1           RELAÇÕES INTERNACIONAIS                           WILLIAMS GONÇALVESProfessor dos PPGs. Relações Internacionai...
2esmagadoramente superior à produção dos demais centros acadêmicos do mundo, juntos,incluindo os países nos quais há tradi...
3como nos Estados Unidos, que despontaram como a grande potência no início do séculoXX, vindo a se transformar em superpot...
4terminou a Guerra Fria e o sistema internacional, de bipolar, passou a ser unipolar. Avitória estratégica dos Estados Uni...
52 Definição        Recorrer às definições, não é a melhor forma de apresentar uma disciplina. Além deser difícil encontra...
6                            poder soberano para intrometer-se ou mediar e que está fora de qualquer                      ...
7A ambigüidade é que as Relações Internacionais estudam as relações internacionais. Isto é,a disciplina e a realidade que ...
8eles, embora as relações entre os Estados comportem interesses muito diversificados(econômicos, sociais e culturais), a l...
9sobreponha à dos demais grupos que competem no processo de formulação de políticas.Isso significa dizer que há rejeição à...
10modo, por não constituírem uma realidade sensível, sua definição acaba por ser arbitrária,tendo em vista que, cada qual ...
11dos Estados; comércio e ação das corporações multinacionais; raça e gênero em todo omundo; desenvolvimento e transferênc...
12questão de conveniência. Pelo contrário, a opção por qualquer uma das definiçõesdetermina um correspondente conjunto de ...
13conhecimento da realidade das relações internacionais, particularmente dos mecanismosque engendram as guerras.          ...
14internacional, fazia-se, então, necessária a criação de nova disciplina, a qual deveria, porassim dizer, exprimir, em su...
15        Apesar das dúvidas a respeito da adequação do conceito à realidade teórica dasRelações Internacionais, uma vez q...
16Sorensen17 destacam quatro paradigmas: Realismo, Liberalismo, Sociedade Internacional eEconomia Política Internacional. ...
17interpretada como mera disputa de preferências pessoais e de rivalidades de gruposuniversitários. Essa contenda, na verd...
18relações internacionais são determinadas pelas relações de poder. Os Realistas desdenhamdo Direito Internacional, por co...
19variações e as simulações de variações constituiriam o material da análise do especialista.22Em sua perspectiva, era ess...
20Interdependência Complexa, Transnational Relations and World Politics (1971) e Powerand Interdependence: World Politics ...
21opções teóricas atuais. Isso porque, de um lado, o Realismo, ao promover alguns ajustes emseu corpo teórico, se fez neo-...
22mesmo sob condições de guerra. Para ele, o fato de os Estados europeus pertencerem àmesma civilização cristã, estando to...
23        Ainda que os críticos em geral identifiquem os mesmos problemas quanto àcomposição teórica do Realismo, aqueles ...
24las, todas, partes da mesma metanarrativa. Para os críticos pós- modernos, as teorias dasRelações Internacionais, assim ...
25verdade, pode ser criada e contada de várias outras formas, as quais dependerão, sempre, daposição e dos interesses do i...
26ocasião para a definição de um novo sistema internacional de poder exprimem tão-somenteo universo dos valores masculinos...
27        O respeito ao Direito Internacional complementa essas idéias, porque o Direito ageno sentido de proporcionar alg...
28        Ao se assinalar a importância da intervenção de Woodrow Wilson para a criação dadisciplina Relações Internaciona...
29instituições pode, perfeitamente, resultar na prevalência da cooperação e na redução dosconflitos.*****         A crise ...
30       A retomada das teses liberais, na esfera das Relações Internacionais, por outraspalavras, o Neoliberalismo nas Re...
31ausência de um poder soberano, com sua inerente capacidade de fazer com que todosrespeitem as leis por ele instituídas, ...
32                         10) Se todos os Estados buscam maximizar seu poder, a estabilidade                         resu...
33liberais terem fracassado nas Relações Internacionais justamente por não terem levado emconsideração a fundamental dimen...
34o mundo estava ameaçado pela vontade expansionista soviética, as elites norte-americanasacreditavam ser seu dever pôr to...
351) O Realismo acredita na objetividade das leis da política, que são determinadas pelanatureza humana, que, por sua vez,...
Williams rr
Williams rr
Williams rr
Próximos SlideShares
Carregando em…5
×

Williams rr

990 visualizações

Publicada em

Publicada em: Educação
0 comentários
0 gostaram
Estatísticas
Notas
  • Seja o primeiro a comentar

  • Seja a primeira pessoa a gostar disto

Sem downloads
Visualizações
Visualizações totais
990
No SlideShare
0
A partir de incorporações
0
Número de incorporações
61
Ações
Compartilhamentos
0
Downloads
17
Comentários
0
Gostaram
0
Incorporações 0
Nenhuma incorporação

Nenhuma nota no slide

Williams rr

  1. 1. 1 RELAÇÕES INTERNACIONAIS WILLIAMS GONÇALVESProfessor dos PPGs. Relações Internacionais da Universidade Federal do Rio Grande do Sul e da Universidade Federal Fluminense1 Introdução A análise das relações internacionais passou a ter sua importância reconhecida noinício do século XX. Até a eclosão da Primeira Guerra Mundial, o estudo das relaçõesinternacionais estivera a cargo de diplomatas, historiadores e juristas. A partir dessa data asituação mudou: notáveis esforços passaram a ser realizados no sentido de fazer, dasRelações Internacionais, um campo de estudo específico e autônomo. Na prática, isso temse traduzido no trabalho de definir, com alguma precisão, os limites da realidade dasrelações internacionais, bem como de produzir um dispositivo conceptual que resulte emanálises integradas, as quais, por sua vez, possam permitir ir além das análises parciaisproduzidas pela Economia Internacional, pelo Direito Internacional, pela HistóriaDiplomática e pela Política Internacional. É cada vez maior o reconhecimento que asrelações internacionais são extremamente complexas e abrangentes para serem submetidasàs estreitas medidas estabelecidas por essas disciplinas. Ainda que cada uma delas possailuminar aspectos relevantes da realidade, somente uma análise que combine, de modoarticulado, conceitos elaborados por esses campos específicos poderá compreender suaextensão e sua densidade. Em outras palavras, o grande desafio enfrentado pelas RelaçõesInternacionais é o de assumir sua indispensável multidisciplinaridade. Pode-se dizer, no entanto, que esse desafio tem sido enfrentado e vencido,exclusivamente, pelos acadêmicos do mundo anglo -saxão. Não obstante o conhecimentodas Relações Internacionais interessar, em toda parte, àqueles que, de alguma forma,participam das relações internacionais (nomeadamente estadistas, diplomatas, militares eacadêmicos), o fato é que a produção acadêmica do mundo anglo-saxão neste campo, é
  2. 2. 2esmagadoramente superior à produção dos demais centros acadêmicos do mundo, juntos,incluindo os países nos quais há tradição de pesquisa universitário -acadêmica na área dasCiências Sociais. As razões determinantes dessa primazia anglo-saxônica no domínio dos estudos deRelações Internacionais são largamente conhecidas e podem ser decompostas, para finsanalíticos, em três ordens, a saber: econômicas, acadêmicas e de poder. Inicialmente, as instituições dos Estados Unidos e da Inglaterra nunca pouparamrecursos para apoiar a pesquisa e o ensino das Relações Internacionais. A primeira cátedrauniversitária dedicada a este campo de estudo, a Woodrow Wilson, financiada pelo cidadãoinglês David Davies, foi criada em 1919, na Universidade de Gales. Mais tarde, logo após aSegunda Guerra Mundial, o Estado norte-americano, por meio de suas diversas agênciasgovernamentais, destinou somas fabulosas à pesquisa sobre os mais diversos aspectos dasrelações internacionais. Isso fez com que um grande número de acadêmicos talentosos sesentissem motivados a trilhar o caminho do estudo das Relações Internacionais. Em segundo lugar, apesar das diferenças existentes entre os mundos acadêmicosnorte-americano e inglês, ambos assumiram o desafio tanto de definir o objeto específicodas Relações Internacionais, como o de trabalhá-lo cientificamente. Nos Estados Unidos, aciência das Relações Internacionais nasceu a partir dos estudos de Ciência Política; issosignifica dizer que ela assumiu, desde o seu nascimento, um caráter eminentemente prático.Em sintonia com a tradição acadêmica desse país, na área da Ciência Política, as RelaçõesInternacionais foram pensadas para resolver problemas concretos enfrentados pelo Estado,em detrimento da especulação puramente teórica. Na Inglaterra, por seu turno, o percurso foi diferente. Lá, as Relações Internac ionaisnasceram da cooperação acadêmica entre os diferentes segmentos universitários e adiplomacia. Dessa experiência, formou-se uma tradição de estudo das RelaçõesInternacionais que, muito antes de se resumir à defesa dos interesses nacionais britânicos,atribuiu significativa importância aos fatores culturais como relevantes aspectoscomponentes das Relações Internacionais. Em terceiro e último lugar, estão as razões de poder. Não é por mero acaso que asRelações Internacionais tenham se desenvolvido como estudo moderno tanto na Inglaterra(potência que exerceu o papel hegemônico durante o século XIX e início do século XX),
  3. 3. 3como nos Estados Unidos, que despontaram como a grande potência no início do séculoXX, vindo a se transformar em superpotência logo depois da Segunda Guerra Mundial.Pelo contrário, o estudo moderno das Relações Internacionais afigurou-se, às elites norte-americanas e inglesas, como tarefa indispensável ao entendimento do mundo em mudançae, desse modo, à manutenção do poder que detinham. Essa conclusão de que o mundo haviamudado, fazendo-se necessário conhecê- lo melhor para continuar a exercer o poder erealizar seus respectivos interesses nacionais, levou as delegações diplomáticas dos EstadosUnidos e da Inglaterra, presentes na Conferência de Paz de Paris, a assumirem aresponsabilidade de criar centros de pesquisa neste campo. Tal compromisso foi honradologo no ano seguinte (1920): foram criados, na Inglaterra, o Royal Institute of InternationalAffairs, e, nos Estados Unidos, o Council of Foreign Relations. Dessa primazia anglo-saxã, nas Relações Internacionais , decorrem alguns efeitosacadêmicos e políticos extraordinariamente importantes, que podem ser sintetizados nasidéias de acúmulo de poder e de luta pela conservação da posição hegemônica. Ao sededicar, com grande afinco, ao estudo das Relações Internacionais, os anglo-saxãoselaboraram hipóteses, formularam teorias e definiram os conceitos que se universalizaram,tais como aqueles que lhe são específicos, ou seja, criaram o léxico das RelaçõesInternacionais. Qualquer pessoa que se interesse por este campo de estudo, em qualquerparte do mundo, deve, obrigatoriamente, exercer algum domínio sobre esse léxico ; casocontrário, não conseguirá estabelecer diálogo com os que se dedicam à pesquisa nessa área.Por assim dizer, o conhecimento tanto da língua inglesa, como da produção acadêmicanorte-americana e inglesa nas Relações Internacionais constitui condição indispensáve lpara iniciar toda espécie de debate acadêmico. Por outro lado, justamente por terem criadoo léxico das Relações Internacionais e por reunirem o maior número de centros de pesquisa,os acadêmicos anglo -saxãos definem o nível de excelência da análise e impõem os termosdo debate. Isso significa, enfim, que não dispõem unicamente do poder político parasatisfazer seus respectivos interesses nacionais, como também, do poder sobre o própriodiscurso das Relações Internacionais. Esse poder de determinar o que é relevante e, assim, impor a direção a ser dada àpesquisa, torna-se muito mais visível nos momentos nos quais ocorrem grandes mudançasno sistema internacional, tal como aconteceu no início da década de noventa, quando
  4. 4. 4terminou a Guerra Fria e o sistema internacional, de bipolar, passou a ser unipolar. Avitória estratégica dos Estados Unidos sobre a União Soviética (e sobre o mundo por elacomandado) levou não apenas à mudança da “agenda política internacional”, comotambém, correlativamente, à mudança de enfoque do mundo acadêmico sobre as questõesinterna cionais. Imediatamente, por não se ter previsto as grandes modificações ocorridas nosistema internacional, passou-se a considerar a teoria Realista como imprestável para aanálise. Segundo o novo enfoque dominante, para empreender análises válidas, eranecessário recuperar o instrumental liberal, com ênfase no livre-comércio, na generalizaçãodos princípios liberal-democráticos e no esvaziamento do Estado-providência. Além daóbvia idéia de obsolescência do projeto socialista, passou-se, também, a entender que asquestões de defesa da soberania e de segurança haviam dado lugar às questões econômicasglobais ; isto é, a problemática geopolítica teria sido substituída pela problemáticageoeconômica. Considerou-se, igualmente, que o problema das relações econômicasassimétricas entre as grandes potências capitalistas e os pequenos Estados, bem como ofenômeno da dependência econômica, na verdade, não tinham existência real, uma vez quese constituíam em mera manifestação ideológica do tempo da Guerra Fria. Desse modo, porconsiderar que o fim dessa guerra havia apagado todas as diferenças entre os Estados quecomp unham o sistema internacional, decidiu-se que não havia mais porque falar deTerceiro Mundo, de luta pelo desenvolvimento, tampouco de reforma das instituiçõeseconômicas internacionais. Enfim, em consonância com os novos interesses demonstradospelas grandes potências, especialmente pelos Estados Unidos, o mundo acadêmico dessesEstados redirecionou a curiosidade intelectual, com vistas a melhor servir a esses novosinteresses. Ao mesmo tempo, pelo efeito hegemônico, passou a pautar as linhas de pesquisado restante do mundo, especialmente dos países da periferia. Isso posto, conscientes dos interesses que cercam o estudo das RelaçõesInternacionais, obje tivamos, neste texto, introduzir algumas questões que possam, dealguma maneira, contribuir para o melhor entendimento da questão. Pretendemos, pois,apresentar a origem e a evolução das Relações Internacionais, o perfil das suas correntesteóricas mais importantes, além de discutir os conceitos mais correntes na bibliografiaespecializada.
  5. 5. 52 Definição Recorrer às definições, não é a melhor forma de apresentar uma disciplina. Além deser difícil encontrar uma que seja capaz de exprimir o conteúdo da disciplina com aobjetividade e a abrangência necessárias, qualquer uma das definições que venha a serescolhida será, inevitavelmente, alvo das mais diversas contestações. Isso porque asdefinições não são (e jamais poderão ser) neutras. Quem se propõe a definir, o faz à luz dealguma teoria. O resultado, desse modo, sempre deverá exprimir uma determinadaconcepção teórica, mesmo que não a explicite. Apesar disso, não se pode deixar deapresentá- las, mesmo que seja somente para contestá-las mais adiante. Nesse sentido, oobjetivo a cumprir, com as definições, a seguir transcritas, não é exatamente o de dizer oque são as Relações Internacionais na verdade, mas sim, o de tentar desfazer algumasdúvidas que surgem com certa freqüência, quando o assunto envolve questõesinternacionais. Por essa razão, buscar-se-á distinguir Relações Internacionais das outrasdisciplinas que apresentam uma dimensão internacional, tais como a Política Internacionale a Política Externa. Para iniciar, serão apresentadas determinadas definições, cujos autores sãoconhecidos estudiosos das Relações Internacionais. Iniciamos com Phillipe Braillard e Mohamma-Reza Djalili, que afirma que “asrelações internacionais podem ser definidas como o conjunto de relações e comunicaçõesque os grupos sociais estabelecem através das fronteiras.”1 Para Michael Nicholson, amplamente, relações internacionais concerne a relacionamentos e interações que não podem ser observados exclusivamente no contexto de um Estado tal como Inglaterra ou China. Estritamente, relações internacionais estuda interações sociais em contextos onde não existe1 BRAILLARD, Philippe; DJALILI , Mohammad-Reza. Relations Internationales : Que sais -je? Paris : PUF,1988. p. 5.
  6. 6. 6 poder soberano para intrometer-se ou mediar e que está fora de qualquer jurisdição governamental.2 Daniel Colard, por sua vez, afirma que “o estudo das relações internacionaisengloba as relações pacíficas ou belicosas entre Estados, o papel das organizaçõesinternacionais, a influência das forças transnacionais e o conjunto das trocas ou dasatividades que cruzam as fronteiras dos Estados.”3 Joshua Goldstein, por fim, diz que, estritamente definido, o campo das relações internacionais concerne aos relacionamentos entre aqueles governos do mundo, que são Estados- membro da ONU. Mas esses relacionamentos não podem ser entendidos isoladamente. Eles estão fortemente conectados com outros atores (como as organizações internacionais, corporações multinacionais, e indivíduos); com outras estruturas sociais (incluindo economia, cultura e política doméstica); e com as influências históricas e geográficas.4 Pode-se constatar que as definições diferem umas das outras; e, justamente por essemotivo nem todas contêm os mesmos elementos. Alguns aspectos presentes em umadefinição já não aparecem em outras. Contudo, é possível perceber que todas têm o mesmosentido o qual é conferido pela idéia de relacionamentos múltiplos. Todos os autorescitados, de um modo ou de outro, transmitem a idéia de que as relações internacionaisenvolvem numerosos e variados atores atuando em todo o mundo. Vistas dessa forma, asRelações Internacionais supõe o estudo do conjunto de interações. É evidente que a melhormaneira de decompor o conjunto para proceder à análise, é tarefa que depende doinstrumental teórico a serviço do analista. A cada dispositivo teórico corresponde umadiferente maneira de perceber as relações internacionais. É aqui que reside a importânciada teoria, qual seja: distinguir o principal do acessório, revelando o que é significativo para,assim, conduzir o analista a mais correta interpretação, mediante tal procedimento, produziro esperado conhecimento da realidade das relações internacionais. No entanto, antes de seguir adiante, com a apresentação das definições oriundasdessas disciplinas aparentadas, seria interessante desfazer, o quanto antes, uma certaambigüidade que, não raro, confunde quem se inicia no estudo das Relações Internacionais.2 NICHOLSON, Michael. International Relations: A Concise Introduction. London: MacMillan Press, 1998.p. 2.3 COLARD, Daniel. Les Relations Internationales de 1945 à nos jours. Paris : Armand Colin, 1999. p. 5.4 GOLDSTEIN, Joshua S. International Relations. New York: Longman, 1999. p. 3.
  7. 7. 7A ambigüidade é que as Relações Internacionais estudam as relações internacionais. Isto é,a disciplina e a realidade que essa disciplina busca conhecer têm o mesmo nome. Paracontornar essa ambigüidade e, dessa forma, possibilitar o entendimento do discurso, osestudiosos convencionaram diferenciar o nome da disciplina do nome do objeto mediante ouso de iniciais maiúsculas para a primeira (Relações Internacionais) e de iniciaisminúsculas para o objeto do conhecimento (relações internacionais). No próximo passo, para a definição de Política Internacional, surgem problemas deoutro tipo: verifica-se, neste caso, a existência de evidentes imprecisões. Em primeiro lugar, é possível considerar a Política Internacional como o estudo daestrutura e funcionamento dos sistemas políticos estrangeiros. Pode-se citar, comoexemplo , o caso do cientista político brasileiro que se dedica ao estudo da estrutura e dofuncionamento do sistema político dos Estados Unidos ou, conforme o interesse, dequalquer outro país. Segundo essa idéia a respeito do que é Política Internacional, osexemplos podem se multiplicar; porém, o sentido será sempre o mesmo, qual seja, comoagem e reagem politicamente outros povos diante dos novos desafios que a realidade vaiapresentando. A segunda possibilidade de definição de Política Internacional, abre-se no sentidode entendê- la como o estudo da lógica interna e da prática das ideologias políticas. Nestecaso, pode m servir de exemplo os estudos que se fazem sobre formações ideológicas comosocialismo, neoliberalismo, terceira via, populismo e a aplicação prática dessas ideologiassob a forma de programas políticos e regimes políticos em todos os Estados do mundo.Desse tipo de estudo de Política Internacional, derivam os estudos comparados, quepropiciam, ao pesquisador, a oportunidade de refletir sobre a coerência e os efeitosproduzidos pela prática política. As duas definições acima, na verdade, não oferecem problemas de entendimento.Os problemas surgem quando determinados autores passam a falar de PolíticaInternacional, atribuindo, a esses estudos, o sentido de Relações Internacionais. Essaassimilação de uma definição pela outra costuma ser feita, na maior parte das v ezes, porautores que se apóiam na teoria Realista para analisar as relações internacionais. Talconfusão é comum entre esses autores, porque, na concepção deles, o que de fato interessaconhecer sobre o meio internacional são as relações políticas que os Estados entretêm. Para
  8. 8. 8eles, embora as relações entre os Estados comportem interesses muito diversificados(econômicos, sociais e culturais), a linguagem que exprime os interesses do Estado ésempre a política. Isto é, a política é a linguagem própria do Estado. Conquanto sempreesteja se manifestando a respeito dos seus interesses econômicos, sociais e culturais, oEstado o faz mediante o uso de políticas orientadas para cada um desses interesses. Nessesentido, todos os interesses estão embutidos nas relações políticas que o Estado sustentacom os demais. Assim, de acordo com essa interpretação, Política Internacional nada mais édo que as próprias Relações Internacionais. Por fim, resta definir Política Externa, a qual, para P. A. Reynolds, pode ser definida“como o conjunto de ações de um Estado em suas relações com outras entidades quetambém atuam no cenário internacional, com o objetivo, a princípio, de promover ointeresse nacional.”5 Para Marcel Merle, “a Política Externa é [...] a parte da atividade do Estado que évoltada para fora, isto é, que trata, em oposição à política interna, dos problemas queexistem além das fronteiras.”6 Como o próprio nome indica, de maneira inequívoca, a Política Externa constituium dos fatores que compõem as relações internacionais. É mediante a sua formulação, queo Estado define as prioridades, expectativas e alianças para atuar no quadro das relaçõesinternacionais. Ainda que não seja propósito deste texto entrar na discussão sobre o conceito dePolítica Externa, vale assinalar que as definições acima contêm duas questões polêmicas. Aprimeira delas, formulada por P. A. Reynolds, diz respeito à idéia de interesse nacional.Esse conceito, exaustivamente examinado por Joseph Frankel7 , ocupa posição central nateoria Realista de Hans J. Morgenthau8. De maneira simplificada, pode-se dizer que a maisséria objeção a esse conceito é a de que as decisões de política externa , tomadas pelosgovernantes, são resultado de um processo decisório do qual participam diversos grupos, osquais, por sua vez, procuram fazer com que a sua visão particular dos problemas se5 REYNOLDS, P. A. Introduccion al Estudio de las Relaciones Internacionales. Madrid : Tecnos, 1977. p.46.6 MERLE, Marcel. La Politique Étrangère. Paris: Presses Universitaire de France, 1984. p. 7.7 FRANKEL, Joseph. National Interest. London: Pall Mall Press, 1970.8 MORGENTHAU, Hans J. Politics Among Nations : The Struggle for Power and Peace. New York: AlfredA. Knopf, 1985.
  9. 9. 9sobreponha à dos demais grupos que competem no processo de formulação de políticas.Isso significa dizer que há rejeição à idéia realista, segundo a qual o Estado funciona nomeio externo conforme uma racionalidade situada acima das contradições que agitam anação.A segunda questão polêmica, contida na definição de Marcel Merle, refere-se à relaçãoexterno/interno. Neste caso, a discussão gira em torno do tema relativ o à existência de doiscampos distintos, ou seja, as políticas interna e externa têm autonomia uma face à outra, ouuma constitui a simples extensão da outra? Resta, ainda, o questionamento acerca dapredominância de uma sobre a outra, ou seja, a política externa determina a política interna,ou é por ela determinada? 93 Relações internacionais como objeto de estudo Como ocorre em todas as demais C iências Sociais, parte dos estudiosos dasRelações Internacionais está permanentemente envolvida na reflexão epistemológica sobrea definição do seu objeto de estudo, num exercício absolutamente necessário , uma vez quea realidade está em permanente mutação.A dinâmica das relações internacionais, constantemente determinando o surgimento denovos atores e a abertura da discussão de novas questões internacionais, representacontínuo desafio à capacidade analítica das teorias estabelecidas. Daí a razão porque seapresenta, como absolutamente necessária, a tarefa de rever os pressupostos e osinstrumentos conceituais da disciplina, pois, do êxito de la, depende o avanço da ciência e aconseqüente elevação do nível de conhecimento sobre a realidade estudada. E o principaldesafio que se oferece àqueles que se dedicam a esse trabalho, é justamente responder, comprecisão, à seguinte pergunta: o que é a realidade das relações internacionais? Todos aqueles que têm investido nessa reflexão sabem o quanto uma respostacategórica e definitiva a essa pergunta é difícil. Difícil, antes de tudo, em virtude daimaterialidade do objeto que se deseja conhecer. Ao contrário do que é comum no âmbitodas ciências naturais, as relações internacionais não tem existência física; elas são, porassim dizer, uma abstração; uma vez que só existe como produto do pensamento. Desse9 MERLE, o p. cit.
  10. 10. 10modo, por não constituírem uma realidade sensível, sua definição acaba por ser arbitrária,tendo em vista que, cada qual se julga capaz de determinar, com maior correção, oscontornos das relações internacionais como objeto de conhecimento. Convém, no entanto, ter cautela. Afirmar que a definição de relações internacionais,como objeto de conhecimento, é arbitrária, não significa dizer que ela é aleatória. Adefinição é arbitrária, porque o objeto não se auto-evidencia. Ele requer que se o destaque eo separe de tudo o mais que o cerca e possa, com ele, se confundir. Nesse aspecto, asituação do estudioso das relações internacionais não é confortável como a do biólogodedicado ao estudo dos seres marinhos: este não precisa dispender muito esforço paraapresentar o peixe como seu objeto de conhecimento. Porque, apesar dessa denominaçãoter- lhe sido atribuída pelos homens e não por eles próprios, os peixes são imediatamentereconhecidos, sem suscitar controvérsias. Por mais que o tamanho, a forma e a cor possamvariar, o fato é que as características básicas identificadoras do animal como peixe , estãosempre evidentes. Por outro lado, a definição das relações internacionais como objeto de estudo não éaleatória porque, independentemente da orientação seguida, alguns elementoscaracterísticos impõem-se como obrigatórios a qualquer uma das definições que venha a serelaborada. Por essa razão, elas guardam muitas semelhanças entre si e, no mais das vezes,apresentam distinções sutis. Por exemplo, por mais ampla e inclusivamente que se queiradefinir o objeto das relações internacionais, não há como deixar de considerar as relaçõespolíticas entre os Estados como seu componente importante. Entretanto, a afirmação que ocidadão comum, não investido de qualquer função oficial de seu Estado, possa ser ator dasrelações internacionais, já não goza mais da mesma aceitação entre as linhas teóricas quecompõem o universo da disciplina. Essas variadas definições da realidade das relações internacionais podem sersintetizadas em dois grandes grupos: o primeiro deles é aquele cujas definiçõescompreendem os fenômenos paz e guerra; armas nucleares e desarmamento; imperialismo enacionalismo; as relações assimétricas entre sociedades ricas e sociedades pobres;preservação do meio ambiente; combate ao narcotráfico; combate ao terrorismointernacional; defesa dos direitos humanos; influência das instituições religiosas;organizações internacionais, processos de integração regional; formação e fragmentação
  11. 11. 11dos Estados; comércio e ação das corporações multinacionais; raça e gênero em todo omundo; desenvolvimento e transferência de tecnologia; globalização. O segundo grupo apresenta as relações internacionais como o resultado das relaçõesentre os Estados. Enquanto, no primeiro grupo de definições, a realidade das relaçõesinternacionais é apresentada como extremamente ampla, incluindo fenômenos que dizemrespeito a diversos domínios da vida em sociedade e relativos a situações tanto de conflitocomo de cooperação, no segundo grupo, essa realidade é apresentada como,fundamentalmente, constituída por conflitos entre os interesses respectivos a cada Estado.No primeiro grupo, qualquer um dos fenômenos citados pode assumir a condição de objetode análise das Relações Internacionais; no segundo, por sua vez, tais fenômenos sãoconcebidos como produto das relações diplomáticas, militares e estratégicas que os Estados(China, Bélgica, Venezuela, Alemanha, Japão, Estados Unidos, p. e.) estabelecem entre si. As disparidades apresentadas por esses conjuntos das possíveis características dasdefinições possíveis de relações internacionais são, contudo, mais aparentes do que reais. Eo que faz com que as diferenças sejam apenas aparentes é a idéia de anarquia – a qual, defato, passa a ser o elemento unificador de todas as variadas concepções da realidade dasrelações internacionais. Para esse efeito, anarquia significa a inexistência de umaautoridade central, com legitimidade para criar leis e dispor de poder para fazer com queessas leis sejam obedecidas. Em virtude dessa ausência de algo como um governo mundial,que centralize as decisões, as relações e interações internacionais assumem umaimportância fundamental para o conhecimento da realidade internacional. Embora, comoserá visto mais adiante, haja dive rgências entre as correntes teóricas, o aspecto maisimportante é que as principais delas encaram a figura jurídico-política do Estado como areferência principal. A ausência de um poder que desempenhe, em escala internacional, opapel que o Estado desempenha em escala nacional constitui, para as diversas orientaçõesteóricas, a pedra angular das Relações Internacionais. Essa característica específica permiteafirmar não só a existência do objeto de conhecimento denominado relações internacionais,mas, também, que esse objeto não se confunde com outros objetos de conhecimento quecontêm algumas características iguais. As possibilidades de uso de diversas definições da realidade das relaçõesinternacionais, entretanto, não se apresentam, para o estudioso da matéria, como mera
  12. 12. 12questão de conveniência. Pelo contrário, a opção por qualquer uma das definiçõesdetermina um correspondente conjunto de conseqüências, as quais, vale dizer, são de ordemteórica e metodológica, pois a maneira como definimos a realidade é a mesma maneiracomo a entendemos, de tal modo que, entre a realidade e sua definição, encontra-se semprepresente a teoria.4 Relações Internacionais como disciplina A disciplina Relações Internacionais é jovem, tendo em vista que o seu nascimentose deu logo após a Primeira Guerra Mundial,** um acontecimento que constituiu a razãofundamental para o seu surgimento. Em virtude do novo caráter industrial e tecnológico,que a revestia, a Primeira Guerra Mundial foi a primeira guerra total, onde já não distinguiamais, com clareza, frente e retaguarda, combatentes e civis. Ao findar, deixou um rastro dedevastação sem precedentes. Enquanto todas as guerras européias, entre 1802 e 1913,haviam produzido o total de 4,5 milhões de mortos, a Primeira Guerra Mundial, sozinha, foiresponsável por cerca de 10 milhões de homens mortos, a maioria com menos de 40 anosde idade; 10 milhões de refugiados; 5 milhões de viúvas; e 9 milhões de órfãos. Somente nafamosa batalha do Somme, franceses, ingleses e alemães perderam, juntos, quase ummilhão de homens. No plano material, a destruição resultou, em 1920, numa significativaredução da produção industrial (de 1/4 ), em relação a 1913.10 Por essa razão, quando oconflito chegou ao fim, os líderes das potências vencedoras foram fortemente pressionados,pela opinião pública de seus respectivos países, para punir, duramente, os responsáveis pelaguerra e, também, para tomar as providências necessárias a fim de que outra guerra comoaquela não voltasse a acontecer. Assim, em função da enorme capacidade bélica decorrentedas conquistas tecnológicas do capitalismo oligopolista, como também o alcancegeográfico mundial do conflito, percebeu-se a necessidade de ser promovido o** Essa data de nascimento é contestada por Brian C. Schmidt (The Political Discourse of A narchy: ADisciplinary History of International Relations. Albany: State University of New York Press, 1998), Esseautor considera que a disciplina nasceu bem antes da Primeira Guerra, como derivação da discussãoacadêmica dos cientistas políticos norte-americanos sobre a Teoria do Estado.10 LOWE, Norman.Guía Ilustrada de la Historia Moderna.Mexico: Fondo de Cultura Económica, 1995. p.44.
  13. 13. 13conhecimento da realidade das relações internacionais, particularmente dos mecanismosque engendram as guerras. Para cumprir essa finalidade, como já foi dito nas linhas iniciais do presente texto,foi criada, em 1919, na Universidade de Gales (Aberyswyth), a Cátedra Woodrow Wilsonde Política Internacional, a primeira cátedra de Relações Internacionais do mundo, a qualfoi financiada pelo filantropo David Davies e ocupada por Alfred Zimmern (1879 – 1957)e, mais tarde, em 1936, por Edward Hallett Carr (1892 – 1982). No ano seguinte (1920),cumprindo compromisso assumido pelas duas delegações presentes à Conferência de Pazde Paris de “levar a efeito o estudo sistemático das relações internacionais ”, foram criados,na Inglaterra, o Royal Institute of International Affairs e, nos Estados Unidos, o Council ofForeign Relations. 11 As relações internacionais, na verdade, sempre foram estudadas. Melhor dizendo,desde que o sistema europeu de Estados formou-se, a partir da Paz de Westphalia (1648),estadistas e intelectuais em geral passaram a se dedicar à reflexão sobre os fenômenos dapaz e da guerra entre os Estados.Pensadores da estatura intelectual de Nicolau Maquiavel, Immanuel Kant, Jean-JacquesRousseau, como tantos outros mais, demonstraram a grande importância desses fenômenospara a definição das instit uições políticas. Portanto, o fato para o qual se procura, aqui,chamar a atenção, é o de que a decisão das elites intelectuais européia e norte-americana defazer, ao fim da Primeira Guerra Mundial, das relações internacionais, um objeto deciência, não constituiu algo rigorosamente inovador. O que se considera digno de registro éa nova maneira como estudiosos e estadistas passaram a encarar o estudo das relaçõesinternacionais. Antes da guerra, as respostas para os problemas internacionais eramelaboradas segundo a ótica do Direito Internacional, da Diplomacia e da HistóriaDiplomática. A Primeira Guerra Mundial, em virtude de sua abrangência, serviu paramostrar que essas abordagens estavam inteiramente superadas, uma vez que já não erammais capazes de produzir respostas satisfatórias. Para dar conta dos novos problemasinternacionais, suscitados pela expansão da rede de trocas e de fluxos de capitais daeconomia internacional, bem como pelo surgimento de novas potências, fora do perímetroeuropeu, com ambições de virem a desempenhar papel de destaque no cenário11 BROWN, Chris . Understanding International Relations. London: MacMillan Press, 1997. p. 24.
  14. 14. 14internacional, fazia-se, então, necessária a criação de nova disciplina, a qual deveria, porassim dizer, exprimir, em sua abordagem, a amplitude que passara a caracterizar a novarealidade das re lações internacionais. Desde que o projeto de construção da disciplina de Relações Internacionais foilançado, os estudiosos têm procurado definir, com o maior rigor possível, os limites de seuobjeto de estudo. Além disso, têm procurado elaborar os instrumentos teórico-conceituaisque tornem possível a análise desse mesmo objeto. Não há dúvida de que a grandedificuldade enfrentada nessa tarefa de configuração da nova disciplina é assegurar- lhe oindispensável caráter interdisciplinar. Ou seja, definir os contornos de uma disciplina capazde produzir uma visão integrada do meio internacional; uma disciplina cujo alcance váalém das visões parciais da Economia Internacional, do Direito Internacional, da HistóriaInternacional e da Política Internacional. Es se desafio, vale assinalar, tem se renovado àmedida que as relações internacionais têm evoluído, tornando-se a cada dia maiscomplexas. Assim o foi, depois da Segunda Guerra Mundial, ocasião em que os estudiosostiveram que passar a levar em conta o advento das armas nucleares e a luta iniciada pelospovos colonizados em favor de sua independência face às metrópoles européias. Assim temsido, a partir da última década do século XX, com os estudiosos tentando elucidar a novaestrutura do sistema internacional e, ao mesmo tempo, decifrar o fenômeno da globalizaçãoe de seus surpreendentes efeitos gerais. Essa procura do perfil teórico-conceitual ideal das Relações Internacionais, comvistas à obtenção das mais confiáveis análises da realidade, tem ocasionado grande disputaintelectual que, por sua vez, tem levado o campo teórico da disciplina à situação defragmentação. Tantas são as propostas teóricas que vêm sendo apresentadas, que se tornaaté difícil classificá-las. A maneira que aqueles dedicados ao est udo da evolução teórica dadisciplina, encontraram para mapear esse campo teórico, foi utilizar o conceito deparadigma. Tomado de empréstimo do filósofo da ciência Thomas Kuhn 12 , esse conceitotem servido para classificar as teorias segundo seu vínculo a determinados modos deperceber a constituição e a dinâmica do meio internacional.***12 KUHN, Thomas S. A Es trutura das Revoluções Científicas. São Paulo: Perspectiva, 1982.*** Barry Buzan, p. e., assim define paradigma: “Paradigmas são escolas de pensamento que têm sidoconstituídas mediante abordagens no estudo das relações internacionais que exploram alguns níveis, setores enormas em detrimento de outros. Cada paradigma é um tipo de lente compósita, que possibilita uma visão
  15. 15. 15 Apesar das dúvidas a respeito da adequação do conceito à realidade teórica dasRelações Internacionais, uma vez que foi elaborado em função de outra realidade científica,seu uso, segundo alguns autores 13 , estaria plenamente justificado face àincomensurabilidade de cada uma das diferentes correntes teóricas. Isto é, se cada correnteteórica delimita o objeto ‘relações internacionais ’ de maneira a valorizar certoscomponentes, os quais, por seu turno, são desvalorizados por outra corrente, que dáprioridade a outros componentes, as análises resultantes do uso dessas teorias serãodiferentes uma das outras e, enfim, não haverá como compará-las em sua validade, tendoem vista o fato de os focos da análise não terem sido os mesmos. Para simplificar:diferentes teorias produzem diferentes análises e, como não existe linguagem neutra parajulgar a superioridade de uma teoria sobre a outra, a escolha da melhor só pode serdeterminada pelo livre arbítrio do analista. Assim, conquanto Thomas Kuhn tenhaformulado o conceito paradigma para explicar a ascensão e queda das grandes formulaçõesteóricas, seu uso, no âmbito das Relações Internacionais, estaria justificado em funçãodessa realidade de fragmentada constituição. O uso do conceito paradigma não é suficiente, contudo, para resolver a questão domapeamento do campo teórico das Relações Internacionais: se, de um lado, o conceitoajuda, ao agrupar as teorias assemelhadas, de outro, cria algumas dificuldades, à medidaque há muitas divergências quanto aos próprios paradigmas. Por exemplo, Ole Waever 14considera a existência de três paradigmas: Realismo, Pluralismo/Interdependência eMarxismo/Radicalismo. Graham Evans e Jeffrey Newham15 consideram os sete paradigmasseguintes: Realismo, Behaviorismo, Neorealismo, Neoliberalismo, Teoria do SistemaMundial, Teoria Crítica e Pós-Modernismo. Charles W. Kegley, Jr. e Eugene R. Wittkopf 16enumeram seis paradigmas: História Imediata (Current History), Liberal Idealismo,Realismo, Behaviorismo, Neorealismo e Neoliberalismo. Robert Jackson e Georgseletiva das relações internacionais. Igual a qualquer outra lente, a leitura através dela permite quedeterminadas características apareçam mais fortemente, enquanto outras características quase desapareçam”.13 WAEVER, Ole . The rise and fall of the inter-paradigm debate. In: SMITH, Steve; BOOTH, Ken;ZALEWSKI, Marysia (Eds.).Interntional theory: positivism & beyond. Cambridge: Cambridge UniversityPress, 1996. p. 149-185.14 Ibidem.15 EVANS, Graham ; NEWHAM, Jeffrey.The Penguin Dictionary of International Relations .London:Penguin Books, 1998. p. 275.16 KEGLEY, Charles W. ; WITTKOPF, Eugene R. World Politics: Trend and Transformation. New York:St. Martin’s Press, 1997. p. 18.
  16. 16. 16Sorensen17 destacam quatro paradigmas: Realismo, Liberalismo, Sociedade Internacional eEconomia Política Internacional. E, por último, Hedley Bull 18 indica apenas trêsparadigmas: Hobbesiano ou Realista, Kantiano ou Universalista e Grotiano ouInternacionalista. Como a classificação desses autores deixa transparecer, há paradigmas cujanomeação é unânime, como é o caso do Realismo; há outros que recebem nomes diferentes,tais como Liberalismo/Liberal Idealismo/Pluralismo/Interdependência; e, ainda, há aquelesque só aparecem em uma classificação, como são os casos de Teoria do Sistema Mundial,de Sociedade Internacional e de Economia Política Internacional. Vale observar, enfim, queessa lista poderia ser aumentada e tornada ainda mais confusa, se outros autores fossemarrolados. Ainda que haja um interesse crescente, por toda a parte, em relação às RelaçõesInternacionais, a discussão teórica, tal como o quadro acima revela, permanece como umadiscussão entre acadêmicos norte-americanos e ingleses, confirmando as palavras deStanley Hoffmann, no sentido de que Relações Internacionais é uma disciplina norte-americana . 19 Como já foi visto, esse interesse dedicado, pela academia norte-americana, àsRelações Internacionais deve-se, em grande medida, aos esforços iniciados depois daPrimeira Guerra Mundial e, sobretudo, ao assombroso investimento realizado pelo Governodos EUA em pesquisas, publicações e viagens, logo depois da Segunda Guerra Mundial.20Na ocasião, aquele governo buscou estimular a formação de especialistas em todas as áreas(conhecimento de regiões, de países e de questões internacionais), de modo que oconhecimento, por eles produzido, se configurasse na base para a ação externa e,naturalmente, para a execução do projeto hegemônico do Estado. Nesse sentido, adiscussão teórica na qual estão envolvidos os estudiosos norte-americanos não deve ser17 JACKSON , Robert; SORENSEN, Georg. Introduction to International Relations.Oxford: OxfordUniversity Press, 1999. p. 34.18 BULL, Hedley. The Anarchical Society: A Study of Order in World Politics. London: MacMillan Press,1977. p. 24.19 HOFFMANN, Stanley. An American Social Science: International Relations. In: DER DERIAN, James(Eds.). International Theory: Critical Investigations. London: MacMillan Press, 1995. p. 212-241.20 PLATIG, E. Raymond. International Relations as a Field of Inquiry. In: ROSENAU, James N. (Ed.).International Politics and Foreign Policy: a reader in research and theory. New York: The Free Press, 1969.p. 6-19. Neste artigo, o autor apresenta o volume de recursos investidos e discrimina as áreas de pesquisabeneficiadas.
  17. 17. 17interpretada como mera disputa de preferências pessoais e de rivalidades de gruposuniversitários. Essa contenda, na verdade, tem um pano-de-fundo político: o trabalho depreservação do status quo internacional. Subjacente à polêmica sobre os paradigmas esobre a validade do uso de conceitos como equilíbrio de poder, governabilidadeinternacional e globalização, encontra-se a questão fundamental, relativa ao substantivoapoio da Academia à luta pela conservação da posição hegemônica por parte do Estadonorte-americano. Por tais motivos, a primazia norte-americana , no estudo das RelaçõesInternacionais, faz com que a história da disciplina coincida com sua história no ambienteacadêmico norte-americano.5 A evolução teórica das Relações Internacionais A evolução teórica das Relações Internacionais tem sido marcada por “GrandesDebates”21 – os quais registram o confronto das teorias emergentes com as teoriasdominantes. Não por coincidência, o confronto entre novas e antigas teorias tem se seguidoa mudanças significativas na estrutura e no funcionamento do sistema internacional. Porentender que a teoria dominante não é capaz de dar conta de elementos novos, que sedestacam no curso das relações internacionais, os pesquisadores buscam aprofundar suasreflexões com a finalidade de obter formulações teóricas mais ricas, que abram o caminhopara o conhecimento mais verdadeiro da realidade das relações internacionais. O primeiro desses “Grandes Debates” aconteceu ao longo da década de 1930,opondo a corrente dominante Liberal- idealista à corrente emergente do Realismo. Aprimeira corrente acredita na perfectibilidade humana, no Direito Internacional e naspossibilidades de haver paz entre os Estados. Para os Idealistas, a realização desses ideaisdepende do aperfeiçoamento das instituições internacionais, o qual, por sua vez, deveresultar da cooperação entre os estadistas. Para a corrente Realista, por outro lado, as21 GROOM, A. J. R.; LIGHT, Margot. Contemporary International Relations: A Guide of Theory. London:Pinter Publishers, 1994. DEL ARENAL, Celestino. Introducción a las Relaciones Internacionales . Madrid: Tecnos, 1990. MERLE, Marcel. Sociologia das Relações Internacionais. Brasilia, UNB, 1981. BRAILLARD, Philippe. Teoria das Relações Internacionais. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian,1990.
  18. 18. 18relações internacionais são determinadas pelas relações de poder. Os Realistas desdenhamdo Direito Internacional, por considerarem que o direito prevalece somente enquanto nãocolid ir com os interesses daqueles Estados que dispõem de recursos para impor seusinteresses aos demais. Na realidade, acreditam que o direito e a ordem internacionaldecorrem diretamente, da correlação de forças entre aqueles que detêm maior poder. As mudanças ocorridas na estrutura do sistema internacional após a Segunda GuerraMundial pareciam, assim, confirmar a validade dessas teses realistas. A formação dos doisblocos de poder antagônicos e a rivalidade das duas superpotências (norte-americana esoviética), hegemônicas em seus respectivos blocos, ameaçando, a qualquer pretexto,iniciar uma guerra atômica, não dava m margem a dúvidas de que as possibilidades de sealcançar a paz mundial, tal como o pensavam os Idea listas, não passavam de uma grandeilusão.**** O segundo “Grande Debate” aconteceu no final dos anos 1950, numa polêmica quemarcou a maior participação do mundo acadêmico norte-americano na discussão teóricadas Relações Internacionais. O conteúdo desse debate foi, fundamentalmente, de ordemmetodológica, opondo Behavioristas a Tradicionalistas. O interesse dos críticosBehavioristas não era demonstrar a ineficácia da teoria Realista, mas sim, elevar suacredibilidade, por meio da introdução de metodologias científicas. Para os críticos, a teoria Realista, tal como desenvolvida por estudiosos como HansMorgenthau, principalmente, formava-se por conceitos excessivamente gerais, os quaiseram apresentados, equivocadamente como leis universais da política. Os Behavioristas nãoduvidavam da possibilidade de prever o comportamento dos Estados. Porém, consideravamque isso somente poderia ser feito mediante o uso de metodologias adequadas, tais como osmodelos matemáticos. De acordo com a nova metodologia proposta, os dados consideradosimportantes para a formação do poder do Estado deviam ser mensurados. A partir daí, as**** “The Great Illusion” foi o título dado por Norman Angell a seu livro, publicado em 1909 (London,Weidenfeld & Nicolson) . Nele, o autor defendeu a tese segundo a qual não havia possibilidades de guerra nomundo. No seu entendimento, o capitalismo internacionalizara -se de tal modo que a guerra seria umademonstração de desvairada irracionalidade. Acreditava Angell, que os grandes grupos econômicos nãopermitiriam a destruição de seu capital físico, espalhado pelos diferentes países da Europa, nem tampouco dasredes de comercialização de mercadorias e investimentos. Contudo, a guerra aconteceu.Como observa Chris Brown ( Understanding International Relations), a racionalização do processo realizadapor N. Angell procedia. O problema, no entanto, é que N. Angell acreditava no comportamento humanopautado exclusivamente pela razão.
  19. 19. 19variações e as simulações de variações constituiriam o material da análise do especialista.22Em sua perspectiva, era essa incorporação de conceitos e modelos, advindos de outrasciências, que garantiria, às Relações Internacionais, seu caráter científico. Ao invés, portanto, de procurar formular teorias que pudessem dar conta dasrelações internacionais em toda sua abrangência, tal como o faziam os RealistasTradicionalistas, os Behavioristas defendiam a tese segundo a qual seria a partir de modelosexplicativos limitados (tais como a Teoria dos Jogos e o Modelo de Comunicação) queseria possível, chegar das partes, ao todo e, consequentemente, a u visão mais precisa madas relações internacionais. 23 No contexto desse mesmo “Segundo Debate”, ao lado da corrente Behaviorista, veioà tona o Modelo Sistêmico. Diretamente inspirada no modelo formulado por David Easton,cujo objetivo era analisar a vida política interna dos Estados, 24 a denominada correnteFuncionalista introduziu e consolidou o uso do conceito de sistema nas RelaçõesInternacionais. Embora, em sua concepção original, a idéia de sistema esteja voltada para aanálise de ambientes políticos restritos, dada a necessidade de controla r as variáveispassíveis de influenciar o comportamento dos atores e do sistema como um todo,estudiosos, como Morton Kaplan, deram, ao conceito de sistema internacional, caráterheurístico, o qual deveria conduzir o analista, mediante o uso de sistemas possíveis, aoconhecimento geral da realidade das relações internacionais. 25 O terceiro “Grande Debate”, conhecido como o “Debate dos Paradigmas”,transcorreu ao longo dos anos 1970. Os estudiosos norte-americanos Robert Keohane eJoseph Nye foram seus principais protagonistas. Contra as teses centrais da correnteRealista, ambos co-editaram as duas principais obras em defesa das teses da22 Para se obter uma visão geral sobre a intervenção teórica dos Behavioristas, ver: Merle, Marcel. Sociologiadas Relações internacionais. Brasília: UNB, 1981.23 RAPOPORT, Anatol. Lutas, Jogos e Debates. Brasília, UNB, 1980. FRANKEL, Joseph. Contemporary International Theory and the Behaviour of States. Oxford: OxfordUniversity Press, 1973. DEUTSCH, Karl. Análise das Relações Internacionais. Brasília: UNB, 1978. HOFFMANN, Stanley. Teorias Contemporaneas sobre las Relaciones Internacionales. Madrid: Tecnos,1963.24 EASTON, David. Uma Teoria de Análise Política. Rio de Janeiro: Zahar, 1968.25 KAPLAN, Morton. System and Process in International Politics. New York: J. Wiley, 1964.Os sistemas internacionais possíveis, propostos pelo autor, são os seguintes: 1) Sistema de Equilíbrio; 2)Sistema Bipolar Flexível; 3) Sistema Bipolar Rígido; 4) Sistema Internacional Universal; 5) SistemaInternacional Hierárquico; 6) Sistema Unit Veto.
  20. 20. 20Interdependência Complexa, Transnational Relations and World Politics (1971) e Powerand Interdependence: World Politics in Transition (1977). 26As reflexões desses autores tinham, como base empírica, algumas significativas mudanças,que ocorriam no sistema internacional, dentre as quais, destacavam-se o abandono dopadrão-ouro de Bretton Woods ; o primeiro choque do petróleo; o fim da Guerra do Vietnã;e o início das tensões comerciais entre os Estados Unidos e o Japão. Devido ao impactoproduzido por esses acontecimentos, denotadores da perda relativa do poder dos EstadosUnidos e, simultaneamente, da importância crescente dos fatores econômicos nas relaçõesinternacionais, ambos argumentavam que já não era mais possível pensar o sistemainternacional exclusivamente do ângulo da segurança, como o faziam os Realistas. Aeconomia inter nacional havia evoluído para uma etapa em que o poder passava a serexercido mediante o uso exclusivo dos mecanismos financeiros e comerciais, sem haver anecessidade do uso ostensivo da força militar. Tornava-se necessário , então, diziam essesPluralistas, reformular a teoria das Relações Internacionais, de modo a absorver esses novosfatores de mudança da realidade. Assim, em oposição ao Realismo, os Pluralistas afirmavam que o Estado não podiamais ser considerado como o único ator válido das relações internacionais; era hora de sereconhecer a existência e a influência de outros importantes atores, tais como as própriasdiferentes instâncias do aparato burocrático estatal, como também as organizações não-governamentais, especialmente representadas pela corporação multinacional. Afirmavam, igualmente, a crescente importância das relações de cooperação, asquais tendiam a sobrepujar as relações de poder entre os Estados. Finalmente, contra a teseRealista da hierarquia das questões internacionais encimada pelas questões de segurança,insistiam na importância relativa das questões internacionais, cuja proeminência variavasegundo a conjuntura e os diferentes foros de atuação dos atores. A crítica Pluralista ao Realismo, vale dizer, produziu reação da parte da correnteRealista, da mesma forma que levou os Pluralistas a se situarem melhor no contexto dapolêmica por eles criada. E o resultado desse processo acabou por desenhar o quadro das26 KEOHANE, Robert; NYE, Joseph. Transnational Relations and World Politics. Cambridge: HarvardUniversity Press, 1971. ______. Power and Interdependence: World Politics in Transition. Boston: Little Brown, 1977.
  21. 21. 21opções teóricas atuais. Isso porque, de um lado, o Realismo, ao promover alguns ajustes emseu corpo teórico, se fez neo-realismo. De outro lado, o Pluralismo, para responder àscríticas dos teóricos da Dependência (os quais não podiam admitir a idéia deinterdependência complexa com assimetria ), assumiu seu caráter abertamente liberal,convertendo-se, então, em Neoliberal. A visão panorâmica das Relações Internacionais ficaria incompleta, no entanto, senão fosse feita referência à “Escola Inglesa” e ao “Debate Pós-Positivista”. Também conhecida como corrente teórica da “Sociedade Internacional”, a “EscolaInglesa” é uma das poucas correntes de grande prestígio , que se desenvolveu fora doambiente acadêmico norte americano. A essa corrente, pertencem nomes expressivos comoMartin Wight, 27 Adam Watson, 28 Terry Nardin , 29 John Vincent,30 Michael Walzer 31 eJames Mayall. 32 Todavia, o nome mais conhecido é o do australiano Hedley Bull (1932 –1985), que desenvolveu a carreira acadêmica na London School of Economics, e emOxford. A particularidade da “Escola Inglesa” está no fato de ter proposto a análise dasRelações Internacionais a partir do marco filosófico fixado por Hugo Grotius 33 (1583 –1645), nascido na Holanda e conhecido por muitos juristas como o “pai do DireitoInternacional”. Em Do Direito da Guerra e da Paz (1625), esse hola ndês defendia anecessidade de se estabelecer normas de comportamento para os Estados da Europa,27 WIGHT, Martin. Systems of States . London: Leicester University Press, 1977; ______. A Política do Poder. Brasilia: UNB, 1978. ______. International Theory: The Three Traditions. London: Leicester University Press, 1991.28 BULL, Hedley; WATSON, Adam (Ed s.). The Expansion of International Society. Oxford: ClarendonPress, 1984. WATSON , Adam. The Evolution of International Society. London: Routledge, 1992.29 NARDIM, Terry. Law, Morality and the Relations of States. New Jersey: Princeton University Press,1983. NARDIM, Terry; MAPEL, David R. (Eds.). Traditions of Internati onal Ethics. Cambridge: CambridgeUniversity Press, 1993.30 VINCENT, John. Nonintervention and International Order. New Jersey: Princeton University Press,1974. ______. Human Rights and International Relations. Cambridge: Cambridge University Press, 1986.31 WALZER, Michael. Just and Unjust Wars: A Moral Argument with Historical Illustrations. New York:Basic Books, 1992 . ______.Thick and Thin: Moral Argument at Home and Abroad. Notre Dame : University of Notre DamePress, 1984.32 MAYALL, James. Nationalism and International Society. Cambridge: Cambridge University press,1989. ______. The New Interventionism: 1991 – 1994. Cambridge: Cambridge University Press, 1996.33 GROCIO, Hugo. Del Derecho de la Guerra y de la Paz. Madrid : Editorial Reus, 1925.
  22. 22. 22mesmo sob condições de guerra. Para ele, o fato de os Estados europeus pertencerem àmesma civilização cristã, estando todos submetidos ao mesmo direito natural, distinguia-oscomo partes integrantes da sociedade internacional. Por isso, os príncipes europeus deviam,quando em guerra, respeitar tanto os direitos dos neutros, quanto respeitar o direito ao livreuso dos mares, e não se conduzir tal como estivessem em guerra contra não-cristãos, umacircunstância na qual tudo era permitido. De certa forma, esses princípios defendidos porGrotius acabaram por formar a substância dos Tratados de Westphalia (1648), os quaisforam assinados horas depois da sua morte e encerraram as Guerras de Religião. 34 Ao seguir o caminho apontado por Grotius, Hedley Bull argumentou em favor daexistência da “sociedade internacional”, um conceito que, pode-se dizer, forma o eixocentral da “Escola Inglesa”. O uso desse conceito preenche o espaço que separa, segundoMartin Wight,35 a tradição Hobbesiana da tradição Kantiana. Para Bull, o fato de, no meiointernacional, não existir governo central com capacidade de fazer respeitar as leis, nãoimpede de se falar da existência da sociedade internacional. Apenas pondera que talsociedade é de tipo diferente das sociedades nacionais, sendo a sua principal diferença, ocaráter anárquico da sociedade internacional. Contra a posição dos Realistas, que nãoadmitem a idéia de sociedade internacional justamente devido à inexistência de governocentral, Bull chama a atenção para o fato de as relações internacionais não se resumirem àsdecisões que dizem respeito à segurança do Estado, mas sim, por formarem uma densa teiade relações que supõem alta dosagem de cooperação e, também, a partilha de valoresculturais comuns. Uma partilha que se tornou historicamente possível em virtude daocidentalização do mundo promovida pelos povos europeus, a partir da idade Moderna. Por fim, chegamos ao derradeiro Grande Debate, que é, também, o mais difícil deser resumido, tendo em vista sua amplitude e a ambigüidade conceptual que o cerca. O alvoda crítica é o Realismo, ou melhor, são o Positivismo e o Empirismo, que constituiriam abase da formulação teórica Realista.As posições críticas, por sua vez, têm por origem a “Teoria Crítica”, o “Pós-Modernismo” eo “Feminismo”, este não deixando de ser, também, parte do “Pós-Modernismo.”3634 BULL, Hedley; KINGSBURY, Benedict; ROBERTS, Adam (Eds.). Hugo Grotius and InternationalRelations. Oxford : Clarendon Press, 1992.35 WIGHT, M. International Theory: The Three Tradiditions, Leicester: Leicester University Press, 1991.36 HALLIDAY, Fred. Rethinking International Relations. London: MacMillan Press, 1994.
  23. 23. 23 Ainda que os críticos em geral identifiquem os mesmos problemas quanto àcomposição teórica do Realismo, aqueles integrados à perspectiva da Teoria Críticaconferem maior importância à dimensão política da questão. Avançando pelo caminhoaberto pela Escola de Frankfurt e, mais particularmente, pelo filósofo Jurgen Habermas,37os críticos trabalham imbuídos do ideal Iluminista, segundo o qual a teoria deve servir,primordialmente, à finalidade racional de promover a liberdade e a emancipação contra adominação e a tutela. Essa linha teórica trabalha no sentido de recuperar a teoria Marxistacomo ponto de apoio da reflexão. Esta é a razão das críticas dessa corrente estaremdirigidas contra três postulados principais do Realismo: a existência de uma realidadeexterna objetiva; a formal distinção entre sujeito e objeto; e a convicção da existência deuma ciência livre de valores. A Teoria Crítica rejeita a idéia realista da existência do sistema de Estados, quefunciona segundo leis imutáveis e universais. Para essa escola teórica, a tese realista nãopassa de um discurso formulado pelas grandes potências para eternizar a dominação queexercem em nível mundial. O que os Realistas denominam sistema internacional, para oscríticos, na verdade, constitui uma construção histórica dirigida pelas grandes potências edeterminada pelo desenvolvimento do capitalismo. Como não admitem que a ciência sejalivre de valores, por conseguinte, afirmam que toda a teoria deve, não apenas produziranálises, como também funcionar como alavanca para a mudança das relações sociais emtodo o mundo, liberando os homens das estruturas opressivas criadas pelo capitalismo emantidas pelas grandes potências. A chamada crítica Pós-Modernista, por sua vez, caracteriza-se por um radicalismofilosófico que não poupa nenhuma das teorias das Relações Internacionais, por considerá- BOOTH, Ken; SMITH, Steve (Eds.). International Relations Theory Today. Pennsylvania: ThePennsylvania State University Press, 1995. GRIFFITHS, Martin. Realismo, Idealism & In ternational Politics: a reinterpretation. London: Routledge,1992. NICHOLSON, Michael. International Relations : A Concise Introduction. London : MacMillan Press,1998. SPEGELE Roger D. Political Realism in International Theory. Cambridge: Cambridge University Press,1996.37 HABERMAS, Jurgem. Knowledge and Human Interests. Boston: Beacon Press, 1972 . ______. Communication and the Evolution of Society. London: Heinemann, 1979. ______. Theory of Communicative Action. Boston: Veacon Press, 1984. v.1. ______. Theory of Communicative Action. Boston: Beacon Press, 1988. v.2. ______. La lógica de las ciencias sociales. Madrid, Tecnos, 1990.
  24. 24. 24las, todas, partes da mesma metanarrativa. Para os críticos pós- modernos, as teorias dasRelações Internacionais, assim como todas as demais teorias sociais e a literatura, sãoprisioneiras das mesmas armadilhas filosóficas Iluministas, segundo as quais a ciência temum superior e inigualável lugar na ordem do saber, por proporcionar conhecimentoobjetivo, e a modernização conduzir ao progresso e ao maior bem estar para todos. Não há teoria das Relações Internacionais que escape de tão abrangente arco crítico;todavia, por ser a teoria mais influente no campo das Relações Internacionais, a TeoriaRealista é a mais visada pelos críticos pós-modernos. 38 Para Jim George 39 e., mesmo emsua forma mais sofisticada, o Realismo representa um anacrônico resíduo do Iluminismoeuropeu, totalmente incompatível com a realidade do mundo pós-moderno. A idéia desseautor, tanto quanto de outros críticos da mesma linha, é a de que não é possível existirciência das Relações Internacionais, mesmo porque não há realidade internacional objetiva.O que se denomina ciência das Relações Internacionais é apenas uma narrativa, que seimpôs sobre todas as demais possíveis, em virtude do poder detido por aqueles que aelaboraram. Nesse sentido, a ciência das Relações Internacionais é tão-somente a expressãodiscursiva dos que exercem o poder. A ação crítica dos pós- modernistas trabalha com vistas a promover a“desconstrução” da narrativa Realista. Seu alvo central é o conceito de Estado como atorfundamental das relações internaciona is, que age de modo racional para realizar seusinteresses e maximizar seu poder. Para os pós- modernistas, o Estado, como realidadeobjetiva, simplesmente não existe ; trata-se de mera ficção construída por acadêmicos ecidadãos, com a finalidade de dar significado as ações sociais que empreendem entre si.Desse modo, a ação do Estado, no sistema internacional de Estados, não passa de umaforma de construir uma narrativa sobre a relação entre indivíduos: uma história que, na38 WENDT, Alexander. Anarchy is What States Make of it: The Social Construction of Power Politics. In:DER DERIAN, James. (Ed.). International Theory: Critical Investigations. London: MacMillan Press, 1995.p. 129 -177. CAMPBELL, David. Politics Without Principle: Sovereignty, Ethics, and the Narratives of the Gulf War.Boulder: Lynne Rienner, 1993. ASHLEY, Richard K. The Poverty of Neorealism. In: KEOHANE, Robert (Ed.). Neorealism and itsCritics. New York: Columbia University Press, 1986. p. 255 -300. ______.The Pwers of Anarchy: Theory, Sovereignty, and the Domestication of Global Life . In: DERDERIAN, James. (Ed.). International Theory: Critical Investigations. London: MacMillan Press, 1995. p.94-128.39 GEORGE, Jim. Discourses of Global Politics: A Critical (Re)Introduction to International Relations.Colorado:Lynne Rienner Publishers, 1994. p. 12.
  25. 25. 25verdade, pode ser criada e contada de várias outras formas, as quais dependerão, sempre, daposição e dos interesses do indivíduo ou dos grupos que se proponham a construí- la. Para finalizar este mapeamento dos Debates na área das Relações Internacionais, énecessário trazer algumas palavras a respeito da questão do Gênero. Por incrível que pareça, o questionamento das Ciências Sociais, a partir do ângulodo Gênero, é um processo que data dos últimos vinte anos. No âmbito das RelaçõesInternacionais, no entanto, o processo é muito mais recente. Tal desinteresse pelas RelaçõesInternacionais, por parte dessa linha crítica seria decorrente, segundo Margot Light e FredHalliday,40 em primeiro lugar, da idéia de que as Relações Internacionais não têm limitesprecisos, configurando-se apenas em uma extensão das questões nacionais. Em segundolugar, de que as Relações Internacionais tratam de questões de “alta política”, tais comoproblemas de segurança e de diplomacia; ao passo que as questões de Gênero estariamdiretamente relacionadas à “baixa política”, como o são as políticas públicas. Nas Relações Internacionais, a questão do Gênero pode apresentar-se de duasmaneiras, denominadas, pelos acima citados autores, como “mulher como categoria” e“gênero como epistemologia”: Michael Nicholson41 denomina “empírica” e “teórica”. Aprimeira forma de apresentar a questão é a daqueles que elaboram a narrativa das RelaçõesInternacionais que reclama da omissão do relato dos papéis desempenhados pelas mulheresno processo histórico. Assim, mesmo tendo cumprido papéis altamente relevantes emprocessos de luta pela independência, em movimentos de libertação nacional, em guerras eem outras conjunturas marcadas pela tensão e pela tomada de decisões nos planos social enacional, as mulheres são praticamente ignoradas pelos homens, quando chega o momentode elabora r a história de tais processos. Na segunda forma de apresentar a questão doGênero, a crítica destaca o fato de as teorias das Relações Internacionais serem elaboradas apartir de um ponto de vista exclusivamente masculino. Tomando o Realismo como aprincipal teoria das Relações Internacionais, argumenta que a definição do Estado, comoator central, bem como a luta pelo poder, representando a grande motivação e a guerra, a40 LIGHT, Margot; HALLIDA Y, Fred. Gender and International Relations. In: GROOM, A . J. R.; LIGHT,Margot (Eds.). Contemporary International Relations: A Guide of Theory. London: Pinter Publishers,1994. p. 45-55.41 NICHOLSON, Michael. International Relations: A Concise Introduction. London: MacMillan Press,1998. p. 113.
  26. 26. 26ocasião para a definição de um novo sistema internacional de poder exprimem tão-somenteo universo dos valores masculinos e jamais a verdade das relações internacionais; daí, pois,a necessidade de se empreender uma abordagem que subverta tal situação e dê conta dopapel exercido pelas mulheres, como também a percepção que elas têm da realidade dasrelações internacionais.6 O Liberal Internacionalismo A disciplina Relações Internacionais nasceu, na década de 1920, sob o signopolítico- ideológico do Liberalismo. Isso significa que as teses centrais do pensamentoliberal, tal como as formularam John Locke, 42 Montresquieu, 43 Adam Smith44 e ImmanuelKant, 45 passaram a constituir as vigas mestras da teoria das Relações Internacionais. Os teóricos liberais, por nutrir total confiança na capacidade normativa de seuspostulados, acreditavam que as idéias de livre-comércio, democracia e regulação jurídicaseriam suficientemente capazes de garantir a prosperidade e a paz no mundo. O livre-comércio produziria esses efeitos pelo fato de aproximar os indivíduosintegrados a meios culturais diferentes. O comércio, nessa ótica, faria com que os povos setornassem mais flexíveis e compreensivos para com os usos e os costumes dos outrospovos. Além disso, o comércio cria ria inter-relacionamentos econômicos entre os Estados,comprometendo-os na busca de vantagens mútuas que, enfim, leva riam à prosperidadegeral, restando remotas, as possibilidades de guerra. Governos democráticos, por sua vez, têm inclinação natural para a cooperação erepudiam a guerra como recurso para a solução de controvérsias. Nos governos autoritários,em que poucos decidem em nome de todos, existe uma tendência natural para as soluçõesde força; por seu turno, nos governos nos quais muitos participam das decisões, tende apredominar a prudência e a solução via diálogo e negociação.42 LOCKE, John. Dois Tratados Sobre o Governo (1690). São Paulo: Martins Fontes, 1998.43 MONTESQUIEU. Do Espírito das Leis (1748). São Paulo: Abril Cultural, 1979. (Os Pensadores).44 SMITH, Adam. A Riqueza das Nações (1776). São Paulo: Abril Cultural, 1983. (Os Economistas).45 KANT, Immanuel. A Paz Perpétua: u m pojeto filosófico (1795/1796). In: KANT, Immanuel. A PazPerpétua e Outros Opúsculos. Lisboa: Edições 70, 1988.
  27. 27. 27 O respeito ao Direito Internacional complementa essas idéias, porque o Direito ageno sentido de proporcionar alguma ordem na natural anarquia internacional. Por meio dasorganizações internacionais, os liberais crêem ser possível estabelecer algum equilíbrioentre os Estados e, assim, garantir segurança para os Estados mais fracos. Essas idéias, profundamente enraizadas na cultura anglo-americana, foramfortalecidas, ao fim da Primeira Guerra Mundial, em virtude, sobretudo, da intervenção doPresidente norte-americano, Woodrow Wilson (1856-1923) na política internacional. Paraos governantes franceses e ingleses, a aquela Guerra havia resultado de alguma falhaexistente no tradicional sistema de equilíbrio de poder, que regulava as relações entre asgrandes potências. Na concepção de Wilson, porém, o próprio sistema (fundado emWestphalia), é que era incapaz de produzir paz durável, a qual, para ser alcançada, exigia,segundo Wilson, uma intervenção enérgica, que fosse além do simples reajuste do sistemade equilíbrio de poder. Ele considerava necessário , assim inaugurar um novo modo depensar as relações internacionais. Essa sua intervenção aconteceu mediante a apresentação, em 8 de janeiro de 1918,do documento que se tornou conhecido como os ‘Quatorze Pontos de Wilson’. Inicialmenteapresentado aos alemães como ponto de partida para a negociação do fim da guerra, essedocumento devia cumprir a finalidade de orientar o trabalho diplomático na Conferência deVersalhes, sinalizando novos rumos para as relações entre os Estados. Em seus seis pontosdoutrinários, Wilson preconizava:1) Convenções de paz abertas, abertamente concluídas, sem acordos secretos ulteriores;2) Liberdade de navegação fora das águas territoriais;3) Remoção de todas as barreiras comerciais;4) Redução dos armamentos nacionais ao mínimo necessário à segurança dos Estados;5) Atendimento das reivindicações de independência nacional das colônias; e[...]14) Formação de uma associação geral de nações, de acordo com convenções específicas,com vistas a dar garantias mútuas de independência política e de integridade territorial aosgrandes e pequenos Estados 46 .46 MOREIRA, Adriano; BUGALLO, Alejandro; ALBUQUERQUE, Celso (Coords.) Legado Político doOcidente : o homem e o Estado. Rio de Janeiro: DIFEL, 1978. p. 212-213.
  28. 28. 28 Ao se assinalar a importância da intervenção de Woodrow Wilson para a criação dadisciplina Relações Internacionais, não se deve perder de vista que ela teve carátermarcadamente normativo e, por outro lado, muito pouco científico. Como afirma EdwardCarr,47 é comum que a ciência, em seus inícios, esteja muito mais voltada para solucionaros problemas próprios ao seu objeto, do que para o lento e difícil trabalho de lapidaçãoconceptual e de definição metodológica. Por seguir esse padrão, típico de toda ciência emfase inicial, as Relações Internacionais sucumbiram à tentação utópica de promover a pazmundial antes de conseguir formar um corpo teórico sólido, capaz de contribuir para aprodução de conhecimento confiável sobre a realidade internacional. Esse caráter utópicoevidencia-se nos títulos das obras publicadas. Em sua grande maioria, os livros apresentam,em seus títulos, as palavras “paz” e “direito,” como se a vontade (por si só), pudesse mudara realidade. 48 Esse estilo de comportamento acadêmico correspondeu a igual estilo decomportamento diplomático. Na diplomacia, preponderou a idéia de que os conflitospoderiam ser evitados recorrendo-se aos processos jurídicos de mediação e arbitragem.Nesse sentido, são bem representativas as Conferências navais de Washington, mediante asquais os Estados Unidos, o Reino Unido e o Japão tentaram exercer co ntrole sobre o uso dearmamentos no Oceano Pacífico. Também foram representativas, a criação da CorteInternacional de Justiça, em 1921, e a assinatura do Pacto Briand-Kellogg, em 1928, peloqual os signatários comprometiam-se a apelar para a arbitragem da Sociedade das Naçõescomo forma de resolver eventuais pendências, renunciando, portanto, ao emprego da força.Enfim, seja no plano diplomático, seja no acadêmico, a visão liberal está sempre assentadanas idéias de que a natureza humana é essencialmente boa e que o mau comportamento doshomens decorre dos defeitos das instituições. Por essa razão, para os liberais, a reforma das47 CARR, Edward H. Vinte Anos de Crise: 1919 – 1939. Brasília: UNB, 1981. p. 17.48 Segue-se alguns importantes títulos como exemplos:ZIMMERN, Alfred E. The League of Nations and the Rule of Law 1918-35. London: Macmillan, 1936.SUTTNER, B. von. Lay Down Your Arms!. New YorK: Longmans, Green, 1914.EAGLETON, C. International Government. New York: Ronald Press, 1932.YORK, E. Leagues of Nations. New York:, Swarthmore University Press, 1919.LAUTERPACHT, H. The Function of Law in International Community. New York : Oxford UniversityPress, 1933.SCOTT J. B. The Proceedings of the Hague Pea Conference. New York:Oxford Universwity Press, ce1920. L. F. L. Oppenheim. International Law. London: Longmans, Green, 1937.BRIERLY, L. J. The Law of Nations. New York: Oxford University Press, 1928.
  29. 29. 29instituições pode, perfeitamente, resultar na prevalência da cooperação e na redução dosconflitos.***** A crise dos anos 1930, a Segunda Guerra Mundial e a subsequente bipolarização dosistema internacional em torno dos dispositivos nucleares dos Estados Unidos e da UniãoSoviética desacreditaram essas teses liberais das Relações Internacionais. Adesconsideração dos liberais para com a luta pelo poder teria demonstrado a enormedistância existente entre o desejo de paz e prosperidade e a realidade conflituosa dasrelações internacionais. Consequentemente, ao longo dos anos marcados pela Guerra Fria, aTeoria Realista foi considerada pela maioria dos analistas, como a única capaz de exprimir,com fidelidade, os aspectos fundamentais que davam sentido às relações internacionais emtodas suas dimensões. No entanto, o fim da Guerra Fria levou a comunidade acadêmica à retomada dasteses liberais. O surgimento de temas que, para sua solução ou para seu equacionamento,exigem a cooperação dos atores estatais e incluem atores não-governamentais (como ocombate ao narcotráfico, a defesa do meio ambiente, o combate ao terrorismointernacional), bem como a maior internacionalização do capital, a globalização financeirae, principalmente, a incapacidade, da Teoria Realista, de prever o colapso da UniãoSoviética e a dissolução do campo socialista constituem as razões freqüentementeapontadas para explicar o seu desprestígio e a recuperação da Teoria Liberal, com vistas adar conta das relações internacionais contemporâneas.***** Kegley Jr. e Wittkopf afirmam que as idéias e as ações diplomáticas liberal-idealistas da década de 1920estavam baseadas nos seguintes pressupostos:a) a natureza humana é essencialmente “boa” ou altruística e as pessoas são, portanto, capazes de se ajudar e colaborar mutuamente;b) a fundamental preocupação humana com o bem-estar dos outros torna o progresso possível (isto é, a fé Iluminista na possibilidade de aperfeiçoamento da civilização foi reafirmado);c) o mau comportamento do homem, tal como a violência, não é resultante de sua natureza defeituosa, m as, sim, do mau funcionamento das instituições, que o leva a agir egoisticamente em detrimento dos demais;d) a guerra não é inevitável e sua freqüência pode ser reduzida mediante a eliminação dos arranjos institucionais que a estimulam;e) a guerra é um problem internacional que requer esforços coletivos ou multilaterais, mais do que a nacionais, para controlá-la;f) a sociedade internacional deve reorganizar-se a fim de eliminar as instituições que possibilitam as guerras, e as nações devem reformar seus sistemas políticos de modo que a auto-determinação e o governo democrático possam ajudar pacificar as relações entre os Estados.(KEGLEY, Charles; W. WITTKOPF, Eugene R. World Politics : Trend and Transformation. New York: St.Martin’s Press, 1997. p. 20).
  30. 30. 30 A retomada das teses liberais, na esfera das Relações Internacionais, por outraspalavras, o Neoliberalismo nas Relações Internacionais, tem, como um de seus principaisaspectos, o redescobrimento da personalidade de Woodrow Wilson49 . Para muitos liberais,Wilson foi um visionário. A rejeição de suas propostas e o colapso de algumas de suasidéias levadas à prática não indicariam, para os liberais de hoje, falhas na concepção, massim, inadequação do mundo ao seu projeto. De outra forma, pode-se dizer que o mundo nãoestava preparado para as idéias de Wilson. As grandes mudanças, pelas quais ele passounos últimos anos, teriam, n entanto, feito com que as idéias propostas por Wilson (nos oanos vinte) voltassem a ter plena atualidade. Após as fracassadas experiências de viasalternativas, o mundo se encontraria finalmente maduro para assimilar os postuladosliberais enunciados por Woodrow Wilson.7 O Realismo nas Relações Internacionais Algumas vezes denominado Realpolitik ou, então, Power Politics , o realismo nasRelações Internacionais inscreve-se numa antiga tradição de pensamento. Costuma-selembrar a importância, para o desenvolvimento dessa escola de pensamento depersonalidades como o indiano Kautilya, 50 o chinês Sun Tzu, 51 o grego Tucídides,52 oflorentino Nicolau Maquiavel 53 e o prussiano Carl von Clausewitz. 54 Todos concordam,contudo, que o filósofo inglês Thomas Hobbes 55 é quem estabelece u as diretrizes para aanálise Realista das relações internacionais contemporâneas. Hedley Bull, p. e., ao se referirà corrente Realista, prefere a denominação Paradigma Hobbesiano, por considerá-la maisajustada aos princípios orientadores da análise realista. Na concepção hobbesiana, os Estados vivem em estado de natureza, isto é, apesarde conviverem e de se relacionarem, entre si, todo o tempo, nem por isso formam umasociedade de Estados. Vivem, na perspectiva de Hobbes, em estado de anarquia, pois, na49 KEGLEY, Charles W., (Ed.). Controversies in International Relations Theory: Realism and theNeoliberal Challenge. New York:, St. Martin’s Press, 1995.50 BATH, Sergio. Arthashastra/Kautilya o Maquiavel da Índia. Brasília: UNB, 1994.51 SUN TZU . A Arte da Guerra. Rio de Janeiro: Record, 2000.52 TUCÍDIDES. História da Guerra do peloponeso. Brasília: UNB, 1982.53 MAQUIAVEL, N. O Príncipe. Rio de Janeiro: Ediouro, 2000.54 CLAUSEWITZ, Carl von. Da Guerra. São Paulo: Martins Fontes, 1996.55 HOBBES, Thomas. Leaviatã. São Paulo: Abril Cultural, 1979. (Os Pensadores).
  31. 31. 31ausência de um poder soberano, com sua inerente capacidade de fazer com que todosrespeitem as leis por ele instituídas, cada Estado busca maximizar o poder de intimidar osmais fracos e, simultaneamente, não ser intimidado pelos mais fortes. Conforme Hobbes,essa é uma situação da qual os Estados não podem escapar, sendo usualmente definida,pelos estudiosos, como o dilema da segurança. Isso porque, o homem, para livrar-se domedo da morte violenta a que está sujeito, no estado de natureza, firma o pacto social eentra em estado de sociedade, submetendo-se ao poder de Estado, ao Leviatã. Todavia, pornão ser factível um pacto que erga um poder soberano que submeta os Estados à sua lei, ohomem vive, permanentemente, sob a ameaça da guerra entre os Estados. Desse modo ohomem escapa da guerra de todos contra todos instituindo a sociedade. No entanto, nãoconsegue livrar-se da permanente possibilidade de haver guerra entre os Estados. A partir desse núcleo de idéias de Thomas Hobbes, os Realistas contemporâneosdesenharam um mapa teórico, com os seguintes pontos determinantes da análise: 1) A leitura da história ensina que os homens são, por natureza, egoístas e eticamente defeituosos, e não podem se libertar dessas deficiências; 2) De todas as maldades de que o homem é capaz, nenhuma é mais inexorável ou perigosa do que sua instintiva luta pelo poder e seu desejo de dominar os demais; 3) A possibilidade de erradicar a instintiva luta pelo poder é uma aspiração utópica; 4) Sob tais condições, a política internacional é a luta pelo poder, ‘uma guerra de todos contra todos’; 5) A obrigação básica de todo Estado – objetivo ao qual os outros objetivos nacionais devem estar subordinados – é promover o ‘interesse nacional’, definido como aquisição de poder; 6) A natureza do sistema internacional determina que os Estados persigam a capacitação militar para deter o ataque dos inimigos potenciais; 7) A economia é menos relevante do que o poder militar para a segurança nacional; a economia é importante como meio de obter poder e prestígio; 8) Os aliados devem aumentar a capacidade de defesa do Estado, mas sua lealdade e confiabilidade não devem ser anunciadas; 9) Os Estados nunca devem confiar sua proteção a organizações internacionais ou ao direito internacional e devem resistir aos esforços para regular a conduta internacional;
  32. 32. 32 10) Se todos os Estados buscam maximizar seu poder, a estabilidade resultará da administração da balança de poder, lubrificada pelo sistema de alianças.56 O primeiro importante passo rumo à instauração do Realismo , como visãodominante nas Relações Internacionais, foi dado por Reinhold Niebuhr (1892 – 1971), quese converteu, nas palavras de George Kennan, no “pai dos Realistas norte-americanos.”57Em sua obra Moral Man and Immoral Society (1932),58 o filósofo político e teólogoprotestante Niebuhr trava diálogo com os liberais religiosos e laicos, especialmente com ofilósofo Immanuel Kant, argumentando que não se deve esperar comportamento ditado porregras morais da parte de grupos como raças, classes e nações.59 De acordo com Niebuhr,tal expectativa deve ser reservada, exclusivamente ao indivíduo. Grupos humanos, taiscomo as nações (o mais abrangente e egoísta deles), agem sempre aspirando a obter maispoder e maior prestígio. Nessa ótica, esse autor, considera hipócrita e contraproducente apolítica externa que se executa a partir de princípios morais universais. Ele defende a tesesegundo a qual, em meio ao ambiente naturalmente conflituoso das relações internacionais,a paz só poderá resultar do entendimento entre Estados que exprimam, com clareza, seusmais caros interesses nacionais. Ainda que a impressão causada pela intervenção de Niebuhr tenha sido profunda,muitos concordam que foi Edward Carr quem formulou a mais contundente crítica aoliberal- idealismo nas Relações Internacionais. Publicado em 1939, seu livro The TwentyYears Crisis 1919 – 1939 tornou-se um clássico da literatura das Relações Internacionais aoconfrontar as teses Idealistas e as Realistas. Mediante a complexa combinação de reflexãofilosófica, análise histórica e análise dos fatos da conjuntura, Carr, sem se apresentarexplicitamente como Realista, demonstra que as teses Idealistas faziam parte da infância daciência das Relações Internacionais, representando uma fase do processo científico na qualas teorias tendem, naturalmente, à prescrição em detrimento da análise propriamente dita.Nesse sentido, a grande contribuição de Carr foi ter chamado a atenção para o fato de os56 KEGLEY, Charles W.; WITTKOPF, Eugene R. World Politics : Trend and Transformation. New York:St. Martin’s Press, 1997. p. 23 -24.57 THOMPSON, Kenneth W. Masters of International Thought: Major Twentieth-Century Theorists andthe World Crisis . Baton Rouge: Louisiana State University Press, 1990. p. 31.58 NIEBUHR,Reinhold. Moral Man and Immoral Society. New York: Charles Scribner’s Sons, 1960.59 Profunda e erudita discussão sobre a atualidade do pensamento de Kant no âmbito das RelaçõesInternacionais encontra -se em: ROHDEN, Valério (Coord.). Kant e a instituição da paz. Porto Alegre:UFRGS, Goethe-Institut/ICBA, 1997.
  33. 33. 33liberais terem fracassado nas Relações Internacionais justamente por não terem levado emconsideração a fundamental dimensão da luta pelo poder. O desfecho da Segunda Guerra Mundial, evidentemente, corroborou a tese Realistade Edward Carr. Encerradas as hostilidades no campo de batalha, verificou-se que osistema internacional havia sofrido profunda transformação. O sistema de estruturamultipolar estabelecido pelo Congresso de Viena (que a Paz de Versalhes havia tentadorecuperar, após o impacto da Primeira Guerra Mundial), havia sido substituído por umsistema bipolar, cujos pólos eram os Estados Unidos e a União Soviética. Devido à guerrainiciada pelos próprios europeus, a Europa achava -se prostrada, dividida e ocupada, física eeconomicamente, pelas duas grandes potências vencedoras. A l ta pelo poder levara os uEstados europeus a uma situação de crise e à guerra, determinando radical transformaçãono mundo. No que diz respeito à percepção da evolução do sistema internacional, a situação,nos Estados Unidos, também mudara significativamente. Até o início da Segunda Guerra,prevaleceu o consenso isolacionista. Isto é, a política externa norte-americana foraorientada pelos princípios legados pelos “Pais Fundadores da República”, segundo os quais,os Estados Unidos não deviam se envolver com os assuntos políticos europeus, tampoucofazer alianças com os países do velho continente. Esse foi o consenso que derrotou aproposta universalista de Woodrow Wilson, recusando inclusive , a participação do país naSociedade das Nações. A guerra comercial ocorrida no início dos anos trinta; a subseqüente radicalizaçãodo quadro político internacional; e, enfim, a guerra propriamente dita produziram aformação do novo consenso universalista. Por outras palavras, a perspectiva Liberal dasrelações internacionais foi substituída pela perspectiva Realista. Conforme o novoconsenso, a política internacional dos Estados Unidos devia ser de molde a defender osinteresses norte-americanos onde quer que eles estivessem. Na prática, isso representou ototal envolvimento com os problemas do mundo, desde as questões internacionais maisgerais até aos problemas nacionais dos demais Estados que compõem o sistemainternacional. No mesmo contexto, foi reformulado o conceito de segurança nacional. Uma vezeliminado o inimigo nazista, passava-se a combater o comunismo soviético. Por achar que
  34. 34. 34o mundo estava ameaçado pela vontade expansionista soviética, as elites norte-americanasacreditavam ser seu dever pôr todo o poderio do Estado a serviço do denominado “mundolivre”. D por diante, os formuladores norte-americanos passaram a perceber o mundo aícomo um grande tabuleiro de xadrez, no qual as peças de cor igual à sua deviam estar todassubordinadas ao seu grande objetivo de cercar, isolar e destruir o Estado soviético. No plano intelectual, a escola Realista estava, em boa medida, representada porintelectuais de origem européia, que emigraram para os Estados Unidos, levando, consigo,a herança teórica da Razão de Estado. Dentre eles, destacam-se nomes como Nicholas J.Spykman, 60 Arnold Wolfers, 61 John H. Herz, 62 Karl Deutsch, 63 Stanley Hoffmann,64George Liska 65 e Henry Kissinger. 66 O teórico mais influente dentre todos, porém, é Hans J. Morgenthau, que, como osdemais, saiu da Alemanha para os Estados Unidos, tendo passado, antes, pela Espanha, emvirtude das perseguições nazistas aos judeus. Uma vez nos Estados Unidos, Morgenthauescreveu extensa obra, cujo livro principal é Politics Among Nations, consagrado como oclássico do Realismo contemporâneo. 67 Nele, o autor apresenta os seis princípios a partirdos quais se torna possível chegar ao conhecimento das relações internacionais:60 SPYKMAN, Nicholas J. America’s Strategy in World Politics. New York: Harcourt, Brace, 1942.61 WOLFERS Arnold. Alliance Policy in the Cold War. Baltimore : John Hopkins University Press, 1959.62 HERZ, John H. Political Realism and Political Idealism: A Study in Theories and Realities. Chicago:University of Chicago Press, 1951. ______. The Nation -State and the Crisis of World Politics : Essays on International Politics in the 20thCentury. New York: David McKay, 1976.63 DEUTSCH, Karl Wolfgang. Análise das Relações Internacionais. Brasília : UNB, 1978.64 HOFFMANN, Stanley. Gulliver’s Troubles: Or, the Setting of American Foreign Policy. New York:McGraw-Hill, 1968. ______. Janus and Minerva: Essays in the Theory and Practice of International Relations. Colorado:Westview Press, 1987. ______. World Disorders. Oxford: Rowman Littlefield, 1998.65 LISKA, George. Nações em Aliança. Rio de Janeiro:, Zahar Ed., 1965. ______. Alliances and the Third World Baltimore : John Hopkisn University Press, 1968. . ______. The Ways of Power: Patterns and Meanings in World Politics. Oxford: Basil Blackwell, 1990.66 KISSINGER, Henry. Nuclear Weapons and Foreign Policy. New York: Harper, 1957. ______. A World Restored: Metternich, Castlereagh and the Problems of Peace 1812-1822. London:Weidenfeld & Nicolson, 1957. ______. Diplomacia. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1999.67 MORGENTHAU, Hans. Politics Among Nations : The Sttrugle for Power and Peace. New York: AlfredKnopf, 1948 . ______. Scientific Man vs. Power Politics. Chicago: University of Chicago Press, 1946. ______. Defense of the Nationsl Interest. New York: Alfred Knopf, 1951. ______. Principles and Problems of International Politics. New York: Alfred Knopf, 1951. ______ . Dilemmas of Politics. Chicago: University of Chicago Press, 1958. ______ . The Purpose of American Politics . New York: Alfred Knopf, 1960.
  35. 35. 351) O Realismo acredita na objetividade das leis da política, que são determinadas pelanatureza humana, que, por sua vez, não sofre as variações de tempo e de lugar. Emqualquer tempo e lugar, o comportamento político é sempre orientado pela busca darealização dos interesses;2) O “interesse definido em termos de poder” constitui o conceito fundamental da políticainternacional. Esse conceito distingue a política da economia, da ética, da estética e dareligião, além de permitir a análise racional do comportamento político dos governantes;3) Os interesses variam segundo o tempo e o lugar. Eles exprimem o contexto político ecultural a partir do qual são formulados. A transformação do mundo resulta da manipulaçãopolítica dos interesses;4) A política internacional possui suas próprias leis morais, que não se confundem comaquelas que regem o comportamento do cidadão. A ética política do governante não deveser avaliada conforme as leis abstratas universais, mas sim, a partir das responsabilidadesque o governante tem para com o povo que representa;5) O Realismo recusa a idéia de que uma determinada nação possa revestir suas própriasaspirações e ações com fins morais e universais. A idéia messiânica que “Deus estáconosco” é perigosa por conduzir às guerras. A paz só pode existir como resultado danegociação dos diferentes interesses dos Estados;6) A grande virtude do Realismo está no reconhecimento de que a esfera política éindependente das demais esferas que compõem a vida do homem em sociedade. Ao abordara política, nos seus próprios termos, o Realismo cria as condições para o corretoentendimento da política. Fora dos Estados Unidos, o Realismo, nas Relações Internacionais, foi enriquecido,a partir de 1962, com a obra de Raymond Aron (1905 – 1983), Paz e Guerra entre asNações.68 No texto intitulado Que é uma Teoria das Relações Internacionais?,69 publicado, ______. Politics in the Twentieth Century. Chicago:Chicago University Press, 1962. ______. Vietnam and the United States. Washington: D. C., Public Affairs Press, 1965. ______. A New Foreign Policy for the United States. New York: F. ª Praeger, for the Council on ForeignRelations, 1969. ______. Truth and Power. New York: F. ª Praeger, 1970 . ______. Science: Servant or Matter? New York: New American Library, 1972. ______. Truth and Tragedy : A Tribute to Hans Morgenthau. Washington : Kenneth W. Thompson andRobert J. Myers, 1977.68 ARON, Raymond. Paz e Guerra entre as Nações. Brasília: UNB, 1979.69 ______. Ensaios Políticos. Brasília: UNB, 1980. p. 317-335.

×