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Sobre a fuga de médicos cubanos para os eua

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Sobre a fuga de médicos cubanos para os EUA, nada melhor que ler a insuspeita matéria de hoje da
Folha de S. Paulo – insuspeita, portanto – escrita pela correspondente Isabel Fleck, de Nova York.
Edição do Jornal Folha de São Paulo de 10/0214.
CUBANOS ACOLHIDOS PELOS EUA NÃO CONSEGUEM TRABALHAR COMO MÉDICOS
Desde 2006, os Estados Unidos acolhem médicos cubanos que querem desertar de missões
negociadas por Havana pelo mundo, como o Mais Médicos, no Brasil. Porém, conseguir exercer a
profissão no país não é fácil e boa parte dos trabalhadores acaba se frustrando.
Por meio do programa CMPP (Cuban Medical Professional Parole) -para o qual se inscreveu a
médica Ramona Rodriguez, que deixou o Mais Médicos na semana passada por discordar de
valores pagos no programa e já pediu visto americano-, eles recebem nos EUA os mesmos direitos
de refugiados políticos, num processo de obtenção de visto que dura, geralmente, entre um e três
meses.
Porém, apesar de os EUA oferecerem cenário bem mais favorável que o regime de trabalho em
Cuba, os mais de 4.000 cubanos que já chegaram ao território americano pelo programa
compartilham o drama de não conseguir atuar como médicos.
Diante da burocracia e do alto preço pago pelo processo de revalidação do diploma, quase todos os
médicos cubanos que chegam aos EUA vão trabalhar como assistentes de médico (posto
equivalente a um auxiliar de enfermagem no Brasil) ou acabam mudando de ocupação.
Segundo a ONG Solidariedade sem Fronteiras, de Miami, que ajuda cubanos a ingressarem nos
EUA, quatro médicos que estão no Brasil o consultaram para saber sobre a obtenção do visto.
“Para um cubano, é a oportunidade única de sair de vez da ilha”, disse o presidente da ONG, Julio
Cesar Alfonso.
Nos EUA há oito meses, Ranoy Gonzalves, 31, desaconselhou uma amiga que ligou do Brasil para
saber mais sobre o CMPP. “A situação em que eles vivem no Brasil é melhor do que a que passei na
Venezuela, e aqui ela não poderá trabalhar como médica”.
Gonzalves passou menos de um ano na Venezuela, morando num apartamento de três quartos e
banheiro com outros 13 profissionais cubanos e recebendo 1.500 bolívares (cerca de R$ 585) por
mês.
Com pós em radiologia, ele atua como assistente de médico numa clínica em Miami. “Me sinto
frustrado, porque dediquei 12 anos da minha vida a estudar medicina, e hoje não posso atender.”
O médico Rodolfo Soares, 44, chegou aos EUA como refugiado político. Trabalha há cinco anos
como assistente de cirurgia em Miami e ganha R$ 5.200 por mês, mas quer atuar em outro país.
“Sei que os cubanos estão ganhando pouco lá [no Brasil], mas meu objetivo é participar do Mais
Médicos como estrangeiro”, disse, sugerindo que pode entrar com processo de cidadania americana
antes de se inscrever no programa. A bolsa dada a estrangeiros pelo Mais Médicos é de R$ 10 mil
mensais. Por meio do convênio entre Brasil e Cuba, porém, médicos recebem 10% disso.
Auxiliar há um ano, Adrian Souza, 38, diz que vai “se sacrificar” para atuar como médico. “Queria
que os meus filhos não passassem pelo que eu passei em Cuba”.
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  • 1. Sobre a fuga de médicos cubanos para os EUA, nada melhor que ler a insuspeita matéria de hoje da Folha de S. Paulo – insuspeita, portanto – escrita pela correspondente Isabel Fleck, de Nova York. Edição do Jornal Folha de São Paulo de 10/0214. CUBANOS ACOLHIDOS PELOS EUA NÃO CONSEGUEM TRABALHAR COMO MÉDICOS Desde 2006, os Estados Unidos acolhem médicos cubanos que querem desertar de missões negociadas por Havana pelo mundo, como o Mais Médicos, no Brasil. Porém, conseguir exercer a profissão no país não é fácil e boa parte dos trabalhadores acaba se frustrando. Por meio do programa CMPP (Cuban Medical Professional Parole) -para o qual se inscreveu a médica Ramona Rodriguez, que deixou o Mais Médicos na semana passada por discordar de valores pagos no programa e já pediu visto americano-, eles recebem nos EUA os mesmos direitos de refugiados políticos, num processo de obtenção de visto que dura, geralmente, entre um e três meses. Porém, apesar de os EUA oferecerem cenário bem mais favorável que o regime de trabalho em Cuba, os mais de 4.000 cubanos que já chegaram ao território americano pelo programa compartilham o drama de não conseguir atuar como médicos. Diante da burocracia e do alto preço pago pelo processo de revalidação do diploma, quase todos os médicos cubanos que chegam aos EUA vão trabalhar como assistentes de médico (posto equivalente a um auxiliar de enfermagem no Brasil) ou acabam mudando de ocupação. Segundo a ONG Solidariedade sem Fronteiras, de Miami, que ajuda cubanos a ingressarem nos EUA, quatro médicos que estão no Brasil o consultaram para saber sobre a obtenção do visto. “Para um cubano, é a oportunidade única de sair de vez da ilha”, disse o presidente da ONG, Julio Cesar Alfonso. Nos EUA há oito meses, Ranoy Gonzalves, 31, desaconselhou uma amiga que ligou do Brasil para saber mais sobre o CMPP. “A situação em que eles vivem no Brasil é melhor do que a que passei na Venezuela, e aqui ela não poderá trabalhar como médica”. Gonzalves passou menos de um ano na Venezuela, morando num apartamento de três quartos e banheiro com outros 13 profissionais cubanos e recebendo 1.500 bolívares (cerca de R$ 585) por mês. Com pós em radiologia, ele atua como assistente de médico numa clínica em Miami. “Me sinto frustrado, porque dediquei 12 anos da minha vida a estudar medicina, e hoje não posso atender.” O médico Rodolfo Soares, 44, chegou aos EUA como refugiado político. Trabalha há cinco anos como assistente de cirurgia em Miami e ganha R$ 5.200 por mês, mas quer atuar em outro país. “Sei que os cubanos estão ganhando pouco lá [no Brasil], mas meu objetivo é participar do Mais Médicos como estrangeiro”, disse, sugerindo que pode entrar com processo de cidadania americana antes de se inscrever no programa. A bolsa dada a estrangeiros pelo Mais Médicos é de R$ 10 mil mensais. Por meio do convênio entre Brasil e Cuba, porém, médicos recebem 10% disso. Auxiliar há um ano, Adrian Souza, 38, diz que vai “se sacrificar” para atuar como médico. “Queria que os meus filhos não passassem pelo que eu passei em Cuba”.