Jornal A Família Católica, 17 edição. outubro 2014

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Jornal A Família Católica, 17 edição. outubro 2014

  1. 1. Primeira Memória Vida de Jacinta Marto Memórias e Cartas da Irmã Lúcia SANTOS E FESTAS DO MÊS: 03– Sta. Teresinha do Menino Jesus; 04– São Francisco de Assis; 06—São Bruno; 07– Nossa Senhora do Rosá- rio; 11– Maternidade da Santíssi- ma Virgem Maria; 12– Nossa Senhora Aparecida; 15– Sta. Teresa de Jesus; 17– Sta. Margarida Maria Alacoque; 18– São Lucas, Evangelista; 19- S. Pedro de Alcântara, padroeiro do Brasil; 23– Sto. Antônio Maria Claret; 24– S. Rafael, Arcanjo; 26– Festa de Cristo Rei; 28– São Simão e São Judas, Apóstolos. N E S T A E D I Ç Ã O : Vida Jacinta Marto 1,2 Quas Primas 3,4 Outubro/ 2014Edição 17 A Família CatólicaC A P E L A N O S S A S E N H O R A D A S A L E G R I A S cadeira, traz-lo para aqui e, de joelhos, dás-lhe três abraços e três beijos: um pelo Francisco, outro por mim, e outro por ti.” “A Nosso Senhor dou todos quantos quiseres.” — E correu a buscar o crucifixo. Beijou-o e abraçou-o com tanta devoção, que nunca mais me esque- ceu aquela ação. (...) Eu conhecia, pois, a Paixão de Nosso Senhor (...), comecei a contar, aos meus companheiros, porme- norizadamente, a história de Nosso Senhor. (...) Ao ouvir contar os sofrimen- tos de Nosso Senhor, a pe- quenina enterneceu-se e chorou. Muitas vezes, depois, pedia para lhe repetir. Chora- va com pena, e dizia: - “Coitadinho de Nosso Se- nhor! Eu não hei de fazer nunca nenhum pecado! Não quero que Nosso Senhor sofra mais!” A pequenita gostava tam- bém muito de ir, à noitinha, (...) ver o lindo pôr do sol e o céu estrelado, que se lhe seguia. (...)Porfiávamos a ver quem era capaz de contar as estrelas, que dizía- mos serem as candeias dos anjos. A Lua era a de Nossa Senhora e o sol a de Nosso Senhor. Pelo que, a Jacinta dizia, às vezes: - “Ainda gosto mais da candeia de Nossa Senhora, que não nos quei- ma nem cega; e a de Nosso Senhor, sim.” Na verdade o sol, ali, em alguns dias de verão, faz-se sentir bem ardente; e a pequenina, como era de compleição muito fraca, sofria muito com o calor. (...) Entretanto, Ex.mo e Rev.mo Senhor Bispo, che- guei à idade em que minha mãe mandava os seus filhos guardar o rebanho. (...) Dei a notícia aos nossos companheiros, e disse-lhes que não voltava mais a brincar com eles (...). Foram pedir à mãe que os deixasse ir comigo, o que lhes foi negado. Tivemos que nos conformar com a sepa- ração. (...) Aos dois pequenitos custava o confor- mar-se com a ausência da sua antiga companhei- ra. Por isso, renovavam continuamente as instân- cias junto de sua mãe. (...) Minha tia, talvez para se ver livre de tantos pedidos, apesar de serem No dia 12 de setembro de 1935, os restos mor- tais da Jacinta foram removidos de Vila Nova de Ourém para Fátima. Ao abrir-se o caixão, verificou- se que o rosto da Vidente se mantinha incorrupto. Tirou-se-lhe uma fotografia e o Snr. Bispo de Lei- ria, D. José Alves Correia da Silva, enviou uma cópia à irmã Lúcia, que, ao agradecer, se referiu às virtudes da prima. Isto levou D. José a ordenar à Lúcia que escrevesse tudo o que sabia da vida da Jacinta. Assim nasceu a “Primeira Memória”, que estava pronta pelo Natal de 1935. “Ex.mo e Rev.mo Senhor Bispo, (...) Antes dos fatos de 1917, exce- tuando o laço de parentesco que nos unia, nenhum outro afeto par- ticular me fazia preferir a compa- nhia de Jacinta e Francisco à de qualquer outra criança. Pelo con- trário, a sua companhia tornava-se -me, por vezes, bastante antipáti- ca, pelo seu caráter demasiada- mente melindroso. A menor con- tenda, das que se levantam entre as crianças quando jogam, era bastante para a fazer ficar amua- da, a um canto (...). Para a fazer voltar a ocupar o seu lugar na brin- cadeira, não bastavam as mais doces carícias, que, em tais ocasiões, as crianças sabem fazer. Era, então, preciso deixá-la escolher o jogo e o par com quem queria jogar. Tinha, no entanto, já en- tão, um coração muito bem inclinado; e o bom Deus tinha-a dotado de um caráter doce e meigo, que a tornava, ao mesmo tempo, amável e atraen- te. (...) Como já disse, um dos seus jogos escolhidos era o das prendas. Como V. Ex.cia e Rev.ma decerto sabe, quem ganha, manda, ao que perde, fazer uma coisa qualquer, que lhe parecer. (...) Um dia, jogávamos isto, em casa de meus pais, e tocou- me a mim mandá-la a ela. Meu irmão estava sen- tado a escrever, junto de uma mesa. Mandei-a, então, dar-lhe um abraço e um beijo, mas ela res- pondeu: - “Isso, não! Manda-me outra coisa. Por- que não me mandas beijar aquele Nosso Senhor, que está ali?!” - Era um crucifixo, que havia, pen- durado na parede. - “Pois sim,” - respondi-lhe. “Sobes acima de uma Jacinta e Lúcia
  2. 2. demasiado pequenos, entregou-lhes a guarda das suas ovelhi- nhas. (...) Aqui temos, Ex.mo e Rev.mo Senhor Bispo, a Jacinta na sua nova vida de pastorinha. As ovelhinhas, ganhámo-las à força de distri- buir por elas as nossas merendas. Por isso, quando chegávamos à pastagem, podíamos brincar descansados, que elas não se afastavam de nós. (...) Gostávamos, também, de entoar cânticos. Entre vários profa- nos, que infelizmente sabíamos bastantes, a Jacinta preferia o “Salve Nobre Padroeira”, “Virgem Pura”(...) Éramos, no entanto, bastante afeiçoadas ao baile, e qualquer instrumento, que ouvís- semos tocar aos outros pastores, era o bastante para nos pôr a dançar. A Jacinta, apesar de ser tão pequena, tinha, para isso, uma arte especial. Tinham-nos recomendado que, depois da merenda, rezásse- mos o Terço; mas, como todo o tempo nos parecia pouco para brincar, arranjamos uma boa maneira de acabar breve: passáva- mos as contas, dizendo somente: Ave Maria, Ave Maria, Ave Ma- ria! Quando chegávamos ao fim do mistério, dizíamos, com muita pausa, a simples palavra: Padre Nosso! E assim, em um abrir e fechar de olhos, como se costuma dizer, tínhamos o nosso terço rezado! (...) Eis aqui, Ex.mo e Rev.mo Senhor Bispo, um pouco mais ou me- nos, como se passaram os sete anos, que tinha Jacinta, quando apareceu belo e risonho, como tantos outros, o dia 13 de Maio de 1917. (Nota da edição: Neste primeiro manuscrito Lúcia não diz nada acerca das aparições. Os fatos foram descritos em sua Segunda Memória) (...) Quando, nesse dia (o posterior à aparição), chegámos à pasta- gem, a Jacinta sentou-se pensativa em uma pedra. - “Jacinta! Anda a brincar.” -- “Hoje não quero brincar.” — “Porque não queres brincar?” - “Porque estou a pensar. Aquela Senhora disse-nos para rezarmos o Terço e fazermos sacrifícios pela con- versão dos pecadores. Agora, quando rezarmos o Terço, termos que rezar a Ave–Maria e o Padre–Nosso inteiro! E, os sacrifícios, como os havemos de fazer?” O Francisco discorreu em breve um bom sacrifício: - “Demos a nossa merenda às ovelhas, e fazemos o sacrifício de não meren- dar!” (...) E assim passámos um dia de jejum, que nem o do mais austero cartuxo! A Jacinta tomou tanto a peito os sacrifícios pela conversão dos pecadores, que não deixava escapar ocasião alguma. Havia umas crianças, filhos de duas famílias da Moita, que andavam pelas portas a pedir. (...) A Jacinta, ao vê-los, disse-nos: – “Damos a nossa merenda àqueles pobrezinhos, pela conver- são dos pecadores.” (...) Pela tarde, disse-me que tinha fome. Havia ali algumas azinheiras e carvalhos. (...) O Francisco subiu a uma azinheira para encher os bolsos, mas a Jacinta lembrou-se que podíamos comer da dos carvalhos, para fazer o sacrifício de comer a amarga. E lá saboreámos, aquela tarde, aquele delicio- so manjar! A Jacinta tomou este por um dos seus sacrifícios habi- tuais. (...) A Jacinta parecia insaciável na prática do sacrifício. Um dia, um vizinho ofereceu a minha Mãe uma boa pastagem para o nosso rebanho; mas era bastante longe e estávamos no pino do Verão. (...) Pelo caminho, encontrámos os nossos queridos po- brezinhos e a Jacinta correu a levar-lhes a esmola. (...). A sede fazia-se sentir e não havia pinga d’água para beber! A princípio, oferecíamos o sacrifício com generosidade pela conversão dos pecadores; mas, passada a hora do meio-dia, não se resistia. Propus, então, aos meus companheiros, ir a um lugar, que ficava cerca, pedir uma pouca de água. Aceitaram a proposta, e lá fui bater à porta duma velhinha. (...) Dei a infusa (com água) ao Francisco e disse-lhe que bebesse. – “Não quero beber” – respondeu. – “Por quê?” – “Quero sofrer pela conversão dos pecadores.” – “Bebe tu, Jacinta!” – “Também quero oferecer o sacrifício pelos pecadores!” Deitei, então, a água na cova duma pedra, para que a bebes- sem as ovelhas e fui levar a infusa à sua dona. (...) As cigarras e P á g i n a 2 A F a m í l i a C a t ó l i c a os grilos juntavam o seu cantar ao das rãs da lagoa vizinha e fazi- am uma grita insuportável. A Jacinta, debilitada pela fraqueza e pela sede, disse-me, com aquela simplicidade que Lhe era habitu- al: - “Diz aos grilos e às rãs que se calem! Dói-me tanto a minha cabeça!” — Então, o Francisco perguntou-lhe: “– Não queres so- frer isto pelos pecadores?!” — A pobre criança, apertando a cabe- ça entre as mãozinhas, respondeu: “– Sim, quero. Deixa-as can- tar.” (...) Desde que Nossa Senhora nos ensinou a oferecer a Jesus os nossos sacrifícios, sempre que combinávamos fazer algum ou que tínhamos alguma prova a sofrer, a Jacinta perguntava: “Já disseste a Jesus que é por Seu amor?”. Se Lhe dizia que não... – “Então digo-Lho eu”, - e punha as mãozinhas, levantava os olhos ao Céu e dizia: “Ó Jesus! É por Vosso amor e pela conversão dos pecadores.” Foram interrogar-nos dois sacerdotes que nos recomendaram que rezássemos pelo Santo Padre. A Jacinta perguntou quem era o Santo Padre e os bons sacerdotes explicaram-nos quem era e como precisava muito de orações. A Jacinta ficou com tanto amor ao Santo Padre que, sempre que oferecia os seus sacrifícios a Jesus, acrescentava: “e pelo Santo Padre”. No fim de rezar o Ter- ço, rezava sempre três Ave Marias pelo Santo Padre e algumas vezes dizia: “Quem me dera ver o Santo Padre! Vem cá tanta gente e o Santo Padre nunca cá vem.” Na sua inocência de crian- ça, julgava que o Santo Padre podia fazer esta viagem como as outras pessoas. (...) Quando, passado algum tempo, estivemos presos, à Jacinta, o que mais lhe custava era o abandono dos pais; e dizia (...): “- Nem os teus pais nem os meus nos vieram ver. Não se importa- ram mais de nós!” – “Não chores” – lhe disse o Francisco. – “Oferecemos a Jesus, pelos pecadores.” E levantando os olhos e mãozinhas ao Céu, fez ele o oferecimento: “– Ó meu Jesus, é por Vosso amor e pela conversão dos pecadores”. A Jacinta acrescen- tou: “– É também pelo Santo Padre e em reparação dos pecados cometidos contra o Imaculado Coração de Maria”. Os presos que presenciaram esta cena quiseram consolar-nos: – “Mas vocês” – diziam eles – “digam ao Senhor Administrador lá esse segredo. Que Lhes importa que essa Senhora não queira?” – “Isso não!” – respondeu a Jacinta com vivacidade. – “Antes quero morrer”. (...) Minha tia, cansada de ter que mandar continuamente buscar os seus filhinhos, para satisfazer o desejo de pessoas que pediam para Lhes falar, mandou pastorear o seu rebanho o seu filhinho João. À Jacinta custou muito esta ordem, por dois motivos: por ter que falar a toda a gente que a procurava e, como ela dizia, por não poder andar todo o dia junto de mim. Teve, no entanto, que resignar-se. (...) Havia no nosso lugar uma mulher que nos insultava sempre que nos encontrava. Quando terminou o seu trabalho (de insultar os pastorinhos), a Jacinta diz-me: – “Temos que pedir a Nossa Se- nhora e oferecer-Lhe sacrifícios pela conversão desta mulher. Diz tantos pecados que, se não se confessa, vai para o inferno.” Pas- sados alguns dias, corríamos em frente da porta da casa desta mulher. De repente, a Jacinta pára no meio da sua carreira e vol- tando-se para trás pergunta: – “Olha, é amanhã que vamos ver aquela Senhora?” – “É sim”. – “Então não brinquemos mais. Fa- zemos este sacrifício pela conversão dos pecadores”. E sem pensar que alguém a podia ver, levanta as mãozinhas e os olhos ao Céu e faz o oferecimento. A mulherzinha espreitava por um postigo da casa e depois, dizia ela a minha Mãe, que a tinha impressionado tanto aquela ação da Jacinta, que não ne- cessitava doutra prova para crer na realidade dos factos. (...) Passavam assim os dias da Jacinta, quando Nosso Senhor man- dou a pneumônica, que a prostrou em cama, com seu Irmãozi- nho.” Continua na próxima edição.
  3. 3. Nota da edição: Colocamos, por ocasião da Festa de Cristo Rei, esta encíclica de Pio XI que institui a referida festa e nos explica melhor acerca do Reinado Social de Nosso Senhor Jesus Cristo, que segundo Monse- nhor Lefebvre é a causa verdadeira e fun- damental de nossa oposição à Roma mo- dernista, nosso centro de combate. *** Na primeira Encíclica que, elevado ao Ponti- ficado, dirigimos a todos os Bispos do orbe católico – ao indagarmos as causas princi- pais daqueles desastres de que víamos oprimido e angustiado o gênero humano – lembramo-nos de haver claramente expres- so não apenas que tal massa de males assolava o mundo porque a maioria dos homens havia afastado Jesus Cristo e sua santa lei da prática de suas vidas, da famí- lia e da sociedade, mas também que ja- mais poderia ter esperança de uma paz duradoura entre os povos, enquanto os indivíduos e as nações tivessem negado e por eles mesmos rejeitado o império de Cristo Salvador. A “paz de Cristo no reino de Cristo” 1. Portanto, por avisarmos que era neces- sário buscar a paz de Cristo no Reino de Cristo, anunciamos (na época) que faría- mos para este fim quanto Nos era possível; no Reino de Cristo - dizemos - porque Nos parecia que não se pudesse mais eficaz- mente alcançar a restauração e o fortaleci- mento da paz se não através da restaura- ção do Reino de nosso Senhor. (...) I– A Realeza de Cristo 6. Desde há muito tempo tem se usado comumente chamar Cristo com o título de Rei, pelo sumo grau de excelência que pos- sui em modo supereminente entre todas as coisas criadas. Deste modo, na verdade, se diz que Ele reina nas mentes dos homens não apenas pela altura de seu pensamento e pela amplitude de sua ciência, mas tam- bém porque Ele é a Verdade e é necessário que os homens alcancem e recebam com obediência, Dele, a verdade; também na vontade humana, seja porque, n’Ele, à san- tidade da vontade divina responde a perfei- ta inteireza e submissão da vontade huma- na, seja porque com suas inspirações influ- encia sobre a livre vontade nossa de modo a inflamar-nos em direção às mais nobres coisas. Finalmente, Cristo é reconhecido como Rei dos corações por aquela sua cari- dade que ultrapassa toda compreensão humana (supereminentem scientiae carita- tem) e pelos encantos de sua brandura e misericórdia: pois nunca houve, no gênero humano, e nunca haverá quem tanto amor tenha ateado como Cristo Jesus. Aprofun- demos sempre mais o nosso argumento. É manifesto que o nome e o poder de "Rei", no sentido próprio da palavra, competem a Cristo em sua Humanidade, porque só de Cristo enquanto homem é que se pode dizer: do Pai recebeu "poder, honra e rea- leza" (Dan 7, 13-14). Enquanto Verbo, consubstanciai ao Pai, não pode deixar de Lhe ser em tudo igual e, portanto, de ter, como Ele, a suprema e absoluta sobera- nia e domínio de todas as criaturas. (...) II—CARÁTER DA REALEZA DE CRISTO A) Triplo poder 13. Querendo agora expressar a natureza e o valor deste principado, falaremos bre- vemente que este consiste de um triplo poder, que, se viesse a faltar, não se teria mais o conceito de um verdadeiro e pró- prio principado. Os testemunhos extraídos das Sagradas Cartas acerca do império universal do nosso Redentor provam mais do que o suficiente o quanto dissemos; e é um dogma de fé que Jesus Cristo foi dado aos homens como Redentor, no qual devem depositar sua confiança, e ao mes- mo tempo como legislador, ao qual devem obedecer. Os santos Evangelhos não so- mente narram como Jesus tenha promul- gado algumas leis, mas o mostram tam- bém no ato de legislar; e o Divino Mestre afirma, em circunstâncias e com diversas expressões, que qualquer um que obser- var os seus mandamentos dará prova de amá-lo e permanecerá em sua caridade. O mesmo Jesus, diante dos Judeus que o acusavam de ter violado o sábado ao devolver a saúde ao paralítico, afirma que a Ele foi dado, pelo Pai, o poder de julgar: ―o Pai não julga ninguém, mas entregou todo o julgamento ao Filho. Nisso é incluí- do também o direito de premiar e punir os homens mesmo durante a vida deles, porque isso não pode ser dissociado de uma forma própria de juízo. Além disso, o poder executivo deve também ser atribuí- do a Jesus Cristo, porque é necessário que todos obedeçam a seu comando, e ninguém pode escapar Dele e das san- ções por Ele estabelecidas. B) Campos da Realeza de Cristo No espiritual 14. Que este Reino seja principalmente espiritual e pertinente às coisas espiritu- ais, o demonstram as passagens da Bíblia Sagrada acima referidas, e o confirma o próprio Jesus Cristo com seu modo de agir. Em várias ocasiões, de fato, quando os Judeus e os próprios Apóstolos errone- amente acreditavam que o Messias iria devolver a liberdade ao povo e restaurar o reino de Israel, ele procurou remover e derrubar essa vã expectativa e esperança; e assim também, quando estava para ser proclamado Rei pela multidão que, toma- da de admiração, o cercava, Ele recusou esse título e essa honra, retirando-se e escondendo-se na solidão; finalmente diante do Governador romano anunciou que seu Reino ―não é deste mundo. Este Reino é apresentado nos Evangelhos de tal forma que os homens devem se prepa- rar para entrar nele por meio da penitên- cia, e não podem nele entrar se não pela fé e pelo batismo, o qual, apesar de ser um rito exterior, significa, porém, e produz a regeneração interior. Este reino é opos- to ao reino de Satanás e ao ―poder das trevas e exige de seus súditos, não só o espírito desapegado das riquezas e das coisas terrenas, a mansidão, a fome e sede de justiça, mas também que rene- guem a si mesmos e tomem a própria cruz. Tendo Cristo como Redentor funda- do com seu sangue a Igreja e como Sacer- dote oferecido a si mesmo in perpetuo como Hóstia de propiciação pelos peca- dos dos homens, quem não vê que a ré- gia dignidade d’Ele reveste o caráter espi- ritual de ambos os ofícios? No temporal 15. Por outro lado, erraria gravemente quem tirasse de Cristo Homem o poder sobre todas as coisas temporais, visto que Ele recebeu do Pai um direito absolu- to sobre todas as coisas criadas, de modo que tudo sucumba ao seu arbítrio. No entanto, enquanto esteve sobre a terra se absteve completamente de exercer tal poder, e, como uma vez desprezou a pos- se e o cuidado das coisas humanas, as- sim permitiu e permite que os possuido- res devidamente delas se sirvam. A este propósito, bem se adaptam estas palavras: "Não tira o trono terrestre Aque- le que dá o reino eterno dos céus" . Por- tanto, o domínio do nosso Redentor abra- ça todos os homens, como afirmam estas palavras de Nosso Predecessor de imortal memória Leão XIII, que Nós aqui fazemos nossas: "O império de Cristo se estende não só sobre as nações católicas e sobre os que receberam o batismo, que juridica- mente pertencem à Igreja, ainda quando dela separados por opiniões errôneas ou pelo cisma: estende-se igualmente e sem exceções aos homens todos, mesmo alheios à fé cristã, de modo que o império de Cristo Jesus abarca, em todo rigor da verdade, o gênero humano inteiro" Nos indivíduos e na sociedade 16. Ele é, com efeito, a fonte do bem pú- blico e privado. Fora d’Ele não há que se buscar a salvação em nenhum outro; pois não foi dado aos homens outro nome debaixo do céu pelo qual devamos ser salvos. Só Ele é quem dá a prosperidade e a feli- cidade verdadeira, tanto aos indivíduos como às nações: porque a felicidade da nação não procede de uma fonte distinta da dos seus cidadãos, pois a nação não é outra coisa senão um conjunto concorde de cidadãos. Não se neguem, pois, os governantes das nações a dar, por si mes- mos e pelo povo, mostras públicas de veneração e de obediência ao império de Cristo se querem conservar incólume sua Quas Primas Pio XI
  4. 4. A F a m í l i a C a t ó l i c aE d i ç ã o 1 6 Edição: Capela Nossa Senhora das Alegrias - Vitória, ES. http:/www.nossasenhoradasalegrias.com.br Entre em contato conosco pelo e-mail: jornalafamiliacatolica@gmail.com autoridade e trazer a felicidade e a fortuna à sua pátria. (...) 17. Em contrapartida, se os homens, pública e privadamente, reconhecem a autoridade real de Cristo, necessariamente virão para toda a sociedade civil incríveis benefícios, como a justa liberdade, a tranquilidade e disciplina, a paz e a concór- dia. A dignidade real de Nosso Senhor, assim como, de certo modo, torna sagrada a autoridade humana dos chefes e go- vernantes de Estado, assim também enobrece os deveres e a obediência dos súditos. Por isso, o apóstolo São Paulo, embo- ra tenha ordenado às casadas e aos servos que reverencias- sem a Cristo na pessoa de seus maridos e senhores, também os advertiu que não os obedecessem como a simples homens, mas como representantes de Cristo, porque é indigno de ho- mens redimidos por Cristo servir a outros homens. 18. Se os príncipes e governos legitimamente constituídos tivessem a persuasão de que regem menos no próprio nome do que em nome e lugar do Rei Divino, é manifesto que usari- am do seu poder com toda a prudência, com toda a sabedoria possíveis. Em legislar e na aplicação das leis, como haveriam de atender ao bem comum e à dignidade humana de seus súbditos! Então floresceria a ordem, então víramos difundir-se e firmar-se a tranqüilidade e a paz (...). 19. Pelo que respeita à concórdia e à paz, é evidente que, quanto mais vasto é um reino, quanto mais largamente abra- ça o gênero humano, tanto é maior a consciência em seus membros do vínculo de fraternidade que os une. Esta convic- ção, assim como remove e dissipa os freqüentes conflitos, assim também atenua e suaviza seus amargores. E se o reino de Cristo abraçasse de fato, como de direito abraça, à todos os homens, porque deveríamos perder a esperança dessa paz que à Terra veio trazer o Rei pacífico, esse Rei que veio "para reconciliar todas as coisas" (Col 1, 20); "que não veio para ser servido, mas para servir aos outros" (Mc 10, 45); que sendo o “Senhor de todos”, fez a si mesmo exemplo de humildade e estabeleceu como lei principal esta virtude, unida com o man- damento da caridade; que disse, finalmente, “Meu jugo é sua- ve e minha carga é leve”? Oh! que ventura poderíamos gozar, se os indivíduos, se as famílias, se a sociedade se deixasse reger por Cristo! "Então, verdadeiramente — diremos com as mesmas palavras que nosso predecessor Leão XIII dirigiu, a vinte e cinco anos, a todos os bispos do orbe católico — então seria possível sanar tantas feridas; o direito recobriria seu antigo viço, seu prestí- gio de outras eras; então tornaria a paz com todos os seus encantos e cairiam das mãos armas e espadas, quando todos de bom grado aceitassem o império de Cristo, Lhe obedeces- sem, e toda língua proclamasse que "Nosso Senhor Jesus Cristo está na glória de Deus Padre" . III— A FESTA DE JESUS CRISTO REI (...) As festas da Igreja Para instruir ao povo nas coisas da fé e atraí-los por meio de- las às íntimas felicidades do espírito, muito mais eficaz são as festas anuais dos sagrados mistérios que quaisquer outros ensinamentos, por autorizados que sejam, do magistério ecle- siástico. Estas só são conhecidas, na maior parte das vezes, por alguns poucos fiéis, mais instruídos que os demais; aquelas impressi- onam e instruem todos os fiéis; estas, digamos assim, falam uma só vez, aquelas, a cada ano e perpetuamente (...). 23. E se agora mandamos que Cristo Rei seja honrado por todos os católicos do mundo, com isso prevemos as necessidades dos tem- pos presentes e colocamos um remédio eficacíssimo à peste que hoje infecta a sociedade. Julgamos peste de nossos dias o chama- do laicismo com seus erros e intentos abomináveis; e vós sabeis, veneráveis irmãos, que esta impiedade não apareceu de um dia para o outro, mas sim que se cultivou desde muito antes no seio da sociedade. (...) Condição litúrgica da festa Portanto, com nossa autoridade apostólica, instituímos a Festa de Nosso Senhor Jesus Cristo Rei, e decretamos que se celebre em todas as partes da terra no último domingo de outubro, isto é, no domingo que antecede à festividade de Todos os Santos. (...) 32. Antes de terminar esta carta, nos compraz, veneráveis irmãos, indicar brevemente as utilidades que, tanto para a Igreja e para a sociedade civil, como para cada um dos fiéis, nós esperamos e prometemos em decorrência deste culto público a Cristo Rei. A) Para a Igreja Com efeito, tributando estas honras à soberania real de Jesus Cris- to, os homens recordarão necessariamente que a Igreja, como sociedade perfeita instituída por Cristo, exige—por direito próprio e impossível de renunciar– plena liberdade e independência do po- der civil; e que no cumprimento do ofício encomendado a Ela por Deus, de ensinar, reger e conduzir à eterna felicidade a quantos pertencem ao Reino de Cristo, não pode depender do arbítrio de ninguém. Mais ainda, o Estado deve conceder também a mesma liberdade às ordens e congregações religiosas de ambos os sexos, as quais, sendo como são auxiliares valorosíssimas dos pastores da Igreja, cooperam grandemente para o estabelecimento e propagação do Reino de Cristo, seja combatendo, com a observância dos três vo- tos, a tríplice concupiscência do mundo, seja professando uma vida mais perfeita (...). B) Para a sociedade civil A celebração desta festa, que se renovará a cada ano, ensinará também às nações que o dever de adorar publicamente e obede- cer à Jesus Cristo não só obriga aos indivíduos, mas também aos governantes e magistrados. A estes lhes trará à memória o pensamento do juízo final, quando Cristo, tanto por haver sido retirado do governo do Estado, quanto por haver sido ignorado e desprezado, vingará terrivelmente todas estas injúrias. (...) C) Para os fiéis Porque se a Cristo Nosso Senhor foi dado todo o poder no céu e na terra; se os homens, por terem sido remidos com seu sangue, es- tão sujeitos à sua autoridade; se, enfim, este poder abraça toda natureza humana, claramente se vê que não há em nós nenhuma faculdade que se possa subtrair à tão grande soberania. É, pois, necessário que Cristo reine na inteligência do homem, a qual, com perfeito acatamento, há de consentir firme e constantemente às verdades reveladas e à doutrina de Cristo; necessário que reina na vontade, a qual há de obedecer às leis e preceitos divinos; neces- sário que reine nos corações, o qual sobrepondo-se aos afetos naturais, há de amar a Deus sobre todas as coisas e estar unido somente a Ele; é necessário que reine no corpo e em seus mem- bros, que como instrumentos, ou como disse o apóstolo São Paulo, como armas de justiça para Deus, devem servir para a santificação da alma. Tudo isso, que se propõe à meditação e profunda consi- deração dos fiéis, servirá sem dúvidas para incliná-los mais facil- mente à perfeição. (...)

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