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      ●   SEGUNDO CADERNO                                                                                                       O GLOBO                                                                                                  Domingo, 30 de outubro de 2011




                 CAETANO VELOSO
                                   Poulenc
                                                                                             Buena Vista volta ao Rio com
    A ladeira do cemitério de Santo Amaro era um lugar
    bom para conversar de tarde. Carlinhos de Edite
    sentia sempre muito calor, por isso liderava a ida de
                                                                                             a dama da canção cubana
    uma pequena turma para deitar no cimento da la-
                                                                                             Omara Portuondo é a grande atração do show que a orquestra faz hoje
    deira, em suas pedras, no meio da tarde. A gente não                                                                                                                                                                                                     Divulgação/Manuela Scarpa
                                                                                                       Silvio Essinger
    tinha medo. Quando, anos antes, eu morava ainda
                                                                                                  silvio.essinger@oglobo.com.br




                                                                                             R
    na Rua Direita, ir até o portão dos fundos à noite,
                                                                                                       eunião de artistas cu-
    sabendo que o cemitério estava logo ali atrás da ca-                                               banos da era pré-revo-
    sa de seu Iosinho Freitas, dava medo. Arrodear o                                                   lucionária, o projeto
                                                                                                       de disco e documentá-
    quarteirão e passar pela frente do portão do cemi-                                       rio Buena Vista Social Club foi
    tério de bicicleta foi uma aventura que não sei se                                       uma das grandes surpresas do
                                                                                             pop do fim dos anos 1990 —
    vivi (na garupa de um adulto) ou se imaginei assus-                                      uma música harmônica e cultu-
    tado. Talvez eu tenha vivido mesmo. Dei a volta                                          ralmente rica, muito dançante,
                                                                                             que resistiu à erosão do tempo
    cheio de medo, mas saí da experiência muito mais                                         e ressurgiu mais viva do que
    destemido. Depois, já morando na Rua do Amparo,                                          nunca. Agora, ela segue com a
                                                                                             Orquestra Buena Vista Social
    uma antes da Estrada dos Carros, onde o cemitério                                        Club, que se apresenta hoje, às
    fica, eu já não tinha quase medo. Nessas idas à tarde,                                   20h, no Vivo Rio, com uma con-
                                                                                             vidada muito especial: a cantora
    medo nenhum. A brisa fazia tudo ficar agradável,                                         Omara Portuondo.
    embora para subir a ladeira a gente tivesse de trans-                                       Integrante do Buena Vista
                                                                                             reunido em Havana em 1996 pe-
    por o portão de ferro batido.                                                            lo guitarrista americano Ry Co-
                                                                                             oder, Omara é bem conhecida
        Santo Amaro fica numa bai-                 Uma vez, em Madri, tive me-               dos brasileiros — já se apresen-                   A CANTORA, que acaba de fazer 81 anos, vai cantar no Vivo Rio clássicos como “Quizas, quizas, quizas”
    xada. Faz muito calor fora do                  do do calor seco, como se es-             tou no país algumas vezes, fez
    inverno. O cemitério era o úni-                tivesse num filme de ficção               dueto com Chico Buarque em
    co ponto urbano situado so-                    científica passado num plane-             “O que será? (À flor da terra)”,              me de Wim Wenders, poucos                           E a vida segue bem para                       canta de Chico a Jorge Drexler.
    bre uma colina. A Igreja da Pu-                ta distante e com uma atmos-              para o seu disco “Gracias”, de                restam na orquestra: Omara                       Omara Portuondo, cheia de ati-                      Ainda neste ano, a cantora
    rificação fica numa parte um                   fera de composição química                2008, e até dividiu CD e show                 (que faz participação especial                   vidades, além das eventuais                      saiu em turnê com o pianista cu-
    tanto elevada da praça grande                  totalmente diferente da da                com uma diva da canção nacio-                 em canções como “Tres pala-                      apresentações com a Orquestra                    bano Chucho Valdés (que este-
    e, com os degraus do adro so-                  Terra. Em geral o calor me                nal (“Omara Portuondo e Maria                 bras”, “No me llores mas” e                      Buena Vista. Seu CD “Cantar e                    ve em agosto no Brasil, no Te-
    mando-se a isso, tem-se um                     deixa excitado e cheio de es-             Bethânia”, também de 2008).                   “Quizas, quizas, quizas”), o                     reir” está concorrendo ao Gram-                  lefonica Sonidos) para divulgar
    pouco de vento — de “vira-                     perança. Os primeiros dias                                                              trompetista Guajiro Mirabal, o                   my Latino de melhor disco in-                    “Omara & Chucho”, disco lança-
    ção” — à tarde. Mas nada se                    quentes de cada ano vêm                           Povos semelhantes                     alaudista Barbarito Torres e o                   fantil (os resultados serão anun-                do em maio. É o segundo que fa-
    compara ao cemitério. O resto                  cheios de promessas. Já não                  — Brasil e Cuba têm a mesma                trombonista Jesus Aguaje Ra-                     ciados no dia 10). Nesse traba-                  zem juntos — o outro foi “Desa-
    é muito quente. Eu sempre                      me importa tanto que quase                alegria, sempre nos sentimos                  mos. A mais recente perda do                     lho, ela canta canções tradicio-                 fios”, que gravaram em 1997.
    gostei de calor. Mas muita gen-                nunca elas se cumpram. Já é               muito bem por aí. Todos nós                   grupo foi o guitarrista Manuel                   nais, da infância cubana, como                      — Nos conhecemos há muito
    te que nasceu em (e nunca vi-                  bom à beça andar descalço                 gostamos muito da música bra-                 Galbán, que morreu em julho,                     “Juan me tiene sin cuidado”,                     tempo, eu cantava com o pai de-
    veu fora de) Santo Amaro per-                  em casa, sair sem meias, usar             sileira. Há muito em comum en-                de ataque cardíaco.                              “Carpintero”, “El soldadito de                   le (o pianista Bebo Váldes). É um
    cebe o calor como um defeito                   pouca roupa e leve.                       tre os dois países: a música, o                  — Ele tinha problemas de                      plomo” e “El cangrejito”.                        trabalho de piano e voz, para o
    insuportável do mundo. Carli-                     O mundo é um lugar estra-              temperamento do povo, o oti-                  pressão. Nosso grupo viaja sem-                     — É um disco para mostrar                     qual chamamos alguns músicos
    nhos era assim. Minha irmã                     nho para nós. Hoje vi do avião            mismo... — diz a cantora, por te-             pre com médicos, mas coisas                      como é importante que as crian-                  (em “Esta tarde ví llover”, o trom-
    Clara é assim. Muitos amigos                   um desses céus que nem nos                lefone, de sua casa em Havana.                assim acontecem, são normais e                   ças sejam crianças, que elas te-                 petista Wynton Marsalis faz um
    meus europeus sofrem frio no                   desenhos animados eles con-                  Dos integrantes daquele Bue-               naturais. É a vida — consola-se                  nham seu tempo — diz Omara,                      solo). Penso em convidar Maria
    Rio — para não falar em São                    seguem fazer tão deslumbran-              na Vista que o mundo conheceu                 a cantora, aos recém-completa-                   que já ganhou um Grammy La-                      Bethânia para cantar conosco
    Paulo ou Curitiba. No meio de                  tes. Um ciclorama em degra-               no disco de Ry Cooder e no fil-               dos 81 anos de idade.                            tino com “Gracias”, CD em que                    um dia — anuncia a diva. ■
    julho alguns deles poderão                     dê do azul ao laranja, sobre o
    sentir frio em Santo Amaro.                    qual uma unha de lua e uma
    Ontem eu senti tanto calor em                  estrela se dispunham em
    Santo Amaro que                                             composição incri-


                                                                                             Daniel Peixoto se produz para exportação
    cheguei a suar mi-                                          velmente equili-
    nha camisa bran-               Lembrei-me                   brada em relação
    ca. Nem no cemi-                                            ao pedaço visível
    tério a brisa pare-          agora mesmo                    de céu, numa niti-
    cia amenizar a
                                 dessa peça de                  dez de brilho
    temperatura. É                                              mais real do que o           Ex-integrante do Montage lança disco solo e planeja carreira na Europa
    muito raro isso
    acontecer comigo.
                                  música como                   real, tudo pare-
                                                                cendo fazer senti-                                                                                                                                                                               Divulgação/Allan Bastos
    Saí de lá e fui dire-          tentativa de                 do e afirmar os                     Carlos Albuquerque
    to para o aeropor-                                          fundamentos da
    to de Salvador, on-           me consolar                   beleza. No entan-
                                                                                               carlos.albuquerque@oglobo.com.br




                                                                                             O
    de peguei um                                                to, senti uma frie-                     s documentos estão
    avião para Porto              da secura de                  za interna que me                       encaminhados. Se tu-
    Alegre. Com esca-
    la em São Paulo.              meu espírito                  deixou de cara
                                                                com a evidência
                                                                                                        do der certo, em al-
                                                                                                        guns meses Daniel
    Estava um tanto                                             da gratuidade e              Peixoto — cantor, DJ, ex-mode-
    frio nos aviões, não demais                    indiferença desses arranjos.              lo, fã de Marilyn Manson, ex-in-
    (em geral faz muito frio dentro                Percebi o vazio de valor esté-            tegrante da banda Montage e,
    deles, como nos cinemas e em                   tico nesses fenômenos que                 nas suas palavras, militante GLS
    alguns restaurantes). Em Por-                  podem ser apenas detalhes                 “não separatista” — vai se mu-
    to Alegre só senti frio — pou-                 de uma catástrofe inútil. Al-             dar de São Paulo, onde mora,
    co — depois que o show aca-                    guém muito próximo morreu.                para a Holanda e fincar sua ban-
    bou e a noite já ia alta. Mas                  O acerto do coral londrino                deira multicolorida em Amster-
    não foi muito.                                 executando “A figura huma-                dã, levando junto seu disco “Shi-
        Já conheci o ódio pelo frio,               na” de Poulenc resistirá a tal            ne”, já disponível, em formato
    envolvido em terror, numa                      acontecimento? Se não isso, o             digital, na Amazon e no iTunes.
    noite em Paris durante o exí-                  quê? Na verdade, lembrei-me               Chamado pela MTV internacio-
    lio, a 12 graus abaixo de zero,                agora mesmo dessa peça de                 nal de “sexy brazilian freak” (al-
    tendo deixado o carro longe                    música como tentativa de me               go como “louco brasileiro se-
    do restaurante aonde tínha-                    consolar da secura de meu es-             xy”), ele quer seguir dali para
    mos ido (a temperatura des-                    pírito diante de um tão espe-             uma carreira internacional solo,                   FÃ DE MARILYN Manson, o cantor cearense mistura eletrônica, forró e tecnobrega em “Mastigando humanos”
    ceu grandemente durante as                     cial céu de fim de tarde. Sem             mas com o pé no chão.
    cerca de duas horas que pas-                   ouvi-la, pensar nela fez renas-
    samos ali). Voltamos andando                   cer um pouco a capacidade                   Música sobre automutilação                  nha e do produtor que organi-                    apaixonando pela cidade e seu                    as coisas no exterior. Ano que
    até o carro e no meio do ca-                   de reencontrar o encanto.                    Em 2007, quando ainda inte-                zou aquela turnê — diz ele, que                  jeito cosmopolita. Encontrei                     vem, pensamos em lançar a par-
    minho eu tremi, gritei, me tor-                   Acho que é assim mesmo.                grava o Montage — grupo de ro-                nasceu em Crato, no Ceará. —                     também uma turma do Ceará e                      te dois, “Don’t give up”.
    ci, doí de frio. O que me salvou               Lutamos com o mundo. Nun-                 ck e eletrônica, que se apresen-              Mas isso não vai mudar a forma                   me senti em casa.                                   “Mastigando humanos” e
    foi poder extravasar a raiva                   ca poderia apreender o mun-               tou no Tim Festival daquele ano               desumana como fui tratado.                          Apesar de não ter levado a                    “Shine” estão sendo divulga-
    cantando “Apesar de você”,                     do como desencantado: não                 — e chegou à Europa, via Lon-                    Há pouco mais de seis meses,                  banda com a qual fez alguns                      das também pelo vídeo de
    de Chico — canção que adoro                    lhe entendemos os sentidos                dres, “com muita vontade de ar-               ele deu o voo por cima. Depois                   shows de promoção de “Masti-                     “Olhos castanhos” (dirigido
    até hoje, estando certo de                     últimos, nunca pararemos                  rasar”, ele sofreu uma forte tur-             de lançar no começo do ano seu                   gando humanos” no Brasil, Da-                    pelo próprio Daniel), um misto
    que, se Chico a cantasse no                    de nos surpreender com a                  bulência. Após 32 horas detido                primeiro disco solo, o elogiado                  niel conseguiu datas na Holanda                  de trip hop com embolada (e
    próximo show, eu a ia amar                     mera existência do que quer               no aeroporto de Heathrow, vá-                 “Mastigando humanos” — que                       e se apresentou cantando por                     letra sobre automutilação),
    como coisa atual, nova e viva,                 que seja. O que foi mesmo                 rias vezes interrogado e, por                 misturava eletrônica e ritmos                    cima de bases pré-gravadas. O                    gravado no Ceará, com o can-
    diferentemente do que ele                      que me aconteceu no avião?                causa do seu visual andrógino,                regionais, como forró e tecno-                   sucesso foi o suficiente para                    tor trocando de visual como
    próprio sente em relação a ela.                Que dissabor me mostrou o                 acusado de estar na Inglaterra                brega — ele partiu para a Euro-                  render convites para shows e                     um David Bowie tropical.
    Porque não seria só pela lem-                  luto que desmente minha                   para se prostituir, ele foi depor-            pa novamente, via Paris, para                    apresentações como DJ na Suí-                       — Tenho a impressão de que
    brança desse momento pari-                     certeza de que não há mun-                tado, embora tivesse documen-                 negociar com o selo francês                      ça, na Bélgica e na Espanha.                     os artistas brasileiros têm pre-
    siense: é a força intrínseca da                do sem encanto? O fato é                  tos e filipetas mostrando que ia              Abatjour Records. Dessa vez,                        — A reação foi ótima. Por is-                 conceito contra eles mesmos —
    canção que a fez tão eficaz na-                que terminei, sem pressen-                ao país para um show, seguido                 porém, o pouso foi tranquilo.                    so, quero me instalar na Holan-                  diz. — Acham que se você in-
    quele momento e que não está                   tir, indo pensar na peça de               por uma turnê por França, Ale-                   — Fui com tudo certinho e                     da para fazer mais shows pela                    vestir muito no visual, vai des-
    nem um pouco desgastada pa-                    Poulenc. Quando me sentei                 manha, Holanda e Portugal.                    cheguei a levar o mesmo passa-                   Europa — conta ele, que deci-                    valorizar a música. Como já fiz
    ra mim. E não me faltam inter-                 aqui para escrever, planeja-                 — Fui despreparado para                    porte, com o selo “deportado”,                   diu, com o Abatjour, lançar no                   teatro e trabalhei com moda,
    locutores púbicos ou íntimos                   va comentar Chico sobre si                aquele tipo de situação. Não sa-              mas não tive problema com a                      exterior a versão compacta de                    não penso assim. Quando você
    a quem eu diria cheio de alma                  mesmo e Flora Thomson-De-                 bia que a imigração podia ser                 imigração. Acertei tudo com o                    “Mastigando humanos”. — “Shi-                    consegue criar uma identidade
    aquelas palavras.                              veaux sobre Almodóvar e a                 tão dura. Fui inocente e hoje ve-             selo, conheci uns promotores e                   ne” tem metade das músicas e                     visual, a música acaba sendo
        Raramente odiei o calor. Na                Ação de Graças, mas havia a               jo que boa parte da culpa foi mi-             segui para Amsterdã. Acabei me                   esse título para não complicar                   absorvida mais facilmente. ■
    verdade, nunca. Algumas ve-                    ideia de alguém cantando no
    zes em Guadalupe, em 1956,                     meu cerebelo e terminei in-
    me senti oprimido por ele.                     do dar na Figura Humana.
                                                                                                                                                                               EXPEDIENTE
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Caetano veloso

  • 1. 2 . ● SEGUNDO CADERNO O GLOBO Domingo, 30 de outubro de 2011 CAETANO VELOSO Poulenc Buena Vista volta ao Rio com A ladeira do cemitério de Santo Amaro era um lugar bom para conversar de tarde. Carlinhos de Edite sentia sempre muito calor, por isso liderava a ida de a dama da canção cubana uma pequena turma para deitar no cimento da la- Omara Portuondo é a grande atração do show que a orquestra faz hoje deira, em suas pedras, no meio da tarde. A gente não Divulgação/Manuela Scarpa Silvio Essinger tinha medo. Quando, anos antes, eu morava ainda silvio.essinger@oglobo.com.br R na Rua Direita, ir até o portão dos fundos à noite, eunião de artistas cu- sabendo que o cemitério estava logo ali atrás da ca- banos da era pré-revo- sa de seu Iosinho Freitas, dava medo. Arrodear o lucionária, o projeto de disco e documentá- quarteirão e passar pela frente do portão do cemi- rio Buena Vista Social Club foi tério de bicicleta foi uma aventura que não sei se uma das grandes surpresas do pop do fim dos anos 1990 — vivi (na garupa de um adulto) ou se imaginei assus- uma música harmônica e cultu- tado. Talvez eu tenha vivido mesmo. Dei a volta ralmente rica, muito dançante, que resistiu à erosão do tempo cheio de medo, mas saí da experiência muito mais e ressurgiu mais viva do que destemido. Depois, já morando na Rua do Amparo, nunca. Agora, ela segue com a Orquestra Buena Vista Social uma antes da Estrada dos Carros, onde o cemitério Club, que se apresenta hoje, às fica, eu já não tinha quase medo. Nessas idas à tarde, 20h, no Vivo Rio, com uma con- vidada muito especial: a cantora medo nenhum. A brisa fazia tudo ficar agradável, Omara Portuondo. embora para subir a ladeira a gente tivesse de trans- Integrante do Buena Vista reunido em Havana em 1996 pe- por o portão de ferro batido. lo guitarrista americano Ry Co- oder, Omara é bem conhecida Santo Amaro fica numa bai- Uma vez, em Madri, tive me- dos brasileiros — já se apresen- A CANTORA, que acaba de fazer 81 anos, vai cantar no Vivo Rio clássicos como “Quizas, quizas, quizas” xada. Faz muito calor fora do do do calor seco, como se es- tou no país algumas vezes, fez inverno. O cemitério era o úni- tivesse num filme de ficção dueto com Chico Buarque em co ponto urbano situado so- científica passado num plane- “O que será? (À flor da terra)”, me de Wim Wenders, poucos E a vida segue bem para canta de Chico a Jorge Drexler. bre uma colina. A Igreja da Pu- ta distante e com uma atmos- para o seu disco “Gracias”, de restam na orquestra: Omara Omara Portuondo, cheia de ati- Ainda neste ano, a cantora rificação fica numa parte um fera de composição química 2008, e até dividiu CD e show (que faz participação especial vidades, além das eventuais saiu em turnê com o pianista cu- tanto elevada da praça grande totalmente diferente da da com uma diva da canção nacio- em canções como “Tres pala- apresentações com a Orquestra bano Chucho Valdés (que este- e, com os degraus do adro so- Terra. Em geral o calor me nal (“Omara Portuondo e Maria bras”, “No me llores mas” e Buena Vista. Seu CD “Cantar e ve em agosto no Brasil, no Te- mando-se a isso, tem-se um deixa excitado e cheio de es- Bethânia”, também de 2008). “Quizas, quizas, quizas”), o reir” está concorrendo ao Gram- lefonica Sonidos) para divulgar pouco de vento — de “vira- perança. Os primeiros dias trompetista Guajiro Mirabal, o my Latino de melhor disco in- “Omara & Chucho”, disco lança- ção” — à tarde. Mas nada se quentes de cada ano vêm Povos semelhantes alaudista Barbarito Torres e o fantil (os resultados serão anun- do em maio. É o segundo que fa- compara ao cemitério. O resto cheios de promessas. Já não — Brasil e Cuba têm a mesma trombonista Jesus Aguaje Ra- ciados no dia 10). Nesse traba- zem juntos — o outro foi “Desa- é muito quente. Eu sempre me importa tanto que quase alegria, sempre nos sentimos mos. A mais recente perda do lho, ela canta canções tradicio- fios”, que gravaram em 1997. gostei de calor. Mas muita gen- nunca elas se cumpram. Já é muito bem por aí. Todos nós grupo foi o guitarrista Manuel nais, da infância cubana, como — Nos conhecemos há muito te que nasceu em (e nunca vi- bom à beça andar descalço gostamos muito da música bra- Galbán, que morreu em julho, “Juan me tiene sin cuidado”, tempo, eu cantava com o pai de- veu fora de) Santo Amaro per- em casa, sair sem meias, usar sileira. Há muito em comum en- de ataque cardíaco. “Carpintero”, “El soldadito de le (o pianista Bebo Váldes). É um cebe o calor como um defeito pouca roupa e leve. tre os dois países: a música, o — Ele tinha problemas de plomo” e “El cangrejito”. trabalho de piano e voz, para o insuportável do mundo. Carli- O mundo é um lugar estra- temperamento do povo, o oti- pressão. Nosso grupo viaja sem- — É um disco para mostrar qual chamamos alguns músicos nhos era assim. Minha irmã nho para nós. Hoje vi do avião mismo... — diz a cantora, por te- pre com médicos, mas coisas como é importante que as crian- (em “Esta tarde ví llover”, o trom- Clara é assim. Muitos amigos um desses céus que nem nos lefone, de sua casa em Havana. assim acontecem, são normais e ças sejam crianças, que elas te- petista Wynton Marsalis faz um meus europeus sofrem frio no desenhos animados eles con- Dos integrantes daquele Bue- naturais. É a vida — consola-se nham seu tempo — diz Omara, solo). Penso em convidar Maria Rio — para não falar em São seguem fazer tão deslumbran- na Vista que o mundo conheceu a cantora, aos recém-completa- que já ganhou um Grammy La- Bethânia para cantar conosco Paulo ou Curitiba. No meio de tes. Um ciclorama em degra- no disco de Ry Cooder e no fil- dos 81 anos de idade. tino com “Gracias”, CD em que um dia — anuncia a diva. ■ julho alguns deles poderão dê do azul ao laranja, sobre o sentir frio em Santo Amaro. qual uma unha de lua e uma Ontem eu senti tanto calor em estrela se dispunham em Santo Amaro que composição incri- Daniel Peixoto se produz para exportação cheguei a suar mi- velmente equili- nha camisa bran- Lembrei-me brada em relação ca. Nem no cemi- ao pedaço visível tério a brisa pare- agora mesmo de céu, numa niti- cia amenizar a dessa peça de dez de brilho temperatura. É mais real do que o Ex-integrante do Montage lança disco solo e planeja carreira na Europa muito raro isso acontecer comigo. música como real, tudo pare- cendo fazer senti- Divulgação/Allan Bastos Saí de lá e fui dire- tentativa de do e afirmar os Carlos Albuquerque to para o aeropor- fundamentos da to de Salvador, on- me consolar beleza. No entan- carlos.albuquerque@oglobo.com.br O de peguei um to, senti uma frie- s documentos estão avião para Porto da secura de za interna que me encaminhados. Se tu- Alegre. Com esca- la em São Paulo. meu espírito deixou de cara com a evidência do der certo, em al- guns meses Daniel Estava um tanto da gratuidade e Peixoto — cantor, DJ, ex-mode- frio nos aviões, não demais indiferença desses arranjos. lo, fã de Marilyn Manson, ex-in- (em geral faz muito frio dentro Percebi o vazio de valor esté- tegrante da banda Montage e, deles, como nos cinemas e em tico nesses fenômenos que nas suas palavras, militante GLS alguns restaurantes). Em Por- podem ser apenas detalhes “não separatista” — vai se mu- to Alegre só senti frio — pou- de uma catástrofe inútil. Al- dar de São Paulo, onde mora, co — depois que o show aca- guém muito próximo morreu. para a Holanda e fincar sua ban- bou e a noite já ia alta. Mas O acerto do coral londrino deira multicolorida em Amster- não foi muito. executando “A figura huma- dã, levando junto seu disco “Shi- Já conheci o ódio pelo frio, na” de Poulenc resistirá a tal ne”, já disponível, em formato envolvido em terror, numa acontecimento? Se não isso, o digital, na Amazon e no iTunes. noite em Paris durante o exí- quê? Na verdade, lembrei-me Chamado pela MTV internacio- lio, a 12 graus abaixo de zero, agora mesmo dessa peça de nal de “sexy brazilian freak” (al- tendo deixado o carro longe música como tentativa de me go como “louco brasileiro se- do restaurante aonde tínha- consolar da secura de meu es- xy”), ele quer seguir dali para mos ido (a temperatura des- pírito diante de um tão espe- uma carreira internacional solo, FÃ DE MARILYN Manson, o cantor cearense mistura eletrônica, forró e tecnobrega em “Mastigando humanos” ceu grandemente durante as cial céu de fim de tarde. Sem mas com o pé no chão. cerca de duas horas que pas- ouvi-la, pensar nela fez renas- samos ali). Voltamos andando cer um pouco a capacidade Música sobre automutilação nha e do produtor que organi- apaixonando pela cidade e seu as coisas no exterior. Ano que até o carro e no meio do ca- de reencontrar o encanto. Em 2007, quando ainda inte- zou aquela turnê — diz ele, que jeito cosmopolita. Encontrei vem, pensamos em lançar a par- minho eu tremi, gritei, me tor- Acho que é assim mesmo. grava o Montage — grupo de ro- nasceu em Crato, no Ceará. — também uma turma do Ceará e te dois, “Don’t give up”. ci, doí de frio. O que me salvou Lutamos com o mundo. Nun- ck e eletrônica, que se apresen- Mas isso não vai mudar a forma me senti em casa. “Mastigando humanos” e foi poder extravasar a raiva ca poderia apreender o mun- tou no Tim Festival daquele ano desumana como fui tratado. Apesar de não ter levado a “Shine” estão sendo divulga- cantando “Apesar de você”, do como desencantado: não — e chegou à Europa, via Lon- Há pouco mais de seis meses, banda com a qual fez alguns das também pelo vídeo de de Chico — canção que adoro lhe entendemos os sentidos dres, “com muita vontade de ar- ele deu o voo por cima. Depois shows de promoção de “Masti- “Olhos castanhos” (dirigido até hoje, estando certo de últimos, nunca pararemos rasar”, ele sofreu uma forte tur- de lançar no começo do ano seu gando humanos” no Brasil, Da- pelo próprio Daniel), um misto que, se Chico a cantasse no de nos surpreender com a bulência. Após 32 horas detido primeiro disco solo, o elogiado niel conseguiu datas na Holanda de trip hop com embolada (e próximo show, eu a ia amar mera existência do que quer no aeroporto de Heathrow, vá- “Mastigando humanos” — que e se apresentou cantando por letra sobre automutilação), como coisa atual, nova e viva, que seja. O que foi mesmo rias vezes interrogado e, por misturava eletrônica e ritmos cima de bases pré-gravadas. O gravado no Ceará, com o can- diferentemente do que ele que me aconteceu no avião? causa do seu visual andrógino, regionais, como forró e tecno- sucesso foi o suficiente para tor trocando de visual como próprio sente em relação a ela. Que dissabor me mostrou o acusado de estar na Inglaterra brega — ele partiu para a Euro- render convites para shows e um David Bowie tropical. Porque não seria só pela lem- luto que desmente minha para se prostituir, ele foi depor- pa novamente, via Paris, para apresentações como DJ na Suí- — Tenho a impressão de que brança desse momento pari- certeza de que não há mun- tado, embora tivesse documen- negociar com o selo francês ça, na Bélgica e na Espanha. os artistas brasileiros têm pre- siense: é a força intrínseca da do sem encanto? O fato é tos e filipetas mostrando que ia Abatjour Records. Dessa vez, — A reação foi ótima. Por is- conceito contra eles mesmos — canção que a fez tão eficaz na- que terminei, sem pressen- ao país para um show, seguido porém, o pouso foi tranquilo. so, quero me instalar na Holan- diz. — Acham que se você in- quele momento e que não está tir, indo pensar na peça de por uma turnê por França, Ale- — Fui com tudo certinho e da para fazer mais shows pela vestir muito no visual, vai des- nem um pouco desgastada pa- Poulenc. Quando me sentei manha, Holanda e Portugal. cheguei a levar o mesmo passa- Europa — conta ele, que deci- valorizar a música. Como já fiz ra mim. E não me faltam inter- aqui para escrever, planeja- — Fui despreparado para porte, com o selo “deportado”, diu, com o Abatjour, lançar no teatro e trabalhei com moda, locutores púbicos ou íntimos va comentar Chico sobre si aquele tipo de situação. Não sa- mas não tive problema com a exterior a versão compacta de não penso assim. Quando você a quem eu diria cheio de alma mesmo e Flora Thomson-De- bia que a imigração podia ser imigração. Acertei tudo com o “Mastigando humanos”. — “Shi- consegue criar uma identidade aquelas palavras. veaux sobre Almodóvar e a tão dura. Fui inocente e hoje ve- selo, conheci uns promotores e ne” tem metade das músicas e visual, a música acaba sendo Raramente odiei o calor. Na Ação de Graças, mas havia a jo que boa parte da culpa foi mi- segui para Amsterdã. Acabei me esse título para não complicar absorvida mais facilmente. ■ verdade, nunca. Algumas ve- ideia de alguém cantando no zes em Guadalupe, em 1956, meu cerebelo e terminei in- me senti oprimido por ele. do dar na Figura Humana. EXPEDIENTE SEGUNDA-FEIRA TERÇA-FEIRA QUARTA-FEIRA QUINTA-FEIRA SEXTA-FEIRA SÁBADO DOMINGO Felipe PELO MUNDO Francisco PELO MUNDO Hermano José Miguel Caetano Editora: Isabel De Luca (ideluca@oglobo.com.br) • Editores assistentes: Bernardo Araujo (bbaraujo@oglobo.com.br), Cristina Fibe (cristina.fibe@oglobo.com.br), Fátima Sá Hirsch Cristina Ruiz, Bosco Eduardo Graça, Vianna Wisnik Veloso (fatima.sa@oglobo.com.br) e Nani Rubin (nani@oglobo.com.br) • Fotografia: Leonardo Aversa (aversa@oglobo.com.br) • Diagramação: Ana Cristina Machado e Télio Navega • de Berlim de Nova York Eduardo Levy, Telefones/Redação: 2534-5703 • Publicidade: 2534-4310 (publicidade@oglobo.com.br) • Correspondência: Rua Irineu Marinho 35, 2º andar. CEP: 20233-900 de Los Angeles