Ensaio Pesquisa-Ação
Programa de Iniciação Artística – PIÁ
DEIXA EU SER PIÁ!
Processos criativos em uma criança tímida.
VI...
DEIXA EU SER PIÁ!
Processos criativos em uma criança tímida.
Thâmile Vidiz1
1. INTRODUÇÃO
Há quem diga que o mundo é dos e...
De acordo com Woollams e Brown (1979), quando a mãe não
consegue satisfazer as necessidades de sua própria criança, isto a...
conseguindo inclusive falar em público. A mãe disse que o pai conseguia
compreender o universo introspectivo da criança e ...
3. SOBRE O ANDAR DA CARRUAGEM
Os primeiros meses foram de observação e de pesquisa sobre a
infância, timidez, criatividade...
3. CONCLUSÃO
A criança tímida precisa de muito mais tempo para aproximar-se de
pessoas ou situações que são pouco comuns p...
 
  
REFERÊNCIAS
AXIA, Giovanna. A Timidez – um dote precioso do patrimônio genético
(tradução Silvia Debetto Cabral), São...
Próximos SlideShares
Carregando em…5
×

DEIXA EU SER PIÁ! Processos criativos em uma criança tímida

66 visualizações

Publicada em

Thâmile Vidiz

Publicada em: Educação
0 comentários
0 gostaram
Estatísticas
Notas
  • Seja o primeiro a comentar

  • Seja a primeira pessoa a gostar disto

Sem downloads
Visualizações
Visualizações totais
66
No SlideShare
0
A partir de incorporações
0
Número de incorporações
2
Ações
Compartilhamentos
0
Downloads
0
Comentários
0
Gostaram
0
Incorporações 0
Nenhuma incorporação

Nenhuma nota no slide

DEIXA EU SER PIÁ! Processos criativos em uma criança tímida

  1. 1. Ensaio Pesquisa-Ação Programa de Iniciação Artística – PIÁ DEIXA EU SER PIÁ! Processos criativos em uma criança tímida. VIDIZ, Thâmile Musicista, brincante, contadora de história. Facilitadora de processos criativos em artes integradas. Musicoterapeuta formada pela Universidade Federal de Goiás. Pesquisadora independente de Culturas Tradicionais da Infância. e-mail: thamile.vidiz@gmail.com São Paulo Dezembro, 2015
  2. 2. DEIXA EU SER PIÁ! Processos criativos em uma criança tímida. Thâmile Vidiz1 1. INTRODUÇÃO Há quem diga que o mundo é dos extrovertidos e que a arte é para os espontâneos de plantão. A ludicidade, a alegria e o reconhecimento da bagunça, da desordem e do caos são matéria-prima para os processos criativos na infância. Mas e o contrário disto? E quando a criança se desenvolve em meio a raras manifestações expressivas, ao recuo, ao retirar- se, ao afastar-se de outras crianças para entrar em um mundo de sussurros, silêncios e quietude. De onde viria esta introversão? Qual o papel da relação familiar na negação e apropriação da identidade? Quais os caminhos subjetivos e artísticos presentes na criança introvertida? Como entrar no tempo dela para potencializar o que já existe, mas que de alguma forma se esconde? 2. UM MENINO SOB LENTE DE AUMENTO Introspecção contínua, corpo enrijecido, pavor do erro, expressão verbal e não verbal reduzida, fala sussurrada, insegurança para improvisar, medo de criar, recusa para atividades coletivas. Foram características que eu, Thâmile Vidiz e Kallu Whitaker2 , observamos em Jeferson3 desde nossos primeiros encontros. Segundo Oaklander (1978, p 258): As crianças retraídas são crianças que se reprimem. A definição “retirar ou não se manifestar (uma afirmação, etc.)” é muito apropriada. Em algum ponto do caminho elas aprenderam a manter a boca calada (...). Essas crianças “se fecham”, segurando rigidamente sentimentos e experiências dentro da sua concha. Analisando os contextos de vida da criança, três fatos me chamaram a atenção: a superproteção materna, a timidez paterna e a constante fuga desta criança em relação ao mundo externo aos seus pensamentos.                                                                                                                                                         1  Thâmile Vidiz é graduada em musicoterapia pela Universidade Federal de Goiás, musicista, brincante, contadora de história. Atua como facilitadora de processos criativos em artes integradas desde 2009. Tem uma ampla pesquisa no campo da cultura popular/tradicional, vinculando seu trabalho às brincadeiras, confecção de brinquedos, tradição oral, dentre outros. 2  Dupla de artistas-educadoras do Piá. 3 O nome da criança e da mãe serão fictícios para que a identidade seja preservada.
  3. 3. De acordo com Woollams e Brown (1979), quando a mãe não consegue satisfazer as necessidades de sua própria criança, isto acarreta uma sensibilidade excessiva às necessidades do filho. Assim, a medida que o filho cresce ela continua a fornecer uma série de auxílios, sem ensinar e permitir que ele próprio se cuide. Kertész (1987), define este processo como “Simbiose Primária Não Resolvida”. Para o autor a simbiose passa a ser patológica quando a mãe age superprotegendo um filho que já tem condições de tatear seu próprio desenvolvimento. Ou ainda, quando a mesma impede o rompimento da simbiose natural, que é necessária durante os primeiros meses de vida, se comportando de modo a tornar a criança dependente de suas ações. Muitas características observadas em Jeferson podem surgir como resultado de uma identidade insegura, que ainda se encontra fragmentada em processos simbióticos. Durante meses acompanhando a criança e em diálogos com sua mãe ficou evidente que por ter vivido processos muito doloridos durante a infância Madalena tinha criado um mundo particular e fantasioso para o filho, onde ela seria capaz de protegê-lo não só daquilo que ela mesma tinha sofrido quando pequena, mas de todos os riscos e frustrações que ele pudesse ter contato. Sem se dar conta dos efeitos da privação de riscos no menino, a mãe observava apenas a timidez. Jeferson, privado de viver os próprios erros, desafios, cercado por todo zelo materno se fechava em sua introspecção defensiva e medo de reprovação grupal. Estar sob as vistas de sua mãe lhe permitia segurança. Em vários momentos percebemos que Jeferson ficava recluso dos demais participantes principalmente no início e fim do encontro, quando a mãe o deixava ou estava prestes a busca-lo. Bassoff (1991), afirma que a devoção da mãe superprotetora torna difícil o processo de individuação da criança. Separar-se físico e psicologicamente significa estar em um mundo que nem sempre é afetivo, cuidadoso, mas necessário para que a criança desenvolva sua individualidade. Quando a relação mãe e filho se dá de maneira simbiótica, ambos não conseguem expandir. Sem nunca se darem conta de que podem desenvolver habilidades em si, procurarão em vão, por preenchimento de um vazio, uma lacuna que ficou perdida no próprio desenvolvimento. A formação da identidade, que se dá a partir dos primeiros anos de vida ficará corrompida e cheia de déficits. Para que exista um amadurecimento saudável a criança precisa entender que não está em simbiose com a mãe, como acontecia antes de seu nascimento. Segundo Rufo (2007), passados os primeiros meses de vida a mãe precisa permitir que outros modelos sirvam para desfusionar a criança. Outros papéis, além do materno, irão servir como modelo de identificação até que o filho consiga assumir sua própria identidade. Em nossos encontros com a mãe de Jeferson, Madalena trouxe outro dado importante: o pai da criança sofrera bastante com sua própria timidez, todavia tinha conseguido superar alguns limites que o bloqueavam,
  4. 4. conseguindo inclusive falar em público. A mãe disse que o pai conseguia compreender o universo introspectivo da criança e que afirmava sempre que aquilo não era um problema, visto que ele mesmo tinha convivido com a timidez durante toda vida. Quanto a isto, Marulanda (2001) afirma que a timidez pode ter características de personalidade herdada. E Axia (2003, 15p), esclare: Ser tímido pode ser desvantajoso, é verdade, mas é um fato absolutamente normal, sadio e, sobretudo relativo tanto à cultura, ao lugar, como ao tempo em que a pessoa se encontra. O que não é sadio é a intolerância à timidez: a intolerância alheia e, principalmente a nossa própria intolerância interior. Para os tímidos parece muito difícil gostar da própria timidez – que na realidade é possível de ser amada e profundamente útil. A cultura brasileira ressalta as pessoas extrovertidas, espontâneas, falantes, dadas ao convívio social. Existe difundida também a alusão de que a infância é o momento de pura alegria, correria, falatório. Estes padrões sociais criados geram exclusão de quem não nasce assim, daqueles que não conseguem ou não querem se adequar a eles. Pelos relatos de Madalena, o pai de Jeferson tem muita clareza de que a timidez é uma condição humana particular e que o maior problema se encontra nas comparações sociais que geram intolerância. As próprias crianças do grupo desqualificavam Jeferson, com comentários do tipo: “Ah, esse aí não faz nada!”, “Ele só fica quieto”, “Ele nunca brinca!”. Sem perceberem que toda atividade que a criança tinha interesse era realizada, as vezes sem comunicação verbal, mas era realizada. E mesmo tendo que vencer vários monstros internos ele se esforçava para fazer aquilo que acreditava não ter aptidão. Por inúmeras vezes percebi, principalmente em atividades manuais, que envolviam desenho, pintura, ou construção com sucatas, que Jeferson demorava um bom tempo até se envolver, se protegia em seu mundo interior, mas depois tentava. Insatisfeito com o resultado deixava de lado, rasgava, ficava nervoso, enchia os olhos de água, levantava os ombros, mas depois retomava ao objeto construído. Neste momento, tanto eu quanto Kallu, reforçávamos que o valor que damos às nossas produções é que é primordial. Axia (2003), afirma também que pelo menos três fatores caracterizam a pessoa tímida: o primeiro é esta insegurança diante de determinadas circunstâncias sociais que Jeferson apresenta nitidamente durante as atividades de artes visuais, encenações, atividades de canto, ou seja, tudo se expor diante do grupo; o segundo é a forte consciência de ter medo, porque o medo gera nela sintomas fisiológicos e emotivos – percebi que diante de certas situações a criança ruborizava, enchia os olhos de lágrima, paralisava o corpo, certamente o coração devia estar saltando à boca, o batimento cardíaco acelerava, dentre outros; e o terceiro é o fato dela sentir-se embaraçada ou vergonhosa pelo que está acontecendo – Jeferson nunca falava sobre o que estava sentindo e quando passava por alguma situação embaraçosa, levantava os ombros, a sobrancelha e se esquivava do grupo.
  5. 5. 3. SOBRE O ANDAR DA CARRUAGEM Os primeiros meses foram de observação e de pesquisa sobre a infância, timidez, criatividade na criança tímida. Conversei muito com a mãe durante este período. Percebi que o ambiente novo, o fato da característica grupal ser predominantemente efusiva e as atividades que preponderavam serem correspondentes aos desejos dos outros participantes que expressavam suas vontades – encenações, intervenções na rua, futebol, jogos dramatizados – intimidavam Jeferson e fazia com que ele se afastasse das crianças e de nós, aristas-educadoras que de certa forma também propúnhamos atividades expressivas e de improvisação. Aliado a todo este ambiente que era pertubador para Jeferson ele ainda poderia ver em nós duas figuras de autoridade pelo papel que desempenhamos. Teríamos que criar um ambiente acolhedor, compreender que em algumas atividades a criança não iria interagir e que isto não era um problema e, ainda desmistificar a figura do “educador opressor” que muitas crianças carregam. Depois de muitas tentativas, acertos e erros conseguimos tatear o universo subjetivo da criança, identificando suas habilidades inerentes, os gostos e aquilo que mesmo com a emoção a mil, ele se desafiava fazer. Foi uma experiência de compreensão da singularidade, e percepção de que mesmo que ele ocultasse ali dentro morava uma criança viva, cheia de desejos, saberes e preferências. Descobri que o futebol, que era rotina da turma nos primeiros minutos do encontro, não agradava Jeferson e que neste momento era natural que ele ficasse na periferia do jogo ou escolhesse um livro para ler. Quando ele se afastava da atividade proposta eu convidava, incentivava a participar, mas quando eu percebia que existia uma recusa à integração, ou que a atividade era expositiva demais entendia perfeitamente que naquele momento o mais respeitoso era permitir que ele escolhesse não participar. Todavia, estive atenta e quando via a tentativa por parte dele de se desafiar, o encorajava. Jeferson revelou seu gosto por jogos eletrônicos e interagia bastante quando o mote grupal era em torno deste assunto. Em um dos encontros, criou com a Kallu regras para um Minecraft4 dramatizado e jogou com todo grupo, se expressando, inclusive verbalmente, em todos os momentos. Também é válido ressaltar que as faltas da criança dificultaram o andamento do processo criativo.                                                                                                                                                         4   Minecraft é um jogo eletrônico em que as cenas são todas construídas em blocos. O jogo é dividido entre várias plataformas - Windows, Mac, Linux, Xbox 360, Xbox One, PlayStation 3, PlayStation 4, iOS e Android – criado em 2009 por Markus'Notch Persson.  
  6. 6. 3. CONCLUSÃO A criança tímida precisa de muito mais tempo para aproximar-se de pessoas ou situações que são pouco comuns para elas. É necessário identificar as emoções limitantes ajudando-as a terem respeito pelos próprios limites e pelos erros, olhar com olhos de lupa para habilidades inerente e ajuda-las a conviver com a timidez não como um problema, uma doença e sim como uma característica normal de sua personalidade. Somente depois de entender como a criança tímida vive sua vida, seus temores, conflitos é que foi possível fazer surgir espaço para que Jeferson fosse capaz de olhar para seu potencial de criação e de troca com o grupo. Na timidez, assim como em muitos outros aspectos da nossa vida, o que é realmente importante é a estrada, o tipo de caminho que cada pessoa percorre. (AXIA, 2003) Fundamentada no “Ritmo do encontro”, princípio básico do Piá, pude experimentar o cuidado com a individualidade de Jeferson e com seu tempo. A experiência criativa da criança seguiu de acordo com seu pulsar, ora ativa, ora oculta, mas sempre presente. Descobrir o que dificulta a criança revelar-se enquanto ser brincante, artista, social foi tarefa árdua. Entender que a timidez é uma, entre tantas outras características de Jeferson, possibilitou um olhar para a criança em sua inteireza. No caminhar, a narrativa das construções e desconstruções se revelou. A mãe que tomava o filho com um amor de posse, por querer proteger a criança do mundo hostil em que ela mesma fora criada, conseguiu identificar sua superproteção. Os encontros do Piá serviram para estimular Jeferson a ir em busca do respeito pelo seu próprio tempo, da sua própria maneira de se expressar, de seus silêncios, de sua potência para criar em meio ao suas escolhas, de sua liberdade para experimentar.                    
  7. 7.     REFERÊNCIAS AXIA, Giovanna. A Timidez – um dote precioso do patrimônio genético (tradução Silvia Debetto Cabral), São Paulo: Paulinas: Loyola, 2003, 15p. BASSOF, Evelyn S. Mãe e Filha o eterno reencontro (tradução Maria Silva Mourão Netto), São Paulo: Saraiva, 1994. KERTÉSZ, R. Análise Transacional ao Vivo, São Paulo: Summus Editorial, 1987. MARULANDA, Angela. O desafio de crescer com os filhos (tradução Roseli Schrader Giese) Rio Grande do Sul: Grupo Editorial Norma, 2001. OAKLANDER,, Violet. Descobrindo crianças (tradução de George Schlesinger) São Paulo: Summer, 1978 . 258 p. RUFO, Marcel. Me larga! Separar-se para crescer (tradução Claudia Berliner) São Paulo: WMF Martins Fontes, 2007. WOOLLAMS, S. e BROWN, M., Manual Completo de Análise Transacional (tradução de Otávio Mendes Cajado), Editora Cultrix, São Paulo, 1979.

×