Visão Histórica da                  Pesquisa Científica*                                        Dante Marcello Claramonte ...
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Visão histórica da pesquisa científica1.doc

  1. 1. Visão Histórica da Pesquisa Científica* Dante Marcello Claramonte Gallian**A ciência enquanto fruto do desejo ou necessidade de conhecer apresenta-secomo um dos elementos mais essenciais do ser humano.Já nos mitos cosmogônicos mais importantes das grandes civilizações,a ciência ou conhecimento aparece como elemento definidor por excelênciado Homem.Criado à imagem e semelhança do seu Criador, o homem carregaa centelha do fogo ou da luz do conhecimento divino. Conhecimento este nãoapenas dado, mas também roubado, arrancado por força da transgressão, talcomo encontramos no mito de Prometeu ou no livro do Gênesis.Em ambas tradições, a judaico-cristã e a greco-romana, a ciência dada porDeus parece insuficiente para o homem que busca ir além. Já não bastaser imagem e semelhança, mas deseja ser a matriz mesma, a fonte. Não maiscriatura, mas criador.Estas imagens míticas primordiais são uma boa pista para pensarmos odesenvolvimento da ciência e da pesquisa científica ao longo da históriaocidental.Dentro destas concepções, o conhecimento ou ciência, era, a princípio, umdom, um presente de Deus - na perspectiva judaico-cristã fala-se de donspreternaturais, ou seja, além da natureza. A transgressão dos limites impostospela divindade, entretanto, levou a uma desfiguração desta condição original,fazendo doconhecimento não mais um dom mas uma conquista, frutodo trabalho e do sacrifício.É aí que se inicia a ciência como categoria histórica: fruto da observação, daindagação, do esforço, da pesquisa. O homem agora destituído dos donspreternaturais,expulso do paraíso, acorrentado ou preso na caverna, iniciauma nova relação com o mundo, consigo mesmo e com seu criador, fadado asuprir esta ontológica necessidade de conhecer através de suas limitadasfaculdades: os sentidos, a inteligência e a vontade.
  2. 2. O universo agora se apresenta como um enigma avassalador, ora magnífico -nas suas maravilhas e encantos - ora terrível - na sua implacabilidadedestruidora. E a sede de conhecimento aliada à escassez de respostas,determina a eclosão de um processo que, mais que a necessidade de sealimentar, proteger ou reproduzir, representará uma força incomparável nahistória.Já nos relatos mais antigos, como na Bíblia e nos livros mesopotâmicos, nospoemas épicos e gestas das mais diversas civilizações, identifica-se a distinçãoentre oconhecimento revelado e o adquirido, a ciência humana. Estemovimento compreensivo do espírito, envolvendo questionamento e trabalhointelectivo pode ser considerado o início da pesquisa científica propriamentedita. São as descobertas que se fazem por meio da observação, da análise eclassificação dos fenômenos, onde mais tarde se acrescentará aexperimentação.No campo da história da medicina, por exemplo, é comum encontrarmos nosdocumentos da antiguidade - assim como nos relatos etnográficos sobre outrospovos chamados "primitivos" - descrição de conhecimentos revelados pordivindades ao lado de outros transmitidos por tradição histórica e justificadosapenas pela observação empírica e o bom senso. [i] É o caso de remédios epoções extraídas de certas plantas para curar determinadas doenças comuns,como desarranjo intestinal ou dor de barriga, descobertas por lógica deduçãoou acaso. [ii]É certo, entretanto, que a coexistência entre estas duas formas deconhecimento ou ciência não se davam de maneira equilibrada ou equivalentenas sociedades antigas. Sem dúvida, durante muito tempo, a ciência reveladaou divina gozou de um prestígio e uma importância infinitamente maior nestascivilizações, pelo menos no plano ideológico.Foi apenas com o desencadeamento do processo de desmistificaçãodo cosmos do homem antigo, levado a cabo, a partir do século VI AC, pelosfilósofos helênicos, que essa situação começou a mudar.Nascidos num contexto histórico muito peculiar, no entrecruzamento dediversas etnias, culturas e sociedades, os pensadores gregos foram talvez osprimeiros homens a empreenderem uma confrontação sistemática de saberes etradições cosmogônicas que acabou por gerar, um método de análise e, aomesmo tempo - com conseqüências mais revolucionárias - uma perspectivafundamentalmente nova de olhar o universo: a crítica. Diante de tantasversões e explicações, mitos e histórias sobre a origem e o desenvolvimentodo cosmos, qual delas encerrava efetivamente a verdade? Estando todas elasdevidamente avalizadas por divindades e autoridades míticas, como podiamdivergir e até contradizer umas às outras? A conclusão, pelo menos a
  3. 3. princípio, é que, por detrás desta aparente contradição, a verdade subjazialatente, a espera de ser descoberta, desvelada. E neste sentido, esta novacondição da verdade exige sem dúvida uma mudança de atitude por parte doespírito humano: não mais passiva, de quem acolhe, re-cebe, mas ativa, dequem busca, des-cobre, des-vela. A inquirição, a dúvida cinde, rompe o véuque envolve os fenômenos e daí esta nova atitude receber o nome de crítica,palavra etimologicamente relacionada com crise, quer dizer quebra, cisão.Com os filósofos gregos, portanto, a ciência humana, fruto da investigação eda pesquisa adquire um novo status na cosmovisão ocidental. Tudo agora épassível de exame, de crítica e, portanto, o conhecimento, a ciência, mesmodas coisas mais profundas e essenciais, não é visto como algo que se acolhe ese recebe, mas como algo que se arranca e se conquista.A revolução cosmogônica operada pelos filósofos abriu campo para osurgimento da ciência que, em termos essenciais, conhecemos até hoje.Os primeiros grandes beneficiários desta nova perspectiva foramos cientistas do mundo helenístico e latino. [iii] Encabeçados por Aristóteles,grande sistematizador do método científico clássico, os sábios deste períodoencontraram no contexto das conquistas alexandrinas e depois romanas umademanda e, ao mesmo tempo, uma abertura incomparável no campo dapesquisa e, principalmente, da pesquisa aplicada. Esboça-se aí a aliançaentranhável entre ciência e tecnologia, tão característica da civilizaçãoocidental.A descoberta e conquista de novos mundos fez-se acompanhar de umcrescimento considerável do interesse pelos fenômenos físicos, naturais ehumanos. Ciências como a história, a geografia e a etnografia sesistematizaram, ao mesmo tempo em que a física, a matemática e a biologiaapresentaram um grande desenvolvimento. Nas grandes cidades, comoAlexandria e, mais tarde, Roma, passam a existir novos “templos”, os dasciências: bibliotecas, jardins, zoológicos e até protolaboratórios onde sedesenvolviam e testavam novas máquinas e aparatos indispensáveis para amanutenção dos poderes imperiais. Figuras como Arquimedes, Euclides eGaleno demarcam este período.O legado greco-romano estabeleceu-se como um portentoso paradigma paraas civilizações que emergiram após este período: a européia-cristã e a árabe-muçulmana.Nascida da recombinação das ruínas da cultura greco-latina com elementosdas culturas germânicas, e animada pelo espírito e ideal do cristianismo, aCivilização Cristã Ocidental, depois de uma conturbada "infância", marcadapor guerras e invasões, chega à maturidade resgatando e re-valorizando o
  4. 4. conhecimento científico clássico. E o faz de uma forma quase religiosa,canônica.Coisa semelhante se deu também na porção muçulmana do mundo medieval eainda de forma mais rápida e contundente, já que o contato com as fontesclássicas se deu ali de forma mais direta e imediata do que no mundo cristão.Tal fato se deve, fundamentalmente, às condições históricas que marcaram aemergência destas civilizações: seus inícios conturbados, protagonizados porpovos sem tradição intelectual e científica (germânicos e árabes), que frenteao peso e prestígio cultural e intelectual da civilização vencida, passada a fasede imposição e absorção política, se vêm obrigadas a recorrerem ao passadopara recriar o seu presente e isto em todas as esferas.Os grandes tratados científicos da Alta Idade Média são, em sua maioria,sumárias compilações do conhecimento antigo, sem nenhuma pretensãocrítica. [iv]A dinâmica de desenvolvimento destas civilizações, entretanto, se encarregou,ela mesma, de gerar o movimento dialético de crítica e superação desseparadigma clássico-escolástico de ciência. Por um lado contaram fatoresexógenos, como a expansão geográfica e comercial – tal como antes haviaocorrido no período helenístico e romano – e, por outro, fatores endógenos,como o avanço da análise crítica das fontes a partir da confrontação dasdiversas versões e traduções, assim como da confrontação destas com aprópria realidade. [v] E no mundo cristão, se num primeiro momento, ainfluência da patrística tendeu a condicionar a perspectiva científica aosmoldes da dogmática teológica, logo em seguida, a própria teologia,fundamentalmente a de São Tomás de Aquino, apresentou-se como um dosfatores mais importantes, senão o crucial, neste movimentode descanonização e desdogmatização do pensamentocientífico. [vi] Movimento este que lançou as bases para o surgimento dopensamento científico moderno.A partir da abertura tomista, a especulação científica começou a ganhargrande força através de pensadores importantes como Occam e Bacon, esteúltimo associado com o surgimento do empirismo.Dentro desta nova perspectiva, o universo, de uma forma semelhante aoocorrido na época do surgimento da filosofia da natureza, apresentava-secomo um enigma a ser decifrado e não mais como um dado definido pelaautoridade dos sábios antigos. Porém, desta feita, com um arcabouço teórico etécnico muito mais sofisticado que os primeiros filósofos da Antiguidade, oscientistas modernos realizaram uma revolução de proporçõesconsideravelmente maiores, do ponto de vista de suas conseqüências
  5. 5. históricas. Isto porque a revolução científica, tal como é chamada peloshistoriadores, foi elemento essencial na construção da civilização moderna.Ao negar ou pelo menos questionar a priori todo o conhecimento antigo,a nova ciência inaugura a tradição moderna, fundamentada na idéiada crítica, na investigação sistemática e no critério da razão matemática.O período inicial desta revolução foi traumático e exigiu um certo tempo paraque o pensamento científico se desvinculasse do pensamento teológicoescolástico. Os casos de Copérnico, Galileu e Giordano Bruno são exemploscaracterísticos desta época.Mais tarde, entretanto, principalmente depois de Descartes, a ciência modernacomeçou a firmar sua autonomia, reivindicando a tarefa de redefiniro cosmos a partir de uma metodologia própria, inteiramente assentada nalógica racional. Entramos assim na aurora do Iluminismo, momento em que secomeça a acreditar na possibilidade de alcançar a verdadeira verdade atravésdas luzes da razão científica, banindo para sempre as trevas do misticismoreligioso e mítico.O projeto que se esboça ao longo do século XVIII torna-se programa para osnovos cientistas do século seguinte. O XIX, como se sabe, se apresenta comoo Século da Ciência, momento em que, entusiasticamente, começa ase definir a verdadeira arquitetura e funcionamento do universo e da natureza,trazendo como conseqüência não apenas o conhecimento definitivo comotambém a própria redenção do gênero humano e das sociedades. Opositivismo de Auguste Comte de um lado e o evolucionismo de Spencer poroutro, são testemunhos emblemáticos desta crença inabalável na ciência quecaracterizou o século das grandes descobertas.Iniciado sob o signo do entusiasmo e da esperança, o Século daCiência termina entretanto sob o signo da dúvida e da perplexidade. Otrabalho ingente levado a cabo por inúmeros cientistas devotados, mais do queultimar a obra de definição do universo, estimada como iminente, determinoua necessidade de uma grande e urgente revisão, colocando em cheque todo oprojeto anterior. Mais uma vez, a própria lógica da pesquisa científica acaboupor provocar a redefinição dos pressupostos teóricos e dos paradigmasestabelecidos.A matemática não-euclidiana ou a física não-newtoniana, que vão eclodir nofechamento do século XIX e início do século XX, determinam uma mudançade mentalidade, tanto em nível filosófico - abalando a crença religiosa naciência - quanto em nível metodológico - relativizando o império doquantitativo, do empírico e do mensurável.
  6. 6. O advento das crises e guerras deste período - convergindo na primeira grandeguerra mundial como evento emblemático - coincidindo com o surgimento dapsicologia de Freud e seus seguidores, contribuíram de maneira fundamentalpara, enfim, colocar em cheque o próprio conceito paradigmático de razão.Reconhece-se então que nem todas as forças e dinâmicas existentes nouniverso, na natureza e no homem operam segundo uma lógica mecânicaprevisível. O mistério volta a ocupar espaço na concepção humana do cosmos.O século XX se encarregaria, portanto, do difícil trabalho de desconstrução ereconstrução da herança do XIX, trilhando novos caminhos, encontrandonovas encruzilhadas... Às vezes de maneira cética ou niilista, às vezes demaneira esperançosa e entusiasta. De qualquer forma, os novos problemascolocados pela ciência na passagem do século se apresentaram como um vastoprograma que, gradativamente, vai sendo assumido por todas as ciências,tanto as novas como as mais antigas.O problema fundamental que se apresenta na pesquisa científica, ao despontaro século XXI, é, sem dúvida, a necessidade de se redefinir o conceito de razãoque herdamos do iluminismo e do positivismo dos séculos XVIII e XIX.Passadas e esgotadas as tentativas resistematizadoras do século passado -os neo empirismo, positivismo, racionalismo, etc – cabe agora o desafio deresgatar outras tradições, para além da herança cientificista. A consideração deoutras percepções da inteligência humana, além do universo racionalmatemático, na construção da nova teoria do conhecimento tem sido um dosdados mais significativos deste processo de transformação que já estamosvivendo.Sem dúvida que os métodos tradicionais nos proporcionaram e aindacontinuam proporcionando dados e conhecimentos válidos e efetivos sobre arealidade, porém os resultados e conquistas obtidos depois de mais de doisséculos de ciência positiva, têm nos colocado atualmente, nos mais diversoscampos, em situações limite que a própria ciência reconhece-se incapaz desolucionar. O recurso a estas outras dimensões do conhecimento,tradicionalmente associadas em nossa civilização às artes e às humanidades,apresentam-se agora como uma alternativa cada vez mais considerada evalorizada. O apelo à intuição, à criatividade e à afetividade emerge comomeio necessário para o desenvolvimento da pesquisa científica no presente eno futuro, servindo não apenas como instrumento de progresso mas tambémde humanização, na medida em que reclama, de forma inalienável, o resgateda sua dimensão ética.Filha da rebeldia do homem, a ciência parece estar agora querendo levá-lo devolta à casa paterna.
  7. 7. * Artigo redigido originalmente para ser apresentado em aula para o CursoAvançado de Metodologia Científica do Departamento de Ortopedia eTraumatologia da Faculdade de Medicina da USP, destinado à formaçãocontinuada e atualização dos orientadores de pós-graduação da FM-USP.** Doutor em História Social pela FFLCH-USP e Diretor do Centro deHistória e Filosofia das Ciências da Saúde da UNIFESP/EPM.http://www.hottopos.com/videtur15/dante.htm - acesso em 04.02.13

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