Era uma vez 25 de abril!

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Um pequeno conto sobre o 25 de abril de 1974

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Era uma vez 25 de abril!

  1. 1. “Quem conta um conto, acrescenta um ponto” Era uma vez, há muito anos atrás, num país muito distante, um povo que vivia envolvido numa profunda tristeza. Quem visse de fora provavelmente não compreenderia mas quem estava por dentro sabia muito bem o motivo de não conseguirem viver, de não conseguirem sorrir, de não conseguirem atingir aquela felicidade por que tanto desesperançadamente ansiavam. Portugal era um país simples, de uma beleza tremenda, repleto de mistérios e lugares belos que ainda hoje podemos ver e visitar, mas mesmo assim, não dava para as pessoas que lá habitavam se absterem da imensurável tristeza que tão fortemente tomava conta deles! As pessoas andavam cabisbaixas, com medo, preferindo refugiar-se dentro das suas próprias casas. Mal olhavam umas para as outras quando se cruzavam, seu ritmo era apressado, paravam por pouco tempo para se comunicarem e falavam sempre baixo, assustados, olhando sempre á sua volta com medo irrevogável de que alguém pudesse estar a ouvir, a observar… Neste momento deverão estar a questionar-se do porquê; Pois bem, é que o povo vivia numa ditadura militar desencadeada por um senhor muito rígido, imprudente e exuberante chamado António Salazar. António Salazar pretendia criar um país perfeito por isso criou um regime chamado Estado Novo”, que assentava em 3 ideais, Deus, Pátria e Família… Contudo esquecia-se que não é pela força e proibição que se conquista um povo mas sim pela bondade, pela perseverança, pela demonstração de preocupação com o seu bem-estar e claramente pelos atos “cometidos” em prol disso. Foi o maior erro dele! Apesar das várias obras públicas feitas por ele, este regime escondia um grande segredo, nesse tempo não havia liberdade nenhuma, nem sequer de falar e os direitos, os direitos eram muito limitados. Devido à chegada da censura quase todas as formas de comunicação eram controladas e muitas vezes proibidas, arte, teatro, cinema, rádio, televisão e mesmo os livros e artigos de jornal eram severamente supervisionados, se alguém ousasse falasse mal do governo era imediatamente preso e na pior das hipóteses era morto, por isso as pessoas andavam sempre com medo, sempre infelizes, e embora os povos de fora não entendessem o porquê a verdade é que o povo português tinha grandes motivos para isso. Haviam sido descaradamente roubados do maior bem que poderiam ter, a liberdade! E pensavam eles? - “Liberdade?
  2. 2. - Mas é uma coisa tão banal, como pode ser um problema para vocês?” Só quem estava por dentro, só quem sentia isso na própria pele, é que compreendia a falta que algo que parece tão simples fazia. Era uma época bastante difícil em que as pessoas mal tinham que comer, os empregos mal davam para pagar as contas e muitas vezes corriam o risco de perdê-los caso os espiões deste impiedoso e imponente ditador desconfiassem que eles eram contra o governo deste. Às vezes ponho-me a pensar e o que me vem á ideia é o seguinte: - Salazar, Salazar nem sabes como tudo vai acabar! Coitadinho! Foi bem merecido… Mas continuando, o único espaço em que o povo podia falar era dentro das próprias casas, com tudo trancado para que tivessem a certeza de que nenhum membro do governo os estava a ouvir. E mesmo assim tinham de se pôr á cautela. Nunca se sabe quem poderia estar á espreita. Salazar abusou de tal maneira do seu poder como representante do país que criou a PIDE, (Polícia Internacional e de Defesa do Estado), que ainda veio gerar mais medo, mais mortes e mais controvérsia para este “miserável” e descontente país. Podemos denotar através deste poema de José Cutileiro, o tamanho do medo que o povo sentia: “"É É a medo que escrevo. A medo penso, A medo sofro e empreendo e calo. A medo peso os termos quando falo. A medo me renego, me convenço. A medo amo. A medo me pertenço. A medo repouso no intervalo De outros medos. A medo é que resvalo O corpo escrutador, inquieto, tenso. A medo durmo. A medo acordo. A medo Invento. A medo passo, a medo fico. A medo meço o pobre, meço o rico. A medo guardo confissão, segredo, Dúvida, fé. A medo. A medo tudo. Que já me querem cego, surdo e mudo. ” José Cutileiro, “Os medos” in Versos da mão esquerda, 1961
  3. 3. A PIDE existia para controlar e erradicar as manifestações de opinião e impedir com que as forças que estavam contra o governo se organizassem politicamente ou mesmo para impedir o povo de formar sindicatos pois não lhes era atribuídos quaisquer direitos. Que país triste e impotente este havia-se tornado! Polícia por toda a parte, crianças sem poderem ler um livro, ouvir uma música de que gostassem, ou um filme, ou simplesmente beber coca-cola. Sim, coca- cola, parece estúpido não parece? Mas ainda hoje não se sabe porque esta era proibida. Rapazes e raparigas também não podiam conviver e eram repreendidos se o fizessem, eram portanto colocados em colégios separados para não se poderem ver. Até as brincadeiras no recreio eram separadas por grades. As raparigas eram obrigadas a andar de saias e os rapazes, quando cresciam eram obrigados a ir para a guerra e a matar gente que nem sequer lhes tinha feito mal nenhum. Muitos enlouqueciam enquanto outros morriam ou chegavam bem feridos. Os povos de fora, das vezes que entravam no nosso país e tinham oportunidade de conversar com os moradores achavam estranho quando estes diziam que nem sequer podiam votar, ou escolher as pessoas que os governavam. - Mas que absurdo, diziam eles. E ai percebiam o porquê da tamanha tristeza dos habitantes de Portugal e o porquê de uma coisa que parecia tão banal como a liberdade era tão importante na vida de cada um e claro, ficavam também tristes e solidários com a causa destes. Em 1960, Marcelo Caetano sucedeu a Salazar, mas nada mudou. Durante 13 anos, tempo que durou a guerra colonial o povo português foi obrigado a passar pelas mais variadas formas de tortura e sofrimento. Finalmente revoltados com tanta opressão, tantos desgostos causados por António Salazar, pelo seu sucessor e pelos seus representantes, o povo decidiu unir-se e conquistar de volta o que era deles por direito. No dia 25 de Abril de 1974, O MFA, (Movimento das Forças Armadas), foi responsável pela revolução que terminou com o Estado Novo em Portugal. Os militares estavam descontentes com a política seguida pelo regime na guerra colonial e opunham-se completamente á forma como o país estava ser governado, então decidiram unir forças e acabar de vez com os condicionamentos instalados, que os impediam de viver.
  4. 4. Uniram-se então nos quarteis, organizaram-se e saíram á rua acabando assim com a ditadura do “estado novo” e instaurando um regime democrático, reconquistando assim a sua liberdade. O povo não poderia estar mais contente, de repente as varandas todas encheram-se de bandeiras e cravos vermelhos, e acompanharam os militares numa cantoria e num só grito pelas ruas da cidade: - “Viva a Liberdade, viva a liberdade!”. Os prisioneiros foram soltos, os homens que tinha sido “expulsos” regressaram a casa para as suas famílias e óbvio que o nosso “terrorista” acabou por se render. As pessoas falaram muito, falaram tudo aquilo que durante anos foram obrigadas a calar, e tudo voltou ao normal. Felizmente a liberdade havia sido restituída! Hoje podemos votar, aliás é um direito mas também um dever. Todos os cidadãos deveriam votar para escolher quem os vai governar, mas infelizmente parece que se esqueceram de como viviam antes do 25 de Abril, quando não tinham direito a nada, quando nem sequer podiam falar! É pena ver que há tanta gente que não cumpre o seu dever e no fim é que reclama, como se tivessem contribuído em alguma coisa para o futuro do país! Mas o povo Português é assim. - Será que se esqueceram daquilo por que passaram? - Como é que é possível? São perguntas e mais perguntas que me vêm à cabeça e não paro de me questionar. - Será que um dia vai mudar? Talvez! Mas entretanto fica a pergunta no ar.

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