Comunica gironaartigo2 (1)

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Saúde Sexual dos Jovens
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Comunica gironaartigo2 (1)

  1. 1. quadernsanimacio.net nº 10; Julho de 2009 Impacto dos Comportamentos Auto-Destrutivos na Saúde Sexual dos Jovens O Caso do Consumo Excessivo de Álcool Mª Te resa Ga ma Bar bosa 1 Texto apresentado no “I Congrés Internacional Juventut I Societat”; Girona, Junho 2009Resumo:As crianças e jovens das sociedades de hoje confrontam-se com um dilemaparticularmente angustiante. O estilo de vida e as exigências associadas àsobrevivência das famílias e das organizações sociais de proximidade nãoparecem compatibilizar-se com a necessidade de equilíbrio no processo dedesenvolvimento ecológico do ser humano.Com efeito, o dilema consiste basicamente no facto de :  Ou os contextos primordiais dos microssistemas (Bronfenbrenner) ocuparem todo o espaço educativo, conduzindo à infantilização e a restrições nos processos de criação de autonomia das crianças e jovens. Deste modo, não os preparam para construir, com conhecimento autónomo, o seu futuro, gerando fragilidades e dependências facilmente manipuláveis por interesses não controlados socialmente;  Ou os contextos secundários substituem completamente, ou quase, os modelos educativos adultos, promovendo uma entrada precoce em responsabilidades “adultas” em crianças e jovens claramente imaturos para o fazerem com responsabilidade.Não surpreende que, em tal contexto, um relatório do Grupo de Consultoriasobre Saúde Sexual e HIV alerte para o facto de o álcool, as drogas ecomportamentos sexuais de risco estarem a provocar uma “crise de saúdesexual” no seio da juventude britânica.Esta comunicação, com base no enquadramento teórico referido, visa, então,dar conta das condições sociais que conduzem ao consumo excessivo deálcool e drogas como factor potenciador da crise de saúde sexual.1Técnica Superior Principal de Serviço Social no Agrupamento de Centros deSaúde (ACES) – Porto Oriental.Comportamentos Auto-Destrutivos e Saúde Sexual dos Jovens. Copyleft: Teresa Gama
  2. 2. quadernsanimacio.net nº 10; Julho de 2009IntroduçãoO estilo de vida e as exigências, associadas à sobrevivência das famílias e dasorganizações sociais de proximidade (escolas, centros de lazer, etc.), nãoparecem compatibilizar-se com a necessidade de equilíbrio ecológico noprocesso de desenvolvimento do ser humano.Não seria difícil dar exemplos das perturbações ecológicas dos ambientesonde vivem e sobrevivem as pessoas. Nesta comunicação, contudo, centrar-nos-emos nos aspectos ligados ao desenvolvimento e construção da pessoae, dentro destes, à influência do desequilíbrio entre contextos primordiais econtextos secundários do microssistema (Bronfenbrenner, 1995), na busca deuma possível interpretação teórica dos fenómenos de risco para a saúde, quedecorrem sobretudo do consumo juvenil de álcool que parece ser o que maispreocupações suscita neste momento.As disposições, os recursos e as demandas de cada criança e jovem não sãoneutros neste processo, tal como os processos de interacção da pessoa com ocontexto, que decorrem ao longo do tempo.Conscientes desta complexidade, tomamos, mesmo assim, a opção de aabordar a partir daquilo que nos parecem ser condições não ecológicas quetêm origem no desequilíbrio entre contextos primordiais e secundários.Assumimos que o desequilíbrio entre contextos gera dificuldades naconstrução da pessoa, simultaneamente potenciadas e potenciadoras dedesequilíbrios no interior de cada um desses contextos (família, escola, etc.).Por outro lado, assumimos a perspectiva de Marlatt (1999, 2000) a respeito daredução de danos, como uma proposta de minimização das consequênciasadversas do consumo excessivo de álcool, do ponto de vista da saúde e dosseus aspectos sociais e económicos. 1. Contextos de Proximidade Desde muito cedo e de forma consistente, as crianças vivem num ambiente liderado por adultos, isto é, por pessoas que, em princípio, têm competências e a experiência de vida que as crianças ainda não têm. Não causa estranheza que assim seja e até parece benéfico que assim continue a ser, na medida em que só desta forma os seres humanos adquirem osComportamentos Auto-Destrutivos e Saúde Sexual dos Jovens. Copyleft: Teresa Gama
  3. 3. quadernsanimacio.net nº 10; Julho de 2009instrumentos indispensáveis de socialização.No entanto, os conhecimentos, as regras e os valores aprendidos desta formavalem pouco, do ponto de vista da formação integral da pessoa, enquanto acriança não se apropriar deles, usando-os com uma relativa autonomia, isto é,sem necessidade de vigilância ou supervisão.A apropriação de conhecimentos, regras e valores que sirvam comoinstrumentos de socialização não se faz na solidão da reflexão pessoal, mas naconfrontação com esses contextos de proximidade. Se os modelos sociais sãoaprendidos em contextos primários, isto é, em ambientes liderados porpessoas mais conhecedoras, experientes e com autoridade estatutária, atestagem desses modelos e a sua efectiva apropriação realizam-se, segundoBronfenbrenner, nos contextos secundários, isto é, nos ambientes nãocontrolados pela autoridade dos adultos.Resulta então necessárioum equilíbrio ecológicoentre os contextosprimordiais e os contextossecundários: se osprimeiros são necessáriospara que cada serhumano tenha acesso aosmodelos de vida da suasociedade, os segundossão indispensáveis paraque cada ser humano seaproprie deles e sejacapaz de os respeitar oude os contrariar comconsciência da sua autonomia relativa e consequente responsabilidade.A sensação (muitas vezes, a própria realidade) de insegurança, por um lado, eo estilo de vida imposto pelas regras de sobrevivência das famílias, por outrolado, têm promovido um desequilíbrio cada vez maior a favor dos contextosprimordiais.Deste modo, garante-se mais a instrução do que a aprendizagem, a definiçãode regras do que o seu respeito.Deste desequilíbrio ecológico entre contextos primordiais e contextossecundários, do microssistema que envolve a formação da pessoa, poderiaresultar tão só um alongamento cada vez maior da infância, da adolescência eda juventude e um consequente adiamento progressivamente maior daentrada na vida adulta. Por muito que nos custe aceitar esta ideia, ela nãoComportamentos Auto-Destrutivos e Saúde Sexual dos Jovens. Copyleft: Teresa Gama
  4. 4. quadernsanimacio.net nº 10; Julho de 2009contém nada de substancialmente perigoso em si mesma. No entanto, umamudança destas não se faz sem dificuldades.O primeiro problema, o mais óbvio, é que poucas são as famílias (se é que háalguma) que têm as condições necessárias para assumir, só por si, esta tarefagigantesca de atrasar consistentemente a entrada na vida adulta dos seusfilhos.Uma boa parte delas (se não todas) tem de delegar esta tarefa a instituiçõessociais: creches, jardins de infância, escolas.O segundo problema é que as instituições sociais, a quem a família delegauma boa parte da sua responsabilidade neste desequilíbrio, também nãoconseguem, por si só, nem com a colaboração das famílias, realizar toda atarefa.Uma boa parte dessa tarefa é, então, agora para um menor número decrianças e jovens, subdelegada a programas de enriquecimento curricular e ainstituições de tempos livres e outras organizações de vigilância e supervisão.As crianças e os jovens perderam, deste modo, o seu “mundo” próprio, aqueleonde, no confronto com os seus pares e sem supervisão directa dos adultos,realizam a tarefa de apropriação e de reformulação dos instrumentos desocialização. Com efeito, as instituições de enquadramento regulam também,no dia a dia, e com regulamentos bem claros, sempre em regime deaperfeiçoamento, as tarefas de construção da autonomia pessoal.O mundo fora destes regulamentos e fora das instituições reguladoras é,portanto, assumido como um mundo de aventura. E só a aventura pode teralgum sentido fora do controlo dos “educadores”, uma vez que esse mundosurge disponível fora do tempo, anacronicamente tarde, sem significado quenão seja o dos próprios estereótipos que rodeiam a vida dos jovens que sedivertem sem controlo adulto.Comportamentos Auto-Destrutivos e Saúde Sexual dos Jovens. Copyleft: Teresa Gama
  5. 5. quadernsanimacio.net nº 10; Julho de 2009Por outro lado, muitas famílias continuam a não ser capazes de se assumiremcomo o contexto primordial de referência para as crianças e jovens. Os gruposde pares continuam, para essas crianças e jovens, a ser o contexto ondedecorre a sua formação pessoal e social. Os modelos de vida e os valores queconstroem por sua própria conta, em ambientes sem modelos adultos, corremsérios riscos de não corresponderem satisfatoriamente aos modelos de vidaem sociedade. Nestes casos, as outras instituições sociais de proximidade, demodelagem da formação das crianças e jovens (escolas, por ex.) muitodificilmente conseguem superar as lacunas, entretanto organizadas pelavivência quase exclusiva em contextos secundários, onde as regras de vida sãoestabelecidas entre pares, sem ou com fraca referência a modelos adultos. 2. Contextos Sociais e Comportamentos de Risco e Auto- DestrutivosAquelas crianças e jovens que se confrontam, desde muito cedo, com asregras de convivência entre pares, sem referenciais adultos claros, em todo ocaso mais fabricados pela sua imaginação do que pela modelagem doscontextos primordiais, terão tendência a rigidificar precocemente os seuspadrões de vida, criando a si mesmos e aos outros a ilusão de uma entrada navida adulta precoce.Na verdade, comportam-se como se fossem adultos, mesmo antes deadquirirem as condições biológicas e mentais para tal. Esse comportamentonão é mais do que a rigidificação dos seus padrões de vida, testados emcontextos secundários.Nisso se distinguem da maioria das outras crianças e jovens que,permanentemente sujeitas à modelagem dos contextos primordiais, acabampor ter poucas oportunidades de testarem, durante a infância e o início daadolescência, os modelos adultos em contextos secundários.Neste enquadramento social de desequilíbrio ecológico, são favorecidas asdisposições pessoais que conduzem: ao exercício da autonomia pessoal num sentido conflituoso com a vida em sociedade; a dificuldades na organização da autonomia pessoal que resista às solicitações, a partir de opções conscientemente responsáveis; a que cada vez mais jovens procurem alterar, através do consumo de álcool, o seu estado de consciência para ter acesso a experiências sexuais ou para encontrar um novo parceiro;Comportamentos Auto-Destrutivos e Saúde Sexual dos Jovens. Copyleft: Teresa Gama
  6. 6. quadernsanimacio.net nº 10; Julho de 2009 a que as relações sexuais, praticadas em estado de embriaguez, sejam normalmente desprotegidasA precipitação e consequente rigidificação precoce de modelos de vida, parauns, e a infantilização e lentificação do processo de formação pessoal e social,para outros, são responsáveis, em boa medida, não só pelos riscos quecorrem muitas das nossas crianças e jovens, mas sobretudo pela quaseimpossibilidade de intervenção social adequada na contenção desses riscos.Na verdade, o desequilíbrio ecológico não só gera problemas, como impedeas soluções que não equacionem o restabelecimento do equilíbrio, comoponto de partida estruturador de todas as outras soluções.Entendamo-nos: este desequilíbrio não é entendido como “o factor”determinante; ele é só um factor potenciador de disposições, recursos enecessidades pessoais. Embora afecte todas as pessoas, afecta-as a todas demodo diferente. Felizmente.Um relatório, do Grupo de Consultoria Independente sobre Saúde Sexual,publicado em Julho de 2007 no Reino Unido, alerta para o facto de o álcool,as drogas e comportamentos sexuais de risco estarem a provocar uma crisede saúde sexual no seio da juventude britânica. O estudo, coordenado porBaroness Joyce Gould, mostra que existe uma forte correlação entre doençassexualmente transmissíveis, sexo e uso de drogas, acrescentando que o álcoolpode aumentar o risco de sexo desprotegido. Nesse relatório, é registado umaumento de 300% de clamídia e HIV e de 200% de sífilis.Já em 2002, estudos da Fundação Kaiser Family e dos Centros para Prevençãoe Controlo das Doenças nos Estados Unidos revelavam a existência decorrelação entre a prática de sexo desprotegido e o abuso do álcool.Estes e outros estudos alertam para um fenómeno preocupante: oscomportamentos de risco e de natureza auto-destrutiva estão a aumentarentre os jovens. Mais grave ainda: as campanhas de prevenção não estão aconseguir travar o abuso do álcool nem as relações sexuais desprotegidas,cujas taxas de prevalência nos jovens aparecem frequentementecorrelacionadas.Faz parte do processo de busca de identidade e de formação pessoal que osjovens reconheçam os seus limites, e que, nessa busca, arrisquem, muitasvezes, para além do que é sensato. Aquilo que está a acontecer depreocupante, parece, é que cada vez é maior o número daqueles para quemcorrer riscos implica alterar de forma perigosa os seus limiares de consciência.Quase poderíamos dizer que não se trata tanto de arriscar para se saber quaissão os limites, mas de fantasiar e arriscar simultaneamente, de forma a ocultarou superar, pela destruição, esses próprios limites, como se dependessemexclusivamente da consciência que temos deles.Comportamentos Auto-Destrutivos e Saúde Sexual dos Jovens. Copyleft: Teresa Gama
  7. 7. quadernsanimacio.net nº 10; Julho de 2009Com efeito, num estudo de 2009, coordenado pela Associação Europeia dePrevenção “IREFREIA”, levado a cabo pelo Centro para a Saúde Pública daUniversidade John Moores de Liverpool, sobre jovens entre os 16 e os 35 anosque frequentam os locais da moda nas cidades de Lisboa, Liverpool, Palma deMaiorca, Veneza, etc., concluiu-se que a maioria dos jovens encontra nasdrogas um sentido utilitário. Em regra, o uso de drogas precipita o início daactividade sexual, e, em particular, o consumo excessivo de álcool apareceassociado à prática de sexo desprotegido. 28% dos jovens inquiridos, quefrequentam os locais da moda em grandes cidades europeias, consomemálcool apenas com a finalidade de encontrar um par amoroso. Já num estudoanterior, realizado em 2007, pelo Núcleo de Estudos do Suicídio do Hospitalde Santa Maria de Lisboa, se concluía que as vulnerabilidades dos jovens comcomportamentos auto-destrutivos se situam sobretudo ao nível dascompetências sócio-afectivas, relações familiares e relações amorosas e que asua percepção sobre as suas dificuldades individuais e familiares eracatastrófica.Este uso “utilitário” de drogas e álcool não parece ser facilmente combatidocom legislação proibicionista. Este tipo de medidas terá a sua utilidade nocurto prazo. No entanto, o estabelecimento de padrões de conduta a partir domacrossistema carece de implementação prática nos microssistemas. E é aqui,ao nível dos microssistemas e nos desequilíbrios e disfunções que oscaracterizam, que o problema tem difícil solução, na medida em que oproblema não tem tanto a ver com o que é consumido, mas com oenquadramento do consumo. Por exemplo, a proibição do consumo detabaco nas discotecas portuguesas terá sido acompanhada por um aumentosubstancial de consumo de bebidas alcoólicas nos mesmos espaços, segundoum estudo realizado nas discotecas de dez cidades portuguesas pelo InstitutoEuropeu de Estudos na Prevenção (IREFREIA), entre 2007 e 2008. Não égarantido que não se trate de uma coincidência, mas, em todo o caso, umaumento médio de 10% a 14% do consumo de álcool, consoante a cidadeestudada, a acompanhar a proibição de fumar é assunto que mereceaprofundamento. Parece que algo de perigoso e tendencialmente auto-destrutivo deve ser feito obrigatoriamente em certos contextos nãosupervisionados pelos “educadores” com autoridade estatutária (pais, por ex.).Relativamente ao consumo excessivo de álcool, a situação de risco pareceparticularmente difícil de contornar, sobretudo em resultado de umatendência de tolerância social bastante grande. Essa tolerância não tem sóorigem no consumo culturalizado do álcool.O que acontece, sobretudo na população jovem, é que o consumo de bebidasalcoólicas adquiriu padrões distintos daqueles que eram identificados nopassado: verifica-se um aumento do padrão de abuso que não éacompanhado pelo padrão de dependência.Comportamentos Auto-Destrutivos e Saúde Sexual dos Jovens. Copyleft: Teresa Gama
  8. 8. quadernsanimacio.net nº 10; Julho de 2009Os jovens, em geral, não bebem às refeições. Têm um padrão de consumoabusivo, caracterizado por ingerir grandes quantidades de bebidas alcoólicasnum curto espaço de tempo.Em síntese, talvez seja legítimo afirmar que:  As disposições, os recursos e as necessidades pessoais são potenciadas ou inibidas em contextos sociais concretos através de processos proximais;  Os contextos concretos de vida das crianças e jovens revelam desequilíbrios e disfunções de natureza global e social, que não favorecem a identificação clara dos factores que conduzem os jovens a comportamentos auto-destrutivos e a consumos utilitaristas que põem em causa a sua saúde sexual;  O principal desequilíbrio ecológico, ao nível do microssistema, situa-se na ausência, em certos casos, e na omnipresença, em outros, dos contextos primordiais; os contextos secundários constituem-se, no primeiro caso, em contextos formativos substituindo-se aos primários, e, no segundo caso, a vivência desses contextos secundários é tardia, inibindo os processos de desenvolvimento da autonomia pessoal;  Este desequilíbrio ecológico potencia as disposições pessoais e pode mesmo criar tendências para a busca de alterações do limiar de consciência na busca dos limites pessoais e na construção da identidade, típicas da juventude;  Estudos vários indicam a existência de correlação positiva entre o aumento de consumo de bebidas alcoólicas e o aumento de doenças sexualmente transmissíveis;  Por outro lado, cada vez mais jovens procuram alterar propositadamente o seu estado de consciência para ter acesso a experiências sexuais ou para encontrar um novo parceiro; estas tentativas de alteração do limiar de consciência são claramente marcadas por novos padrões de consumo de bebidas alcoólicas: os jovens procuram embriagar-se rapidamente, querem alcançar muito depressa um estado de estreitamento da consciência;  Sabe-se também que as relações sexuais praticadas em estado de embriaguez são normalmente desprotegidas;  Por outro lado, não é garantido que a proibição de consumos específicos (tabaco, álcool, etc.) esteja a alterar o padrão de comportamento de risco dos jovens que procuram alterar o estado de consciência; só altera os locais de consumo, ou substitui os produtos consumidos.Disposições pessoais e contextos de vida ecologicamente desequilibrados, doponto de vista do desenvolvimento e construção da pessoa, talvez sejam osComportamentos Auto-Destrutivos e Saúde Sexual dos Jovens. Copyleft: Teresa Gama
  9. 9. quadernsanimacio.net nº 10; Julho de 2009factores a ter em conta nesta tendência crescente dos jovens paracomportamentos auto-destrutivos e de alienação da consciência. 3. Minimização de Riscos e Redução de DanosMarlatt (1999; 2000) e Waal (2001) distinguem dois conceitos fundamentais: a) Minimizar riscos – situa-se ao nível da prevenção primária quando se abordam os perigos para a sociedade, com as devidas estratégias para a Saúde Pública; b) Redução de danos – refere-se ao indivíduo e às suas necessidades pessoais ou a grupos, cujos comportamentos destrutivos e danos já estão instalados.A redução de danos (RD) assenta em cinco princípios básicos: 1. A RD é uma alternativa de saúde pública para os modelos moral/criminal e de doença do uso e de dependência de substâncias. 2. A RD reconhece a abstinência como resultado ideal, mas aceita alternativas que reduzam os danos. 3. A RD surgiu principalmente como uma abordagem de “baixo para cima”, baseada na defesa do dependente, em vez de uma política de “cima para baixo”, promovida pelos que concebem as políticas das dependências. 4. A RD promove o acesso a serviços de baixa exigência como uma alternativa para abordagens tradicionais de alta exigência.Comportamentos Auto-Destrutivos e Saúde Sexual dos Jovens. Copyleft: Teresa Gama
  10. 10. quadernsanimacio.net nº 10; Julho de 2009 5. A RD baseia-se nos princípios do pragmatismo empírico versus idealismo moralista.Em 1990, o Instituto de Medicina nos E.U.A., na área do álcool demonstra anecessidade de aumentar o número de serviços para atendimento de pessoas,recorrendo à abordagem da Redução de Danos, com o objectivo de: a) Desenvolver a capacidade de beber sem consequências, motivando o indivíduo a alterar o seu padrão de consumo excessivo, aprender moderadamente e sem danos e, eventualmente, para quem o deseje, tornar-se abstinente. b) Aceitar que o indivíduo necessita de mais tempo ou eventualmente não consegue e x tempo melhorias incrementais. c) Promover a participação activa da população-alvo.Em resumo, o principal desta perspectiva consiste em que o indivíduo seja oalvo do programa, seja o agente activo e responsável no seu próprio processode mudança.Segundo Marlatt (1999), são três as estratégias globais de redução de danos: 1. As práticas de redução de danos são susceptíveis de ser ensinadas a indivíduos ou grupos, atendendo que a educação é a chave para a prevenção e para a minimização dos danos relacionados com substâncias, ajudando as pessoas a desenvolverem motivação e habilidades associadas a um melhor auto-controlo. 2. A meta de redução de danos não pode ser atingida, a menos que haja disponibilidade ambiental de equipamentos e ambientes de reduçãoComportamentos Auto-Destrutivos e Saúde Sexual dos Jovens. Copyleft: Teresa Gama
  11. 11. quadernsanimacio.net nº 10; Julho de 2009 de danos, disponibilizando, por exemplo, tratamentos com agonistas e antagonistas e alterando as atitudes das instituições e dos prestadores dos cuidados de saúde. 3. As práticas públicas necessitam de ser reformuladas, de forma a acomodar a redução de danos, implica alteração em termos de legislação que regule o consumo de substâncias ilícitas e que estabeleça penas para aqueles que infringem a lei.Este enquadramento exige a tomada em consideração, não só dos factoresbiológicos e dos estilos de vida, mas também do ambiente físico, cultural esocioeconómico, assim como a oferta e a organização adequada dos serviçosprestadores de cuidados.A Redução da Danos adquire, então, um sentido mais pragmático quandoassociada a políticas de minimização de riscos ou de promoção da saúde dosjovens. Neste contexto, Vasco Prazeres (2005) propõe a conjugação de trêsplanos essenciais numa dimensão temporal alargada: 1. A saúde dos jovens, hoje – há que dar resposta às necessidades e aos problemas de saúde dos jovens no contexto da sua vida presente. 2. Os jovens enquanto promotores de ganhos em saúde no futuro – tendo em vista a adopção e a manutenção futura de estilos de vida promotores de saúde. 3. Os jovens como activadores de mudança – torna-se necessário criar condições para a participação e a auto-determinação dos jovens nas matérias que dizem respeito à sua saúde. 4. Propostas de ReflexãoFeito este enquadramento, não nos parece que devamos contestar asmedidas políticas específicas de combate ao consumo abusivo de bebidasalcoólicas ou de drogas, e muito menos as medidas preventivas e aindamenos as de natureza curativa ou reabilitativa. Na verdade, elas sãonecessárias, são mesmo indispensáveis, se queremos evitar que, no curtoprazo, a situação fique fora de controlo.No entanto, de uma perspectiva social de promoção da saúde, que é a nossa,um problema como este, que corre o risco de atingir níveis cada vez maispreocupantes, carece de medidas de natureza social que consigam ir mais aocentro do problema.Comportamentos Auto-Destrutivos e Saúde Sexual dos Jovens. Copyleft: Teresa Gama
  12. 12. quadernsanimacio.net nº 10; Julho de 2009No curto prazo, e numa perspectiva remediativa, é necessário criar condiçõesde apoio às famílias, aos jovens e às instituições sociais de enquadramentoformativo.Mas estas medidas remediativas de curto prazo serão isso mesmo: de curtoprazo. Não servem para, a médio e longo prazo, resolver o problema.É, portanto, necessário colocar as soluções a um nível mais vasto daintervenção social. Com efeito, as condições materiais concretas de vida daspessoas não são neutras no problema.A acção social no campo da promoção da saúde tem de reorientar-sefirmemente para modelos de intervenção comunitária: mais do que nunca, éagora necessário apoiar as comunidades a encontrar as suas soluções; paraisso, é indispensável que lhes sejam dadas competências e organização.Não é muito credível que serviços desinseridos das comunidades consigamajudá-las a superar no médio e longo prazo as suas dificuldades. Eles sãonecessários numa política de emergência social, enquanto não for possívelencontrar soluções de continuidade, geridas na proximidade das pessoas e deacordo com as suas necessidades. Podem, esses serviços, até ser úteis, seservirem de ponto de apoio para a formação dos agentes das comunidadeslocais. Mas não serão a solução.Por outro lado, o crescente aumento de comportamentos de risco nos jovens,sobretudo os associados à alienação da consciência, não são os únicosproblemas das nossas sociedades modernas. Outros, muito provavelmentecom eles correlacionados, devem preocupar todos os cidadãos conscientes eresponsáveis. As condições sociais de vida das famílias - e nestas condiçõestemos de ver mais do que o poder económico -, não são favoráveis àformação dos jovens. Este problema afecta também famílias de bonsrendimentos: não é, portanto, uma questão única de pobreza. È uma questãosocial mais global, de modelos de vida que são impostos por uma hierarquiade valores, onde a preparação dos jovens para a vida adulta se posicionamuito abaixo do lugar que merece. Antes dela, encontra-se, para uns, asimples sobrevivência, para outros, a urgência em melhorar permanentementea sua condição. Tal como nas áreas da economia e das finanças, ou na dacooperação internacional, muitos defendem um reordenamento deprioridades, também a formação dos jovens impõe, com tanta urgência comoqualquer uma das anteriores, esse reordenamento.A dificuldade no enunciado deste tipo de medidas gerais e na suapormenorização resulta de um esquema mental que resiste a promover asmudanças necessárias nas comunidades concretas.Por isso, é mais importante definir uma estratégia do que objectivos. E aestratégia é, do nosso ponto de vista, a revalorização educativa dascomunidades de proximidade na formação dos jovens: aquilo a que se chamaComportamentos Auto-Destrutivos e Saúde Sexual dos Jovens. Copyleft: Teresa Gama
  13. 13. quadernsanimacio.net nº 10; Julho de 2009também o “reforço da parentalidade positiva”, mas apoiado em condiçõescomunitárias que não permitam o abandono da família ao desespero da suainoperacionalidade. PROMOVER UMA PARENTALIDADE POSITIVA – LÓGICA DE PREVENÇÃOCAPACIDADES EM DESENVOLVIMENTO PRINCÍPIOS DE PARENTALIDADE NA CRIANÇA POSITIVACapacidades Sociais e de Comunicação Construir e Manter um Ambiente seguro e InteressanteCapacidades de Autonomia Construir e Manter um Ambiente Caloroso e ResponsivoCapacidades Emocionais Construir Ambiente de Aprendizagem Positiva e EstimulanteCapacidades de Resolução de Supervisionar as Actividades daproblemas Criança – Disciplina Positiva Tomar Conta de Si como PessoaNão é seguro que esta perspectiva social e ecológica de intervenção consigaresolver todo o problema. É mesmo seguro que não o conseguirá. Com efeito,ela não enfrenta outras raízes do problema. No entanto, uma abordagem quepromova a regularização da vida comunitária, no sentido do reforço daparentalidade positiva e do desenvolvimento da autonomia das crianças ejovens poderá ajudar a eliminar muitas das raízes do problema, tornando-omais gerível, possibilitando assim que intervenções mais específicas nosprocessos disposicionais dos indivíduos possam ser mais eficazes.REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS  Balsa, et al. (2008). II Inquérito Nacional ao Consumo de Substâncias Psicoactivas na População Geral: Portugal 2007. Lisboa: CEOS/FCSH/UNL;  Bronfenbrenner, U (1979). The ecology of Human Development: Experiments by nature and Design. Cambridge: Harvard University Press;Comportamentos Auto-Destrutivos e Saúde Sexual dos Jovens. Copyleft: Teresa Gama
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  15. 15. quadernsanimacio.net nº 10; Julho de 2009 Impacto dos Comportamentos Auto- Destrutivos na Saúde Sexual O Caso do Consumo Excessivo do Álcool Mª Teresa Gama Barbosa Técnica Superior Principal de Serviço Social no Agrupamento de Centros de Saúde Porto Oriental. Girona, Junho 2009 teresagamaportuguesa@gmail.com http://quadernsanimacio.netComportamentos Auto-Destrutivos e Saúde Sexual dos Jovens. Copyleft: Teresa Gama

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