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JOÃO ANÍBAL HENRIQUES
AL-QABDAQ
MemorialHistóricodeAlcabideche
AL-QABDAQ
MemorialHistóricodeAlcabideche
JOÃO ANÍBAL HENRIQUES
Ficha Técnica:
Título: AL-QABDAQ – Memorial Histórico de Alcabideche
Autor: João Aníbal Henriques
Execução Gráfica: Gráfica Diário do Minho Lda.
Data: Novembro de 2022
Tiragem: 1000 exemplares
Depósito Legal: 509260/2
Em memória de Henrique Felgar
que na sua Quinta da Machada me ensinou
o imenso valor da sabedoria, do conhecimento
e das expressões culturais populares saloias…
7
ÍNDICE
Pág.
ABERTURA por José Filipe Ribeiro – Presidente da JF Alcabideche .................. 009
PREFÁCIO por Carlos Carreiras – Presidente da CMC ........................................ 011
INTRODUÇÃO............................................................................................................ 015
I – Um Alcabideche Perdido nas Brumas do Tempo ....................................... 019
II – Na Penha Verdejante da Tradição ................................................................ 045
III – Al-Qabdaq no dealbar da História ............................................................ 113
IV – Na Rota Saloia que Define Portugal .......................................................... 139
V – Origens e Tradições dos Saloios de Alcabideche ....................................... 175
VI – Simbologia do Espaço em Alcabideche .................................................... 207
VII – Arquitectura de Cenário ou o Cenário de Alcabideche......................... 225
VIII -Aspectos Decorativos nas casas Saloias de Alcabideche ...................... 249
IX – Saloios Orgulhosos! ..................................................................................... 261
Conclusão ...................................................................................................................... 283
Bibliografia .................................................................................................................... 289
9
ABERTURA
POR JOSÉ FILIPE RIBEIRO
PRESIDENTE DA JUNTA DE FREGUESIA DE ALCABIDECHE
Situada entre a serra e o mar, Alcabideche foi habitada por di-
versos povos, de origens e culturas ibérica, romana e árabe.
Terra de gente simples, marcadamente rural, a Freguesia de
Alcabideche sempre respondeu, afirmativamente, aos desafios
que lhe foram colocados ao longo da história, deixando, as ge-
rações passadas um legado rico e farto, dando ao território uma
identidade indissociável de que muito nos orgulhamos.
Não somos diferentes, mas temos uma forma diferente de es-
tar na vida e de a enfrentar.
“Al-Qabdaq – Memorial Histórico de Alcabideche” é a obra
que faltava e que melhor retrata e descreve as memórias das gen-
tes de Alcabideche e define com todo sentido o referido topónimo
…” É por isso sinónimo de responsabilidade o topónimo Alcabi-
deche. A responsabilidade de sermos capazes de deixar para as
próximas gerações uma freguesia ainda melhor do que aquela
que nós próprios herdámos.”
Esta obra é um legado que ficará registado para sempre, com
o mérito de relembrar as gentes de alcabideche e seus costumes,
João Aníbal Henriques
10
tenho a certeza absoluta que irá despertar um forte interesse em
todos os seus leitores.
Nada melhor para escrever esta obra que João Aníbal Henri-
ques nascido e criado em Cascais, sempre se dedicou à defesa dos
interesses cascalenses, preservando tudo aquilo que está ligado à
sua história.
Quero agradecer ao autor e amigo Joao Aníbal Henriques que
em boa hora desafiou a Junta de Freguesia de Alcabideche a par-
ticipar no lançamento desta fabulosa obra.
O meu obrigado pelo trabalho realizado e que muito honra a
Junta de Freguesia de Alcabideche.
11
PREFÁCIO
POR CARLOS CARREIRAS
PRESIDENTE DA CÂMARA MUNICIPAL DE CASCAIS
Para quem olha de fora, Cascais é um concelho frequentemen-
te objeto de preconceções.
E, como sabemos, a maior parte das vezes as preconceções não
só são insuficientes. Elas são profundamente erradas.
Tal como um relógio parado dá as horas certas duas vezes ao
dia, estando circunstancialmente certo num contexto errado, tam-
bém Cascais sofre o mal da ilusão criada por diversos “relógios
parados” com os quais nos fomos familiarizando. A nossa com-
plexidade como território e como comunidade, porém, vai muito
para além de atalhos para ideias pré-concebidas. Não pode, tão
pouco, ser reduzida a elas.
Cascais não se confina numa imagem. Ou num postal. Ou
numa freguesia. Cascais é união na pluralidade de identidades
e modos de vida, de paisagens e horizontes, num tempo tão lar-
go que junta na mesma fita os romanos e os árabes, os reis e os
pescadores. Nós, Cascalenses, somos o produto de todas destas
interseções.
Cascais como um todo será sempre muito superior à soma iso-
lada de cada uma das nossas partes.
João Aníbal Henriques
12
Mas, lá está, para que nunca se tome a parte pelo todo é neces-
sário conhecer bem cada uma das unidades que nos compõem.
“Al-Qabdaq – Memorial Histórico de Alcabideche” é um es-
forço nesse sentido, transportando-nos a todos até a uma das
freguesias que mais desafia as convenções associadas ao nosso
território: Alcabideche.
Cantada por poetas árabes em tempos imemoriais, Alcabide-
che é uma terra de origens orgulhosamente saloias, de homens e
mulheres que vivem em simbiose com a terra e com a natureza
feita modo de sobrevivência.
Bem cravada na junção do nosso Parque Natural com o Ocea-
no Atlântico, Alcabideche é o pórtico da Europa para o mundo.
Há até quem defenda, como o profícuo autor deste livro, que foi
nesta freguesia, no lugar de Casais Velhos, que nasceu a ideia de
unidade Europeia através de Roma.
Alcabideche é hoje um lugar que funde o melhor que nos defi-
ne: a identidade arreigada, a natureza em estado puro, o Oceano
de liberdade, a lotaria natural de mãos dadas com uma pondera-
da ação humana que se reflete no cuidado com o espaço público,
a pujança dos nossos empreendedores na DNA ou os melhores
cuidados de saúde no principal hospital do concelho.
Alcabideche terá mudado muito nos últimos séculos e déca-
das. Mas uma coisa não mudou: a qualidade de vida esta terra de
vento
Al-Qabdaq – Memorial Histórico de Alcabideche, marca o re-
gresso de João Anibal Henriques à escrita. Em boa hora o fez.
João Aníbal Henriques não é apenas um dos maiores conhece-
dores de Cascais e das suas gentes. Não é apenas um académico
13
AL-QABDAQ – Memorial Histórico de Alcabideche
e um cascalense reconhecido. Mais do que isso, o que já não seria
pouco, João Aníbal Henriques é um raro contador de histórias.
Histórias com gente dentro. Daquela gente que, como canta o
fado de Marisa, “fica na história, da história da gente”.
Recomendo enfaticamente a leitura deste livro.
Para os que não conhecem Alcabideche, é uma viagem que
desperta todos os sentidos.
Para os que pensam conhecer Alcabideche, é um desafio às
nossas certezas absolutas: saberemos realmente quem somos?
Esta é a interrogação que nos acompanha há milénios a par-
tir da outra extremidade da Europa, no Oráculo de Delfos. Pelo
menos no que diz respeito à nossa magnifica Alcabideche, neste
livro encontraremos respostas às perguntas que talvez nunca te-
nhamos feito.
15
INTRODUÇÃO
Alcabideche nasceu encostada às penedias calcárias da Serra
de Sintra. O vento, inclemente vindo do Norte, determinou sem-
pre a vida na localidade, condicionando as escolhas, as possibili-
dades e os caminhos daqueles que por ali vão vivendo.
Ao longo dos milénios, praticamente desde que o Homem se
instalou nestas paragens, que o território que é hoje de Alcabide-
che é marcado pelo horizonte azul vindo do mar e o tom sempre
verde com que a serra a deleita. Pelo meio, como se fosse coisa
menos importante, o solo úbere e proveitoso, gemendo através
das muitas linhas de água que a atravessam.
Sempre se viveu muito bem em Alcabideche. O sonho, na ir-
realidade onírica de uma paisagem marcante e propícia ao bem-
-estar, é alicerce principal das gentes que desde sempre labutam
de sol a sol para alimentar Cascais e as redondezas.
São os saloios, ou seja, aqueles que dependem da salah de ori-
gem africana e que, com a força dos seus braços são capazes de
adaptar a sua terra às vicissitudes do território de forma a extrair
dela o ouro verdadeiro quem muito trabalha.
Os habitantes de Alcabideche sempre foram alquimistas, não
no sentido quase obsceno que lhe foi dado pelas perseguições que
resultaram dos radicalismos religiosos que ao longo dos tempos
afectaram ciclicamente a humanidade, mas no sentido que deriva
da sua imensa capacidade de transmutar a matéria e dela fazer as
substâncias das quais depende a própria vida.
João Aníbal Henriques
16
Os saloios de Alcabideche, mágicos nas suas eternas reivin-
dicações à natureza, recolheram as águas, alimentaram as terras,
experimentaram e implantaram novas culturas e trabalharam a
pedra. E, como Cascalenses de primeira linha que são, foram res-
ponsáveis ao longo de muitas e múltiplas gerações, pela boa saú-
de das gentes de Cascais.
Em cada canto e recanto de Alcabideche, naqueles pequenos
detalhes que só quem lá vive conhece, vislumbram-se os vestí-
gios desse imenso engenho. E no topo das colinas, naquelas zo-
nas onde o vento é mais agreste, flutuam as velas bem erguidas
dos vetustos moinhos de outros tempos.
Já dizia Ibn Mucana, o padroeiro lendário de Alcabideche, que
aquela era terra de vento, pobre na sua origem geológica, mas
riquíssima pela capacidade e persuasão dos que lá viveram. Mas,
como ele alegoricamente também referia, não eram raras as ma-
nadas de javalis que desciam através das faldas da serra e que
literalmente dizimavam toda a produção que por ali se fazia…
Muitos séculos depois de os Árabes terem marcado definiti-
vamente a localidade, e de os saloios que lhes sucederam terem
preservado e promovido os muitos conhecimentos que estes lhes
deixaram, Alcabideche é hoje uma terra escondida por detrás de
um mito: o da suburbanidade. Dizem muitos, provavelmente por
desconhecimento efectivo de toda a riqueza que esta freguesia
tem, que Alcabideche é um dormitório de segunda linha de Cas-
cais e que a localidade, alcandorada nas suas velhas penhas, não
possui qualquer outro motivo de interesse.
Mas esta é uma falácia que importa desmistificar imediata-
mente. Porque Alcabideche, de pés mergulhados no azul límpido
17
AL-QABDAQ – Memorial Histórico de Alcabideche
do oceano e nas profundezas míticas da Serra de Sintra, é terra
plena de motivos de interesse.
Os mistérios que se escondem dos menos atentos, repercutin-
do os gestos que traduzem a mais ancestral e tradicional terra
de Cascais, completam um circuito deslumbrante que não deixa
ninguém indiferente.
É esta a rota que agora lhe trazemos, num mergulho sentido e
pleno pelas extraordinárias terras de Al-Qabdaq!
Alcabideche
Primavera de 2022
I
Em busca de um Alcabideche
perdido nas brumas do tempo
21
U
ma das mais terríveis incertezas que flagelam quem
pretende avançar por caminhos alternativos quando ex-
plora uma localidade, é perceber que os guias existen-
tes, sejam eles de natureza turística ou meramente jornalística,
apontam muitas vezes para aspectos verdadeiramente genéricos
e pouco interessantes das localidades a explorar.
Essas indicações, quantas vezes resultantes de meros lugares-
-comuns, dão corpo à documentação existente, mas geralmente
não passam de simples estratégias comerciais que impõem no
mercado as empresas que os produzem de forma massificada e
sem o trabalho de campo necessário para aferir e garantir a qua-
lidade das informações que publicam.
Este mal, que vai crescendo de forma exponencial por todo
o território de Portugal, país avesso a reconhecer as suas verda-
deiras mais-valias e pouco dado a potenciar aquilo que o trans-
forma num destino extraordinário e irrepetível no Mundo em
que vivemos, multiplica-se de sobremaneira em Alcabideche.
A freguesia, com a multiplicidade de pontos de interesse que
cruzam a paisagem, a História, as histórias e o património, su-
cumbe de forma estranha aos ímpetos maiores da envolvente.
A proximidade a Cascais, aos Estoris e mesmo a Sintra, num
modelo de interpretação do turismo que impõe sempre uma
abordagem genérica e minimalista ao território, geralmente sem
perceber que a multiplicação dos motivos de interesse pressu-
põe sempre um reforço exponencial da atractividade da região,
minoriza os caminhos de Alcabideche, pensando que assim va-
loriza os pólos mais comuns de interesse que proliferam na vi-
zinhança.
João Aníbal Henriques
22
Mas este é um erro cada vez mais evidente. Na área da Fre-
guesia de Alcabideche, obviamente em abordagens alternativas
ao espaço e às suas gentes, encontramos uma multiplicidade de
atracções que motivam a visita e que constroem com o visitante
os laços de significação necessários ao turismo não-massificado
que Cascais deseja.
E quando é assim, num movimento pendular que vai cres-
cendo de forma abissal ao longo de todo o Mundo, as estradas
confortáveis e bem acabadas, com os seus passeios intocados e
os tapetes de betume a rebrilhar com esmero, começam progres-
sivamente a ser trocadas pelos velhos caminhos empoeirados que
nos transportam através das histórias que dão forma à História
maior da passagem do Ser Humano por esses ermos.
Como refere João Miguel Henriques no livro comemorativo
do 650º aniversário da autonomia de Cascais1
, a proliferação das
pequenas aldeias que actualmente compõem o território muni-
cipal de Cascais acontece principalmente durante o período de
ocupação muçulmana. A multiplicidade de expressões de ori-
gem etimológica árabe e a toponímia que ainda hoje utilizamos,
demonstra que Alcabideche foi um desses espaços importantes
desde tempos imemoriais. E, não só pelo que refere este autor,
mas principalmente pelo que fica implícito na sua abordagem ao
tema, porque a especial atenção dedicadas pelos Árabes ao terri-
tório actualmente incluído no espaço da Freguesia de Alcabide-
che só faz sentido se pensarmos que quando eles ali chegaram já
existiria nessa zona um manancial de pujança, riqueza e prospe-
1
HENRIQUES, João Miguel (Coordenação Geral), Cascais – Território, História e
Memória 650 Anos, Cascais, Câmara Municipal de Cascais, 2014.
23
AL-QABDAQ – Memorial Histórico de Alcabideche
ridade que lhes despertou o desejo e a cobiça, a ancestralidade
desta importância, certamente relacionada com a fertilidade das
suas terras, terá origem bastante mais recuada: “A presença do
Homem no território que hoje constitui o Concelho de Cascais
parece remontar ao Paleolítico, período de que ainda hoje sub-
sistem importantes vestígios arqueológicos, o mesmo suceden-
do no que concerne à época romana, cujas villae contribuíram de
forma decisiva para o povoamento da região. Não obstante seria
durante os quase quatro séculos e meio de domínio muçulmano
que se assistiria ao nascimento de uma constelação de pequenas
aldeias que ainda hoje constituem parte fundamental da matriz
identitária do concelho, como o atesta a abundante toponímia de
raiz árabe e a afirmação do primeiro povoado de certa impor-
tância: Alcabideche, cujos moinhos de vento o poeta Ibn Mucana
celebrou”.
Neste primeiro percurso, pleno de simbologia e de significa-
do, desconstruímos um mito maior que enforme Alcabideche há
demasiados anos. O de que a Freguesia, situada algures nas cos-
tas de Cascais, é motivo de parco (ou nenhum) interesse…
Nas veredas imensas que dão forma à passagem do tempo,
urge destacar a simbiose que Alcabideche promove entre o azul
cristalino do seu mar e o verde pujante da sua serra. Porque mar
e serra, conjugados neste cadinho onírico e irrepetível da região,
dão corpo às mais incríveis paisagens que se podem conhecer a
pouco mais de 27 quilómetros da capital de Portugal.
Fácil se torna, desta maneira, perceber que o carácter des-
lumbrante destes caminhos, que marca de forma evidente as
prioridades de quem viaja para se debater com o que de me-
lhor existe em paragens distantes, sempre ali existiu da mesma
João Aníbal Henriques
24
maneira. E que, se actualmente se vai impondo cada vez mais
como motivo potenciador de visita e do seu reconhecimento, as
condições ímpares que oferece se espraiam ao longo do tempo
e das eras.
De facto, praticamente desde os primórdios da ocupação hu-
mana naquele que é hoje o território português, que em terras
de Alcabideche se instalaram comunidades que ali encontraram
as melhores condições para as explorar e, reconhecidas as suas
mais-valias, para efectivamente ali se instalarem e viverem. Esse
facto deve-se, mais do que a qualquer outra coisa, à efectiva po-
tencialidade que o território sempre apresentou para bem aco-
lher, para bem receber e para promover a melhor qualidade de
vida para todos aqueles que por ali se atravessam. Foram essas
populações, aliás, quem determinou a pujança que sempre carac-
terizou Alcabideche e que, durante o período de ocupação árabe,
determinou igualmente o interesse por eles demonstrado relati-
vamente a estas terras.
Apesar da grande importância e da enorme influência que os
árabes tiveram na consolidação de Alcabideche enquanto pólo
urbano satélite da própria Vila de Cascais, não é lícito pensar que
eles aí se tenham instalado sendo o actual território de Alcabide-
che um espaço ermo e abandonado, vazio de gentes e desértico
das estruturas produtivas às quais eles davam tão grande impor-
tância. Pelo contrário. O seu interesse por Alcabideche, depois
da chegada a este espaço, prende-se naturalmente com a efectiva
riqueza que quem aqui vivia já apresentava e que, dessa forma
ilustrativa, terá promovido o interesse dos árabes em ali se ins-
talarem aproveitando também o manancial de prosperidade que
existiria nesta terra.
25
AL-QABDAQ – Memorial Histórico de Alcabideche
Por isso, desde os primórdios mais antigos da Pré-História,
quando os primeiros caçadores-recolectores se espalharam pelo
Mundo, que as arribas marítimas de Alcabideche, bem como as
encostas verdejantes da Serra de Sintra, serviram de palco às lu-
tas quotidianas que marcaram de forma incessante as vidas da-
quela gente.
A multiplicidade de ambientes, marcados em locais estraté-
gicos pela existência de um microclima de base mediterrânica,
com Invernos amenos e Verões pouco quentes, fez sempre pro-
liferar a fauna e a flora, reforçando assim a atractividade da-
quelas terras para receberem as comunidades humanas que aí
encontravam boas condições de abrigo, segurança e um clima
potenciador de uma vida estável e menos exigente. Os vestígios
que deixaram, bem identificados por Guilherme Cardoso na sua
“Carta Arqueológica de Cascais”2
mostram bem essa natural
apetência das primeiras comunidades por aquele que é actual-
mente o território de Alcabideche, onde se instalaram desde os
mais recuados tempos e onde deixaram vestígios importantes
que nos ajudam a perceber quem somos e como nos tornámos
no que somos no presente.
O passo seguinte, numa permanente reinterpretação da rea-
lidade que o Homem vai fazendo, foi a criação de laços perenes
entre o espaço e as suas gentes. E também aqui, num espaço que
em Alcabideche foi vivido em pleno, encontramos ainda hoje os
ecos ancestrais daquelas vozes de outros tempos e das preces que
angustiadamente eles foram dizendo.
2
CARDOSO, Guilherme, “Carta Arqueológica do Concelho de Cascais, Cascais,
Associação Cultural de Cascais, 1991.
João Aníbal Henriques
26
A religiosidade dos povos que habitaram o actual território de
Alcabideche, profundamente ligada à estreiteza da dependência
existente entre essas primeiras comunidades e o meio envolven-
te, estende-se de forma sensível a cada canto e recanto da fregue-
sia que hoje temos. As linhas de água, mananciais permanentes
de vida e de fertilidade, recriam em si próprio canais de ligação
estratégica ao céu. Mas é nos acidentes da paisagem, principal-
mente naqueles que demonstram uma maior falta de sintonia
perante o espaço envolvente, que encontramos resquícios mais
interessantes dessa ligação às crenças e aos anseios desses outros
tempos.
Nas histórias de hoje, lendariamente assumidas como introito
para compreendermos o pensamento que gizou a sobrevivência
dessas gentes, estão plasmadas as mais importantes linhas que
definiram a relação entre a paisagem e os povos que as habita-
ram. E nos leitos das ribeiras que atravessam a freguesia, pintan-
do de verde-escuro a paisagem e deixando atrás de si um rasto
fulgurante de fertilidade e ensejo, encontramos igualmente as
veias que pulsaram com o sangue de milhares de gerações que
neste espaço nos precederam.
Uma das mais ancestrais dessas histórias começa ainda na ac-
tual Freguesia de Cascais. Cruzando um manancial de água que
nascia a Norte da Aldeia de Juso e se multiplicava em diversos
veios confluentes até aos Casais Velhos, fica definida uma linha
orientadora do assentamento das comunidades ancestrais, defi-
nindo ao longos dos milénios, dos séculos e das muitas gerações
que por ali se mantiveram, um pensamento complexo e exigente,
bom tradutor daquilo que foi a riqueza das muitas vidas que por
aqueles espaços se desenvolveram.
27
AL-QABDAQ – Memorial Histórico de Alcabideche
O manancial dos Casais Velhos, que hoje podemos ainda re-
conhecer na velha fonte de chafurdo romana que está no final
da Estrada da Fonte Velha, carregava consigo os benefícios com
os quais os deuses presenteavam aqueles que deambulavam por
estas terras. E se há dois mil anos, em plena pujança da presença
romana por estas paragens, os habitantes locais transformaram
as suas crenças em forma de subsistência, alquimicamente mu-
dando as propriedades físicas do Murex, marisco utilizado para a
preparação da tinta de cor púrpura, no sangue efectivo que Cristo
verteu, muitos milhares de anos antes, esse mesmo caminho al-
químico havia sido calcorreado por aquele que, com a sua capa-
cidade de reinterpretar os sinais da natureza, neles encontravam
o cadinho perfeito para preparar a subida de cada um aos céus.
Por tudo isso, é este o primeiro e maior de todos os caminhos
turísticos que nos levam a Alcabideche. Desde os Casais Velhos,
junto à povoação da Areia, ainda na Freguesia de Cascais, num
percurso simbiótico que conjuga o significado enorme do binó-
mio formado pelo Sol e pela Lua em direcção ao Porto de Touro,
no extremo Ocidental do Concelho.
Se em termos simbólicos, a ambiguidade masculino-femini-
no fica bem espelhada na essência andrógina da actual Fregue-
sia de Alcabideche (como os anjos que não têm sexo…), na qual
o astro rei e o satélite que define a generalidade dos mais im-
portantes fenómenos que constrangem fisicamente toda a gente,
em termos práticos é a vertente patriarcal de Cascais que se vai
feminilizando progressivamente à medida em que nos vamos
aproximando da Serra da Lua e dali usufruímos da protecção
divina materna bem expressa nos cultos e rituais ancestralmen-
te dedicados à Deusa-Mãe e que ao longo dos tempos se foram
João Aníbal Henriques
28
cristianizando em torno da figura maternal de Nossa Senhora
da Conceição.
Como para se chegar ao Pai, o caminho se faz pelos vales da
amargura nos quais é essencial a protecção física da Mãe-divina,
os vales de lágrimas vão-se constrangendo através das penhas
sempre verdes das terras de Alcabideche.
Nessa linha que nos leva do Sol à Lua, combinação perfeita da
Família Ancestral enquanto orientação maior da vida, o traçado
transporta-nos simbolicamente através do espaço visceral deste
lugar onde a terra acaba e o mar começa. Atravessamos o rio da
vida, simbolicamente conduzido pela Ribeira das Almoínhas Ve-
lhas (porque as almas novas ainda não têm a capacidade de subir
ao céu), e encetamos o percurso que nos faz subir até Deus des-
cendo sempre em direcção ao mar e explorando a cada passo as
misérias de cada um e os seus infernos internos.
A cada passo que damos, deixando para trás o espectro lumi-
noso do Sol e encetando o trilho obscuro da vida que nos tolda a
visão material mas nos desperta os sentidos subtis de que neces-
sitamos para subir ao céu, é a Lua, deusa-mãe sempre atenta às
amarguras que condicionam o dia-a-dia dos seus filhos e das suas
gentes, que serve de guia, fazendo confluir na sua base, como se
de um destino se tratasse, as malfazejas feridas que nos vão cor-
rompendo a Alma. Aqui, o que vale é o caminho, mais do que o
destino. Até porque, de acordo com a sapiência original que deu
corpo a este trajecto, é nas deambulações do Espírito através das
tentações da matéria que podemos aspirar à libertação total e à
ascenção efectiva até ao trono celeste.
Desde os Casais Velhos até ao Guincho, calcorreando os ca-
minhos de areia que as dunas nos deixam, o percurso faz-se atra-
29
AL-QABDAQ – Memorial Histórico de Alcabideche
vés dos laivos maiores da água. A que vem da Serra e nos chega
através dos muitos veios que se multiplicam ao longo da encosta,
confluem na Crismina para convergirem para o mar, onde se rea-
bilitam pelo sal que lhes modifica as propriedades físicas numa
alquimia da qual não está isenta a força da própria vida que ne-
cessita do sal para a sua sobrevivência.
Este “sal da vida”, reforçando o sangue e dotando-o da capa-
cidade de se reinventar espiritualmente, segue então pelo trilho
que nos leva ao Abano. E ali chegados, no local onde o mar se
multiplica em desígnios insondáveis, encontramos então o popu-
larmente designado “Caminho das Almas Velhas” que nos leva
até ao Espigão das Ruivas através das falésias.
Como sempre, e tudo na vida se faz sempre assim, mais im-
portante do que o caminho é a forma como o vemos, como o sen-
timos e como experimentamos aquilo que ele nos oferece. Neste
caso específico, o trilho que lhe propomos fazer pode ser visto
sob muitas perspectivas e em abordagens completamente dife-
rentes. Mas, como todos os espaços especiais que Alcabideche
nos oferece, todas as abordagens nos levam através dos cami-
nhos de deslumbramento.
Se seguirmos as pistas da biodiversidade, reencontramos neste
espaço os laivos de uma fauna e de uma flora pujantes e raros,
mostrando-nos espécies de animais e de plantas que raramente se
encontram noutros lados. E se, mesmo assim, quisermos deslum-
brar-nos ainda mais com tanta riqueza que este caminho tem para
nos oferecer, podemos ficar atentos às alterações da paisagem, aos
acidentes geológicos que nos trazem à visão velhas chaminés vul-
cânicas, e sobretudo às grutas e enseadas que sempre despertaram
curiosidade e interesse junto daqueles que as conhecem.
João Aníbal Henriques
30
Logo no início, quando em Cascais ainda estamos, a Gruta do
Abano teve ocupação ancestral e mostra-nos bem como um espa-
ço com a obscuridade própria de uma reentrância na falésia, pode
facilmente dotar-se de uma aura mística que não deixa ninguém
indiferente.
Em linha com o que se passa na Gruta do Rei, no coração da ac-
tual Quinta do Pisão, estes dois espaços naturais foram sendo rein-
terpretados pelas diversas comunidades humanas que os conhe-
ceram e adaptaram-se aos usos e às crenças diversas que ao longo
das eras se foram multiplicando. A complexidade do pensamento
humano, com derivações permanentes que se prendem com o seu
estádio evolutivo, mas também com as condicionantes próprias do
seu meio, estabeleceu sempre uma relação de grande significação
com o interior da terra. E em Alcabideche, principalmente devido
às mães-de-água que abundam na encosta da serra, mas também
em virtude das muitas grutas que o maciço calcário potencia, essa
ligação simbólica profunda ganha laivos verdadeiramente deter-
minantes na História das localidades onde eles se inserem.
Desconhecidos e escuros, tal como acontece com os mitos da
fertilidade ligados ao regresso ao útero materno, estes espaços in-
ternos motivam a criação de novas formas alternativas de ilumina-
ção que alteram radicalmente a estrutura de pensamento de quem
ousa vivê-los. Nesta linha, determinante se pensarmos que a coesão
cultural deAlcabideche depende visceralmente desta argamassa de
pensamento interpretativo que desconstrói o território e determina
a forma como as diversas comunidades humanas o foram vivendo
ao longo das eras, os primeiros caminhos desta freguesia fazem-se
por cima, mas também por baixo, da própria terra. Até porque o
que está em cima é sempre igual ao que está em baixo…
31
AL-QABDAQ – Memorial Histórico de Alcabideche
No Abano, espaço despojado de quaisquer outros motivos de
interesse para além do preciosismo geológico que a gruta apre-
senta, encontramos aquele que provavelmente foi um dos primei-
ros refúgios nas noites antigas de tempestade e frio que amiúde
assolam aquele lugar. E nas suas paredes ancestrais, marcadas a
fogo e a sangue, ficaram as impressões milenares que preocupa-
ram os muitos homens que por ali foram passando.
Neste caminho velho de Alcabideche, onde se iniciam as orien-
tações mais factuais que nos levam ao Porto de Touro, encontra-
mos enfim os resquícios sempre fugazes que traduzem a essência
dos que nos precederam. E no despojamento extraordinário de
espaços como este, nos quais o impacto do Mundo é muito maior
do que qualquer impacto possivelmente produzido pelo Homem,
torna-se muito mais fácil perceber que, em todas as épocas e em
todos os tempos, o Ser Humano procura sempre o mesmo. A paz,
a felicidade e…. a perpectuação da sua memória num tempo que
inexoravelmente nos leva para detrás da cortina do esquecimento.
Ao seguirmos o Caminho das Almas Velhas, neste que é pro-
vavelmente a mais antiga e extraordinária rota de Cascais, é obri-
gatório que cada participante assuma antecipadamente que car-
rega consigo as suas memórias. Daquilo que foi, daquilo que é, e
também daquilo que pretende vir a ser. Nesta ritualística ances-
tral, que desde tempos imemoriais carregava da terra ao mar o
fruto sagrado que se produzia no extremo Ocidente, cabem todos
os credos e todos os ramos possíveis do saber. Porque abarca, na
plenitude maior da sua abrangência ecuménica, os valores essen-
ciais que são transversais a todas as religiões.
Por isso, ao longo do percurso, nem sempre fácil de forma a
aproximar-se o mais possível do percurso usual da vida de cada
João Aníbal Henriques
32
ser vivente, vão ganhando forma as práticas de cultos que ao
mais comum dos mortais poderão parecer antagónicas e até sub-
versivas.
Na linha provavelmente neolítica dos cultos da Deus-Mãe,
senhora grávida que é responsável pela multiplicação fértil da
humanidade sobre o Planeta Terra, quase todos os caminhos con-
vergem para o fim determinista que é igualmente comum a to-
dos os homens: a morte. Simbolicamente arreigada a planos de
existência ambíguos, até porque ambígua é igualmente a relação
que o Ser Humano (independentemente da sua origem, cor, etnia,
extracto económico ou social, nacionalidade ou crenças) estabele-
ce sempre com a contingência obrigatória de o seu percurso ter
obrigatoriamente de se dirigir para um fim, a morte está sempre
simbolicamente ao dobrar da esquina, ali mesmo onde ninguém
a espera. A diferença faz-se, como todos certamente percebem,
na capacidade de cada um estar preparado em permanência para
encetar esse novo caminho, no qual todos os conhecimentos acu-
mulados em vida de nada valem.
Razão pela qual, ainda hoje quando se passaram já muitos mi-
lénios desde as primeiras caminhadas iniciáticas efectuadas nes-
te espaço, a preferência dos que possuem acutilância de visão,
é fazê-lo à noite, intuindo o trilho, os obstáculos e a meta, mais
do que efectivamente sulcando os passos seguros de um circuito
iluminado pelo Sol…
Na primeira descida, quando o riacho das Almoínhas Velhas
nos traz à lembrança as dificuldades da vida, fácil se torna per-
ceber a nuance muito ligeira que vivemos neste lugar. Mercê de
uma elevação do terreno em direcção ao mar, marcado de forma
efectiva pelos pinheirais dobrados que permanentemente persis-
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AL-QABDAQ – Memorial Histórico de Alcabideche
tem na sua luta titânica contra o vento, desaparece de forma re-
pentina o troar das ondas nos calhaus rolados da praia, para que
toda a envolvente se encha de um silêncio imenso.
De noite, quando todos os sentidos estão mais apurados, fácil
se torna perceber esta alteração que a natureza nos impõe e de dia,
quando a caminhada segue iluminada pelo calor intenso, é precisa-
mente neste ponto que os sentidos se inundam do aroma forte das
estevas que por ali abundam e nos oferecem o óleo que o Sol sacra-
liza naquele perpéctuo esforço de garantir fertilidade e a eternidade
da espécie. Porque o que pertence à Luz deve circular à luz, o que
pertence às sombras e depende da vontade expressa por Hades no
seu refúgio subterrâneo, deve manter-se resguardado dessa luz que
cega… até porque, nestes caminhos iniciáticos e enigmáticos de Al-
cabideche, a luz mais importante é aquela que não se vê e simples-
mente se pressente nos muitos trilhos que nos integram na multi-
plicidade irreal do registo de pensamento da comunidade saloia.
Do outro lado do rio, que simbolicamente representa a própria
vida, tudo é diferente e o que vemos perde importância perante
aquilo que sentimos. Desde há dois mil anos, quando dos Casais
Velhos por ali seguiam os cortejos que se dirigiam ao mar para
embarcar para a cabeça do império os bens que eram produzi-
dos nerstas paragens, que o sangue assume simbolicamente o pa-
pel principal. Porque a púrpura, que artífices sábios produziam
com o Murex nas cubas pétreas daquela fábrica, se transforma
simbolicamente no sangue do Salvador, libertando todos aqueles
que nele acreditarem e que sejam capazes de abdicar das marcas
maiores da vida que por aqui vamos tendo.
Em Roma, desde o início do Catolicismo, que o Sumo-Pontífi-
ce, ao assumir na Terra as suas funções celestes, tem obrigatoria-
João Aníbal Henriques
34
mente de entregar o seu nome, a sua história de vida e a sua vida
nas mãos de Cristo Redentor. E muda de nome, muda de roupa
e recebe as vestes purpuradas que representam a consagração a
Cristo, morto para dar vida, crucificado para com o seu sacrifício
espiar os pecados dos humanos, dotando-os de uma ponte que
lhes permita ultrapassar a inexorabilidade da morte através do
assumir da vida verdadeira e plena.
O grande segredo deste primeiro trilho de Alcabideche, é
aquele que dá corpo e forma aos dogmas maiores da nossa Fé.
Nele, mercê de um exercício espiritual intenso, transmuta-se a
matéria. E, ao contrário dos que muitos teimam em dizer, este
acto alquímico é essencialmente ciência. A ciência de Maria.
Os conhecimentos serenamente adquiridos ao longo de mui-
tas gerações, consubstanciam o aparecimento em Cascais, nas
ditas “Casas Velhas do Gandarinha”, o primeiro dos colégios
portugueses de filosofia. Estávamos em 1594 quando um con-
junto de eruditos Carmelitas, sempre descalços para simbolica-
mente apelarem ao despojamento físico necessário à ascenção
da Alma, iniciou a construção do Convento de Nossa Senhora
da Piedade. Dali, congregando num só livro (porque só existe
um livro verdadeiro) os saberes dispersos por milénios de vidas
cruzadas nestes ermos lugares, se espiritualizou todo o actual
território municipal.
No extremo Ocidental do Concelho de Cascais, ali mesmo
onde a Freguesia de Alcabideche desce desmesuradamente até
ao mais significantes dos mares, os frades antigos ergueram um
eremitério no qual as preces refulgiam directamente para o céu.
O espaço em questão, actualmente uma vetusta habitação parti-
cular rodeada de segurança e com o conforto maior de uma das
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AL-QABDAQ – Memorial Histórico de Alcabideche
mais bem conseguidas mansões de Cascais, marca o início do tro-
ço final do Caminho das Almas. Dali até ao mar, descem-se cerca
de três quilómetros de arribas de difícil acesso. Mas as dificul-
dades do caminho, acentuando simbolicamente o difícil trajecto
de regresso ao céu, subvertem elas próprias a noção do tempo e
do espaço que nos constrangem. Porque esta imensa descida nos
permite subir, regredindo num tempo onde o tempo não importa,
em direcção aquele que é, porventura, o melhor lugar para assis-
tir ao Pôr-do-Sol em Cascais.
O astro-rei, que daquelas arribas se despede do Mundo, num
ritual de repetição diária e cíclica que culmina no seu posterior re-
gresso, tal como Cristo, o Redentor, que morreu e regressou para
iluminar a Humanidade, deixa atrás de si um rasto de esperança
que constrange o discernimento e a própria ciência.
Do alto do seu eremitério, em séculos que já não existem, ve-
lhos monges contrariavam o frio, a fome e a sede, reencontrando
naquele espectáculo de grande pujança cénica o espelho maior
da grandeza de Deus. Faziam-no repetindo ritualisticamente o
ensejo que milenarmente era representado pelos eremitas que vi-
viam em São Saturnino da Peninha, num culto ancestral a Nossa
Senhora que precede mesmo a figura histórica da Mãe de Jesus
Cristo na Terra.
A Senhora da Peninha, sub-repticiamente decalcada da mãe
que concebe os seus filhos e que deles cuida ao longo da vida,
provendo-lhes abrigo e alimento, conjuga o seu trilho neste trilho
primordial de Cascais, transformando o carácter bicéfalo da di-
vindade num caminho uno e coeso em direcção ao Pai.
Nos escritos clássicos, dizia-se que naquela vertente da serra
as éguas engravidavam do vento, tal era a força telúrica do lugar.
João Aníbal Henriques
36
E o rio que desce por ali abaixo desde o planalto de São Saturni-
no, com a designação de Touro para os Romanos, exerce simboli-
camente o papel de tradutor dessa realidade. Touro representa a
força viril e animal, que ali mesmo, naquele cadinho alquímico de
Maria, se conjuga simbolicamente para dar lugar ao palco maior
do conhecimento e da filosofia maior. E lá em baixo, no alto do
penhasco maior que enforma a velha praia, é em dedicação às
ruivas que o Espigão ganha o seu nome portentoso, mostrando
bem que existem mistérios em Alcabideche que vale mesmo a
pena desvendar!
A manta de segredo que envolve a tradição, encobrindo muito
daquilo que mais tarde virá a ser considerado como território do
sagrado e do mistério, mais não é do que a subtracção ao Mun-
do Profano de muito daquilo que as comunidades humanas vão
tendo dificuldades em compreender. E aí, descodificando os de-
sígnios dos deuses, surgem então aqueles que foram iluminados
pelo conhecimento e que, tal como se fossem mediadores entre a
terra e o Céu, estabelecem pontes que religam as partes contra-
vindas, numa equação quase matemática que elucida, explica e
esclarece. Entre o céu e a terra de Alcabideche existe muito pouca
distância. Estão ali, lado a lado, mesmo à espera de um qualquer
fenómeno nos motive a integrar-nos nelas. Porque, conforme de-
termina a influência mítica e os cultos animistas que se constroem
no Espigão, a lei dos contrastes é essencial para que com conhe-
cimento de causa de ambas as partes possamos compreender o
tudo os nos perdemos.
Na outra vertente de Alcabideche, ou seja, no pragmatismo
realista da vida quotidiana, as diversas comunidades que habi-
taram o espaço da freguesia fizeram-no de várias maneiras dife-
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AL-QABDAQ – Memorial Histórico de Alcabideche
rentes, utilizando estratégias que tinham sobretudo a ver com o
manancial cultural de cada grupo e, sobretudo, com o seu grau
de prosperidade.
Assim, se em determinado momento a opção é por lugares
elevados, aproveitando a orografia como forma de condicionar as
estratégias de defesa, noutros, é a proximidade à água, às vias de
comunicação ou a grandes depósitos de materiais, como a pedra
ou a fruta, consoante a orientação fosse no sentido da obtenção
de bons recursos aquíferos, a criação de canais de escoamento
comercial dos produtos ali produzidos, ou o acesso a matérias-
-primas para a construção de casas, monumentos e/ou outras
quaisquer infraestruturas.
Como é óbvio, para além destas condicionantes que podería-
mos apelidar como primárias, uma vez que respondem a neces-
sidades de primeira linha no esforço de sobrevivência e de pros-
peridade de cada comunidade, existem uma multiplicidade de
outras que igualmente condicionaram as decisões e impuseram
estratégias diferenciadas de ocupação e exploração do espaço de
Alcabideche.
E a primeira destas outras, como não poderia deixar de ser, é
o conjunto da pré-existências. Se as primeiras comunidades livre-
mente podiam escolher o local onde se instalavam, condiciona-
das unicamente pelos pressupostos de utilização do espaço, essa
liberdade vai-se perdendo à medida em que as gerações se vão
substituindo, formatando o espaço vivencial de acordo com o le-
gado que foram recebendo das gerações que as precederam.
Ao analisarmos a mancha ocupacional de Alcabideche, de-
pressa percebemos que no período mais relevante para a conso-
lidação da linha de paisagem que hoje temos, ou seja, na época
João Aníbal Henriques
38
em que a freguesia se organiza para responder ao apelo cada vez
maior que a chegada da Corte a Cascais e a constante prontidão
turística exigia, pois era em Alcabideche que os recursos huma-
nos e alimentares se encontravam para fazer face à demanda
cada vez maior de mão-de-obra de várias origens, era o acesso
às zonas mais relevantes em termos turísticos que se impunha às
comunidades que ali habitavam. E locais como Manique, Alvide
ou Abuxarda, mais do que as aldeias recônditas e situadas nos
interstícios interiores do território da freguesia, redobram a sua
relevância na estrutura urbana municipal.
Alcoitão, por exemplo, que tanto relevo teve na recuperação
dos velhos eixos de comunicação herdados dos romanos, assiste
a um recrudescimento da sua relevância, isto apesar de sabermos
que nas leiras que envolviam a localidade, se multiplicavam as
estruturas de produção agrícola e que eram elas quem alimen-
tava a componente terciária da comunidade local. Este Alcabi-
deche, freguesia de apoio à modernização que Cascais conheceu
nessa época tão marcante e revolucionária da vida municipal (e
até de Portugal), assume-se como cadinho de inovação e progres-
so sem o qual seria impossível ao restante território de Cascais
conhecer a pujança e o desenvolvimento que hoje lhe reconhece-
mos. Técnicas de exploração da terra e dos seus recursos, nomea-
damente geológicos, são um manancial de primeira importância
para construir e alimentar a comunidade cada vez mais nova e
impreparada que veio habitar toda a faixa do litoral.
A História de Alcabideche, ao longo das muitas eras e tempos
que a compõem, vacila em permanência entre o assumir comple-
to das suas características intrínsecas e o apelo interessante dos
novos espaços e cenários que o desenvolvimento por ali à volta
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AL-QABDAQ – Memorial Histórico de Alcabideche
foi criando. E, por isso, encontramos, como se satélites de ocupa-
ção espacial tratássemos, vários núcleos aldeãos por esse litoral
Cascalense fora que mais não são do que reminiscências directas
do esforço de relocalização que muitas comunidades de origem
saloia de Alcabideche (e também de São Domingos de Rana) fize-
ram em direcção ao mar cascalense.
E as lógicas saloias de outros tempos, mesmo quando enqua-
dradas pelos raios solares apetecíveis que se estendem junto ao
mar, consolidam-se nas práticas correntes dos novos espaços,
fazendo perdurar as tradições e garantindo que mesmo com a
desvirtuação completa que vem de fora e de outras paragens, a
identidade municipal não se deixa afectar. A matriz identitária de
Alcabideche, desta maneira, atinge um laivo que se afigura qua-
se eterno, porque a sua imensa extensão ao longo do tempo, em
que sofreu todas as vicissitudes próprias do passar das eras, lhe
garantiu uma coesão radicalmente consolidada e provavelmente
impossível de ser sujeita a essas pressões externas que a tenta-
riam desvirtuar.
Compreender estes fluxos de população, e utilizando-os para
contextualizar os vestígios urbanísticos que ainda hoje subsistem,
ajuda-nos a perceber como a interacção entre o meio e o Homem
é essencial na definição do Mundo em que vivemos. E no caso
de Alcabideche, em que grande parte dessas peças estruturantes
da sociedade se faz a partir do controle dos meios de produção,
uma vez que deles depende a capacidade produtiva e, por exten-
são, o sucesso do comércio e dos serviços que deles derivam, esta
contextualização assume redobrada importância, principalmente
se tivermos em linha de conta o impacto que esta movimentação
teve na organização do espaço e na reformatação urbanística de
João Aníbal Henriques
40
um concelho massacrado durante muitas décadas pela pressão
construtiva, bem visível, aliás, no PUCS (Plano de Urbanização
da Costa do Sol) dos anos quarenta do Século XX, primeiro ins-
trumento a procurar regularizar as estratégias de gestão do espa-
ço municipal.
Pela negativa, pois a disfuncionalidade deste documento
que se concentrava na orla costeira, obrigando as autoridades
municipais a dedicarem especial atenção aos movimentos cons-
trutivos aí realizados, condicionou uma autêntica onda de cons-
truções ilegais nas zonas mais recatadas do interior municipal,
Alcabideche conheceu nessa época um dos piores momentos
relativamente à descaracterização dos seus antigos núcleos ur-
banos consolidados de raiz saloia.
As construções clandestinas que encheram Alcabideche des-
sa aura de degradação que tanto tem condicionado a imagem
pública da freguesia, resultam, por um lado, da maciça chegada
ao litoral de comunidades oriundas de ouras regiões de Portu-
gal que, trocando o bucolismo do seu campo onde a fome impe-
rava pela esperança de melhores dias nas prósperas empresas
turísticas do litoral, necessitaram de encontrar soluções de ha-
bitação que o poder político de então foi incapaz de programar.
E não havendo, no litoral, respostas habitacionais comportáveis
para toda esta gente recém-chegada, nem existindo nessa faixa
mais próspera condições para que a auto-construção que eles
conheciam nas suas origens pudesse ser implementada, a solu-
ção foi procurar na faixa interior, sobretudo nas actuais fregue-
sias de Alcabideche e São Domingos de Rana, os espaços ain-
da disponíveis onde, sem a atenção tão cuidada da fiscalização
camarária, fosse possível construir habitação de cariz familiar,
41
AL-QABDAQ – Memorial Histórico de Alcabideche
normalmente rodeada de um pedaço de terreno essencial para
o complemento da economia doméstica, para que a instalação
fosse plena e com o mínimo de conforto necessário para o devir
em sociedade. Por outro, a importação de modelos de constru-
ção que deslumbravam no litoral, e que vinham com as novas
populações que aí se instalaram chegadas pelo turismo e com
uma aura cosmopolita que contrastava de forma evidente com
o carácter rústico das comunidades que habitavam nas aldeias
de Alcabideche, transformou a freguesia numa espécie de la-
boratório e viveiro de espécimes absurdos que resultaram das
parcas técnicas impostas pela auto-construção não legalizada,
e que tentando copiar os modelos originais, traziam consigo a
deturpação e a destruição da linha saloia que outrora havia sido
modelo único no desenvolvimento dessas comunidades.
É nessa altura que surgem as realidades extraordinárias de
casas completamente disfuncionais que encheram as antigas al-
deias locais, deturpando os seus modelos sociais e subvertendo
o cenário que a antiga tradição saloia consignava. Espaços como
a Atrozela, por exemplo, viram o seu núcleo histórico perfeita-
mente destruído numa amálgama de construções de gosto du-
vidoso que destruiu as suas raízes e condicionou negativamente
as potencialidades que a aldeia apresentava. Não sendo final a
sentença a que condenaram a Atrozela e as demais aldeias de
Alcabideche que foram quase completamente esfaceladas por
esta disfuncionalidade incoerente, até porque a matriz identitá-
ria deste espaço é muito mais a herança cultural que é carregada
de geração em geração pelas suas gentes, do que o somatório
das suas casas e dos seus equipamentos, o certo é que o perigo
de desagregação existe mesmo. Até porque, conforme é prática
João Aníbal Henriques
42
em terras saloias (e Alcabideche não é nisso excepção) a fluidez
do pensamento constrange os comportamentos e multiplica as
suas consequências. Se forem boas, as aldeias que deles usu-
fruem progridem e crescem. Se foram más, como acontece com
este movimento degenerativo que afectou grandemente o urba-
nismo casclense ao longo da segunda metade do Século XX, a
multiplicação destes fenómenos disruptivos acaba por ser de-
terminante na proliferação do ímpeto vazio da insignificância
comunitária.
A chamada ocupação disfuncional dos espaços, desregrada e
desregrante, começou então a misturar estilos rocambolescos de
casas absurdamente rebuscadas e destituídas de valores estéti-
cos que fossem suportados pela identidade das localidades, com
pedaços de ocupação pragmaticamente funcionais. E as antigas
aldeias de Alcabideche, que até aí viviam da sua dualidade casas-
-campo, que sempre caracterizou as comunidades saloias, para
uma realidade que misturava pequenas fábricas com oficinas
automóveis, com micro-sucatas e com casas de habitação numa
mole degenerativa que motivou situações que, se não fossem as
suas consequências nefastas para quem nelas habitava, seriam
motivo de riso por serem tão caricatas.
Na versão de 1997 do Plano Director Municipal, por exemplo,
algumas dessas antigas aldeias interiores e saloias do Concelho
de Cascais, com uma história milenar que carregava consigo múl-
tiplas gerações de habitantes e uma identidade muito consolida-
da, foram classificadas como espaços urbanos de génese ilegal.
Ou seja, espaços antigos e prenhes de tradição, que haviam sido
essenciais para a formatação da Identidade Municipal, foram
tratados como bairros ilegais e, ao abrigo da legislação própria
43
AL-QABDAQ – Memorial Histórico de Alcabideche
que rege esse tipo de espaços degradados, foram reconvertidos
em unidades chamadas de “génese ilegal”, consolidando assim
o caos urbano que esta classificação lhes impôs e perpectuando a
desgraça como se a história antiga que eles apresentavam pura e
simplesmente não contasse.
O exemplo mais flagrante desta situação, embora se tenha
concretizado na actual Freguesia de São Domingos de Rana, foi
Quenena, a aldeia histórica situada junto à Ribeira da Lage, que a
regulamentação urbanística municipal condenou a ser bairro ile-
gal e a consolidar a sua nova posição estrategicamente instalada
no sopé da montanha artificial de lixo que resultou da criação do
lixeira de Trajouce…
No caso de Alcabideche, o ímpeto destrutivo deste período
afectou de forma transversal quase todas as aldeias rurais que
faziam parte do cenário saloio da freguesia, deixando atrás de si
um rasto de degradação que somente a partir dos primeiros anos
deste século começou a inverter-se.
Importa agora, promovendo um exercício magistral de apelo
às memórias ancestrais da comunidade, ser capaz de retirar do
espaço que ficou e das gentes que ali vivem, os laivos maiores
da antiga significação comunitária. Este esforço, essencial se ti-
vermos em linha de conta o horizonte longínquo das gerações a
quem deixaremos a freguesia que hoje temos, com a obrigação
expressa de que a herança que por cá ficar seja bem melhor do
que aquela que recebemos daqueles que nos precederam, exige
que a nova realidade e o paradigma que estas situações impuse-
ram, sejam profusamente e intencionalmente dissecadas, de for-
ma a podermos ler de forma conveniente as muitas potencialida-
des que ainda por cá temos.
João Aníbal Henriques
44
Até porque da sua interpretação e tradução, resulta necessa-
riamente uma memória grandiosa de Alcabideche no esplendor
da sua História milenar, e não, como o pretendem alguns, uma
simples radiografia escabrosa e condenatória desta terra tão ne-
fastamente destruída pela inconstância destes últimos tempos.
II
Nas Penhas Verdejantes da Tradição
47
N
a busca incessante dos trilhos mais significantes de Al-
cabideche, urge desvendar aquela que é uma das mais
impactantes lendas da freguesia. Saída directamente da
encruzilhada que junto à Biscaia liga o Caminho das Almas à en-
costa de São Saturnino, a Poente da Ermida de Nossa Senhora da
Peninha, a lenda que corporiza este espaço traduz na sua essência
a amplitude milenar das convicções e das crenças de sempre dos
Cascalenses.
A subida desta encosta, atravessando o caminho de pé-posto
que começa nas Almoínhas Velhas e se estende até ao que resta
do velho palacete ali construído por António Carvalho Montei-
ro, o conhecido “Monteiro dos Milhões” que viveu na Quinta da
Regaleira e que, do alto da sua iniciação, traduzia na matéria os
valores espirituais mais relevantes da Portugalidade, faz-se por
entre o exotismo de uma flora artificialmente disposta como se
de um cenário se tratasse, propiciadora, por seu turno, de uma
fauna pujante que não deixa indiferente quem tem a sorte de por
ali poder passear.
Reza a lenda que, algures durante o reinado de Dom João III,
uma pastorinha muda e esfomeada nascida na localidade das Al-
moínhas Velhas (Malveira-da-Serra, Cascais), terá subido à Serra
de Sintra com o seu rebanho onde encontrou Nossa Senhora. A
figura com a qual falou, respondendo ao seu anseio de alimentos
para si e para a sua família, disse-lhe para regressar a casa e abrir
uma determinada arca onde encontraria o pão de que necessi-
tava. Correndo de regresso para casa, a pastorinha recuperou a
voz e indicou à sua mãe onde encontrar o tão almejado alimen-
to. A velha imagem tosca de Nossa Senhora da Penha, colocada
na arca, terá sido então exposta para veneração na velha Capela
João Aníbal Henriques
48
de São Saturnino, situada a poucos metros do local da aparição.
Mas, teimosa, saia subrepticiamente do altar onde a colocavam e
reaparecia no cimo dos rochedos situados atrás do templo. Tan-
tas vezes se repetiu a travessura que se construiu em sua honra a
capela actual no topo do monte da peninha.
Não se sabendo exactamente quando tudo isto aconteceu, e
havendo várias notícias da existência de edifícios que precede-
ram aquele que actualmente ali se encontra, sabe-se, no entanto,
que a Capela de Nossa Senhora da Peninha terá sido construída
por um tal Pedro da Conceição, que tinha na altura somente 28
anos, e que se encontra sepultado junto ao monumento.
Nas inscrições lapidares de Sintra, vem descrita a indicação
que se encontra na sepultura do fundador, dizendo que ali jaz o
Ermitão Pedro da Conceição, falecido em 18 de Setembro de 1726,
e que pede a todos os que por ali passem um Padre Nosso e uma
Avé Maria pela Alma dos seus benfeitores. Numa das paredes do
templo, existe uma segunda lápide confirmando a identidade do
construtor original e afirmando que a obra foi efectuada em 1690.
Sendo muitos e rocambolescos os episódios pelos quais passou o
singelo templo Sintriano, o certo é que foi alvo de muitas obras de
construção e reconstrução que lhe conferiram o aspecto que hoje
conhecemos.
Sabe-se ainda que no final do Século XIX, em 1892, a Peni-
nha é comprada pelo Conde da Almedina que em 1918 a re-
vende a António Augusto Carvalho Monteiro. O empreende-
dor e filósofo espiritualista, como ficou conhecido o construtor
da Quinta da Regaleira, situada junto à Vila de Sintra, era na
altura um dos mais conhecidos e ricos empresários lisboetas,
com investimentos variados na banca de então que, do alto da
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AL-QABDAQ – Memorial Histórico de Alcabideche
sua prosperidade, adquire uma visão ecléctica do Mundo e das
suas gentes.
Profundamente místico e grande conhecedor de tudo aqui-
lo que dizia respeito ao destino de Portugal, Carvalho Montei-
ro pauta a sua vida por um conjunto de valores e de princípios
que, apesar da distância que o separa do antigo Ermitão Pedro da
Conceição, lhe são muito próximos e semelhantes.
Adossado às penhas que sustentam a capela, o proprietário
prepara a construção de um palácio onde pretendia passar tem-
poradas em meditação e em recolhimento. Projectado por Júlio
da Fonseca em 1920, o palácio fica por acabar mercê da morte
de Carvalho Monteiro, tendo posteriormente sido adquirido pelo
advogado José Rangel de Sampaio que concluiu as obras e legou
o palácio em testamento à Universidade de Coimbra.
Em 1991, pela importância de 90.000 contos, o imóvel é ad-
quirido pelo Estado Português, através dos Serviços de Parques
e Conservação da Natureza, que efectuou algumas obras de res-
tauro e conservação.
A Poente da Capela de Nossa Senhora da Peninha, subsiste
em forma de ruína avançada, o que resta da velhinha Ermida de
São Saturnino, originária do Século XII, e cuja importância em
termos patrimoniais contrasta de forma evidente com a incúria
em que tem sido deixada.
O conjunto patrimonial da Peninha, composto pela Capela,
pelo palácio de Carvalho Monteiro e pela velha Ermida de São
Saturnino, está inserido numa das mais impactantes paisagens
da Região de Lisboa, abraçando em termos visuais desde a Ponte
Sobre o Tejo, em Lisboa, até ao Cabo da Roca.
João Aníbal Henriques
50
A singeleza da lenda, apelando aos sentidos de pureza pri-
mordial e fazendo a apologia da pobreza extrema e abnegada,
enquadra-se no conjunto ritualístico próprio da Serra de Sintra,
numa lógica cruzada de paganismo cristianizado e de apelo cons-
tante ao Quinto Império Português. A devoção pela Senhora que
concebe, a Senhora da Conceição que tão linearmente devolve à
pastorinha das Almoínhas Velhas (ou Almas velhas), a sua voz e
lhe mata a fome, é concretizada pelo Ermitão, ou seja, pelo que
assume a pobreza como fio condutor da sua vida, Pedro da Con-
ceição, em ligação permanente ao culto ritual antigo.
Na Ermida Medieval, onde o culto é de São Saturnino, a linha
orientadora é a mesma, apelando ao eterno retorno e ao culto obs-
curecido dos Mundos Internos, numa lógica que corre em linha
com o útero materno, a Deusa-Mãe primordial, por aqui venera-
da desde tempos imemoriais.
Enfim… Nossa Senhora da Conceição.
Os trilhos da Conceição, muito comuns através de todo o ter-
ritório municipal de Cascais, ganham uma importância acrescida
e redobrada na área actualmente incluída na Freguesia de Alca-
bideche.
Os mananciais de água que descem da serra em direcção ao
mar, franqueando de forma livre as vastas charnecas que envol-
vem aquele lugar, deixam atrás de si um rasto de fertilidade que
promove a vida, a saúde e o bem-estar daqueles que deles usu-
fruem. A dependência directa destes mananciais, aqui como em
qualquer outra parte do Mundo, ajuda a definir a estreita ligação
que consistentemente se estabelece entre o quotidiano de cada
comunidade e o seu profundo saber.
51
AL-QABDAQ – Memorial Histórico de Alcabideche
A sabedoria popular, tão importante para a generalidade das
tarefas do dia-a-dia, assume-se em Alcabideche como sustentá-
culo essencial para a formação da identidade local. E espraia-se,
desde sempre, através de campos diversos que influem directa-
mente nas escolhas que todos os dias, nos seus momentos de tra-
balho e de lazer, que os habitantes vão fazendo na sua vida. A
ligação ancestral de Alcabideche à mitologia sagrada, bem visível
no conjunto dos seus espaços de culto e na forma como os mes-
mos influem directamente nos contornos urbanos dos seus nú-
cleos urbanos historicamente consolidados, recria na sua comu-
nidade uma capacidade única de recriar as suas relações sociais a
partir desse cadinho de uma memória ancestral que se transfor-
mou num dos arquétipos locais de pensamento.
No trilho da Senhora da Peninha, sob a égide da omnipre-
sente Senhora da Conceição, o saber popular dita-nos os no-
mes, as propriedades e os benefícios de cada erva e planta e as
origens antigas de cada nome e de cada lugar, permitindo-nos
uma compreensão mais profunda daquilo que é e foi a vida
nestes sítios tão especiais.
A expressão religiosa tradicional, que em Alcabideche surge
de forma tão vincada em quase todos os aspectos da vida quo-
tidiana das comunidades, é assim o melhor tradutor que temos
acerca da forma como os habitantes locais viam e sentiam a sua
terra. Os ciclos naturais, com as estações do ano e as implicações
que quaisquer alterações tinham na germinação das sementes
e na saúde dos seus congéneres, comportava mistérios imensos
que na sua expressão mais simples acabavam por transformar-se
em alicerces de uma vivência religiosa muito abrangente e que,
tal como acontece com as alterações políticas que vão acontecen-
João Aníbal Henriques
52
do, surge em Alcabideche com um profundo ecumenismo que
assenta na promoção do respeito pela que não se conhece.
Maria Micaela Soares, na magnífica obra citada na nota 22,
sublinha precisamente a importância da capacidade popular de
integração das diferentes visões e perspectivas, para explicar a
racionalidade evolutiva dos grupos aldeões. De acordo com a
sua abordagem “{…} o conceito de religiosidade popular apre-
senta-se como extremamente ambíguo, pelo que tem de ser ma-
nuseado com precaução”. E mais adiante, “Vantajoso é ainda
reflectir sobre a tese de Manuel Clemente acerca desta faceta da
vida do povo português, a qual, segundo o autor, repousa em
quatro vertentes: sobrevivências do paganismo, herança de reli-
giões não-cristãs assentes no território, algum matiz cristianiza-
do dessas mesmas crenças e, como último segmente, a inspira-
ção nitidamente cristã. A tendência para o sentimento religioso
no grosso da população, isto é, a sua religiosidade constitui
complexa forma de expressividade religiosa, ou seja, encarna a
religião cristã envolta em véus de religiosidades múltiplas, que
a transpõem para uma categoria específica da forma de vida, da
concepção do mundo natural e da do além-mundo, se a com-
pararmos com a modalidade ortodoxa da Igreja institucional e
oficial. “Duas linguagens” ou “religião de expressão popular”
em pé de igualdade que devem completar-se e respeitar-se mu-
tuamente”.
E se parece fácil o exercício de perceber a evolução adaptativa
da religiosidade pagã das populações saloias do actual Concelho
de Cascais na sua evolução para o cristianismo católico, vinculan-
do a sua ritualística aos dogmas novos que iam progressivamente
chegando de Roma, mais difícil parece, dadas as imensas diferen-
53
AL-QABDAQ – Memorial Histórico de Alcabideche
ças conceptuais entre as duas abordagens ao sagrado, entender
como se processou esse fenómeno no âmbito da aculturação ve-
rificada quando chegaram à Península Ibérica os primeiros mu-
çulmanos e, séculos depois, o seu regresso ao cristianismo. Isto
porque, como sabemos e como podemos ainda ver nos vestígios
que nos chegaram, as religiões autóctones originais misturaram-
-se naturalmente com a ritualidade pagã romana (veja-se o caso
de Aracus Arantus Niceus em Bicesse e de Titus Curiatus Rufinus
em Freiria) e tal deverá ter acontecido durante o processo de isla-
mização. A facilidade associada a esta evolução, contrariando os
cânones conhecidos do Islão, prende-se com as especificidades
concretizativas neste espaço em concreto, marcado pela imensa
distância relativamente ao poder político que governava e, por
outro lado, pela influência directa dos vários factores que fizeram
deste pequeno pedaço de território junto ao extremo Ocidental
da europa um caso muito específico ao nível da cultura e do pen-
samento.
É muito interessante verificar que, tal como refere Isabel
Mendes Drumon Braga no seu trabalho de investigação sobre
as diferenças religiosas “entre a cruz e o crescente”, os pedidos
de protecção a santos, que teoricamente não são permitidos nos
cânones do islamismo, eram frequentes no território peninsular
durante a dominação muçulmana. E, sobretudo, o perceber-se
que esses tipos de práticas religiosas não só eram conhecidas
e admitidas pelas elites islâmicas que detinham o poder, como
passaram a fazer parte do quotidiano das populações saloios
dessa época. Assim se explica a continuidade cultual que conhe-
cemos e a naturalidade que caracteriza a cristianização dessas
figuras tutelares das nossas comunidades, favorecendo desta
João Aníbal Henriques
54
maneira a possibilidade de hoje termos crenças e práticas reli-
giosas que, com diferentes designações, marcam uma continui-
dade ininterrupta desde a pré-história até aos dias actuais: “ A
prática de pedir protecção e de realizar juramentos por Maomé
e pelos santos muçulmanos, nomeadamente os companheiros
do Profeta e alguns membros da sua família também era vulgar.
Neste caso estamos perante devoções originariamente de cariz
popular que foram sendo admitidas como práticas canónicas
pelo islamismo. Efectivamente, os princípios da religião islâmi-
ca não favoreceram o aparecimento de santos, sendo o Profeta o
único a ter o poder de intercessão entre os homens e Deus que,
mesmo assim, deviam dirigir-se directamente a Alá nas suas
orações. De qualquer modo a existência de santos – murabit,
salih, waliyy, sayyid – foi conhecida desde o início do Islão, e es-
pecialmente nos Séculos XV e XVI, com a conjugação das dinas-
tias marroquinas reinantes e com a presença cristã no Magrebe a
proliferação do culto dos santos conheceu um impulso”.
Outro aspecto interessante, que nos ajuda a perceber esta li-
nha continuada nas crenças principais que fundamentam a Iden-
tidade Social de Alcabideche, tem a ver com a simplicidade que
caracterizou o processo de cristianização dos mouros depois da
reconquista cristã da Península Ibérica. Bastava uma aceitação
explícita da nova religião, o apadrinhamento por um Cristão-Ve-
lho e a mudança para um nome cristão tradicional, para que o
neófito fosse imediatamente integrado na nova comunidade, sem
que daí resultassem grandes hesitações ou protestos. Os novos
cristãos, ou Cristãos-Novos como foram oficialmente designados,
asseguraram de imediato cargos de prestígio, mercê não só das
capacidades técnicas que possuíam devido à herança islâmica
55
AL-QABDAQ – Memorial Histórico de Alcabideche
que carregavam, como também porque a longevidade da sua pre-
sença nestas paragens, determinada por muitos séculos de pro-
cessos sucessivos de aculturação, havia-lhes dado a capacidade
acrescida de saber lidar com a mudança e de a ela se adaptarem
sem problemas de maior.
O território saloio de Alcabideche, pródigo nesta dinâmica so-
cial marcadamente progressista, assegura assim um porto seguro
para todos aqueles que pretendem viver em paz e aceitar sem
mais delongas as orientações políticas trazidas por quem gover-
na, sabendo de antemão que existe capacidade, abertura e von-
tade para que novas formas de estar, de ser e de saber, possam
vir a ser assimiladas e integradas, fazendo evoluir a comunidade
como um todo.
É, aliás, este processo, redobrado na actual Freguesia de Alca-
bideche devido à proximidade e influência do mar na definição
do arquétipo de pensamento dos saloios que aqui viveram, que
motiva o surgimento paulatino de novas formas de expressão nas
localidades. De sistemas adaptados de construção de casas e de
engenhos, até formulações estéticas diferentes, derivam basica-
mente desta enorme plasticidade apresentada em diversos pe-
ríodos por quem controlava o poder, oferecendo e aproveitando
todas as oportunidades para melhorar as suas respostas perante
o meio.
Interessante também, até pela forma como nos ajuda a com-
preender a génese histórica da actual Freguesia de Alcabideche,
é a origem dos topónimos locais. E na linha do trilho da Peninha,
logo após o vale extraordinário de Farta-Pão, aludindo ao carác-
ter excepcional da fertilidade das terras agrícolas naquele lugar,
surge-nos a antiga aldeia de Alcorvim.
João Aníbal Henriques
56
Topónimo certamente de origem árabe, conforme refere Diogo
Correia na sua publicação de 1964, será porventura o resultado
da corrupção de vocábulos que antecederam esse mesmo período
de tempo. De acordo com José d’Encarnação3
a origem da desig-
nação Alcorvim remete-nos para a chegada a este território de
um natural de Cairuão: “É que a palavra deriva de “al-caravvi”,
o que significa “ocairuanense”, o natural de Cairuão”, mostrando
assim que grande parte destes movimentos políticos tiveram re-
percussões directas e efectivas no dia-a-dia das populações con-
quistadas que, aculturando-se, fizeram evoluir a matriz da sua
identidade em linha com aquilo que foram os pressupostos que
herdaram dos recém-chegados ocupantes.
A importância histórica destas pequenas aldeias, bem tradu-
zida nas obrigações legais que elas assumiram sempre ao longo
dos tempos, teve como apogeu, em plena Idade Média, a vela
que eram obrigados a fazer junto à foz da Ribeira das Vinhas
no primeiro Sábado de Setembro. Esta obrigação, imposta le-
galmente e sujeita a multas pesadas para quem ousasse entrar
em incumprimento, determinava que mesmo nos espaços que
hoje consideramos recônditos relativamente à centralidade do
poder, existiam estruturas de controle que asseguravam um
registo eficaz de tudo o que aí ia acontecendo. Alcorvim, Far-
ta-Pão, Charneca, Aldeia de Juso e Murches, eixos essenciais
na produção agrícola naquela parte do Concelho, foram sempre
incontornáveis na importância que tinham no fornecimento de
alimentos e meios que permitiam a salvaguarda dos interesses
3
ENCARNAÇÃO, José d’, Cascais e os Seus Cantinhos, Cascais, Edições Colibri e
Câmara Municipal de Cascais, 2002.
57
AL-QABDAQ – Memorial Histórico de Alcabideche
de quem morava em Cascais e, por extensão, na sua capacidade
de impor na paisagem uma marca perene da qual ainda hoje
restam vários exemplos.
O mesmo se passará, com toda a certeza, relativamente à po-
voação da Abuxarda, na entrada Sul da actual Freguesia de Alca-
bideche. Presa de forma combinada entre dois grande pólos de
desenvolvimento dos recentes anos 60 e 70 do Século XX, que a
desvirtuaram e obliteraram relativamente ao crescimento concre-
tizado nesses outros espaços, a Abuxarda é anda hoje um exce-
lente repositório do que foi Alcabideche noutros tempos.
Sendo certamente uma das mais antigas povoações do Con-
celho de Cascais, como o atestam os inúmeros vestígios que se
conhecem da sua História, a sua face urbana está, no entanto,
desprovida de tudo aquilo a que os tempos modernos atribuem
mais valor. Os edifícios desvirtuados das suas características ori-
ginais, e descontextualizados no seio da velha aldeia, perderam
já o brilho que os datava da aura de mistério imposta pela patine
do tempo.
O seu valor patrimonial, que comprova o seu interesse, está
agora restricto a um pequeno painel de azulejos, onde subsiste,
numa grafia desactualizada, o antigo topónimo do lugar: Abu-
charda. Este nome, de origem marcadamente medieval, será tal-
vez o último dos vestígios deixados nesta parte do concelho pelos
seus antigos habitantes.
De facto, e muito embora tenha caído em profundo desuso, o
apelido BUCHARDO, de onde deriva a designação deste espaço,
foi outrora bastante popular no nosso País, facto que veio a in-
fluenciar largamente a toponímia Nacional. Segundo o Professor
J. Diogo Correia, na sua obra «Toponímia do Concelho de Cas-
João Aníbal Henriques
58
cais», o referido apelido terá influenciado o topónimo deste lugar
através da sua forma feminina, designando assim o sítio onde
habitava o indivíduo possuidor daquele nome: «Crível é, pois,
que o referido apelido, na forma feminina, tivesse dado o nome
à povoação, tal como aconteceu a outras terras portuguesas, v.g.
Douroana. Com o andar dos tempos, o artigo que necessariamen-
te se antepunha ao nome próprio soldou-se a este e dele ficou
fazendo parte integrante. AAbucharda seria, portanto, primitiva-
mente, a Bucharda». Por esta razão, e dando crédito a este ilustre
estudioso da toponímia cascalense, a maneira mais correcta de
mencionar esta povoação será Abucharda, ou seja, o local onde
vivia a Família Buchardo e não, como caiu em uso corrente, a
forma Abuxarda, que resultou da deturpação popular do nome
da mesma.
Com a mesma denominação da Abuxarda, existe uma outra
localidade na província de Córdova, na Argentina, facto que o
referido estudioso também aponta como hipótese plausível para
o nascimento do topónimo.
De qualquer forma, e tendo em conta os vestígios que se co-
nhecem do passado da Abuxarda, é tese comprovada aquela que
aponta este espaço como muito antigo. Na «Carta Arqueológica
do Concelho de Cascais», da autoria de Guilherme Cardoso4
a
Abuxarda é apontada com uma cronologia de ocupação que re-
monta ao período romano, muito embora os vestígios arqueológi-
cos mais significativos que aí foram encontrados se classifiquem
tipologicamente como pertencentes ao período visigótico. A ne-
4
Ver nota (2).
59
AL-QABDAQ – Memorial Histórico de Alcabideche
crópole da Abuxarda possuía entre o seu espólio algumas fivelas
e anéis de bronze, para além de inúmeros vestígios de material
funerário: «Necrópole tardo-romana / visigótica com sepulturas
delimitadas por esteios de calcário. Os moimentos continham um
ou mais esqueletos e encontravam-se orientados este-oeste, à ex-
cepção de quatro que estavam norte-sul. Nalgumas das sepultu-
ras havia joias, pequenas bilhas e, numa delas, uma espada muito
oxidada».
A confirmarem-se estes dados, seria o espaço da Abuxarda,
na actual Freguesia de Alcabideche, um dos poucos locais do
concelho de Cascais a conhecer ocupação humana de caracte-
rísticas significativas, acompanhando as antigas villas romanas
que, mercê do desmoronamento das estruturas administrativas
do império, se viram a braços com uma crise social profunda.
A sua filiação no período de declínio da ocupação romana, vai
assim influenciar largamente a ocupação visigótica do espaço
que, mercê da má qualidade dos aparelhos utilizados nas cons-
truções, faz subsistir os seus vestígios quase exclusivamente nas
estruturas funerárias ali existentes.
Datado de 1931, com a assinatura inconfundível da Câmara
Municipal de Cascais, que entendeu nessa data que a requalifi-
cação geral de um concelho de características turísticas deveria
obrigatoriamente passar pela reestruturação dos meios colocados
ao dispor da sua população, existe próximo do centro desta lo-
calidade um lavadouro público. Este espaço, antigo polo agluti-
nador da população, encontra-se no extremo Norte da mesma, e
possui características que são identificadoras do grande cresci-
mento que as diversas aldeias de Cascais conheceram em meados
do Século XX.
João Aníbal Henriques
60
Para além do lavadouro, que cinge a Abuxarda à sua origem
eminentemente rural, mantém-se com redobrado interesse o ve-
lho casal saloio que na sua fachada sul apresenta o antigo pai-
nel de azulejos com a denominação original da povoação. O seu
logradouro de grandes dimensões, aliado ao carácter imponente
da própria edificação, pressupõe a existência nesta povoação da
Abuxarda, de uma componente agrícola bastante próspera e que,
mercê dos vestígios que deixou, dos quais esta habitação faz par-
te, se pode inferir ter sido tradutora da realidade vivida naquele
espaço durante muitos séculos.
Aprosperidade agrícola da povoação da Abuxarda, bem como
de quase todas as localidades de características análogas neste
concelho de Cascais, parece evidenciar, pelas relações de carácter
comercial que possuem com a zona de Cascais, um acréscimo da
importância estratégica geral deste município, pois os produtos
agrícolas aqui produzidos em grandes quantidades, bem como
os seus derivados, de onde se salientam o gado e os produtos
manufacturados (de lembrar a proximidade dos núcleos de moi-
nhos de vento de Alcabideche e do Carrascal de Alvide), serviam
para fornecimento dos contingentes de soldados aquartelados
nas diversas fortificações marinhas que proliferam, a partir de
meados do século XVII, nas costas de Cascais. Por outro lado,
essas mesmas trocas comerciais desenvolviam-se no seguimento
de uma vasta tradição de fornecimento de produtos hortícolas à
capital, que vem desde os primórdios da ocupação romana, dos
quais possuímos os exemplos paradigmáticos das villae romanas
de Freiria e dos Casais Velhos, nas vizinhas freguesias de São Do-
mingos de Rana e de Cascais, e do Alto do Cidreira, já em Alca-
bideche e que culminam com a epopeia marítima portuguesa, na
61
AL-QABDAQ – Memorial Histórico de Alcabideche
qual os cascalenses, por necessidade e por vocação, acabaram por
intervir de forma assaz significante.
As casas que compõem o património histórico da Abuxarda,
pelas suas características e dimensões, que contrastam de forma
evidente com exemplares idênticos situados em zonas mais po-
bres do concelho de Cascais, permitem-nos aferir a forma como
noutras eras esses imóveis, através da forma como eram construí-
dos, serviam como instrumento de afirmação social em comuni-
dade. No que diz respeito aos pátios, ostensivamente marcantes
nos exemplares que a Abuxarda ainda preserva, resultam desta
necessidade de afirmação social, uma vez que fazem ressaltar à
vista a autonomia das casas face às vizinhas. Tal situação, bas-
tante exemplificativa da realidade rural vivida nesta parte do
Concelho de Cascais assume especial importância se atendermos
às características principais das vivências arquitectónicas dos sa-
loios da região estremenha, onde a tipologia em questão aparece
sempre aliada a determinativos de ordem social. Terá sido essa,
talvez, a razão pela qual os diversos censos populacionais reali-
zados neste concelho sempre apontaram para índices pouco ele-
vados no que diz respeito à Abuxarda, facto que se ficaria a dever
à elevada estratificação social existente, desde épocas recuadas
da Idade Média, e vieram ajudar a distorcer os já pouco fiáveis
dados apresentados pelos censores. O caso da dispersão deste tí-
pico exemplar de arquitectura popular na zona da Abuxarda vem
assim fundamentar a explanação corrente da existência de uma
morfologia própria em toda a região da Península de Lisboa, de
onde se podem retirar ilacções de ordem social.
Nalguns casos, o desenvolvimento tipológico deste género
de habitações pode advir do facto de o processo de urbaniza-
João Aníbal Henriques
62
ção se ter caracterizado por uma grande lentidão, uma vez que
conhecemos, noutras localidades do concelho, exemplares se-
melhantes ao de Abuxarda que, embora sejam tipologicamente
passíveis de inclusão dentro das mesmas categorias, não pos-
suem o referido pátio ou quintal demonstrativo da autonomia
e da demarcação social referidas. É esta a opinião, fundamenta-
da em observações de campo em diversas localidades da região
estremenha, de José Manuel Fernandes e de Maria de Lurdes
Janeiro, autores da obra “Arquitectura Vernácula da Região
Saloia”: «Em todos estes tipos base podem surgir casos de im-
plantação em contexto urbano, nos quais o edifício é construí-
do na sequência de uma rua, entre dois outros prédios, com a
sua fachada principal alinhada pelas outras (ou posteriormente
envolvido lateralmente por edificações justapostas, em gradual
processo de urbanização)». A questão da necessidade de afir-
mação e autonomia é também referenciada por estes autores:
«Nalguns casos marca ainda a sua autonomia e personalidade
própria pela presença de um pátio murado com portal (que aliás
pode surgir também no contexto rural), que assim o separa ain-
da dos volumes vizinhos».
Os exemplares mais interessantes da arquitectura saloia da
Abuxarda, marcados pela singeleza das suas origens e pela forma
como conseguiram preservar as suas características ao longo dos
séculos, para além do já referido pátio murado, possuem carac-
terísticas próprias, que obrigam a um afastamento tipológico em
relação aos casais rurais que patenteiam um primeiro andar e que
parecem simbolizar o regozijo da prosperidade alcançada. Nestes
casos, a principal característica da habitação é a sua forma corri-
da, bem como o carácter térreo da sua edificação. A sua utilização
63
AL-QABDAQ – Memorial Histórico de Alcabideche
por agricultores de menos recursos, parece ser a hipótese mais
plausível para a sua existência, tal como o comprova a normal
existência de um forno de pão acoplado à sua fachada. A quali-
dade do calcário utilizado para as suas cantarias é, no entanto,
indiciador de parâmetros de qualidade que devem ter servido de
base a todas as habitações saloias desta região e que mantinham
um nível edificativo comum para todos aqueles que pretendiam
manter-se dentro do povoado.
Num interessantíssimo prefácio à também ela excepcional
obra de Vítor Manuel Adrião sobre Loures, tradutora daqui-
lo que foi a génese do processo de aculturação entre árabes e
cristãos naquele espaço5
, J. Pinharanda Gomes apela à atenção
para se compreender o verdadeiro fulgor da cultura saloia e a
sua expressão que ainda hoje, para surpresa de muitos, impac-
ta nas paisagens por onde todos os dias passamos: “A estada
de Loures, desde Lisboa, pela Várzea, até ao coração da terra
saloia, está repleta de sinais. As massas proletárias, atulhando
autocarros e transportes colectivos, não olham. Não reparam.
Na viagem do lar para a fábrica é como se não saíssem de casa;
viajam de olhos fechados. Mas a quem abra os olhos, de ime-
diato se patenteiam pequenas obras, singelas pedras, humanís-
simos sinais, testemunhos de quem passou deixando rasto”. E
mais adiante, explicando a importância deste alheamento que
evita que a mole humana viva deslumbrada, o filósofo reforça a
importância desse predicado: “Há quem postule que este tempo
de ocultação foi o melhor tempo para o sagrado, que permane-
5
ADRIÃO, Vítor Manuel, Ode a Loures, Loures, Câmara Municipal de Loures,
1993.
João Aníbal Henriques
64
ceu no segredo; pois, em contrapartida, o interesse das novas
gerações pela desocultação do sagrado, oferece o perigo de o
sagrado se tornar profano”.
Situação análoga repete-se, aliás, na importante localidade
de Alcoitão. Com uma situação privilegiada relativamente aos
acessos viários, porque historicamente Alcoitão esteve sempre no
cerne da ligação entre Cascais e Olissipo, a localidade será certa-
mente uma das mais antigas aldeias do Concelho e é certamente
um dos mais emblemáticos núcleos históricos consolidados da
Freguesia de Alcabideche.
Mencionada no numeramento de 1527 por Jorge Fernandez, o
numerador oficial do Reino, Alcoitão possuí raízes históricas que
permitem situar o seu aparecimento nas épocas mais longínquas
e logo depois do início da ocupação humana neste território. De
facto, segundo Guilherme Cardoso, na sua Carta Arqueológica
do Concelho de Cascais, são conhecidos vestígios arqueológicos
em Alcoitão que podem ser datados do período calcolítico e ro-
mano. O povoado pré-histórico de Alcoitão, bem como os diver-
sos fragmentos de materiais de construção romanos, juntam-se
assim a dois cemitérios, datado o primeiro do período romano ou
visigótico, e o segundo da mesma época mas situado junto à cer-
ca do Centro de Medicina e Reabilitação de Alcoitão. De salien-
tar, no contexto arqueológico em questão, a presença de trinta e
quatro sepulturas nesta última necrópole, que foram delimitadas
por esteios de calcário e que continham vários brincos e anéis de
bronze, bem como duas pequenas bilhas decoradas.
A grande pressão urbanística que afectou Alcoitão ao longo
das últimas décadas, com uma vincada ocupação industrial que
desvirtuou o espaço e destruiu muito do seu potencial histórico,
65
AL-QABDAQ – Memorial Histórico de Alcabideche
acabaram também por influir no desenvolvimento desta povoa-
ção onde, em termos patrimoniais, se podem encontrar importan-
tes vestígios da sua componente rural e agrícola, possivelmente
exemplares únicos e monumentais desse património que urge
identificar, conhecer e contextualizar naquilo que foi o devir his-
tórico da Freguesia de Alcabideche e do próprio Concelho de
Cascais.
Assume especial importância, quando nos debruçamos sobre
o património de Alcoitão, a presença de um obelisco comemoran-
do a inauguração do Bairro dos Infantes e Navegadores, concre-
tizada pelo Presidente da Câmara Municipal de Cascais, o Enge-
nheiro António de Albuquerque de Azevedo Coutinho, no ano de
1962. Este monumento, que foi uma homenagem póstuma de D.
Mecia Mouzinho de Albuquerque à Ínclita Geração, traduz uma
vontade inconcretizada de fomentar a vivência cultural deste
espaço, valorizando a sua estrutura urbana e contribuindo para
minorar de sobremaneira o impacto que a modernidade acabou
por lhe trazer. O monumento do Bairro dos Infantes e Navegado-
res, para além do valor simbólico que possui, representa ainda o
dealbar de um contributo que comprova a importância cultural
de Alcoitão no seio das aldeias de Alcabideche, em linha com os
vários pequenos apontamentos de índole histórica que abundam
em recantos pouco conhecidos desta interessante freguesia cas-
calense.
O grande desafio que se colocou a este Alcoitão histórico, as-
sente na vontade expressa socialmente de rentabilizar a riqueza
certamente concretizada a partir da exploração da terra na pro-
moção da vivência cultural das suas gentes, é por demais eviden-
te quando nos debruçamos sobre estes vestígios raros e extraor-
João Aníbal Henriques
66
dinários que ainda hoje podemos ver. Importa sublinhar aqui a
excepcionalidade do trabalho realizado por D. Mecia Mouzinho
de Albuquerque, neste seu devaneio onírico de conseguir ultra-
passar os obstáculos e oferecer aos naturais da terra um espaço
de fruição completa desta componente tão importante para ga-
rantir a qualidade de vida de todos reforçando os seus laços de
vizinhança.
Dentro deste mesmo Bairro dos Infantes e Navegadores, si-
tuado em pleno centro da povoação de Alcoitão, podemos en-
contrar dois exemplares dignos de nota e representativos daquilo
que foi o desenvolvimento concertado do Concelho de Cascais
durante as décadas de sessenta e setenta do século passado. A
Casa Gil Eanes e a Gonçalves Zarco, adoptando o nome de dois
dos protagonistas da odisseia marítima portuguesa, contribuem
para a criação e desenvolvimento da memória colectiva nacional,
enquadrando-se no plano concertado de construção de um bairro
que pretendia recuperar os feitos de todos aqueles que contribuí-
ram para o desenvolvimento de Portugal, e servindo de exemplo
para futuras aprovações de projectos de urbanização para as re-
dondezas. Caso único e extraordinário no Concelho de Cascais e
até em Portugal!
Das formas antigas de Alcoitão, pelas suas características e
pelo seu estado de conservação, salientamos o conjunto de ca-
sais aldeões situados junto ao Bairro dos Infantes e Navegadores,
mas já na Estrada de Manique. Os exemplares em questão pos-
suem nomenclaturas que representam condignamente a forma
de pensar dos habitantes desta localidade. Vivenda Barruncho,
Vivenda Mantas, Casa João Paulino e Vivenda Maria Luísa, de
entre outros nomes utilizados em Alcoitão, são a face visível de
67
AL-QABDAQ – Memorial Histórico de Alcabideche
uma relação de vizinhança sadia e alicerçada em princípios de
reconhecimento mútuo que traduzem de sobremaneira a forma
de vida rural deste concelho. A utilização do nome próprio para
denominar a habitação, para além de contribuir para a facilitação
da identificação do proprietário, serve ainda para promover a li-
gação entre o mesmo e a terra, sendo que em Alcoitão não será
difícil encontrar explicações, por parte da população mais idosa,
de que o elemento pessoal é o principal guia descritivo da povoa-
ção. «É logo a seguir ao Paulino», ou «mora em frente ao Zé Ma-
nel», ou ainda «encontrou-a ao pé do Barruncho», são algumas
das expressões que podemos encontrar em Alcoitão e que, com o
passar do tempo e das gerações, acabarão por definir laços muito
fortes de ligação social, coadjuvados por outro lado, pelo próprio
desenvolvimento toponímico da região.
Nesta povoação, existe ainda um conjunto significativo de ca-
sais rurais, exemplares valiosos da componente agrícola da vi-
vência municipal e que, pelas suas condições deveriam ser alvo
de projectos de recuperação, manutenção, recaracterização e uti-
lização.
Dignos de uma atenção muito especial, por traduzirem nor-
mativamente aquilo que foi sempre a capacidade de recriação de
laços perenes entre as várias comunidades que ocuparam aquele
espaço, o conjunto de casais saloios situados a Nascente daquele
aglomerado original são hoje peças importantes no contexto pa-
trimonial da Freguesia de Alcabideche e do Concelho de Cascais.
Por serem exemplos já muito raros da habitação saloia de Alcoi-
tão, por fazerem parte de uma tradição construtiva de carácter
rural que possui de entre as suas principais características a exis-
tência de um forno de lenha para fabrico do pão, e por se encon-
João Aníbal Henriques
68
trarem num estado muito avançado de degradação, que não per-
mite uma recuperação fácil, os exemplares em questão formam
um núcleo homogéneo que urge preservar.
A sua funcionalidade, como espaço de desenvolvimento de
um habitat agrícola, com as suas estruturas de apoio e com um
pequeno quintal que fornecia os legumes básicos para a sub-
sistência quotidiana, marca a diferença relativamente às edifi-
cações rurais de primeiro andar (ou torreadas), sendo que nas
primeiras, a inexistência de uma nomenclatura antiga que pro-
mova a identificação dos seus proprietários, mostra uma comu-
nidade de homens demasiado ocupados no desenvolvimento
das suas actividades agrícolas para poderem preocupar-se com
o estabelecimento de relações duradouras de vizinhanças com
aqueles que junto de si habitavam. A necessidade de ligação
à terra, tão importante na colocação dos nomes nos exempla-
res de maiores dimensões e que eram ocupados por habitantes
proprietários de vastas quintas, ou ocupados em actividades
ligadas com o comércio ou indústria, não existe nos habitan-
tes saloios destas pequenas edificações. Aqui, porque a ligação
à terra está estabelecida ao longo de imensas gerações e num
esforço de labuta quotidiana e paulatina, não existe necessida-
de de um garante próprio, desenvolvendo-se naturalmente as
ligações comunitárias.
Em pleno centro da localidade, podemos encontrar os restos
daquilo que foi a Capela de Nossa Senhora da Lapa, destruída
pelo terramoto de 1755 e que, pelo seu estado de conservação,
não possui qualquer possibilidade de recuperação. No que diz
respeito à quinta que dá nome à capela, e que se situa em ane-
xo á mesma, são de salientar as bonitas cantarias que formam a
69
AL-QABDAQ – Memorial Histórico de Alcabideche
porta da fachada principal de entrada para este espaço, de onde
se destacam, pelas suas características próprias, os azulejos que
denominam a exploração.
Este espaço, determinante para percebermos a forma como
esta existência de âmbito rural foi essencial para o afirmar da
ocupação humana destes locais, traduz essencialmente a impor-
tância de Alcabideche, enquanto cabeça de uma freguesia de
cariz marcadamente agrícola, onde se produziam e a partir de
onde se desenvolviam os produtos que serviam para alimentar
e fazer prosperar a requintada Vila de Cascais e mesmo a capital
em Lisboa.
Em termos de captações e distribuição de água, Alcoitão possui
duas fontes. A primeira insere-se num pequeno pátio de caracte-
rísticas rurais, de onde fazem parte um pequeno aglomerado de
edificações de valor patrimonial já referido, bem como um recin-
to colectivo de habitação. Com uma datação bastante recente, de
meados do Século XX, esta fonte encontra-se num estado razoá-
vel de conservação sendo, no entanto, de salientar o facto de a sua
envolvência nada dignificar o carácter patrimonial que a mesma
possui. O exemplar seguinte, fazendo conjunto com o tanque e la-
vadouro já referenciados, representa o expoente máximo de um
espaço facilmente utilizável em termos patrimoniais, uma vez que
a envolvência do sítio, para além do facto de ser impossível cons-
truir novas edificações naquele terreno, possibilita uma reabilita-
ção integral de todo o largo, criando assim um local central de de-
senvolvimento cultural em Alcoitão, rentabilizando a sua História
e sublinhando o carácter simbólico deste tipo de estruturas sociais.
Quando o Cura de Alcabideche, Padre Fortunato Lopes de
Oliveira, no ano de 1756, respondia ao questionário régio que
João Aníbal Henriques
70
procurava saber qual o estado de conservação das diversas pa-
róquias do reino depois da devastação provocada pelo grande
terramoto de 1755, dizia possuir Alcoitão quarenta e dois fogos,
em que habitavam sessenta homens, sessenta mulheres e se-
tenta e quatro crianças e velhos, dificilmente poderia imaginar
que duzentos e cinquenta anos passados, a velha e histórica
povoação tivesse ultrapassado largamente as suas fronteiras da
época.
Alcoitão, com toda a sua preponderância estratégica no seio
da Freguesia de Alcabideche, é ainda hoje uma terra plena de
potencial e de memórias. A sua História, riquíssima pela capa-
cidade que sempre demonstrou de gerar desenvolvimento a
partir da riqueza que a terra lhe oferecia, é hoje um repositório
de informações preciosas que ajudam os decisores políticos a
ponderar os caminhos alternativos que poderão marcar o futuro
da localidade. Sem esta informação, e sem se promover aquilo
que é a verdadeira ideia de Alcoitão, dificilmente se poderá res-
taurar laços sãos de vizinhança e de sociabilidade, sem os quais,
por seu turno, se torna impossível manter a existência deste mu-
nicípio e deste país.
Com um carácter urbano radicalmente diferente daquele
apresentado por Alcoitão, a antiga Aldeia de Alvide é outros dos
casos extraordinários da História da Freguesia de Alcabideche
que urge revelar.
Incomensuravelmente maior do que aquilo que é a sua praxis
quotidiana, marcada pelas vicissitudes do grande desenvolvi-
mento que caracterizou Cascais em meados do século passado,
guardou bem escondido um segredo maior que importa conhecer
e visitar.
71
AL-QABDAQ – Memorial Histórico de Alcabideche
A memória colectiva daquela localidade, mesclada com as
deturpações naturais que derivam da substituição sucessiva das
gerações, apresenta hoje um carácter que regressa à sua normali-
dade, reformatando laços novos mas cada vez mais firmes entre
aqueles que lá habitam, e transpirando uma identidade renovada
que se vai arreigando naqueles que por ali nasceram no último
quartel do Século XX e que agora, constituindo novas famílias, já
vivem plenamente a posse daquele espaço.
Geneticamente comunitária, porque vive assumindo em ple-
no as suas raízes e a sua relação com o espaço urbano que a com-
põe, Alvide traduz-se hoje pelo resultado quase matemático da
soma entre os vários individualismos que dela fazem parte e pelo
sempre muito vivido anseio pela adaptação dos males menores
que a vão afectando. Tal como Pedro Falcão referia amiúde nas
suas obras, Alvide foi uma terra que cresceu livre e, por isso, sofre
actualmente os problemas próprios de quem teve uma infância
marcada por quedas e por traumatismos. Precisa urgentemente
de ser apoiada, não tanto na criação dos laços perenes que dão
corpo ao seu tecido social, mas mais na criação de infraestruturas
que não só rentabilizem os muitos cantos e recantos extraordiná-
rios que a aldeia possui, como também sejam ensejo para encetar
o projecto global de recuperação do seu património urbano, per-
dido quase sempre nas agruras dos muitos atentados que duran-
te muitas décadas ali foram perpectrados.
Alvide é povoação antiga. Isso o atestam os muitos vestígios
arqueológicos por ali encontrados e, sobretudo, o sempre entusias-
mante espaço das suas grutas que tiveram ocupação desde a Pré-
-História e que desde sempre motivaram e influíram no imaginá-
rio colectivo de todos os que vivem ou conhecem esta localidade.
João Aníbal Henriques
72
De acordo com o Professor J. Diogo Correia, na sua obra «To-
ponímia do Concelho de Cascais»6
, o topónimo ALVIDE, deriva
do germânico ALVITUS, ou seja, um apelido comum do norte da
Europa, e que, por afinidades vivenciais, acabou por tornar-se na
designação deste pedaço de terra. Alvide não é mais, segundo
esta perspectiva, do que a designação do local onde residia, ou de
que era proprietário, o alemão Alvitus, porventura alguém com
importância suficiente para marcar a união do seu apelido com
uma terra durante cerca de mil anos. Ainda segundo o mesmo
autor, ao apelido germânico já mencionado, teria sido anexado
um significado de génese rural, pois VIDE, na língua arábica,
designa a Vinha, sendo que Al-Vide, traduziria assim o local da
vinha. Esta última designação, de acordo com a normal actuação
dos muçulmanos aquando da sua estada na Península Ibérica, a
qual se caracterizou por uma zelosa busca da paz e da integração
social, vem assim consolidar a designação deixada em época an-
terior pelos habitantes do Norte, facto que veio a tornar-se paten-
te não só no nome desta localidade, como também na ribeira que
por ali corre: a Ribeira das Vinhas.
É de salientar, no entanto, o facto de a referida linha de água
possuir várias designações desde a sua nascente, começando por
se chamar Ribeira de Porto Côvo, para se transformar na Ribeira
do Pisão, que por sua vez muda de designação para Ribeira dos
Marmeleiros, e que, no troço final do seu caminho para a Baía, se
designa como Ribeira das Vinhas. Ao que parece, a linha de água
em questão vai adoptando, ao longo do seu sinuoso percurso,
6
CORREIA, J. Diogo, Toponímia do Concelho de Cascais, Cascais, Câmara Muni-
cipal de Cascais, 1964, pp. 12-13.
A história dos saloios de Alcabideche
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A história dos saloios de Alcabideche

  • 2.
  • 4. Ficha Técnica: Título: AL-QABDAQ – Memorial Histórico de Alcabideche Autor: João Aníbal Henriques Execução Gráfica: Gráfica Diário do Minho Lda. Data: Novembro de 2022 Tiragem: 1000 exemplares Depósito Legal: 509260/2
  • 5. Em memória de Henrique Felgar que na sua Quinta da Machada me ensinou o imenso valor da sabedoria, do conhecimento e das expressões culturais populares saloias…
  • 6.
  • 7. 7 ÍNDICE Pág. ABERTURA por José Filipe Ribeiro – Presidente da JF Alcabideche .................. 009 PREFÁCIO por Carlos Carreiras – Presidente da CMC ........................................ 011 INTRODUÇÃO............................................................................................................ 015 I – Um Alcabideche Perdido nas Brumas do Tempo ....................................... 019 II – Na Penha Verdejante da Tradição ................................................................ 045 III – Al-Qabdaq no dealbar da História ............................................................ 113 IV – Na Rota Saloia que Define Portugal .......................................................... 139 V – Origens e Tradições dos Saloios de Alcabideche ....................................... 175 VI – Simbologia do Espaço em Alcabideche .................................................... 207 VII – Arquitectura de Cenário ou o Cenário de Alcabideche......................... 225 VIII -Aspectos Decorativos nas casas Saloias de Alcabideche ...................... 249 IX – Saloios Orgulhosos! ..................................................................................... 261 Conclusão ...................................................................................................................... 283 Bibliografia .................................................................................................................... 289
  • 8.
  • 9. 9 ABERTURA POR JOSÉ FILIPE RIBEIRO PRESIDENTE DA JUNTA DE FREGUESIA DE ALCABIDECHE Situada entre a serra e o mar, Alcabideche foi habitada por di- versos povos, de origens e culturas ibérica, romana e árabe. Terra de gente simples, marcadamente rural, a Freguesia de Alcabideche sempre respondeu, afirmativamente, aos desafios que lhe foram colocados ao longo da história, deixando, as ge- rações passadas um legado rico e farto, dando ao território uma identidade indissociável de que muito nos orgulhamos. Não somos diferentes, mas temos uma forma diferente de es- tar na vida e de a enfrentar. “Al-Qabdaq – Memorial Histórico de Alcabideche” é a obra que faltava e que melhor retrata e descreve as memórias das gen- tes de Alcabideche e define com todo sentido o referido topónimo …” É por isso sinónimo de responsabilidade o topónimo Alcabi- deche. A responsabilidade de sermos capazes de deixar para as próximas gerações uma freguesia ainda melhor do que aquela que nós próprios herdámos.” Esta obra é um legado que ficará registado para sempre, com o mérito de relembrar as gentes de alcabideche e seus costumes,
  • 10. João Aníbal Henriques 10 tenho a certeza absoluta que irá despertar um forte interesse em todos os seus leitores. Nada melhor para escrever esta obra que João Aníbal Henri- ques nascido e criado em Cascais, sempre se dedicou à defesa dos interesses cascalenses, preservando tudo aquilo que está ligado à sua história. Quero agradecer ao autor e amigo Joao Aníbal Henriques que em boa hora desafiou a Junta de Freguesia de Alcabideche a par- ticipar no lançamento desta fabulosa obra. O meu obrigado pelo trabalho realizado e que muito honra a Junta de Freguesia de Alcabideche.
  • 11. 11 PREFÁCIO POR CARLOS CARREIRAS PRESIDENTE DA CÂMARA MUNICIPAL DE CASCAIS Para quem olha de fora, Cascais é um concelho frequentemen- te objeto de preconceções. E, como sabemos, a maior parte das vezes as preconceções não só são insuficientes. Elas são profundamente erradas. Tal como um relógio parado dá as horas certas duas vezes ao dia, estando circunstancialmente certo num contexto errado, tam- bém Cascais sofre o mal da ilusão criada por diversos “relógios parados” com os quais nos fomos familiarizando. A nossa com- plexidade como território e como comunidade, porém, vai muito para além de atalhos para ideias pré-concebidas. Não pode, tão pouco, ser reduzida a elas. Cascais não se confina numa imagem. Ou num postal. Ou numa freguesia. Cascais é união na pluralidade de identidades e modos de vida, de paisagens e horizontes, num tempo tão lar- go que junta na mesma fita os romanos e os árabes, os reis e os pescadores. Nós, Cascalenses, somos o produto de todas destas interseções. Cascais como um todo será sempre muito superior à soma iso- lada de cada uma das nossas partes.
  • 12. João Aníbal Henriques 12 Mas, lá está, para que nunca se tome a parte pelo todo é neces- sário conhecer bem cada uma das unidades que nos compõem. “Al-Qabdaq – Memorial Histórico de Alcabideche” é um es- forço nesse sentido, transportando-nos a todos até a uma das freguesias que mais desafia as convenções associadas ao nosso território: Alcabideche. Cantada por poetas árabes em tempos imemoriais, Alcabide- che é uma terra de origens orgulhosamente saloias, de homens e mulheres que vivem em simbiose com a terra e com a natureza feita modo de sobrevivência. Bem cravada na junção do nosso Parque Natural com o Ocea- no Atlântico, Alcabideche é o pórtico da Europa para o mundo. Há até quem defenda, como o profícuo autor deste livro, que foi nesta freguesia, no lugar de Casais Velhos, que nasceu a ideia de unidade Europeia através de Roma. Alcabideche é hoje um lugar que funde o melhor que nos defi- ne: a identidade arreigada, a natureza em estado puro, o Oceano de liberdade, a lotaria natural de mãos dadas com uma pondera- da ação humana que se reflete no cuidado com o espaço público, a pujança dos nossos empreendedores na DNA ou os melhores cuidados de saúde no principal hospital do concelho. Alcabideche terá mudado muito nos últimos séculos e déca- das. Mas uma coisa não mudou: a qualidade de vida esta terra de vento Al-Qabdaq – Memorial Histórico de Alcabideche, marca o re- gresso de João Anibal Henriques à escrita. Em boa hora o fez. João Aníbal Henriques não é apenas um dos maiores conhece- dores de Cascais e das suas gentes. Não é apenas um académico
  • 13. 13 AL-QABDAQ – Memorial Histórico de Alcabideche e um cascalense reconhecido. Mais do que isso, o que já não seria pouco, João Aníbal Henriques é um raro contador de histórias. Histórias com gente dentro. Daquela gente que, como canta o fado de Marisa, “fica na história, da história da gente”. Recomendo enfaticamente a leitura deste livro. Para os que não conhecem Alcabideche, é uma viagem que desperta todos os sentidos. Para os que pensam conhecer Alcabideche, é um desafio às nossas certezas absolutas: saberemos realmente quem somos? Esta é a interrogação que nos acompanha há milénios a par- tir da outra extremidade da Europa, no Oráculo de Delfos. Pelo menos no que diz respeito à nossa magnifica Alcabideche, neste livro encontraremos respostas às perguntas que talvez nunca te- nhamos feito.
  • 14.
  • 15. 15 INTRODUÇÃO Alcabideche nasceu encostada às penedias calcárias da Serra de Sintra. O vento, inclemente vindo do Norte, determinou sem- pre a vida na localidade, condicionando as escolhas, as possibili- dades e os caminhos daqueles que por ali vão vivendo. Ao longo dos milénios, praticamente desde que o Homem se instalou nestas paragens, que o território que é hoje de Alcabide- che é marcado pelo horizonte azul vindo do mar e o tom sempre verde com que a serra a deleita. Pelo meio, como se fosse coisa menos importante, o solo úbere e proveitoso, gemendo através das muitas linhas de água que a atravessam. Sempre se viveu muito bem em Alcabideche. O sonho, na ir- realidade onírica de uma paisagem marcante e propícia ao bem- -estar, é alicerce principal das gentes que desde sempre labutam de sol a sol para alimentar Cascais e as redondezas. São os saloios, ou seja, aqueles que dependem da salah de ori- gem africana e que, com a força dos seus braços são capazes de adaptar a sua terra às vicissitudes do território de forma a extrair dela o ouro verdadeiro quem muito trabalha. Os habitantes de Alcabideche sempre foram alquimistas, não no sentido quase obsceno que lhe foi dado pelas perseguições que resultaram dos radicalismos religiosos que ao longo dos tempos afectaram ciclicamente a humanidade, mas no sentido que deriva da sua imensa capacidade de transmutar a matéria e dela fazer as substâncias das quais depende a própria vida.
  • 16. João Aníbal Henriques 16 Os saloios de Alcabideche, mágicos nas suas eternas reivin- dicações à natureza, recolheram as águas, alimentaram as terras, experimentaram e implantaram novas culturas e trabalharam a pedra. E, como Cascalenses de primeira linha que são, foram res- ponsáveis ao longo de muitas e múltiplas gerações, pela boa saú- de das gentes de Cascais. Em cada canto e recanto de Alcabideche, naqueles pequenos detalhes que só quem lá vive conhece, vislumbram-se os vestí- gios desse imenso engenho. E no topo das colinas, naquelas zo- nas onde o vento é mais agreste, flutuam as velas bem erguidas dos vetustos moinhos de outros tempos. Já dizia Ibn Mucana, o padroeiro lendário de Alcabideche, que aquela era terra de vento, pobre na sua origem geológica, mas riquíssima pela capacidade e persuasão dos que lá viveram. Mas, como ele alegoricamente também referia, não eram raras as ma- nadas de javalis que desciam através das faldas da serra e que literalmente dizimavam toda a produção que por ali se fazia… Muitos séculos depois de os Árabes terem marcado definiti- vamente a localidade, e de os saloios que lhes sucederam terem preservado e promovido os muitos conhecimentos que estes lhes deixaram, Alcabideche é hoje uma terra escondida por detrás de um mito: o da suburbanidade. Dizem muitos, provavelmente por desconhecimento efectivo de toda a riqueza que esta freguesia tem, que Alcabideche é um dormitório de segunda linha de Cas- cais e que a localidade, alcandorada nas suas velhas penhas, não possui qualquer outro motivo de interesse. Mas esta é uma falácia que importa desmistificar imediata- mente. Porque Alcabideche, de pés mergulhados no azul límpido
  • 17. 17 AL-QABDAQ – Memorial Histórico de Alcabideche do oceano e nas profundezas míticas da Serra de Sintra, é terra plena de motivos de interesse. Os mistérios que se escondem dos menos atentos, repercutin- do os gestos que traduzem a mais ancestral e tradicional terra de Cascais, completam um circuito deslumbrante que não deixa ninguém indiferente. É esta a rota que agora lhe trazemos, num mergulho sentido e pleno pelas extraordinárias terras de Al-Qabdaq! Alcabideche Primavera de 2022
  • 18.
  • 19. I Em busca de um Alcabideche perdido nas brumas do tempo
  • 20.
  • 21. 21 U ma das mais terríveis incertezas que flagelam quem pretende avançar por caminhos alternativos quando ex- plora uma localidade, é perceber que os guias existen- tes, sejam eles de natureza turística ou meramente jornalística, apontam muitas vezes para aspectos verdadeiramente genéricos e pouco interessantes das localidades a explorar. Essas indicações, quantas vezes resultantes de meros lugares- -comuns, dão corpo à documentação existente, mas geralmente não passam de simples estratégias comerciais que impõem no mercado as empresas que os produzem de forma massificada e sem o trabalho de campo necessário para aferir e garantir a qua- lidade das informações que publicam. Este mal, que vai crescendo de forma exponencial por todo o território de Portugal, país avesso a reconhecer as suas verda- deiras mais-valias e pouco dado a potenciar aquilo que o trans- forma num destino extraordinário e irrepetível no Mundo em que vivemos, multiplica-se de sobremaneira em Alcabideche. A freguesia, com a multiplicidade de pontos de interesse que cruzam a paisagem, a História, as histórias e o património, su- cumbe de forma estranha aos ímpetos maiores da envolvente. A proximidade a Cascais, aos Estoris e mesmo a Sintra, num modelo de interpretação do turismo que impõe sempre uma abordagem genérica e minimalista ao território, geralmente sem perceber que a multiplicação dos motivos de interesse pressu- põe sempre um reforço exponencial da atractividade da região, minoriza os caminhos de Alcabideche, pensando que assim va- loriza os pólos mais comuns de interesse que proliferam na vi- zinhança.
  • 22. João Aníbal Henriques 22 Mas este é um erro cada vez mais evidente. Na área da Fre- guesia de Alcabideche, obviamente em abordagens alternativas ao espaço e às suas gentes, encontramos uma multiplicidade de atracções que motivam a visita e que constroem com o visitante os laços de significação necessários ao turismo não-massificado que Cascais deseja. E quando é assim, num movimento pendular que vai cres- cendo de forma abissal ao longo de todo o Mundo, as estradas confortáveis e bem acabadas, com os seus passeios intocados e os tapetes de betume a rebrilhar com esmero, começam progres- sivamente a ser trocadas pelos velhos caminhos empoeirados que nos transportam através das histórias que dão forma à História maior da passagem do Ser Humano por esses ermos. Como refere João Miguel Henriques no livro comemorativo do 650º aniversário da autonomia de Cascais1 , a proliferação das pequenas aldeias que actualmente compõem o território muni- cipal de Cascais acontece principalmente durante o período de ocupação muçulmana. A multiplicidade de expressões de ori- gem etimológica árabe e a toponímia que ainda hoje utilizamos, demonstra que Alcabideche foi um desses espaços importantes desde tempos imemoriais. E, não só pelo que refere este autor, mas principalmente pelo que fica implícito na sua abordagem ao tema, porque a especial atenção dedicadas pelos Árabes ao terri- tório actualmente incluído no espaço da Freguesia de Alcabide- che só faz sentido se pensarmos que quando eles ali chegaram já existiria nessa zona um manancial de pujança, riqueza e prospe- 1 HENRIQUES, João Miguel (Coordenação Geral), Cascais – Território, História e Memória 650 Anos, Cascais, Câmara Municipal de Cascais, 2014.
  • 23. 23 AL-QABDAQ – Memorial Histórico de Alcabideche ridade que lhes despertou o desejo e a cobiça, a ancestralidade desta importância, certamente relacionada com a fertilidade das suas terras, terá origem bastante mais recuada: “A presença do Homem no território que hoje constitui o Concelho de Cascais parece remontar ao Paleolítico, período de que ainda hoje sub- sistem importantes vestígios arqueológicos, o mesmo suceden- do no que concerne à época romana, cujas villae contribuíram de forma decisiva para o povoamento da região. Não obstante seria durante os quase quatro séculos e meio de domínio muçulmano que se assistiria ao nascimento de uma constelação de pequenas aldeias que ainda hoje constituem parte fundamental da matriz identitária do concelho, como o atesta a abundante toponímia de raiz árabe e a afirmação do primeiro povoado de certa impor- tância: Alcabideche, cujos moinhos de vento o poeta Ibn Mucana celebrou”. Neste primeiro percurso, pleno de simbologia e de significa- do, desconstruímos um mito maior que enforme Alcabideche há demasiados anos. O de que a Freguesia, situada algures nas cos- tas de Cascais, é motivo de parco (ou nenhum) interesse… Nas veredas imensas que dão forma à passagem do tempo, urge destacar a simbiose que Alcabideche promove entre o azul cristalino do seu mar e o verde pujante da sua serra. Porque mar e serra, conjugados neste cadinho onírico e irrepetível da região, dão corpo às mais incríveis paisagens que se podem conhecer a pouco mais de 27 quilómetros da capital de Portugal. Fácil se torna, desta maneira, perceber que o carácter des- lumbrante destes caminhos, que marca de forma evidente as prioridades de quem viaja para se debater com o que de me- lhor existe em paragens distantes, sempre ali existiu da mesma
  • 24. João Aníbal Henriques 24 maneira. E que, se actualmente se vai impondo cada vez mais como motivo potenciador de visita e do seu reconhecimento, as condições ímpares que oferece se espraiam ao longo do tempo e das eras. De facto, praticamente desde os primórdios da ocupação hu- mana naquele que é hoje o território português, que em terras de Alcabideche se instalaram comunidades que ali encontraram as melhores condições para as explorar e, reconhecidas as suas mais-valias, para efectivamente ali se instalarem e viverem. Esse facto deve-se, mais do que a qualquer outra coisa, à efectiva po- tencialidade que o território sempre apresentou para bem aco- lher, para bem receber e para promover a melhor qualidade de vida para todos aqueles que por ali se atravessam. Foram essas populações, aliás, quem determinou a pujança que sempre carac- terizou Alcabideche e que, durante o período de ocupação árabe, determinou igualmente o interesse por eles demonstrado relati- vamente a estas terras. Apesar da grande importância e da enorme influência que os árabes tiveram na consolidação de Alcabideche enquanto pólo urbano satélite da própria Vila de Cascais, não é lícito pensar que eles aí se tenham instalado sendo o actual território de Alcabide- che um espaço ermo e abandonado, vazio de gentes e desértico das estruturas produtivas às quais eles davam tão grande impor- tância. Pelo contrário. O seu interesse por Alcabideche, depois da chegada a este espaço, prende-se naturalmente com a efectiva riqueza que quem aqui vivia já apresentava e que, dessa forma ilustrativa, terá promovido o interesse dos árabes em ali se ins- talarem aproveitando também o manancial de prosperidade que existiria nesta terra.
  • 25. 25 AL-QABDAQ – Memorial Histórico de Alcabideche Por isso, desde os primórdios mais antigos da Pré-História, quando os primeiros caçadores-recolectores se espalharam pelo Mundo, que as arribas marítimas de Alcabideche, bem como as encostas verdejantes da Serra de Sintra, serviram de palco às lu- tas quotidianas que marcaram de forma incessante as vidas da- quela gente. A multiplicidade de ambientes, marcados em locais estraté- gicos pela existência de um microclima de base mediterrânica, com Invernos amenos e Verões pouco quentes, fez sempre pro- liferar a fauna e a flora, reforçando assim a atractividade da- quelas terras para receberem as comunidades humanas que aí encontravam boas condições de abrigo, segurança e um clima potenciador de uma vida estável e menos exigente. Os vestígios que deixaram, bem identificados por Guilherme Cardoso na sua “Carta Arqueológica de Cascais”2 mostram bem essa natural apetência das primeiras comunidades por aquele que é actual- mente o território de Alcabideche, onde se instalaram desde os mais recuados tempos e onde deixaram vestígios importantes que nos ajudam a perceber quem somos e como nos tornámos no que somos no presente. O passo seguinte, numa permanente reinterpretação da rea- lidade que o Homem vai fazendo, foi a criação de laços perenes entre o espaço e as suas gentes. E também aqui, num espaço que em Alcabideche foi vivido em pleno, encontramos ainda hoje os ecos ancestrais daquelas vozes de outros tempos e das preces que angustiadamente eles foram dizendo. 2 CARDOSO, Guilherme, “Carta Arqueológica do Concelho de Cascais, Cascais, Associação Cultural de Cascais, 1991.
  • 26. João Aníbal Henriques 26 A religiosidade dos povos que habitaram o actual território de Alcabideche, profundamente ligada à estreiteza da dependência existente entre essas primeiras comunidades e o meio envolven- te, estende-se de forma sensível a cada canto e recanto da fregue- sia que hoje temos. As linhas de água, mananciais permanentes de vida e de fertilidade, recriam em si próprio canais de ligação estratégica ao céu. Mas é nos acidentes da paisagem, principal- mente naqueles que demonstram uma maior falta de sintonia perante o espaço envolvente, que encontramos resquícios mais interessantes dessa ligação às crenças e aos anseios desses outros tempos. Nas histórias de hoje, lendariamente assumidas como introito para compreendermos o pensamento que gizou a sobrevivência dessas gentes, estão plasmadas as mais importantes linhas que definiram a relação entre a paisagem e os povos que as habita- ram. E nos leitos das ribeiras que atravessam a freguesia, pintan- do de verde-escuro a paisagem e deixando atrás de si um rasto fulgurante de fertilidade e ensejo, encontramos igualmente as veias que pulsaram com o sangue de milhares de gerações que neste espaço nos precederam. Uma das mais ancestrais dessas histórias começa ainda na ac- tual Freguesia de Cascais. Cruzando um manancial de água que nascia a Norte da Aldeia de Juso e se multiplicava em diversos veios confluentes até aos Casais Velhos, fica definida uma linha orientadora do assentamento das comunidades ancestrais, defi- nindo ao longos dos milénios, dos séculos e das muitas gerações que por ali se mantiveram, um pensamento complexo e exigente, bom tradutor daquilo que foi a riqueza das muitas vidas que por aqueles espaços se desenvolveram.
  • 27. 27 AL-QABDAQ – Memorial Histórico de Alcabideche O manancial dos Casais Velhos, que hoje podemos ainda re- conhecer na velha fonte de chafurdo romana que está no final da Estrada da Fonte Velha, carregava consigo os benefícios com os quais os deuses presenteavam aqueles que deambulavam por estas terras. E se há dois mil anos, em plena pujança da presença romana por estas paragens, os habitantes locais transformaram as suas crenças em forma de subsistência, alquimicamente mu- dando as propriedades físicas do Murex, marisco utilizado para a preparação da tinta de cor púrpura, no sangue efectivo que Cristo verteu, muitos milhares de anos antes, esse mesmo caminho al- químico havia sido calcorreado por aquele que, com a sua capa- cidade de reinterpretar os sinais da natureza, neles encontravam o cadinho perfeito para preparar a subida de cada um aos céus. Por tudo isso, é este o primeiro e maior de todos os caminhos turísticos que nos levam a Alcabideche. Desde os Casais Velhos, junto à povoação da Areia, ainda na Freguesia de Cascais, num percurso simbiótico que conjuga o significado enorme do binó- mio formado pelo Sol e pela Lua em direcção ao Porto de Touro, no extremo Ocidental do Concelho. Se em termos simbólicos, a ambiguidade masculino-femini- no fica bem espelhada na essência andrógina da actual Fregue- sia de Alcabideche (como os anjos que não têm sexo…), na qual o astro rei e o satélite que define a generalidade dos mais im- portantes fenómenos que constrangem fisicamente toda a gente, em termos práticos é a vertente patriarcal de Cascais que se vai feminilizando progressivamente à medida em que nos vamos aproximando da Serra da Lua e dali usufruímos da protecção divina materna bem expressa nos cultos e rituais ancestralmen- te dedicados à Deusa-Mãe e que ao longo dos tempos se foram
  • 28. João Aníbal Henriques 28 cristianizando em torno da figura maternal de Nossa Senhora da Conceição. Como para se chegar ao Pai, o caminho se faz pelos vales da amargura nos quais é essencial a protecção física da Mãe-divina, os vales de lágrimas vão-se constrangendo através das penhas sempre verdes das terras de Alcabideche. Nessa linha que nos leva do Sol à Lua, combinação perfeita da Família Ancestral enquanto orientação maior da vida, o traçado transporta-nos simbolicamente através do espaço visceral deste lugar onde a terra acaba e o mar começa. Atravessamos o rio da vida, simbolicamente conduzido pela Ribeira das Almoínhas Ve- lhas (porque as almas novas ainda não têm a capacidade de subir ao céu), e encetamos o percurso que nos faz subir até Deus des- cendo sempre em direcção ao mar e explorando a cada passo as misérias de cada um e os seus infernos internos. A cada passo que damos, deixando para trás o espectro lumi- noso do Sol e encetando o trilho obscuro da vida que nos tolda a visão material mas nos desperta os sentidos subtis de que neces- sitamos para subir ao céu, é a Lua, deusa-mãe sempre atenta às amarguras que condicionam o dia-a-dia dos seus filhos e das suas gentes, que serve de guia, fazendo confluir na sua base, como se de um destino se tratasse, as malfazejas feridas que nos vão cor- rompendo a Alma. Aqui, o que vale é o caminho, mais do que o destino. Até porque, de acordo com a sapiência original que deu corpo a este trajecto, é nas deambulações do Espírito através das tentações da matéria que podemos aspirar à libertação total e à ascenção efectiva até ao trono celeste. Desde os Casais Velhos até ao Guincho, calcorreando os ca- minhos de areia que as dunas nos deixam, o percurso faz-se atra-
  • 29. 29 AL-QABDAQ – Memorial Histórico de Alcabideche vés dos laivos maiores da água. A que vem da Serra e nos chega através dos muitos veios que se multiplicam ao longo da encosta, confluem na Crismina para convergirem para o mar, onde se rea- bilitam pelo sal que lhes modifica as propriedades físicas numa alquimia da qual não está isenta a força da própria vida que ne- cessita do sal para a sua sobrevivência. Este “sal da vida”, reforçando o sangue e dotando-o da capa- cidade de se reinventar espiritualmente, segue então pelo trilho que nos leva ao Abano. E ali chegados, no local onde o mar se multiplica em desígnios insondáveis, encontramos então o popu- larmente designado “Caminho das Almas Velhas” que nos leva até ao Espigão das Ruivas através das falésias. Como sempre, e tudo na vida se faz sempre assim, mais im- portante do que o caminho é a forma como o vemos, como o sen- timos e como experimentamos aquilo que ele nos oferece. Neste caso específico, o trilho que lhe propomos fazer pode ser visto sob muitas perspectivas e em abordagens completamente dife- rentes. Mas, como todos os espaços especiais que Alcabideche nos oferece, todas as abordagens nos levam através dos cami- nhos de deslumbramento. Se seguirmos as pistas da biodiversidade, reencontramos neste espaço os laivos de uma fauna e de uma flora pujantes e raros, mostrando-nos espécies de animais e de plantas que raramente se encontram noutros lados. E se, mesmo assim, quisermos deslum- brar-nos ainda mais com tanta riqueza que este caminho tem para nos oferecer, podemos ficar atentos às alterações da paisagem, aos acidentes geológicos que nos trazem à visão velhas chaminés vul- cânicas, e sobretudo às grutas e enseadas que sempre despertaram curiosidade e interesse junto daqueles que as conhecem.
  • 30. João Aníbal Henriques 30 Logo no início, quando em Cascais ainda estamos, a Gruta do Abano teve ocupação ancestral e mostra-nos bem como um espa- ço com a obscuridade própria de uma reentrância na falésia, pode facilmente dotar-se de uma aura mística que não deixa ninguém indiferente. Em linha com o que se passa na Gruta do Rei, no coração da ac- tual Quinta do Pisão, estes dois espaços naturais foram sendo rein- terpretados pelas diversas comunidades humanas que os conhe- ceram e adaptaram-se aos usos e às crenças diversas que ao longo das eras se foram multiplicando. A complexidade do pensamento humano, com derivações permanentes que se prendem com o seu estádio evolutivo, mas também com as condicionantes próprias do seu meio, estabeleceu sempre uma relação de grande significação com o interior da terra. E em Alcabideche, principalmente devido às mães-de-água que abundam na encosta da serra, mas também em virtude das muitas grutas que o maciço calcário potencia, essa ligação simbólica profunda ganha laivos verdadeiramente deter- minantes na História das localidades onde eles se inserem. Desconhecidos e escuros, tal como acontece com os mitos da fertilidade ligados ao regresso ao útero materno, estes espaços in- ternos motivam a criação de novas formas alternativas de ilumina- ção que alteram radicalmente a estrutura de pensamento de quem ousa vivê-los. Nesta linha, determinante se pensarmos que a coesão cultural deAlcabideche depende visceralmente desta argamassa de pensamento interpretativo que desconstrói o território e determina a forma como as diversas comunidades humanas o foram vivendo ao longo das eras, os primeiros caminhos desta freguesia fazem-se por cima, mas também por baixo, da própria terra. Até porque o que está em cima é sempre igual ao que está em baixo…
  • 31. 31 AL-QABDAQ – Memorial Histórico de Alcabideche No Abano, espaço despojado de quaisquer outros motivos de interesse para além do preciosismo geológico que a gruta apre- senta, encontramos aquele que provavelmente foi um dos primei- ros refúgios nas noites antigas de tempestade e frio que amiúde assolam aquele lugar. E nas suas paredes ancestrais, marcadas a fogo e a sangue, ficaram as impressões milenares que preocupa- ram os muitos homens que por ali foram passando. Neste caminho velho de Alcabideche, onde se iniciam as orien- tações mais factuais que nos levam ao Porto de Touro, encontra- mos enfim os resquícios sempre fugazes que traduzem a essência dos que nos precederam. E no despojamento extraordinário de espaços como este, nos quais o impacto do Mundo é muito maior do que qualquer impacto possivelmente produzido pelo Homem, torna-se muito mais fácil perceber que, em todas as épocas e em todos os tempos, o Ser Humano procura sempre o mesmo. A paz, a felicidade e…. a perpectuação da sua memória num tempo que inexoravelmente nos leva para detrás da cortina do esquecimento. Ao seguirmos o Caminho das Almas Velhas, neste que é pro- vavelmente a mais antiga e extraordinária rota de Cascais, é obri- gatório que cada participante assuma antecipadamente que car- rega consigo as suas memórias. Daquilo que foi, daquilo que é, e também daquilo que pretende vir a ser. Nesta ritualística ances- tral, que desde tempos imemoriais carregava da terra ao mar o fruto sagrado que se produzia no extremo Ocidente, cabem todos os credos e todos os ramos possíveis do saber. Porque abarca, na plenitude maior da sua abrangência ecuménica, os valores essen- ciais que são transversais a todas as religiões. Por isso, ao longo do percurso, nem sempre fácil de forma a aproximar-se o mais possível do percurso usual da vida de cada
  • 32. João Aníbal Henriques 32 ser vivente, vão ganhando forma as práticas de cultos que ao mais comum dos mortais poderão parecer antagónicas e até sub- versivas. Na linha provavelmente neolítica dos cultos da Deus-Mãe, senhora grávida que é responsável pela multiplicação fértil da humanidade sobre o Planeta Terra, quase todos os caminhos con- vergem para o fim determinista que é igualmente comum a to- dos os homens: a morte. Simbolicamente arreigada a planos de existência ambíguos, até porque ambígua é igualmente a relação que o Ser Humano (independentemente da sua origem, cor, etnia, extracto económico ou social, nacionalidade ou crenças) estabele- ce sempre com a contingência obrigatória de o seu percurso ter obrigatoriamente de se dirigir para um fim, a morte está sempre simbolicamente ao dobrar da esquina, ali mesmo onde ninguém a espera. A diferença faz-se, como todos certamente percebem, na capacidade de cada um estar preparado em permanência para encetar esse novo caminho, no qual todos os conhecimentos acu- mulados em vida de nada valem. Razão pela qual, ainda hoje quando se passaram já muitos mi- lénios desde as primeiras caminhadas iniciáticas efectuadas nes- te espaço, a preferência dos que possuem acutilância de visão, é fazê-lo à noite, intuindo o trilho, os obstáculos e a meta, mais do que efectivamente sulcando os passos seguros de um circuito iluminado pelo Sol… Na primeira descida, quando o riacho das Almoínhas Velhas nos traz à lembrança as dificuldades da vida, fácil se torna per- ceber a nuance muito ligeira que vivemos neste lugar. Mercê de uma elevação do terreno em direcção ao mar, marcado de forma efectiva pelos pinheirais dobrados que permanentemente persis-
  • 33. 33 AL-QABDAQ – Memorial Histórico de Alcabideche tem na sua luta titânica contra o vento, desaparece de forma re- pentina o troar das ondas nos calhaus rolados da praia, para que toda a envolvente se encha de um silêncio imenso. De noite, quando todos os sentidos estão mais apurados, fácil se torna perceber esta alteração que a natureza nos impõe e de dia, quando a caminhada segue iluminada pelo calor intenso, é precisa- mente neste ponto que os sentidos se inundam do aroma forte das estevas que por ali abundam e nos oferecem o óleo que o Sol sacra- liza naquele perpéctuo esforço de garantir fertilidade e a eternidade da espécie. Porque o que pertence à Luz deve circular à luz, o que pertence às sombras e depende da vontade expressa por Hades no seu refúgio subterrâneo, deve manter-se resguardado dessa luz que cega… até porque, nestes caminhos iniciáticos e enigmáticos de Al- cabideche, a luz mais importante é aquela que não se vê e simples- mente se pressente nos muitos trilhos que nos integram na multi- plicidade irreal do registo de pensamento da comunidade saloia. Do outro lado do rio, que simbolicamente representa a própria vida, tudo é diferente e o que vemos perde importância perante aquilo que sentimos. Desde há dois mil anos, quando dos Casais Velhos por ali seguiam os cortejos que se dirigiam ao mar para embarcar para a cabeça do império os bens que eram produzi- dos nerstas paragens, que o sangue assume simbolicamente o pa- pel principal. Porque a púrpura, que artífices sábios produziam com o Murex nas cubas pétreas daquela fábrica, se transforma simbolicamente no sangue do Salvador, libertando todos aqueles que nele acreditarem e que sejam capazes de abdicar das marcas maiores da vida que por aqui vamos tendo. Em Roma, desde o início do Catolicismo, que o Sumo-Pontífi- ce, ao assumir na Terra as suas funções celestes, tem obrigatoria-
  • 34. João Aníbal Henriques 34 mente de entregar o seu nome, a sua história de vida e a sua vida nas mãos de Cristo Redentor. E muda de nome, muda de roupa e recebe as vestes purpuradas que representam a consagração a Cristo, morto para dar vida, crucificado para com o seu sacrifício espiar os pecados dos humanos, dotando-os de uma ponte que lhes permita ultrapassar a inexorabilidade da morte através do assumir da vida verdadeira e plena. O grande segredo deste primeiro trilho de Alcabideche, é aquele que dá corpo e forma aos dogmas maiores da nossa Fé. Nele, mercê de um exercício espiritual intenso, transmuta-se a matéria. E, ao contrário dos que muitos teimam em dizer, este acto alquímico é essencialmente ciência. A ciência de Maria. Os conhecimentos serenamente adquiridos ao longo de mui- tas gerações, consubstanciam o aparecimento em Cascais, nas ditas “Casas Velhas do Gandarinha”, o primeiro dos colégios portugueses de filosofia. Estávamos em 1594 quando um con- junto de eruditos Carmelitas, sempre descalços para simbolica- mente apelarem ao despojamento físico necessário à ascenção da Alma, iniciou a construção do Convento de Nossa Senhora da Piedade. Dali, congregando num só livro (porque só existe um livro verdadeiro) os saberes dispersos por milénios de vidas cruzadas nestes ermos lugares, se espiritualizou todo o actual território municipal. No extremo Ocidental do Concelho de Cascais, ali mesmo onde a Freguesia de Alcabideche desce desmesuradamente até ao mais significantes dos mares, os frades antigos ergueram um eremitério no qual as preces refulgiam directamente para o céu. O espaço em questão, actualmente uma vetusta habitação parti- cular rodeada de segurança e com o conforto maior de uma das
  • 35. 35 AL-QABDAQ – Memorial Histórico de Alcabideche mais bem conseguidas mansões de Cascais, marca o início do tro- ço final do Caminho das Almas. Dali até ao mar, descem-se cerca de três quilómetros de arribas de difícil acesso. Mas as dificul- dades do caminho, acentuando simbolicamente o difícil trajecto de regresso ao céu, subvertem elas próprias a noção do tempo e do espaço que nos constrangem. Porque esta imensa descida nos permite subir, regredindo num tempo onde o tempo não importa, em direcção aquele que é, porventura, o melhor lugar para assis- tir ao Pôr-do-Sol em Cascais. O astro-rei, que daquelas arribas se despede do Mundo, num ritual de repetição diária e cíclica que culmina no seu posterior re- gresso, tal como Cristo, o Redentor, que morreu e regressou para iluminar a Humanidade, deixa atrás de si um rasto de esperança que constrange o discernimento e a própria ciência. Do alto do seu eremitério, em séculos que já não existem, ve- lhos monges contrariavam o frio, a fome e a sede, reencontrando naquele espectáculo de grande pujança cénica o espelho maior da grandeza de Deus. Faziam-no repetindo ritualisticamente o ensejo que milenarmente era representado pelos eremitas que vi- viam em São Saturnino da Peninha, num culto ancestral a Nossa Senhora que precede mesmo a figura histórica da Mãe de Jesus Cristo na Terra. A Senhora da Peninha, sub-repticiamente decalcada da mãe que concebe os seus filhos e que deles cuida ao longo da vida, provendo-lhes abrigo e alimento, conjuga o seu trilho neste trilho primordial de Cascais, transformando o carácter bicéfalo da di- vindade num caminho uno e coeso em direcção ao Pai. Nos escritos clássicos, dizia-se que naquela vertente da serra as éguas engravidavam do vento, tal era a força telúrica do lugar.
  • 36. João Aníbal Henriques 36 E o rio que desce por ali abaixo desde o planalto de São Saturni- no, com a designação de Touro para os Romanos, exerce simboli- camente o papel de tradutor dessa realidade. Touro representa a força viril e animal, que ali mesmo, naquele cadinho alquímico de Maria, se conjuga simbolicamente para dar lugar ao palco maior do conhecimento e da filosofia maior. E lá em baixo, no alto do penhasco maior que enforma a velha praia, é em dedicação às ruivas que o Espigão ganha o seu nome portentoso, mostrando bem que existem mistérios em Alcabideche que vale mesmo a pena desvendar! A manta de segredo que envolve a tradição, encobrindo muito daquilo que mais tarde virá a ser considerado como território do sagrado e do mistério, mais não é do que a subtracção ao Mun- do Profano de muito daquilo que as comunidades humanas vão tendo dificuldades em compreender. E aí, descodificando os de- sígnios dos deuses, surgem então aqueles que foram iluminados pelo conhecimento e que, tal como se fossem mediadores entre a terra e o Céu, estabelecem pontes que religam as partes contra- vindas, numa equação quase matemática que elucida, explica e esclarece. Entre o céu e a terra de Alcabideche existe muito pouca distância. Estão ali, lado a lado, mesmo à espera de um qualquer fenómeno nos motive a integrar-nos nelas. Porque, conforme de- termina a influência mítica e os cultos animistas que se constroem no Espigão, a lei dos contrastes é essencial para que com conhe- cimento de causa de ambas as partes possamos compreender o tudo os nos perdemos. Na outra vertente de Alcabideche, ou seja, no pragmatismo realista da vida quotidiana, as diversas comunidades que habi- taram o espaço da freguesia fizeram-no de várias maneiras dife-
  • 37. 37 AL-QABDAQ – Memorial Histórico de Alcabideche rentes, utilizando estratégias que tinham sobretudo a ver com o manancial cultural de cada grupo e, sobretudo, com o seu grau de prosperidade. Assim, se em determinado momento a opção é por lugares elevados, aproveitando a orografia como forma de condicionar as estratégias de defesa, noutros, é a proximidade à água, às vias de comunicação ou a grandes depósitos de materiais, como a pedra ou a fruta, consoante a orientação fosse no sentido da obtenção de bons recursos aquíferos, a criação de canais de escoamento comercial dos produtos ali produzidos, ou o acesso a matérias- -primas para a construção de casas, monumentos e/ou outras quaisquer infraestruturas. Como é óbvio, para além destas condicionantes que podería- mos apelidar como primárias, uma vez que respondem a neces- sidades de primeira linha no esforço de sobrevivência e de pros- peridade de cada comunidade, existem uma multiplicidade de outras que igualmente condicionaram as decisões e impuseram estratégias diferenciadas de ocupação e exploração do espaço de Alcabideche. E a primeira destas outras, como não poderia deixar de ser, é o conjunto da pré-existências. Se as primeiras comunidades livre- mente podiam escolher o local onde se instalavam, condiciona- das unicamente pelos pressupostos de utilização do espaço, essa liberdade vai-se perdendo à medida em que as gerações se vão substituindo, formatando o espaço vivencial de acordo com o le- gado que foram recebendo das gerações que as precederam. Ao analisarmos a mancha ocupacional de Alcabideche, de- pressa percebemos que no período mais relevante para a conso- lidação da linha de paisagem que hoje temos, ou seja, na época
  • 38. João Aníbal Henriques 38 em que a freguesia se organiza para responder ao apelo cada vez maior que a chegada da Corte a Cascais e a constante prontidão turística exigia, pois era em Alcabideche que os recursos huma- nos e alimentares se encontravam para fazer face à demanda cada vez maior de mão-de-obra de várias origens, era o acesso às zonas mais relevantes em termos turísticos que se impunha às comunidades que ali habitavam. E locais como Manique, Alvide ou Abuxarda, mais do que as aldeias recônditas e situadas nos interstícios interiores do território da freguesia, redobram a sua relevância na estrutura urbana municipal. Alcoitão, por exemplo, que tanto relevo teve na recuperação dos velhos eixos de comunicação herdados dos romanos, assiste a um recrudescimento da sua relevância, isto apesar de sabermos que nas leiras que envolviam a localidade, se multiplicavam as estruturas de produção agrícola e que eram elas quem alimen- tava a componente terciária da comunidade local. Este Alcabi- deche, freguesia de apoio à modernização que Cascais conheceu nessa época tão marcante e revolucionária da vida municipal (e até de Portugal), assume-se como cadinho de inovação e progres- so sem o qual seria impossível ao restante território de Cascais conhecer a pujança e o desenvolvimento que hoje lhe reconhece- mos. Técnicas de exploração da terra e dos seus recursos, nomea- damente geológicos, são um manancial de primeira importância para construir e alimentar a comunidade cada vez mais nova e impreparada que veio habitar toda a faixa do litoral. A História de Alcabideche, ao longo das muitas eras e tempos que a compõem, vacila em permanência entre o assumir comple- to das suas características intrínsecas e o apelo interessante dos novos espaços e cenários que o desenvolvimento por ali à volta
  • 39. 39 AL-QABDAQ – Memorial Histórico de Alcabideche foi criando. E, por isso, encontramos, como se satélites de ocupa- ção espacial tratássemos, vários núcleos aldeãos por esse litoral Cascalense fora que mais não são do que reminiscências directas do esforço de relocalização que muitas comunidades de origem saloia de Alcabideche (e também de São Domingos de Rana) fize- ram em direcção ao mar cascalense. E as lógicas saloias de outros tempos, mesmo quando enqua- dradas pelos raios solares apetecíveis que se estendem junto ao mar, consolidam-se nas práticas correntes dos novos espaços, fazendo perdurar as tradições e garantindo que mesmo com a desvirtuação completa que vem de fora e de outras paragens, a identidade municipal não se deixa afectar. A matriz identitária de Alcabideche, desta maneira, atinge um laivo que se afigura qua- se eterno, porque a sua imensa extensão ao longo do tempo, em que sofreu todas as vicissitudes próprias do passar das eras, lhe garantiu uma coesão radicalmente consolidada e provavelmente impossível de ser sujeita a essas pressões externas que a tenta- riam desvirtuar. Compreender estes fluxos de população, e utilizando-os para contextualizar os vestígios urbanísticos que ainda hoje subsistem, ajuda-nos a perceber como a interacção entre o meio e o Homem é essencial na definição do Mundo em que vivemos. E no caso de Alcabideche, em que grande parte dessas peças estruturantes da sociedade se faz a partir do controle dos meios de produção, uma vez que deles depende a capacidade produtiva e, por exten- são, o sucesso do comércio e dos serviços que deles derivam, esta contextualização assume redobrada importância, principalmente se tivermos em linha de conta o impacto que esta movimentação teve na organização do espaço e na reformatação urbanística de
  • 40. João Aníbal Henriques 40 um concelho massacrado durante muitas décadas pela pressão construtiva, bem visível, aliás, no PUCS (Plano de Urbanização da Costa do Sol) dos anos quarenta do Século XX, primeiro ins- trumento a procurar regularizar as estratégias de gestão do espa- ço municipal. Pela negativa, pois a disfuncionalidade deste documento que se concentrava na orla costeira, obrigando as autoridades municipais a dedicarem especial atenção aos movimentos cons- trutivos aí realizados, condicionou uma autêntica onda de cons- truções ilegais nas zonas mais recatadas do interior municipal, Alcabideche conheceu nessa época um dos piores momentos relativamente à descaracterização dos seus antigos núcleos ur- banos consolidados de raiz saloia. As construções clandestinas que encheram Alcabideche des- sa aura de degradação que tanto tem condicionado a imagem pública da freguesia, resultam, por um lado, da maciça chegada ao litoral de comunidades oriundas de ouras regiões de Portu- gal que, trocando o bucolismo do seu campo onde a fome impe- rava pela esperança de melhores dias nas prósperas empresas turísticas do litoral, necessitaram de encontrar soluções de ha- bitação que o poder político de então foi incapaz de programar. E não havendo, no litoral, respostas habitacionais comportáveis para toda esta gente recém-chegada, nem existindo nessa faixa mais próspera condições para que a auto-construção que eles conheciam nas suas origens pudesse ser implementada, a solu- ção foi procurar na faixa interior, sobretudo nas actuais fregue- sias de Alcabideche e São Domingos de Rana, os espaços ain- da disponíveis onde, sem a atenção tão cuidada da fiscalização camarária, fosse possível construir habitação de cariz familiar,
  • 41. 41 AL-QABDAQ – Memorial Histórico de Alcabideche normalmente rodeada de um pedaço de terreno essencial para o complemento da economia doméstica, para que a instalação fosse plena e com o mínimo de conforto necessário para o devir em sociedade. Por outro, a importação de modelos de constru- ção que deslumbravam no litoral, e que vinham com as novas populações que aí se instalaram chegadas pelo turismo e com uma aura cosmopolita que contrastava de forma evidente com o carácter rústico das comunidades que habitavam nas aldeias de Alcabideche, transformou a freguesia numa espécie de la- boratório e viveiro de espécimes absurdos que resultaram das parcas técnicas impostas pela auto-construção não legalizada, e que tentando copiar os modelos originais, traziam consigo a deturpação e a destruição da linha saloia que outrora havia sido modelo único no desenvolvimento dessas comunidades. É nessa altura que surgem as realidades extraordinárias de casas completamente disfuncionais que encheram as antigas al- deias locais, deturpando os seus modelos sociais e subvertendo o cenário que a antiga tradição saloia consignava. Espaços como a Atrozela, por exemplo, viram o seu núcleo histórico perfeita- mente destruído numa amálgama de construções de gosto du- vidoso que destruiu as suas raízes e condicionou negativamente as potencialidades que a aldeia apresentava. Não sendo final a sentença a que condenaram a Atrozela e as demais aldeias de Alcabideche que foram quase completamente esfaceladas por esta disfuncionalidade incoerente, até porque a matriz identitá- ria deste espaço é muito mais a herança cultural que é carregada de geração em geração pelas suas gentes, do que o somatório das suas casas e dos seus equipamentos, o certo é que o perigo de desagregação existe mesmo. Até porque, conforme é prática
  • 42. João Aníbal Henriques 42 em terras saloias (e Alcabideche não é nisso excepção) a fluidez do pensamento constrange os comportamentos e multiplica as suas consequências. Se forem boas, as aldeias que deles usu- fruem progridem e crescem. Se foram más, como acontece com este movimento degenerativo que afectou grandemente o urba- nismo casclense ao longo da segunda metade do Século XX, a multiplicação destes fenómenos disruptivos acaba por ser de- terminante na proliferação do ímpeto vazio da insignificância comunitária. A chamada ocupação disfuncional dos espaços, desregrada e desregrante, começou então a misturar estilos rocambolescos de casas absurdamente rebuscadas e destituídas de valores estéti- cos que fossem suportados pela identidade das localidades, com pedaços de ocupação pragmaticamente funcionais. E as antigas aldeias de Alcabideche, que até aí viviam da sua dualidade casas- -campo, que sempre caracterizou as comunidades saloias, para uma realidade que misturava pequenas fábricas com oficinas automóveis, com micro-sucatas e com casas de habitação numa mole degenerativa que motivou situações que, se não fossem as suas consequências nefastas para quem nelas habitava, seriam motivo de riso por serem tão caricatas. Na versão de 1997 do Plano Director Municipal, por exemplo, algumas dessas antigas aldeias interiores e saloias do Concelho de Cascais, com uma história milenar que carregava consigo múl- tiplas gerações de habitantes e uma identidade muito consolida- da, foram classificadas como espaços urbanos de génese ilegal. Ou seja, espaços antigos e prenhes de tradição, que haviam sido essenciais para a formatação da Identidade Municipal, foram tratados como bairros ilegais e, ao abrigo da legislação própria
  • 43. 43 AL-QABDAQ – Memorial Histórico de Alcabideche que rege esse tipo de espaços degradados, foram reconvertidos em unidades chamadas de “génese ilegal”, consolidando assim o caos urbano que esta classificação lhes impôs e perpectuando a desgraça como se a história antiga que eles apresentavam pura e simplesmente não contasse. O exemplo mais flagrante desta situação, embora se tenha concretizado na actual Freguesia de São Domingos de Rana, foi Quenena, a aldeia histórica situada junto à Ribeira da Lage, que a regulamentação urbanística municipal condenou a ser bairro ile- gal e a consolidar a sua nova posição estrategicamente instalada no sopé da montanha artificial de lixo que resultou da criação do lixeira de Trajouce… No caso de Alcabideche, o ímpeto destrutivo deste período afectou de forma transversal quase todas as aldeias rurais que faziam parte do cenário saloio da freguesia, deixando atrás de si um rasto de degradação que somente a partir dos primeiros anos deste século começou a inverter-se. Importa agora, promovendo um exercício magistral de apelo às memórias ancestrais da comunidade, ser capaz de retirar do espaço que ficou e das gentes que ali vivem, os laivos maiores da antiga significação comunitária. Este esforço, essencial se ti- vermos em linha de conta o horizonte longínquo das gerações a quem deixaremos a freguesia que hoje temos, com a obrigação expressa de que a herança que por cá ficar seja bem melhor do que aquela que recebemos daqueles que nos precederam, exige que a nova realidade e o paradigma que estas situações impuse- ram, sejam profusamente e intencionalmente dissecadas, de for- ma a podermos ler de forma conveniente as muitas potencialida- des que ainda por cá temos.
  • 44. João Aníbal Henriques 44 Até porque da sua interpretação e tradução, resulta necessa- riamente uma memória grandiosa de Alcabideche no esplendor da sua História milenar, e não, como o pretendem alguns, uma simples radiografia escabrosa e condenatória desta terra tão ne- fastamente destruída pela inconstância destes últimos tempos.
  • 45. II Nas Penhas Verdejantes da Tradição
  • 46.
  • 47. 47 N a busca incessante dos trilhos mais significantes de Al- cabideche, urge desvendar aquela que é uma das mais impactantes lendas da freguesia. Saída directamente da encruzilhada que junto à Biscaia liga o Caminho das Almas à en- costa de São Saturnino, a Poente da Ermida de Nossa Senhora da Peninha, a lenda que corporiza este espaço traduz na sua essência a amplitude milenar das convicções e das crenças de sempre dos Cascalenses. A subida desta encosta, atravessando o caminho de pé-posto que começa nas Almoínhas Velhas e se estende até ao que resta do velho palacete ali construído por António Carvalho Montei- ro, o conhecido “Monteiro dos Milhões” que viveu na Quinta da Regaleira e que, do alto da sua iniciação, traduzia na matéria os valores espirituais mais relevantes da Portugalidade, faz-se por entre o exotismo de uma flora artificialmente disposta como se de um cenário se tratasse, propiciadora, por seu turno, de uma fauna pujante que não deixa indiferente quem tem a sorte de por ali poder passear. Reza a lenda que, algures durante o reinado de Dom João III, uma pastorinha muda e esfomeada nascida na localidade das Al- moínhas Velhas (Malveira-da-Serra, Cascais), terá subido à Serra de Sintra com o seu rebanho onde encontrou Nossa Senhora. A figura com a qual falou, respondendo ao seu anseio de alimentos para si e para a sua família, disse-lhe para regressar a casa e abrir uma determinada arca onde encontraria o pão de que necessi- tava. Correndo de regresso para casa, a pastorinha recuperou a voz e indicou à sua mãe onde encontrar o tão almejado alimen- to. A velha imagem tosca de Nossa Senhora da Penha, colocada na arca, terá sido então exposta para veneração na velha Capela
  • 48. João Aníbal Henriques 48 de São Saturnino, situada a poucos metros do local da aparição. Mas, teimosa, saia subrepticiamente do altar onde a colocavam e reaparecia no cimo dos rochedos situados atrás do templo. Tan- tas vezes se repetiu a travessura que se construiu em sua honra a capela actual no topo do monte da peninha. Não se sabendo exactamente quando tudo isto aconteceu, e havendo várias notícias da existência de edifícios que precede- ram aquele que actualmente ali se encontra, sabe-se, no entanto, que a Capela de Nossa Senhora da Peninha terá sido construída por um tal Pedro da Conceição, que tinha na altura somente 28 anos, e que se encontra sepultado junto ao monumento. Nas inscrições lapidares de Sintra, vem descrita a indicação que se encontra na sepultura do fundador, dizendo que ali jaz o Ermitão Pedro da Conceição, falecido em 18 de Setembro de 1726, e que pede a todos os que por ali passem um Padre Nosso e uma Avé Maria pela Alma dos seus benfeitores. Numa das paredes do templo, existe uma segunda lápide confirmando a identidade do construtor original e afirmando que a obra foi efectuada em 1690. Sendo muitos e rocambolescos os episódios pelos quais passou o singelo templo Sintriano, o certo é que foi alvo de muitas obras de construção e reconstrução que lhe conferiram o aspecto que hoje conhecemos. Sabe-se ainda que no final do Século XIX, em 1892, a Peni- nha é comprada pelo Conde da Almedina que em 1918 a re- vende a António Augusto Carvalho Monteiro. O empreende- dor e filósofo espiritualista, como ficou conhecido o construtor da Quinta da Regaleira, situada junto à Vila de Sintra, era na altura um dos mais conhecidos e ricos empresários lisboetas, com investimentos variados na banca de então que, do alto da
  • 49. 49 AL-QABDAQ – Memorial Histórico de Alcabideche sua prosperidade, adquire uma visão ecléctica do Mundo e das suas gentes. Profundamente místico e grande conhecedor de tudo aqui- lo que dizia respeito ao destino de Portugal, Carvalho Montei- ro pauta a sua vida por um conjunto de valores e de princípios que, apesar da distância que o separa do antigo Ermitão Pedro da Conceição, lhe são muito próximos e semelhantes. Adossado às penhas que sustentam a capela, o proprietário prepara a construção de um palácio onde pretendia passar tem- poradas em meditação e em recolhimento. Projectado por Júlio da Fonseca em 1920, o palácio fica por acabar mercê da morte de Carvalho Monteiro, tendo posteriormente sido adquirido pelo advogado José Rangel de Sampaio que concluiu as obras e legou o palácio em testamento à Universidade de Coimbra. Em 1991, pela importância de 90.000 contos, o imóvel é ad- quirido pelo Estado Português, através dos Serviços de Parques e Conservação da Natureza, que efectuou algumas obras de res- tauro e conservação. A Poente da Capela de Nossa Senhora da Peninha, subsiste em forma de ruína avançada, o que resta da velhinha Ermida de São Saturnino, originária do Século XII, e cuja importância em termos patrimoniais contrasta de forma evidente com a incúria em que tem sido deixada. O conjunto patrimonial da Peninha, composto pela Capela, pelo palácio de Carvalho Monteiro e pela velha Ermida de São Saturnino, está inserido numa das mais impactantes paisagens da Região de Lisboa, abraçando em termos visuais desde a Ponte Sobre o Tejo, em Lisboa, até ao Cabo da Roca.
  • 50. João Aníbal Henriques 50 A singeleza da lenda, apelando aos sentidos de pureza pri- mordial e fazendo a apologia da pobreza extrema e abnegada, enquadra-se no conjunto ritualístico próprio da Serra de Sintra, numa lógica cruzada de paganismo cristianizado e de apelo cons- tante ao Quinto Império Português. A devoção pela Senhora que concebe, a Senhora da Conceição que tão linearmente devolve à pastorinha das Almoínhas Velhas (ou Almas velhas), a sua voz e lhe mata a fome, é concretizada pelo Ermitão, ou seja, pelo que assume a pobreza como fio condutor da sua vida, Pedro da Con- ceição, em ligação permanente ao culto ritual antigo. Na Ermida Medieval, onde o culto é de São Saturnino, a linha orientadora é a mesma, apelando ao eterno retorno e ao culto obs- curecido dos Mundos Internos, numa lógica que corre em linha com o útero materno, a Deusa-Mãe primordial, por aqui venera- da desde tempos imemoriais. Enfim… Nossa Senhora da Conceição. Os trilhos da Conceição, muito comuns através de todo o ter- ritório municipal de Cascais, ganham uma importância acrescida e redobrada na área actualmente incluída na Freguesia de Alca- bideche. Os mananciais de água que descem da serra em direcção ao mar, franqueando de forma livre as vastas charnecas que envol- vem aquele lugar, deixam atrás de si um rasto de fertilidade que promove a vida, a saúde e o bem-estar daqueles que deles usu- fruem. A dependência directa destes mananciais, aqui como em qualquer outra parte do Mundo, ajuda a definir a estreita ligação que consistentemente se estabelece entre o quotidiano de cada comunidade e o seu profundo saber.
  • 51. 51 AL-QABDAQ – Memorial Histórico de Alcabideche A sabedoria popular, tão importante para a generalidade das tarefas do dia-a-dia, assume-se em Alcabideche como sustentá- culo essencial para a formação da identidade local. E espraia-se, desde sempre, através de campos diversos que influem directa- mente nas escolhas que todos os dias, nos seus momentos de tra- balho e de lazer, que os habitantes vão fazendo na sua vida. A ligação ancestral de Alcabideche à mitologia sagrada, bem visível no conjunto dos seus espaços de culto e na forma como os mes- mos influem directamente nos contornos urbanos dos seus nú- cleos urbanos historicamente consolidados, recria na sua comu- nidade uma capacidade única de recriar as suas relações sociais a partir desse cadinho de uma memória ancestral que se transfor- mou num dos arquétipos locais de pensamento. No trilho da Senhora da Peninha, sob a égide da omnipre- sente Senhora da Conceição, o saber popular dita-nos os no- mes, as propriedades e os benefícios de cada erva e planta e as origens antigas de cada nome e de cada lugar, permitindo-nos uma compreensão mais profunda daquilo que é e foi a vida nestes sítios tão especiais. A expressão religiosa tradicional, que em Alcabideche surge de forma tão vincada em quase todos os aspectos da vida quo- tidiana das comunidades, é assim o melhor tradutor que temos acerca da forma como os habitantes locais viam e sentiam a sua terra. Os ciclos naturais, com as estações do ano e as implicações que quaisquer alterações tinham na germinação das sementes e na saúde dos seus congéneres, comportava mistérios imensos que na sua expressão mais simples acabavam por transformar-se em alicerces de uma vivência religiosa muito abrangente e que, tal como acontece com as alterações políticas que vão acontecen-
  • 52. João Aníbal Henriques 52 do, surge em Alcabideche com um profundo ecumenismo que assenta na promoção do respeito pela que não se conhece. Maria Micaela Soares, na magnífica obra citada na nota 22, sublinha precisamente a importância da capacidade popular de integração das diferentes visões e perspectivas, para explicar a racionalidade evolutiva dos grupos aldeões. De acordo com a sua abordagem “{…} o conceito de religiosidade popular apre- senta-se como extremamente ambíguo, pelo que tem de ser ma- nuseado com precaução”. E mais adiante, “Vantajoso é ainda reflectir sobre a tese de Manuel Clemente acerca desta faceta da vida do povo português, a qual, segundo o autor, repousa em quatro vertentes: sobrevivências do paganismo, herança de reli- giões não-cristãs assentes no território, algum matiz cristianiza- do dessas mesmas crenças e, como último segmente, a inspira- ção nitidamente cristã. A tendência para o sentimento religioso no grosso da população, isto é, a sua religiosidade constitui complexa forma de expressividade religiosa, ou seja, encarna a religião cristã envolta em véus de religiosidades múltiplas, que a transpõem para uma categoria específica da forma de vida, da concepção do mundo natural e da do além-mundo, se a com- pararmos com a modalidade ortodoxa da Igreja institucional e oficial. “Duas linguagens” ou “religião de expressão popular” em pé de igualdade que devem completar-se e respeitar-se mu- tuamente”. E se parece fácil o exercício de perceber a evolução adaptativa da religiosidade pagã das populações saloias do actual Concelho de Cascais na sua evolução para o cristianismo católico, vinculan- do a sua ritualística aos dogmas novos que iam progressivamente chegando de Roma, mais difícil parece, dadas as imensas diferen-
  • 53. 53 AL-QABDAQ – Memorial Histórico de Alcabideche ças conceptuais entre as duas abordagens ao sagrado, entender como se processou esse fenómeno no âmbito da aculturação ve- rificada quando chegaram à Península Ibérica os primeiros mu- çulmanos e, séculos depois, o seu regresso ao cristianismo. Isto porque, como sabemos e como podemos ainda ver nos vestígios que nos chegaram, as religiões autóctones originais misturaram- -se naturalmente com a ritualidade pagã romana (veja-se o caso de Aracus Arantus Niceus em Bicesse e de Titus Curiatus Rufinus em Freiria) e tal deverá ter acontecido durante o processo de isla- mização. A facilidade associada a esta evolução, contrariando os cânones conhecidos do Islão, prende-se com as especificidades concretizativas neste espaço em concreto, marcado pela imensa distância relativamente ao poder político que governava e, por outro lado, pela influência directa dos vários factores que fizeram deste pequeno pedaço de território junto ao extremo Ocidental da europa um caso muito específico ao nível da cultura e do pen- samento. É muito interessante verificar que, tal como refere Isabel Mendes Drumon Braga no seu trabalho de investigação sobre as diferenças religiosas “entre a cruz e o crescente”, os pedidos de protecção a santos, que teoricamente não são permitidos nos cânones do islamismo, eram frequentes no território peninsular durante a dominação muçulmana. E, sobretudo, o perceber-se que esses tipos de práticas religiosas não só eram conhecidas e admitidas pelas elites islâmicas que detinham o poder, como passaram a fazer parte do quotidiano das populações saloios dessa época. Assim se explica a continuidade cultual que conhe- cemos e a naturalidade que caracteriza a cristianização dessas figuras tutelares das nossas comunidades, favorecendo desta
  • 54. João Aníbal Henriques 54 maneira a possibilidade de hoje termos crenças e práticas reli- giosas que, com diferentes designações, marcam uma continui- dade ininterrupta desde a pré-história até aos dias actuais: “ A prática de pedir protecção e de realizar juramentos por Maomé e pelos santos muçulmanos, nomeadamente os companheiros do Profeta e alguns membros da sua família também era vulgar. Neste caso estamos perante devoções originariamente de cariz popular que foram sendo admitidas como práticas canónicas pelo islamismo. Efectivamente, os princípios da religião islâmi- ca não favoreceram o aparecimento de santos, sendo o Profeta o único a ter o poder de intercessão entre os homens e Deus que, mesmo assim, deviam dirigir-se directamente a Alá nas suas orações. De qualquer modo a existência de santos – murabit, salih, waliyy, sayyid – foi conhecida desde o início do Islão, e es- pecialmente nos Séculos XV e XVI, com a conjugação das dinas- tias marroquinas reinantes e com a presença cristã no Magrebe a proliferação do culto dos santos conheceu um impulso”. Outro aspecto interessante, que nos ajuda a perceber esta li- nha continuada nas crenças principais que fundamentam a Iden- tidade Social de Alcabideche, tem a ver com a simplicidade que caracterizou o processo de cristianização dos mouros depois da reconquista cristã da Península Ibérica. Bastava uma aceitação explícita da nova religião, o apadrinhamento por um Cristão-Ve- lho e a mudança para um nome cristão tradicional, para que o neófito fosse imediatamente integrado na nova comunidade, sem que daí resultassem grandes hesitações ou protestos. Os novos cristãos, ou Cristãos-Novos como foram oficialmente designados, asseguraram de imediato cargos de prestígio, mercê não só das capacidades técnicas que possuíam devido à herança islâmica
  • 55. 55 AL-QABDAQ – Memorial Histórico de Alcabideche que carregavam, como também porque a longevidade da sua pre- sença nestas paragens, determinada por muitos séculos de pro- cessos sucessivos de aculturação, havia-lhes dado a capacidade acrescida de saber lidar com a mudança e de a ela se adaptarem sem problemas de maior. O território saloio de Alcabideche, pródigo nesta dinâmica so- cial marcadamente progressista, assegura assim um porto seguro para todos aqueles que pretendem viver em paz e aceitar sem mais delongas as orientações políticas trazidas por quem gover- na, sabendo de antemão que existe capacidade, abertura e von- tade para que novas formas de estar, de ser e de saber, possam vir a ser assimiladas e integradas, fazendo evoluir a comunidade como um todo. É, aliás, este processo, redobrado na actual Freguesia de Alca- bideche devido à proximidade e influência do mar na definição do arquétipo de pensamento dos saloios que aqui viveram, que motiva o surgimento paulatino de novas formas de expressão nas localidades. De sistemas adaptados de construção de casas e de engenhos, até formulações estéticas diferentes, derivam basica- mente desta enorme plasticidade apresentada em diversos pe- ríodos por quem controlava o poder, oferecendo e aproveitando todas as oportunidades para melhorar as suas respostas perante o meio. Interessante também, até pela forma como nos ajuda a com- preender a génese histórica da actual Freguesia de Alcabideche, é a origem dos topónimos locais. E na linha do trilho da Peninha, logo após o vale extraordinário de Farta-Pão, aludindo ao carác- ter excepcional da fertilidade das terras agrícolas naquele lugar, surge-nos a antiga aldeia de Alcorvim.
  • 56. João Aníbal Henriques 56 Topónimo certamente de origem árabe, conforme refere Diogo Correia na sua publicação de 1964, será porventura o resultado da corrupção de vocábulos que antecederam esse mesmo período de tempo. De acordo com José d’Encarnação3 a origem da desig- nação Alcorvim remete-nos para a chegada a este território de um natural de Cairuão: “É que a palavra deriva de “al-caravvi”, o que significa “ocairuanense”, o natural de Cairuão”, mostrando assim que grande parte destes movimentos políticos tiveram re- percussões directas e efectivas no dia-a-dia das populações con- quistadas que, aculturando-se, fizeram evoluir a matriz da sua identidade em linha com aquilo que foram os pressupostos que herdaram dos recém-chegados ocupantes. A importância histórica destas pequenas aldeias, bem tradu- zida nas obrigações legais que elas assumiram sempre ao longo dos tempos, teve como apogeu, em plena Idade Média, a vela que eram obrigados a fazer junto à foz da Ribeira das Vinhas no primeiro Sábado de Setembro. Esta obrigação, imposta le- galmente e sujeita a multas pesadas para quem ousasse entrar em incumprimento, determinava que mesmo nos espaços que hoje consideramos recônditos relativamente à centralidade do poder, existiam estruturas de controle que asseguravam um registo eficaz de tudo o que aí ia acontecendo. Alcorvim, Far- ta-Pão, Charneca, Aldeia de Juso e Murches, eixos essenciais na produção agrícola naquela parte do Concelho, foram sempre incontornáveis na importância que tinham no fornecimento de alimentos e meios que permitiam a salvaguarda dos interesses 3 ENCARNAÇÃO, José d’, Cascais e os Seus Cantinhos, Cascais, Edições Colibri e Câmara Municipal de Cascais, 2002.
  • 57. 57 AL-QABDAQ – Memorial Histórico de Alcabideche de quem morava em Cascais e, por extensão, na sua capacidade de impor na paisagem uma marca perene da qual ainda hoje restam vários exemplos. O mesmo se passará, com toda a certeza, relativamente à po- voação da Abuxarda, na entrada Sul da actual Freguesia de Alca- bideche. Presa de forma combinada entre dois grande pólos de desenvolvimento dos recentes anos 60 e 70 do Século XX, que a desvirtuaram e obliteraram relativamente ao crescimento concre- tizado nesses outros espaços, a Abuxarda é anda hoje um exce- lente repositório do que foi Alcabideche noutros tempos. Sendo certamente uma das mais antigas povoações do Con- celho de Cascais, como o atestam os inúmeros vestígios que se conhecem da sua História, a sua face urbana está, no entanto, desprovida de tudo aquilo a que os tempos modernos atribuem mais valor. Os edifícios desvirtuados das suas características ori- ginais, e descontextualizados no seio da velha aldeia, perderam já o brilho que os datava da aura de mistério imposta pela patine do tempo. O seu valor patrimonial, que comprova o seu interesse, está agora restricto a um pequeno painel de azulejos, onde subsiste, numa grafia desactualizada, o antigo topónimo do lugar: Abu- charda. Este nome, de origem marcadamente medieval, será tal- vez o último dos vestígios deixados nesta parte do concelho pelos seus antigos habitantes. De facto, e muito embora tenha caído em profundo desuso, o apelido BUCHARDO, de onde deriva a designação deste espaço, foi outrora bastante popular no nosso País, facto que veio a in- fluenciar largamente a toponímia Nacional. Segundo o Professor J. Diogo Correia, na sua obra «Toponímia do Concelho de Cas-
  • 58. João Aníbal Henriques 58 cais», o referido apelido terá influenciado o topónimo deste lugar através da sua forma feminina, designando assim o sítio onde habitava o indivíduo possuidor daquele nome: «Crível é, pois, que o referido apelido, na forma feminina, tivesse dado o nome à povoação, tal como aconteceu a outras terras portuguesas, v.g. Douroana. Com o andar dos tempos, o artigo que necessariamen- te se antepunha ao nome próprio soldou-se a este e dele ficou fazendo parte integrante. AAbucharda seria, portanto, primitiva- mente, a Bucharda». Por esta razão, e dando crédito a este ilustre estudioso da toponímia cascalense, a maneira mais correcta de mencionar esta povoação será Abucharda, ou seja, o local onde vivia a Família Buchardo e não, como caiu em uso corrente, a forma Abuxarda, que resultou da deturpação popular do nome da mesma. Com a mesma denominação da Abuxarda, existe uma outra localidade na província de Córdova, na Argentina, facto que o referido estudioso também aponta como hipótese plausível para o nascimento do topónimo. De qualquer forma, e tendo em conta os vestígios que se co- nhecem do passado da Abuxarda, é tese comprovada aquela que aponta este espaço como muito antigo. Na «Carta Arqueológica do Concelho de Cascais», da autoria de Guilherme Cardoso4 a Abuxarda é apontada com uma cronologia de ocupação que re- monta ao período romano, muito embora os vestígios arqueológi- cos mais significativos que aí foram encontrados se classifiquem tipologicamente como pertencentes ao período visigótico. A ne- 4 Ver nota (2).
  • 59. 59 AL-QABDAQ – Memorial Histórico de Alcabideche crópole da Abuxarda possuía entre o seu espólio algumas fivelas e anéis de bronze, para além de inúmeros vestígios de material funerário: «Necrópole tardo-romana / visigótica com sepulturas delimitadas por esteios de calcário. Os moimentos continham um ou mais esqueletos e encontravam-se orientados este-oeste, à ex- cepção de quatro que estavam norte-sul. Nalgumas das sepultu- ras havia joias, pequenas bilhas e, numa delas, uma espada muito oxidada». A confirmarem-se estes dados, seria o espaço da Abuxarda, na actual Freguesia de Alcabideche, um dos poucos locais do concelho de Cascais a conhecer ocupação humana de caracte- rísticas significativas, acompanhando as antigas villas romanas que, mercê do desmoronamento das estruturas administrativas do império, se viram a braços com uma crise social profunda. A sua filiação no período de declínio da ocupação romana, vai assim influenciar largamente a ocupação visigótica do espaço que, mercê da má qualidade dos aparelhos utilizados nas cons- truções, faz subsistir os seus vestígios quase exclusivamente nas estruturas funerárias ali existentes. Datado de 1931, com a assinatura inconfundível da Câmara Municipal de Cascais, que entendeu nessa data que a requalifi- cação geral de um concelho de características turísticas deveria obrigatoriamente passar pela reestruturação dos meios colocados ao dispor da sua população, existe próximo do centro desta lo- calidade um lavadouro público. Este espaço, antigo polo agluti- nador da população, encontra-se no extremo Norte da mesma, e possui características que são identificadoras do grande cresci- mento que as diversas aldeias de Cascais conheceram em meados do Século XX.
  • 60. João Aníbal Henriques 60 Para além do lavadouro, que cinge a Abuxarda à sua origem eminentemente rural, mantém-se com redobrado interesse o ve- lho casal saloio que na sua fachada sul apresenta o antigo pai- nel de azulejos com a denominação original da povoação. O seu logradouro de grandes dimensões, aliado ao carácter imponente da própria edificação, pressupõe a existência nesta povoação da Abuxarda, de uma componente agrícola bastante próspera e que, mercê dos vestígios que deixou, dos quais esta habitação faz par- te, se pode inferir ter sido tradutora da realidade vivida naquele espaço durante muitos séculos. Aprosperidade agrícola da povoação da Abuxarda, bem como de quase todas as localidades de características análogas neste concelho de Cascais, parece evidenciar, pelas relações de carácter comercial que possuem com a zona de Cascais, um acréscimo da importância estratégica geral deste município, pois os produtos agrícolas aqui produzidos em grandes quantidades, bem como os seus derivados, de onde se salientam o gado e os produtos manufacturados (de lembrar a proximidade dos núcleos de moi- nhos de vento de Alcabideche e do Carrascal de Alvide), serviam para fornecimento dos contingentes de soldados aquartelados nas diversas fortificações marinhas que proliferam, a partir de meados do século XVII, nas costas de Cascais. Por outro lado, essas mesmas trocas comerciais desenvolviam-se no seguimento de uma vasta tradição de fornecimento de produtos hortícolas à capital, que vem desde os primórdios da ocupação romana, dos quais possuímos os exemplos paradigmáticos das villae romanas de Freiria e dos Casais Velhos, nas vizinhas freguesias de São Do- mingos de Rana e de Cascais, e do Alto do Cidreira, já em Alca- bideche e que culminam com a epopeia marítima portuguesa, na
  • 61. 61 AL-QABDAQ – Memorial Histórico de Alcabideche qual os cascalenses, por necessidade e por vocação, acabaram por intervir de forma assaz significante. As casas que compõem o património histórico da Abuxarda, pelas suas características e dimensões, que contrastam de forma evidente com exemplares idênticos situados em zonas mais po- bres do concelho de Cascais, permitem-nos aferir a forma como noutras eras esses imóveis, através da forma como eram construí- dos, serviam como instrumento de afirmação social em comuni- dade. No que diz respeito aos pátios, ostensivamente marcantes nos exemplares que a Abuxarda ainda preserva, resultam desta necessidade de afirmação social, uma vez que fazem ressaltar à vista a autonomia das casas face às vizinhas. Tal situação, bas- tante exemplificativa da realidade rural vivida nesta parte do Concelho de Cascais assume especial importância se atendermos às características principais das vivências arquitectónicas dos sa- loios da região estremenha, onde a tipologia em questão aparece sempre aliada a determinativos de ordem social. Terá sido essa, talvez, a razão pela qual os diversos censos populacionais reali- zados neste concelho sempre apontaram para índices pouco ele- vados no que diz respeito à Abuxarda, facto que se ficaria a dever à elevada estratificação social existente, desde épocas recuadas da Idade Média, e vieram ajudar a distorcer os já pouco fiáveis dados apresentados pelos censores. O caso da dispersão deste tí- pico exemplar de arquitectura popular na zona da Abuxarda vem assim fundamentar a explanação corrente da existência de uma morfologia própria em toda a região da Península de Lisboa, de onde se podem retirar ilacções de ordem social. Nalguns casos, o desenvolvimento tipológico deste género de habitações pode advir do facto de o processo de urbaniza-
  • 62. João Aníbal Henriques 62 ção se ter caracterizado por uma grande lentidão, uma vez que conhecemos, noutras localidades do concelho, exemplares se- melhantes ao de Abuxarda que, embora sejam tipologicamente passíveis de inclusão dentro das mesmas categorias, não pos- suem o referido pátio ou quintal demonstrativo da autonomia e da demarcação social referidas. É esta a opinião, fundamenta- da em observações de campo em diversas localidades da região estremenha, de José Manuel Fernandes e de Maria de Lurdes Janeiro, autores da obra “Arquitectura Vernácula da Região Saloia”: «Em todos estes tipos base podem surgir casos de im- plantação em contexto urbano, nos quais o edifício é construí- do na sequência de uma rua, entre dois outros prédios, com a sua fachada principal alinhada pelas outras (ou posteriormente envolvido lateralmente por edificações justapostas, em gradual processo de urbanização)». A questão da necessidade de afir- mação e autonomia é também referenciada por estes autores: «Nalguns casos marca ainda a sua autonomia e personalidade própria pela presença de um pátio murado com portal (que aliás pode surgir também no contexto rural), que assim o separa ain- da dos volumes vizinhos». Os exemplares mais interessantes da arquitectura saloia da Abuxarda, marcados pela singeleza das suas origens e pela forma como conseguiram preservar as suas características ao longo dos séculos, para além do já referido pátio murado, possuem carac- terísticas próprias, que obrigam a um afastamento tipológico em relação aos casais rurais que patenteiam um primeiro andar e que parecem simbolizar o regozijo da prosperidade alcançada. Nestes casos, a principal característica da habitação é a sua forma corri- da, bem como o carácter térreo da sua edificação. A sua utilização
  • 63. 63 AL-QABDAQ – Memorial Histórico de Alcabideche por agricultores de menos recursos, parece ser a hipótese mais plausível para a sua existência, tal como o comprova a normal existência de um forno de pão acoplado à sua fachada. A quali- dade do calcário utilizado para as suas cantarias é, no entanto, indiciador de parâmetros de qualidade que devem ter servido de base a todas as habitações saloias desta região e que mantinham um nível edificativo comum para todos aqueles que pretendiam manter-se dentro do povoado. Num interessantíssimo prefácio à também ela excepcional obra de Vítor Manuel Adrião sobre Loures, tradutora daqui- lo que foi a génese do processo de aculturação entre árabes e cristãos naquele espaço5 , J. Pinharanda Gomes apela à atenção para se compreender o verdadeiro fulgor da cultura saloia e a sua expressão que ainda hoje, para surpresa de muitos, impac- ta nas paisagens por onde todos os dias passamos: “A estada de Loures, desde Lisboa, pela Várzea, até ao coração da terra saloia, está repleta de sinais. As massas proletárias, atulhando autocarros e transportes colectivos, não olham. Não reparam. Na viagem do lar para a fábrica é como se não saíssem de casa; viajam de olhos fechados. Mas a quem abra os olhos, de ime- diato se patenteiam pequenas obras, singelas pedras, humanís- simos sinais, testemunhos de quem passou deixando rasto”. E mais adiante, explicando a importância deste alheamento que evita que a mole humana viva deslumbrada, o filósofo reforça a importância desse predicado: “Há quem postule que este tempo de ocultação foi o melhor tempo para o sagrado, que permane- 5 ADRIÃO, Vítor Manuel, Ode a Loures, Loures, Câmara Municipal de Loures, 1993.
  • 64. João Aníbal Henriques 64 ceu no segredo; pois, em contrapartida, o interesse das novas gerações pela desocultação do sagrado, oferece o perigo de o sagrado se tornar profano”. Situação análoga repete-se, aliás, na importante localidade de Alcoitão. Com uma situação privilegiada relativamente aos acessos viários, porque historicamente Alcoitão esteve sempre no cerne da ligação entre Cascais e Olissipo, a localidade será certa- mente uma das mais antigas aldeias do Concelho e é certamente um dos mais emblemáticos núcleos históricos consolidados da Freguesia de Alcabideche. Mencionada no numeramento de 1527 por Jorge Fernandez, o numerador oficial do Reino, Alcoitão possuí raízes históricas que permitem situar o seu aparecimento nas épocas mais longínquas e logo depois do início da ocupação humana neste território. De facto, segundo Guilherme Cardoso, na sua Carta Arqueológica do Concelho de Cascais, são conhecidos vestígios arqueológicos em Alcoitão que podem ser datados do período calcolítico e ro- mano. O povoado pré-histórico de Alcoitão, bem como os diver- sos fragmentos de materiais de construção romanos, juntam-se assim a dois cemitérios, datado o primeiro do período romano ou visigótico, e o segundo da mesma época mas situado junto à cer- ca do Centro de Medicina e Reabilitação de Alcoitão. De salien- tar, no contexto arqueológico em questão, a presença de trinta e quatro sepulturas nesta última necrópole, que foram delimitadas por esteios de calcário e que continham vários brincos e anéis de bronze, bem como duas pequenas bilhas decoradas. A grande pressão urbanística que afectou Alcoitão ao longo das últimas décadas, com uma vincada ocupação industrial que desvirtuou o espaço e destruiu muito do seu potencial histórico,
  • 65. 65 AL-QABDAQ – Memorial Histórico de Alcabideche acabaram também por influir no desenvolvimento desta povoa- ção onde, em termos patrimoniais, se podem encontrar importan- tes vestígios da sua componente rural e agrícola, possivelmente exemplares únicos e monumentais desse património que urge identificar, conhecer e contextualizar naquilo que foi o devir his- tórico da Freguesia de Alcabideche e do próprio Concelho de Cascais. Assume especial importância, quando nos debruçamos sobre o património de Alcoitão, a presença de um obelisco comemoran- do a inauguração do Bairro dos Infantes e Navegadores, concre- tizada pelo Presidente da Câmara Municipal de Cascais, o Enge- nheiro António de Albuquerque de Azevedo Coutinho, no ano de 1962. Este monumento, que foi uma homenagem póstuma de D. Mecia Mouzinho de Albuquerque à Ínclita Geração, traduz uma vontade inconcretizada de fomentar a vivência cultural deste espaço, valorizando a sua estrutura urbana e contribuindo para minorar de sobremaneira o impacto que a modernidade acabou por lhe trazer. O monumento do Bairro dos Infantes e Navegado- res, para além do valor simbólico que possui, representa ainda o dealbar de um contributo que comprova a importância cultural de Alcoitão no seio das aldeias de Alcabideche, em linha com os vários pequenos apontamentos de índole histórica que abundam em recantos pouco conhecidos desta interessante freguesia cas- calense. O grande desafio que se colocou a este Alcoitão histórico, as- sente na vontade expressa socialmente de rentabilizar a riqueza certamente concretizada a partir da exploração da terra na pro- moção da vivência cultural das suas gentes, é por demais eviden- te quando nos debruçamos sobre estes vestígios raros e extraor-
  • 66. João Aníbal Henriques 66 dinários que ainda hoje podemos ver. Importa sublinhar aqui a excepcionalidade do trabalho realizado por D. Mecia Mouzinho de Albuquerque, neste seu devaneio onírico de conseguir ultra- passar os obstáculos e oferecer aos naturais da terra um espaço de fruição completa desta componente tão importante para ga- rantir a qualidade de vida de todos reforçando os seus laços de vizinhança. Dentro deste mesmo Bairro dos Infantes e Navegadores, si- tuado em pleno centro da povoação de Alcoitão, podemos en- contrar dois exemplares dignos de nota e representativos daquilo que foi o desenvolvimento concertado do Concelho de Cascais durante as décadas de sessenta e setenta do século passado. A Casa Gil Eanes e a Gonçalves Zarco, adoptando o nome de dois dos protagonistas da odisseia marítima portuguesa, contribuem para a criação e desenvolvimento da memória colectiva nacional, enquadrando-se no plano concertado de construção de um bairro que pretendia recuperar os feitos de todos aqueles que contribuí- ram para o desenvolvimento de Portugal, e servindo de exemplo para futuras aprovações de projectos de urbanização para as re- dondezas. Caso único e extraordinário no Concelho de Cascais e até em Portugal! Das formas antigas de Alcoitão, pelas suas características e pelo seu estado de conservação, salientamos o conjunto de ca- sais aldeões situados junto ao Bairro dos Infantes e Navegadores, mas já na Estrada de Manique. Os exemplares em questão pos- suem nomenclaturas que representam condignamente a forma de pensar dos habitantes desta localidade. Vivenda Barruncho, Vivenda Mantas, Casa João Paulino e Vivenda Maria Luísa, de entre outros nomes utilizados em Alcoitão, são a face visível de
  • 67. 67 AL-QABDAQ – Memorial Histórico de Alcabideche uma relação de vizinhança sadia e alicerçada em princípios de reconhecimento mútuo que traduzem de sobremaneira a forma de vida rural deste concelho. A utilização do nome próprio para denominar a habitação, para além de contribuir para a facilitação da identificação do proprietário, serve ainda para promover a li- gação entre o mesmo e a terra, sendo que em Alcoitão não será difícil encontrar explicações, por parte da população mais idosa, de que o elemento pessoal é o principal guia descritivo da povoa- ção. «É logo a seguir ao Paulino», ou «mora em frente ao Zé Ma- nel», ou ainda «encontrou-a ao pé do Barruncho», são algumas das expressões que podemos encontrar em Alcoitão e que, com o passar do tempo e das gerações, acabarão por definir laços muito fortes de ligação social, coadjuvados por outro lado, pelo próprio desenvolvimento toponímico da região. Nesta povoação, existe ainda um conjunto significativo de ca- sais rurais, exemplares valiosos da componente agrícola da vi- vência municipal e que, pelas suas condições deveriam ser alvo de projectos de recuperação, manutenção, recaracterização e uti- lização. Dignos de uma atenção muito especial, por traduzirem nor- mativamente aquilo que foi sempre a capacidade de recriação de laços perenes entre as várias comunidades que ocuparam aquele espaço, o conjunto de casais saloios situados a Nascente daquele aglomerado original são hoje peças importantes no contexto pa- trimonial da Freguesia de Alcabideche e do Concelho de Cascais. Por serem exemplos já muito raros da habitação saloia de Alcoi- tão, por fazerem parte de uma tradição construtiva de carácter rural que possui de entre as suas principais características a exis- tência de um forno de lenha para fabrico do pão, e por se encon-
  • 68. João Aníbal Henriques 68 trarem num estado muito avançado de degradação, que não per- mite uma recuperação fácil, os exemplares em questão formam um núcleo homogéneo que urge preservar. A sua funcionalidade, como espaço de desenvolvimento de um habitat agrícola, com as suas estruturas de apoio e com um pequeno quintal que fornecia os legumes básicos para a sub- sistência quotidiana, marca a diferença relativamente às edifi- cações rurais de primeiro andar (ou torreadas), sendo que nas primeiras, a inexistência de uma nomenclatura antiga que pro- mova a identificação dos seus proprietários, mostra uma comu- nidade de homens demasiado ocupados no desenvolvimento das suas actividades agrícolas para poderem preocupar-se com o estabelecimento de relações duradouras de vizinhanças com aqueles que junto de si habitavam. A necessidade de ligação à terra, tão importante na colocação dos nomes nos exempla- res de maiores dimensões e que eram ocupados por habitantes proprietários de vastas quintas, ou ocupados em actividades ligadas com o comércio ou indústria, não existe nos habitan- tes saloios destas pequenas edificações. Aqui, porque a ligação à terra está estabelecida ao longo de imensas gerações e num esforço de labuta quotidiana e paulatina, não existe necessida- de de um garante próprio, desenvolvendo-se naturalmente as ligações comunitárias. Em pleno centro da localidade, podemos encontrar os restos daquilo que foi a Capela de Nossa Senhora da Lapa, destruída pelo terramoto de 1755 e que, pelo seu estado de conservação, não possui qualquer possibilidade de recuperação. No que diz respeito à quinta que dá nome à capela, e que se situa em ane- xo á mesma, são de salientar as bonitas cantarias que formam a
  • 69. 69 AL-QABDAQ – Memorial Histórico de Alcabideche porta da fachada principal de entrada para este espaço, de onde se destacam, pelas suas características próprias, os azulejos que denominam a exploração. Este espaço, determinante para percebermos a forma como esta existência de âmbito rural foi essencial para o afirmar da ocupação humana destes locais, traduz essencialmente a impor- tância de Alcabideche, enquanto cabeça de uma freguesia de cariz marcadamente agrícola, onde se produziam e a partir de onde se desenvolviam os produtos que serviam para alimentar e fazer prosperar a requintada Vila de Cascais e mesmo a capital em Lisboa. Em termos de captações e distribuição de água, Alcoitão possui duas fontes. A primeira insere-se num pequeno pátio de caracte- rísticas rurais, de onde fazem parte um pequeno aglomerado de edificações de valor patrimonial já referido, bem como um recin- to colectivo de habitação. Com uma datação bastante recente, de meados do Século XX, esta fonte encontra-se num estado razoá- vel de conservação sendo, no entanto, de salientar o facto de a sua envolvência nada dignificar o carácter patrimonial que a mesma possui. O exemplar seguinte, fazendo conjunto com o tanque e la- vadouro já referenciados, representa o expoente máximo de um espaço facilmente utilizável em termos patrimoniais, uma vez que a envolvência do sítio, para além do facto de ser impossível cons- truir novas edificações naquele terreno, possibilita uma reabilita- ção integral de todo o largo, criando assim um local central de de- senvolvimento cultural em Alcoitão, rentabilizando a sua História e sublinhando o carácter simbólico deste tipo de estruturas sociais. Quando o Cura de Alcabideche, Padre Fortunato Lopes de Oliveira, no ano de 1756, respondia ao questionário régio que
  • 70. João Aníbal Henriques 70 procurava saber qual o estado de conservação das diversas pa- róquias do reino depois da devastação provocada pelo grande terramoto de 1755, dizia possuir Alcoitão quarenta e dois fogos, em que habitavam sessenta homens, sessenta mulheres e se- tenta e quatro crianças e velhos, dificilmente poderia imaginar que duzentos e cinquenta anos passados, a velha e histórica povoação tivesse ultrapassado largamente as suas fronteiras da época. Alcoitão, com toda a sua preponderância estratégica no seio da Freguesia de Alcabideche, é ainda hoje uma terra plena de potencial e de memórias. A sua História, riquíssima pela capa- cidade que sempre demonstrou de gerar desenvolvimento a partir da riqueza que a terra lhe oferecia, é hoje um repositório de informações preciosas que ajudam os decisores políticos a ponderar os caminhos alternativos que poderão marcar o futuro da localidade. Sem esta informação, e sem se promover aquilo que é a verdadeira ideia de Alcoitão, dificilmente se poderá res- taurar laços sãos de vizinhança e de sociabilidade, sem os quais, por seu turno, se torna impossível manter a existência deste mu- nicípio e deste país. Com um carácter urbano radicalmente diferente daquele apresentado por Alcoitão, a antiga Aldeia de Alvide é outros dos casos extraordinários da História da Freguesia de Alcabideche que urge revelar. Incomensuravelmente maior do que aquilo que é a sua praxis quotidiana, marcada pelas vicissitudes do grande desenvolvi- mento que caracterizou Cascais em meados do século passado, guardou bem escondido um segredo maior que importa conhecer e visitar.
  • 71. 71 AL-QABDAQ – Memorial Histórico de Alcabideche A memória colectiva daquela localidade, mesclada com as deturpações naturais que derivam da substituição sucessiva das gerações, apresenta hoje um carácter que regressa à sua normali- dade, reformatando laços novos mas cada vez mais firmes entre aqueles que lá habitam, e transpirando uma identidade renovada que se vai arreigando naqueles que por ali nasceram no último quartel do Século XX e que agora, constituindo novas famílias, já vivem plenamente a posse daquele espaço. Geneticamente comunitária, porque vive assumindo em ple- no as suas raízes e a sua relação com o espaço urbano que a com- põe, Alvide traduz-se hoje pelo resultado quase matemático da soma entre os vários individualismos que dela fazem parte e pelo sempre muito vivido anseio pela adaptação dos males menores que a vão afectando. Tal como Pedro Falcão referia amiúde nas suas obras, Alvide foi uma terra que cresceu livre e, por isso, sofre actualmente os problemas próprios de quem teve uma infância marcada por quedas e por traumatismos. Precisa urgentemente de ser apoiada, não tanto na criação dos laços perenes que dão corpo ao seu tecido social, mas mais na criação de infraestruturas que não só rentabilizem os muitos cantos e recantos extraordiná- rios que a aldeia possui, como também sejam ensejo para encetar o projecto global de recuperação do seu património urbano, per- dido quase sempre nas agruras dos muitos atentados que duran- te muitas décadas ali foram perpectrados. Alvide é povoação antiga. Isso o atestam os muitos vestígios arqueológicos por ali encontrados e, sobretudo, o sempre entusias- mante espaço das suas grutas que tiveram ocupação desde a Pré- -História e que desde sempre motivaram e influíram no imaginá- rio colectivo de todos os que vivem ou conhecem esta localidade.
  • 72. João Aníbal Henriques 72 De acordo com o Professor J. Diogo Correia, na sua obra «To- ponímia do Concelho de Cascais»6 , o topónimo ALVIDE, deriva do germânico ALVITUS, ou seja, um apelido comum do norte da Europa, e que, por afinidades vivenciais, acabou por tornar-se na designação deste pedaço de terra. Alvide não é mais, segundo esta perspectiva, do que a designação do local onde residia, ou de que era proprietário, o alemão Alvitus, porventura alguém com importância suficiente para marcar a união do seu apelido com uma terra durante cerca de mil anos. Ainda segundo o mesmo autor, ao apelido germânico já mencionado, teria sido anexado um significado de génese rural, pois VIDE, na língua arábica, designa a Vinha, sendo que Al-Vide, traduziria assim o local da vinha. Esta última designação, de acordo com a normal actuação dos muçulmanos aquando da sua estada na Península Ibérica, a qual se caracterizou por uma zelosa busca da paz e da integração social, vem assim consolidar a designação deixada em época an- terior pelos habitantes do Norte, facto que veio a tornar-se paten- te não só no nome desta localidade, como também na ribeira que por ali corre: a Ribeira das Vinhas. É de salientar, no entanto, o facto de a referida linha de água possuir várias designações desde a sua nascente, começando por se chamar Ribeira de Porto Côvo, para se transformar na Ribeira do Pisão, que por sua vez muda de designação para Ribeira dos Marmeleiros, e que, no troço final do seu caminho para a Baía, se designa como Ribeira das Vinhas. Ao que parece, a linha de água em questão vai adoptando, ao longo do seu sinuoso percurso, 6 CORREIA, J. Diogo, Toponímia do Concelho de Cascais, Cascais, Câmara Muni- cipal de Cascais, 1964, pp. 12-13.