Síntese djalma

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Biografia Djalma Guimarães

  • Meus parabéns às jovens autoras pela riquíssima biografia apresentada pelo grande geocientista que foi Djalma Guimarães. Venho sugerir que este trabalho de compilação seja disponibilizado através de um relato impresso. Muito provavelmente a Codemig ou a CPRM poderiam patrocinar a sua impressão e distribuição. Cordiais Saudações
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Síntese djalma

  1. 1. Síntese HistóricaA trajetória de Djalma Guimarães Gabriela Dias de Oliveira Suely Aparecida Ribeiro Monteiro
  2. 2. Síntese Histórica Djalma Guimarães Gabriela Oliveira e Suely Monteiro Sumário1. Apresentação.............................................................................. 22. Breve esboço biográfico................................................................ 23. Djalma Guimarães e a sua ciência.................................................. 74. O cientista no cotidiano............................................................... 125. Entre a memória e a história: a trajetória de Djalma Guimarães....... 166. Bibliografia ................................................................................207. Anexos .....................................................................................21 1
  3. 3. Síntese Histórica Djalma Guimarães Gabriela Oliveira e Suely Monteiro 1. Apresentação O objetivo do presente trabalho é apresentar a trajetória do cientistaDjalma Guimarães, abordando suas principais contribuições para ageologia e as demais ciências da terra. Nesse sentido, buscar-se-ádemonstrar como o seu cotidiano, as suas experiências e a sua vivênciafamiliar foram decisivas na formação acadêmica e intelectual de nossopersonagem. Como todo cientista de grande projeção, Djalma Guimarãesarregimentou um séquito e foi celebrado por suas descobertas ecolaborações para o campo, mas também foi alvo de críticas contundentesno meio acadêmico e profissional. Assim, a nossa proposta não se centraem demonstrar a vida pública de Djalma Guimarães como um cientistaexponencial e com idéias avançadas para o seu período de atuação.Considerando a importância de sua trajetória profissional, pretendemostambém apontar aspectos da sua vida privada, contextualizando ocientista em seu tempo e como produto de seu meio social. 2. Breve esboço biográfico Princípe dos geólogos. Essa foi a expressão criada por Madame Curie,numa clara demonstração de reverência e tributo, para descrever DjalmaGuimarães, aclamado cientista do século XX. Engenheiro por formação,Djalma Guimarães desenvolveu trabalhos nas áreas da petrografia,petrologia, petroquímica, geologia e em muitas outras, nas quais eraautodidata. Nascido no limiar da República brasileira, em 5 de novembro de1894, os valores positivos e liberais, pilares da nova ordem política dopaís, tornaram-se, do mesmo modo, constituintes na formação intelectual,profissional e familiar de nosso personagem. Natural de Santa Luzia,importante vila durante o ciclo do ouro em Minas Gerais, DjalmaGuimarães iniciou a sua formação acadêmica na então capital federal, Rio 2
  4. 4. Síntese Histórica Djalma Guimarães Gabriela Oliveira e Suely Monteirode Janeiro, onde estudou no Colégio Pedro II, tradicional instituição deensino público no país, fundada durante o período regencial no Império. Oreferido colégio destaca-se no cenário nacional pela lista de seus ilustresprofessores como Capistrano de Abreu, Heitor Villa-Lobos e Sílvio Romeroe alunos como Afonso Arinos e Manuel Bandeira. Anos mais tarde, regressou para Minas Gerais e matriculou-se nocurso preparatório da Escola de Minas de Ouro Preto (EMOP). Escola essaque ingressou em 1913 e na qual realizou a sua formação geral, comoengenheiro civil e de minas. A Escola de Minas de Ouro Preto, fundada em 12 de outubro de1876, foi fruto de um projeto idealizado pelo Imperador Pedro II eelaborado pelo geólogo francês Claude Henry Gorceix, que veio ao Brasil àconvite do monarca. Em linhas gerais, a função da nova escola deveria sero levantamento das riquezas de Minas Gerais e do Brasil e o consequente 1desenvolvimento da mineração e da siderurgia no país. Oaperfeiçoamento do ensino, da ciência e da tecnologia eram tambémfatores preponderantes nessa instituição mas, antes de tudo, as bases desua criação estiveram alicerçadas em um vontade política, como observouo historiador José Murilo de Carvalho.2 Nesse sentido, a Escola de Minasde Ouro Preto priorizava a pesquisa empírica em contaposição à culturalivresca. Não obstante, nos seus anos iniciais, poucos alunos se dedicarama ocupações típicas de engenheiros de minas, metalurgistas ou geólogos,pois as maiores minerações daquele período eram de propriedade inglesa,as quais não ofereciam oportunidade de emprego para os brasileiros.Deste modo, apenas os alunos mais inclinados aos estudos se dedicaram àpesquisa científica, com os quais teve origem a primeira geração degeólogos brasileiros.3 As histórias de Claude Henry Gorceix e Djalma Guimarães não secruzam apenas na EMOP e na trajetória profissional. Gorceix casou-se com1 CARVALHO, José Murilo. A Escola De Minas de Ouro Preto: O peso da glória. BeloHorizonte: Ed. UFMG, 2002, p. 19.2 Ibidem, passim.3 Ibidem, p. 21. 3
  5. 5. Síntese Histórica Djalma Guimarães Gabriela Oliveira e Suely MonteiroConstança, tia paterna de nosso personagem. Outras de suas tias tambémveiram a desposar-se com grandes personalidades da geociência: MariaCanuta casou-se com Paul Ferrand e Elisa com João Pandiá Calógeras.4Provavelmente, grandes influências na escolha da carreira profissional deDjalma Guimarães. Dentre os seus familiares, figuras importantes nocenário político e intelectual, destacamos ainda o seu tio avô, BernardoGuimarães, afamado escritor, que tem entre suas obras mais populares oromance O Garimpeiro. Djalma Guimarães graduou-se em 1919 na EMOP, nessa ocasião foiagraciado com uma viagem pela Europa, prêmio concedido ao alunodestaque daquele ano. Ficou lisongeado com o prêmio, porém o convitefoi declinado. O nosso personagem acreditava que era hora de seembrenhar no universo profissional e, logo após a sua formatura, retornouao Rio de Janeiro para trabalhar como engenheiro civil, campo quenaquele período absorvia a maior parte dos engenheiros da EMOP. Noinício da carreira atuou como engenheiro-chefe do tráfego da estrada deferro de Teresópolis e associou-se com Roberto Simonsen para construiruma via de ligação entre os bairros cariocas Botafogo e Flamengo, aAvenida Rui Barbosa. Casou-se em 1920 com Rute Teixeira, sua prima, com quem teve 4filhos: Luiz Raul Guimarães (1922), Eva Guimarães (1923), LucianoTeixeira Guimarães (1924) e João Pandiá Guimarães (1926), esse últimorecebeu o nome em homenagem ao seu tio por afinidade, João PandiáCalógeras, com quem mateve estreito laços de afetividade e um dosgrandes responsáveis por sua formação profissional. Em 1921 Djalma Guimarães abandona as atividades comoengenheiro civil e passou a trabalhar como auxiliar químico no ServiçoGeológico e Mineralógico do Brasil. Dois anos mais tarde foi admitido porconcurso na mesma instuição como petrográfo. É nesse período que4 <http://www.geocities.com/Athens/Olympus/3583/gorceix.htm> Acesso em15/10/2008. 4
  6. 6. Síntese Histórica Djalma Guimarães Gabriela Oliveira e Suely MonteiroDjalma Guimarães inicia a sua produção científica e começa a destacar-seno campo da geologia. Ainda no Rio de Janeiro, foi convidado em 1932 para organizar oServiço Geológico do Estado de Minas Gerais, posteriormente Serviço deProdução Mineral. Na década de 1930 recebeu outras nomeações comoservidor público e ajudou a criar a Escola de Ciências da Universidade doDistrito Federal, atual UFRJ, na qual organizou o curso e ministrou aulasde geologia. Regressou para Minas Gerais em 1938, à epoca para trabalhar comodiretor da mina de ouro Juca Vieira, em Caeté. Posteriormente foiconsultor técnico e diretor da Companhia de Brasileira de Mineração. Em1944, com a criação do Instituto Tecnológico Industrial (ITI), assumiu adireção do setor de geologia e geoquímica dessa instituição. Durante a suaatuação no ITI, o nosso personagem realizou importantes descobertas queo projetaram no cenário da geologia internacional. Foi membro de inúmeras associações científicas nacionais einternacionais. Dentre essas associações, detacamos a SociedadeBrasileira de Geologia, fundada em 1946, da qual Djalma Guimarães foi oseu primeiro presidente. A memória de Djalma Guimarães ficou assinalada por suaspesquisas na área da geologia. Contudo, sua preocupação como estudiosoda geociência não se limitava às questões relativas a descobertas e oaprimoramento tecnológico do campo. Compreendendo a ciência de modomais amplo, o nosso personagem ultrapassou as paredes do seulaboratório e, com certo engajamento, colaborou nas discussões queenvolviam a profissionalização da geologia e o ensino de ciências no Brasil,temas esses que vieram a ser tratados em seus artigos. Nesse sentido, osaspectos que se tornaram temas centrais da trajetória de nossopersonagem – pesquisa, ensino e profissionalização – foram contempladosem sua contribuição para a criação do Conselho Nacional deDesenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), ainda nos dias atuais,uma das maiores intituições de fomento a pesquisa no Brasil. 5
  7. 7. Síntese Histórica Djalma Guimarães Gabriela Oliveira e Suely Monteiro Em suas diferentes frentes de atuação, Djalma Guimarães recebeutodos os prêmios concedidos a seus pares naquele período: Prêmio JoséGiorgi da USP; medalhas de ouro Orvile Derby e José Bonifácio Andrada eSilva e Medalha da Inconfidência. Foi ainda eleito Professor DoutorHonoris Causa pela Ufop e pela Universidade de Lisboa.5 A sua prática científica foi amplamente celebrada durante toda a suatrajetória, com homenagens tradicionais no meio acadêmico, passandomesmo pelas poucos convencionais para um homem de ciência, como ado poema abaixo, escrito por Moacyr Lisboa: Mago do micróscopio, apóstolo das ciências, cuja vida é estudar as massas cristalinas, é cruzar os nicoes, medir as birrefrigências, ver as franjas de BECK os índices das Andesinas... Traballhos publicou sobre as subsidencias, As granitizações, as rochas alcalinas, O ouro de Cuité e de outras ocorrências, sobre a rocha matriz dos diamantes de Minas. É um mestre consagrado; e, em sua bibliografia, mostra-nos a cultura em sã filosofia na linguagem precisa em que o gênio palpita... Dos nossos minerais um merece menção porque tanto me lembra o mestre como o irmão: é um novo tantalato e o nome é DJALMAITA Em 1974, pouco após a sua morte, ocorrida em 10 de outubro de1973, por iniciativa de familiares, amigos e com o apoio da prefeitura deBelo Horizonte, a cidade foi contemplada com um museu dedicado àmineralogia, cuja maior parte do acervo teria pertencido à antiga FeiraPermanente de Amostras. O museu recebeu o nome de Djalma Guimarães,uma homenagem à sua contibuição no campo da geociência. O Museu de Mineralogia Djalma Guimarães (MMDG) situado à Praçada Liberdade, no excêntrico prédio popularmente conhecido como Rainhada Sucata, tem a guarda de grande volume de trabalhos do cientista. No5 MARCIANO, Vitória Régia Péres da Rocha Oliveiros. “Um mestre que amava a Terra”.Revista Diversa, n. 11, mai. 2005. <http://www.ufmg.br/diversa/11/artigo4.html>Acesso em 04/10/2008. 6
  8. 8. Síntese Histórica Djalma Guimarães Gabriela Oliveira e Suely MonteiroMuseu há um pequeno espaço dedicado à memória de Djalma Guimarães,no qual estão em exposição objetos, livros, amostras de mineraisdescritas pelo cientista e outras nomeadas em sua homenagem: aDjalmaita e Guimarãesita. 3. Djalma Guimarães e sua ciência Pesquisador ávido, Djalma Guimarães produziu compulsivamentenos anos dedicados ao trabalho e à pesquisa em geologia. Tamanhaprodução científica acabou por gerar contradições sobre os números detrabalhos que publicou. O certo é que a quantidade é expressiva, emmédia 240, sendo que em alguns casos, encontramos referências queesse número ultrapasse a casa das 3 dezenas. Entre livros, artigos,conferências e discursos, Djalma Guimarães colaborou incisivamente parao desenvolvimento da geologia no Brasil, colocando o país em evidênciano cenário internacional. Trouxe à tona muitas descobertas, criou equestionou teorias aceitas e tornou-se um exímio escritor, publicando paraseus pares e para o mundo, os seus experimentos e os resultados de suaspesquisas. Alguns dos seus trabalhos ainda permanecem inéditos, osquais se encontram sob a guarda do MMDG. Sua experiência foi compartilhada com alunos de diversas intituiçõespara as quais lecionou, como a Universidade do Distrito Federal,Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e a Escola de Minas de OuroPreto. De acordo com o afamado livro organizado por Fernando Azevedo,As Ciências no Brasil, Djalma Guimarães, seja em sua atuação comoprofessor ou pesquisador, contribuiu decisivamente para a formação deum grupo de geociência em Minas Gerais.66 As Ciências no Brasil, livro organizador pelo educador e bacharel em direito FernandoAzevedo, foi publicado pela primeira vez em 1956 e tornou-se um marco da história daciência do país. AZEVEDO, Fernando (org). As Ciências no Brasil. Rio de Janeiro: Editorada Universidade Federal do Rio de Janeiro, 1994. 2v. 7
  9. 9. Síntese Histórica Djalma Guimarães Gabriela Oliveira e Suely Monteiro Nas suas pesquisas sobre os minerais, o microscópio tornou-seferramenta inseparável e obrigatória, tanto que chegou a ser denominadocomo o sábio do microscópio. Segundo nos relatou o seu neto MiltonGuimarães Bueno Prado, poucos dias antes de falecer, Djalma Guimarãeshavia encomendado um novo micróscópio para o seu laboratório, mas emvirtude de seu estado de saúde e, por sua consequente internaçãohospitalar, não chegou a usufruir do benefícios do instrumento. Teriaentão solicitado que o microscópio fosse levado ao hospital, pedido que foinegado, pois sua saúde carecia de cuidados e, por ordem médica,permaneceu aqueles dias em absoluto repouso. Como nos lembra Manoel Teixeira da Costa, geólogo e primo deDjalma Guimarães, o nosso personagem era um homem aficionado porseu trabalho, sendo sua memória frequentemente associada à sua práticacientífica. O relacionamento de Djalma Guimarães com as rochas, ultrapassava de muito, a corriqueira intimidade que a maioria dos naturalistas mantém com os elementos da natureza. (...) Seu laboratório, foi sempre, para ele, aquela Pasárgada do poeta, à beira de cujo rio, as rochas vinham lhe contar as suas estórias.7 Conforme relatou os Srs. Cláudio Vieira Dutra e Antônio de PáduaVianna Clementino, a imagem de Djalma Guimarães ficaria marcada nomeio acadêmico por uma polêmica com o também geólogo Otávio Barbosa,acerca da Teoria da Granitização. O nosso personagem iniciara as suas pesquisas sobre a gênese dasrochas graníticas no final da década de 1920. O resumo dessas idéias foipublicado na Alemanha, em 1938, sob o título de Das problem derGranitbildung. Por ter sido publicado concomitantemente ao trabalho de H.G. Backlund, as pesquisas reacederam o debate em torno da origem dasrochas, por conseguinte, contribuindo para que Djalma Guimarães ficasseconhecido como um dos pais da Teoria da Granitização.87 COSTA, Manoel Teixeira da. “A obra de Djalma Guimarães”. Revista da Escola de Minas,s.d., p. 6-8.8 Sobre a Teoria da Granitização e a contribuição de Djalma Guimarães, ver: LIMA,Gelson Rangel; DOMINGUES, Alfredo J. Porto. “Estrutura Geral do Globo”. In: Curso de 8
  10. 10. Síntese Histórica Djalma Guimarães Gabriela Oliveira e Suely Monteiro Se a Teoria da Granitização o projetou internacionalemente, DjalmaGuimarães foi também alvo de inúmeras críticas, inclusive de cientistasbrasileiros. E foi em torno desse tema que ocorreu o desentendimentocom Otávio Machado. O geólogo, em tese defendida na USP, colocava emdúvida as proposições defendidas por nosso personagem. Fato esse queestremeceu a amizade entre eles e impulsionou Djalma Guimarães adefender veementemente a sua teoria no artigo intitulado O primeirocrítico brasileiro da teoria da granitização. Após esse evento, o nossopersonagem ficaria marcado como uma figura ranzinza e contundente, oque de acordo com os amigos e familiares, não correspondia à realidade. Tendo a geociência por arcabouço, o nosso personagem ousoutransitar por outras áreas e estabelecer um diálogo com outros campos doconhecimento. Para exemplificar, podemos citar o seu estudo sobre osdiferentes componentes presentes na alimentação humana, tais comocobalto, cobre e zinco, e a interação metabólica entre esses elementos e avida. Esse estudo foi uma grande novidade no período, mesmo porque amedicina ortomolecular ainda não estava em voga. A compilação dessapesquisa foi publicada em 1949, com o título de As forças propulsoras davida e a geoquímica.9 Ainda na área da geoquímica, publicou trabalhos sobre ametalogênese. O primeiros deles foi divulgado apenas no exterior, Mineraldeposits of magmatic origin, cujo resumo foi também publicado narenomada revista Economic Geology. Essa nova teoria foi aceita e incluídana disciplina de Geologia Econômica de vários cursos de geologia dosEstados Unidos.10 O olhar arguto do cientista, pelas lentes do seu micróscópio depolarização, permitiu que ele descrevesse 4 novos minerais: eschwegeita,Geografia para Professores do Ensino Superior. s. l., Ministério do Planejamento eCoordenação Geral; Instituto Brasileiro de Geografia, 1970.<http://biblioteca.ibge.gov.br/visualizacao/monografias/GEBIS%20-%20RJ/CursodeFerias/Curso%20de%20geografia%20para%20prof%20do%20ensino%20superior%20jan%201970_n16.pdf> Acesso em 05/10/2008.9 GUIMARÃES, Luiz Raul. Entrevista com Suely Aparecida Ribeiro Monteiro. BeloHorizonte, 21 de outubro de 2008.10 MARCIANO, op. cit. 9
  11. 11. Síntese Histórica Djalma Guimarães Gabriela Oliveira e Suely Monteiroarrojadita, pennaíta e geannettita, nome dado em homenagem aosgeólogos Barão von Eschwege, Arrojado Lisboa, Santos Penna e aoengenheiro Renê Giannetti, respectivamente. Descreveu também 2metereoritos: o primeiro, juntamente com Luciano Jacques de Moraes,recolhido em Serra do Magé (PE) no ano de 1927, e o segundo, em 1958,coletado no córrego do Areado, Patos de Minas (MG).11 Na área de mineralogia, realizou estudos em diversas regiões deMinas Gerais, como a análise dos pegmatitos em São João Del Rey e doferro e do manganês no centro do Estado. À Djalma Guimarães é atribuído,juntamente com Otávio Machado, a confecção, até então, mais completa edetalhada do mapa geológico de Minas Gerais. 12 Ampliando as suaspesquisas para outras regiões do Brasil, estudou os depósitos decassiterita em Roraima e a magnetita em Santa Catarina, entre tantos etantos outros estudos. Todavia, as suas maiores contribuições transcederam o campo daciência e tiveram reflexos na economia e no cotidiano da sociedade.Dentro dessa perspectiva, ressaltamos as suas descobertas na região doBarreiro de Araxá: as jazidas de apatita (fosfato) e pirocloro (nióbio). No que tange à reserva de apatita, o seu valor econômico e suarelevância, importante destacar o fosfato na sua composição e a produçãode fertilizantes a partir dessa matéria-prima. Segundo nos relatou oquímico Cláudio Vieira Dutra e o engenheiro Antônio de Pádua ViannaClementino, ambos assistentes de nosso personagem à época de suadireção no ITI, o adubo era o grande problema que se colocava para ocrescimento da agricultura mineira em meados do século XX. DjalmaGuimarães tinha consciência da importância de sua descoberta e, em1946, publicou o artigo Fertilizantes; problema de sobrevivência, no qualestabelecia relações entre a sua pesquisa científica, o cotidiano dasociedade e a economia. Destarte, a descoberta dessa jazida veio deencontro com as expectativas tanto científicas quanto políticas. A patente11 Ibidem.12 Um exemplar desse mapa encontra-se no acervo de Djalma Guimarães no MMDG. 10
  12. 12. Síntese Histórica Djalma Guimarães Gabriela Oliveira e Suely Monteiroda produção de fertilizantes e os direitos de exploração das jazidasficaram sob a tutela do Estado. Durante o governo de Juscelino Kubitschek,criou-se a Fertisa, empresa estatal encarregada da produção defertilizantes para a prosperidade da lavoura mineira. Outra importante contribuição, também dentro das perspectativasacima descritas, foi a descoberta do maior depósito de nióbio do mundo.Depósito esse que, segundo os especialistas, tendo por base o consumoatual, supriria as necessidades da humanidade por mais de 5 séculos. Embalado pelo discurso pós Segunda Guerra Mundial, pelaspesquisas e a corrida por materiais radioativos, Djalma Guimarães aoprocurar por urânio acabou encontrando uma grande jazida de pirocloro,abundante em nióbio, no município de Araxá. As diferentes utilidades donióbio na indústria transformaram a ocorrência desse metal num grandeatrativo econômico. Na ocasião da descoberta do nióbio, DjalmaGuimarães já sabia de seu valor, tanto que ressaltou em seu relatório: Os impulsos dado, nestes últimos anos, à fabricação de aviões a jato, armas modernas de tiro rápido, couraça de navios e submarinos resistentes à corrosão, determinou uma verdadeira “fome de nióbio” nos países industrialmente desenvolvidos.13 Nesse mesmo relatório, o cientista ressaltou que as jazidas de nióbioencontradas em outros países até então tinham baixo teor do metal, secomparados à jazida de Araxá. A jazida de nióbio de Araxá possui aindagrande valor econômico e atualmente é explorada pela CompanhiaBrasileira de Metalurgia e Mineração (CBMM). Essa instituição mantém nacidade do triângulo mineira uma fundação com o nome de DjalmaGuimarães, onde pode-se encontrar parte do acervo do cientista. Em virtude da amplitude da produção científica de nossopersonagem, é impossível elencá-la neste texto. Para alguns geólogos, ostrabalhos de Djalma Guimarães são tantos que apenas a sua leiturademoraria um tempo incomensurável. Djalma Guimarães publicoupraticamente em todas as áreas da geologia – geologia econômica,13 GUIMARÃES apud CASTRO, José de. “O descobridor de nióbio de Araxá. Jornal daCBMM, s. l., s. d., p.9. 11
  13. 13. Síntese Histórica Djalma Guimarães Gabriela Oliveira e Suely Monteirogeoquímica, geodinâmica, mineralogia, metalogênese, petrogênese,tecnologia mineral, cronogeologia, petrologia e petrografia. As pesquisasde nosso personagem demonstram a sua versatilidade, entretanto, éconsensual que as suas maiores contribuições foram nos estudos depetrologia, pincipalmente em petrogênese, cujos trabalhos ganharammaior repercussão no cenário científico.14 4. O cientista no cotidiano Apesar de sua ampla produção intelectual e científica, dos extensostrabalhos e da pesquisa intermitente, Djalma Guimarães sabia dividir oseu tempo entre as atividades pofissionais e a convivência familiar. Aomenos, essa é a percepção dos seus familiares sobre a figura de nossopersonagem. Ainda que fosse grande as suas resposabilidades e suasocupações no âmbito do trabalho, Djalma Guimarães esteve semprepresente em casa para a esposa, os filhos e os amigos. Descrito comouma pessoa serena, dotada de um humor inteligente e sarcástico, essavisão era também compartilhada por muitos de seus companheiros deprofissão, como nos relata Dutra e Clementino.15 Djalma Guimarães era um marido dedicado e pai afável. Apreciavaas brincadeiras infantis e divertia-se nas festas familiares com as crianças.Era fanfarrão, mas de pouca conversa, lembra seu filho Luiz Guimarães,que diz sentir-se privilegiado por ter merecido atenção especial do seuprogenitor durante toda a sua vida. Os diálogos sobre geologia eramreservados àqueles que demonstravam entendimento e interesse sobre oassunto. Com os demais, as respostas eram sempre curtas e evasivas.Para as crianças, oferecia as respostas conforme o seu entendimento.14 Petrologia:ramo da geologia que trata da origem, ocorrência, estrutura e história dasrochas. Petrogênese: ramo da petrologia que estuda a origem e formação dasrochas. Dicionário eletrônico Houaiss da língua portuguesa.15 DUTRA, Cláudio Vieira; CLEMENTINO, Antônio de Pádua Vianna. Entrevista comGabriela Dias de Oliveira e Suely Aparecida Ribeiro Monteiro. Belo Horizonte, 7 denovembro de 2008. 12
  14. 14. Síntese Histórica Djalma Guimarães Gabriela Oliveira e Suely Monteiro Cientista de laboratório, o nosso personagem era pouco afeito àsviagens de campo. Segundo os depoimento dos entrevistados, em rarasocasiões Djalma Guimarães desclocou-se para viagens de trabalho e,quando o fazia, estava sempre alinhado, trajando terno. A indumentáriade prospecção era finalizada com galochas, pois não havia como substituí-las por sapatos refinados. Cabia aos seus auxiliares a coleta dos materiaisque o nosso personagem analisaria, essa prática, além de demostar a suacapacidade de gerenciamento, certamente contribuiu para que suapresença fosse constante em seu lar. Apreciador de música clássica e ópera, “gostava também muito devinho, casa cheia, farra e mesa farta”, lembra seu neto. Era umtelespectar inveterado de filmes de Guerra e Bang Bang. Leitor ávido deEça de Queirós, Machado de Assis e Júlio Verne, esses literatosinfluenciaram fortemente o seu trabalho. Principalmente o primeiro, cujolivro Os Maias e o conceito de circulação da matéria nele presente, lheinspirariam escrever a obra Metalogênese e a Teoria Migratória dosElementos, em 1938.16 Sua apropriação literária em face da ciência é umbom exemplo para demonstrar como as atividades do dia-a-dia docientista interferiam em sua prática profissional. Dizia-se apolítico, no entanto tinha consciência de que a ciência nãoera um campo autônomo, idependente da esfera política. 17 Mas aocontrário, as suas atividades como cientista estavam subordinadas àquestões inerentes à política. Um exemplo simples, e que ilustra bem essefato, é a sua preocupação com a importação de um material da Alemanha,indispensável para a exploração do ouro na mina Juca Vieira, a qualadministrava. Prestes a eclodir a Segunda Guerra Mundial, sabia que oseu trabalho estava fadado ao fracasso, caso não conseguisse aimportação do material antes da deflagração do conflito.16 GUIMARÃES, Djalma. Eça de Queirós em face da ciência, s. l., s. d.17 Bourdieu considera o campo científico um campo social como qualquer outro, sujeitoàs relações de força, disputas e estratégias. BOURDIEU, Pierre. Os usos sociais da ciência:por uma sociologia clínica do campo científico. São Paulo: UNESP, 2003. 13
  15. 15. Síntese Histórica Djalma Guimarães Gabriela Oliveira e Suely Monteiro Para um homem que se apresentava como apolítico, interessanteobservar a presença e a influência de figuras importantes da políticaImperial e Republicana em sua trajetória. Desde seu avó materno, osenador Manuel Teixeira da Costa, até Pandiá Calógeras, grande influênciaem sua formação, em especial, na área de geologia econômica.18 Emboranão fosse apreciador do tema, fazia questão de manter-se bem informadosobre o assunto e não dava evasivas quando chamado a opinar sobreessas questões. No que tange à religião, era agnóstico por convicção. Conformelembra seu filho Luiz Guimarães, a sua própria formação científica e ainfluência de valores positivos e liberais em sua trajetória, contribuírampara o seu ceticismo. Se não tinha fé ou não possuía crenças, procuroutambém não persuadir as escolhas pessoais de seus parente e amigos. Apesar desses traços em sua personalidade, Djalma Guimarães nãofazia oposição às diretrizes políticas e religiosas daqueles que a eleestiveram ligados, seja por laços sangüineos ou de afinidade. Dentre as muitas facetas da intimidade de Djalma Guimarães, umachama atenção por sua irreverência: o nosso personagem mantinha umasombria e asssustadora imagem de um demônio sobre a mesa de seu deescritório. Numa clara relação com o seu trabalho, o nosso personagemnomeou a imagem com o nome de Menfistofeles, ser habitante dasprofundezas da Terra e constituído por magma, de acordo com a mitologia.Segundo os relatos, tratava-se de uma imgem de proporções grandes,toda vermelha, com direito a capa e tridente.19 Com aqueles que tinha pouca afeição, num tom de irreverência,dizia-se tratar de seu protetor e colocava a imagem em evidência, tal18 João Pandiá Calógeras, engenheiro, geólogo e político. Foi Ministro da Agriculturadurante o governo de Venceslau Brás e Ministro da Fazenda e da Guerra durante ogoverno de Epitácio Pessoa. Era casado com uma tia paterna de Djalma Guimarães, Elisa.Manteve uma relação bastante próxima como o cientista, não teve filhos e o escolheucomo seu herdeiro.19 DUTRA, Cláudio Vieira; CLEMENTINO, Antônio de Pádua Vianna. Entrevista comGabriela Dias de Oliveira e Suely Aparecida Ribeiro Monteiro. Belo Horizonte, 7 denovembro de 2008. 14
  16. 16. Síntese Histórica Djalma Guimarães Gabriela Oliveira e Suely Monteiroatitude sempre “afastava as pessoas que iam procurar emprego oufavores com Djalma”, lembra seu filho.20 Na casa de Djalma Guimarães havia um espaço reservado para oseu escritório, onde o cientista passava horas a fio trabalhando. O seuneto, Milton Prado, guarda boas recordações desse local. Segundo as suasdescrições, era um quarto com uma mesa próxima à janela para que onosso personagem pudesse aproveitar a luz natural nas observações emseu indefectível microscópio. Suas anotações eram realizadas em umamáquina de escrever que ele mantinha no canto da mesa, colocando-a àsua frente quando se fazia necessário utilizá-la. Ainda segundo MiltonPrado, a sua datilografia não era tão produtiva quanto os seus trabalhoscientíficos. Nesse quarto/escritório havia ainda uma cama e uma televisão. Eranessa cama que o neto dormia quando criança, durante as férias escolaresque passava junto aos avós. Nessas ocasiões, Milton Prado assistia filmescom seu avô à noite e lembra-se de ter sido acordado algumas vezes nomeio da madrugada por sua avó, D. Rute, ao levar um lanche para omarido, que insistia em trabalhar madrugada afora quando tinha algumasidéias. Entre livros e lâminas, Djalma parecia se divertir em seu labor,tanto que o seu espaço de trabalho domiciliar nunca foi fechado ourestrito aos filhos e netos. Com o seu bom humor que o caracterizava,segundo ainda Milton Prado, as crianças podiam entrar e até mexer nosobjetos sem que isso o deixasse consternado, aliás, o entrevistado reveloununca se lembrar de ter visto o avô enraivecido, para ele, DjalmaGuimarães sempre manteve uma postura leve, brincalhona e espontânea. Entre as muitas curiosidades da vida privada de Djalma Guimarães,está o convite para trabalhar na Alemanha nazista. Convite este que onosso personagem não só recusou, como colocou-se a ajudar osrefugiados da Guerra, muitos dos quais eram geólogos e com elesdesenvolveu diversos trabalhos.20 PRADO, Milton Guimarães Bueno. Entrevista com Gabriela Dias de Oliveira e SuelyAparecida Ribeiro Monteiro. Belo Horizonte, 28 de outubro de 2008. 15
  17. 17. Síntese Histórica Djalma Guimarães Gabriela Oliveira e Suely Monteiro Djalma Guimarães deixou uma extensa biblioteca, que em grandeparte foi recuperada pelo seu neto e também geólogo Milton Prado. Amaior parte dos livros eram técnicos, de temas relativos à geologia. Emsuas estantes também se encontravam obras de seus escritores preferidos,acima mencionados, além de livros de descobertas em outras áreas doconhecimento. Livros de história das guerras e das civilizações também sefaziam presentes, além de uma coleção da revista francesa Histoire. Partepreservada dessa biblioteca foi doada para Geosol, empresa do ramogeológico que criou o espaço Djalma Guimarães para receber esse acervo.Outra parte do acervo público do cientista foi também para a CBMM,empresa que mantém uma fundação com o seu nome. Não obstante, amaior parte de seu acervo do nosso personagem encontra-se sob aguarda do MMDG. 5. Entre a memória e a história: a trajetória de Djalma Guimarães Ainda que muito celebrado por sua extensa e diversificada produçãocientífica, Djalma Guimarães não é uma unanimidade dentro da geociência.Essa afirmação que, para seus admiradores, poderia ser percebida comoum desprestígio à sua imagem, é aqui entendida como um fenômenonatural no campo científico, afinal o conhecimento é produto deinterlocuções, mas também de embates e polêmicas. Se para algunscientistas da atualidade o nosso personagem foi o único brasileirocredenciado a um provável Prêmio Nobel, para outros essa era umarealidade longínqua. Controvérsias a parte, é inegável que Djalma Guimarães dedicou-searduamente à sua profissão. Algumas de suas teorias são aceitas até osdias de hoje, outras já foram consideradas ultrapassadas e se esvaeceramcom tempo. Considerando também os desacertos como aspectosimportantes na construção do fato científico, esses, por si só, já se 16
  18. 18. Síntese Histórica Djalma Guimarães Gabriela Oliveira e Suely Monteiroapresentariam como elementos justificadores para narrar a história deDjalma Guimarães. Entretanto, esse não parece ser o mote principal a serretratado. Por maior oposição que exista ao trabalho de nossopersonagem, não se pode desconsiderar todo o seu esforço em prol dodesenvolvimento científico e tecnológico da geociência no Brasil. No espaço reservado à memória de Djalma Guimarães, no museuque leva o seu nome, a exposição é notadamante marcada por umdiscurso positivista, de enaltecimento acrítico à sua figura. Procura-seapresentar Djalma Guimarães como um grande personagem para ahistória da geociência e com idéias avançadas para o seu tempo. De forma bastante precária e desordenada, alguns objetos de nossopersonagem estão dispostos em uma grande mesa e em um armário, nosquais se encontram: as medalhas dos prêmios que Djalma Guimarãesconquistou, uma coleção de lâminas com amostras de rochas, algunsartigos que publicou, livros de geologia que contemplam as suasdescobertas, algumas fotografias, o microscópio e a máquina de escreverdo seu escritório, amostras de minerais que descreveu. Na parede, umgrande destaque para o seu diploma de graduação e uma grandefotografia de Djalma Guimarães. A documentação produzida pelo próprio Djalma Guimarães – artigos,conferências, discursos e anotações diversas – está acondicionada demodo incorreto em caixas de papelão e separada por pequenas pastas decartolina. O material recolhido e arquivado pelos amigos do cientista,Cláudio Dutra e Antonio Clementino, apesar do esforço dos mesmos, nãoencontra-se indexado dentro das normas. Há ainda uma grande compilação de matérias jornalísticas, artigos eensaios publicados sobre Djalma Guimarães, nesse conjunto, com rarasexceções, não houve a preocupação de apresentar as suas referênciasbibliográficas. O pequeno acervo de fotografias do Museu também nãopossui qualquer tipo de descrição ou datação. A proposta desse trabalho é apresentar o nosso personagem dentrode uma perspectiva diferente daquela contemplada no MMDG. Não 17
  19. 19. Síntese Histórica Djalma Guimarães Gabriela Oliveira e Suely Monteiropretende-se apresentá-lo no sentido restrito do termo biografia, apesar dese tratar de uma abordagem biográfica de Djalma Guimarães.Consideramos, destarte, o aspecto apontado pelo historiador GiovanniLevi e a sua abordagem teórica que comtempla “uma relação recíprocaentre biografia e contexto”. 21 Neste sentido, Djalma Guimarães passa aser compreendido como um homem de seu tempo, em diálogo com aprodução científica de seu período e fruto do seu meio social. Nessesentido, o acervo de Djalma Guimarães no MMDG poderia ser incorporadoao novo memorial, mas transvestido em uma nova linguagem, quebuscasse apresentar a memória de nosso personagem em seu contextohistórico. Por se tratar de um personagem polêmico, consideramos serprocedente a proposta do próprio Djalma Guimarães narrar a sua história.Nesse exercício, selecionamos alguns discursos proferidos em momentosdistintos de sua carreira em que o próprio cientista realiza uma reflexãosobre a sua prática profissional. Assim, destacamos o seu último discurso,que não pode ser lido, pois Djalma Guimarães veio a falecer as vésperasde viajar para Lisboa,onde receberia o título de Doutor Honoris Causa.22 Como mencionado anteriormente, o nosso personagem publicouuma quantidade expressiva de trabalhos e, em virtude das limitaçõesinerentes à esta pesquisa, selecionamos aqui apenas uma pequenaamostra que consideramos de fundamental importância, não apenas paraa comunidade científica, mas para a sociedade em geral. Nesse sentido,talvez fosse interessante apresentar o impacto dessas pesquisas nocotidiano, demonstrando como a prática científica de Djalma Guimarãespromoveu transformações no dia-a-dia da sociedade. Como exemplo,destacamos a descoberta das jazidas de apatita (fosfato) e pirocloro(nióbio) em Araxá e os seus usos na agricultura e na indústria,respectivamente.21 LEVI, Giovanni. "Usos da biografia". In: AMADO, Janaína & FERREIRA, Marieta deMoraes (orgs). Usos e Abusos da História Oral. Rio de Janeiro: Editora FGV, p.180.22 Os referidos discursos encontram-se em anexo. 18
  20. 20. Síntese Histórica Djalma Guimarães Gabriela Oliveira e Suely Monteiro Os documentos que fazem parte do acervo de Djalma Guimarãesapresentam-se em condições razoáveis, apesar da precariedade de seucondicionamente. Para preservar esse corpus documental, é necessário oseu tratamento técnico, desde a higienização até a sua edição diplomática.A proposta de preservação desse acervo justifica-se pela própriapreservação da memória de nosso personagem. Pretende-se que comessas medidas cautelares, outros pesquisadores possam consultar essadocumentação e produzir novos estudos sobre Djalma Guimarães e ahistória da ciência, em especial, da geociência. 19
  21. 21. Síntese Histórica Djalma Guimarães Gabriela Oliveira e Suely Monteiro BibliografiaAZEVEDO, Fernando (org). As Ciências no Brasil. Rio de Janeiro: Editora da Universidade Federal do Rio de Janeiro, 1994. 2v.BOURDIEU, Pierre. Os usos sociais da ciência: por uma sociologia clínica do campo científico. São Paulo: UNESP, 2003.CARVALHO, José Murilo. A Escola De Minas de Ouro Preto: O peso da glória. Belo Horizonte: Ed. UFMG, 2002.CASTRO, José de. “O descobridor de nióbio de Araxá. Jornal da CBMM, s. l., s. d.COSTA, Manoel Teixeira da. “A obra de Djalma Guimarães”. Revista da Escola de Minas, s.d.DICIONÁRIO eletrônico Houaiss da língua portuguesaDOMINGUES, Alfredo J. Porto. “Estrutura Geral do Globo”. In: Curso de Geografia para Professores do Ensino Superior. s. l., Ministério do Planejamento e Coordenação Geral; Instituto Brasileiro de Geografia, 1970.DUTRA, Cláudio Vieira; CLEMENTINO, Antônio de Pádua Vianna. Entrevista com Gabriela Dias de Oliveira e Suely Aparecida Ribeiro Monteiro. Belo Horizonte, 7 de novembro de 2008.GUIMARÃES, Djalma. Eça de Queirós em face da ciência, s. l., s. d.GUIMARÃES, Luiz Raul. Entrevista com Suely Aparecida Ribeiro Monteiro. Belo Horizonte, 21 de outubro de 2008.LEVI, Giovanni. "Usos da biografia". In: AMADO, Janaína & FERREIRA, Marieta de Moraes (orgs). Usos e Abusos da História Oral. Rio de Janeiro: Editora FGV.MARCIANO, Vitória Régia Péres da Rocha Oliveiros. “Um mestre que amava a Terra”. Revista Diversa, n. 11, mai. 2005.PRADO, Milton Guimarães Bueno. Entrevista com Gabriela Dias de Oliveira e Suely Aparecida Ribeiro Monteiro. Belo Horizonte, 28 de outubro de 2008. 20
  22. 22. Síntese Histórica Djalma Guimarães Gabriela Oliveira e Suely Monteiro AnexosCRONOLOGIA1894 – (05/11/94) Djalma Guimarães nasceu em Santa Luzia, MG. (doc. Certidão de nascimento, segunda via tirada em 01-01-46)1913 – Ingressa na Escola de Minas de Ouro Preto1919 – Graduou-se como engenheiro de minas e civil na Escola de Minas em OuroPreto.1920 – Engenheiro-chefe do tráfego da Estrada de Ferro Teresópolis - Associa-se à Roberto Simonsen, juntos constroem a Avenida Rui Barbosa, que liga o Flamengo ao Botafogo.1921 – Auxiliar de químico do Serviço Geológico e Mineralógico do Brasil1922 - Nasce seu primeiro filho Luiz Guimarães (14/03/22)1923 - (1923/31) Petrógrafo do antigo Serviço Geológico e Mineralógico do Brasil (admissão por concurso) Nasce sua filha: Eva Guimarães (18-08-23)1924 – Descreveu um novo mineral: arrojadita (fosfato de ferro, manganês e cálcio, encontrado na Serra Branca, Pucuí, Paraíba) - Apresenta seu trabalho cientifico sobre a origem dos depósitos carboníferos no sul do Brasil no 1º Congresso Brasileiro do Carvão; - Publica Contribuições a Petrografia do Brasil - Nasce seu terceiro filho Luciano Teixeira Guimarães (07/09/24)1926 – Descreveu o mineral eschwege (columbato-tantalato-titanato-ferato de ítrio, ébrio, urânio e tório, encontrado em fragmentos detríticos no Alto do Rio Doce) - Nasce seu filho João Pandiá Guimarães (07/08/26)1927 – Descreveu, junto com L. J. Morais, o meteorito da serra de Magé,Pernambuco1932 – Organiza o Serviço Geológico do Estado de Minas Gerais (denominado posteriormente Serviço da Produção Mineral)1933 – Nomeado assistente chefe do Instituto Geológico e Mineralógico do Brasil.1935 – Fundação da Escola de Ciências das Universidade do Distrito Federal, no Rio de Janeiro, atual UFRJ – Djalma é convidado para organizar o setor de geologia e lecionar. 21
  23. 23. Síntese Histórica Djalma Guimarães Gabriela Oliveira e Suely Monteiro - Chefiou o Laboratório da Produção Mineral, no qual estabeleceu uma estação experimental para tratamento de minérios.1938 – Afasta-se voluntariamente do Departamento Nacional da Produção Mineral e regressa para Belo Horizonte. - Nomeado diretor da Cia de Mineração Juca Vieira, Caeté, MG. (mina de ouro) - Publica Metalogênese e a Teoria Migratória dos Elementos e Das Problem Granitbildung na revista Chemie der Erde.1939 – (1939-45) Nomeado engenheiro de minas e geólogo, consultor e diretor técnico da Cia Brasileira de Mineração.1941 - Caio Pandiá Guimarães e Octávio Barbosa descrevem um novo mineral, encontrado em Brejaúba, Minas Gerais, ao qual dão o nome de Djalmaita. Minério radioativo de urânio (tantalato de urânio), cujo nome homenageia Djalma Guimarães. - Paraninfo da turma de formandos em Engenharia Civil da Escola de Minas- Ouro Preto1944 – Criação do Instituto de Tecnologia Industrial – ITI. Assumiu a direção do setor de geologia e geoquímica.1945 –Tornou-se Sócio Efetivo da Sociedade Brasileira de Geologia - Designado Chefe de Setor de Geologia e Minas do ITI1946 – Eleito Presidente da Sociedade Brasileira de Geologia (o primeiro presidente da então recém criada SBG); - Assumi o cargo de tecnologista, chefe da seção (posteriormente Serviço de Geologia e Geoquímica) do Instituto de Tecnologia Industrial.1947 – Publica na revista norte-americana Economic Geology o artigo Mineral Deposits of Magmatic Origin (síntese de suas concepções metalogênicas)1948 – Professor da UFOP - (1948/50) Leciona na Escola de Engenharia da UFMG. - Descreve dois novos minerais: giannettita (cloro-silicato-zirconato de cálcio, sódio e manganês ) e pennaíta (zircono-titanífero), ambos encontrados em Poços de Caldas1950 – Descoberta da mina de urânio em Volta Grande, nas proximidades de São João Del Rei, uma das maiores minas do mundo. - Desvincula-se do departamento de geologia da UDF - Participa do editorial do livro Geochimica et Cosmochimica ACTA1951 – Nomeado Conselheiro da Academia Brasileira de Ciências - Criação do CNPq 22
  24. 24. Síntese Histórica Djalma Guimarães Gabriela Oliveira e Suely Monteiro - Nomeado diretor de pesquisas Geológicas, da Divisão Técnico Científica do CNPq - Designado pelo Governador do Estado de MG para constituir a comissão técnica responsável pela criação do centro atômico do Estado. - Recebe a medalha Orville Derby concedida pela Academia Brasileira de Ciências em nome da Divisão de Geologia e Mineralogia1951 - Descoberta a jazida de nióbio em Araxá1953 – Criada a para-estatal FERTISA Fertilizantes de Minas Gerais S/A. - Diretor tecno-científico da Fertisa1955 – Recebe o prêmio concedido pela Assembléia Legislativa de Minas Gerais em agradecimento e reconhecimento aos seus trabalhos e à doação da patente de um novo processo de produção de fertilizante a partir da apatita da mina de Araxá. - Recebe a Medalha da Inconfidência1956 – Nomeado para o cargo em comissão de Chefe do Serviço de Geologia e Geoquimica do ITI.1957 – (1957/60) Ocupa a cadeira de Geologia II da Escola de Minas em substituição a um professor que falecera.1958 – Descreveu o meteorido que foi recolhido no córrego do Areado, Patos de Minas.1960 – Convidado pela PBH para assessorar trabalhos relacionados ao levantamentoe exploração de reservas minerais no município.1961– Prêmio José Giorgi (1958/1959) concedido pela USP.1963 – Aposenta-se após 30 anos de serviço público. – Professor de Geologia do Departamento de História Natural da UFMG.1966 – Medalha José Bonifácio de Andrade1967 – Pede exoneração do cargo de professor da UFMG. – Assumi o cargo de Consultor científico do Departamento Nacional da Produção Mineral.1968 – Recebe o título de Doutor Honoris Causa na UFOP.1971 – Nomeado pelo Ministério das Minas e Energia integrante da comissão responsável por relacionar trabalhos, relatórios técnicos e mapas.1973 – É internado no hospital Prontocor (05/10) e falece em 10/10.1974 – Criação do Museu de Mineralogia com o seu nome2006 – Descoberta de um novo mineral que recebeu o nome de Guimarãesita, em homenagem a Djalma Guimarães. 23
  25. 25. Síntese Histórica Djalma Guimarães Gabriela Oliveira e Suely Monteiro Iconografia A documentação iconográfica sobre Djalma Guimarães no MMDG éreduzida, em sua maior parte, composta por fotografias em seu ambientede trabalho. Em algumas, o nosso personagem trabalha à mesa em seuescritório e, em outras, observa amostras em seu micróscopio. Há aindaum outro conjunto de fotografias que registra a presença de DjalmaGuimarães em solenidades. A variedade de poses também é pequena,contudo esse não seria obstáculo, caso as fotos estivessem devidamentedescritas e datadas. Para suprir essa lacuna, optamos por selecionar fotografias doacervo familiar, as quais foram gentilmente cedidas por seu neto, MiltonPrado. São 19 fotografias que contemplam toda a sua trajetória, desde asua infância até a idade adulta. As fotos foram identificadas e datadaspelo própria família. Segundo o Milton Prado, é pequeno o acervo familiarcomo imagens de Djalma Guimarães porque era ele quem assumia afunção de fotógrafo. A família não possui imagens em movimento docientista. Arquivos públicos da cidade de Belo Horizonte foram pesquisados eneles também não foram encontradas referências de vídeos com imagensde Djalma Guimarães. 24
  26. 26. Síntese Histórica Djalma Guimarães Gabriela Oliveira e Suely Monteiro Discurso – Doutor Honoris Causa Universidade de Lisboa Em sendo um pesquisador, sou um péssimo orador e começo por desculpar-me pela pobreza da minha oração em agradecimento a vós que representais aciência portuguesa. Antes de agradecer ao nobre colega, pelas palavras elogiosas, e à Faculdadede Ciência, pelo tão honroso título que me foi concedido pela Égrégia Congregaçãoda Universidade, cabe apresentar minha desculpa pelo faro de vir tão tardiamenteapresentar-me diante a vós. Acontece que recebi o convite dos Eminentes ProfessorsDr. Torres de Assunção e Dr. Carlos Ferreira quando havia sofrido uma intervençãocirúrgica que tornou-me quse inválido por um ano; minha recuperação custou-medois anos de tratamento. Felizmente consegui vencer as dificuldades em idade quaseoctagenária para me apresentar perante tão ilustre Cenáculo da Ciência Lusitana. Devo confessar, que não segui a carreira de pesquisador de Geociência porexpontânea vontade, mas sob influências várias. A mentalidade do homem começa a se delinear na adolescência e, nesseperíodo, exercem influência definitiva o ambiente, o que é lido e ensinado. Assim,por circunstâncias impostas pelo destino, na idade de 11 a 12 anos, fui orientado naleitura de obras como Júlio Verne, que exaltam a imaginação. Mais tarde atraíram-me os autores portugueses, como Camilo Castelo Branco, Anthero de Quental,Guerra Junqueiro, Alexandre Herculano, Camões, e em particular, Eça de Queiroz. A finura da dialética de tão ilustres autores, o método analítico da obsevaçãodos fatos e do homem, a ironia, mordacidade e visão realística das cousas, apercusciência em entrever “averdade sob o manto diáfano da fantasia” tiveram umainfluência considerável no meu modo de atacar os problemas científicos,involuntariamente arrastando a polêmicas. As teses defendidas, teorias propostas em vários ramos da geociência estãopenetrando nos mais notáveis centros de cultura científica, não pelo fato de teremsido impostos pela minha dialética, mas pela própria evidência dos fatos. Eça de Queiroz, por exemplo, em certa altura das minhas elucubraçõescientíficas, lançou um feixe de luz sobre as minhas dúvidas e dificuldades emcompreender certas questões ligadas aos processos de transformações da crostaterrestre. Em outra oportunidade, já lembrei a página lapidar desse gênio daliteratura portuguesa que ilumina a via por onde poderia chegar a uma concepçãoreal dos fenômenos de circulação da matéria da litosfera. 25
  27. 27. Síntese Histórica Djalma Guimarães Gabriela Oliveira e Suely Monteiro Tenho o prazer de recordar o nome do primeiro homem de ciências quereconheceu o alcance doutrinário de minha obra, pois foi também outro português, oDr. Décio Thadeu. Como se depreende desse curto relato dos impulsos mentais,filosóficos e de influência ancestral, cinquenta por cem do que tenho realizadodependeu do que Portugal representou para mim na minha juventude. De outro ladoestava a influência da Escola Francesa de Engenharia de Minas fundada por HenryGorceix, em Ouro Preto e do ambiente de família que incluíam outros dois mestresdaquela instituição de ensino. Crei que não preciso dizer mais nada para que se possa imaginar como pudepreencher mais de meio século de pesquisa científica, moldando minha mentalidadeem ambiente intelectual agitado pelas figuras mais eminetes do povo luso-brasileiro. Representa, para mim, a mais alta recompensa pela obra realizada a distinçãorecebida dos Exelentíssimos Mestres da Universidade de Lisboa. Não pode haver, para mim, maior honra que o título concedido pelo mais altoCenáculo da Ciência Luso-Brasileira. 26
  28. 28. Síntese Histórica Djalma Guimarães Gabriela Oliveira e Suely Monteiro Discurso - Medalha José Bonifácio de Andrade e Silva Não pretendo desferir um discurso, mesmo porque o Snr. Presidente da Soc.Bras. Geol. dispensou-me deste inaudito esforço, o que vem trazer tranqüilidadepara os nobres colegas. Desejo somente agradecer à Soc. Bras. Geol. por essa nímia gentileza egenerozidade em oferecer-me a medalha J. Bonifácio de Andrade e Silva, comoprova de reconhecimento pelas minhas contribuições à Geologia do Brasil. Não posso, entretanto, silenciar deante das considerações encomiásticasproferidas pelo velho amigo professor Victor Leinz que, evidentemente vê-meatravés de possante lente de aumento preparada por uma amizade nuncainterrompida pelas vicissitudes da vida. Não possuo a acuidade intelectual que se poderia depreender das palavras donobre amigo. O sucesso de algumas investigações genéticas decorreram de um mero acaso.Acontece que até antes do grande surto verificado no campo da geoquímica, ospetrogenétas e metalogenétas estavam e muitos ainda estão, aferrados a velha eobsoleta premissa de constituição molecular dos cristais. Isso é uma prova de queaté os grandes costumam cochilar: Quand hoc est bônus dormitat Homerus.Premissa essa cuja inveracidade já era conhecida desde 1886, quando o grandecristalógrafo alemão Von Groth definiu a estrutura cristalina como constituída deátomos. Mas tarde, Laue, Bragg e outros notáveis especialistas demonstraram exato oconceito de Von Groth, pela analise roentgenegráfica dos cristais. Uma teoria sempre decorre de premissas ou postulados que no consenso geralse admite certa, correta, indiscutível. Foi baseado em um postulado até hoje de péque Euclides erigiu a geometria. Uma vez constatada ou demonstrada a falsidade de uma premissa oupostulado, todo edifício teórico ou doutrinário desaba e nem é mais possívelreergue-lo sobre os mesmos alicerces. A incapacidade de compreender as terias ortodoxas, fundadas no conceitomolecular, levou-me a tentar outra via de acesso até a intimidade dos fenômenosfísico-quimicos de transformação da matéria e, portanto, das conseqüências doponto de vista metalogenético. Segundo a linguagem dos geômetras foi uma questão de mudança decoordenadas para alcançar uma solução menos exotérica e mais de acordo com os 27
  29. 29. Síntese Histórica Djalma Guimarães Gabriela Oliveira e Suely Monteiroconhecimentos atuais das ciências fundamentais da geologia, mas foramnecessários 20 anos para que se começasse a perceber a mudança de vista. Ahistoria da ciência tem revelado que a inércia não é propriedade exclusiva da matéria. Para terminar esta breve alocução, desejo lembrar sómente uma página deEça de Queiroz, em seu romance “ Os Mais” , quando o seu personagem João de Ega,que parece ser o próprio escritor, anuncia o propósito de lançar uma obra que iriaabalar o século e já fazia tremer toda a Coimbra. Com aquele sorriso sardônico, a mordacidade cintilando através de seuimpertinente monóculo, Eça não perdoava nem a si mesmo. Demoliu instituições eridicularizou homens d´aquem e d`além mar. Naquela página lapidar, esse gênio da literatura portugueza ao fazer João deEga traçar o plano do seu livro, cujo titulo era “Memorias de um Atomo” , delineou osobjetivos da geoquímica e previu o conceito da circulação da matéria na litosfera. Foiesta pagina que me inspirou no ensaio sobre a teoria migratória dos elementos emais tarde o desenvolvimento da teoria metalogenética defendida em váriaspublicações e hoje praticamente confirmada pelas investigações geoquímicas dessesúltimos 5 anos. Si algum geoquímico tivesse se detido na leitura da aludida pagina, asrealizações deste principio da metade do século XX teriam se antecipado, ao meditarsobre as graves frases do ilustre bacharel João da Ega. 28
  30. 30. Síntese Histórica Djalma Guimarães Gabriela Oliveira e Suely Monteiro Discurso – Medalha Orville Derby É com indivisível emoção que respondo à saudação de meu nobre e ilustrecolega Luciano Jacques Moraes, cumprimento missão que lhe foi combinada, deentrega do Prêmio Orville Derby, conferido a mim pela douta comissão nomeada pelaA.B.C. Desejaria eu, estar, neste momento, desempenhando, como representante deuma geração de geólogos que está prestes a se despedir da vida ativa, essa missãonobre de premiar o labor da nova geração, já revelada por brilhantes contribuições àciência geológica. Interpreto a distinção a mim conferida, como se fora eu o representanteescolhido de um período recente da história de nosso progresso científico, duranteo qual nos libertamos dos cânones ortodoxos, construindo nosso próprio sistemafilosófico de orientação das pesquisas geológicas e metodológica decorrente, nainterpretação dos fenômenos geológicos. Estaríamos aqui, para consagrar uma época e não um homem; um símbolo,representativo de uma época de um esforço sinérgico e construtivo, durante a qual oherói solitário de um Eschwege, de um Arrojado Lisbôa, foi substituído pelo laborpertinaz, perseverante de equipes de equipes de especialistas, uma época em que atécnica de investigação surgiu do nada, pois haviam desaparecido do cenáriocientífico brasileiro todos colaboradores estrangeiros capazes de nos transmitir osensinamentos necessários à aplicação de métodos de observação e técnica delaboratório. Desde os processos de análise química até os de investigação microscópicativemos de reconstituí-los e melhorá-los, com nossos próprios recursos, para que,convenientemente armados, pudéssemos atacar os múltiplos problemas quedeveríamos enfrentar. O que se nos afigura, de início, ciência esotérica, tornou-se em pouco temporotina de laboratório, até mesmo os métodos delicados de análise ótica creados porFedorow e desenvolvidos desenvolvidos por outros especialistas como Reinhard,Duparc , Emmons, etc. Tal realização, alcançada à custa de esforço tenaz,consulta à literatura e dedicação exclusiva aos problemas que nos eramapresentados pelos geólogos, teve, como resultado, lançarmos sempre em novoscampos de investigação inesplorados. É evidente que tão gigantesca obra não poderia ser fruto do labor de umhomem, mas sim de uma pleiade de jovens, sequiosos de saber e de experiência. 29
  31. 31. Síntese Histórica Djalma Guimarães Gabriela Oliveira e Suely MonteiroEsse auto-didatismo involuntário, teve suas vantagens, pois não herdamospreconceitos, idéias em conversa, prejuízo do magister dixit; enveredamos, umpouco desintencionalmente, “por caminhos nunca dantes navegados” e chegamos aerigir princípios fundamentais que norteiam hoje nossas investigações einterpretações dos fenômenos geológicos. Lembro, mas uma vez, que não vos falo na primeira pessoa, pois é claro aimpossibilidade de erigir tão vasta obra científica sem a colaboração de inúmeroscolegas ilustres. O que hoje premiasteis é o esforço de abnegados geólogos que prepararamcom sacrifício inaudito, o ambiente cientifico que agora desfrutam as novas gerações,já sem as dificuldades dos tempos heróicos de que procedemos. As idéias e hipóteses revolucionarias que tenho proposto e defendido,surgiram do trabalho de geólogos brasileiros, em suas arrancadas para as maisremotas regiões do país, sem o alarde das expedições anunciadas com pirotecniasensacionalista, mas compenetrados de sua alta missão e revestidos daqueleestoicismo espartano que o nosso hinterland agreste põe a prova aos intrépitosexploradores de seus segredos. Para não ir muito longe, basta citar o problema das gêneses dos batolitos degranito, cuja discussão, na Europa, está atingindo a fase de sedimentação deconceitos, bem próximos dos defendidos por nós. A mudança de pontos de vistacomeçou na Europa, na mesma ocasião em que, seguindo a escola francesa, oumelhor, continuando-a, lançamos os fundamentos de uma. 30
  32. 32. Síntese Histórica Djalma Guimarães Gabriela Oliveira e Suely Monteiro Discurso - Doutor Honoris Causa EMOP Exmo. Professor Antônio Pinho Filho Diretor da Escola Federal de Minas Exmo. Professor Moacyr do Amaral Lisboa Presidente da Congragação da EFMOP Exmos. Professores Exmo. Professor José Jaime Rodrigues Branco Snr. Jorge Pereira Raggi Meus Senhores O honroso título que a Escola Federal de Minas de Ouro Preto acaba de meconceder é a maior conquista que um discípulo desta casa pode almejar. Devo, entretanto, confessar que aqui mesmo aprendi como merecer tão altahomenagem, pois a meio século recebi dos Mestres Augusto Barbosa, ArmandoBehring, Magalhães Gomes, Alfredo Baeta, Luciano dos Santos, os conhecimentosbásicos para penetrar no ambiente da ciência geológica ensinada pela palavra fácildo Mestre Costa Sena. Assim, ao sair da Escola de Minas e ingressar no antigo Serviço Geológico eMineralógico do Brasil já possuía os meios necessários para conquistar a metodologiae tecnologia de investigações do campo da mineralogia e petrografia, ciências essasfundamentais no trato de problemas geológicos. Aqui me foi ministrado uma filosofia cientifica alertadora de preconceitoscujas origens se perdem na noite dos tempos e resurgem, uma vez por outra,disfarçados sobre o manto diáfano de brilhante dialética. Tenho dado prova dessaatitude filosófica em várias oportunidades e me permito o ensejo de citar o primeiroperíodo de minha introdução à Geologia do Brasil, editada em 1964 peloDepartamento Nacional da Produção Mineral. Eis o período: “a geologia nasceu, como algumas outras ciências, de lendas e crenças pouco relacionadas com observação de fatos, mas bastante ricas em interpretações fantasiosas de fenômenos naturais. Este vício de origem, perseguiu esta ciência até o século XIX e, ainda hoje, sua influência é combatida no sentido de eliminar persistentes preconceitos cujas raízes se prolongam no empírico passado” Apezar de esforços em introduzir interpretações matemáticas nasinvestigações de problemas específicos, do progresso notável da ciência auxiliares edo aperfeiçoamento de instrumentos de pesquisas, ainda não se conseguiu liberarcompletamente a geologia de seu empírico passado. A mineralogia, entretanto,evoluiu rapidamente no sentido de ciência exata, estritamente dependente da física, 31
  33. 33. Síntese Histórica Djalma Guimarães Gabriela Oliveira e Suely Monteiroquímica e matemática. A geoquímica, como ciência auxiliar, não esta longe domesmo alvo quanto aos seus princípios norteadores da pesquisa. Está ainda longe o tempo em que veremos os tratados de geologiainteiramente escoimados de opiniões pessoais ou livre das sombras aristotélicas. Foi necessário o trabalhos de homens de homens de gênio, no inicio desteséculo, para pôr a disposição do pesquisador um instrumento um instrumentoroentgenografico capaz de penetrar na intimidade da matéria e permitir uma visãomais correta dos fenômenos de transformação mineral. Não poucos preconceitosforam abalados ou ruíram melancolicamente, para deixar penetrar luz no que antesera crepuscular. É com satisfação que tive experiência da eficiência do ensino nesta Casa,quando lecionei Geologia no curso de engenharia de minas e mais tarde petrografiano curso de Geologia. Meu contato com os geólogos formados pela Escola de Minastem revelado elevado nível cultural e espírito crítico necessário para quem se dedicaa uma ciência ainda em fase de evolução. Por isso, desde o tempo em que completei o curso de engenharia de minasaté hoje não julgo imperiosa a necessidade de apelar para estágios em institutoscientíficos alienígenas, salvo quando convém adquirir experiência tecnologia noemprego de moderna aparelhagem. A tradição de elevado ensino desta Casa tem propiciado ao País numerosostécnicos, cientista e estadistas que contribuíram para o progresso material e culturalda Nação. Entre os estatistas impõem-se os nomes de Pires do Rio, Francisco Sá ePandiá Calogeras. Lembrei o nome de ex-alunos que foram os primeiros a iniciarem sistemáticasinvestigações geológicas no Brasil, após contribuições de cientistas da primeirametade do século XIX e quando não havia instituição de ensino capaz de formarespecialistas em mineralogia, petrografia e geografia. São bem conhecidas as contribuições de Miguel Arrojado Lisboa, Costa Sena,Antonio Olinto dos Santos Pires, Gonzaga de Campos, Luiz Caetano Ferraz,Francisco de Paula Oliveira, Euzébio de Paula Oliveira. É sabido que depois da fundação da Escola de Minas surgiu uma nova era deinvestigações do recurso mineral do Brasil, com reflexos em sua economia, mas foiuma verdadeira fase de desbravamento. A segunda fase de contribuição do engenheiro de minas ao conhecimento degeologia e recursos minerais teve como ponto de partida a fundação do ServiçoGeológico e Mineralógico do Brasil cujo diretor, depois de Orville A. Derby, foi 32
  34. 34. Síntese Histórica Djalma Guimarães Gabriela Oliveira e Suely MonteiroGonzaga de Campos e mais tarde Euzébio P. de Oliveira, ambos ex-alunos destaEscola. Euzébio de Oliveira reuniu uma plêiade de jovens engenheiros de minas,dentre os quais se destacaram Luciano Jacques de Moraes, Luiz Flores de MoraesRego, Avelino Inácio de Oliveira, José Ferreira de Andrade Junior, Paulino Franco deCarvalho, Pedro Moura, Gerson de Faria Alvim e muitos outros que iniciaram aterceira fase de investigações geológicas caracterizada pela penetração emnosso hinterland. Meu papel foi o de preencher a vaga de petrógrafo, pois que odesaparecimento de E. Hussak e a retirada de E. Rieman para a Alemanha deixou ainstituição sem especialista capaz de colaborar com os geólogos na solução deproblemas petrológicos. No desempenho de meus encargos adquiri conhecimentos e experiênciasuficiente para compreender a profundidade de conceitos genéticos lançados porDerby, Hussak e Gorceix. O que mais tarde realizei nesse campo de investigaçãocientifica não foi mais que ampliar a significação dos ensinamentos desses grandesnomes da ciência e interpretar suas idéias a luz de princípios estabelecidos pelacristaloquimica e geoquímica, no sentido de alcançar doutrina coerente queconduzisse a uma interligação entre processo metalogeneticos e metamorfismoregional. A idéia de que a formação de depósitos minerais epigenéticos é conseqüênciade metamorfismo regional, desencadeado em geosinclinal em sua fase de evoluçãoorogênica, já esta conquistando terreno nos meios científicos europeus. Isso mostraque desde 1938 estavamos no caminho certo para atingir uma conceituação deacordo com os fatos de observação e princípios mineralogeneticos firmados pelainvestigação físico-quimica e de estrutura cristalina. Voltando ao objetivo de minha alocução, vem a propósito acentuar que desde1924 já estavam sendo colhidos dados para a confecção do mapa geológico do Brasil.Se bem que não tenha sido o primeiro a ser publicado pelo Serviço Geologico, pelomenos representa notável progresso em relação ao editado por Franz Foetterle em1854, auxiliando por Von Martius. Sob direção de Euzébio de Oliveira formou-se um núcleo de especialistas quetornaram possível o trabalho em equipe, na solução de problemas de maior vulto. Nesta fase heróica conquistava-se o conhecimento do sub-solo em lombo deburro ou subindo e descendo rios em canoas ou pirogas, vencendo corredeiras ehostilidade do meio, sem os recursos em que se dispõem hoje. 33
  35. 35. Síntese Histórica Djalma Guimarães Gabriela Oliveira e Suely Monteiro Com um corpo técnico habituado às dificuldades de penetração nointerior do pais e bastante familiarizado com os nossos problemas, não foi difícil aoministro Juarez Távora transformar o antigo Serviço Geológico e Mineralógico emuma outra instituição com mais vasto programa. Coube a outro ex-aluno desta Casae seu professor, a incumbência de levar a bom termo a reorganização da antigainstituição com a denominação de Departamento Nacional da Produção Mineral. Foinotável o progresso alcançado durante a gestão do Professor Fleury da Rocha, cujabrilhante inteligência compreendeu a oportunidade de uma revisão dos métodosadministrativos e de impulsionamento da pesquisa de recursos minerais pelacriação de condições favoráveis à iniciativa privada, tolhida pela ausência de umalegislação adequada. Um dos grandes serviços prestados por Fleury da Rocha foi a coordenação dotrabalho de uma comissão de ex-alunos da Escola de Minas, encarregada de oferecerao Governo um projeto de Código de Minas. De 1930 em deante, as condições e meios de pesquisa científica foram setornando melhores, mais fáceis os meios de comunicação e o aparecimento deinstituições oficiais destinadas a fomentar a investigação cientifica veio permitir aproliferação de centros de atividades em vários estados do Brasil. Apesar disso, a influencia da Escola Federal de Minas de faz sentir em todosos setores da indústria extrativa mineral e, em particular, na execução deprogramas de investigação geológica do departamento Nacional de Produção Mineral. Ao terminar, cabe-me agradecer as palavras generosas do Professora Moacyrdo Amaral Lisboa, presidente da Assembléia Escolar, do Professor José JamesRodrigues Branco que representa nesta cerimônia a Congregação da Escola e doaluno Jorge Pereira Raggi, representante do Corpo Discente. Em face de tão carinhosa apreciação de meu esforço através de decênios,sinto pela primeira vez que devo ter realizado algo de valor e esta impressão é tantomais profunda quanto é sabido que a Egregia Concregação da Escola mantem atradição de severidade no julgamento do valor intelectual de um especialista, mesmoque saído dos bancos escolares desta Casa. 34

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