Vamos lá empobrecer !

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Vamos lá empobrecer !

  1. 1. Este texto é de Isabel do Carmo (médica). E tem toda arazão.O primeiro-ministro anunciou que íamos empobrecer, com aqueledesígnio de falar "verdade", que consiste na banalização do mal,para que nos resignemos mais suavemente. Ao lado, uma espéciede contabilista a nível nacional diz-nos, como é hábito noscontabilistas, que as contas são difíceis de perceber, mas que osnúmeros são crus. Os agiotas batem à porta e eles afinal até sãoamigos dos agiotas. Que não tivéssemos caído na asneira deempenhar os brincos, os anéis e as pulseiras para comprar amáquina de lavar alemã. E agora as jóias não valem nada. Mas ovendedor prometeu-nos que... Não interessa.Vamos empobrecer. Já vivi num país assim. Um país onde os"remediados" só compravam fruta para as crianças e os pomaresestavam rodeados de muros encimados por vidros de garrafapartidos, onde as crianças mais pobres se espetavam, setentassem ir às árvores. Um país onde se ia ao talho comprar um
  2. 2. bife que se pedia "mais tenrinho" para os mais pequenos, ondeconvinha que o peixe não cheirasse "a fénico". Não, não era a"alimentação mediterrânica", nos meios industriais e no interiorisolado, era a sobrevivência.Na terra onde nasci, os operários corticeiros, quando adoeciam oudeixavam de trabalhar vinham para a rua pedir esmola (como é quevão fazer agora os desempregados de "longa" duração, ou seja, aofim de um ano e meio?). Nessa mesma terra deambulavam tambémpela rua os operários e operárias que o sempre branqueado Alfredoda Silva e seus descendentes punham na rua nos "balões" ("Olha,hoje houve um balão na Cuf, coitados!"). Nesse país, os pobresespreitavam pelos portões da quinta dos Patiño e de outros, paraver "como é que elas iam vestidas".Nesse país morriam muitos recém-nascidos e muitas mães duranteo parto e após o parto. Mas havia a "obra das Mães" e fazia-seanualmente "o berço" nos liceus femininos onde se colocavamcamisinhas, casaquinhos e demais enxoval, com laçarotes, tules erendas e o mais premiado e os outros eram entregues a famíliaspobres bem- comportadas (o que incluía, é óbvio, casamento pelaIgreja).Na terra onde nasci e vivi, o hospital estava entregue à Misericórdia.Nesse, como em todos os das Misericórdias, o provedor decidia emabsoluto os desígnios do hospital. Era um senhor rural e arcaico,vestido de samarra, evidentemente não médico, que escolhia nocatálogo os aparelhos de fisioterapia, contratava as religiosas e osmédicos, atendia os pedidos dos administrativos ("Ó senhorprovedor, preciso de comprar sapatos para o meu filho"). As
  3. 3. pessoas iam à "Caixa", que dependia do regime de trabalho (aindahoje quase 40 anos depois muitos pensam que é assim), iam aoshospitais e pagavam de acordo com o escalão. E tudo dependia daAssistência. O nome diz tudo. Andavam desdentadas, os abcessosdentários transformavam-se em grandes massas destinadas aoperação e a serem focos de septicemia, as listas de cirurgia eramarbitrárias. As enfermarias dos hospitais estavam cheias de doentescom cirroses provocadas por muito vinho e pouca proteína. Egeneralizadamente o vinho era barato e uma "boa zurrapa".E todos por todo o lado pediam "um jeitinho", "um empenhozinho","um padrinho", "depois dou-lhe qualquer coisinha", "olhe que noNatal não me esqueço de si" e procuravam "conhecer lá alguém".Na província, alguns, poucos, tinham acesso às primeiras letras (eúltimas) através de regentes escolares, que elas próprias só tinhama quarta classe. Também na província não havia livrarias(abençoadas bibliotecas itinerantes da Gulbenkian), nem teatro,nem cinema.Aos meninos e meninas dos poucos liceus (aquilo é que eramelites!) era recomendado não se darem com os das escolastécnicas. E a uma rapariga do liceu caía muito mal namorar alguémdessa outra casta. Para tratar uma mulher havia um léxicohierárquico: você, ó; tiazinha; senhora (Maria); dona; senhora donae... supremo desígnio - Madame.Os funcionários públicos eram tratados depreciativamente por"mangas-de-alpaca" porque usavam duas meias mangas comelásticos no punho e no cotovelo a proteger as mangas do casaco.
  4. 4. Eu vivi nesse país e não gostei. E com tudo isto, só falei depobreza, não falei de ditadura. É que uma casa bem com a outra. Apobreza generalizada e prolongada necessita de ditadura. Seja emÁfrica, seja na América Latina dos anos 60 e 70 do século XX, sejana China, seja na Birmânia, seja em Portugal

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