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O Guitarrista RadianteTraduzido por Felipe Marcarini e Seiti Alencar.O Red Hot Chili Peppers original – com seu guitarrist...
intimadora sequência da tradição de Syd Barret e Skip Spence, um pedaço desonho de fim de semana, onde tudo se perde, incl...
os guitarristas rápidos quando eu era um garoto. E acho que cresci com umaconcepção errada (o que é perfeitamente normal p...
tinham a ver comigo como um ser humano e minhas filosofias que estavamtrocando de pólos. Eu passei por essa mudança como p...
musicais de uma banda em particular, mas éramos capazes de fazer algooriginal com aquilo, pois era como uma porta para o i...
quase sem tocar guitarra por uns 4 anos, minha tocabilidade estava bemdiferente. Sem aquela técnica eu não sabia como exec...
alguma razão isso mais encoraja a originalidade do que a sufoca. Então pramim, trabalhar em um grupo pop como o Chili Pepp...
ser o termo que você usou. Eu chamo isso apenas de “som organizado”, sabe?Essa é a qualidade essencial da música: você peg...
músicas como “Death Disco”, mas de alguma forma, alguma coisa estavalevando as pessoas para o lado errado, certo?JF: Sim, ...
maneira diferente.DT: OK, eu tenho mais uma questão direcionada para você. Eu sei quevocê fez cover de “Ride into the Sun”...
aquilo ir. Esses dois primeiros álbuns solo foram uma coisa muito natural, eeram muito significativos para mim e meus amig...
Acho que é um dos raros momentos em uma gravação de um artista que elerealmente olha para frente e faz músicas claramente ...
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John frusciante concedeu entrevista à david todd para o livro

  1. 1. John Frusciante concedeu entrevista à David Todd para o livro FeedingBack: Conversations with Alternative Guitarists from Proto-Punk to Post-Rock (Feeding Back: Conversas com Guitarristas Alternativos do Proto-Punk ao Post-Rock), lançado no dia 1º de junho, e que contém 25entrevistas com guitarristas que não tem medo de empurrar os limites,serem ousados, quebrarem as regras, e arrumarem novas invenções einovações.Naturalmente, John Frusciante é uma dessas pessoas e seu capítulo éentitulado The Radiant Guitarist (O Guitarrista Radiante).A entrevista foi realizada aproximadamente na segunda metade de 2009, oque faz ser a entrevista mais recente de John.Postamos uma pequena parte da entrevista com o título de “Os anti-heróis daguitarra” e postamos também uma declaração de David Todd sobre Johnseguido de mais uma parte da entrevista traduzida. Confira abaixo a entrevistacompleta em português.
  2. 2. O Guitarrista RadianteTraduzido por Felipe Marcarini e Seiti Alencar.O Red Hot Chili Peppers original – com seu guitarrista de fundação, o vital HillelSlovak –colocou broches do P-Funk em camisas do Gang of Four, arrasandoLos Angeles tocando “Get Up And Jump” com meias nos paus. Depois de trêsálbuns e o lamentável falecimento de Hillel, um segundo RHCP emergiu em1989 com o adolescente John Frusciante (nascido em 1970) que, com suaqueda por Zappa, chegou com criações tão maneiras que até o vocalistainclinado pro rap Anthony Kiedis começou a cantar. Depois de Mother’s Milkem 1989, a banda passou por grandes momentos com Blood Sugar Sex Magik,de 1991, com hits como “Under the Bridge” que inspirou milhões de (hojebanalizadas) tatuagens de asteriscos. Apesar do aparente prazer de estartocando com o baixista Flea em sua banda favorita, as notícias queapareceram em 1992 foram que Frusciante tinha deixado os Peppers no meioda turnê, falando para seus empresários que “digam que enlouqueci”.Frusciante reapareceu em 1994 com um disco louco chamado Niandra Ladesand Usually Just a T-Shirt, dois álbuns hipoteticamente gravadosseparadamente, indo diretamente da psique ao gravador. Dos sete milhões quecompraram Blood Sugar, apenas quinze mil seguiram o co-escritor de“Breaking the Girl” em sua jornada solo, o que acharam uma arrepiante e
  3. 3. intimadora sequência da tradição de Syd Barret e Skip Spence, um pedaço desonho de fim de semana, onde tudo se perde, inclusive a música. Depois dacontagem inicial de “As Can Be”, a guitarra de Frusciante coloca o ouvinte numtubo PVC, num ambiente de nevoeiro em “My Smile is a Rifle”, entãodespencando no piano em “Curtains”. Além disso, “Untitled #8” tem a oscilantequalidade de ser uma construção de algo – de como alguém conseguesaudavelmente adentrar num pedaço de música, o que a música é, com umrara e impura inspiração. Não machuca saber que Frusciante era um guitarristaespetacular, mas isso ajudou todos a sentirem-no, como ele admite nestaentrevista, juntando toda a teoria aprendeu e “jogando tudo pela janela”, comose o álbum fosse um ato de arremessar. Mesmo as melhores instrumentais,como “Untitled #2” são retorcidas pelas guitarras ao contrário, a marca doálbum, sempre com um efeito atormentador.Antes pensado ter sido gravado na época do vício bem público de Fruscianteem heroína, Niandra foi feito no mesmo período lúcido de Blood Sugar. Assim,não pareceu que ele precisava estar fora de si para fazer um álbum, mas talvezprecisava para lançá-lo, pois todo o resto da cena musical estava tão racionalque sua visão libertadora poderia ser depreciada por comparações (como elerealmente fez depois, ao lançar Smile From the Streets You Hold de 1997, quecomo ele diz, “assustou as pessoas”). Desde seu retorno aos Peppers em 1998e/ou os deixando novamente após onze anos, ele vem sendo infalivelmenteprodutivo, lançando seis álbuns em 2004 sozinho, mas nunca fazendo algo tãoarrebatador como Niandra novamente. Ainda apesar de seu minúsculo campode trabalho, esse é o álbum que apenas John Frusciante poderia ter feito – queé, merda-vindo-da-estrada-do-espaço-e-do-tempo – porque é mais que umálbum, realmente; parece mais um desses filmes de ficção científica em queum ser inteiro é preso num lençol de plástico.Como se sabe, Frusciante quis lançar Niandra como uma viagem ficcional deácido dos anos 60, mas acidentalmente ou não, ele é uma dessascontemporaneidades que poderia ter estado nessa “época de ouro” da guitarra,que poderia ter tocado o refrão de “So Long Eric” de Mingus e Dolphin outocado um solo em “Autobahn”, do Kraftwerk. Como um grande andarilho, ele éuma enciclopédia ambulante de acordes obscuros e teorias harmônicas, comuma necessidade por novidades que ele aplica a projetos desde batidasafricanas de seu Swahili Blonde até as visitas ao PIL com seu grupo Ataxia.Muitos músicos vão do “mais-é-mais” ao “menos-é-mais” até chegar à ré, masJohn Frusciante com certeza irá fazer acontecer novamente.David Todd: No passado você falou sobre "anti-heróis" da guitarra. O quevocê quer dizer com isso?John Frusciante: Bem, eu cresci me dedicando à guitarra, então estudei todos
  4. 4. os guitarristas rápidos quando eu era um garoto. E acho que cresci com umaconcepção errada (o que é perfeitamente normal para uma pessoa que tocaqualquer instrumento, especialmente a guitarra) em que o ato físico de tocartinha uma importância sobre o instrumento muito maior do que deveria ter. Éuma coisa complexa, fazer música, e eu sinto que quando os guitarristasrápidos se tornam realmente bons nisso, muitas vezes perdem de vista o fatode que as notas mais simples e lentas, justamente por cair em um lugarestranho, podem criar vários tipos de espaços com os outros instrumentos. Aspessoas tem os seus truques que fazem (eles tem suas pequenas técnicas eriffs) e acabam se esquecendo de formatar a música em algo que retrata umdesenho com energia, um desenho dentro do som que desperta todos essessentimentos dentro de você. Com guitarristas rápidos a coisa gira mais emtorno de uma demonstração de algo.Então, você sabe, eu perdi o interesse nisso quando era um adolescente, e metornei fascinado por pessoas como o guitarrista do B-52s (Ricky Wilson). Eucomecei a achar mais sentido em pessoas que tocavam de maneira maissimples, porque essas pessoas pareciam ter uma melhor compreensão dacomplexidade disso, sabe? Muitas das pessoas que são muito boastecnicamente não dão esse mesmo tipo de atenção para cada nota. Pessoasse prendem em padrões estando em alta velocidade, quando deveriamrealmente ter um pensamento musical limpo - é o tipo de pensamento musicalque faz uma melodia funcionar - nosso cérebro simplesmente não conseguepensar tão rápido assim. Chega certo ponto que você se torna automático.Quando se resume a isso, quando ouço alguém tocando muito rápido, naminha mente isso não soa nem um pouco complicado. O que fazem pessoascomo Mathew Ashman do Bow Wow Wow ou Bernard Summer do Joy Divisionsoa complexo, porque cada nota te leva para uma direção diferente.Eu gosto de todos os tipos de guitarristas, mas são pessoas como as que euacabei de mencionar que realmente me maravilham, e isso por causa das suasideias, por causa do que eles pensam. É porque eles abordaram o instrumentode forma diferente de qualquer outra pessoa. São pessoas como Keith Levenedo PIL e Daniel Ash do Bauhaus que exploram as possibilidades do que vocêpode fazer com a guitarra, considerando que outras pessoas estão apenasexplorando o que você pode fazer fisicamente com a guitarra, e isso não temmais o menor interesse pra mim. Eu tinha interesse nisso quando eu tinha 15anos (risos), mas agora não mais. Isso não me interessa desde que eu tinha 21anos.DT: O que aconteceu quando você tinha 21 anos?JF: Foi quando comecei a realmente me encontrar como guitarrista, porquemuitas coisas aconteceram comigo no mesmo dia, e muitas dessas coisas
  5. 5. tinham a ver comigo como um ser humano e minhas filosofias que estavamtrocando de pólos. Eu passei por essa mudança como pessoa e passei poruma mudança musical também. Obviamente, eu estava caminhado para isso,mas lembro claramente que a maioria da mudança aconteceu em tipo, um dia,sabe?DT: O que você estava ouvindo naquela época?JF: Tom Verlaine. Eu me lembro de estar ouvindo o Marquee Moon(Television) e ter ficado deslumbrado com aquilo. O que ele fez com aquele tipode som que parecia como uma guitarra recortada, a quantidade de beleza eexpressividade que vinha daquilo era realmente excitante pra mim.Me fez lembrar que nenhuma dessas coisas que estão acontecendo nadimensão física tem algum significado, seja o tipo de guitarra que você toca oucomo seus amplificadores estão montados. São apenas as ideias, sabe?Emoção. Eu cresci pensando: "Bem, um guitarrista deve ter um bom equilíbrioentre a técnica e a emoção", e apenas conclui que isso é ridículo! É apenas aemoção, é apenas cor.E me levou tipo, uns 8 anos de devoção à guitarra pra concluir isso! (risos). Eumeio que sabia disso quando comecei a tocar, mas aí fui gradualmenteesquecendo, e quando eu percebi isso de novo, me acertou como umatonelada de tijolos.DT: Isso parece responder a algumas pessoas com quem você estevefalando que perguntaram questões musicais e que foram efetivamentedeixadas sem resposta. Era isso que você tinha em mente com o Ataxia,pegar algo que alguém se esqueceu?JF: Sim. Nós todos amamos Public Image e sentimos que a música delesaponta para várias possibilidades. E as vezes eu fico maravilhado com isso,quando uma banda ou um guitarrista aponta algo para um estilo do mesmojeito que, para mim, Jimi Hendrix tocando apontava certas possibilidades. E ficochocado que as pessoas não se ligam nisso. Tivemos tantas pessoas tentandoimitar Jimi Hendrix, mas eu não entendo por que as pessoas não constroemessas idéias que parecem revolucionárias e abrem caminho para a música.DT: Ataxia foi também uma meneira de pegar algo de você próprio, eupenso.JF: Com os álbuns do Ataxia, nosso ponto de partida foi o PIL, tipo, “vamosfazer algo baseado em linhas de baixo e guitarras exploratórias e bateriasexploratórias”. E foi apenas uma idéia simples baseada nos elementos
  6. 6. musicais de uma banda em particular, mas éramos capazes de fazer algooriginal com aquilo, pois era como uma porta para o infinito para nós. Nós nãoestávamos copiando as músicas deles – eles apenas abriram uma porta epassamos por esta porta e tocamos do nosso próprio jeito, sabe? Comoquando alguém como Eric Clapton aparece com um estilo baseado no bluesnos anos 60, e que as pessoas ainda adentram essa porta. Muita gente entrounos anos 60 e 70 e as pessoas ainda fazem isso, mas com alguém como KeithLevene...ninguém caminhou por essa porta. Keith Levene disse, “Aqui, esse éum novo jeito de olhar para o infinito” e ninguém passou por essa.Muita gente nem nota que alguém abriu uma porta para elas. Suas mentes sãotão focadas em fazer algo que é legal, ou parecer que não estão se esforçandodemais. Músicos se colocam nesses buracos enquanto há muita coisa dopassado para se explorar.DT: É bom quando as pessoas combinam essas escolas de guitarristas,na sua visão? Mesmo que seja até raro?JF: É legal quando você tem esses caras que fazem coisas que são bemdifíceis de tocar, mas que ainda tenham a qualidade que é o grande cuidadocom cada nota. Eu coloco Curt [Kirkwood] do Meat Puppets nessa categoria.Ele faz várias coisas rápidas e extravagantes, mas cada nota tem sentido,então ele é diferente de cada pessoa que consideram rápidos. Vini Reilly [doDurutti Column] é outro; ele tem conceitos harmônicos espetaculares e cadaum troca de sentido quando o favorece.Mas eu ia dizer que até eu tenho esses sentimentos, eu amo todos os tipos deguitarristas. E eu deveria apontar que não há nada melhor que a simplicidadepor sua própria causa. Gosto muito de rock progressivo, mas para mim não hánada sobre tornar complicado mas sim tentar ser inventivo e aproximar amúsica a um novo ponto. Bandas como King Crimson e Genesis, esse tipo demúsica não é apenas extravagante; você não tem a impressão de que alguémestá tentando te impressionar, eles estão tentando explorar idéias musicais quevocê não consegue explorar se não tiver técnicas.DT: Em geral, os anti-heróis da guitarra podem ser mais guiados peloinstinto, com menos teoria do que alguém como você. Você acha quenaquele período, quando você tinha 21 anos, foi quando seu instinto eteoria se encontraram?JF: Sim! Naquela época, eu achei que era porque eu não estava maispensando tanto em termos de teoria - mas eu estava. Era simplesmente...comono meu primeiro disco solo, na minha mente eu estava jogando tudo pelajanela...Jogando fora toda técnica e teoria. Mas depois daquilo, quando fiquei
  7. 7. quase sem tocar guitarra por uns 4 anos, minha tocabilidade estava bemdiferente. Sem aquela técnica eu não sabia como executar tão bem quantoantes.Eu não tenho tanto embasamento de teoria assim, mas o que eu aprendi euaplico, então tenho um vocabulário da relação entre melodia e ritmo. E isso étudo o que é a teoria: símbolos que te ajudam a identificar essas relações. Emcerto estágio, uma pessoa pode perceber essas relações apenas tocandomuito a guitarra e identificando elas como formatos e desenhos no braço daguitarra. Mas eu reparei que para essas pessoas, leva um grande tempo paraque possam encontrar uma melodia. Se os guitarristas não tivessem a teoria,por exemplo, levaria um tempo até que possam achar quais notas eles podemtocar, considerando que alguém que praticou as escalas sabe imediatamentequais notas aplicar. Então, pra mim, a teoria sempre abriu as possibilidades,chegando a entrar em uma sala e só de ouvir um som eu sei exatamente paraonde ir na guitarra. Eu tenho tempos melhores tocando porque tenho umavariedade de cores que eu posso trazer à mesa.Pra mim faz sentido que tantas pessoas recorrem à parte física de ser umguitarrista. As pessoas querem fazer algo que elas possam conceber, sabe?Tipo “Oh, eu vou praticar escalas o dia inteiro e estarei apto a tocar muitorápido para impressionar as pessoas”. É um jeito realmente claro e seguro deaprender alguma coisa. Mas quando você realmente começa a ficar fascinadocom o que pode transformar algo tão simples como uma música dos Beatles(examinando de fato as letras, ritmo, melodias e acordes) em algo tãocomplexo, de alguma maneira há um entendimento de que aquilo é menosintimidador, sabe? Pra mim, a única coisa que torna a música não intimidadoraé a habilidade de desconstruí-la.DT: Entendo o que você quer dizer quando você diz que não estudouteoria extensivamente, mas comparado com a maioria dos músicos derock você traz as coisas à tona facilmente. Embora seja óbvio o quanto doseu tocar venha do seu interior, esse conhecimento teórico alguma vez játe levou a uma abordagem mais formal?JF: Não, pra eu conseguir desfrutar do fazer música, tem que gerar umaexcitação em mim, e o formalismo em si não me gera nenhuma excitação. Porexemplo, eu não sinto que o caminho para fazer a maioria das músicas livresseja através de formatos musicais que não tenham limites, como se você nãoestabelecesse um tempo e não estabelecesse uma chave.Eu sinto que muitas vezes a música que pode ser mais libertadora é a músicaque tem um monte de limitações sobre ela. Todo tipo de música - de sonatas àacid house à drum and bass – têm realmente parâmetros rigorosos, e por
  8. 8. alguma razão isso mais encoraja a originalidade do que a sufoca. Então pramim, trabalhar em um grupo pop como o Chili Peppers, trabalhandobasicamente com o formato de música pop, eu fiz tudo que poderia para meinfiltrar naquilo com ideias musicais que eram excitantes pra mim, sabe? Maseu perdi o interesse nisso neste momento. Faz alguns anos agora que nãotenho nenhum interesse em escrever esses tipos de músicas. Eu sinto que fizalgumas coisas interessantes dentro desses parâmetros, mas tenho maisinteresse em explorar coisas diferentes.DT: Apenas para esclarecer, quando você se infiltra neste formato demúsica pop, como você disse, isso cria qualquer significado - tipo, por amúsica atingir a audiência de forma diferente?JF: Não, não, não. Há certas progressões de acordes que eu gosto de modularde um certo jeito, ou tem algumas batidas que eu gosto quando certas bateriascaem em um certo clima, mas não é como se eles tivessem algum valor nelespróprios. A batida por si poderia ser tocada realmente mal, aquela modulaçãopoderia soar terrivelmente - é tudo sobre a pessoa que está fazendo aquilo.Meu conhecimento sobre essas coisas vêm do fato que eu sou uma pessoaque gosta de entender as coisas, e porque eu sou obsessivo, sabe? (risos)Mas o meu conhecimento sobre essas coisas não tem nenhum valor musical;minha música é o que é porque eu sou quem eu sou e vivi a vida do jeito queeu a vivi. Meu senso de melodia é o meu senso de melodia.Mesmo quando percebi aquelas coisas aos 21 anos, não é como se euestivesse pensando naquilo enquanto eu estava tocando, mas vim com tiposde música drasticamente diferentes por causa dessas coisas que eu percebi.Digo, não é por sorte que eu componho boas partes de guitarra, é porque eutenho combinações o suficiente de símbolos e idéias musicais nadando emminha mente para onde as partes podem ser geradas através dessasreferências. E essas coordenadas onde a palavra se encontra com ummomento musical, e a palavra se encontra com a nota, e essas duas coisas seencontram com o ritmo onde aquela palavra se encaixa, é daí que vem overdadeiro significado.DT: Faz sentido. Acho que essa é uma das forças da sua música, quevocê consegue fazer muito com a técnica sem se distanciar de umaaproximação intuitiva e emocional.JF: Bem, mas o que você quer dizer com emocional? Tipo, se você estádizendo que há algo além da emoção entrando na música...Como alguma coisadisso não é emocional? Eu suponho que tudo seja emocional em certo ponto,mas o que quero dizer é o que você estava dizendo antes das idéias de ummúsico, a maneira de como os pensamentos aparecem. “Idéias músicas” deve
  9. 9. ser o termo que você usou. Eu chamo isso apenas de “som organizado”, sabe?Essa é a qualidade essencial da música: você pega o som e então o organizacom a sua mente.DT: Mas, digo, a palavra “organizado” soa mais conscientizado do queimaginado ou criado, por um momento. E isso não é uma coisa ruim, naminha opinião.JF: Mas essa organização, você ainda conseguiria fazer sem ter sua emoçãopor trás disso? Não estou dizendo emoções como alguém chorando ou alguémrindo, mas como um senso intuitivo que te diz “Essa nota significa algo”. E euacho que isso é uma resposta emocional, pois você sente que a nota queentrou aqui faz sentido, e a outra que entrou ali não faz. Não é uma emoçãoevidente e clara, mas sinto como se fosse uma resposta emocional.Mas o que você diz quando fala que a música poderia ser outra com a emoçãoa guiando? Porque eu não consigo pensar em nada quando sinto que umapessoa não está excitada ao explorar o que quer que ela esteja explorando, eisso é emoção.DT: Bem, eu ouvi você dizer que não entende o jeito em que os músicospensam ao ouvir as próprias músicas.JF: Sim.DT: É disso que estou falando. Eu sei que você pode dizer que entendemúsica o bastante para reconhecer as escolhas deles. Mas para um não-músico parece que a pessoa escolhe um som organizado, você temvislumbres do ponto de vista deles. Você tem essa perspectiva,basicamente. É como você disse sobre PIL anteriormente. Você disseque, como músico, você achou o que eles fizeram interessante?JF: Sim.DT: Então minha pergunta é, para uma pessoa que afirma não entender amúsica num sentido teórico, o que foi tão alienante sobre eles, então? PILtem o mesmo vocalista que os Sex Pistols e muita gente entrou nessaporta, por assim dizer, mas como você disse, apenas alguns entraram naporta do PIL. Pra mim isso tem algo a ver com o que eles estavamfazendo anteriormente, como no Sex Pistols que a atitude era punk, mas amúsica era mais próxima do rock antigo fora de moda, enquanto PIL tinhamúsicas mais desafiadoras para o público, entretanto, pelo menossuperficialmente, o vocalista abaixou seu tom. Da maneira que eu vejo,esse é um grande motivo de como o PIL infiltrou formas pops com
  10. 10. músicas como “Death Disco”, mas de alguma forma, alguma coisa estavalevando as pessoas para o lado errado, certo?JF: Sim, alguma coisa definitivamente foi. Muita gente os odeiam. Eles são umdesses grupos em que você tem um amigo que se você tocar ao lado dele, elevai dizer que são os melhores, e que se você tocar ao lado de outro amigo, elevai dizer “Por favor, nunca toque isso perto de mim” (risos). Foi sempre nessecaminho com Captain Beefheart; algumas pessoas conectam (essa música)com o lado certo e outras pessoas realmente odeiam.Mas eu acho que músicos não deveriam nem pensar em ter esse tipo dereação. Acho que as pessoas devem ir para a direção que os interessem. Achovergonhoso fazer coisas baseadas no que as pessoas vão seguir.DT: É possível ignorar essas coisas, entretanto, num sentido absoluto?Você já experimentou isso?JF: Isso é como você estar em uma situação numa banda onde uma pessoanão consegue tocar algumas coisas em um momento particular, então vocêdesiste daquilo. Tipo, eu penso de várias formas, no Chili Peppers tinhamessas quatro pessoas muito diferentes e que cada um podia fazer uma coisaem que os outros podiam acompanhar, então o resultado final foi que o quefizemos foi totalmente compreensível para um monte de gente. Mas para mim,isso estava tanto no contexto da banda como no contexto individual, eu gostomuito de explorar várias possibilidades, de vários os ângulos. Sabe, eu fiztoneladas de músicas que nem lancei ainda. Eu já passei por fases que aspessoas nem sabem, pois eu tento direcionar a música para diferentesdireções. E sinto que pessoas que são capazes de fazer isso, como MilesDavis ou David Bowie, podem se transformar completamente antes do públicover e não estar aí para o que o público irá pensar, esse é o real objetivo. E paramuita gente, isso é difícil de fazer.DT: Claro, eu entendo aonde você quer chegar. E aliás, quero que vocêsaiba que eu não estava te provocando naquela questão sobre emoção.JF: Não, eu não pensei que você estava usando argumentos contra mim. Nãoquero que você pense que estou usando argumentos contra você. Foi apenasuma discussão. Eu estava tentando redefinir emoção, porque quando muitagente diz emoção, eles querem dizer sobre essas formas banalizadas de atingiras pessoas com a música. Mas o meu ponto é que, mesmo com gente comoIannis Xenakis, ainda há emoção na música. É porque ele estava excitado ehavia um sentido por trás das escolhas precisas que ele fez. Acho que isso nãopoderia ser nada mais do que uma decisão emocional. Então sim, acho queentendo o que você quer dizer, mas só estava expressando isso de uma
  11. 11. maneira diferente.DT: OK, eu tenho mais uma questão direcionada para você. Eu sei quevocê fez cover de “Ride into the Sun”, do Lou Reed, e eu me lembro daprimeira vez que ouvi a música original com Steve Howe na guitarra,achei que soou parecido com você.JF: Essa não é a original, na verdade. Ele fez a original no VelvetUnderground.DT: Digo na versão do primeiro álbum solo do Lou Reed.JF: Sim, essa foi o primeiro lançamento adequado da música (risos).DT: Bem, enfim. Você fez covers de várias músicas, mas tem alguma queseja especificamente significante para você?JF: Meu pai tinha o álbum Fragile na prateleira quando eu era criança, entãoeu estava ouvindo Yes quando eu tinha tipo uns 7 anos, então ouvi SteveHowe e gostei dele. E sim, eu amo ele tocando no primeiro álbum solo do LouReed. Mas por alguma razão, a progressão de acordes em que é baseada amúsica “Ride Into the Sun” é muito significante pra mim. Tem alguma coisa natonalidade daquela música que eu identifiquei como um excelente negócio.Eu não tenho idéia do porquê, mas tem certas progressões básicas de acordesque foram usadas um milhão de vezes, e o que conta completamente é a suainterpretação sobre elas - nunca soa como a mesma música, sabe?. Eu sentivárias vezes na minha vida, especialmente no período em que não estivefazendo música, eu enxerguei claramente que é o meu trabalho como músicoexplorar as possibilidades inerentes em certas progressões de acordes ouclimas harmônicos, e essa é realmente uma maneira limitada para se estarpensando, o que é a provável razão por eu ter pensado muito mais nissoquando eu não estava fazendo música, do que quando eu estava (risos).DT: Minha outra pergunta direcionada é sobre o Niandra Lades. Eu ouvidizerem que de alguma maneira você repudiou este álbum. É verdade?JF: Não. Eu o acho um álbum brilhante, eu nunca diria uma coisa dessas. Eutirei meu segundo álbum das vendas. E não foi porque eu não gostava dele, foiporque aquilo simplesmente assustava demais as pessoas, e naquela épocaeu me via fazendo mais álbuns, então queria começar do zero de novo. Eu nãoqueria que as pessoas tivessem medo de mim (risos). Hoje, não faz nenhumadiferença pra mim o que as pessoas pensam, mas eu ainda não poderia lançaralgo apenas por lançar, sabe? Só lanço algo quando me sinto pronto pra deixar
  12. 12. aquilo ir. Esses dois primeiros álbuns solo foram uma coisa muito natural, eeram muito significativos para mim e meus amigos quando os fiz. Eu os fizdecidido: "Não vou lançar essas músicas", e foi muito chocante, nos doiscasos, como meu sentimento sobre eles mudou como resultado de deixaraquilo entrar na consciência das pessoas. Gradualmente, depois de 20 anosfazendo música para o público, consegui uma relação saudável com as coisas,então sei como não deixar as pessoas pisarem no que eu fiz. Como em meuúltimo álbum, que o lancei algum tempo depois de estar finalizado, porque euestava me divertindo sentando com meus amigos e ouvindo aquilo. Não queroabandonar isso, então quando tudo parece correr bem, é hora de deixar outraspessoas terem contato com isso.Mas, sabe? Isso acontece com várias pessoas, como Captain Beefheart, queentrou numa direção louca quando fez aqueles discos pobres, diretos ecomerciais e eu me lembro que a frase era que ele estava cansado de assustaras pessoas, sabe? E, infelizmente, isso faz parte do ser humano. Não acho queo artista deve ser guiado pela opinião do público, acho que expressar o quetem que ser expressado deveria ser nosso dever. Mas é algo que eu lutocontra, pois a diferença entre fazer música pra você e fazer música com opropósito de lançar é que o público adiciona esse nível de intensidade, essesentimento de vida-ou-morte que você não teria se estivesse sentado no seuquarto. Mas acho que, em geral, se você pensa na música como uma entidadeviva, as coisas que deveriam fazer haver uma motivação e um crescimento - sepensarmos na música como forma artística de amadurecer - serão internas obastante para lidarem com a sua própria relação com a força criativa douniverso e, assim, acaba não havendo nada para se fazer quanto ao que aspessoas irão pensar.DT: Se alguém me dissesse que música tem a ver com relação com aforça criativa do universo, não conseguiria acreditar neles tão rápido. Masacho que Niandra se baseia nisso.JF: Bem, minha experiência de fazer esse álbum foi bastante cósmica, sabe?Um monte de merda louca aconteceu comigo durante o processo de criação e,psiquicamente, muitas dessas coisas eram impossíveis, incompreensíveis esupranaturais – eu ouvia meu gato conversando comigo durante uma músicaenquanto eu estava fazendo um solo (risos) – mas, sabe, esse álbum foibastante divertido de fazer. Tudo foi muito automático, apenas um take, semperguntas do tipo “Será que isso ficou bom?”. É apenas uma purarepresentação do tempo da minha vida e de como eu estava vivendo. Asmúsicas não tinham propósito, não tinham objetivo. Então eu acho que aquilofoi uma das coisas mais inventivas que eu já fiz porque eu não tinha objeções.A música era a pura música da vida.
  13. 13. Acho que é um dos raros momentos em uma gravação de um artista que elerealmente olha para frente e faz músicas claramente apenas por fazer. E isso ésimplesmente mágico. É realmente...Sabe, eu tenho respeito por esse álbum.Eu fui acusado dessas coisas antigamente, de não gostar dele, mashonestamente eu acho que gosto dele mais do que as pessoas gostam (risos).Significa muito para mim, mas ao mesmo tempo, eu era capaz de fazer aquilopor causa das circunstâncias.DT: OK. Essa é a última que eu tenho para você e é novamente sobre aidéia dessas tradições da guitarra.Não querendo te categorizar, mas seexistem essas 2 principais "escolas" de guitarristas como a gente esteveconversando - a abordagem virtuosa e a abordagem post-punk, para usartermos reduzidos - você se enxerga fazendo mais parte de um dessesestilos, do que do outro?JF: Definitivamente eu não tenho nenhum interesse em me alinhar como umcerto tipo de guitarrista. Mas isso é algo em que eu penso, e basicamente, eume vejo como alguém que gasta a mesma quantidade de tempo me dedicandoà guitarra quanto um cara como o Steve Vai faria, mas uso esse tempo demaneira completamente diferente: para ter uma boa noção de uma grandevariedade de cores musicais, muitas das quais eu percebi estudando pessoasque tocavam com muito pouca técnica, mas cujos cérebros eram ágeis, cujoscérebros em termos de criatividade estavam exatamente onde você gostaria deestar.Eu estudei esses guitarristas e apliquei isso, então enquanto eu era capaz defazer algo mais baseado nas tradições básicas - você sabe, eu tenhomusculatura nos dedos para tocar como um guitar hero ou coisa do tipo - masao invés de usar minhas habilidades desse jeito, eu tentei fazer coisas maisbaseadas nas abordagens de pessoas que tinham menos técnica. E tenteifazer em mim um estilo coeso, por que é como eu digo, muitas dessas pessoastiveram a sorte de "tropeçar" e fazer aquilo sem estar sabendo o que estavamfazendo, e eles não tem nenhum controle sobre isso, que é o que eu gostosobre isso, mas então eu estava apto para pegar aquilo e dizer “Bem, e se eucruzar a abordagem de Bernard Sumner com a abordagem de Jimmy Page?”Sabe? “E se Jimmy Page tentasse tocar como Bernard Sumner?” (risos).“Como eu poderia tocar em um estilo rítmico, mas sem ser Blues?”Então, sim, acho que sou um tipo de guitarrista estudado que não teve nenhuminteresse em aprender no mesmo sentido que um monte de pessoas o fazem.Eu estava mais interessado em estudar pessoas como Fugazi e Bow WowWow."

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