Apostila materia organica

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Apostila materia organica

  1. 1. UNIVERSIDADE FEDERAL DE VIÇOSACENTRO DE CIÊNCIAS AGRÁRIASDEPARTARTAMENTO DE SOLOSSOL 375 – Fertilidade do SoloMatéria Orgânica do Solo*1ªAproximação* Adaptado do Capítulo IV - Matéria Orgânica da ABEAS preparada pelosProfessores Eduardo de Sá Mendonça e Emílio Gomide Loures do DPS/UFV.
  2. 2. 5.1. ObjetivoO Módulo V, Matéria Orgânica do Solo, tem como objetivo proporcionarconhecimentos básicos sobre a origem e a dinâmica da matéria orgânica dosolo; suas características e propriedades; e discutir como algumas propriedadesdo solo e da planta são influenciadas pela matéria orgânica.5.2. IntroduçãoFigura 5.1. Dinâmica da matéria orgânica (Alexander, 1977).As tranformações por que passa o carbono compreendemessencialmente duas fases: fase de fixação do gás carbônico e a fase deregeneração.A fixação do gás carbônico atmosférico é efetuada pelos organismosfotossintéticos, plantas verdes, algas e bactérias autotróficas. Esta fixação finaliza-sena síntese de compostos hidrocarbonados de complexidade variável, amidos,hemiceluloses, celuloses, ligninas, proteínas, óleos e outros polímeros. Estescompostos retornam ao solo com os resíduos vegetais; são utilizados pelosMatéria Orgânica do Solo* 1
  3. 3. microrganismos que regeneram o gás carbônico durante as reações de oxidaçãorespiratória, utilizando a energia que lhe é indispensável.A velocidade de decomposição da matéria orgânica do soloindependente da forma em que se encontra é condicionada à inúmeros fatores,dentre eles:- Origem e natureza da matéria orgânica- Agentes responsáveis- Umidade- Arejamento- Temperatura- Acidez do solo- Nutrientes do solo5.3. Origem e Natureza da Matéria OrgânicaA matéria orgânica do solo provem, em quase sua totalidade, deresíduos vegetais cuja composição média varia entre as diferentes espécies devegetais e, dentro da mesma espécie, com a idade e nutrição da planta.Todavia, apesar de se encontrar diferenças entre as espécies, ocorre certaconstância entre os componentes básicos das plantas, variando apenas opercentual dos componentes estruturais.Em termos percentuais de peso do vegetal seco, os componentes dosvegetais são, comumente, divididos em seis grandes grupos (Waksman, 1952):1 - Celulose 15 a 60 %2 - Hemicelulose 10 a 30 %3 - Lignina 5 a 30 %4 - Fração solúvel em água 5 a 30 %açúcares simplesamino ácidosácidos alifáticos5 - Fração solúvel em éter ou em álcool 1 a 15 %gordura resinaóleos alguns pigmentosMatéria Orgânica do Solo* 2
  4. 4. ceras6 - Proteínas 1 a 10 %Os constituintes minerais usualmente encontrados nas cinzas variam de 1,0a 12%. Durante a decomposição da matéria orgânica pela ação de enzimas emicrorganismos, alguns componentes são mais prontamente utilizados queoutros.A fração solúvel em água e proteínas são os primeiros compostos aserem metabolizados. A celulose e hemicelulose não desaparecem com amesma intensidade, mas a permanência no solo destes compostos érelativamente curta. As ligninas são altamente resistentes, tornando-se, àsvezes, relativamente mais abundantes na matéria orgânica em decomposição.A relação C/N, carbono/nitrogênio, pode, muitas vezes, determinar acinética de decomposição.Assim, deve-se considerar a dinâmica da relação C/N sob dois aspectos:a - Relação C/N dos microrganismosb - Relação C/N da matéria orgânicaNo primeiro caso, verifica-se que a relação C/N das células microbianasvaria bastante. Em termos médios pode-se considerar que nos fungos a relação C/N= 10:1, nos actinomicetos igual a 8:1, nas bactérias aeróbias igual a 5:1 e nasbactérias anaeróbias igual a 6:1.A matéria orgânica do solo constitui a principal fonte de C para osmicrorganismos. Entretanto, nem todo carbono da matéria orgânica é transformadoem célula microbiana, grande parte dele se perde sob a forma de CO2 decorrentede sua mineralização. A quantidade de carbono da matéria orgânica, assimilávelpelos microrganismos do solo, é variável segundo o microrganismo ou grupos demicrorganismos considerados.Percentualmente, têm-se os seguintes coeficientes assimilatórios docarbono orgânico total:Fungos 30 a 40 %Actinomicetos 15 a 30 %Bactérias 1 a 15 %Matéria Orgânica do Solo* 3
  5. 5. Em termos práticos, pode-se considerar o coeficiente assimilatório docarbono orgânico, em torno de 35 %.Com os dados citados, pode-se verificar, por exemplo, o que se passa nocaso da decomposição da palha do milho.A palha do milho, apresenta 40 % de C e 0,7 % de N.Cosiderando um coeficiente assimilatório do C de 35 %, têm-se em 100 kgda palhada:100 kg → 40 kg C total40 kg C total x 0,35 = 14 kg C assimilávelConsiderando uma relação C/N dos microrganismos de 10:1, encontra-se:C N/ = =14101 4, kg de N necessário à decomposiçãoA palha de milho apresenta, no exemplo, 0,7 % de N.100 kg → 0,7 kg N disponível1,4 kg N necessário - 0,7 kg N disponível = 0,7 kg N déficitVerifica-se, pelos cálculos, que para que ocorra decomposição rápida de100 kg de palha de milho, torna-se necessária a adição de 0,7 kg de nitrogênio.Nesse caso, os microrganismos retiram do solo o nitrogênio disponível,provocando o fenômeno da imobilização do N do solo, competindo, assim, coma vegetação, por este elemento.Pelo termo "imobilização do nitrogênio" subentende-se a transformaçãodo nitrogênio mineral do solo - NO3- e NH4+ - para uma forma orgânicamicrobiana.Matéria Orgânica do Solo* 4
  6. 6. NO3- ou NH4+ + microrganismo → N orgânicoO termo mineralização do nitrogênio corresponde à transformação do Nsob forma orgânica a N combinado mineral.N orgânico + microrganismos → NH4+ → NO3-Durante a decomposição da matéria orgânica no solo a relação C/Ndiminui, tendo em vista que parte do C orgânico se perde sob a forma de CO2.Figura 5.3. Relação C/N, imobilização (i) e mineralização (m) do N durante a decomposição damatéria orgânica.A Figura 5.3, adaptada de Alexander (1977) e Broadbent (1954),representa a curva de decomposição da matéria orgânica no solo,correlacionando sua relação C/N com os fenômenos de imobilização emineralização do N.Os resíduos orgânicos com relação C/N > 30 são considerados derelação C/N alta, entre 15-30 relação C/N equilibrada e menor que 15, relaçãoC/N estreita.Matéria Orgânica do Solo* 5
  7. 7. Cabe salientar que relações C/P/S, N/lignina e teor de fenois tambéminfluenciam a taxa de decomposição do material orgânico adicionado ao solo ouda matéria orgânica propriamente dita.5.4. Agentes ResponsáveisA microbiota do solo é, em sua maioria, heterotrófica, isto é, depende deuma fonte de carbono orgânico pré-formado para que possa crescer emultiplicar. Assim, praticamente todos os fungos, actinomicetos e a maioria dasbactérias e protozoários participam intensamente do processo de decomposiçãoda matéria orgânica.Os compostos orgânicos e minerais do solo sofrem transformaçõesincessantes, seja por processos de natureza química ou físico-química, seja porprocessos de natureza biológica, estes compreendendo a intervenção direta ouindireta dos microrganismos ou dos complexos enzimáticos do solo.As enzimas que se encontram no solo provêm não somente dosmicrorganismos, mas, também, da vegetação e da microfauna. A proporçãorelativa das enzimas de origem microbiana a daquelas de origem nãomicrobiana varia entre tipos de solo. Entretanto, pode-se admitir que as enzimasde origem microbiana são mais representativas.As enzimas que se encontram livres na solução do solo não persistempor muito tempo, pois sofrem biodegradação rápida. A Adsorção das enzimasnas argilas provoca, em geral, sua inativação parcial, porém pode, também,proteger estas proteínas da biodegradação.5.5. Umidade e arejamentoTodos os microrganismos, enzimas e organismos do solo dependem daágua para o seu crescimento e desenvolvimento. Ainda, grande parte dosmicroorganismos do solo são aeróbios ou microaeróbios. Assim, o teor de águado solo irá influenciar a decomposição da matéria orgânica. Nos dois extremosde umidade no solo, enxarcamento e dessecação, ocorre redução na velocidadede decomposição decorrente da redução nas atividades microbiana eenzimática. A atividade microbiana é reduzida, no primeiro caso, devido à faltade oxigênio e, no segundo, pela falta de água.As melhores condições para decomposição da matéria orgânica,conforme Figura 5.5, ocorrem quando o teor de umidade se encontra na faixaentre 40 a 60%.Matéria Orgânica do Solo* 6
  8. 8. Em solos tropicais, o enxarcamento permanente do solo constitui fator deacúmulo de matéria orgânica, podendo dar origem aos solos orgânicos.Figura 5.5 - Influência da umidade na decomposição da matéria orgânica (Waksman & Purvis,1952, citado por Waksman, 1952).Matéria Orgânica do Solo* 7
  9. 9. Figura 5.6 - Influência da aeração sobre a decomposição da alfafa (Waksman,1952).% de umidade% Materialresidual após2 meses dedecompo-sição010203040506070809010030 50 75 85Nitrogê-nio totalmatériasecatotalcelulose PentosanasFigura 5.7 - Influência da umidade e aeração sobre a decomposição de esterco de cavalo(Waksman, 1952).5.6. TemperaturaA faixa de crescimento microbiano está entre -0,5oC a 68oC (Atlas, 1984).Verifica-se que a amplitude de temperatura de crescimento é relativamentegrande, mas não quer dizer que os microrganismos crescem bem em toda ela.Alguns crescem mais em temperaturas mais baixas, são os Psicrófilos, -0,5oC a 20oC, outros em temperaturas médias, os Mesófilos, 14oC a 45oC e umgrupo especial que cresce melhor em temperaturas mais elevadas, osTermófilos, 42oC a 68oC (Atlas, 1984)Os microrganismos mesófolos e termófilos são mais ativos na decomposição da matériaorgânica. Em solos tropicais, considerando o efeito da temperatura, verifica-se uma velocidadede decomposição de 5 a 10 vezes maior do que em solos de clima temperado (Sanchez,1981), tornando difícil a manutenção de teores elevados de matéria orgânica no solo.O grupo termófilo de decompositores apresenta importância particular no caso deprodução do adubo orgânico, pela técnica de compostagem.Matéria Orgânica do Solo* 8
  10. 10. Na Figura 5.10, verifica-se que a faixa de temperatura mais favorável àdecomposição da matéria orgânica está entre 28oC e 50oC. Estes limites ótimosde decomposição fazem com que, em solos tropicais, torne-se extremamentedifícil a manutenção de níveis elevados de matéria orgânica (Sanchez, 1981).Matéria Orgânica Total _______Proteína - - - - - -Figura 5.10 - Efeito da temperatura sobre a decomposição da matéria orgânica (Waksman,1952).5.7. Acidez do SoloO pH do solo também influencia na velocidade de decomposição damatéria orgânica. A maioria dos microrganismos do solo tem seu pH ótimo deatuação, em torno da neutralização.Assim, correção do pH do solo pela técnica da calagem favorece aatividade microbiana e acelera a decomposição da matéria orgânica (Lopes,1977).5.8. Nutrientes do SoloAlém da exigência do carbono e nitrogênio pelos microrganismos dosolo, outros elementos igualmente são solicitados, em especial P, S, eMatéria Orgânica do Solo* 9
  11. 11. microelementos. Todavia esses outros elementos não têm constituído obstáculopara a decomposição, considerando que os próprios resíduos orgânicos jáapresentam nível favorável para5.9. Síntese e Degradação de SubstânciasHúmicasAs substâncias húmicas se apresentam, no solo, como a fração orgânicamais estabilizada e, como conseqüência desta estabilidade, vêm constituir areserva orgânica do solo.Sua composição é extremamente variada. Todavia, em todas elas, acaracterística principal é que o componente estrutural básico é o núcleo dadopelo anel benzeno.A grande variação no grau de polimerização e no número de cadeiaslaterais e radicais que podem ser encontrados nas substâncias húmicas faz comque não existam duas moléculas húmicas idênticas (Dommergues & Mongenot,1970).Sua origem está ligada à atividade de enzimas e microrganismos do solosobre o material orgânico incorporado, cuja principal fonte é constituída pelosresíduos vegetais. Essas substâncias, no solo, podem ser adsorvidas peloscolóides argilosos, formando complexos argilo/húmicos, ou reagir com o íonCa2+ e, nestas condições, ficam mais resistentes a biodegradação.Por outro lado, há casos em que a duração da fração húmica do solo émuito curta, como o que se observa em solos tropicais, quando os mesmosapresentam baixo teor de argila.Os teores da fração húmica também podem ser reduzidos no solo devidoàs práticas agrícolas que comumente favorecem não só a cultura, mas, também,estimula maior atividade microbiana e enzimática no solo.5.10. Características e Propriedades das FraçõesHúmicas e Não Húmicas do SoloA fração orgânica do solo representa um sistema complexo, composto dediversas substâncias, sendo sua dinâmica determinada pela incorporação dematerial vegetal e animal ao solo e pela transformação destes, via ação dedistintos grupos de microrganismos, de enzimas e da fauna do solo.Matéria Orgânica do Solo* 10
  12. 12. As substâncias húmicas constituem, nos solos minerais, de 85 a 90% damatéria orgânica. Os outros 10 a 15% são constituídos por compostos orgânicosde natureza individual (proteínas, carboidratos, gorduras, ceras) (Kononova,1982)De acordo com a literatura (Schnitzes & Khan, 1972, 1978), as fraçõeshúmicas são quimicamente muito parecidas, diferindo em peso molecular, teoresde C, O, N e S, e conteúdo de grupamentos funcionais. Os ácidos fúlvicos têmmenor peso molecular, maior teor de O nos grupamentos funcionais (COOH, OHe C = O) por unidade de peso que as outras frações húmicas (Quadro 5.2).Quadro 5.2 - Composição química média das substâncias húmicas.SubstânciaFenólico-OH------------------ g kg-1 -------------------------mol kg-1-------ÁcidosFúlvicosÁcidosHúmicosHuminaFONTE: Schnitzer & khan (1972).As cargas negativas superficiais das substâncias húmicas sãodependentes de pH. Sendo assim, com a elevação do pH ocorre dissociaçãodos grupamentos orgânicos, de acordo com o esquema:Matéria Orgânica do Solo* 11
  13. 13. Com a elevação do pH de 3 a 10 ocorre incremento significativo dascargas superficiais das substâncias húmicas (Figura 5.15). Os ácidos fúlvicospossuem maior número de prótons dissociáveis por unidade de massa do queos ácidos húmicos. Contudo, ambos possuem mais cargas do que a capacidadede troca típica de uma argila 2:1 (< 2 molc kg-1). Sendo assim, a matériaorgânica tem grande influência no poder tampão do solo. Visto que grande partedos grupamentos acídicos das substâncias húmicas se dissociam entre pH 5 e7, espera-se que elas tenham carga líquida negativa nos solos.Figura 5.15 - Desenvolvimento de carga superficial dos ácidos húmicos e fúlvicos em diferentesvalores de pH (Sibanda, 1984).A grande capacidade de retenção de cátions das substâncias húmicasestá relacionada, também, com sua alta superfície específica, decorrente de suagrande subdivisão. Devido a essas duas propriedades, a matéria orgânica podeabsorver grandes quantidades de água por meio de pontes de H+ dosMatéria Orgânica do Solo* 12
  14. 14. grupamentos reativos, podendo reter até 4 a 6 vezes o seu peso em água. Àmedida que se aumenta a polimerização das substâncias húmicas ocorrediminuição da capacidade de hidratação das substâncias húmicas.Embora não seja ainda conhecida a configuração molecular dassubstâncias húmicas, os grupamentos reativos têm sido bem caracterizados. Osprincipais grupamentos que participam na formação dos complexos com metaissão:Esses grupamentos funcionam como doadores de átomos na formaçãode complexos, conferindo a abilidade da matéria orgânica de formar complexos,solúveis ou insolúveis em água, com íons metálicos, e oxihidróxidos e interagircom minerais de argila. A propriedade de formar complexos e a presença deanéis aromáticos em sua estrutura faz com que as substâncias húmicas sejamresistentes a degradação microbiana.Os principais fatores que interferem na formação de complexos organo-metálicos são o pH, a força iônica da solução e o tipo de metal e compostoorgânico presente (Stevenson & Fitch, 1986).Os mecanismos que possibilitam a formação de complexos podem serdivididos em catiônicos, aniônicos, de coordenação, pontes de hidrogênio,ligações covalentes e forças de Van der Walls. Dessa forma, a formação decomplexos vai ter influência direta na disponibilidade ou não de elementos àsplantas, dependendo do material orgânico e da concentração e carga do metalenvolvido. Com a elevaçào do pH, a formação de complexo Al-MO e/ou Fe-MOpode retardar o processo de hidrólise do cátion, mantendo-o em solução e emcondições de ser absorvido pelas plantas.5.11. Influência da Matéria Orgânica nasPropriedades do Solo e da PlantaMatéria Orgânica do Solo* 13
  15. 15. A atuação da matéria orgânica nas propriedades do solo é de muitaimportância como fonte de energia e de nutrientes para os organismos e para asplantas, na capacidade de troca de cátions e no tamponamento do pH. Elaparticipa, também, como agente cimentante na agregação do solo,influenciando, diretamente, a retenção de água e o arejamento. Dada sua baixapegajosidade e plasticidade, ela pode elevar o limite de umidade no qual o solose torna plástico e pegajoso, diminuindo, também, o valor de umidade onde omesmo se torna muito duro. Dessa forma, ela pode aumentar a faixa ótima demanejo que o solo pode ser trabalhado, sem problemas com os implementosagrícolas. Ela pode, também, aumentar a capacidade de absorção de calor nasuperfície do solo, dado seu escurecimento.Uma das mais importantes e estudadas contribuições da matériaorgânica nas propriedades do solo é sua capacidade de suprir nutrientes para ocrescimento e desenvolvimento das plantas, principalmente nitrogênio. Osnutrientes podem ser retidos ou liberados pela matéria orgânica por meio dedois processos: processos biológicos, que controlam a retenção ou liberaçãode N, P e S, visto que estes elementos fazem parte de unidades estruturais damatéria orgânica; processos químicos, que controlam as interações comcátions. Visto que a matéria orgânica é freqüentemente a maior fonte de cargasnegativas nos solos tropicais, sua manutenção é muito importante para aretenção de cátions disponíveis no solo. Sendo assim, deve-se tentar atingir umequilíbrio se desejar explorar as reservas orgânicas de N, P e S do solo.Geralmente, 95% ou mais do N e S e entre 20 e 70% do P da camadasuperficial dos solos são encontrados na matéria orgânica. Cerca de 40 a 50%do N orgânico do solo estão na forma de aminoácidos. Com exceção dasleguminosas e de outras espécies vegetais que fixam o nitrogênio molecular emsimbiose com os microrganismos, as plantas absorvem o nitrogênioprincipalmente sob a forma mineral, nítrica ou amoniacal e, excepcionalmente,sob outras formas orgânicas como ácidos aminados e vitaminas. Essas formasminerais provêm, em grande parte, da ação dos microrganismos e doscomplexos enzimáticos do solo, sobre a matéria orgânica.Por meio dos seus grupamentos reativos, a matéria orgânica tem grandeinfluência na capacidade de retenção de cátions e capacidade tampão dos solostropicais. Estes solos que apresentam baixa capacidade de troca decorrente doavançado estágio de intemperização em que se apresentam. Dessa forma, amatéria orgânica tem grande influência sobre a concentração de prótons (pH) ede cátions metálicos na solução do solo. Como já visto, a CTC da matériaorgânica tem sua origem, principalmente, nas cargas negativas oriundas dosgrupamentos carboxílicos e fenólicos. A participação da matéria orgânica naMatéria Orgânica do Solo* 14
  16. 16. CTC dos solos tropicais em comparação com a contribuição dos colóidesminerais pode variar de 20 à 80% do valor total (Verdade, 1956). Portanto, háalta correlação entre a CTC dos solos e sua percentagem de carbono orgânico(Figura 5.18).A interação da matéria orgânica com a fração argila tem influênciamarcante no desenvolvimento da estrutura do solo. A formação e estabilizaçãode agregados no solo melhorando as condições de aeração e infiltração é umadas funções mais importantes da matéria orgânica.Figura 5.18 – Correlação entre a capacidade de troca catiônica e o teor de carbono orgânico dehorizontes B textural e B latossólico do solos do Estado de São Paulo (Kiehl,1979).A matéria orgânica pode também reagir com outros compostos orgânicoscomo pesticidas, principalmente herbicidas, tornando-os menos ativos no solo einfluindo nas suas propriedades.A matéria orgânica pode ter, também, efeito direto sobre o crescimento edesenvolvimento das plantas. Dessa forma, tem sido observado estímulo nocrescimento radicular e foliar com a aplicação de substâncias húmicas na formade adubo orgânico. Esse efeito tem sido correlacionado com o aumento naabsorção de macro e micronutrientes, decorrente do aumento de suasolubilização. Contudo, pode ocorrer, também, absorção pelas plantas defrações orgânicas de baixo peso molecular, podendo acarretar aumento napermeabilidade da membrana celular e agindo, também, como hormónio (Chen& Avrad, 1990). Sendo assim, a absorção de compostos orgânicos podeocasionar aumento da respiração e dos níveis de clorofila das plantas (Quadro5.3).Matéria Orgânica do Solo* 15
  17. 17. Quadro 5.3 - Efeito dos ácidos húmicos e fúlvicos na respiração e teores de clorofila emplantas de tomate (Sladky, 1959)TratamentoAbsorção de O2 ClorofilaFolhasRaízes------------------------ % do controle -------------------------Controle100 100 100ÁcidosHúmicos124 123 163ÁcidosFúlvicos130 138 1695.12. Conservação da Matéria Orgânica do SoloA exploração de terras virgens têm sido sempre uma opção vantajosapara os agricultores brasileiros que aproveitando-se da fertilidade natural do solotem alcançado boa produtividade a um custo mínimo. O desgaste que o solosofre nesses processos exploratórios pode ser verificado ao longo da nossahistória por meio de migrações internas dos produtos e mobilidade das regiõesprodutoras.O rompimento do equilíbrio de sistemas naturais promove mudançasrápidas cuja velocidade depende do grau de intervenção. Em solos submetidosa um sistema de cultivo por vários anos, os teores de matéria orgânica atingemum equilíbrio, onde a taxa de adição é igual a taxa de decomposição. Quando oequilíbrio é alcançado num agroecossistema, o nível de matéria orgânica édeterminado pelo tipo de preparo do solo, sistema de cultico, rotações deculturas, aplicação de fertilizantes, textura do solo e condições ambientais. Nascondições tropicais, as perdas de matéria orgânica após o desmatamento sãorápidas, principalmente na fase inicial, e muitos dos nutrientes mineralizados, emMatéria Orgânica do Solo* 16
  18. 18. especial o N, perdem-se rapidamente, sem condições de aproveitamento pelasplantas. O manejo, nessa circunstância, exige que se adotem práticas queprotejam o solo, diminuindo as perdas.A recuperação das terras desgastadas de áreas agrícolas mais antigasou naturalmente pobres necessita de métodos apropriados que a façam demaneira mais rápida e econômica. A recuperação da matéria orgânica paraativar a vida biológica é de fundamental importância.Muitos autores (Smith et al., 1951; Greenland & Nye, 1959 e Greenland,1971) têm procurado determinar as constantes de decomposição e de acúmulo(K) da matéria orgânica ou do carbono e do nitrogênio orgânicos do solo, sobdiferente condições de clima e sistema de uso. A Figura 5.20 mostra a curva dedecomposição da matéria orgânica, sob um sistema tradicional de cultivointensivo, e a sua recuperação sob adubação ou manutenção do equilíbrio sobsistemas planejados de pasto-cultivo.K = constante de composição A = adição total de matéria orgânicaFigura 5.20 - Decomposição e recuperação da matéria orgânica do solo em função do uso e daadubação orgânica (c = cultivo e p = pastagem).A constante (K) mede a perda de matéria orgânica do solo, que aumentacom a intensidade de cultivo, menor em condições de pastagens do que emsolos cultivados. A incorporação da matéria orgânica no solo altera o equilíbrio;sendo maior que a constante (K) a tendência é enriquecer o solo. As práticas aserem adotadas são, portanto, aquelas que permitam maior adição possível deMatéria Orgânica do Solo* 17
  19. 19. matéria orgânica ao solo, sejam via rotação de culturas, coberturas verdes,incorporação de restos culturais ou adição de adubos orgânicos de diferentesorigens.No manejo de solos tropicais sob diferentes sistemas agrícolas, adecomposição e recuperação da matéria orgânica devem ser analisadascriteriosamente, tentando aplicar técnicas que proporcionem maiorenriquecimento do solo e aumento de sua produtividade final. Deve-se observarque conservação do solo num sentido amplo constitui um conjunto de práticasnecessárias para manutenção de um solo biologicamente ativo e, para atendertal objetivo, a prevenção da matéria orgânica constitui requisito indispensável.5.13. BibliografiaALEXANDER, M. Introduction to soil microbiology. New York, John Wiley, 1977. 467 p.ANDERSON, G. Assessing organic phosphorus in soil. In: The role of phosphorus inagriculture.(F.E. Khosawneh; E.C. Sample & E.J. Kamphath, eds.) Amer. Soc. Agron.,Madison, Wis. p.411,431. 1980.ANDERSON, G. & ARLIDGE, E.Z. The adsorption of inositol phosphates and glycerophosphateby soil clays, minerals, and hydrated sesquioxides in acid media. J. Soil Sci. 13:216-224.1962.ATLAS, R.M. Microbiology. New York, MacMillan, 1984. 879 p.BROADBENT, J.F. Modification in chemical propeties of strand during decomposition. Soil Sci.Soc. Amer. Proc. 18:165-169. 1954.BURNS, R.C. Soil enzymes. New York, Academic Press, 1978. 380 p.CHEN, Y. & AVIAD, T. Effects of humic substance on plant growth. In:Humic substances in soiland crop sciences: selected readings (MacCarthy, P. ed.). Amer. Soc. Agron. Madison,Wis. p. 161-186. 1990.DOMMERGUES, Y.R. & MANGENOT, F. Écologie microbienne du sol. Paris, Masson, 1970.796 p.EMERSON, W.W. The structure of soil crumbs. J. Soil. Sci. 10:235-244. 1959.FRENEY, J.R. Forms and reactions of organic sulfur compounds in soils. In:Sulfur in agriculture(Tabatabai, M.A. ed.) Amer. Soc. Agron. Madison, Wis. p. 207-232. 1986.GREENLAND, D.J. Changes in the N status and physical conditions of soil under pasturewith special reference to the maintenance of the fertility of australian soils used forwheat. Soil and Fertilizer., 34:237-251. 1971.GREENLAND, D.J. & NYE, P.H. Increases in the carbon and nitrogen contents of tropical soilunder nature fallows. J. Soil Sci., 10:284-288. 1959.IGUE, K. Dinâmica da matéria orgânica e seus efeitos nas propriedades do solo. In:Adubação Verde no Brasil. Fundação CARGILL. p. 232-267. 1983KIEHL, E.J. Manual de edafologia. Relações solo-planta. Ed. Agron. Ceres. São Paulo. 1979.KONONOVA, M.M. Soil organic matter. 2nd ed. New York, Pergamon Press, 1966. 544 p.KONONOVA, M.M. Matéria orgânica del Suelo: su naturaleza, propriedades y métodos deinvestigación. Barcelona, Oikos-Tou. 1982. 365 p.Matéria Orgânica do Solo* 18
  20. 20. Matéria Orgânica do Solo* 19LADD, J.N. & BUTLER, J.H.A. Humus enzyme system and synthetic organic polymes-enzymeanalogs. Soil Bioch. 4: 143-186. 1975.LOPES, D.N. Influência do calcário, fósforo e micronutrientes na mineralização damatéria orgânica e características físico-químicas de material de três solos deAltamira (Pará). Viçosa, Imprensa Universitária (Tese M.S.), 1977. 104 p.LYNCH, J.M. Biotecnologia do solo. São Paulo, Ed. Manole, 1986. 209 p.MARTIN, J.P.; ERVIN, J.O. & SHEPHERD, R.A. Decomposition and binding action ofpolysaccharides from Azotobacter Indicus (Beijerinckia) and other bacteria in soil. Soil Sci.Soc. Amer. Proc. 29:397-400. 1965.PARSON, J.W. Isolation of humic substances from soils and sediments. In: Humicsubstances and their role in the environment (Frimmel, F.L. & Christman, R.F. ed.). Wiley,New Yoek. p. 2-14. 1988.SANCHEZ, P.A. Suelos del trópico. San José, IICA, 1981. 634 p.SCHEFFER, F. & ULRICH, B. Humus and Humusdiingung. Ferdinand Enke, Stuttgard. 1960.SCHNITZER, M. & KHAN, S.U. Humic substances in the environment. Marcel Dekker. 1972.327 p.SCHNITZER, M. & KHAN, S.U. Soil organic matter Elsevier. 1978.SIBANDA, H.M. The effects of soluble humus acids and soil pre-heating on the adsorptionand the availability of phosphate on tropical soils. University of Reading (tese PhD),1984. 278 p.SLADKY, Z. The effect of extracted humus substances on growth of tomato plants. Biol.Plant, 1:142-150. 1959.SMITH, R.M.; SAMVEL, S.G.; CERNUDA, C.F. Organic matter and nitrogen build-ups in somePuerto Rican soil profiles. Soil Sci., 72:409-427. 1951.STEVENSON, F.J. Humus chemistry. New York, John Wiley, 1982. 443 p.STEVENSON, F.J. & ELLIOTT, E.T. Methodologies for assessing the quantity and qualityof soil organic matter. In: Dynamics of soil organic matter in tropical ecosystems(Coleman, D.C., Oades, J.M. and Uehara, G. eds.). Niftal Project, University of Hawaii,Honolulu. p. 173-199. 1989.STEVENSON, F.J. & FITCH, A. Chemistry of complexation of metal ions with soil solutionorganics. In: Interactions of soil minerals with natural organics and microbes (Hung, P.M. &Schnitzer, M. eds.) Soil. Sci. Soc. Amer. Special Publ. 17. Madison, Wis. p. 29-58. 1986.VERDADE, F.C. Influência da matéria orgânica na capacidade de troca de cátions do solo.Bragantia, 15:35-42. 1956.WAKSMAN, S. Principles of soil microbiology. 2ª ed. Baltimore, Williams & WilkingsCompany, 1952. 894 p.

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