Cris & TedNos Anos da Faculdade   1 - Até Amanhã   Robin Jones Gunn     Título original: Until Tomorrow     Tradução de An...
Nossos e-books são disponibilizados gratuitamente, com a            única finalidade de oferecer leitura edificante a todo...
Para Luanne que, quando tínhamos vinte e um anos, virou-se para mime disse: “Que tal viajarmos para a Europa nas próximas ...
1        Era junho. A luz da aurora nem sequer havia pintado no céu, trazendoconsigo a promessa de um novo dia, e Cris Mil...
Cris apertou os longos cabelos castanhos com as mãos, para ver se aindaestavam muito molhados. Havia tomado um rápido banh...
Para sua surpresa, a estação achava-se bastante movimentada ebarulhenta, em comparação com as ruas por onde andara pouco a...
Seu queixo, firme, achava-se áspero em consequência da barba por fazer.Seu hálito cheirava a chocolate.     -sem tempo pra...
Mas antes mesmo que pudesse terminar sua pergunta, ouviu umgritinho que só poderia ser de sua melhor amiga.         A semp...
- Que é que tem a Escandinávia? perguntou Ted.       - Achei que iríamos primeiro lá.       Ted parou.       - Você me dis...
Cris acenou sem muito entusiasmo. Sentou-se no banco da frente eapertou o cinto de segurança. Foi a conta! Instantes depoi...
iríamos para a Itália, quero dizer, minha mala está quase pronta, mas vouprecisar de um tempinho para terminar de juntar m...
- Dá pra acreditar que estamos aqui, no seu quarto, conversando umacom a outra como se nos falássemos todos os dias?! Cris...
- Estava pensando... quem sabe não damos uma parada ali na Konditoreiantes de pegar a estrada? É a melhor confeitaria de B...
2     Katie se acomodara no ninho que fizera com as bolsas e malas no centroda van. Tagarelava o tempo todo, falando do qu...
- Admito que estava com saudades de você, Katie, disse Antônio paratodo mundo ouvir.     - Vamos, confesse que não consegu...
com espírito de equipe, em vez de estar o tempo todo mal-humorada,bancando a coitadinha.     Durante o trajeto, pararam ap...
brisa lhe trouxe várias recordações. A mais forte delas era de quando estavamnuma estação de trem na Espanha e uma brisa s...
- Do que você me chamou? perguntou Katie, virando-se para Ted.     Cris teve vontade de rir novamente, mas a julgar pela e...
foi procurar no caixote algo que pudesse servir de grelha. Estava tudo ali nacaixa. Cris cantarolava enquanto montava a “c...
trinta centímetros de comprimento. Sentia o cheiro da fumaça que vinha dafogueira. Virou-se, então, e viu que Antônio esta...
Naquele momento, ela sentia que podia simplesmente fechar os olhos, dar umpasso rumo àquele céu estrelado e ser tragada pe...
O rapaz pegou uma blusa de lã, tricotada à mão, que havia sidopisoteada no chão do veículo, e jogou-a para Cris.     - Voc...
Katie, no entanto, logo “apagou”. Vendo-a dormir, Cris ficou irritada.Queria ter uma chance de perguntar à amiga como ela ...
3     - O que é? perguntou Cris, sentindo o coração disparar.     - Você tem de ver isso. Venha cá, disse Katie, chegando ...
debaixo do cobertor. E de preferência com cabelo escuro, olhos castanhos emuita grana, acrescentou.       Cris não consegu...
Pelo ritmo constante da respiração de Katie, via-se que ela havia pegadono sono. Cris ficou horas acordada, tremendo de fr...
Os raios de sol pareciam se derramar por entre as folhas das árvores,como se fosse mel. Katie estava assentada num toco, s...
Eles vão pegar café lá na geladeira, disse Katie. Você não acha que umpeixinho fresco cairia bem agora de manhã?     - Bem...
sobre um galho de árvore baixo, para ver se o vento dava uma arejada nele.Depois, voltou à barraca e vestiu o maiô, juntan...
Sinto-me como se estivesse numa velha pintura a óleo que há na bibliotecada universidade. Aquela em que os cupidos estão e...
em termos de “desconforto”. O Senhor não está mesmo planejando que eu vivaassim para resto da vida, ‘tá?     Cris tentou s...
Por que eles resolveram me deixar sozinha este tempo todo? Acho quedeveríamos estabelecer algumas regras aqui, como, por e...
Talvez ele estivesse apenas sendo um homem generoso, dividindo suapesca do dia, uma vez que, evidentemente, ela na tinha n...
4     Antes mesmo que Cris pudesse sair correndo atrás do pescador, a fim deexigir que lhe devolvesse o catinguento agasal...
- Como assim, Ted? Como é que alguém pode ficar “mais ou menos”perdido? Ou você está perdido ou não!     Ted colocou o bra...
- Não muito, respondeu Antônio, abanando o fogo e colocando nafogueira mais alguns gravetos que Cris juntara.        - Já ...
a única que achava que continuar acampando não era lá uma idéia tão boaassim?     Virou-se para o outro lado, rolando sobr...
- O que foi?     Contudo, antes mesmo que Cris pudesse responder, a porta se abriunovamente e Ted entrou.     - Pelo visto...
- A gente podia contar histÓrias de suspense, sugeriu Katie. Ou entãojogar xadrez. Vocês já jogaram xadrez em duplas? Pode...
- Disto!     - De acampar? Antônio arriscou um palpite.     - É, acampar e tudo o mais. Quero dizer, vocês adoram esta ave...
gente tem de descobrir o horário dos trens. Em alguns é preciso até reservaros lugares. E se quisermos parar no caminho pr...
- Então ‘tá. Se tivesse de decidir por nós, diria que gostaria de conheceroutras partes da Itália, disse Cris com certa pr...
margeavam a estrada. A luz dava as folhas um tom de verde forte, bembrilhante. Por alguma razão a beleza daquela paisagem ...
- Talvez você já tenha ouvido falar do discípulo de Amati, chamadoStradivari. Minha mãe pôs meu nome de Antônio Stradivari...
Depois de serem apresentados à mãe de Antônio, e de trocarem umasérie de cumprimentos calorosos, os quatro foram levados a...
Ao sair do banheiro, avistou Katie, que estava esperando à porta.     - Eu e o Ted acabamos de lavar algumas roupas. Adivi...
- A gente pode pelo menos lavar a louça, sugeriu Katie.     A mãe de Antônio aceitou a ajuda e, então, os quatro se enfile...
- Molte grazie, signore.        - Ahh! exclamou o pai, surpreso em ouvir um agradecimento tão educadoem italiano.        F...
A princípio, o pai de Antônio pareceu surpreso com a vaga colocação deTed. Entretanto depois deu um largo sorriso e acenou...
5     Na manhã seguinte, Cris acordou com um sonido de buzina, que vinha ládo portão. Curiosa para ver quem era, pulou da ...
Como não havia tela de proteção, ele simplesmente terminara de levantar orestante do vidro e abrira a cortina com as mãos....
- Acho melhor fazermos as malas. Algumas de minhas roupas aindaestão no varal, disse Katie ao constatar que o trem partiri...
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  1. 1. Cris & TedNos Anos da Faculdade 1 - Até Amanhã Robin Jones Gunn Título original: Until Tomorrow Tradução de Ana Carolina Vilela Editora Betânia, 2004 Digitalizado por deisemat Revisado por deisemat www.semeadoresdapalavra.net
  2. 2. Nossos e-books são disponibilizados gratuitamente, com a única finalidade de oferecer leitura edificante a todos aqueles que não tem condições econômicas para comprar. Se você é financeiramente privilegiado, então utilize nosso acervo apenas para avaliação, e, se gostar, abençoe autores, editoras e livrarias, adquirindo os livros. SEMEADORES DA PALAVRA e-books evangélicos Robin Jones Gunn adora contar histórias. A prova disso veio cedo, assimque ela entrou para a escola. Na ocasião sua professora fez a seguinteobservação em seu boletim: “Embora Robin ainda não domine as habilidadesmatemáticas básicas, ela prende a atenção de todos os coleguinhas com asdivertidas histórias que conta na hora em que a turma se reúne no tapete dasala”. Quando sua primeira série de livros para crianças com idade entre um etrês anos foi lançada, em 1984, Robin não fazia a menor idéia de que passariaa escrever romances. No entanto os projetos foram crescendo de tal forma queo presente volume já é seu 49º livro publicado. Dentre suas muitaspublicações, estão a Série Cris e a Série Selena, que juntas já venderam maisde dois milhões de exemplares em todo o mundo, tendo sido traduzidas emvárias línguas. Robin e o marido, Ross, trabalham com jovens, há mais de vinte e cincoanos. Já moraram em muitos lugares, dentre eles a Califórnia e o Havaí.Atualmente vivem no Oregon, nos Estados Unidos, com os filhos adolescentese o cão Hula. Você pode visitar o site da autora no seguinte endereço:www.RobinGunn.com
  3. 3. Para Luanne que, quando tínhamos vinte e um anos, virou-se para mime disse: “Que tal viajarmos para a Europa nas próximas férias?” E lá fomosnós. (Até hoje guardo as flores que pegamos em Adelboden, Lulu.) Para Laurie, que dividiu conosco sua loção refrescante e os poucoschumaços de algodão que tinha, durante aquela noite quente e abafada noalbergue em Paris. Para Carol, que nos fez rir sem parar no trajeto até a estátua da PequenaSereia em Copenhague. Para Laraine, que nos fez procurar até achar o melhor sorvete deFlorença. (Você se lembra, Lola? Você disse que o sorvete Amaretto, dasorveteria Vivolli era espetacular.) E para Chuck, que me disse para fechar os olhos, ao entrarmos na GrutaAzul. Obrigada pela pizza que comemos na estação de Roma naquela noite.Acho que ainda lhe devo essa! “Os velhos amigos estão sempre presentes, quando o coração se mantémjovem.” - Robin Jones Gunn
  4. 4. 1 Era junho. A luz da aurora nem sequer havia pintado no céu, trazendoconsigo a promessa de um novo dia, e Cris Miller já se encontrava de pé,correndo apressadamente pelas ruas de pedra da cidade de Basel, na Suíça.Dando passos largos, a jovem dobrou a esquina em direção à estação de trem,notando que o ritmo de seu coração achava-se mais acelerado que o de suaspernas. Desta vez não vou chorar ao encontrar o Ted. No último Natal, quando fora visitar a família na Califórnia, Crisdesabara a chorar ao ver o rapaz. Ele simplesmente ficara parado em suafrente, como se não soubesse direito o que fazer com ela. O choro, que na horaparecia não acabar mais, fez com que Cris se sentisse frágil e sem jeito diantedele. Hoje sou uma pessoa bem mais forte do que era no Natal. Não vouchorar. Já no final da rua, virou à esquerda. Mais seis quarteirões e estaria naestação. E desta vez não vou deixar a Katie me convencer a fazer coisas que nãoquero. Se é para eu, o Ted e ela nos darmos bem durante as próximas trêssemanas em que viajaremos pela Europa, então, tudo terá de ser decidido emconjunto.
  5. 5. Cris apertou os longos cabelos castanhos com as mãos, para ver se aindaestavam muito molhados. Havia tomado um rápido banho de manhã bemcedo. Foi então que se lembrou de que dali a um mês comemoraria seuvigésimo aniversário. E, aos vinte anos, deveria enfrentar a vida como umamulher forte e independente, certo? Era o que pensava. Está na hora de tomar uma posição quanta à minha vida. Não vou deixarque a Katie fique sempre determinando o que devo e não devo fazer. Tomar decisões nunca fora o ponto forte de Cris, e por isso mesmo elaestava disposta a mudar. Começaria tudo de novo, da estaca zero, e mostrariaaos amigos o quanto havia mudado e amadurecido durante o ano que passaraestudando na Suíça. Pensava ainda no assunto quando sentiu no ar o delicioso aroma de pãofresquinho vindo de sua confeitaria - ou Konditorei - predileta, que ficava nofinal da rua. Aquele era um lugar especial, e caminhar até lá todos os sábadospela manhã tornara-se um hábito para Cris. Era uma forma de se“recompensar” pelo empenho durante mais uma difícil semana de aulas nauniversidade e de trabalho no orfanato, onde era voluntária. Uma “recompensa” bem melhor chegará no trem das 6:15h, diretamentedo aeroporto de Zurique, pensava, sorrindo. E a primeira coisa que eu, o Ted ea Katie vamos fazer será vir aqui a essa Konditorei. Vou oferecer-lhes algumasdas deliciosas quitandas suíças. Levantando o rosto, Cris inspirou o delicioso aroma mais uma vez. Paroupor uns instantes e fez rapidamente uma trança frouxa no cabelo, prendendo-a com um passador que colocara no bolso da calça. Afinal o céu começara aclarear, exibindo uma tonalidade lilás - acinzentada, e nas árvores ospassarinhos cantavam alegremente. Já no último trecho do trajeto, Cris caminhava apressadamente, compassos ligeiros. Ao chegar, olhou para os dois enormes leões de pedra, queguardavam a entrada da Bahnhof de Basel e, estampando um sorriso no rosto,entrou e foi conferir o quadro de horários. Ted e Katie chegariam dentro desete minutos, na plataforma quatro. Cris correu em direção ao local, poisqueria estar presente para receber seus melhores amigos assim quedescessem do trem.
  6. 6. Para sua surpresa, a estação achava-se bastante movimentada ebarulhenta, em comparação com as ruas por onde andara pouco antes.Chegando ao local indicado, Cris se pôs a esperar os amigos, tomando ocuidado de se posicionar mais ao centro, para que pudesse avistá-losindependentemente de que lado descessem. Poucos minutos depois, o tremapontou na estação. Uma multidão de executivos, homens e mulheres, desembarcou. Por ummomento, Cris teve a impressão de ter ouvido um gritinho familiar em meio aoruído de passos apressados que se ouvia. Olhou para um lado e para o outro,esperando ver a qualquer momento um vulto do cabelo leve e acobreado deKatie em meio a toda aquela gente. Contudo não viu ninguém. Cris se virouentão para ver se por acaso os amigos estavam na outra ponta do trem. Derepente, foi como se tudo ao seu redor girasse em câmera lenta. Não sabia seaquela tonteira fora provocada por uma redução súbita do nível de adrenalina,que estivera alto quando caminhava para a estação, ou se era a multidãoapressada que a estava deixando assim. Mas de uma coisa estava certa: ospenetrantes olhos azuis que a pouco avistara só poderiam ser de uma pessoa. - Ted! exclamou ela, pronunciando o nome que há cinco anos guardavano coração. Abrindo caminho em meio à multidão, correu em direção ao seu surfistalouro predileto. Ao avistá-la, Ted tirou o mochilão das costas e puxou Cris pelo braço,trazendo-a para bem perto de si. Em questão de segundos lá estava ela,envolvida nos braços dele, o olhar de Ted fixo no dela e seus lábios a poucoscentímetros de distância. - Kilikina! murmurou o rapaz, beijando-a logo em seguida. Cris se derretia toda sempre que Ted a chamava pelo seu nome havaiano.Derretia mesmo, completamente. Tudo isso mais a ternura do beijo dele, epronto! Era demais para ela; não conseguia resistir. Não demorou muito, aslágrimas começaram a descer-lhe pelo rosto. Ted se afastou com uma expressão um pouco hesitante. - Oi, disse ela, secando rapidamente a face molhada. - Oi, respondeu Ted, dando um sorriso largo, que mostrava suascovinhas.
  7. 7. Seu queixo, firme, achava-se áspero em consequência da barba por fazer.Seu hálito cheirava a chocolate. -sem tempo pra fazer a barba? perguntou Cris em tom de brincadeira,passando os dedos pelo queixo do rapaz. Usando o polegar, Ted enxugou a última lágrima que restara no olhoesquerdo de Cris. Parecia analisar a expressão do rosto dela, como se tentassedescobrir os mistérios escondidos por trás daqueles olhos azul-esverdeados,tão singulares e brilhantes. - Tudo bem com você? perguntou ele, erguendo as sobrancelhas. Cris acenou que sim e sorriu carinhosamente. - Prometi pra mim mesma que não iria chorar, disse. - E eu prometi pra mim que não iria beijá-la, disse Ted com um sorrisomaroto. Seus olhares se achavam completamente envolvidos um no outro. Porum momento Cris teve a sensação de que Ted pôde enxergar todos os seussentimentos, até mesmo aqueles que guardava no mais profundo do coração.E em meio a toda aquela barulheira, uma forte paz tomou conta do seu ser.Era com se uma certa tranquilidade pairasse sobre eles, como um mantoinvisível. Ficaram ali parados, de mãos dadas, curtindo um ao outro. O olharde Ted parecia tentar decifrar o que se passava no coração de Cris. Ela, porsua vez, perguntava-se se passaria o resto da vida fitando aqueles olhos azul-prateados. Foi então que uma voz masculina, com sotaque italiano, interrompeu-os. - Desculpe atrapalhar vocês, Ted. Mas é que meu carro não pode ficarmuito tempo estacionado. Era Antônio, um amigo italiano que estivera na Califórnia fazendointercâmbio. Cris se afastou de Ted, surpresa em ver o rapaz. - Cristiana, que bom ver você! Está surpresa em me ver aqui? perguntouele, pondo a mão sobre os ombros dela e dando-lhe um beijo em cada face. Cris quase perdeu o equilíbrio. - O quê... como...?
  8. 8. Mas antes mesmo que pudesse terminar sua pergunta, ouviu umgritinho que só poderia ser de sua melhor amiga. A sempre-exuberante Katie foi logo abrindo caminho, passando porAntônio e dando um abraço em Cris. Entretanto, ao se movimentar, a armaçãode sua mochila acertou em cheio a testa da amiga. - Ai! exclamou Cris. - ”Ai!”? Faz meses que não nos vemos e tudo que você tem a me dizer é“ai!”? - Ai e oi! disse Cris, dando um abraço um pouco menos exagerado emKatie. Você está tão bonita! - Você também! exclamou a outra. - Vocês sabiam que o Antônio iria aparecer por aqui? perguntou Cris. - Sim, respondeu Katie. Seus olhos verdes pareciam brilhar. - Ficamos sabendo dois dias antes de viajar. Cris olhou para Ted, que deu um sorriso. - O Antônio conseguiu de irmos acampar com ele na Itália. - Acampar? perguntou Cris. - Podemos conversar no caminho, disse Antônio. Em seguida, pegou a bagagem de Katie e carregou-a para a jovem. - Meu carro é aquele ali, principiou ele, apontando para a porta a quedeveriam se dirigir. Ted acomodou o mochilão nas costas e pegou a mão de Cris, puxando-aconsigo para fora da estação. Katie, por sua vez, agarrou-se ao braço deAntônio com tanta força, que parecia que nunca mais iria soltá-lo. Foramandando na frente, em ritmo acelerado, guiando o grupo até a saída. - Então quer dizer que vamos acampar? perguntou Cris. - Sim. O Antônio tem todo o equipamento necessário. Já está tudoajeitado. - E a Escandinávia?
  9. 9. - Que é que tem a Escandinávia? perguntou Ted. - Achei que iríamos primeiro lá. Ted parou. - Você me disse isso? É que achei que não tínhamos nada programadoainda. Foi por isso que combinei de acampar com o Antônio. Mas, se você medisse isso e eu não recebi seu e-mail a tempo, me desculpe. Cris não queria bancar a chata e começar a brigar com Ted. Não ali. Nãonaquela hora. - Não, você tem razão. Ainda não tínhamos nada programado. Não fazmal. Cris não conseguia raciocinar direito. Se bem se lembrava, Ted havia ditoque começariam viajando pela Noruega, visitando os países mais ao sul, atéchegarem à Itália. Contudo agora já não tinha certeza. Talvez a idéia tivessesido de Katie, e não de Ted. Antônio os levou até o carro, uma pequena van branca, parada do outrolado da rua num local proibido. Abriu a porta lateral, e Cris notou que o pára-choque dianteiro estava bem amassado. - Dêem uma mão aqui! disse o rapaz, puxando uma pesada bolsa de lonacinza, que se achava no centro da van, num espaço onde não havia bancos.Isto aqui vai lá em cima. Os quatro tiraram todo o equipamento de camping de dentro do veículo eo puseram em cima da van, cobrindo tudo com uma lona especial. Em seguidaprenderam a carga com cordas bem firmes. - Como foi que vocês dois planejaram tudo isso? perguntou Cris a Ted,procurando mostrar-se tranquila. - Por e-mail, respondeu Ted, empurrando sua mala e a de Katie paradentro do veículo e entrando em seguida. Na parte traseira da van havia um banco e, dos lados, pequenosarmários embutidos na lataria. No centro, não havia nada; somente asbagagens. - E aí? Vamos nos divertir a beça ou não vamos? disse Katie, dando umabraço animado em Cris e indo se assentar lá atrás ao lado de Ted.
  10. 10. Cris acenou sem muito entusiasmo. Sentou-se no banco da frente eapertou o cinto de segurança. Foi a conta! Instantes depois, Antônio meteu opé no acelerador e, dando apenas uma olhadinha para trás, arrancou,cantando os pneus ao sair. Cris agarrou-se às extremidades do banco,procurando manter o equilíbrio. Antônio gritava em italiano com os outrosmotoristas e descia as ruas rápida e bruscamente. Lá de trás, Katiegargalhava histericamente porque, num dos sacolejos do carro, acabou sendoarremessada contra Ted. - Antônio, gritou ela, ainda não estamos na Itália! Faça-nos o favor denos manter vivos pelo menos para podermos chegar lá? Antônio olhou-a pelo retrovisor e deu um sorriso. Diminuiu a velocidadee pela primeira vez deu seta antes de convergir na principal avenida que saíada cidade. Estavam indo na direção oposta ao campus universitário, onde Crismorava. - Antônio, temos de ir na outra direção. A universidade fica pra lá, disseCris. - Não, já estive em Basel antes. Esta aqui é a rodovia que pegamos pra irpra Itália. - Não é isso que estou dizendo! Não podemos ir pra Itália agora!exclamou Cris em pânico, praticamente aos berros. - E por quê? - Porque eu não trouxe nada! Minha bagagem não está aqui! Antônio disse algo em italiano, que parecia um pedido de desculpas,entrou de repente numa rua à direita e parou. Olhou para Cris e, com umolhar amigo, perguntou simplesmente: - Pra que lado vamos? Com Antônio ao volante, não demoraram muito para chegar ao campus.Durante o trajeto, Cris se acalmou e procurou pensar racionalmente. - Vamos ficar esperando aqui, disse Antônio, estacionando novamentenum local proibido. - Na verdade não estou exatamente preparada para viajar, disse Cris,olhando para Ted e Katie, como se buscasse o apoio deles. Não sabia que
  11. 11. iríamos para a Itália, quero dizer, minha mala está quase pronta, mas vouprecisar de um tempinho para terminar de juntar minhas coisas. - Quero ver seu quarto, disse Katie ao sair da van. Vamos, gente, vamostodos conhecer o quarto dela. - O pessoal aqui é meio chato com relação ao estacionamento, disse Crisa Antônio. - Então vamos esperar aqui, caso seja preciso dar umas voltas noquarteirão enquanto esperamos, sugeriu Ted. - E nós vamos rapidinho, gritou Katie, seguindo Cris em direção aoprédio. Cris correu até o quarto e abriu a porta. - Nossa! Seu quarto é bem menor do que imaginei! disse Katie, olhandoem redor. Espere só até chegar setembro, quando estaremos na RanchoCorona. Você vai ver! Os quartos de lá são duas vezes maiores do que este esão apenas para duas pessoas, e não três. É bem melhor! - É, mas aqui também é legal, disse Cris na defensiva. Katie parecia admirada com a reação de Cris. Aproximou-se da amiga edeu-lhe um aperto carinhoso no braço. - Ah, eu sei que é, Cris. Não se zangue comigo. O que estou dizendo éque vai ser bem melhor quando estivermos todos juntos na mesmauniversidade, semestre que vem. Você não acha? Cris acenou vagarosamente. Nada estava saindo do jeito que imaginara.Era para estarem assentados a mesa da confeitaria, tomando café e comendodoces, enquanto discutiam sobre o roteiro de viagem. Em vez disso, estavamprestes a sair desvairadamente rumo à Itália, no foguete-móvel do Antônio. - Então... disse Katie batendo uma mão na outra, que mais você precisapegar? Posso lhe dar uma ajuda. - Esta aqui já está pronta, respondeu Cris, apontando para a bolsa delona no canto do quarto. Mas ainda tenho de pôr algumas coisas na mochila. De repente, Katie abraçou Cris fortemente, quase impedindo a amiga derespirar.
  12. 12. - Dá pra acreditar que estamos aqui, no seu quarto, conversando umacom a outra como se nos falássemos todos os dias?! Cris, nós estamos naSuíça! - É, acho que estamos, né? Katie se afastou, pondo as mãos na cintura. - Tudo bem, Cris. O que deu em você? O que há de errado? - Nada. Estou apenas tentando pensar no que preciso pôr na mala. Cris pegou a frasqueira e começou a colocar nela alguns objetos queestavam sobre a mesa. -se você estivesse chateada com alguma coisa, você me contaria, não émesmo? - Claro. Katie pegou um dos guias turísticos que estavam sobre a escrivaninha. - Você não ‘tá pensando em levar isto, ‘tá? perguntou. - Alguns, sim; pelo menos um. - Mas eles são grandes demais, disse Katie. Além disso, não precisamosde guias turísticos. Estamos numa aventura! Pra que ficar andando com elesde um lado para o outro parecendo turistas? Ignorando o comentário da amiga, Cris pegou o guia que estava no topoda pilha e enfiou-o na mochila. - Estou pronta. Vamos? Katie saiu carregando a bagagem de Cris e comentou que esta estavabem mais leve do que a dela. - Só espero que não esteja levando coisas “de menos”. Não estouconseguindo pensar em mais nada que tenha de levar, disse Cris, cerrandofirmemente os lábios e tentando pensar no que poderia estar esquecendo. Ted e Antônio estavam esperando na van, o motor já ligado. Ted haviapassado para o banco da frente. Entrando no carro, Cris se assentou no banco de trás e disse:
  13. 13. - Estava pensando... quem sabe não damos uma parada ali na Konditoreiantes de pegar a estrada? É a melhor confeitaria de Basel e não é muito longedaqui. Poderíamos aproveitar também para discutir melhor nosso roteiro. - Eu não estou nem um pouco com fome, disse Katie ao entrar van.Vocês estão, meninos? Ted deu de ombros. - Neste caso, pé na rua! foi decidindo Antônio. - Você quer dizer pé na estrada, né, Antônio? disse Katie aos risos, dandoum tapinha nos ombros do rapaz. - Isso mesmo. Pé na estrada. Lá vamos nós! Com um solavanco, Antônio se pôs a caminho, enquanto Cris ajeitava ocinto de segurança, apertando-o bem. Ao passarem ligeiros pela confeitaria,rumo à rodovia A-2, que os levaria para a Itália, na direção sul, Cris olhoupela janela. Fazia semanas que estava sonhando em ir com Ted à Konditorei.Um ano e meio atrás, quando estavam em Londres, os dois haviam caminhadode mãos dadas pelas ruas, até chegarem à uma pequena confeitaria.Sentaram-se num banco mais reservado, bem ao fundo, e abriram o coraçãoum para o outro. E naquela conversa, concluíram que não estavam prontospara assumir um compromisso mais sério. Já havia se passado mais de um ano desde então. Em seus sonhos e também nos momentos em que passava assentadasozinha à mesa da Konditorei, Cris imaginava como seria a conversa que ela eTed teriam ali, tomando chá e comendo scones*. Deu um suspiro profundo,deixando o ar sair vagarosamente dos pulmões. Sentia-se preparada paraavançar no relacionamento com Ted, tornando-o mais sério do que nunca. E se o Ted não estiver pronto para dar esse passo? E se só eu estiverdisposta a assumir um compromisso mais sério? Bem, pelo menos eu achoque estou preparada. Sentia-se tão fragilizada naquele momento, que não sabia se podia fiar-seem seus sentimentos, em seus pensamentos. Agora só tinha certeza era deque seu cinto de segurança estava apertado ao máximo e de que eles estavama caminho da Itália.* Quitanda tipicamente inglesa, um misto de bolo, biscoito e pão de minuto. (N. da T.)
  14. 14. 2 Katie se acomodara no ninho que fizera com as bolsas e malas no centroda van. Tagarelava o tempo todo, falando do quanto era incrível estaremviajando juntos. Cris sorria para a amiga, acenando com a cabeça de quandoem quando. Seu olhar, no entanto, dirigia-se o tempo todo para Ted, à suafrente. Ficava só imaginando o que estaria se passando na cabeça dele ou,mais importante ainda, em seu coração. O que você realmente sente por mim, Ted? Você me ama? De verdade? Com pesar, Cris se lembrou novamente de que não teria mais aoportunidade de se assentar juntinho com Ted para conversaremtranquilamente, no local onde ela mais gostava de refletir sobre a vida. Agoraeram todos parte do grupo; da turma. E se Ted estivesse em seu estadonormal, iria manter o espírito de equipe durante toda a viagem. Ou seja, dariaatenção igual a todos. Cris tinha certeza disso. Ted era como um cão goldenretriever -sempre fiel e disposto a conviver bem com todo mundo; e, de modogeral, satisfeito com a vida, apesar das circunstâncias. E Cris sabia que nãovalia a pena bancar a chata e ficar discutindo o tempo todo. - Ei, Antônio, exclamou Katie. Pra onde exatamente estamos indo? - Italia. Mi Italia, respondeu o rapaz teatralmente. Vou levá-los à minhaárea de camping predileta. Vocês vão adorar. À noite, centenas de “baxinins”saem das matas e comem tudo que encontram no acampamento. É por issoque a gente tem de fechar bem as barracas. - Acho que você deve estar se referindo aos guaxinins, disse Katie.Duvido que existam “baxinins” na Itália! - É. Isso mesmo, disse Antônio, olhando para Katie pelo retrovisor.Guaxinins. Tem razão. Que seria de mim se não tivesse você pra me ensinar afalar as palavras corretamente? - Pode admitir, Antônio. Você estava com saudades de mim.
  15. 15. - Admito que estava com saudades de você, Katie, disse Antônio paratodo mundo ouvir. - Vamos, confesse que não consegue viver sem mim, continuou Katie. - Não consigo viver sem você. Essa era uma brincadeira típica entre Antônio e Katie. Na Califórnia,costumavam provocar um ao outro dessa maneira o tempo todo. E, de certaforma, houvera uma pitada de romance entre os dois - ou pelo menos era issoque Katie achava. Mas será que o sentimento de fato existira ou Antônioestava apenas agindo como um italiano romântico? Vendo os dois, Crisdesejava que ela e Ted pudessem expressar seus sentimentos um pelo outrotão abertamente como eles. Só que de maneira sincera, e não na brincadeiracomo Katie e Antônio faziam. Será que algum dia o Ted me dirá que não consegue viver sem mim? - Ele é louquinho por mim! exclamou Katie, virando-se para Cris e rindoaté as orelhas. - Ah! exclamou ela, aproximando-se de Cris. Se eu e o Antônioresolvermos nos casar está semana, você aceitara ser minha madrinha, não? - Mas é claro, respondeu Cris baixinho, sem muito entusiasmo. Para ela, casamento era coisa séria, e não assunto para ficar fazendopiadinhas. No dia em que convidasse Katie para ser sua madrinha, Cris nãoestaria fazendo uma brincadeira -seria para valer. - Parece um sonho, não parece? disse Katie rindo. Mas não estou nem aíse for um sonho. Se for, por favor, não me acorde! Nunca estive tão feliz emtoda a minha vida! Estou delirantemente alegre! Antônio e Ted mantiveram um papo animado entre si, durante as horasseguintes em que atravessaram a Suíça, rumo à Itália. Cris não conseguiaouvi-los, uma vez que as janelas do veículo estavam abertas e havia muitobarulho. Katie aproximou seu “ninho” da amiga e se pôs a contar-lhe todas asnovidades dos amigos da Califórnia, nos mínimos detalhes. Ouvindo-a, Cris foi aos poucos se acostumando com a idéia de estaremindo acampar. De fato a viagem não começara do jeito que ela gostaria, masagora eles já se achavam na estrada. Sendo assim, ela estava disposta a agir
  16. 16. com espírito de equipe, em vez de estar o tempo todo mal-humorada,bancando a coitadinha. Durante o trajeto, pararam apenas uma vez para abastecer, ou, comodiria Antônio, para colocar “petróleo” na van. Afinal chegaram. Na área em queficariam, havia um grande espaço para armarem as barracas, sob a sombra dealtas árvores que circundavam o local. Cris não tinha a mínima idéia de ondeestavam. Contudo ficou surpresa ao ver que a terra era bastante semelhante àque estava acostumada a ver nas montanhas que rodeavam a universidade.Era estranho pensar que os Alpes passavam também pela Itália. O ar fresco parecia encher de ânimo os quatro acampantes, quedescarregavam a van e começavam a montar as barracas. Brincalhona comosempre, Katie havia traçado uma linha na terra com o calcanhar. - As meninas ficam deste lado, e os meninos, do outro, determinou ela. - Só tem um probleminha, Katie, disse Cris. A “cozinha” ficou do lado dosrapazes. Katie deu a volta pela extremidade da linha que riscara no chão. - Muito bem, pessoal, este é o caminho da cozinha. Todos os acampantesesfomeados devem passar por aqui. Em seguida foi até o caixote que Antônio trouxera e o abriu. - Certo, certo. Estou vendo aqui algumas xícaras, uma cafeteira e umafrigideira. Mas onde foi que você escondeu a comida, Antônio? - Bem ali! respondeu Antônio acenando com a cabeça, enquanto pregavano chão a última estaca da barraca. - Não estou vendo nada. Só árvores. - A geladeira fica logo depois das árvores. Venha comigo, vou lhe mostrar,disse o rapaz colocando o braço sobre os ombros de Katie e levando-a consigopor uma estreita trilha. Ted estava amarrando uma rede entre duas árvores quando parou eolhou para cima, ouvindo atentamente. - Ouça só isso, disse ele a Cris. Cris sabia do que ele estava falando. Fechou os olhos então e se pôs aescutar o som do vento balançando as folhas na copa das árvores. Aquela
  17. 17. brisa lhe trouxe várias recordações. A mais forte delas era de quando estavamnuma estação de trem na Espanha e uma brisa semelhante balançou asfolhas das palmeiras. Naquele dia, um ano e meio atrás, Ted colocara umapulseira de chapinha de ouro em seu pulso, em que estava gravada aexpressão “Para Sempre”. Com os olhos ainda fechados, Cris correu os dedospela chapinha de ouro, o rosto voltado para o céu. - Elas estão nos aplaudindo, Ted, disse ela, com um sorriso singelo. - Bravo! respondeu o rapaz, com voz fraca. Ao abrir os olhos, Cris notou que Ted havia se deitado na rede. Estavabalançando tranquilamente, com as mãos entrelaçadas sob a cabeça. - Pelo visto você conseguiu mesmo amarrar essa rede, hein?! Muito bem!exclamou Cris, aproximando-se dele. - E você tinha dúvidas de que eu conseguiria? - Não, você é um amante da natureza! Poderia ser a pessoa maisentendida em redes do mundo! disse Cris, puxando a rede para perto de si esoltando-a em seguida. A rede balançou bem alto, fazendo ecoar um rangido à altura do nó queTed fizera. De repente, uma das cordas se rompeu, e Ted caiu no chão, juntocom a rede, fazendo barulho. Cris se segurou para não explodir de rir da cena e foi rapidamente ver seTed estava bem. Ele parecia assustado, mas não se machucara. - Sinto muitíssimo, disse Cris, soltando uma risadinha. Você ‘tá legal? Mas antes mesmo que o rapaz pudesse responder, Katie chegou,correndo entre as árvores. Antônio vinha logo atrás. - Não tem comida nenhuma no tal lugar. A “geladeira” de que o Antôniofalou é, na verdade, uma lagoa! Ou seja, vamos ter de “pescar” nosso jantar. - Legal, disse Ted, levantando-se e limpando a terra que ficara em suascostas. Trouxe as varas de pescar, Antônio? - Sim. Temos tudo aqui: varas, anzóis... respondeu o rapaz. - E o que vamos comer enquanto isso? perguntou Katie. - Carne seca! sugeriu Ted.
  18. 18. - Do que você me chamou? perguntou Katie, virando-se para Ted. Cris teve vontade de rir novamente, mas a julgar pela expressão de raivano rosto de Katie, concluiu que era melhor ficar calada. - Não a chamei de nada. Estava apenas dizendo que trouxe um pouco decarne seca. Está lá na van, dentro da minha mochila. Sirva-se à vontade. Ted e Antônio se agacharam perto da caixa que continha os apetrechospara pesca. Estavam preparando uma vara de pescar desmontável. Tedvasculhava uma caixa plástica onde havia anzóis e iscas. - Você precisa e de um bom cappuccino, disse Antônio a Katie, ao vê-lapassar por eles como uma oncinha. - Acontece que não vi nenhuma lanchonete no caminho de volta da lagoa,replicou a jovem ironicamente. - Tem um pouco de café aqui, disse o rapaz, erguendo uma pequenacaixa que estava entre os outros equipamentos. -será que tem alguma coisa pra comer também? perguntou Katie. - Não, só café. Ei, Cris, que tal ajeitar uma fogueira? Eu e o Ted vamosver se conseguimos pescar alguma coisa. Os rapazes saíram e Cris se pôs a juntar alguns gravetos. - Não estou com vontade de tomar café, disse Katie, em tom dereclamação. Você ‘tá? - Não, mas estou com fome. Se eles não conseguirem pescar rápido,vamos ter de atacar a carne seca do Ted. - O que houve com a rede? perguntou Katie, dando uma olhada naextremidade da corda. - Eu empurrei o Ted um pouco mais forte do que devia e a corda serompeu. - Não, ela não se rompeu. Está perfeita. O nó é que deve ter soltado.Também, duvido que o Ted entenda de nós tanto quanto eu. Esta corda ‘táprecisando de um nó especial da Katie. Katie foi ajeitar a rede, e Cris foi colocar alguns galhinhos na pilha degravetos que juntara. Depois, voltou para o mato em redor para catar mais.Conseguiu puxar uma tora de bom tamanho para perto da fogueira e, então,
  19. 19. foi procurar no caixote algo que pudesse servir de grelha. Estava tudo ali nacaixa. Cris cantarolava enquanto montava a “cozinha”. Quando os rapazesvoltassem, só teriam de riscar um fósforo. - Sabe o que isto me lembra, Katie? - Não, o quê? disse a outra sem abrir os olhos. Havia se acomodado na rede de Ted. - Você se lembra de quando fui fazer um café da manhã para o Ted napraia e as gaivotas apareceram e comeram todo o bacon e os ovos que eu tinhapreparado? Katie não fez nenhum comentário. Cris então caminhou até a rede, que era grande o suficiente paracomportar duas pessoas. Parecia que as cordas e os nós estavam bemamarrados. Os raios dourados do sol da tarde penetravam por entre as folhasdas árvores, e Katie havia virado o rosto a fim de aproveitar todo o calor queirradiavam. - Arreda aí que estou entrando! disse Cris, empurrando as pernas deKatie levemente. - Mesmo que eu quisesse, não conseguiria me mexer aqui dentro,respondeu a outra, com os olhos ainda fechados e as mãos cruzadas sobre abarriga. Cris subiu na rede, procurando evitar que ela balançasse muito. - É bastante confortável aqui, disse ela, deitando-se com a cabeça para olado oposto à de Katie. - Só você não me acertar o rosto com o pé, está tudo bem, disse Katiecom voz fraca. Foi o último comentário que Cris se lembrava de ter ouvido, quandoescutou a voz de Ted chamá-la a alguns metros de distância. - Tem alguém com fome por aqui? Cris fez um esforço para abrir os olhos, pesados de sono. A claridade datarde já se havia ido, e começara a escurecer. Cris conseguiu enxergar asilhueta de Ted, que estava parado, segurando um peixe de aproximadamente
  20. 20. trinta centímetros de comprimento. Sentia o cheiro da fumaça que vinha dafogueira. Virou-se, então, e viu que Antônio estava acendendo o fogo. - Katie, eles já voltaram. Acorde! disse Cris, dando um tapinha na pernada amiga. Foi então que percebeu o quanto seu corpo estava duro. Estava tensa ecom frio. Cris saltou da rede com cuidado e caminhou até a fogueira,arrastando os pés. Chegando lá, pôs-se a aquecer as mãos perto daspequeninas chamas. - Em algumas áreas de camping aqui na Europa é proibido fazerfogueiras, disse Antônio. Mas aqui é permitido. A fogueira ficou do tamanhocerto, Cris. Grazie. - Não há de quê. - Quanto tempo a gente dormiu? perguntou Katie com um bocejo,juntando-se aos outros. - Pelo menos umas duas horas, respondeu Cris, bocejando também.Ainda bem que vocês conseguiram pegar alguma coisa. Foi difícil? - Não, só demorou um pouco, respondeu Ted, limpando o peixe com umcanivete. Cozinhar o peixe também foi um pouco demorado. Ainda não haviamterminado de comer, e as estrelas já estavam todas no céu, como se osobservassem lá de cima. Enquanto juntavam os pratos, Antônio foi prepararcafé em sua chamuscada cafeteira de acampar. Cris sorriu. Agora sim aquilo estava com cara de férias de verão. Desde que completara quatorze anos, Cris havia se reunido com osamigos em torno de uma fogueira na praia, no sul da Califórnia, todos osverões. Juntos, sob as estrelas, eles cantavam louvores, assavammarshmallows e falavam de suas dificuldades e alegrias uns com os outros. Estar ali, acampando com seus melhores amigos, sob o céu limpo,trouxe-lhe uma sensação que há muito não experimentava. Na universidade,tinha vários amigos, com os quais saia para conversar e tomar café nas noitesde sábado. Contudo não era a mesma coisa que estar ali com Ted, Katie eAntônio. Com estes, Cris compartilhava de algo muito mais profundo egostoso; algo diferente de tudo o que experimentava com os outros amigos.
  21. 21. Naquele momento, ela sentia que podia simplesmente fechar os olhos, dar umpasso rumo àquele céu estrelado e ser tragada pela eternidade. - Venha cá, disse Ted, chamando Cris para se assentar mais junto dele. Cris encostou a cabeça sobre os ombros de Ted e sentiu todo o corpoaquecer. Lembrou-se de uma frase que ouvira tempos atrás. Era alguma coisado tipo “Deus está nos céus, e tudo vai bem no mundo”. Era isso que elasentia. Tudo ia bem entre ela e Ted. Estava tudo certo. E ela podia sentir apresença de Deus bem de perto. Cris começou a murmurar baixinho uma canção. Pegando o tom, Ted sepôs a acompanhá-la, e os quatro começaram a cantar. A voz deles ecoava pelamata em redor, erguida em louvor. Aquele cujo sopro agitava as folhas na copadas árvores e cujos sussurros zuniam pela terra, onde estavam assentados. À medida que foi escurecendo, Cris começou a tremer. Ted a envolveucom os braços, trazendo-a para perto de si. Juntos, cantavam baixinho ecutucavam com varas longas as brasas que haviam restado na fogueira. - Vou buscar meu casaco, disse Cris, afastando-se de Ted afinal. Alguémquer que eu traga alguma coisa da van? Foi então que se lembrou de que seu casaco ficara pendurado atrás daporta de seu quarto. - Ah, não! exclamou. Por acaso alguém trouxe um casaco extra? - Você não trouxe casaco? Que tipo de acampante você é? disse Katie, emtom de repreensão. Cris entendeu o comentário como uma crítica e, de repente, todo aqueleclima especial que se formara evaporou-se no ar. -se você bem se lembra, tive de fazer minha mala na correria. Não tivetodo esse tempo para pensar no que precisava trazer para acampar. - Foi mal, disse Katie. Entretanto, para Cris, não parecia que Katie estava realmente pedindodesculpas. - Ei, Cris, eu tenho um suéter aqui, disse Antônio, caminhando emdireção à van.
  22. 22. O rapaz pegou uma blusa de lã, tricotada à mão, que havia sidopisoteada no chão do veículo, e jogou-a para Cris. - Você não vai precisar dela? perguntou a jovem. Cris deu uma cheirada na blusa e se arrependeu de tê-la aceitado.Cheirava como se houvesse sido usada como forro para gaiola, pano paraenrolar peixe e, por último, trapo para limpar a sola da bota de algumfazendeiro. - Tome aqui um cobertor, disse Antônio, jogando para ela mais uma peçade lã fedorenta. - Vocês não trouxeram sacos de dormir? perguntou Cris. Entretanto logo se arrependeu de ter dito aquilo. Detestava quandoparecia uma menina americana mimada, incapaz de se adaptar à maneiramais simples dos europeus de levar a vida. Katie também demonstrou-se surpresa com a quantidade limitada decobertores: apenas um por pessoa. - Vocês estão falando sério? Isso é tudo que vamos ganhar? Vocês nãotrouxeram colchões infláveis? E travesseiros? - Use um suéter, sugeriu Ted. Era óbvio que Cris não iria deitar o rosto naquela blusa fedorenta doAntônio. Ted se levantou e, de repente, tudo o que havia restado da intimidadeque desfrutaram juntos naquela noite desapareceu. O rapaz espreguiçou-se esoltou um bocejo. - Vou pegar um desses cobertores, então, se você tiver mais um, Antônio.Boa-noite, Cris. Boa-noite, Katie, disse ele, indo para a barraca masculina. - Boa-noite, responderam elas em coro. Cris entrou na barraca e procurou aproveitar da melhor forma a blusa eo cobertor fedorentos que Antônio lhe emprestara. Abriu o suéter e usou-opara forrar o chão, deitando-se sobre ele. Depois, cobriu-se com o cobertor delã, ajeitando-o em torno de si como se fosse um saco. Pegou um short limpo edobrou uma camiseta, fazendo-os de travesseiro. Contudo não deu certo.Sentia tanto frio que não conseguia pegar no sono.
  23. 23. Katie, no entanto, logo “apagou”. Vendo-a dormir, Cris ficou irritada.Queria ter uma chance de perguntar à amiga como ela estava se sentindo emrelação a Antônio e se havia algo mais entre eles, além das brincadeiras quefaziam um com o outro. Entretanto, agora, teria de esperar até o dia seguinte. Da barraca masculina, armada do outro lado da linha que Katie traçara,ecoava o ronco continuo de Antônio. Pelo menos Cris achava que era Antônioquem estava roncando. E se for o Ted? Como seria se eu fosse casada com um cara que roncasseassim? Nunca conseguiria dormir! Foi então que Cris ouviu o som de um pequeno galho se quebrando, dolado de fora da barraca. Congelou de medo. Será que são ladrões? Será queestão querendo roubar nosso equipamento? E se eles conseguirem ligar a vansem a chave e nos deixarem aqui? Será que devo gritar? Mais um galho se quebrou. Cris pegou o braço de Katie e começou achacoalhá-la. - Acorde, Katie Você ouviu o barulho? - Ahn? - Ouça, disse Cris, sussurrando. - É só os meninos roncando. Vá dormir, ‘tá bem? - Não, não é som de ronco. Tem alguma coisa lá fora. Escute só! Katie acendeu a lanterna e Cris imediatamente a tomou dela, desligando-a. - Não acenda a lanterna, Katie! - Ai, Cris, larga dessa bobeira! disse Katie, estendendo as mãos naescuridão e tateando a barraca, até encontrar a lanterna nas mãos de Cris. Aidéia é espantá-los com a luz. Katie abriu a barraca e colocou a cabeça para fora, iluminando aescuridão em redor. De repente, pôs a cabeça para dentro, recobrando ofôlego. - Cris, você não vai acreditar no que vi.
  24. 24. 3 - O que é? perguntou Cris, sentindo o coração disparar. - Você tem de ver isso. Venha cá, disse Katie, chegando para o lado. Cris juntou-se a ela, colocando a cabeça para fora, na escuridão. Foientão que o feixe de luz da lanterna passou por algo próximo à fogueira, quefez a luz se refletir na direção delas como se fossem dezenas de pequeninosrefletores redondos. - São os “baxinins” do Antônio, disse Katie. - Nossa, ele não estava brincando! Veja só quantos guaxinins! O que elesestão comendo? - Restos mortais de peixe. - Argh! -será que o Antônio deixou as sobras lá fora de propósito? perguntouKatie, iluminando em redor com o fraco feixe de luz. Cerca de dez guaxinins franzinos estavam ali, devorando o pequenobanquete diante deles, indiferentes à tentativa de Katie de espantá-los. - Mas que bando de guaxinins malvados! - Talvez fosse melhor não agitá-los com a luz, sugeriu Cris. - Por quê? perguntou Katie, dando uma risada. Você ‘tá com medo de queeles venham atrás de nós, quando terminarem com as tripas, e nos ataquem,arranhando a barraca até conseguirem entrar? - Não, mas ficaria mais tranquila se eles fossem embora. Será quepodemos fechar a barraca de novo? ‘Tá fazendo um frio congelante! Katie botou a cabeça para dentro e fechou a barraca. - Bem, faça-me um favor e só me acorde de novo se for alguma coisa commais de um metro e oitenta de altura, ‘tá bom? disse ela, entocando-se
  25. 25. debaixo do cobertor. E de preferência com cabelo escuro, olhos castanhos emuita grana, acrescentou. Cris não conseguiu ficar séria. Por mais contrariada que estivesse, Katienunca perdia o senso de humor. - Quer dizer então que esse é seu mais novo padrão de beleza para ohomem dos seus sonhos? Você sabe que o Antônio quase preenche osrequisitos, né? Só não tem a altura. - E o dinheiro, acrescentou Katie. - Quê? Então você não acha que a família dele é rica? - Olha, pode me chamar de louca, mas, na minha opinião, só quem émuito pobre mesmo sai pra acampar sem levar sacos de dormir e comida. - Acho então que somos bem miseráveis, não é mesmo? comentou Cris,encolhendo-se toda sobre a blusa de lã e enrolando-se no cobertor como sefosse um casulo, na esperança de que assim se sentiria mais aquecida. - E como estão as coisas entre você e o Antônio? - Bem. Cris ficou em silêncio, esperando que Katie entrasse nos pormenores.Vendo que a amiga ficara calada, cutucou: - Você acha que pode rolar algum sentimento entre vocês dois, como noverão passado? - O que há entre a gente é só uma brincadeira, Cris, disse Katie em vozbaixa. Não represento nada demais pra ele, e você sabe disso. Não tem nada aver. - E como você se sente em relação a isso? - Esta é minha vida, Cris. Sou a colega de todo mundo, mas não sou oamorzinho de ninguém, disse ela, acomodando-se melhor. Mas não quero falarsobre rapazes agora. Estou muito cansada mesmo. Podemos dormir? - Claro, respondeu a outra. Cris queria sentir-se aquecida o suficiente para poder dormir. Cobriu acabeça com o cobertor e pôs-se a esfregar uma perna na outra, a fim de seaquecer.
  26. 26. Pelo ritmo constante da respiração de Katie, via-se que ela havia pegadono sono. Cris ficou horas acordada, tremendo de frio. Sabia que não deveriadeixar os pensamentos correrem solto, mas, mesmo assim, permitiu que elespassassem por sua mente. Pensava em Ted. Pensava em qual seria a próximaetapa no relacionamento deles. Pensava em casamento e também nas palavrasexatas que ela lhe diria quando finalmente tivessem uma chance de levar umaconversa séria e íntima. Ao amanhecer, Cris estava se sentindo exausta. Queria poder cair emsono profundo. No entanto seus amigos, madrugadores, já estavam de pé,tentando convencê-la a se juntar a eles para tomar o café especial do Antônio. Cris acabou indo na deles, afinal. Pelo menos o café poderia acordá-la,pensava. Ao sair da barraca, com o cobertor enrolado nos ombros, ela malpodia acreditar no quanto se sentia suja e malcheirosa. Aboca estava com umgosto ruim, os olhos, remelentos. O cabelo se achava todo despenteado eembaraçado e, além disso, Cris sabia que o mau cheiro da blusa de lã, comque dormira a noite toda, havia passado para sua roupa. Ted se abaixou e pegou a cafeteira sobre a grelha. Ao contrário de Cris, orapaz estava com uma aparência limpa e cordial. - E aí, como você ‘tá? perguntou ele, estendendo uma xícara de café paraCris. Cris respondeu com um gemido e depois deu uma goladinha no café,procurando não fazer careta. O café especial de Antônio devia ser o café maisforte e espesso que Cris já provara em toda a vida. Se houvesse uma colher ali,poderia tê-lo “comido”, como se fosse um creme. Além disso, Antônio colocaratanto açúcar, que o café mais parecia uma sobremesa do que propriamenteuma bebida. - Acho que com isso eu acordo, disse ela, notando que o cabelo de Tedestava molhado. O de Antônio também estava. Vocês não me falaram quehavia chuveiros aqui. Onde ficam? Antônio deu um sorriso maroto, que iluminou todo o seu rosto. - Por ali, disse ele, apontando para a trilha que passava pelas árvores. Éno mesmo lugar onde fica a comida. - Muito engraçadinho, disse Katie.
  27. 27. Os raios de sol pareciam se derramar por entre as folhas das árvores,como se fosse mel. Katie estava assentada num toco, sorvendo seu café,banhada por aquela luz matinal. - A água está muito fria? perguntou Cris. Ted e Antônio se entreolharam. - Está refrescante, disse Ted. Cris sabia exatamente o que Ted queria dizer com “refrescante”. - Tem problema se eu usar esta vasilha para esquentar um poucod’água? perguntou Cris, abaixando-se para pegar uma panela já bem velha. Ao fazê-lo, notou um pedaço de cabeça de peixe caído ali na terra. - Ei, vocês deixaram os restos de peixe aqui fora de propósito para osguaxinins ontem à noite? Esses animaizinhos parecem ser bem malvados porsinal. - Escutei você e a Katie conversando com eles ontem na calada da noite,disse Ted. - A gente não estava falando com eles, e sim sobre eles. Há uma enormediferença entre uma coisa e outra, afirmou Katie. Cris deu outra golada no café. Se Ted estava acordado, escutando asduas conversarem sobre os animaizinhos intrusos, então era Antônio quemestava naquela roncação toda, deduziu. De certo modo, só de saber aquilo jáse sentia bastante aliviada. - Qual é a programação de hoje? perguntou. Na verdade o que ela gostaria de dizer era: “Quando é que vamos fazer asmalas e dar o fora daqui?” - Bem, eu e o Antônio estávamos indo arrumar alguma coisa para o café,disse Ted. Querem vir conosco? - Claro! Vocês vão de carro até a cidade? perguntou Cris. Tomar café numa lanchonete exótica, à beira da estrada, seria ótimaidéia, pensava Cris. Só que ela estava muito suja para ir daquele jeito. Esperoque não se importem de me esperar dar uma arrumadinha. Antônio começou a rir.
  28. 28. Eles vão pegar café lá na geladeira, disse Katie. Você não acha que umpeixinho fresco cairia bem agora de manhã? - Bem, nesse caso, então, acho que vou ficar por aqui me aquecendoperto da fogueira. Passei a noite congelando de frio! - Pelo visto você não dormiu bem, comentou Antônio. - Não mesmo. Katie resolveu ir com os rapazes. Logo que se foram, Cris correu para abarraca e roubou o cobertor de Katie. Seguiu em direção à rede, que se achavasob um enorme feixe de luz. Poucos minutos depois lá estava ela, todaenrolada naquele áspero cobertor de lã, embalando-se num profundo sono. Quando voltaram com o peixe, Cris escutou-os discutindo se deveriam ounão acordá-la. No entanto se sentia tão sonolenta que nem sequer tinha forçaspara responder. Então continuou cochilando, mesmo com todo o aroma depeixe frito exalando pelo ar. Cris só foi acordar do pesado sono horas depois, com o barulho de umapanela de metal caindo no chão. Com os olhos ainda embaçados de sono, viuum gato nojento rondando os utensílios de cozinha, à procura de algum resto. - Saia já daqui! gritou ela. Em seguida, desenrolou-se dos cobertores e saltou da rede. O tempohavia esquentado e, apesar de o sol já ter-se deslocado, deixando a rede nasombra, Cris suava dentro do apertado casulo em que se enfiara. - Katie? Ted? Antônio? chamou. Não obteve resposta. Notou então um pedaço de papelão apoiado em frente à barracafeminina. Ao que parecia, seus amigos haviam escrito um bilhete usando umraminho queimado. Tudo que o aviso dizia era “Fomos escalar”. - Muito bem, pessoal, murmurou Cris. Vocês saem e me deixam aqui,sozinha no meio deste deserto, com um bando de animais selvagens rondandoa área atrás de restos de peixe. Entretanto a sensação de “abandono” não durou muito, uma vez queCris estava decidida a tomar um banho. Ao abrir a barraca, sentiu o intenso eterrível odor do suéter de lã agredir-lhe o rosto. Puxou-o então e pendurou-o
  29. 29. sobre um galho de árvore baixo, para ver se o vento dava uma arejada nele.Depois, voltou à barraca e vestiu o maiô, juntando todos os outros objetos deque precisaria para tomar um banho bem refrescante. Assim, pôs-se acaminhar rumo à “geladeira”. Para sua surpresa, o lago ficava perto dali. Os troncos das árvores emredor eram tão espessos, que de lá das barracas nem dava para avistar alagoa. Cris notou que dois barcos navegavam sobre as águas cintilantes. Umdeles era um velho barco a remo, feito de madeira, conduzido por dois garotosque, aparentemente, estavam pescando. O outro era de pesca, em alumínio,provido de um pequeno motor externo. Fazia uma barulheira enorme aodeslizar pelo lago, deixando um rastro de espuma na água. À direita de Cris,havia uma pequena ponte. Amarrando a toalha na cintura, Cris correu até a ponte e notou que umestreito riacho corria sob ela, desaguando no lago. Duas crianças boiavamsobre uma câmara-de-ar, levadas pela correnteza numa vagarosa viagem rumoà lagoa. -Ciao! exclamou uma delas para Cris. Ela acenou e sorriu. Caminhando pela margem do riacho, Cris chegou a um pequena baía decascalho, aquecida pelo sol. Tocou a água, não muito profunda, e notou queestava morna. Então, pisando com cuidado e respirando fundo, entrou naágua, afundando-se em seguida. A sensação de frescor, ao mesmo tempo quelhe causava um choque, era-lhe bastante agradável. Cris se pôs a boiar com orosto voltado para o sol. Sinto-me como se fosse um desses amantes da natureza! A sensação éexatamente como Ted a descreveu: refrescante. Cris desfez a longa trança e apanhou o sabonete e o xampu. Esbaldando-se nas águas rasas, pôs-se a cantarolar, enquanto se cobria de espuma. Pertodali, um pequeno passarinho marrom pousou num galho baixo e ergueu acabeça, olhando para Cris como se tentasse entender o que ela estava fazendo.Com movimentos suaves, Cris se inclinou para trás, mergulhando os cabelosna água, para enxaguá-los. A correnteza que passava ali, vinda do rio, puxavafortemente suas madeixas.
  30. 30. Sinto-me como se estivesse numa velha pintura a óleo que há na bibliotecada universidade. Aquela em que os cupidos estão esvoaçando em redor dacachoeira e as mulheres se acham enroladas em trajes de tecido leve, cor demarfim, banhando-se num lago. Naturalmente Cris não avistou nenhum cupido voando por ali ao sair doriacho e secar-se. Entretanto, ao caminhar de volta ao camping, sentia umamaravilhosa sensação pulsar dentro de si. Estava refeita, aliviada. Os outros ainda não haviam retornado quando ela chegou à barraca.Então, depois de se trocar, Cris aproveitou para dar uma boa penteada nocabelo, deixando-o secar ao vento, naquele sol maravilhoso. Ouviu um som decrianças gargalhando, vindo de uma outra área de camping não longe dali.Aquilo a fez se lembrar das criancinhas que moravam no orfanato de Basel,onde ela trabalhava. Ficou balançando vagarosamente na rede por um bom tempo. Pensou emsua vida, no futuro, nas esperanças e nos sonhos que tinha - algo a que nãose dera ao luxo de fazer durante todo o semestre letivo. Fez uma avaliação daexperiência que estava tendo na faculdade em Basel, pensando também noquanto o trabalho no orfanato a desgastara emocionalmente. O que estou fazendo de errado, Deus? Meu desejo é servir ao Senhor e, defato, achei que o trabalho no orfanato seria uma maneira de fazê-lo. Mas sinto-me tão desgastada! Será que servir ao Senhor é pra ser assim mesmo?Desgastante? A única resposta que ouvia às suas indagações era o barulho do ventopassando pelos galhos das árvores. E o Ted, Senhor? Qual será o próximo passo pra nós dois? Será que eleainda sonha em viver numa ilha deserta, servindo ao Senhor como tradutor daBíblia para tribos não-alcançadas? Será que só eu estou pensando em me casaralgum dia? Cris sabia que o Senhor estava ouvindo as indagações de seu coração.Nunca tivera dificuldade em crer que Deus escutava, via e conhecia todas ascoisas. Olhando para o céu azul-claro, riscado por leves e finas nuvensbrancas, Cris murmurou: Mas, agora, falando sério. O Senhor consegue me enxergar vivendo numailha tropical? Quero dizer, tomar banho de rio foi o máximo que já experimentei
  31. 31. em termos de “desconforto”. O Senhor não está mesmo planejando que eu vivaassim para resto da vida, ‘tá? Cris tentou se convencer de que tomar banho de rio não é lá tão horrívelassim. Na verdade, era até um pouco exótico. Daí ficou imaginando como seriadormir todas as noites numa rede, como aquela em que estava se balançando.Pensou em como seria comer peixe todos os dias. Peixe e manga. Ted gosta demanga. Cozinhar ao ar livre é divertido. E eu bem que gosto de ficar olhando asestrelas à noite. Mas tem algo que não aguento nesta vida: as coisas se sujamrápido demais. Fica tudo fedorento. Também não suporto ficar com fome, comoestou agora. Cris foi atrás da carne seca que Ted havia trazido e comeu o restante.Depois, correu os olhos pela área de camping. Era um lugar deserto, afastadode tudo. Aos poucos, foi começando a se sentir cada vez menos empolgadacom a idéia de passar a tarde inteira sozinha. A mata em redor, com ospassarinhos curiosos e os guaxinins selvagens, já não lhe parecia mais tãoencantadora. Durante meses Cris estivera cercada de pessoas, tanto na escolaquanto no orfanato. Sua rotina era cheia e seus horários, bastante apertados.Várias vezes desejara poder passar uma tarde assim, sem nada para fazer,livre para ficar sozinha, pensando na vida e sonhando acordada. Entretantoagora queria que seus amigos voltassem. Aquele lugar estava ficandosossegado demais para ela. Apenas para ter o que fazer, Cris começou a juntar os vários galhos queestavam no chão, dando uma boa arrumada no local. Depois, acendeu afogueira e desceu até ao riacho, onde encheu uma grande vasilha de água,voltando para o acampamento em seguida. Quem sabe eu não consigo aprender a ser uma mulher mais “da selva”,que gosta dessas coisas naturais? Nem é tão ruim assim. Depois de esquentar a água, lavou a frigideira, as quatro xícaras e osgarfos. Toda vez que ouvia algum ruído, por menor que fosse, olhava em volta,na esperança de que os amigos estivessem voltando da escalada. Mas nada deeles regressarem. Ao cair da tarde, Cris já estava começando a ficar com raivae também com medo.
  32. 32. Por que eles resolveram me deixar sozinha este tempo todo? Acho quedeveríamos estabelecer algumas regras aqui, como, por exemplo, nunca deixaralguém sozinho no acampamento o dia inteiro. Foi então que ouviu alguns passos vindos da mata. Pensando em setratar de seus “amigos”, Cris foi logo se preparando para passar um belo deum sermão neles, por terem deixado-a ali sozinha o dia todo, aflita da vida.Contudo os passos não eram de Ted, nem de Antônio, nem de Katie. Quem seaproximava era um homem de chapéu xadrez, trajando um pesado suéter detricô, como aquele que Cris pendurara no galho da árvore. O homem carregavaconsigo uma fieira de peixes, de tamanho mediano. Ao se aproximar,cumprimentou Cris em italiano. - Ciao, respondeu ela sem muita expressão. Ela pensava que, se agisse com naturalidade, como alguém que estivessesozinha ali por opção, e demonstrasse que tinha plena noção do que estavafazendo, ele simplesmente passaria pelo acampamento, sem parar para mexercom ela. Entretanto ele parou e novamente se dirigiu a ela em italiano. Cris pensou rápido. Durante o semestre letivo ela havia aprendido queem casos assim o melhor era responder em alemão. - Ich verstehe nicht, disse ela, o que significava “Não entendo”. O homem se aproximou da fogueira, perto de onde Cris estavaassentada, e repetiu o que havia dito, dessa vez usando frases maiores e maisgestos. - Ich verstehe nicht, disse ela rapidamente. No entanto o homem não desanimou e continuou falando. Tirou doispeixes da fieira e puxou o suéter com as mãos, como se quisesse chamar aatenção de Cris para o agasalho. Depois, colocou os peixes na frigideira queCris lavara. - Não entendo o que você diz, replicou Cris. Então, fazendo mais alguns gestos, o homem tirou mais um peixe dafieira e o colocou na panela. Depois, deu uns tapinha no peito e ficou olhandopara Cris, como se esperasse uma resposta dela. - Danke, foi a única coisa que lhe veio à cabeça.
  33. 33. Talvez ele estivesse apenas sendo um homem generoso, dividindo suapesca do dia, uma vez que, evidentemente, ela na tinha nada para o jantar. Oupelo menos era isso o que Cris pensava. Lembrando-se então de como dizer“obrigado” em italiano, acrescentou: - Grazie. - Prego, respondeu ele, acenando com a cabeça. Depois o homem soltou mais algumas palavras, bateu novamente nosuéter e se pôs a caminho. Cris se assentou, petrificada. Apenas seus olhos se movia indo dascostas do homem para o pescado na panela. O cheiro característico de peixepairava em torno dela. Mas era mais do que cheiro de peixe. Era um forte odorde pescado, misturado com cheiro de forro de gaiola e sola de bota defazendeiro. Ah, não! Cris deu um pulo e correu rapidamente para o lado de trás dabarraca, próximo de onde começava a trilha. Olhou em redor, no local em quependurara o fedorento suéter de Antônio. Entretanto ele já não estava lá.
  34. 34. 4 Antes mesmo que Cris pudesse sair correndo atrás do pescador, a fim deexigir que lhe devolvesse o catinguento agasalho de Antônio, ela ouviu a voz deTed, que vinha lá da mata, chamar-lhe. - Ei, Cris! já acordou? Cris correu pela trilha e encontrou Ted no meio do caminho, atirando-senos braços dele. Entretanto o abraço não durou nem dois segundos. Dandoum empurrão em Ted, ela exclamou, contrariada: - Onde é que vocês estavam? Me deixaram aqui sozinha! Veio um caraaqui e levou o suéter do Antônio em troca de alguns peixes, sem que euentendesse nada do que estava acontecendo! Ted parecia observar o cabelo dela, que estava solto pela altura dosombros e que, por ela ter corrido de um lado para o outro, achava-sebagunçado e rebelde. - Você está cheirosa, comentou ele. - Você prestou atenção em alguma coisa que eu disse? - Sim, o cara foi embora e deixou três peixes. Já começou a limpá-los? - Não, respondeu ela, olhando para Ted sem acreditar no que estavaouvindo. - Venha cá, vou lhe ajudar. O Antônio e a Katie devem chegar dentro dealguns minutinhos. - Onde vocês estavam? - Acabamos perdendo o rumo durante a escalada, respondeu Ted comum sorriso. - Ficaram perdidos? - Mais ou menos.
  35. 35. - Como assim, Ted? Como é que alguém pode ficar “mais ou menos”perdido? Ou você está perdido ou não! Ted colocou o braço sobre os ombros dela, envolvendo-a. Parecia estar sedivertindo com os comentários raivosos de Cris e agia como se nada de erradohouvesse acontecido. Foi então que Cris começou a perceber o quanto estava cheirosa emcomparação a Ted. O rapaz começou a limpar os peixes e, quando Katie eAntônio chegaram e se assentaram junto à fogueira, Cris percebeu o quantoera desagradável e inútil ser a única pessoa limpinha e cheirosa do grupo. Então, contou a Antônio a história do suéter e dos peixes, pedindodesculpas. O rapaz caiu na gargalhada. - Você deveria ter batido o pé e só aceitado se fossem cinco peixes nomínimo. Foi minha avó que fez aquela blusa. Da próxima vez, mostre seusdedos assim e diga “Cinque”. - Foi sua avó que fez o suéter? Ai, Antônio, estou me sentindo péssimaagora! - Não se sinta. Aquele suéter já era velho. Ela sempre faz um novo pramim no Natal. - Na verdade, isso foi uma “coisa de Deus”, Cris! exclamou Katie. Jápensou o tempo que levaríamos até conseguir pescar algum peixe pra jantar?Isto aqui é perfeito. Voltamos da escalada e a comida ‘tá pronta. Quero dizer,quase pronta. Arranjada, pelo menos. Katie continuou falando, narrando toda entusiasmada as aventuras quehaviam vivido durante a maravilhosa escalada. Estava certa de que tinhamandado no mínimo uns cinqüenta quilômetros e dizia que nunca mais topariasair para andar com aqueles dois malucos. - Você é que fez certo de ficar aqui e dormir o dia inteiro, Cris. Pode crer.Estou exausta e faminta. Esse negócio de viver dependendo da natureza émuito demorado, né? Sobrou alguma carne seca? - Não, eu comi tudo. - E quanto tempo vai demorar para o peixe ficar pronto?
  36. 36. - Não muito, respondeu Antônio, abanando o fogo e colocando nafogueira mais alguns gravetos que Cris juntara. - Já que vocês estão famintos, a gente podia deixar isto aqui e ver seacha alguma coisa pra comer na estrada, sugeriu Cris. Os guaxinins ficarãofelizes se deixarmos o peixe aqui pra eles. - Em que estrada? - Ué, na estrada que iremos pegar para o local onde passaremos a noite. Ouvindo aquilo, os três largaram o que estavam fazendo e olharam paraCris. Estudando a expressão do rosto deles, ela disse: - Ou vocês estão pensando em passar mais uma noite aqui? - Mas é claro, respondeu Antônio em tom decidido. Estou de folga doserviço até sábado. Podemos passar mais quatro noites aqui. Vendo que nem Katie nem Ted se mostravam contrários à possibilidadede passarem o resto da semana acampados, Cris resolveu ficar quieta, maispor espanto do que por qualquer outro motivo. Ficou calada durante toda arefeição. Ted havia lhe emprestado sua blusa de moletom azul-marinho, quetinha um capuz. Cris se aconchegou junto a Ted, com o capuz na cabeça deforma a esconder o rosto do olhar do rapaz. Cantava juntamente com osoutros, mas sem muito entusiasmo. Mal conseguia imaginar o que seriapassar mais cinco dias de suas três semanas de férias ali, com aquelesbichinhos mascarados rondando à meia-noite à procura de restos de peixe,enquanto ela se virava de um lado para o outro no chão duro, tremendo defrio. Cris foi dormir trajando a blusa de Ted, com o capuz ainda na cabeça.Pelo menos aquilo ajudava a manter o corpo aquecido. No entanto, sem osuéter fedorento para servir de forro, Cris sentia a aspereza do chão e, alémdisso, passava muito mais frio do que na noite anterior. Deitada, ouvia arespiração de Katie, que ecoava num ritmo constante. Foi então que começou uma briga lá fora. Era um bando de gatos,verdadeiros “garis noturnos”, que disputava com uns guaxinins a sobra depeixe da noite. Cris chorava baixinho, deixando as minúsculas lágrimasescorrem pelo rosto. Aquelas não eram as férias que sonhara passar com osamigos. Mas, como é que poderia dizer isso a eles quando, aparentemente, era
  37. 37. a única que achava que continuar acampando não era lá uma idéia tão boaassim? Virou-se para o outro lado, rolando sobre o chão da barraca. Sentia-sedesconfortável. Estava de meia e, para se aquecer, pôs-se a esfregar um pé nooutro. No fim das contas, acho que não faço muito o tipo “mulher da selva”, não. O vento começou a soprar mais forte, fazendo a lona lateral da barraca selevantar e abaixar repetidamente. Com ele vieram as nuvens e, de repente,uma chuva fortíssima começou a cair. Com a ventania, a água entrava nabarraca por um pequeno rasgo que havia na lona, próximo à cabeça de Cris.Poucos minutos depois, seu capuz estava completamente encharcado. - Agora, chega! gritou ela, levantando-se e abrindo a barracaenergicamente. - O que foi? resmungou Katie. Será que você não consegue esquecer osguaxinins e dormir? - Katie, está caindo um pé-d’água! Estou ensopada! Eu é que não ficoaqui! Vou dormir na van! Correndo sob o aguaceiro, Cris chegou à van. Abriu a porta lateral comum empurrão e entrou, fechando-a em seguida. Depois instalou-se no bancode trás. Por que não pensei nisso ontem à noite? É bem mais quentinho aquidentro. A chuva continuava caindo, tamborilando fortemente sobre o teto doveículo. Mas agora Cris estava segura, sequinha e praticamente aquecida alidentro. Puxou o áspero cobertor até o queixo, pensando que finalmenteconseguiria dormir de verdade. Foi então que alguém abriu a porta. - Arreda aí, que eu to entrando! A água inundou nossa barraca!exclamou Katie, saltando para entrar no veículo. Na manobra, acabou esmagando o dedo indicador de Cris contra aestrutura metálica inferior do banco. - Ai! gritou Cris.
  38. 38. - O que foi? Contudo, antes mesmo que Cris pudesse responder, a porta se abriunovamente e Ted entrou. - Pelo visto, vocês tiveram a mesma idéia. Antônio, que estava logo atrás, debaixo daquele temporal, gritou: - Vamos, pessoal! Arredem aí pra eu entrar! - Vocês dois estão ensopados, disse Katie. Ted virou a lanterna que trazia consigo na direção de Cris. As lágrimasrolavam-lhe pelo rosto, enquanto ela apertava com força o dedo machucado,pressionando firmemente os lábios. - Você ‘tá legal? perguntou ele. Cris apenas meneou a cabeça. Não conseguia falar. - Machucou a mão? perguntou Ted, erguendo o queixo. Cris acenou que sim. Ted pegou a mão dela e a iluminou com a lanterna.Antônio entrou na van, e todos fixaram a atenção sobre o dedo de Cris.Embora ela sentisse o dedo latejar muito, seu aspecto era normal. Não estavainchado nem roxo. Não havia nenhum corte. Estava apenas doendo muito,como o resto de seu corpo e de suas emoções. Olhando-a daquele jeito, seusamigos a faziam se sentir como uma “mulher da selva” nota zero. Umverdadeiro fracasso. - Vai sarar, disse ela baixinho, tirando a mão do foco de luz. - Nesse caso, já que estamos todos reunidos, o que vamos fazer?perguntou Antônio. Cris recostou-se no banco traseiro, fazendo o máximo para não começara chorar de dor. Ted se acomodou no chão, apoiando as costas nas pernasdela. Entretanto Cris não queria que ninguém pegasse ou encostasse nelanaquela hora. Nem mesmo Ted. Não demorou muito o cheiro de meia molhadae bota mofada começou a se exalar por todo o pequeno e apertado recinto. Crissabia, no entanto, que, se abrisse uma das janelas, o vento traria a chuvapara dentro da van.
  39. 39. - A gente podia contar histÓrias de suspense, sugeriu Katie. Ou entãojogar xadrez. Vocês já jogaram xadrez em duplas? Podemos jogar homenscontra mulheres. O que acha, Cris? Cris não estava a fim de jogar nada. Para ela, aquilo não era uma“festinha da camisola” improvisada, como os outros aparentemente pensavamser. - tem outra lanterna aqui, em algum lugar, disse Antônio tatEandodesajeitadamente os armÁrios embutidos na lataria do veículo. Ted virou-se para Cris e disse: - Ouça o som da chuva. Não é incrível? Do que você se lembra ao ouvireste som? Vendo que Cris permanecera calada, Ted continuou: - Vou lhe dar uma dica. Pense num jipe conversível e numa chuvaradarepentina. Antônio acendeu uma lanterna maior, iluminando todo o interior da van.Ao ver a expressão do rosto de Cris, sob o feixe de luz, Ted ficou surpreso. - O que foi? Disse alguma coisa que não deveria? - Não, respondeu Cris, procurando mostrar-se menos séria. - Então, qual é o problema? perguntou Ted, envolvendo os joelhos delacom o braço. Demonstrava estar sinceramente preocupado com ela. - Não é nada. - Ora, ora, Cris. É claro que tem alguma coisa incomodando-a, disseKatie. Todo mundo aqui conhece você bem o suficiente. Não adianta tentaresconder. Ande, diga-nos o que é. Cris hesitou. Detestava sentir-se daquele jeito. Segurando o dedo, queainda doía muito, soltou afinal: - Na verdade eu não estou exatamente curtindo esta chuvarada toda daforma como vocês estão. E, para ser sincera... acho que não dou conta de tudoisto. - Disto o quê? perguntou Katie, tentando fazer com que Cris continuasse.
  40. 40. - Disto! - De acampar? Antônio arriscou um palpite. - É, acampar e tudo o mais. Quero dizer, vocês adoram esta aventuratoda de viver em contato com a natureza e tal, mas é a primeira vez queacampo de barraca na minha vida! Detesto ser o bebezão do grupo, mas ‘tásendo uma barra pesada pra mim! Estou aqui com frio, molhada e com fome.Mas pra vocês ‘tá tudo muito bom, uma maravilha! Vocês estão animados acontinuar aqui até o fim da semana ou até mesmo para o resto da vida, peloque vejo! Todos os olhares estavam fixos em Cris. - Sinto muito, mas não era bem isto que tinha pensado em fazer, quandocombinamos de viajar pela Europa. Cris olhou para Ted novamente e percebeu que era melhor aproveitar oembalo e continuar falando. - A gente só tem três semanas pra ver tudo aqui na Europa. Apenas trêssemanas! Agora, se vocês estão a fim de passar uma semana inteira aquinesta chuva toda, comendo peixe, tudo bem, mas vou falar uma coisa: nãotenho a facilidade que vocês têm. Cris sentiu os olhos se encherem de lágrimas. Eram lágrimas quentes,intensas. Fez força para não chorar. - Sinto muito por estar agindo assim, mas a sensação que tenho é de quevocês se divertiriam muito mais se eu não estivesse presente. Quero dizer,vocês foram escalar sem mim. Poderiam muito bem ter vindo acampar aqui naItália sem mim também e deixado para se encontrarem comigo no caminhopara a Noruega ou qualquer coisa parecida. - É isso que você quer fazer? Ir pra Noruega? perguntou Katie. - Tanto faz Noruega ou qualquer outro lugar. Achei que você queria ir pralá, respondeu Cris, levantando a voz. Não foi você que mandou um e-mail,falando que queria ver um fiorde e conhecer o país da sua bisavó? - Sim, eu ainda quero ir lá uma hora dessas, mas não estou com pressa,disse Katie. - Mas é isso que vocês não estão entendendo. Não dá pra gente decidir deuma hora pra outra ir pra Noruega num dia e chegar lá pela hora do almoço. A
  41. 41. gente tem de descobrir o horário dos trens. Em alguns é preciso até reservaros lugares. E se quisermos parar no caminho pra conhecer alguma outracidade? Temos de ter um roteiro. Não entendo por que não podemos montarum! - Mas quem disse que não podemos? Podemos montar um, sim, disseTed. - Três semanas não são esse tempo todo que vocês está imaginando,falou Cris, acalmando-se. - Então, aonde você ‘tá pensando em ir? perguntou Katie. Vamos, sugiraum roteiro pra nós. - Não pensei em nada ainda. - Nem a gente, disse Katie, na defensiva. É por isso que estamosdeixando as coisas acontecerem naturalmente. Acampar aqui com o Antônio éuma oportunidade única! - Não, disse Antônio, levantando a mão e balançando a cabeça. Cris temrazão. Na verdade, a “oportunidade única” é muito mais do que simplesmenteficar aqui acampado, curtindo as árvores e a lagoa. Vocês têm de conhecer aCapela Sistina e a Torre Eiffel. Há muito o que se ver aqui na Europa, bemmais do que isto aqui. Cinco dias é tempo demais num só lugar com tantosoutros pontos turísticos pra se conhecer. Vamos partir amanhã de manhã, ‘tábem? - Antônio, interferiu Cris rapidamente, eu não quis diz que temos departir já. Só estava dizendo que a gente precisa de um roteiro, só isso. Temosde trabalhar em equipe. Por um momento, reinou o silêncio entre eles. O som da chuva batendono teto da van fez Cris perceber o quanto falara alto, ao tentar defender seuponto de vista. - E pra onde você gostaria de ir depois que sairmos daqui perguntou Teda Cris. - Não faço muita questão do lugar. - Ora, ora, Cris, disse Katie. Não é possível que você não tenha nenhumaidéia em mente, depois de dar toda essa injeção de ânimo na gente.
  42. 42. - Então ‘tá. Se tivesse de decidir por nós, diria que gostaria de conheceroutras partes da Itália, disse Cris com certa prudência. - Eu também, replicou Ted. - Então estamos conversados, disse Antônio, batendo uma mão na outra.Assim que a chuva parar, desmontaremos as barracas e vocês irão conhecermais da Itália. Mi Itália! Vocês vão amar isto aqui. Cris sentiu-se melhor ao ver que os outros pareciam concordar comAntônio. Só que a chuva não parou pela manhã. Então os quatro acampantes sepuseram a desmontar as barracas ensopadas, debaixo da chuva, numverdadeiro trabalho de equipe. Amarraram as barracas no teto da van earrastaram a caixa de madeira, que continha os equipamentos de camping,até a parte traseira do veículo, amarrando-a ao pára-choque em seguida.Estavam cansados e com fome. Cris se sentia completamente ensopada.Nenhum deles havia trazido nada que fosse impermeável e pudesse servir decapa. Não tinham nem mesmo um saco plástico. Trocaram de roupa na van,um de cada vez, e lá se foram, atravessando a enlameada estrada de terra quelevava até a rodovia, ao som dos roncos do motor. - Vamos ver se a gente para no primeiro lugar que tiver comida, pediuKatie. Qualquer tipo de comida ‘tá bom. Ao atingirem a rodovia, Antônio aumentou a velocidade. - A gente come na minha casa. Minha mama servirá um lanche pra nóscom o maior prazer. Vocês vão gostar muito dela. - Com certeza, Antônio, disse Katie. Mas quanto tempo vai demorar prachegarmos à sua Pizzeria Mama Mia? - Legal isso que você falou, Katie, disse Antônio sorrindo. Pizzeria MamaMia. Ficou engraçado. A gente chega lá daqui a uma hora. Não é muito longe. Durante o percurso, passaram por montanhas verdinhas, de formatoarredondado, e por campos enormes, cobertos de girassóis. Depois quedeixaram o sopé das montanhas, a chuva deu uma trégua, ficando apenas umleve nevoeiro por onde a luz do sol vez por outra penetrava. Para Cris, noentanto, o tempo demorava a passar. Ela olhava pela janela da van e via osraios de sol trespassarem as nuvens, incidindo sobre as vinhas que
  43. 43. margeavam a estrada. A luz dava as folhas um tom de verde forte, bembrilhante. Por alguma razão a beleza daquela paisagem pastoril trazia-lhe umcerto alívio, um bem estar interior, o que lhe foi muito bom. Afinal de contas,ela ainda se sentia um pouco culpada por ter ficado tão irritada forçando todomundo a fazer as malas e ir embora por sua causa. Cris olhou para o dedo machucado e notou que estava roxo. No entantonão era apenas seu dedo que doía. Sentia que sua emoções também haviamsido feridas. Enquanto isso, Ted dormia, estirado no banco traseiro. Katie havia sedeitado no chão. Cris invejava a facilidade dos dois de se deitar em qualquerlugar, em qualquer posição, e simplesmente pegar no sono. Por mais quetentasse, ela não conseguia dormir. Observando-os, Cris notou que o braço deTed caíra para o lado e agora repousava sobre o ombro de Katie, uma vez queela havia se deslocado para mais perto do banco. Naturalmente Ted e Katienão tinham a intenção de se “tocarem” de forma tão “íntima”, mas o fato é queestavam se encostando um no outro. E Cris não gostava nada de ver Ted e suamelhor amiga tão “juntinhos”. A todo momento virava-se e ficava olhando paraeles. - É aqui que você mora? perguntou Cris a Antônio ao saírem da rodoviaprincipal e pegarem a estrada que levava à cidade. - Não, mas não fica muito longe daqui. Este aqui é o município deCremona. - Parece ser bem antigo, disse Cris, observando atentamete uma enormetorre que se destacava acima dos telhados das casas. - Chamam-na de Torrazzo, que significa “torre alta”, disse Antônioapontando para a torre. Foi construída no século XIII. - É muito bonita, comentou Cris. - Minha família é parente da família Amati, daqui de Cremona, afirmouAntônio, todo orgulhoso, como se aquilo fosse algo importante. Ao ver que Cris não fizera nenhum comentário, disse: - Ah, vocês, americanos! Garanto que não sabem quem foi Amati, não émesmo? - Infelizmente não, disse ela.
  44. 44. - Talvez você já tenha ouvido falar do discípulo de Amati, chamadoStradivari. Minha mãe pôs meu nome de Antônio Stradivari em homenagem aele. - Foi esse que inventou o violino? Os violinos estradivários? perguntouCris. - Si! Então você já ouviu falar nele! Mas na verdade quem inventou oviolino mesmo foi um tal de Andrea Amati, que era da minha família.Stradivari apenas aperfeiçoou o instrumento. Os dois moraram aqui emCremona. Stradivari já fabricava violinos aqui mais de três séculos atrás e atéhoje a produção continua. Músicos do mundo inteiro vêm aqui pra comprarviolinos. Era a primeira vez que Cris se sentia empolgada por estar na Itália. Erajustamente essa instigante mistura de história e atualidade que ela desejavadesvendar e desbravar durante a viagem. - ‘Tá vendo aquela rua ali? continuou Antônio. Trabalho num restaurantelá, perto de uma catedral. Sempre falo para os turistas que Antônio Stradivarifez 1.200 violinos artesanalmente e que minha mãe escolheu meu nome emhomenagem a ele. Ninguém acredita. - Não acreditam que ele fez 1.200 violinos ou que sua mãe pôs seu nomeem homenagem a ele? - As duas coisas. Eles acham que estou inventando moda. - Bom, eu acredito em você, Antônio. E acho tudo isso aqui muitoimpressionante, disse ela, estirando-se para pegar uma última visão dacatedral. Depois de passarem por um trecho de curvas, na estreita estrada em queseguiam, atravessaram uma ponte larga, que cruzava um rio bem extenso. Emseguida, pegaram uma outra estrada muito mal conservada. Seguiram nelaaté chegarem a uma casa de fazenda, de paredes brancas e telhado vermelho,tudo muito simples. O lugar lembrava a Cris as fazendas do Wisconsin, ondehavia sido criada. Ao se aproximarem, Antônio deu uma buzinada, que acordou Katie eTed. Da porta lateral da modesta casa, uma senhora acenava e mandavabeijos para eles. Cris sorriu para ela.
  45. 45. Depois de serem apresentados à mãe de Antônio, e de trocarem umasérie de cumprimentos calorosos, os quatro foram levados até a pequenacozinha. Estavam todos imundos e famintos. Ao entrarem, sentiram no ar umdelicioso aroma, de dar água na boca. A mãe de Antônio gesticulava semparar, indicando que era para Cris, Ted e Katie se assentarem à mesa.Enquanto isso, conversava em italiano com o filho, falando rapidamente. Cris foi logo gostando da mãe de Antônio. E gostou da cozinha também.O assento das cadeiras era feito de palha entrelaçada, e a madeira era pintadade azul-escuro. Na parede que ficava de frente para Cris, havia uma prateleirade madeira toda adornada, pintada no mesmo tom das cadeiras. Nela ficavamalguns pratos de cerâmica, em tons de branco, azul e amarelo vivos, e umjarro de servir água, nas mesmas cores. Antônio continuava conversando em italiano com a mãe, falando os doisao mesmo tempo, enquanto ela juntava alguns ingredientes aqui e ali. Cris teve vontade de rir da cena. Quanta barulheira e agitação só porcausa do filhinho querido e de seus três amigos, naturalmente exaustos! - Minha mãe ‘tá dizendo que vocês podem ir tomar um banho, sequiserem, enquanto ela prepara uma massa pra nós. Quer que eu traga suamala? perguntou Antônio, olhando para Cris. - Sim, por favor. Gostaria muito de tomar um banho. Tem certeza de quesua mãe não se incomoda? Cris sabia que a mãe de Antônio não se importaria. Talvez ela nãoestivesse gostando era daquele povo todo imundo em sua cozinha limpa earrumadinha. - Vou primeiro, pode ser? disse Cris, olhando para Ted e Katie. Se sua figura estivesse um pouquinho parecida com a de seus amigos,com certeza o banho lhe faria um bem tremendo. Antônio levou Cris até o banheiro. O piso era de cerâmica e a banheiratinha um aspecto curioso. Era pequena e funda, e havia uma espécie de canoligado a ela, que Cris deduziu ser o chuveiro. Demorou um pouquinho atédescobrir como ela funcionava, mas conseguiu. A água quentinha escorrendo-lhe pela cabeça mais parecia um sonho. Cris ensaboou-se rapidamente edepois se trocou, vestindo uma das últimas peças limpas que lhe restavam.
  46. 46. Ao sair do banheiro, avistou Katie, que estava esperando à porta. - Eu e o Ted acabamos de lavar algumas roupas. Adivinhe onde eleslavam roupa?! Lá no quintal, numa tina enorme, onde há uma daquelastábuas antigas de esfregar roupa. Depois a gente pendura tudo num varalamarrado entre duas árvores. Não é engraçado? Foi então que Cris notou que Katie estava toda molhada. - Ah, eu e o Ted fizemos uma guerrinha de água, disse Katie notando oolhar da amiga. É claro que eu ganhei. Você tem de ver como ele ficou. Nem ‘táprecisando de banho mais. Katie parecia bem alegre. Cris deixou a amiga entrar no banho e foi até oquintal para lavar as roupas. Ted estava se secando ao sol, assentado numacadeira, ao lado de Antônio. Pareciam dois velhos conversando. Recostando-seem sua cadeira, Antônio comentava sobre como o tempo estava agradável elimpo em comparação com a região das montanhas, onde haviam acampado.Ted demonstrava estar completamente à vontade, fazendo alguns comentáriossobre o tempo também. Quando a Katie ‘tá por perto ele brinca de guerrinha de água, né? Masquando eu chego, ele nem me vê e fica aí assentado, conversando sobre otempo. Estou me sentindo a própria chata aqui. Foi por minha causa que viemosembora. Talvez o tempo lá no acampamento até já esteja aberto e agradável, enós poderíamos estar lá, lavando as roupas no riacho. Será que estraguei tudo? Cerca de uma hora e meia depois, todos já estavam de banho tomado eassentados à mesa da cozinha, saboreando um verdadeiro banquete. Tedelogiava sem parar a massa, enquanto Katie servia o tempo todo um poucomais de linguiça. Já Cris gostara mais do ravióli. Antônio traduzia oscomentários e elogios dos amigos para a mãe. Ela sorria e gesticulava,indicando que era para eles comerem mais e mais e mais! Cris já não aguentava dar mais nem uma garfada. Mesmo assim, aindahavia bastante comida na mesa. - Antônio, você poderia perguntar à sua mãe se nós podemos ajudá-la aarrumar a cozinha e guardar o que sobrou? Antônio traduziu a pergunta de Cris para a mãe, mas esta foi logodizendo, por meio de gestos, que era para eles irem lá para fora e deixarem acozinha por conta dela.
  47. 47. - A gente pode pelo menos lavar a louça, sugeriu Katie. A mãe de Antônio aceitou a ajuda e, então, os quatro se enfileiraram, afim de lavar e secar os pratos de cerâmica azul e amarela e todas as outrasvasilhas. Com todo aquele bando na pia, lavando a louça às gargalhadas, nãodemorou muito para que tudo ficasse limpo. Ao terminarem, Cris teve aimpressão de que a mãe de Antônio estava feliz ao ver que o bando deixariasua pequena cozinha em paz. Depois do almoço, os quatro foram descarregar e lavar todo oequipamento de camping, usando uma mangueira e uma escova de esfregar,própria para limpeza pesada. Ficaram a tarde toda lavando e esperando aspeças se secarem ao vento, para então guardarem tudo de volta nas caixas.Durante o processo, Cris observou que Katie e Ted trabalharam juntos quaseo tempo todo. Quando terminaram, ele desafiou a amiga para um jogo dexadrez e os dois foram se assentar à sombra das árvores. E lá ficaram,olhando atentamente para o tabuleiro, em concentração total. -será que posso ajudar sua mãe a preparar o jantar? perguntou Crisafinal, cansada de observar Ted e Katie jogando. - Acho melhor não. Ela não fica muito à vontade quando tem alguém nacozinha, respondeu Antônio. O sol já estava quase se pondo quando o pai de Antônio chegou docampo, onde trabalhava arando a terra. Cris teve a impressão de que ele eraum homem severo. Ou então, deveria estar bastante cansado. Era mais baixodo que Antônio, porém mais musculoso. Animado, ele convidou os amigos dofilho a se juntarem a ele à mesa e se pôs a fazer-lhes perguntas, pedindo aAntônio que traduzisse, enquanto comiam. - De quem você herdou olhos tão lindos? perguntou ele a Cris. Do seu paiou da sua mãe? - Não sei muito bem. Acho que é uma mistura dos dois, respondeu ela,sentindo o rosto corar. - Meu pai disse que são os olhos mais lindos que já viu, disse Antônio. Eele tem razão. Cris abaixou a cabeça, procurando manter o olhar fixo no prato. Tinha aimpressão de que todos a encaravam. Em seguida, virou o rosto e, olhandorapidamente para o pai de Antônio, disse timidamente:
  48. 48. - Molte grazie, signore. - Ahh! exclamou o pai, surpreso em ouvir um agradecimento tão educadoem italiano. Falou mais algumas palavras rapidamente e deu um tapinha no braço deAntônio, todo brincalhão. Depois apontou para Cris e bateu novamente nobraço do filho. - Que foi que ele disse? perguntou Cris com certa cautela. Antônio parecia constrangido. Soltou alguma coisa em italiano e, emseguida, seu pai e sua mãe olharam para Ted, surpresos. Ted sorriu para Antônio, sem entender. - O que você disse a eles? Que foi que eu não “pesquei” aqui? perguntouo rapaz. Olhando para o prato, Antônio traduziu para os amigos o que o paidissera. Além do inglês, recorreu à gesticulação. - Ele me perguntou por que eu ainda não pedi a Cris em casamento. Aíeu expliquei pra ele que ela é sua namorada. Cris olhou para Ted. É agora, Ted. Vamos lá. Diga a todos que você élouco por mim e que não consegue viver sem mim. Vamos, quero ouvir você dizerisso. Ted hesitou por alguns momentos. Cris sabia que ele ainda precisavadefinir muitas áreas de sua vida. Era por isso mesmo que lhe dissera váriasvezes que ela poderia ficar à vontade para “dar um tempo” no relacionamentoe voltar quando bem entendesse. E tanto ele quanto ela haviam feito isso. Masserá que ele estava preparado para definir, ali na frente de todos, pelo menosuma dessas áreas de sua vida? Se estivesse, tudo que teria de fazer eraafirmar que Cris era de fato sua namorada. Todos os olhares estavam em Ted. Cris apertava fortemente os lábios,esperando a resposta dele. - Por favor, diga a seu pai que me sinto lisonjeado com a pergunta dele,disse Ted afinal, erguendo o queixo, como costumava fazer. O que ele quer dizer com isso?
  49. 49. A princípio, o pai de Antônio pareceu surpreso com a vaga colocação deTed. Entretanto depois deu um largo sorriso e acenou com a cabeça. Com umaboa gargalhada, sacudiu o dedo olhando para Ted e soltou animadamenteuma porção de palavras em italiano. Cris não tinha certeza se queria ou não ouvir a tradução. - Meu pai disse que você aprendeu cedo o segredo de tudo, que é deixar amulher sempre na dúvida. Ah, isso mesmo. Deixar a mulher sempre na dúvida é a especialidade doTed. E como é que fica nosso relacionamento? Obviamente não numa posiçãotão boa quanto eu imaginava. Cris sentiu um aperto no coração. Era uma sensação antiga, que elaconhecia bem. Não faça isso, Cris. Não se deixe afogar em depressão. O Ted não ‘tárejeitando você. Só ‘tá agindo do jeito normal dele, sem assumir nenhumcompromisso. Já faz cinco anos que vocês desfrutam de uma amizade muitoespecial; uma amizade que é para sempre. Por enquanto você tem de secontentar com isso. Lá no fundo, no entanto, Cris queria bem mais do que a simples amizadede Ted.
  50. 50. 5 Na manhã seguinte, Cris acordou com um sonido de buzina, que vinha ládo portão. Curiosa para ver quem era, pulou da cama e foi até a janela, que seachava entreaberta, pisando com cuidado sobre o tapete para não fazerbarulho. Katie continuava dormindo. Abrindo a cortina branca de renda, viuque um táxi estava parado à porta da casa. Um rapaz italiano alto e elegante, aproximadamente da idade de Antônio,pagava ao motorista. Trajava calça jeans escura, de corte reto, e uma camisasocial branca, com as mangas dobradas. Tinha cabelo escuro e era muitosimpático. Da janela, Cris observava atentamente o rapaz desconhecido. - Ciao! gritou ele. Possivelmente vira Cris na janela, ao se virar. Acenou com uma dasmãos, ergueu sua maleta com a outra e dirigiu-se em direção a ela. Cris porsua vez afastou-se rapidamente e fechou a cortina, escondendo-se dele. Saltou até a cama de Katie e deu uma chacoalhada na amiga, quedormia. - Katie! sussurrou ela. Acorde! - Ahn? balbuciou a amiga, parecendo um pouco contrariada, comosempre ficava de manhã cedo. - Katie, você tem de vir aqui ver esse cara. Acho que sua encomenda demoreno alto e bonitão acabou de chegar! - Do que você ‘tá falando? - Venha, levante-se! disse Cris, puxando a amiga pelo braço. Rápido!Antes que ele entre! - Por que será que você não consegue me deixar em paz quando estoudormindo? disse Katie, soltando um suspiro profundo. Foi então que ouviram uma voz. Assustada, Cris deu um pulo, dando ascostas para Katie. O rapaz desconhecido estava bem ali, na janela do quarto.
  51. 51. Como não havia tela de proteção, ele simplesmente terminara de levantar orestante do vidro e abrira a cortina com as mãos. - Ciao! disse ele. Katie soltou um grito, ao que o rapaz começou a rir e a falar com elas emitaliano. Constrangida, Cris envolveu-se com os braços, procurando escondersua camisola. Rapidamente soltou sua frase de emergência: - Ich verstehe nicht. Então o rapaz lhe respondeu alguma coisa em alemão. - Quem é este cara e afinal, o que ele ‘tá dizendo? perguntou Katie,segurando o braço de Cris. O rapaz soltou outra risada. - Agora já sei quem vocês são. São as amigas americanas do Antônio, nãoé mesmo? disse ele em inglês. Ouvi falar de vocês. É você que é a Cristiana? Cris acenou com a cabeça. - E você deve ser a Katie. Ciao, Katie. - É, sou eu. Oi! disse ela, puxando o lençol até o pescoço. Foi então quealguém bateu à porta, interrompendo aquele desagradável momento. EraAntônio, que entrou no quarto e foi logo conversando em italiano com o rapazdesconhecido, mexendo bastante com as mãos. - Já conhecem meu primo Marcos? perguntou Antônio às duas. - Sim, mais ou menos, respondeu Katie. - Ele ‘tá indo pra Roma. Vocês querem aproveitar e ir com ele? Dez minutos depois, lá estava Cris na cozinha, assentada à mesa,tomando uma xícara de café forte e comendo uns pãezinhos redondos, que pordentro eram macios e, por fora, crocantes. Ao lado dela, os outrosconversavam animadamente, parte em inglês, parte em italiano e,naturalmente, os planos para a próxima etapa da viagem iam surgindo. Marcos havia chegado à cidade de trem, bem cedinho. Para aproveitar otempo, resolvera fazer uma visitinha para os tios. Como estava indo paraRoma, onde faria uma entrega a um dos clientes de seu pai, os três amigos deAntônio poderiam ir com ele. Ficou combinado então que, depois do serviço,Marcos os levaria para conhecer alguns pontos turísticos da cidade.
  52. 52. - Acho melhor fazermos as malas. Algumas de minhas roupas aindaestão no varal, disse Katie ao constatar que o trem partiria dentro de umahora. Cris olhou de relance para Marcos e percebeu que ele olhava para ela.Era mesmo um rapaz simpático. Cris desviou rapidamente o olhar, sentindo orosto corar de constrangimento. Já era a quarta vez que olhava na direção delee, em todas as vezes, o pegara olhando fixamente para ela. - Você pode vir aqui um pouquinho? perguntou Katie, levantando-se damesa e puxando Cris pelo braço. - Claro. Cris se levantou e pôs a xícara e o prato sujos na pia, embora a mãe deAntônio lhe dissesse que não precisava se incomodar. - Grazie, disse Cris a ela. A senhora deu-lhe então um beijo no rosto, e Cris retribuiuamavelmente, dando-lhe também um beijinho e agradecendo novamente emitaliano. A garota já não se sentia constrangida com aquele gesto, pois durantesua estadia na Europa tinha se habituado àquele costume. Katie hesitou um pouco e apenas acenou firmemente com a cabeça. - Obrigada pelo café, disse em seguida. As duas foram saindo da cozinha e Cris olhou rapidamente para Ted. Eleestava olhando para ela. Ela correu os olhos em redor, passando-osrapidamente por Marcos. Ele não estava apenas olhando para Cris. Estavaobservando cada movimento que ela fazia. Assim que as duas saíram pela porta dos fundos e se distanciaram dajanela da cozinha, que estava aberta, Katie pegou Cris pelo cotovelo e a puxouaté o varal. - Afinal de contas, qual é a sua, Cris? - Como assim? Não estou fazendo nada de mais. Cris estava impressionada com a expressão no rosto de Katie. Pareciaenfurecida! - Ah, está sim! Você ‘tá dando em cima do Marcos bem na frente do Ted!Onde é que você ‘tá com a cabeça? Nunca a vi fazendo isso, Cris!

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