
para casa. Depois do jantar, fui para o meu quar-
to e fiquei pensando, acho que é a coisa que mais
45
faço, e isso, às vezes, me deixava louca. Peguei
um livro para ler e tentar relaxar. Lee me ligou
e ficamos conversando até tarde, como sempre,
nem vi as horas passarem. Acordei tarde no dia
seguinte, desci para uma cozinha onde meu pai
estava fazendo uma torta de nozes, o cheiro esta-
va por toda casa.Papai me perguntou por que eu
acordei àquela hora, eu disse que fiquei até tarde
falando ao telefone com um amigo, só pra ver a
reação dele, então ele me perguntou se esse tal
amigo era o Lee, eu disse que sim, ele falou ,com
certa ironia, que eu estava muito próxima do Lee
ultimamente. Para mudar de assunto, eu pergun-
tei sobre a mamãe, ele sorriu, acho que o papai
notou que tentei mudar de assunto, falou que ela
havia saído cedo. Subi para o quarto, troquei-me
e fui cuidar do jardim, pois me faz bem, me traz
paz e ajuda a colocar os pensamentos no lugar.
46
Kira chegou e ficamos conversando por um tem-
po, contei a ela sobre o Lee, ela sorriu e disse que
já era hora, não entendi o que ela quis dizer. Kira
me contou que Lee sempre gostou de mim e que
todos tinham notado, menos eu. Minha amiga foi
embora sem me dar mais nenhuma explicação,
deixando –me com vários pontos de interrogação.
Comeceiamelembrardequandoéramoscrianças,
de tudo que tínhamos em comum, enfim, será que
Kira está certa? Passei um bom tempo no jardim
pensando nisso, nem almocei. Fui tomar um ban-
ho, pois estava suja de terra e quando desci para
sala, mamãe já tinha chegado, ela me entregou
uma sacola, perguntei o que era, ela me disse pra
abrir. Era o vestido, eu fiquei sem saber o que diz-
er, fiquei tão feliz! Mamãe falou que percebeu que
eu tinha gostado do vestido e fiquei triste por não
poder comprá-lo, então ela falou com o papai e os
47
dos concordaram em me dar o vestido, mas que
seria o meu presente de aniversário adiantado, eu
agradeci e nos abraçamos. Papai saiu da cozinha
perguntando: quem quer torta? Olhamos para o
papai, demos uma risada e fomos comer uma de-
liciosa torta do papai.
48
Capítulo 8
Meu primeiro beijoMeu primeiro beijo
49
No dia do casamento, acordamos cedo. Mamãe
e eu fomos até a casa da Kira para ajudar com
os últimos preparativos, foi bem divertido, ape-
sar do nervosismo da senhora Hinata, que esta-
va pior que a noiva. Lee estava lá, confesso que
tentei evitá-lo, depois do que Kira disse, mas não
tive muito sucesso. Estava ficando tudo tão lindo,
nunca tinha ido a um casamento, muito menos
a um com toque especial da cultura japonesa. É
diferente dos casamentos que vejo nos filmes,
mas tão lindo quanto! Acabamos de ajudar e fo-
mos nos arrumar. Tínhamos pouco tempo para
nos arrumar, mamãe ficou linda no vestido, pa-
pai ficou com cara de bobo apaixonado ao vê-la.
Sabe aquelas cenas de filmes e de contos de fada,
quando a princesa desce as escadas para o salão
do baile e todos a olham e o príncipe fica admi-
50
rado com sua beleza. Então, era assim que meu
pai olhava a mamãe. Os noivos estavam lindos e
o mais importante, felizes! A festa também esta-
va incrível, todos muito alegres e se divertindo.
Quando a festa já estava acabando e os convida-
dos liberados a ir embora, eu fui até a parte de trás
da casa onde havia uma árvore grande que esta-
va especialmente linda por causa da primavera.
Eu a adorava, desde que a vi, pela primeira vez,
me encantei por ela. A senhora Hinata disse que
aquela árvore estava ali há muito tempo, desde
antes dela nascer. Quando eu era criança, achava
que ela era encantada e que lá viviam fadas, mas
isso é coisa do meu pai que adorava me contar es-
sas histórias. Sinto saudades de quando eu acred-
itava. Lee apareceu ali, ele estava lindo com o tra-
je de gala. Logo me perguntou por que eu estava
sozinha, eu disse que estava apenas relembrando
51
algumas coisas, ele se aproximou e me perguntou
por que eu estava tentando evitá-lo, fiquei calada
,olhei novamente para a árvore, não queria contar
pra ele o que Kira me disse. E se fosse mentira?
Ele iria me achar ridícula. Para mudar de assun-
to, resolvi falar sobre a árvore e com as histórias
em que eu acreditava quando criança, ele sorriu e
me falou que eu não era muito boa em mudar de
assunto. Ele sorriu e eu também, me olhou, disse
que eu estava linda e beijou-me. Foi tão inespera-
do, eu levei um susto quase travei, simplesmente
não sabia o que fazer. Nós nos afastamos, lenta-
mente, um do outro e eu fiquei ali parada e ad-
mirada. Kira chegou logo depois para me dizer
que os meus pais estavam me chamando para ir-
mos embora. Ainda bem que a Kira não viu nada.
Despedi-me do Lee, da Kira e fui para casa. Mal
consigo explicar o que eu senti e que estou sentin-
52
do com aquele beijo inesperado. Esse é mais um
sentimento que vai pra lista de “não sei o quê”.
53
Capítulo 9
E a faculdade?
54
Já é noite, estou no chão do meu quarto senta-
do no tapete com o kobe e aqui pensando com
os meus botões sobre o que eu quero ser profis-
sionalmente. Esse pensamento se deu pelo fato
de que hoje mais cedo eu estava fazendo meu de-
ver de matemática e, com tanta dificuldade para
resolvê-lo, lembrei-me de como a Kira é boa em
matemática. O dia passou e cá estou eu com mais
um dos dilemas, que é uma incerteza, como se
não bastasse as outras dúvidas me vem mais essa:
o que eu vou ser profissionalmente? Essa é uma
das perguntas que está sem resposta no momento,
pois ainda não descobri o que realmente gostaria
de fazer. Não como minha mãe e meu pai que,
desde criança, já sabiam o que queriam ser. Isso,
para algumas pessoas da minha escola, é uma
pergunta já respondida, por exemplo, a kira quer
55
fazer engenharia, pois lidava bem com os cálcu-
los, mas para mim é como fosse um labirinto por
ter muitas opções de profissões e não achar o que
realmente combina comigo. Meu pai quer que eu
faça letras, já minha mãe gostaria que eu fizesse
artes plásticas, mas acho que não combina comi-
go. Definitivamente não sei o que eu gostaria de
fazer. Mas acho que não devo me preocupar com
isso agora, pois tenho muito tempo pra pensar
nisso, quem sabe eu me encontro em um desses
pensamentos.
56
Capítulo 10
Eu só quero...
57
Terça à tarde, depois que cheguei da escola, en-
trei em casa e não vi ninguém, foi quando gritei
pelos meus pais e eles me responderam do sótão.
Fui lá ver o que eles estavam fazendo e os vi or-
ganizando caixas e tirando a poeira das pratelei-
ras. Mamãe me perguntou se eu queria ajudar,
como não tinha nada para fazer, aceitei. Peguei a
primeira caixa que vi e, quando abri, vi uma foto
do meu pai quando criança, perguntei-me se ele
já gostava de escrever desde criança. Logo depois,
avistei no fundo uma foto de minha mãe também
quando criança. Ela usava uns óculos enormes.
Debaixo de uma foto de casamento deles, vejo
uma foto minha de quando eu era criança. Aquela
moldura toda enfeitada de lantejoulas e macarrão
colorido que fiz com minha mãe parecia intacta,
mesmo depois de tantos anos. A foto estava um
58
pouco amarelada, mas, mesmo assim, pude me
ver naquela foto como se fosse ontem. Eu estava
toda suja de tinta, pois tinha ajudado a mamãe
com alguns quadros e o meu cabelo, como sem-
pre, bagunçado e preso na franja com uma presil-
ha de borboleta que o papai havia comprado para
mim. Sentir-me tão feliz ao ver essa foto. Fiquei
triste pela diferença dessa foto com a minha re-
alidade hoje,tão confusa sobre tudo. Quando eu
era criança, me preocupava só em brincar, minha
imaginação era tão fértil que quase podia me faz-
er voar. Hoje, ela não é tão leve assim, pelo con-
trário, minhas preocupações e dúvidas me pren-
dem no chão me lembrando da minha realidade
de complexa, as dificuldades no relacionamento
com meus pais e dúvidas. Mais tarde, já deitado
na cama e sem sono, fiquei pensando no que tinha
acontecido mais cedo, e esses e outros pensamen-
59
tos me ocuparam à mente, como será se o Lee gos-
tar de mim? Não sei a resposta, ele nem me pediu
em namoro, e eu não sei se teria aceitado, pois é
cedo demais, sem falar que eu não sei se ele vai
se mudar. Bem que eu gostaria de ver como meus
pais reagiriam se ele me pedisse em namoro, não
para chamar atenção deles, mas só para ver como
eles reagiriam. Só para ver como eles reagiriam
em uma situação como essa. Às vezes, sinto falta
de ver a atuação deles ,como pais, como, por ex-
emplo, uma bronca por ter tirado nota baixa no
boletim em matemática, ou ver se o meu pai me
encheria de perguntas se eu contasse que gosto de
Lee, ou a presença deles na reunião de pais e pro-
fessores e como seria se minha mãe me pergun-
tasse sobre de quem gosto. Só queria que os meus
pais fossem pais. Enfim, eu acho que de tanto ser
diferente, no fundo eu só quero ser eu mesma.
60
Fim.
61
62
Contato
Tatiana Fernandes é uma eter-
na estudante, artesã e desenhista
amadora. Em sua primeira obra
vem mostrar um sonho realiza-
do, que em forma de um trabalho
escolar na época do colégio, hoje
toma forma em Clarice.
@Tati.n_98
tneves804@gmail.com
63
6464

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CLARICE

  • 1.
  • 2. 2 Produção Autora: Tatiana Fernandes Ilustrações: Weslley Wyzz e Tatiana Fernandes Capa: Weslley Wyzz e Tatiana Fernandes Revisão: Norma Kátia Rocha Cardoso Projeto gráfico e diagramação: Weslley Wyzz
  • 4. 4 Um presente peludo................................20 Um dia na casa da vovó..........................27 O dia do banho.........................................32 Um convite para o cinema......................35 O vestido....................................................42 Meu primeiro beijo..................................48 E a faculdade.............................................53
  • 6. 6 Introdução Oi! Chamo-me Clarice, tenho quinze anos, filha única de um pai que é escritor e de uma mãe que é artista plástica. Eles não são renomados, mas são muito talentosos. O meu pai se chama Vítor e a minha mãe, Marta. O meu nome se deu pelo estranho fato que minha mãe queria chamar-me de Clara, mas o meu pai adora arroz, e quis hom- enagear seu prato preferido, pra não ficar Clar- roz, ele usou a tradução de arroz que no inglês é rice, ficou Clarice Bizarro, né?! Bom, confesso que o meu nome pode ser meio estranho, mas até que gosto, pois é diferente. E o meu nome não é a úni- ca coisa diferente na minha vida. Para começar, sou a única ruiva da cidade onda moro, Ervilhas, é composta em 99% descendentes de japoneses. Eu e a minha família somos o 1%, e não é só isso
  • 7. 7 de diferente. A casa onde eu e minha família mo- ramos é a única casa amarela da cidade, e quan- do digo família estou referindome a meus pais e o Kobe, meu cachorro. Moro nessa cidade desde que nasci. Tenho uma amiga chamada Kira, es- tudamos na mesma escola desde os 11 anos de idade. Sou um pouco introvertida, até mesmo, algumas vezes, com os meus pais. Sabe aquela fase de complexidade da adolescência? Pois é, estou passando por ela, e os meus pais parecem não saber lidar muito com essa situação, pois eles trabalham muito, posso dizer que o meu pai fica umas 14 horas, por dia, escrevendo os seus liv- ros no notebook, e a minha mãe tem seu próprio estúdio de arte em casa. Ela, praticamente, mora nesse estúdio. Tudo bem, mas aí você se pergunta, e as tarefas da casa, e as refeições, quem faz? Bom, escrever não é única coisa que o meu pai sabe faz-
  • 8. 8 er, é ele quem cozinha em casa. Como tarefas da casa, cada um faz um pouco, por exemplo, eu fico com as tarefas de limpar o meu quarto e cuidar do Kobe e a minha mãe limpa a casa, quando não está pintando. Contudo o drama todo não está só no fato de os meus pais trabalharem muito e não me derem muita atenção.
  • 10. 10 Dia 18 de março, meu aniversário. Um dia “le- gal”. Você sabe o corre-corre para decorar e para fazer o bolo, sem falar dos outros detalhes que nem vou citar de tantos que são. O porquê das aspas em “legal”? Não é devido ao corre - corre, e ,sim ,ao fato de que eu estou a crescer, e quan- do digo a crescer, não digo do tipo preferir fazer compras com amigas ou preferir poder comprar o que quiser ou mesmo ter uma festa de quinze anos, por exemplo, e sim ao fato de ser tudo e nada ao mesmo tempo. Sei que parece confuso, mas é exatamente como me sinto em relação a minha festa de aniversário. Acho que, de alguns anos pra cá, não tenho tido mais todo aquele en- tusiasmo que sentia quando criança, digo com a preparação da minha própria festa, pois era as- sim que eu comemorava o meu aniversário. Nor-
  • 11. 11 malmente, pessoas fazem surpresas, mas eu não gosto de surpresas e sempre ajudei os meus pais na minha festa de aniversário. Era tão divertido! Se não me falha a memória, essa transição da ân- sia que sentia ao preparar a minha própria fes- ta começou aos 10 anos de idade, depois disso, comecei a desanimar. Não é vergonha dos pais ou algo do tipo, e sim, eu, simplesmente, não consigo explicar o que é. Tenho passado por mo- mentos bem complexos, enquanto preocupações e sentimentos de “não sei o quê”. Foi assim que nomeei esses sentimentos, pois é isso que tais sen- timentos são para mim. Embora os “não sei quê” estejam em mim a respeito do meu aniversário, eu gosto das memórias e do sentido por trás dos aniversários que já tive. Um exemplo deles, foi o meu de 8 anos. Como todo amante de arte que se preze, a minha mãe não poderia deixar de or-
  • 12. 12 ganizar e executar uma decoração, e o mais legal é que me deixava ajudá-la. Ela não se importava se eu não sabia desenhar lindamente, ela, simples- mente, queria que eu fizesse o meu melhor. Ela dizia que cada um poderia ser artista, cada um teria uma obra única, que por mais que os outros não achassem bonitos os meus desenhos, isso não importava, pois era lindo porque eu os fiz. Era tão divertido, sem falar da alegria que sentia em poder fazer algo com ela. O que eu mais gosta- va no dia do meu aniversário não era de ganhar presente, e sim. poder ter um dia junto com os meus pais. No dia do meu aniversário tínhamos uma programação: mamãe ligava para a tia Jack; papai acordava cedo para ir ao mercado comprar ingredientes dos bolos. Já te explico porque dis- se bolos; eu ficava por conta de fazer alguns en- feites para a festa. Lembro-me também de como
  • 13. 13 era divertido ajudar a fazer os bolos. Era casca de ovo, farinha, açúcar e chocolate para todo lado, se duvidar até no teto. Eu disse bolos, porque eu tenho um primo que é alérgico a chocolate, en- tão tínhamos que fazer dois bolos. E quando se aproximava a hora da festa, todos iam se arrumar para poder comparecer. A campainha tocava e eu já saía correndo para receber a vovó, a tia Jack, seu marido e os meus dois primos, Lucca o que eu disse que é alérgico a chocolate e minha prima Catarine. Era um dia feliz. Tenho na memória a cena de mim e os meus primos ao redor da pol- trona florida da mamãe ouvindo a vovó contar suas histórias, todas muito engraçadas. Ríamos até doer a barriga e os adultos, como sempre, fa- lando de coisas de adultos, exceto quando a vovó resolvia cantar, pois todos paravam para ouvi-la, mas era quase impossível só ouvir. Vovó era tão
  • 14. 14 alegre que eu acabava dançando com ela, todos iam no embalo e quando víamos todos estavam a dançar com a vovó. Quase desce uma lágrima dos meus olhos com essa lembrança. É como se pudesse sentir, agora mesmo, o cheiro do bolo de chocolate inundando a sala, o som da doce voz da vovó. Uma alegria que bailava conosco naquela sala, o som que as gargalhadas faziam, quase que uma música. Teve um episódio, nada legal, em uma das minhas festas de aniversário. O meu pri- mo Lucca, sem querer, acabou comendo um do- cinho de chocolate e, com isso ele ficou muito ver- melho, parecia um pimentão de tão corado que estava, e o pior é que ele ficou sem ar. Tivemos que levá-lo às pressas para o hospital. E a festa acabou lá, mas posso dizer, com sinceridade, que o melhor presente que ganhei naquele dia foi a recuperação do meu primo. Boas memórias, mas
  • 15. 15 a realidade hoje não é nada agradável, visto que não sei lidar muito bem com esses sentimentos de “não sei o quê”. É como se eu não conseguisse enxergar, com clareza, essa transição. Não é que eu não goste mais de festas de aniversário, a dúvi- da é: será que eu gosto ou não gosto, é o que com- plica, mais ainda essa mudança. Mas, se eu gosto ou não gosto mais, quem vai saber? Nem eu sei.
  • 16. 16 Capítulo 2 Um dia normal Capítulo 2
  • 17. 17 Como de costume, seis horas da manhã, o des- pertador apita seu terrível som avisando que é a hora de acordar. Ainda com remela nos olhos e muito sono (resultado de quem ficou lendo até tarde), desligo o despertador. Pensa que eu o de- sliguei e levantei na mesma hora? Não, dormi por mais dez minutos, dez minutos que parece mais com um minuto de tão rápido que passa. Por que quando você vai ao dentista esses dez minutos mais se parece com uma hora, e quando só que- ro dormir mais um pouco, eles voam? Estou com tanto sono que meus olhos mal se abrem, quando, e fim, levanto-me. Vou em direção ao banheiro para lavar o meu rosto, quando, de repente ,tomo um susto com a minha imagem no espelho: cabelo todo bagunçado, mais parecia que eu tinha levado uma descarga elétrica e ... uma espinhaaaaa ! Ah,
  • 18. 18 não! Era tudo que eu precisava pra esse dia! De- pois que eu me arrumei, fui para a cozinha tomar meu café. Para minha tristeza, o primeiro horário tinha que ser de Educação Física. Sabe chocolate e abóbora? Não combinam, certo? É desse jeito comigo e a Educação Física. Preferia ficar na bib- lioteca me perdendo no mundo dos livros. Diga- mos que eu não tenho coordenação motora para esportes. O tempo passa e o sinal da escola toca. Não moro muito longe da escola. Durante o meu trajeto de volta para casa, vejo sempre as mesmas coisas. O carro de sorvete da Senhora Yuki, não resisto ao sorvete de chocolate que ela mesma faz. Pego algumas moedas do meu bolso para pod- er comprar o sorvete, o bolso estava furado e as moedas que sobraram não dariam para comprar, mas davam, pelo menos, para alguns chicletes de banana. Continuo o meu trajeto e vejo o lindo jar-
  • 19. 19 dim de margaridas da Senhora Tokay. As flores são tão lindas que se parecem com pinturas. Logo mais à frente, vejo Suki, uma moça de 25 anos de idade, que mora na mesma rua que eu, ela gos- ta muito de cachorros, tanto que tirou das ruas o pobre Tuki, um vira lata de pelo escuro e cego de um olho. Virando à esquerda, vejo a minha casa. Cheguei.
  • 21. 21 Sábado, uma manhã perfeita, sol meio tími- do entre as nuvens, um vento suave que acaricia- va meus cabelos. Já havia tomado o meu café da manhã e estava só esperando os meus pais para sairmos, não me pergunte para onde, nem eu sa- bia. Depois de ter esperado por vinte minutos, entrei em casa e cheguei perto da porta do quarto deles. Ouvi -os discutindo sobre o fato de o papai ter passado o aniversário de casamento deles es- crevendo até meia noite em seu caderno. Mamãe estava furiosa, saiu do quarto e foi para o estúdio dela. Voou tinta até no teto, pois ela descontou a raiva que sentia pintando loucamente. Enquan- to isso, pude ver o meu pai, sentado na cama, chorando, mesmo que timidamente Ele parecia estar arrependido. Depois de uns dez minutos de fúria da mamãe, choro do papai e sem eu saber o
  • 22. 22 que fazer, meu pai se levanta limpando as lágri- mas. Eu estava olhando pela fresta da porta. De- pois que o meu pai se formou, ele veio a mim so- licitando que chamasse a mamãe para sairmos. Definitivamente não tinha mais clima, mas fui até o estúdio da mamãe, ela parecia mais calma, per- guntei se ela iria conosco e, para minha surpre- sa, ela disse sim. Entramos no carro e, durante o trajeto, papai e mamãe não se olharam nem por um segundo. No banco de trás do carro, via aque- la cena triste, eu estava chateada por eles terem discutido Eram raras as vezes que eu os via dis- cutindo, pois se davam tão bem, mas nessa man- hã foi diferente. No banco de trás eu torcia para que o amor deles vencesse essa situação, eu não suportaria ver a mamãe chorar e o papai de ca- beça baixa sem ter ânimo até para escrever seus livros. Depois de vinte minutos com uma vista de
  • 23. 23 árvores tortas, mas com sua delicadeza nas flores, parecia pintar a imagem perfeita para a primave- ra que se aproximava mais rápido do que o nosso passeio, Pequenas florzinhas cor de rosa apare- ciam discretamente nos arbustos de uma praça, onde se podia ver crianças que pareciam estar aprendendo a andar de bicicleta pela primeira vez. Ao ver essa cena, lembrei-me de quando an- dei de bicicleta pela primeira vez, parecia muito com o que eu acabara de ver. Meu pai e minha mãe estavam tão felizes de me ver andando soz- inha de bicicleta. Lembro-me até de que meu pai não segurou as lágrimas nesse dia. Eu também não as segurei quando essa memória me veio à mente. A lágrima desceu sem eu pudesse evitar, pois, ao mesmo tempo em que fiquei emociona- da com essa memória, triste, por eles não estar- em felizes, como naquela lembrança. Chegamos,
  • 24. 24 disse papai, com a voz embargada pela tristeza. Enxuguei as lágrimas. Descemos do carro, e logo à frente avistei uma loja de animais. Entrei e logo na entrada avistei um aquário tão lindo, era tão grande que quase cobria a parede. Nunca tinha visto um aquário como esse, havia tantos peixes coloridos e exóticos. Não pude me conter de feli- cidade, pois eu estava fascinada com o que eu via. Sei que tenho quinze anos, mas, naqueles minu- tos, voltei a ter cinco novamente. Porém, esse mo- mento foi quebrado pelo som da voz do meu pai me chamando para ver algo, quando deparei-me com ele segurando um lindo cachorrinho. Sua pelagem parecia com algodão e branca como a neve. Fiquei tão feliz quando o papai disse que ele era meu, quase não acreditei, pois nunca tive um animal de estimação, exceto uma borboleta roxa que encontrei na janela do meu quarto quando eu
  • 25. 25 tinha sete anos de idade, mas ela sobreviveu só por oito minutos, quando o gato da vizinha con- seguiu apanhá-la. Comecei a chorar de alegria, e meus pais, ao verem essa cena de minha imensa alegria por ter ganhado o cachorrinho, não con- tiveram a emoção, e, por alguns segundos, se ol- haram, depois de não terem se olhado nem uma vez durante o trajeto. Papai colocou a mão sobre o ombro da mamãe, ela cedeu dando-lhe um beijo no rosto. Fomos para casa com o novo integrante da família. Durante a volta, eu e meus pais dis- cutimos sobre qual seria o nome dele. Papai deu muitas sugestões de nomes engraçados, como, por exemplo: Paçoquinha, Macarrão e até Couve de Bruxelas. Eu ri tanto dessas opções de nomes que o papai sugeriu, que minha barriga doeu de tanto rir. Até que chegamos em um acordo, quan- do a mamãe deu uma sugestão um tanto estranha,
  • 26. 26 mas legal. Ela olhou a marca do aparelho de som que estava no carro onde estava escrito: Kobe. Por mais estranho que pareça, gostamos do nome e o cachorrinho passou a se chamar Kobe.
  • 27. 27 Capítulo 4 Um dia na casa da vovóUm dia na casa da vovó
  • 28. 28 Sábado, dia nublado e chuvoso. Só bastava o cheiro da terra molhada vinda do quintal de casa para despertar em mim memórias das quais eu nunca quero esquecer. Ah! Como era bom, quan- do em um dia como esse ia visitar minha avó. Lembro-me de eu ir pulando nas poças de água, do jardim de rosas, do balanço ao lado da casa, onde ela me empurrava o mais forte e alto que conseguia, dos biscoitos que fazíamos juntas, ela até deixava eu por mais chocolate nos meus, das histórias românticas e engraçadas que ela me con- tava sobre ela e o vovô, da nossa brincadeira fa- vorita: era só pegar os cobertores e alguns barban- tes com auxílio de algumas vassouras que estava pronta a ‘’nossa casinha‘’. E, nela, se foram horas de histórias e canções que ela contava para mim antes de dormir, ali mesmo, no seu colo de vó.
  • 29. 29 Tomada de saudade desses momentos, não pude deixar de pensar o quão bom seria revivê-los com minha avó. Toda saudade que senti me fez querer visitá-la. Então, decidida de que queria vê-la, pedi minha mãe que me levasse, pois ela morava um pouco longe. Minha mãe abriu um sorriso dizen- do que sim, ela me levaria e que estava feliz por eu ter me interessada em ver minha avó novamente. Devido ao fato de que depois que o vovô morreu, ela ficou muito triste e já não era feliz como antes do vovô morrer e, com isso, perdemos a conex- ão que tínhamos. Peguei meu casaco cor de vio- leta que minha vó fez para mim, mamãe pegou a chave do carro e fomos. Durante o passeio, mamãe colocou a música que ela e eu cantávamos juntas. Depois de tanto tempo, foi divertido pod- er compartilhar esse momento. Fazia tanto tempo que eu e minha mãe não nos divertíamos assim,
  • 30. 30 já que ela e o papai trabalhavam muito e não da- vam muita atenção para mim, mas não os culpava por completo, pois percebia que não é só a falta de tempo, e sim também com a realidade de que eles pareciam não saber como lidar comigo nesta transição que estava a viver. Mas enfim, o passeio foi tão legal. Continuamos a cantar juntas, e num dado momento ,com minha cabeça reclinada so- bre a janela do carro, fiquei observando as gotas da chuva que escorriam pelo vidro, até que, de longe, avistei o mesmo jardim de rosas, o mesmo balanço e a mesma casa, eu mal podia esperar para revêla. Mamãe deixou-me na entrada da casa dela e disse que me buscaria às cinco da tarde, e que ela não poderia ficar, pois tinha encomendas de pinturas a entregar. Enquanto caminhava em di- reção à casa, vi as mesmas poças de água em que eu pulava quando era mais nova, fiz o mesmo tra-
  • 31. 31 jeto pulando em cada uma delas até à porta, mas não tenho mais cinco anos de idade, né? Apertei a campainha, sem demora minha vó me atendeu com sorriso no rosto e brilho nos olhos. Logo ela me abraçou, um abraço longo e carinhoso. Entrei, e isso foi necessário para fazer daquelas memóri- as uma realidade nessa tarde chuvosa.
  • 33. 33 Domingo de manhã ensolarada, estávamos eu e meu pai em casa, mamãe havia saído para visi- tar a vovó. Nesse dia, meu pai não ficou durante todo o tempo no notebook escrevendo seus liv- ros, pelo contrário, ele me perguntou se eu queria ajudar a dar banho no kobe. Fiquei feliz por ele querer fazer algo comigo, mas também pensar no desafio que seria, já que o kobe odeia tomar ban- ho, mas aceitei. Foi só ele ouvir a palavra banho que logo correu para dentro de casa e se enfiou debaixo da primeira cama que viu. Tentei pegá- lo, e enquanto eu tentava pegá-lo, meu pai encheu o balde de água e sabão. Depois de muito tentar, eu consegui pegá-lo, mas não acabou, porque ele não desiste fácil. Meu pai me chamou, quando, de repente, o kobe fugiu das minhas mãos e ficou correndo por todo lado no quintal. Lá fomos eu o
  • 34. 34 papai correr atrás dele. O meu pai até caiu quan- do tentou apanhá-lo, até que eu o peguei. Daí em diante, foi um corre-corre para tentar dar banho nele. Kobe não ficava quieto, espirrou água pra tudo que é canto, eu fiquei ensopada, tinha sabão até nos óculos do papai, mas conseguimos. Es- távamos exaustos, mas felizes, pois fizemos isso juntos. Foi tão divertido! Pude perceber que ele é um bom pai, mesmo que ausente, às vezes, ele tentava ser.
  • 35. 35 Capítulo 6 Um convite para o cinemaUm convite para o cinema
  • 36. 36 Como de costume, depois da aula sexta-fei- ra, Kira e eu fomos à sorveteria pra conversarmos e nos distrairmos um pouco. Planejamos ir ao shopping comprar um vestido para o casamen- to da irmã mais velha da mãe dela, então o ce- lular tocou e ela teve que sair correndo. A casa dela estava um caos por causa dos preparativos do casamento, a senhora Hinata, mãe da Kira, estava quase enlouquecendo e deixando a to- dos loucos também. Eu continuei na sorveteria, depois que Kira saiu, Lee, primo dela, apareceu. Ele é da nossa turma, é um grande amigo, uma das pessoas mais incríveis que conheci, desde cri- ança, com ele sinto-me mais à vontade pra ser eu mesma, pra conversar, contar segredos, ele sem- pre me entende ,me faz rir como ninguém e eu gosto disso. Lee se aproximou e perguntou sobre
  • 37. 37 Kira, contei o que tinha acontecido. Ele sentou-se à mesa comigo, nós conversamos um pouco, ele me contou sobre os problemas que estava tendo com os pais que queriam mandá-lo para a casa de uns parentes no Japão para estudar, mas Lee não queria ir embora, isso estava causando muitas di- vergências entre ele e os pais, deixando-o triste, ele até tentava disfarçar, mas eu percebia. Tudo isso me fez pensar que, apesar de um pouco dis- tantes, meus pais e eu sempre fomos unidos e eu sei que eles nunca me obrigariam a fazer algo que não me deixasse eliz. Saímos da sorveteria. Lee me acompanhou até em casa, ficamos calados du- rante todo o caminho, mas eu tive a impressão de que ele queria me dizer alguma coisa, e eu esta- va certa. Quando chegamos à minha casa, Lee me perguntou se eu queria ir ao cinema, eu disse que tudo bem e perguntei quem mais iria, ele disse
  • 38. 38 que só eu e ele. Fiquei calada, então ele tentou me explicar, mas não sei o que aconteceu com ele que, de repente, começou a trocar palavras, não dizia nada com nada, até começou a gaguejar um pou- co, eu nunca o vi assim. Eu não aguentei e come- cei a rir, então ele começou a rir também. Enfim, quando paramos de rir, Lee conseguiu explicar. Acontece que ele havia comprado dois ingressos um pra ele e outro para o amigo, que acabou des- marcando, então, ele decide me chamar. Fico me perguntando, será que essa história dos ingres- sos foi só uma desculpa pra me chamar pra sair? Não! Isso deve ser apenas coisa da minha cabeça, afinal, somos só amigos. Mas aquela reação dele foi um pouco estranha. Marcamos de nos encon- trarmos no cinema às seis da tarde. Achei mel- hor assim. Entrei em casa, procurei meus pais, e ,como sempre, estavam ocupados; meu pai esta-
  • 39. 39 va trabalhando no seu livro e minha mãe falava ao telefone com a mãe da Kira, pelo que eu en- tendi era alguma coisa sobre o casamento, então eu preferi não dizer nada sobre o cinema, melhor falar depois. Até lá eu encontro a melhor forma de falar pra eles que vou sair sozinha com um garo- to, no fundo eu sei que eles não vão se incomodar tanto, mas, mesmo assim, acho que vai ser uma conversa um pouco estranha, no mínimo, difer- ente. É difícil explicar, talvez esse sentimento en- tre na classificação de “não sei o quê”. Fui para o jardim brincar com o Kobe, acabei me atrasan- do um pouco e tive que me arrumar bem rápido. Quando desci, meus pais estavam na sala, eles me perguntaram onde eu estava indo, eu disse que ia ao cinema com o Lee, eles se olharam com um leve sorriso no rosto e me perguntaram se iríamos sozinhos, eu disse ,sim, e perguntei se não havia
  • 40. 40 problema, eles disseram que não, por que haveria problema? Então papai me perguntou se eu que- ria que ele me levasse ou buscasse, eu disse que não precisava e saí. Como a cidade é pequena, o cinema fica perto de casa, poucos minutos de ôni- bus e pronto, chegamos. Lee estava me esperan- do na entrada do cinema, tive a impressão de que ele estava um pouco ansioso. Compramos pipoca e entramos na sala de cinema. Não há muito o que falar sobre o filme, eu não gostei muito. Na volta, ele me acompanhou até em casa, mesmo não morando perto da minha. Paramos um pou- co na praça, perto do ponto de ônibus, e ficamos conversando, quando percebi já tínhamos camin- hado até a porta da minha casa, nos despedimos, eu beijei a bochecha dele, que sorriu. Entrei e só aí percebi o que tinha feito, mesmo sendo amigos há muito tempo, nunca estivemos tão próximos.
  • 41. 41 Fiquei morrendo de vergonha! Olhei pela jane- la e o vi parado olhando pra casa com o mesmo sorriso, depois foi embora. Meus pais estavam na cozinha conversando, entrei e eles me pergun- taram como tinha sido o passeio, eu só disse que tinha sido legal, eles me desejaram boa noite e fo- ram para o quarto, eu fui para o meu logo depois. Deitei na cama e fiquei pensando nas coisas que aconteceram, no Lee, na nossa amizade e nessa coisa nova que estava acontecendo entre a gente. Ou era coisa da minha cabeça? Seja como for, isso estava me deixando louca. Também pensava nos meus pais, às vezes com aquele jeito mais livre deles, parecem que não se importam comigo, mas sei que estou enganada.
  • 43. 43 Não gosto muito de fazer compras. Parece es- tranho uma garota de 15 anos dizer isso, mas é verdade, não tenho paciência e olha que eu sou muito paciente. Ficar olhando roupas, passar ho- ras tentando encontrar um sapato que combinar com tal roupa não é a minha praia, talvez porque seja difícil encontrar algo que me agrade. Kira passou na minha casa para irmos juntas ao shop- ping como combinado, já que a cidade é pequena e não há muitas opções de lojas, por isso tínham- os que ir ao shopping na cidade ao lado, a sen- hora Hinata ia com a gente, mas Kira disse que ela não poderia mais, devido a um imprevisto, minha mãe ouviu a conversa e se ofereceu para nos levar. Saímos pouco antes do almoço. Ficamos um tempão procurando o que queríamos. Kira e mamãe escolheram vestidos lindos, o de Kira
  • 44. 44 era rosa claro e minha mãe escolheu um vestido verde, não me surpreendeu, ela adora verde. As horas passavam e eu não havia encontrado o meu vestido. Nada me agradava, já estava quase de- sistindo quando vi em uma vitrine o vestido per- feito, o mais bonito que já vi! Azul com bolinhas pretas! Ahhhhhh... pode parecer bizarro pra al- guns, mas esse, definitivamente, é o meu gosto pra roupa. É raro eu gostar tanto assim de um vestido, pois tudo geralmente é tão igual nessa cidade. Mas como nem tudo é perfeito, ele era um pouco caro e eu fiquei sem jeito de pedir minha mãe um vestido com aquele preço, então eu deix- ei pra lá e tentei encontrar outro vestido, não tive sucesso na busca, preferi continuar procurando outro dia. Compramos o que faltava e voltamos para casa. Depois do jantar, fui para o meu quar- to e fiquei pensando, acho que é a coisa que mais
  • 45. 45 faço, e isso, às vezes, me deixava louca. Peguei um livro para ler e tentar relaxar. Lee me ligou e ficamos conversando até tarde, como sempre, nem vi as horas passarem. Acordei tarde no dia seguinte, desci para uma cozinha onde meu pai estava fazendo uma torta de nozes, o cheiro esta- va por toda casa.Papai me perguntou por que eu acordei àquela hora, eu disse que fiquei até tarde falando ao telefone com um amigo, só pra ver a reação dele, então ele me perguntou se esse tal amigo era o Lee, eu disse que sim, ele falou ,com certa ironia, que eu estava muito próxima do Lee ultimamente. Para mudar de assunto, eu pergun- tei sobre a mamãe, ele sorriu, acho que o papai notou que tentei mudar de assunto, falou que ela havia saído cedo. Subi para o quarto, troquei-me e fui cuidar do jardim, pois me faz bem, me traz paz e ajuda a colocar os pensamentos no lugar.
  • 46. 46 Kira chegou e ficamos conversando por um tem- po, contei a ela sobre o Lee, ela sorriu e disse que já era hora, não entendi o que ela quis dizer. Kira me contou que Lee sempre gostou de mim e que todos tinham notado, menos eu. Minha amiga foi embora sem me dar mais nenhuma explicação, deixando –me com vários pontos de interrogação. Comeceiamelembrardequandoéramoscrianças, de tudo que tínhamos em comum, enfim, será que Kira está certa? Passei um bom tempo no jardim pensando nisso, nem almocei. Fui tomar um ban- ho, pois estava suja de terra e quando desci para sala, mamãe já tinha chegado, ela me entregou uma sacola, perguntei o que era, ela me disse pra abrir. Era o vestido, eu fiquei sem saber o que diz- er, fiquei tão feliz! Mamãe falou que percebeu que eu tinha gostado do vestido e fiquei triste por não poder comprá-lo, então ela falou com o papai e os
  • 47. 47 dos concordaram em me dar o vestido, mas que seria o meu presente de aniversário adiantado, eu agradeci e nos abraçamos. Papai saiu da cozinha perguntando: quem quer torta? Olhamos para o papai, demos uma risada e fomos comer uma de- liciosa torta do papai.
  • 48. 48 Capítulo 8 Meu primeiro beijoMeu primeiro beijo
  • 49. 49 No dia do casamento, acordamos cedo. Mamãe e eu fomos até a casa da Kira para ajudar com os últimos preparativos, foi bem divertido, ape- sar do nervosismo da senhora Hinata, que esta- va pior que a noiva. Lee estava lá, confesso que tentei evitá-lo, depois do que Kira disse, mas não tive muito sucesso. Estava ficando tudo tão lindo, nunca tinha ido a um casamento, muito menos a um com toque especial da cultura japonesa. É diferente dos casamentos que vejo nos filmes, mas tão lindo quanto! Acabamos de ajudar e fo- mos nos arrumar. Tínhamos pouco tempo para nos arrumar, mamãe ficou linda no vestido, pa- pai ficou com cara de bobo apaixonado ao vê-la. Sabe aquelas cenas de filmes e de contos de fada, quando a princesa desce as escadas para o salão do baile e todos a olham e o príncipe fica admi-
  • 50. 50 rado com sua beleza. Então, era assim que meu pai olhava a mamãe. Os noivos estavam lindos e o mais importante, felizes! A festa também esta- va incrível, todos muito alegres e se divertindo. Quando a festa já estava acabando e os convida- dos liberados a ir embora, eu fui até a parte de trás da casa onde havia uma árvore grande que esta- va especialmente linda por causa da primavera. Eu a adorava, desde que a vi, pela primeira vez, me encantei por ela. A senhora Hinata disse que aquela árvore estava ali há muito tempo, desde antes dela nascer. Quando eu era criança, achava que ela era encantada e que lá viviam fadas, mas isso é coisa do meu pai que adorava me contar es- sas histórias. Sinto saudades de quando eu acred- itava. Lee apareceu ali, ele estava lindo com o tra- je de gala. Logo me perguntou por que eu estava sozinha, eu disse que estava apenas relembrando
  • 51. 51 algumas coisas, ele se aproximou e me perguntou por que eu estava tentando evitá-lo, fiquei calada ,olhei novamente para a árvore, não queria contar pra ele o que Kira me disse. E se fosse mentira? Ele iria me achar ridícula. Para mudar de assun- to, resolvi falar sobre a árvore e com as histórias em que eu acreditava quando criança, ele sorriu e me falou que eu não era muito boa em mudar de assunto. Ele sorriu e eu também, me olhou, disse que eu estava linda e beijou-me. Foi tão inespera- do, eu levei um susto quase travei, simplesmente não sabia o que fazer. Nós nos afastamos, lenta- mente, um do outro e eu fiquei ali parada e ad- mirada. Kira chegou logo depois para me dizer que os meus pais estavam me chamando para ir- mos embora. Ainda bem que a Kira não viu nada. Despedi-me do Lee, da Kira e fui para casa. Mal consigo explicar o que eu senti e que estou sentin-
  • 52. 52 do com aquele beijo inesperado. Esse é mais um sentimento que vai pra lista de “não sei o quê”.
  • 53. 53 Capítulo 9 E a faculdade?
  • 54. 54 Já é noite, estou no chão do meu quarto senta- do no tapete com o kobe e aqui pensando com os meus botões sobre o que eu quero ser profis- sionalmente. Esse pensamento se deu pelo fato de que hoje mais cedo eu estava fazendo meu de- ver de matemática e, com tanta dificuldade para resolvê-lo, lembrei-me de como a Kira é boa em matemática. O dia passou e cá estou eu com mais um dos dilemas, que é uma incerteza, como se não bastasse as outras dúvidas me vem mais essa: o que eu vou ser profissionalmente? Essa é uma das perguntas que está sem resposta no momento, pois ainda não descobri o que realmente gostaria de fazer. Não como minha mãe e meu pai que, desde criança, já sabiam o que queriam ser. Isso, para algumas pessoas da minha escola, é uma pergunta já respondida, por exemplo, a kira quer
  • 55. 55 fazer engenharia, pois lidava bem com os cálcu- los, mas para mim é como fosse um labirinto por ter muitas opções de profissões e não achar o que realmente combina comigo. Meu pai quer que eu faça letras, já minha mãe gostaria que eu fizesse artes plásticas, mas acho que não combina comi- go. Definitivamente não sei o que eu gostaria de fazer. Mas acho que não devo me preocupar com isso agora, pois tenho muito tempo pra pensar nisso, quem sabe eu me encontro em um desses pensamentos.
  • 57. 57 Terça à tarde, depois que cheguei da escola, en- trei em casa e não vi ninguém, foi quando gritei pelos meus pais e eles me responderam do sótão. Fui lá ver o que eles estavam fazendo e os vi or- ganizando caixas e tirando a poeira das pratelei- ras. Mamãe me perguntou se eu queria ajudar, como não tinha nada para fazer, aceitei. Peguei a primeira caixa que vi e, quando abri, vi uma foto do meu pai quando criança, perguntei-me se ele já gostava de escrever desde criança. Logo depois, avistei no fundo uma foto de minha mãe também quando criança. Ela usava uns óculos enormes. Debaixo de uma foto de casamento deles, vejo uma foto minha de quando eu era criança. Aquela moldura toda enfeitada de lantejoulas e macarrão colorido que fiz com minha mãe parecia intacta, mesmo depois de tantos anos. A foto estava um
  • 58. 58 pouco amarelada, mas, mesmo assim, pude me ver naquela foto como se fosse ontem. Eu estava toda suja de tinta, pois tinha ajudado a mamãe com alguns quadros e o meu cabelo, como sem- pre, bagunçado e preso na franja com uma presil- ha de borboleta que o papai havia comprado para mim. Sentir-me tão feliz ao ver essa foto. Fiquei triste pela diferença dessa foto com a minha re- alidade hoje,tão confusa sobre tudo. Quando eu era criança, me preocupava só em brincar, minha imaginação era tão fértil que quase podia me faz- er voar. Hoje, ela não é tão leve assim, pelo con- trário, minhas preocupações e dúvidas me pren- dem no chão me lembrando da minha realidade de complexa, as dificuldades no relacionamento com meus pais e dúvidas. Mais tarde, já deitado na cama e sem sono, fiquei pensando no que tinha acontecido mais cedo, e esses e outros pensamen-
  • 59. 59 tos me ocuparam à mente, como será se o Lee gos- tar de mim? Não sei a resposta, ele nem me pediu em namoro, e eu não sei se teria aceitado, pois é cedo demais, sem falar que eu não sei se ele vai se mudar. Bem que eu gostaria de ver como meus pais reagiriam se ele me pedisse em namoro, não para chamar atenção deles, mas só para ver como eles reagiriam. Só para ver como eles reagiriam em uma situação como essa. Às vezes, sinto falta de ver a atuação deles ,como pais, como, por ex- emplo, uma bronca por ter tirado nota baixa no boletim em matemática, ou ver se o meu pai me encheria de perguntas se eu contasse que gosto de Lee, ou a presença deles na reunião de pais e pro- fessores e como seria se minha mãe me pergun- tasse sobre de quem gosto. Só queria que os meus pais fossem pais. Enfim, eu acho que de tanto ser diferente, no fundo eu só quero ser eu mesma.
  • 61. 61
  • 62. 62 Contato Tatiana Fernandes é uma eter- na estudante, artesã e desenhista amadora. Em sua primeira obra vem mostrar um sonho realiza- do, que em forma de um trabalho escolar na época do colégio, hoje toma forma em Clarice. @Tati.n_98 tneves804@gmail.com
  • 63. 63
  • 64. 6464