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A História do Brasil vista das margens de um rio
Veja como o homem se relacionou com a água em nosso país nos últimos 500 anos
Autor: Guilherme Pallerosi
Fonte: Revista Ciência Hoje das Crianças

Se pudéssemos pegar emprestados os

força física das águas, elas eram

praticamente não existiam mais

olhos dos primeiros portugueses que

usadas para moer a mandioca, o

minérios para serem retirados da

milho e outros alimentos. Além

terra. Durante esse período, os rios

disso, nas margens dos rios também

funcionavam como grandes estradas,

é mais comum encontrar animais

que ligavam as regiões mais remotas

para caçar e grande fartura de peixes,

às principais cidades. Ao longo desses

o que completava a alimentação

rios, foram construídos pequenos

daquelas pessoas.

sítios para que os viajantes pudessem

chegaram ao Brasil, em 1500, seria
possível enxergar o território em que
vivemos hoje de forma muito
diferente. Cidades estradas, pontes,
casas, edifícios, carros, caminhões:
nada disso existia. Se olhássemos esse
território do alto, veríamos apenas

Pelas margens dos rios passou muito

um verde exuberante, pintado pela

ouro

copa das arvores, estendendo-se sem
fim.

Os bandeirantes foram homens que,
entre os séculos 16 e 17, se
embrenharam pelo interior do país.
Muito corajosos, eles não temiam
desvendar os mistérios de outras
matas, diferentes em tudo de sua
terra natal. Apesar de haver inúmeros
perigos no caminho, eles vagavam

Os portugueses, quando chegaram
aqui no século 16, depararam-se com
um lugar selvagem, nada parecido
com a Europa. Era tudo tão diferente
que foi necessário que aprendessem
muito com os índios que aqui
viviam, para poderem desvendar os
segredos destas terras.

durante muitos meses em busca de
novas descobertas. Passado algum
tempo, entre o final do século 17 e o
início do século 18, eles descobriram
a existência de muito ouro e pedras
preciosas em lugares como Minas
Gerais, Mato Grosso e Goiás.

descansar e conseguir mais
mantimentos. Esses lugares, com o
tempo, se tornariam vilas e depois
cidades. Muitas existem até hoje.
Não pensem, no entanto, que essas
viagens eram fáceis. Para se ir de
Cuiabá, no Mato Grosso, até São
Paulo, por exemplo, eram necessários
meses subindo os rios. Nos trechos
mais difíceis, como nos casos de
corredeiras ou de uma cachoeira que
aparecesse no meio do caminho, era
preciso sair das canoas, descarregá-las
e levá-las nas costas até outro trecho
de melhor navegação. Imagine fazer
isso dezenas de vezes, carregando
cargas pesadas como ouro, armas e
comida!

A partir daí, os rios passaram a servir
como um importante meio de
transporte de mercadorias, uma vez
que era muito difícil construir
estradas naquela época. Eram usadas
canoas feitas com enormes troncos

No princípio, os rios serviam apenas
como ponto de referência para que
os aventureiros empenhados em
meter-se mata adentro não se
perdessem. Os vilarejos eram
construídos sempre perto de algum
rio ou córrego. Dessa maneira
haveria água suficiente para se
banhar, matar a sede e cozinhar.
A água também servia para fazer
funcionar engenhocas como o
moinho e o monjolo. Movidas pela

de árvores, exatamente iguais às dos
índios. Elas levavam comida e
materiais para serem usados nas
minas de ouro, além de carregar
todo o metal precioso para o litoral,
para que fosse vendido no
continente europeu. Essas viagens
pelos rios ficaram conhecidas como

Após o ciclo do ouro, cada região do
Brasil passou a cultivar e
comercializar o produto que melhor
se adaptava ao território. Dessa
forma, no século 19, ao Norte do
país, na região amazônica, passou-se
a extrair a borracha da seringueira,
encontrada em abundância na selva.

monções.

Já na região Nordeste, desde o século

A extração de ouro e de pedras

objetivo de vender o açúcar extraído

preciosas durou muitos anos.

a outros países. No Sudeste,

Terminou apenas quando

plantava-se café para exportação. Na

16 se plantava cana-de-açúcar, com o
região Sul, a principal atividade era a

a civilização moderna que estava

barragens para movimentar a turbina

pecuária: o gado era criado para ser

nascendo funcionasse.

que gera energia.

Foi aí que as coisas começaram a

Para cada mudança uma nova atitude

vendido para as demais regiões.
Essas atividades dependiam

complicar. As cidades por todo o país

diretamente das águas dos rios para

começaram a crescer e, sobretudo

irrigar as plantações, saciar a sede dos

após 1930, muitas pessoas que

animais, transportar pessoas e

moravam no campo foram para os

mercadorias, acionar moinhos etc. A

centros urbanos. Esse fenômeno

água que sempre nos beneficiou

aconteceu, a princípio, na região

passou a ser um recurso indispensável

Sudeste, principalmente onde fica a

para a economia das diferentes

cidade de São Paulo, porque ali se

regiões do Brasil.

concentrou a maior parte das

A força dos rios ilumina as cidades
Ao longo do século 19, o homem
construiu algumas engenhocas que
iriam mudar o modo de vida das
pessoas para sempre. Primeiramente,
foi descoberto como produzir
energia elétrica, depois como usar

indústrias naquele período. A
aglomeração de habitantes das
cidades consome grandes
quantidades de água e produz
toneladas de esgoto. Adivinha para
onde vai toda essa sujeira?
Infelizmente, acertou quem disse rios
e mares…

O Brasil possui 12% da água potável
do mundo, mas ela não está
espalhada igualmente pelo território.
Enquanto em algumas regiões as
pessoas sentem sede, por não haver
nem mesmo o que beber, em outros
lugares nunca foi dada a devida
importância para o desperdício de
água.
Foi mais ou menos em 1970 que
algumas pessoas de várias partes do
mundo começaram a questionar o
modo de vida que levamos: passaram
perceber muitas coisas que não
pareciam estar certas. É o caso dos
ecologistas. Esse grupo percebeu que

essa energia para fazer luz. Daí em

a natureza não suportaria tamanho

diante, a força dos rios passou a ser

abuso.

usada para produzir energia

No Brasil, eles tiveram uma grande

hidrelétrica e cidades inteiras se

influência nos anos 1980, lutando

iluminaram no final daquele período.

contra a destruição do meio
ambiente. Muitas batalhas pela
preservação da natureza foram
Na primeira metade do século 20,
começou a se pensar em saneamento
básico para as cidades, isto é, num
plano para levar toda água suja por

perdidas. Mas em 1988, aconteceu
uma grande vitória: a nova
Constituição aprovou leis que
protegiam a fauna a flora e as águas.

meio de canos para um lugar onde
ela pudesse ser tratada. Porém, as
cidades foram crescendo tão
rapidamente que até hoje não
conseguimos tratar essa água para
ficar limpa, antes de voltar para os
No começo do século 20, as grandes
cidades como conhecemos hoje
começaram a se formar. Para
funcionar bem, além de luz, elas
precisavam de bondes elétricos para
facilitar o transporte das pessoas. E
não eram somente as pessoas que
precisavam de energia elétrica: as
indústrias que começavam a surgir,
para fabricar produtos que usamos
no dia-a-dia, também utilizam a
energia hidrelétrica. A água passa a
ser um recurso indispensável para que

O que nos resta é ter consciência de

rios.

que toda a degradação dos rios foi

Como se isso não bastasse, ficamos
dependentes de energia elétrica.
Nossas ruas e casas são iluminadas, os
aparelhos domésticos são movidos a
eletricidade. Para suprir toda essa
demanda, foram construídas
centenas de usinas de energia
hidrelétrica ao longo do século 20.
Mas isso tem seu custo: pois para
construir usinas precisamos mudar o
curso dos rios e edificar grandes

consequência do modo de agirmos
ao longo dos anos. O que
precisamos, imediatamente, é mudar
alguns costumes, ter mais respeito
pelos rios. Pois onde já houve
fartura, hoje a fonte começa a secar.
Que isso sirva de alerta para nós!

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  • 1. A História do Brasil vista das margens de um rio Veja como o homem se relacionou com a água em nosso país nos últimos 500 anos Autor: Guilherme Pallerosi Fonte: Revista Ciência Hoje das Crianças Se pudéssemos pegar emprestados os força física das águas, elas eram praticamente não existiam mais olhos dos primeiros portugueses que usadas para moer a mandioca, o minérios para serem retirados da milho e outros alimentos. Além terra. Durante esse período, os rios disso, nas margens dos rios também funcionavam como grandes estradas, é mais comum encontrar animais que ligavam as regiões mais remotas para caçar e grande fartura de peixes, às principais cidades. Ao longo desses o que completava a alimentação rios, foram construídos pequenos daquelas pessoas. sítios para que os viajantes pudessem chegaram ao Brasil, em 1500, seria possível enxergar o território em que vivemos hoje de forma muito diferente. Cidades estradas, pontes, casas, edifícios, carros, caminhões: nada disso existia. Se olhássemos esse território do alto, veríamos apenas Pelas margens dos rios passou muito um verde exuberante, pintado pela ouro copa das arvores, estendendo-se sem fim. Os bandeirantes foram homens que, entre os séculos 16 e 17, se embrenharam pelo interior do país. Muito corajosos, eles não temiam desvendar os mistérios de outras matas, diferentes em tudo de sua terra natal. Apesar de haver inúmeros perigos no caminho, eles vagavam Os portugueses, quando chegaram aqui no século 16, depararam-se com um lugar selvagem, nada parecido com a Europa. Era tudo tão diferente que foi necessário que aprendessem muito com os índios que aqui viviam, para poderem desvendar os segredos destas terras. durante muitos meses em busca de novas descobertas. Passado algum tempo, entre o final do século 17 e o início do século 18, eles descobriram a existência de muito ouro e pedras preciosas em lugares como Minas Gerais, Mato Grosso e Goiás. descansar e conseguir mais mantimentos. Esses lugares, com o tempo, se tornariam vilas e depois cidades. Muitas existem até hoje. Não pensem, no entanto, que essas viagens eram fáceis. Para se ir de Cuiabá, no Mato Grosso, até São Paulo, por exemplo, eram necessários meses subindo os rios. Nos trechos mais difíceis, como nos casos de corredeiras ou de uma cachoeira que aparecesse no meio do caminho, era preciso sair das canoas, descarregá-las e levá-las nas costas até outro trecho de melhor navegação. Imagine fazer isso dezenas de vezes, carregando cargas pesadas como ouro, armas e comida! A partir daí, os rios passaram a servir como um importante meio de transporte de mercadorias, uma vez que era muito difícil construir estradas naquela época. Eram usadas canoas feitas com enormes troncos No princípio, os rios serviam apenas como ponto de referência para que os aventureiros empenhados em meter-se mata adentro não se perdessem. Os vilarejos eram construídos sempre perto de algum rio ou córrego. Dessa maneira haveria água suficiente para se banhar, matar a sede e cozinhar. A água também servia para fazer funcionar engenhocas como o moinho e o monjolo. Movidas pela de árvores, exatamente iguais às dos índios. Elas levavam comida e materiais para serem usados nas minas de ouro, além de carregar todo o metal precioso para o litoral, para que fosse vendido no continente europeu. Essas viagens pelos rios ficaram conhecidas como Após o ciclo do ouro, cada região do Brasil passou a cultivar e comercializar o produto que melhor se adaptava ao território. Dessa forma, no século 19, ao Norte do país, na região amazônica, passou-se a extrair a borracha da seringueira, encontrada em abundância na selva. monções. Já na região Nordeste, desde o século A extração de ouro e de pedras objetivo de vender o açúcar extraído preciosas durou muitos anos. a outros países. No Sudeste, Terminou apenas quando plantava-se café para exportação. Na 16 se plantava cana-de-açúcar, com o
  • 2. região Sul, a principal atividade era a a civilização moderna que estava barragens para movimentar a turbina pecuária: o gado era criado para ser nascendo funcionasse. que gera energia. Foi aí que as coisas começaram a Para cada mudança uma nova atitude vendido para as demais regiões. Essas atividades dependiam complicar. As cidades por todo o país diretamente das águas dos rios para começaram a crescer e, sobretudo irrigar as plantações, saciar a sede dos após 1930, muitas pessoas que animais, transportar pessoas e moravam no campo foram para os mercadorias, acionar moinhos etc. A centros urbanos. Esse fenômeno água que sempre nos beneficiou aconteceu, a princípio, na região passou a ser um recurso indispensável Sudeste, principalmente onde fica a para a economia das diferentes cidade de São Paulo, porque ali se regiões do Brasil. concentrou a maior parte das A força dos rios ilumina as cidades Ao longo do século 19, o homem construiu algumas engenhocas que iriam mudar o modo de vida das pessoas para sempre. Primeiramente, foi descoberto como produzir energia elétrica, depois como usar indústrias naquele período. A aglomeração de habitantes das cidades consome grandes quantidades de água e produz toneladas de esgoto. Adivinha para onde vai toda essa sujeira? Infelizmente, acertou quem disse rios e mares… O Brasil possui 12% da água potável do mundo, mas ela não está espalhada igualmente pelo território. Enquanto em algumas regiões as pessoas sentem sede, por não haver nem mesmo o que beber, em outros lugares nunca foi dada a devida importância para o desperdício de água. Foi mais ou menos em 1970 que algumas pessoas de várias partes do mundo começaram a questionar o modo de vida que levamos: passaram perceber muitas coisas que não pareciam estar certas. É o caso dos ecologistas. Esse grupo percebeu que essa energia para fazer luz. Daí em a natureza não suportaria tamanho diante, a força dos rios passou a ser abuso. usada para produzir energia No Brasil, eles tiveram uma grande hidrelétrica e cidades inteiras se influência nos anos 1980, lutando iluminaram no final daquele período. contra a destruição do meio ambiente. Muitas batalhas pela preservação da natureza foram Na primeira metade do século 20, começou a se pensar em saneamento básico para as cidades, isto é, num plano para levar toda água suja por perdidas. Mas em 1988, aconteceu uma grande vitória: a nova Constituição aprovou leis que protegiam a fauna a flora e as águas. meio de canos para um lugar onde ela pudesse ser tratada. Porém, as cidades foram crescendo tão rapidamente que até hoje não conseguimos tratar essa água para ficar limpa, antes de voltar para os No começo do século 20, as grandes cidades como conhecemos hoje começaram a se formar. Para funcionar bem, além de luz, elas precisavam de bondes elétricos para facilitar o transporte das pessoas. E não eram somente as pessoas que precisavam de energia elétrica: as indústrias que começavam a surgir, para fabricar produtos que usamos no dia-a-dia, também utilizam a energia hidrelétrica. A água passa a ser um recurso indispensável para que O que nos resta é ter consciência de rios. que toda a degradação dos rios foi Como se isso não bastasse, ficamos dependentes de energia elétrica. Nossas ruas e casas são iluminadas, os aparelhos domésticos são movidos a eletricidade. Para suprir toda essa demanda, foram construídas centenas de usinas de energia hidrelétrica ao longo do século 20. Mas isso tem seu custo: pois para construir usinas precisamos mudar o curso dos rios e edificar grandes consequência do modo de agirmos ao longo dos anos. O que precisamos, imediatamente, é mudar alguns costumes, ter mais respeito pelos rios. Pois onde já houve fartura, hoje a fonte começa a secar. Que isso sirva de alerta para nós!