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Guia da educação libertária#1

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  1. 1. semescolanemmestres@riseup.net UM GUIA EM CONSTRUÇÃO PARA UMA EDUCAÇÃO LIBERTÁRIA DA ESCOLA ABAIXO OS MUROS DA ESCOLA
  2. 2. RESPONSABILIDADE Ao viver consoante um quadro de valores maniqueístas impostos por todos os dispositivos ideológicos (igreja, estado, escola...) a nossa responsabilidade fica limitada. Posto isto, é preciso desenvolvermos a capacidade de assumir e negar compromissos livremente aceites, tanto individual como colectivamente, reconhecermos honestamente tanto a preguiça como a vontade de fazer muitas coisas e enfrentarmos com lucidez as nossas escolhas e decisões. COMUNIDADE DE APRENDIZAGEM Comunidades que se organizam em função dos seus espaços/ territórios e de todos os intervenientes, formando uma espécie de núcleos de aprendizagem ligados entre si de forma a se completarem, se necessário, com base no apoio-mútuo. EDUCAÇÃO INTEGRAL O princípio da educação integral consiste em experimentar e adquirir capacidades intelectuais e manuais contrariando a lógica da educação tradicional que privilegia as primeiras em detrimento das segundas. Concordamos com o companheiro Bakunin quando disse que “a inteligência separada das actividades corporais destrói-se, seca e morre, enquanto que a força física separada da inteligência embrutece e através desta separação artificial cada um de nós cria metade do que poderia”.
  3. 3. APOIO MÚTUO “Enquanto eu estava a conversar consigo, um pardal veio dizer aos outros que um saco de milho caiu no chão, e então eles foram todos para o local comer os grãos” (citado por P. Kropotkin, Ajuda Mútua). Entendemos o apoio mútuo como meio para alcançar a autonomia e, neste sentido, utilizando as palavras de Raoul Vaneigem, como “ajuda indispensável” equiparável àquela necessária para aprender a andar, a falar ou a ler. Mas entendemos também que o apoio mútuo se materializa, por exemplo, quando se defende uma escola ocupada em situação de despejo - uma ajuda indispensável se pensarmos que ocupar e libertar espaços são formas lutar por um mundo que não o da dominação e exploração. IGUALDADE Paideia encara a igualdade como uma forma de contrariar as desigualdades da sociedade contemporânea que privilegiam uma classe, um género e um tipo de trabalho em detrimento de outros. No contexto da educação, entendemos ser necessário criar instrumentos que permitam favorecer relações igualitárias como, por exemplo, nos mostram as companheiras de Paideia, disponibilizando a mesma quantidade e oportunidade de acesso à informação e actividades para todas, valorizando igualmente todo o tipo de trabalho e promovendo o desempenho de todas as tarefas independentemente do género ou da classe. “A necessidade de induzir hábitos de trabalho rigorosos nos estudantes tem de começar nas fases iniciais dos seus percursos escolares” Os processos educativos, assim como os restantes aspectos básicos da nossa vida, não estão nas nossas mãos. O domínio do Estado sobre as populações apoia-se, em grande medida, na institucionalização da capacidade de produção e transmissão de conhecimentos entre indivíduos através da escolarização, regulamentando o ensino e a aprendizagem. Como, quando, onde, o que se aprende e o que se ensina, é determinado nos gabinetes de um ministério, o da educação, uma entidade que flutua ao sabor das políticas partidárias e dos resultados eleitorais e que, por isso mesmo, não reflecte qualquer tipo de legitimidade. A escola, sob a tutela do Estado e respectivo ministério, configura-se como um dispositivo que pretende substituir a capacidade das pessoas de adquirirem saber para satisfazer os seus desejos e construir a sua própria vida, pela capacidade de obedecer à necessidade de competir por um emprego. Se, inicialmente, a escola se destinava a formar bons religiosos, com a revolução industrial passou a formar operários obedientes, e no quadro da noção de estado-nação os imprescindíveis “bons” soldados e “bons” burocratas. A escola, vocacionada a educar para o conformismo, passividade e consumismo, serve de espaço de normalização e reprodução das relações de dominação e submissão típicas do mercado de trabalho. Mas a ilusão de que seguir um recto e obediente percurso escolar conduz à recompensa de um emprego e um salário já não existe. (*declaração de Pestana da Costa - presidente da Sociedade Portuguesa de Matemática (SPM), cargo ocupado pelo actual ministro da educação Nuno Crato, entre 2004 e 2010 – referente às provas finais).
  4. 4. porquÊ uma escola? para quÊ? para quem? com quem? como? como vivencias o espaÇo da escola? atÉ que ponto a escola influencia as tuas escolhas? qual É a condiÇÃo da professora na actualidade? AUTONOMIA Autonomia é constantemente confundida com a “liberdade” de escolher o que consumir. No entanto, a autonomia não se limita às escolhas individuais que podemos fazer dentro dos limites legais e morais do mundo onde vivemos. Autonomia consiste em gerir todos os aspectos da nossa vida num clima de apoio mútuo e de aprendizagem colectiva, capacidades contra as quais a escola tradicional se edifica. ANTI-AUTORITARISMO Num processo de aprendizagem global a tomada de decisão é colectiva e configura uma organização social horizontal/igualitária, onde o saber é partilhado sem reservas e onde já não existem detentores do conhecimento que o debitam em troca do silêncio apático dos estudantes. Permite viver segundo princípios construídos colectivamente e não submetidas a qualquer tipo de poder. ACÇÃO DIRECTA Como dizem as companheiras do colectivo Crimethinc, acção directa refere-se a qualquer acção ou estratégia que sirva para resolver problemas pelas próprias mãos, sem apelar a representantes, interesses corporativos ou qualquer estrutura de dominação. Uma acção directa pode ser uma bomba de mau cheiro lançada dentro de uma sala de aula, ocupar uma escola, apropriar-se dos meios educativos necessários à aprendizagem, entre muitas outras acções.
  5. 5. Seguindo a ideia do poema, a liberdade quer-se por todo o lado. Talvez, quando destruirmos os dispositivos de dominação que medeiam a relação de todos os seres com o mundo e construirmos as nossas formas de viver poderemos experimentar outra liberdade. AUTO-GESTÃO A auto-gestão é o modo de funcionamento destas comunidades educativas. Permite-nos associar a liberdade à responsabilidade, em matéria de aprendizagem, mas também para o conjunto da vida da comunidade. A auto-gestão favorece a autonomia do indivíduo e a criação de novas formas de convivência, permitindo o desenvolvimento das capacidades de cada pessoa no respeito dos seus diversos interesses. o que sÃo conhecimentos? o que É adquirir conhecimentos? quais as consequÊncias da escolarizaÇÃo? o que É a indisciplina? o que podemos fazer aqui e agora?
  6. 6. Resta-nos então intuir que a escola ficou reduzida à função de castrar a capacidade de aprender e ensinar consoante os nossos desejos através de métodos repressivos que todas conhecemos como “regras de bom comportamento”. Num cenário como estes não será por acaso que quando os especialistas falam das escolas e, mais propriamente, da população que estas encerram, a “indisciplina” surge como “problema”. Mas a “indisciplina”, como conjunto de reacções de oposição às regras de funcionamento da escola, materializa-se no espaço escolar em actos que misturam desespero e tédio, mas também resistência e desobediência. Contudo, é com inquietude que verificamos que a criatividade, demonstrada na infância, em desenvolver estratégias que rompam com a normalidade, em especial a das salas de aula, é reprimida desde tão cedo. Posto isto, parece-nos vital resgatar o questionamento que, enquanto crianças, se formula perante as figuras de autoridade que são mais evidentes–os adultos em geral, e professores e funcionários escolares em particular–para que, aqui e agora, as acções de desobediência levadas a cabo em cumplicidade com os amigos da turma se propaguem e, entre outras coisas, possam dar lugar a experiências de ensino e de aprendizagem construídas pelas próprias mãos. LIBERDADE Nos meus cadernos da escola, Sobre a mesa, nas árvores, Sobre a neve e na areia - escrevo o teu nome Em todas as páginas lidas, Em todas as páginas em branco, Na pedra, no sangue, no papel ou na cinza - escrevo o teu nome (...) Na floresta e no deserto, Sobre os ninhos, sobre as giestas, Nos ecos da minha infância - escrevo o teu nome (...) Sobre as veredas despertas, Nos caminhos desdobrados, Nas praças transbordantes - escrevo o teu nome Nos meus refúgios destruídos, Nos meus faróis ruídos, Nas paredes do meu tédio - escrevo o teu nome (...) E pelo poder de um nome, Começo a viver de novo: Nasci para te conhecer e te chamar LIBERDADE. Liberté de Paul Éluard in Poésies et vérités (1942)
  7. 7. A questão educativa encontra-se no centro do pensamento e da prática anarquistas como processo de construção colectiva da liberdade. A construção colectiva da liberdade envolve o indivíduo, a comunidade e o mundo nos vários espaços de vida. Não há liberdade enquanto construção social como um todo individual e colectivo sem: auto-gestão, autonomia, anti-autoritarismo, acção directa, apoio- mútuo, responsabilidade e igualdade. Estando estes princípios aplicados em comunidades de aprendizagem, baseadas na educação integral, onde as assembleias constituem momentos de discussão, decisão e/ou de retroacção. Nestas bases é possível elaborar múltiplos e variados projectos educativos adaptados às respectivas faixas etárias de acordo com os princípios e as linhas orientadoras definidas pelo contexto. Como é preciso começar, procurámos uma definição naturalmente inacabada e imperfeita de cada uma das palavras que sustentam a educação libertária. Mas como? Não pretendemos trazer soluções definitivas, mas procurar, numa reflexão colectiva, a construção de algo que faça sentido e, pelo menos, trazer questões relacionadas com a pedagogia libertária e sobre uma perspectiva crítica da escolarização para fora dos círculos académicos. Isto leva-nos ao difícil exercício de pensar a educação fora dos paradigmas instituídos e a repensar a educação desfragmentando os saberes e os fazeres dando-lhes igual importância de forma a actuar a longo prazo na destruição da hierarquização das profissões. E assim, para além de idealizar contrapontos ao modelo institucional em vigor, podemos inspirar-nos nas experiências que surgem por estas e outras paragens. Desde os estudantes de Ayotzinapa – México – que tomaram nas suas mãos os recursos necessários para a gestão da sua comunidade, aos do Chile, que ocupam liceus e aí autogestionam as suas aprendizagens, passando por Paideia em Mérida, até às aventuras do Es.Col.A e dos acampamentos promovidos pela Associação Terra Viva no Porto. Tudo isto para dizer que, idealmente, as teorias e práticas libertárias ao assumirem-se como instrumentos de emancipação intelectual individual e colectiva desenvolver-se-iam tanto melhor a partir de experiências organizadas em função dos espaços/territórios libertados e dos seus intervenientes, formando uma espécie de núcleos de aprendizagem autónomos, mas ligados entre si, de forma a se completarem, se necessário, com base no apoio-mútuo.

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