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E l i z a b e t h S a a d C o r r ê a
• Professora Titular do Departamento de Jornalismo e Editoração da Escola
de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP)
• Doutora em Ciências da Comunicação pela ECA-USP
• Mestre e graduada em Administração de Empresas, com ênfase
em gestão tecnológica pela Faculdade de Economia e Administração
da Universidade de São Paulo (FEA-USP)
• Responsável pelo conjunto de disciplinas na graduação
e na pós-graduação do Departamento de Jornalismo e Editoração
da ECA-USP que tratam da mídia e dos negócios digitais
• Coordenadora da área de Jornalismo junto ao programa de pós-graduação
em Ciências da Comunicação da ECA-USP
• Coordenadora do Grupo de Pesquisas em Estratégia
e Gestão de Mídias Digitais vinculado ao Programa de Pós-Graduação
em Ciências da Comunicação (PPGCOM) da ECA-USP
• Estrategista web e consultora de empresas
• contato@bethsaad.com.br
Comunicação digital:
uma questão de estratégia
e de relacionamento
com públicos
Resumo
O artigo pretende discutir e delimitar o lugar da comunicação digital na estratégia de
Comunicação Organizacional. Sugere ainda uma sistematização dos conceitos fun-
dadores que norteiam as estratégias de Comunicação a partir do cenário das TICs e
das mídias digitais. Por fim, apresenta o conceito de eficácia comunicacional e alguns
exemplos de práxis brasileira, apontando rumos para a área.
PALAVRAS-CHAVE: COMUNICAÇÃO DIGITAL • COMUNICAÇÃO ORGANIZACIONAL • COMUNICA-
ÇÃO ESTRATÉGICA INTEGRADA
Abstract
The article intends to discuss and delimit the role of digital communication in Orga-
nizational Communication strategies. It presents a systemization of the conceptual
foundations that orientate the Communication strategies when we insert it in the sce-
nario of ICTs and in that of the digital media. Finally, it presents the concept of effec-
tiveness in communication and some examples of the Brazilian praxis, pointing direc-
tions for the area.
KEY WORDS: DIGITAL COMMUNICATION • ORGANIZATIONAL COMMUNICATION • INTEGRATED
STRATEGIC COMMUNICATION
Resumen
El artículo pretende discutir y delimitar el papel de la comunicación digital en las es-
trategias de Comunicación Organizacional. Presenta una sistematización de los con-
ceptos fundadores que orientan las estrategias de Comunicación cuando las inserta-
mos en el escenario de las TICs y de los medios digitales. Finalmente, presenta el
concepto de efectividad de comunicación y algunos ejemplos de la praxis brasileña,
mientras que apunta las direcciones para el área.
PALABRAS CLAVE: COMUNICACIÓN DIGITAL • COMUNICACIÓN ORGANIZACIONAL • COMUNICA-
CIÓN ESTRATÉGICA INTEGRADA
97ANO 2 • NÚMERO 3 • 2º SEMESTRE DE 2005 • organicom •
O tema comunicação digital veio se popularizando no ambiente da Comunicação Em-
presarial com a mesma velocidade da absorção e uso das Tecnologias Digitais de
Informação e Comunicação – as TICs. Um processo acelerado que, ao mesmo tem-
po, abriu todo um campo de inovações, criatividade e dinamismo e também toda uma
sucessão de posicionamentos, usos e escolhas que acabaram por criar incompreensões,
inadequações e entraves no desenvolvimento da rotina comunicacional nas empresas.
Optei por discutir neste artigo a necessidade e a oportunidade de sistematização das
práticas de comunicação digital em ambientes organizacionais, seu vínculo estrito e
indissolúvel com os processos desta comunicação e, especialmente, a importância es-
tratégica da área digital vinculada a uma estratégia de Comunicação Integrada para
qualquer tipo de organização. Quero deixar como mensagem que a chamada comu-
nicação digital é, sim, estratégica, mas não tem sentido e validade se não fizer parte
de um plano de Comunicação geral para a organização, este sim, o ponto vital para
o sucesso da Comunicação nos ambientes empresariais.
Para sustentar tais propostas, além da necessária pesquisa bibliográfica, recorri a al-
gumas fontes de observação empírica – diálogos e vivências com profissionais que atuam
direta ou indiretamente em comunicação digital nas organizações – decorrentes da
interação desta pesquisadora com os atores deste processo em anos recentes, seja em
atividades de treinamento, seja em seus próprios ambientes de trabalho. Considero
fundamental a inclusão da opinião de quem vivencia, na medida em que estamos tra-
tando de um tema ao mesmo tempo novo em termos de existência consolidada e re-
cente em termos da velocidade das mudanças que ocorrem neste cenário, fazendo com
que a temática esteja em constante renovação.
Resumidamente, o objetivo maior desta contribuição é sistematizar os conceitos fun-
dadores que norteiam as estratégias de Comunicação quando inserimos o cenário das
TICs e das mídias digitais. Assim, este artigo deverá abordar o tema por meio da se-
guinte estrutura de conteúdo:
Comunicação e tecnologia: um vínculo indissolúvel
Ao longo da história de nosso processo de socialização, vimos o homem numa busca
de formas, meios e modos de expressar suas necessidades e anseios e, mais do que tu-
do, numa busca de transmitir e dialogar sobre tais expressividades. O homem, não im-
• organicom • ANO 2 • NÚMERO 3 • 2º SEMESTRE DE 200598
portando a época e os recursos, sempre foi o único produtor e controlador desse pro-
cesso – a mediação e, da mesma forma, sempre foi o agente das grandes mudanças
no processo de comunicação humana.
É fato que o processo de comunicação evoluiu na medida em que o homem encon-
trava sinergia entre modos, formas e meios de expressão. É fato que tal evolução vem
sendo marcada pela introdução de novos modus faciendi e modus operandi que foram
se sofisticando em patamares equivalentes à evolução do conhecimento e das tecno-
logias.
Portanto, destaco inicialmente a necessidade de compreendermos os conceitos fun-
dadores do jargão do processo de inovação tecnológica em nossa sociedade: a ruptu-
ra e as aplicações transformadoras (as killer applications).
Estar envolvido no planejamento estratégico da Comunicação em qualquer grupa-
mento social exige a compreensão de tais conceitos, pois, é a partir da vivência e ex-
perimentação deles decorrentes que os processos de Comunicação passam da eficiên-
cia para a eficácia.
Assim, o planejador da Comunicação contemporâneo, que vive a revolução digital,
tem por missão a introjeção e a aplicação adequada dos conceitos de killer application,
definido por Downes & Mui (2000) como “todo novo bem ou serviço que estabelece
toda uma nova categoria na economia e, que por ser pioneiro, domina o mercado e
traz retornos significativos para o investimento inicial”, e de ruptura tecnológica, cu-
ja definição agregada de diferentes autores refere-se a um cenário onde a introdução
de uma killer application resulta na piora da performance do produto ou serviço im-
pactado, pelo menos no médio prazo, e que tem a capacidade de criar novos valores
e condições do mercado, inclusive pela adição de novos clientes, pois os produtos de-
correntes da ruptura são mais baratos, mais simples, mais compactos e, quase sem-
pre, mais convenientes ao uso.
COMUNICAÇÃO DIGITAL: UMA QUESTÃO DE ESTRATÉGIA E DE RELACIONAMENTO COM PÚBLICOS • ELIZABETH SAAD CORRÊA
99ANO 2 • NÚMERO 3 • 2º SEMESTRE DE 2005 • organicom •
De forma direta, podemos dizer que hoje as TICs equivalem à killer application que
produz serviços e produtos de comunicação específicos para a ambiência digital, com
os quais o comunicador tem que criar, planejar e implementar estes novos serviços e
produtos para que o seu trabalho alcance os resultados esperados.
Ocorre que, na prática, assistimos a um processo jamais visto de inovação/absorção
de tecnologias para alavancar a comunicação humana que chega à beira do incontro-
lável. Um dos dilemas do comunicador contemporâneo é dar conta da compreensão
deste processo, seu uso e sua obsolescência. Seria possível e necessário?
Para o campo da Comunicação (e para muitíssimos outros), têm-se tomado como pa-
râmetros orientadores de tendências estudos macroeconômicos e estatísticos como a
teoria das ondas de Kondratieff, as curvas de aprendizagem, a teoria de Bright e as
análises de Christiansen, entre outros, que posicionam a internet como uma tecnolo-
gia de ruptura que veio para ficar por pelo menos 50 a 60 anos. Um detalhado estu-
do elaborado por Santos e Devezas (2003), pesquisadores da Universidade da Beira
Interior, em Portugal, aponta que:
“a internet constitui-se em uma autêntica inovação de base, que está a transformar
profundamente todo o sistema socioeconómico. Através da análise da sua evolução
histórica podemos verificar que desde a sua génesis até agora, já foram cumpridos cla-
ramente os seis primeiros estágios da inovação de base segundo a classificação de Bright,
podendo-se já notar fortes manifestações do 7º estágio, isto é, o seu impacto economi-
co-social. Ao longo da última década do século XX surgiram um grande número de
novas empresas e um imenso número de novos empregos e novas actividades profis-
sionais. Algumas das novas empresas geradas neste período adquiriram enorme di-
mensão financeira (Amazon, eBay, Yahoo! etc.), verificaram-se grandes fusões (AOL-
Time Warner, Compaq-HP etc.), e uma nova economia vem crescendo, atraindo para
dentro dela outros sectores tradicionais da economia. Acima de tudo, cumprindo
aquela característica fundamental de todas as inovações de base, os hábitos das pes-
soas estão a transformar-se em função dela, inserindo-se profundamente no seu quo-
tidiano.
A análise quantitativa da evolução permite-nos mostrar que o seu crescimento é logís-
tico, com um tempo característico de cerca de 23 anos, valor este compatível com os apre-
sentados por outras inovações de base que a precederam. Este crescimento atingirá até
ao ano de 2004 a sua saturação quando então, o seu crescimento físico completar-se-á,
dando lugar a um novo ciclo da sua existência, o da consolidação final.
Verifica-se que todo o processo evolutivo da Internet está perfeitamente em fase com o
desenvolvimento da última onda (4ª) de Kondratieff. A sua Fase de Invenção correspon-
deu à fase ascendente e recessão primária desta onda, e a sua Fase da Inovação corres-
pondeu à fase descendente. A sua Fase de Difusão já está iniciada e será a base do ar-
ranque para a próxima fase de expansão económica correspondendo ao início da 5ª onda
de Kondratieff.”
Se considerarmos o uso das TICs1 como divisor de águas, fica evidente a aceleração
dos ciclos tecnológicos da comunicação humana. Aceitando que uma das primeiras
formas de expressividade do homem foram as pinturas rupestres do homem das caver-
nas (a ruptura inicial), vemos um longo processo de esforços do homem para ampliar,
acelerar e encurtar os processos de disseminação de suas mensagens, com uma suces-
são de rupturas: o uso da força motora animal e mecânica para disseminação de men-
sagens; a invenção da prensa e a formatação do livro, marcando a reprodução em sé-
rie e a difusão do conhecimento; a introdução da eletricidade nos meios de comunicação
desencadeando uma série de suportes e instrumentos como o telégrafo, o rádio, o te-
lefone, o cinema, e a televisão entre outros; a ruptura da reprodução e armazenamen-
to da imagem e do som com os gravadores de áudio, os videocassetes, chegando aos
CDs e DVDs; a ruptura da massificação das mensagens com a aldeia global preconi-
zada por Marshall McLuhan; até chegarmos aos últimos vinte anos, quando as trans-
formações ocorridas superaram todas as rupturas anteriores.
Este dilema – a relação indissolúvel entre comunicação e tecnologia – coloca o comu-
nicador contemporâneo num constante exercício de correlação entre a ciência das TICs
e a arte de comunicar. Aqui, muito antes do pensamento comunicacional estratégi-
co, temos que encontrar o equilíbrio entre constatações típicas da Ciência, a exemplo
dos princípios, das recorrências fundantes, das explicações, das descobertas e das aná-
lises, e a característica criativa da arte de comunicar, numa rotina em que predomi-
nam as práticas, a experimentação de performances, a ação, a invenção, a síntese e a
construção.
O lugar da comunicação digital
A Comunicação Empresarial contemporânea, não só pelos aspectos tecnológicos já
apontados, mas fundamentalmente pela mudança social que as TICs aportaram pa-
ra as ações de informar e comunicar, tem sido considerada como área estratégica em
uma quantidade cada vez mais significativa de organizações ou agrupamentos sociais.
Ao mesmo tempo e exatamente por sua instância, não se pode pensar esta comuni-
cação sem uma visão de seu planejamento integrado e alinhado à estratégia global da
organização. Na seqüência, se estratégica e integrada, a Comunicação contemporâ-
nea também atua direta e diferencialmente no processo de competitividade global em
que as empresas hoje se vêem inseridas.
A exemplo do item anterior, são diversas as referências na literatura que sustentam
esta visão. Optamos por apresentar alguns conceitos desenvolvidos por docentes e/ou
pesquisadores nacionais, sem deixar, evidentemente, de considerar outros autores e
COMUNICAÇÃO DIGITAL: UMA QUESTÃO DE ESTRATÉGIA E DE RELACIONAMENTO COM PÚBLICOS • ELIZABETH SAAD CORRÊA
• organicom • ANO 2 • NÚMERO 3 • 2º SEMESTRE DE 2005100
1 Aqui consideradas como o salto da base tecnológica analógica para a digital.
referências internacionais que, pela delimitação de espaço para este artigo, não foram
incluídos.
O professor Wilson Bueno (2000: 50), ao discorrer sobre o papel estratégico da Co-
municação nas empresas, afirma que
“A Comunicação Empresarial evoluiu de seu estágio embrionário, em que se definia co-
mo mero acessório, para assumir, agora, uma função relevante na política negocial das
empresas. Deixa, portanto, de ser atividade que se descarta ou se relega ao segundo pla-
no, em momentos de crise e de carência de recursos, para se firmar como insumo estra-
tégico, de que uma empresa ou entidade lança mão para idealizar clientes, sensibilizar
multiplicadores de opinião ou interagir com a comunidade”.
Em sua essência, a Comunicação Organizacional tem por função estabelecer os ca-
nais de comunicação e respectivas ferramentas para que a empresa fale da melhor ma-
neira com seus diferentes públicos. Nesse sentido, todas as possibilidades de relacio-
namento com estes públicos devem estar integradas e alinhadas pela mesma visão
estratégica, por um discurso uniforme e pela coerência das mensagens. Tal processo
de integração estratégica envolve, segundo as proposições da professora Margarida
Kunsch, um composto comunicacional que envolve a Comunicação Interna, a Comu-
nicação Mercadológica (aquela vinculada diretamente aos produtos e serviços da or-
ganização) e a Comunicação Institucional (aquela que trata da imagem e da presen-
ça da organização em seus diferentes ambientes de atuação e influência). Para Kunsch
(2003:90),
“As organizações têm de se valer de serviços integrados nessa área, pautando-se por po-
líticas que privilegiem o estabelecimento de canais de comunicação com os públicos vin-
culados. A abertura de fontes e a transparência das ações serão fundamentais para que
as organizações possam se relacionar com a sociedade e contribuir para a construção
da cidadania na perspectiva da responsabilidade social”.
Este é o cenário que abriga a chamada comunicação digital nas empresas. Ela ocor-
re estratégica e integradamente no composto comunicacional da organização.
Portanto, considero que não podemos falar em Comunicação digital organizacional
sem compreender e conhecer o plano estratégico de comunicação global. Assim, não
cabe na proposição deste artigo restringir a comunicação digital à simples existência
de um sítio na Internet ou a uma Comunicação Interna feita por meio do correio ele-
trônico. São visões inadequadas e reducionistas para uma proposta muito mais fun-
dante.
Assim, apresento uma proposta de organização do conceito de comunicação digital
coerente às proposições dos autores citados e, ao mesmo tempo, que seja clara e ob-
jetiva para sua aplicação por parte dos comunicadores.
COMUNICAÇÃO DIGITAL: UMA QUESTÃO DE ESTRATÉGIA E DE RELACIONAMENTO COM PÚBLICOS • ELIZABETH SAAD CORRÊA
101ANO 2 • NÚMERO 3 • 2º SEMESTRE DE 2005 • organicom •
• organicom • ANO 2 • NÚMERO 3 • 2º SEMESTRE DE 2005102
COMUNICAÇÃO DIGITAL: UMA QUESTÃO DE ESTRATÉGIA E DE RELACIONAMENTO COM PÚBLICOS • ELIZABETH SAAD CORRÊA
Conceituamos comunicação digital de per si como o uso das Tecnologias Digitais de
Informação e Comunicação (TIC’s), e de todas as ferramentas delas decorrentes, pa-
ra facilitar e dinamizar a construção de qualquer processo de Comunicação Integra-
da nas organizações. Falamos, portanto, da escolha daquelas opções tecnológicas, dis-
poníveis no ambiente ou em desenvolvimento, cujo uso e aplicação é o mais adequado
para uma empresa específica e respectivos públicos específicos.
Com isso, nem todo o processo comunicacional de uma organização é digital ou di-
gitalizável, e nem toda TIC é adequada à proposta de Comunicação Integrada de uma
dada organização. Temos, portanto, que definir e desenvolver no ambiente de Comu-
nicação Organizacional o plano de comunicação digital integrada, baseado e susten-
tado pelo próprio plano de comunicação estratégica integrada.
Sistematizando, a comunicação digital integrada é construída a partir de uma avalia-
ção de cada ação comunicacional prevista para as três grandes vertentes da Comuni-
cação Integrada – Institucional, Interna e Mercadológica – e de seu cotejamento face
ao público a que se dirige e ao nível de eficácia ampliado caso a ação seja executada
por meio do uso das TICs.
A Figura 1 apresenta esquematicamente nossa visão:
Comunicação DIGITAL integrada
Comunicação
Institucional
Comunicação
Interna
Comunidades
de interesse
Newsletters
Comunicação
Digital
Integrada
Relações Públicas
Marketing social
Marketing cultural
Jornalismo
Assessoria de
imprensa
Identidade
corporativa
Propaganda
institucional
Marketing
Propaganda
Promoção de vendas
Feiras e
exposições
Marketing direto
Merchandising
Venda pessoal
Comunicação
Mercadológica
Fonte: Autora
COMUNICAÇÃO DIGITAL: UMA QUESTÃO DE ESTRATÉGIA E DE RELACIONAMENTO COM PÚBLICOS • ELIZABETH SAAD CORRÊA
103ANO 2 • NÚMERO 3 • 2º SEMESTRE DE 2005 • organicom •
Um conceito correlacionado pode ser identificado no processo de comunicação di-
gital integrada – a eficácia comunicacional. Integrar os recursos das TICs a partes e
públicos específicos do plano de Comunicação Integrada de uma empresa exige que
escolhas e decisões estejam baseadas no conceito de eficácia, não devendo o comu-
nicador contentar-se apenas com a eficiência.
Maximiano (2003) desenvolve extensa reflexão sobre os termos. Resumimos a seguir
suas principais idéias. A eficiência pode ser entendida como o esforço da empresa e
seus colaboradores em fazer corretamente as atividades planejadas. Assim, tais es-
forços concentram-se nos meios e modos de execução, na resolução de problemas e
na salvaguarda dos recursos disponíveis. Numa metáfora simplista, ser eficiente é se-
guir estritamente a receita de um bolo padrão para que ele seja consumido pelos co-
mensais.
Já a eficácia traz em sua essência uma valoração e o uso de critérios para a execução
das ações empresariais. Uma empresa ou uma ação são eficazes quando ocorre uma
avaliação da forma mais adequada para sua execução, objetivando resultados e metas
previamente acordados, dentro de uma proposta de otimização dos recursos disponí-
veis. Retomando a mesma metáfora, ser eficaz é fazer um ou mais bolos específicos
para cada necessidade dos diferentes comensais que aguardam na boca do forno.
Transpondo estas idéias para o ambiente da Comunicação Empresarial integrada,
podemos dizer que de maneira geral, toda e qualquer ação de comunicação é com-
posta por dados e informações que podem ser recuperáveis a partir dos meios digi-
tais. Numa visão de eficiência, este processo de recuperação e digitalização é sufi-
ciente. Mas, quando a área de Comunicação de uma organização começa a analisar,
dentro do quadro geral de ações, quais poderão ser recuperadas, como e para quê
recuperará-las num contexto de tecnologias digitais, iniciamos um movimento ru-
mo à eficácia da comunicação digital. Por fim, aspectos como o tratamento comu-
nicacional, visual e arquitetônico do material recuperado – aquilo que emerge nas
telas de todos na empresa e nos clientes – serão determinantes para o sucesso da co-
municação digital.
Construção da estratégia de comunicação
digital e seus sistemas de representação
Alinhamento e integração à estratégia global de Comunicação, acrescidos das espe-
cificidades dos diferentes públicos diante dos meios digitais, exigem um processo de-
talhado de concepção e construção do composto de comunicação digital. É o que de-
nominamos de estratégia de comunicação digital, um processo que se inicia pela
compreensão de suas duas variáveis determinantes – estratégia e ambiente digital –,
e por um delineamento claro do ambiente da empresa em seu espectro de atuação.
Novamente, por conta das delimitações formais deste artigo, apresentamos a seguir
um brevíssimo referencial destas variáveis determinantes.
Por que estratégia? Considerando que a comunicação digital é parte do plano de Co-
municação Integrada da empresa, não seria mais simples o uso de termos como ações,
tarefas ou até mesmo planos?
Iniciamos pelo conceito de estratégia. Definir o que é estratégia é uma tarefa que nem
mesmo os mais conhecidos autores sobre o tema, como Stoner, Igor Ansoff, Peter
Drucker, Henry Mintzberg, C.K. Prahalad e Michael Porter, os chamados gurus da
administração das décadas de 80/90, chegaram a cumprir por inteiro, pois falamos de
um processo de percepção empresarial totalmente vinculado ao ambiente, ao momen-
to e às pessoas. Agregando as diferentes visões, vemos que ao trabalharmos com es-
tratégia das organizações e discutirmos os seus processos de formulação e implemen-
tação, estamos tratando, ao mesmo tempo, de aspectos do ambiente interno e externo,
da estrutura de funções e comunicação, do desenvolvimento e construção de produ-
tos e/ou serviços e de suas funções de distribuição e divulgação, bem como das rela-
ções com os clientes e também com outras entidades do ambiente.
Zaccarelli (2000) propõe sua visão de estratégia moderna, quando a empresa deixa de
focar atenções apenas em análises e processos lógicos, muito característicos do pla-
nejamento estratégico, e passa a enfatizar a importância do jogo competitivo. No con-
ceito de estratégia moderna, objetivos, planos, táticas e metas estão no plano de res-
posta à pergunta que deve pairar em todas as mentes de uma empresa: “Com quem
disputamos o sucesso?” Para isso, a empresa deve estar em permanente estado de aten-
ção para promover as mudanças certas, na hora certa.
Pontuando e sistematizando, consideramos que:
• estratégia envolve tomada de decisões acerca de produtos e tecnologia a serem de-
senvolvidos e/ou absorvidos; da seleção do mercado e tipo de clientes a serem atin-
gidos; e da criação e manutenção de vantagens competitivas;
• tal tomada de decisões pode ocorrer em nível genérico ou corporativo – a estraté-
gia corporativa (corporate strategy), mas também em níveis específicos do negócio
– a estratégia de negócios (business strategy);
• cabem no conceito e nas ações de configuração estratégica termos/atividades co-
mo: adequar o ambiente e a empresa; processos formais de análise; posicionamen-
to de mercado; processo de aprendizado; trabalhar a cultura organizacional; de-
senvolver a visão de um líder; processo mental; reação ao ambiente; negociar e
construir alianças, entre outras.
Com o avanço das TICs, evidenciado a partir do início dos anos 1990, praticamente to-
das as grandes empresas, e posteriormente também as médias e pequenas, engajaram-
COMUNICAÇÃO DIGITAL: UMA QUESTÃO DE ESTRATÉGIA E DE RELACIONAMENTO COM PÚBLICOS • ELIZABETH SAAD CORRÊA
• organicom • ANO 2 • NÚMERO 3 • 2º SEMESTRE DE 2005104
se nesse processo de transformação tecnológica paradigmática, no qual convulsio-
nam-se os tradicionais papéis de emissor e receptor das mensagens. Com isso, as TICs
assumem uma competência social, pois, sua performance deve encaixar-se nos pa-
drões existentes das interações humanas para que ela seja significativa num sistema so-
cial específico. Tal competência, conforme análise apresentada por Corrêa (1994: 63),
“deve avaliar os valores culturais face aos conteúdos gerados pelas novas mídias e, fe-
chando o círculo, avaliar o impacto das mídias nos valores culturais [...] com isso, os
determinantes das tecnologias de informação estão absolutamente relacionados às ques-
tões culturais, seus valores e seus recursos, diferenciando, ou melhor, ampliando o con-
ceito do processo de inovação tecnológica, e da formulação de sua estratégia”.
No item 2 deste artigo exploramos o conceito de tecnologia de ruptura vinculado às
TIC’s e que deve ser aqui retomado para fecharmos o conceito de estratégia de co-
municação digital. Christiansen (1997: XV) reafirma o conceito de ruptura e das con-
seqüentes mudanças empresariais para a sua absorção e alcance da competitividade.
Para ele, a maioria das inovações tecnológicas é decorrente de melhorias no desem-
penho dos produtos – são as chamadas tecnologias de sustentação. Em geral, seus resul-
tados reforçam a satisfação e as necessidades dos consumidores já conquistados e, prin-
cipalmente, quase nunca provocam insucessos empresariais. Vez por outra, emergem
no mercado tecnologias de ruptura que resultam na piora da performance do produ-
to ou serviço, pelo menos no médio prazo, e defende que as tecnologias de ruptura
têm a capacidade de criar novos valores e condições do mercado, inclusive pela adi-
ção de novos clientes, pois os produtos decorrentes da ruptura são mais baratos, mais
simples, mais compactos e, quase sempre, mais convenientes ao uso.
Segundo o autor, a Internet é uma tecnologia classificada como de ruptura que, em
curto prazo, piora a performance do produto ou serviço comunicacional ao qual a em-
presa está habituada, pois os indicadores de desempenho existentes não são adequa-
dos à inovação digital.
Um outro aspecto que pesa na construção de uma estratégia de comunicação digital
é que empresas em geral convivem simultaneamente com a rotina baseada em tecno-
logias já dominadas e a cobrança do mercado em inovar por caminhos desconheci-
dos. Nesse ambiente, as decisões empresariais lógicas e competentes que são cruciais
para o sucesso de curto e médio prazo, em geral levam a insucessos se aplicadas a ino-
vações tecnológicas de ruptura. O dilema é como tomar decisões simultâneas e anta-
gônicas sem encarar prejuízos e perdas?
Qualquer executivo de sucesso sabe que é preciso sair do dilema no mínimo intacto,
e, na melhor das hipóteses, com o sucesso incondicional. Downes e Mui (1998: 58)
afirmam que “a mudança nos princípios básicos da estratégia está no ‘como’ se desenvolvem
produtos e se tornam operacionais. Para ter sucesso no mundo digital é preciso comer, dormir,
respirar e pensar digitalmente”.
COMUNICAÇÃO DIGITAL: UMA QUESTÃO DE ESTRATÉGIA E DE RELACIONAMENTO COM PÚBLICOS • ELIZABETH SAAD CORRÊA
105ANO 2 • NÚMERO 3 • 2º SEMESTRE DE 2005 • organicom •
Um último aspecto fundamental e que, em geral, quando falamos de estratégias di-
gitais ou posicionamentos das empresas com relação à Internet, acabamos por consi-
derar como um dado, é o real significado da Internet para cada empresa. Martin
(1996: 89) afirma que toda e qualquer estratégia de presença digital de uma empresa
deve partir de um conceito claro do que é a Internet para o negócio. Sua proposta:
“Internet não deve ser considerada apenas mais um meio de comunicação. Ela é o sistema de
circulação da nova economia [...] a armadilha que geralmente vemos é confundir a tecnologia
e o que ela possibilita através da internet com as necessidades do mercado. A internet é um meio
para um fim e não um fim em si mesma. Reconhecer essa diferença é igual à compreensão da
sociedade sobre o telefone, que se tornou uma aplicação fundamental por facilitar a comunica-
ção e não porque era apenas uma inovação tecnológica”.
Se temos, de um lado, a delicada operação empresarial que se desencadeia ao assu-
mir as TICs como parte do processo de Comunicação Empresarial com seus diferen-
tes públicos, temos, de outro lado, a compreensão exata das características digitais
das mensagens. A mensagem difundida por meio das ferramentas da comunicação
digital difere em sua essência daquelas verificadas nas formas de comunicação tradi-
cionais.
Reforçando, o medium Internet requer mudanças nos processos editoriais e de lin-
guagem para aproveitar as novas possibilidades de estruturação narrativa através do
hipertexto, da multimídia e da interatividade. Para o professor espanhol Ramón Sa-
laverría, o marco conceitual que sustenta a diferença de estruturas narrativas entre
a comunicação tradicional e a comunicação digital está na retórica. Assim, segun-
do Salaverría (2005: 23), “o contexto retórico – aquele que resulta da combinação de cir-
cunstâncias específicas do emissor, do receptor, do canal, da linguagem e do conteúdo da men-
sagem – é diferente. [...] o jornalismo impresso (e da mesma forma o televisivo e o radiofônico)
não é igual ao ciberjornalismo pela simples razão de que cada canal impõe um contexto re-
tórico próprio.”
O contexto retórico do ciberespaço ou das redes digitais transforma completamente
os fatores referenciais de tempo e espaço. No dizer de Salaverría, tal contexto apre-
senta um policronismo – as múltiplas relações temporais que ocorrem entre a emis-
são e a recepção no ciberespaço – fazendo com que uma única elocução feita por um
emissor possa ser recebida em coordenadas temporais completamente diferentes e por
receptores distintos; e, uma multidirecionalidade – a troca de muitos para muitos, fa-
zendo com que apenas no ciberespaço ocorram trocas comunicacionais personaliza-
das e interativas.
Assim, qualquer forma narrativa para o meio digital deve obrigatoriamente estar in-
serida no contexto retórico da policronia e da multidirecionalidade, sem que isto
comprometa a compreensão e interpretação do sentido das mensagens por parte
dos receptores, seja qual for a sua coordenada temporal e espacial. Além disso, de-
COMUNICAÇÃO DIGITAL: UMA QUESTÃO DE ESTRATÉGIA E DE RELACIONAMENTO COM PÚBLICOS • ELIZABETH SAAD CORRÊA
• organicom • ANO 2 • NÚMERO 3 • 2º SEMESTRE DE 2005106
ve incorporar as características-chave da comunicação nos meios digitais, a saber: a
hipertextualidade – a capacidade de interconectar diversos textos digitais entre si; a mul-
timedialidade – a capacidade, outorgada pelo suporte digital, de combinar na mesma
mensagem pelo menos um dos seguintes elementos: texto, imagem e som; e a intera-
tividade – a possibilidade do usuário interagir com a informação disponibilizada no meio
digital.
Uma vez definidas as variáveis determinantes do processo de comunicação digital das
empresas, é chegado o ponto essencial – a construção da comunicação propriamen-
te dita – as mensagens mais adequadas para cada tipo de público, correlacionadas à
ferramenta digital específica.
COMUNICAÇÃO DIGITAL: UMA QUESTÃO DE ESTRATÉGIA E DE RELACIONAMENTO COM PÚBLICOS • ELIZABETH SAAD CORRÊA
107ANO 2 • NÚMERO 3 • 2º SEMESTRE DE 2005 • organicom •
O primeiro conjunto a ser considerado na formatação da comunicação digital de uma
empresa é a sua cultura e a relação desta cultura com os quesitos de inovação, tecno-
logia, uso de computadores, de Internet, entre outros. Por exemplo, de nada adianta
A Figura 2 apresenta esquematicamente a estrutura que envolve a construção
da estratégia de comunicação digital:
Fonte: Autora
CULTURA DA EMPRESA
CONTEÚDO
INSTITUCIONAL
CONTEÚDOS ESPECÍFICOS
COM RECURSOS HIPERMÍDIA
AMBIENTE-TAREFA
FORNECEDORES
P
Ú
B
L
I
C
O
S
PROSPECTS
CONCORRENTES
uma empresa lançar um portal de relacionamento digital com seus clientes se, inter-
namente, em suas crenças e valores, usar computador não é fator determinante.
O segundo conjunto refere-se aos públicos estratégicos da empresa. Quem são e quais
suas afinidades com o ambiente digital vivenciado. Por exemplo, se a empresa consi-
dera a comunidade de moradores do entorno de sua sede como um público estraté-
gico, há que se verificar se este grupo tem por hábito o uso do computador e o aces-
so à Internet em sua rotina. Definir qual o suporte tecnológico para a criação de um
canal direto de comunicação comunidade-empresa depende desta avaliação de uso.
Um fale conosco disponível na página web da empresa só será eficaz se esta comunida-
de usa intensivamente a mídia digital. Caso contrário, provavelmente uma linha tele-
fônica ou um balcão de atendimento presencial sejam mais eficazes.
É a partir da combinação cultura-características dos públicos que se inicia a estrutu-
ração do conteúdo das mensagens comunicacionais, formatadas quase que de forma
personalizada. Inclui-se neste conteúdo o que chamamos de institucional, qual seja,
o conjunto de informações sobre a empresa que devem ser transmitidas independen-
temente das características de cada público estratégico.
Chegamos, por fim, à última etapa de construção da estratégia de comunicação digi-
tal – a definição de seus sistemas de representação. Embora um sítio na web ou um
portal corporativo sejam as formas mais evidentes e visíveis, existe uma multiplicida-
de de outros recursos de base digital que podem ser utilizados conforme a ação pla-
nejada, o conteúdo das mensagens, a característica do público e as respostas espera-
das. É aqui que se percebe o exercício da arte de comunicar sem a perda da eficácia.
Também é neste mesmo espectro que o comunicador corre o risco da ineficácia por
conta da inadequação do recurso.
Atualmente os sistemas de representação mais comuns são: e-mail marketing, fóruns,
interfaces gráficas – websites, intranets, portais corporativos, ferramentas de busca,
transações, multimídia, mensagens instantâneas. E algumas das potenciais ineficácias
decorrentes passam por situações como spam, excesso de informação, percepção de
marca inadequada, usabilidade, design e layout não centrados no usuário, arquitetu-
ra complexa, conteúdo confuso, problemas técnicos no acesso ao site, entre outros.
O detalhamento de cada um dos sistemas de representação e suas potenciais ineficá-
cias extrapola os propósitos deste artigo.
A busca da eficácia comunicacional e a práxis
Apresentei até este ponto as principais idéias que considero fundantes para pensar
a comunicação digital nos ambientes empresariais como uma ferramenta diferen-
cial.
COMUNICAÇÃO DIGITAL: UMA QUESTÃO DE ESTRATÉGIA E DE RELACIONAMENTO COM PÚBLICOS • ELIZABETH SAAD CORRÊA
• organicom • ANO 2 • NÚMERO 3 • 2º SEMESTRE DE 2005108
Por outro lado, sabemos que a aceleração e a competitividade que pautam a rotina
empresarial exigem respostas eficazes, em espaços de tempo muito curtos, podendo
inviabilizar uma proposta de construção estratégica como a que apresentei.
Não se conquista eficácia comunicacional no ambiente digital de forma instantânea
e a mesma pode ser atingida por meio de patamares que vão evoluindo conforme as
necessidades do ambiente empresarial.
Numa compilação de informações coletadas junto a fontes primárias2 – profissionais
que atuam direta ou indiretamente com comunicação digital e com diferentes posi-
ções das estruturas empresariais – pudemos notar que existem áreas sensíveis para a
comunicação digital e que o mercado convive com uma sucessão de paradoxos.
Apenas para ilustrar essas opiniões, detectamos que, de maneira geral, existe uma vi-
são positiva do uso da comunicação digital nas empresas, mas, ao mesmo tempo, di-
ficuldades neste uso. Algumas das fontes apontam, por exemplo, que durante a ela-
boração do conteúdo de uma ação de comunicação digital ocorrem precipitações e
ruídos na elaboração das mensagens e em seu processo de distribuição eletrônica. No
caso de empresas globais, os entraves aparecem na diferença de culturas que não po-
dem ser adequadas por conta de sistemas de representação fechados e uniformes
mundo afora. Um outro ponto identificado refere-se à comunicação interna que, ape-
sar de potencializada e valorizada com as intranets, acaba massificando o conteúdo
das mensagens, num processo de redução de custos pela digitalização.
Pudemos notar, ainda, uma forte relação direta entre tamanho da empresa e intensi-
dade de uso da comunicação digital sem o adequado processo de planejamento e im-
plementação. Por fim, a convivência e a dificuldade de compatibilização e equilíbrio
entre sistemas de representação digitais e analógicos ou tradicionais. São muitos os
casos de supressão do jornal interno impresso e sua transposição integral em versão
PDF para as páginas da intranet, um dos mais graves erros contra a multimedialidade
e as características do público leitor.
O cenário refletido reforça nossa proposição de que estamos vivenciando um proces-
so longo, adaptativo e diretamente vinculado ao timing de cada empresa e respectivos
ambientes.
No momento, alguns patamares de eficácia comunicacional digital podem ser siste-
matizados, todos balizados por três variáveis-chave: o grau de tratamento da informa-
ção no meio digital, o grau de visibilidade e diferenciação que se objetiva no ciberes-
COMUNICAÇÃO DIGITAL: UMA QUESTÃO DE ESTRATÉGIA E DE RELACIONAMENTO COM PÚBLICOS • ELIZABETH SAAD CORRÊA
109ANO 2 • NÚMERO 3 • 2º SEMESTRE DE 2005 • organicom •
2 O levantamento em questão foi realizado de forma não estruturada ao longo dos anos de 2004 e
2005, perfazendo em torno de 100 fontes entrevistadas ou contatadas.
paço, e o grau de segmentação e personalização que se confere aos públicos estraté-
gicos.
Desta forma, poderíamos identificar os seguintes patamares de busca da eficácia co-
municacional:
• comunicação digital zero: refere-se a uma visibilidade genérica e unidirecional no
ambiente digital, voltada para qualquer público sem identificação e oferecendo um
conteúdo linear e estático, sem qualquer possibilidade de aprofundamento ou cor-
relação;
• eficiência comunicacional: refere-se ainda a uma visibilidade genérica com um maior
cuidado no tratamento do conteúdo das mensagens. A empresa define um siste-
ma computacional de gestão das informações, possibilitando a organização hierár-
quica dos dados para produzir correlações e conseqüentes significados, sua repre-
sentação semântica associada à subjetividade e significação junto aos públicos, e a
inclusão de maiores cuidados com os aspectos de identidade visual, arquitetura e
design, aumentando as possibilidades de percepção por parte dos públicos. Neste
patamar ainda não se definem com clareza as diferenças entre os públicos estraté-
gicos;
• eficiência comunicacional em transição: aqui já podemos identificar diferentes pú-
blicos estratégicos e o uso paulatino de sistemas de representação bidirecionais,
que permitem o diálogo e a interação. Existem planos específicos de geração e tro-
ca de mensagens de formas diferenciadas para cada ação e uma definição da iden-
tidade visual e da arquitetura da informação que apóia esta construção de relacio-
namentos com os públicos.
Optamos por não configurar o último patamar – a própria eficácia comunicacional
– uma vez que estamos em plena transição. Encerramos esta contribuição com algu-
mas considerações que favorecem o atingimento da eficácia. Ela ocorrerá quando: as
informações digitalizadas – mensagens, conteúdos – passam pelo crivo de pessoas, en-
trando no mundo real; conseguem produzir conhecimento no público focado; pro-
duz aplicações pragmáticas e conectadas com o mundo real; ocorre a interação do usuá-
rio com a interface como parte da experiência; gera competências e capacidade de
aplicação do conhecimento em diferentes situações do mundo real.
Portanto, e finalizando: quanto mais integrada a proposta de comunicação com os di-
ferentes públicos no meio digital, mais complexo o sistema de representação; quanto
maior a complexidade, maiores as possibilidades de ações de relacionamento eficazes
com os públicos.
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Bibliografia
BUENO, Wilson da Costa. A Comunicação como espelho das culturas empresariais. Revista Imes - Comunicação,
ano I, nº 1, jul/dez 2000.
CHRISTIANSEN, Clayton M. The innovators dilemma: when new technologies cause great firms to fail. Boston:
Harvard Business School Press, 1997.
CORRÊA, Elizabeth Saad. Tecnologia, Jornalismo e competitividade: o caso da Agência Estado. Tese de doutora-
mento apresentada junto ao Departamento de Jornalismo e Editoração da ECA-USP. São Paulo: ECA-USP,
1994. Documento mimeografado.
DOWNES, Larry e MUI, Chunka. Unleashing the killer App: digital strategies for market dominance. Boston: Harvard
Business School Press, 1998.
KUNSCH, Margarida Maria Krohling. Planejamento de Relações Públicas na Comunicação Integrada. 4ª. Ed. São
Paulo: Summus, 2003.
MARTIN, Chuck. The Digital Estate: strategies for competing, surviving and thriving in an internetworked world.
New York: McGraw Hill: 1996.
MAXIMIANO, Antonio Cesar Amarú. Introdução à Administração. São Paulo: Atlas, 2003.
SANTOS, Humberto e DEVEZAS, Tassaleno Campos. Análise e interpretação do crescimento da internet. Disponível
em http://www.dem.ubi.pt/~humberto/Investiga/html/sintese-8.htm, e acessado em 31 de janeiro de 2006.
ZACCARELLI, Sergio B. Estratégia e sucesso nas empresas. São Paulo: Saraiva, 2000.
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Comunicação digital estratégica e relacionamento com públicos

  • 1.
  • 2. E l i z a b e t h S a a d C o r r ê a • Professora Titular do Departamento de Jornalismo e Editoração da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP) • Doutora em Ciências da Comunicação pela ECA-USP • Mestre e graduada em Administração de Empresas, com ênfase em gestão tecnológica pela Faculdade de Economia e Administração da Universidade de São Paulo (FEA-USP) • Responsável pelo conjunto de disciplinas na graduação e na pós-graduação do Departamento de Jornalismo e Editoração da ECA-USP que tratam da mídia e dos negócios digitais • Coordenadora da área de Jornalismo junto ao programa de pós-graduação em Ciências da Comunicação da ECA-USP • Coordenadora do Grupo de Pesquisas em Estratégia e Gestão de Mídias Digitais vinculado ao Programa de Pós-Graduação em Ciências da Comunicação (PPGCOM) da ECA-USP • Estrategista web e consultora de empresas • contato@bethsaad.com.br Comunicação digital: uma questão de estratégia e de relacionamento com públicos
  • 3. Resumo O artigo pretende discutir e delimitar o lugar da comunicação digital na estratégia de Comunicação Organizacional. Sugere ainda uma sistematização dos conceitos fun- dadores que norteiam as estratégias de Comunicação a partir do cenário das TICs e das mídias digitais. Por fim, apresenta o conceito de eficácia comunicacional e alguns exemplos de práxis brasileira, apontando rumos para a área. PALAVRAS-CHAVE: COMUNICAÇÃO DIGITAL • COMUNICAÇÃO ORGANIZACIONAL • COMUNICA- ÇÃO ESTRATÉGICA INTEGRADA Abstract The article intends to discuss and delimit the role of digital communication in Orga- nizational Communication strategies. It presents a systemization of the conceptual foundations that orientate the Communication strategies when we insert it in the sce- nario of ICTs and in that of the digital media. Finally, it presents the concept of effec- tiveness in communication and some examples of the Brazilian praxis, pointing direc- tions for the area. KEY WORDS: DIGITAL COMMUNICATION • ORGANIZATIONAL COMMUNICATION • INTEGRATED STRATEGIC COMMUNICATION Resumen El artículo pretende discutir y delimitar el papel de la comunicación digital en las es- trategias de Comunicación Organizacional. Presenta una sistematización de los con- ceptos fundadores que orientan las estrategias de Comunicación cuando las inserta- mos en el escenario de las TICs y de los medios digitales. Finalmente, presenta el concepto de efectividad de comunicación y algunos ejemplos de la praxis brasileña, mientras que apunta las direcciones para el área. PALABRAS CLAVE: COMUNICACIÓN DIGITAL • COMUNICACIÓN ORGANIZACIONAL • COMUNICA- CIÓN ESTRATÉGICA INTEGRADA
  • 4. 97ANO 2 • NÚMERO 3 • 2º SEMESTRE DE 2005 • organicom • O tema comunicação digital veio se popularizando no ambiente da Comunicação Em- presarial com a mesma velocidade da absorção e uso das Tecnologias Digitais de Informação e Comunicação – as TICs. Um processo acelerado que, ao mesmo tem- po, abriu todo um campo de inovações, criatividade e dinamismo e também toda uma sucessão de posicionamentos, usos e escolhas que acabaram por criar incompreensões, inadequações e entraves no desenvolvimento da rotina comunicacional nas empresas. Optei por discutir neste artigo a necessidade e a oportunidade de sistematização das práticas de comunicação digital em ambientes organizacionais, seu vínculo estrito e indissolúvel com os processos desta comunicação e, especialmente, a importância es- tratégica da área digital vinculada a uma estratégia de Comunicação Integrada para qualquer tipo de organização. Quero deixar como mensagem que a chamada comu- nicação digital é, sim, estratégica, mas não tem sentido e validade se não fizer parte de um plano de Comunicação geral para a organização, este sim, o ponto vital para o sucesso da Comunicação nos ambientes empresariais. Para sustentar tais propostas, além da necessária pesquisa bibliográfica, recorri a al- gumas fontes de observação empírica – diálogos e vivências com profissionais que atuam direta ou indiretamente em comunicação digital nas organizações – decorrentes da interação desta pesquisadora com os atores deste processo em anos recentes, seja em atividades de treinamento, seja em seus próprios ambientes de trabalho. Considero fundamental a inclusão da opinião de quem vivencia, na medida em que estamos tra- tando de um tema ao mesmo tempo novo em termos de existência consolidada e re- cente em termos da velocidade das mudanças que ocorrem neste cenário, fazendo com que a temática esteja em constante renovação. Resumidamente, o objetivo maior desta contribuição é sistematizar os conceitos fun- dadores que norteiam as estratégias de Comunicação quando inserimos o cenário das TICs e das mídias digitais. Assim, este artigo deverá abordar o tema por meio da se- guinte estrutura de conteúdo: Comunicação e tecnologia: um vínculo indissolúvel Ao longo da história de nosso processo de socialização, vimos o homem numa busca de formas, meios e modos de expressar suas necessidades e anseios e, mais do que tu- do, numa busca de transmitir e dialogar sobre tais expressividades. O homem, não im-
  • 5. • organicom • ANO 2 • NÚMERO 3 • 2º SEMESTRE DE 200598 portando a época e os recursos, sempre foi o único produtor e controlador desse pro- cesso – a mediação e, da mesma forma, sempre foi o agente das grandes mudanças no processo de comunicação humana. É fato que o processo de comunicação evoluiu na medida em que o homem encon- trava sinergia entre modos, formas e meios de expressão. É fato que tal evolução vem sendo marcada pela introdução de novos modus faciendi e modus operandi que foram se sofisticando em patamares equivalentes à evolução do conhecimento e das tecno- logias. Portanto, destaco inicialmente a necessidade de compreendermos os conceitos fun- dadores do jargão do processo de inovação tecnológica em nossa sociedade: a ruptu- ra e as aplicações transformadoras (as killer applications). Estar envolvido no planejamento estratégico da Comunicação em qualquer grupa- mento social exige a compreensão de tais conceitos, pois, é a partir da vivência e ex- perimentação deles decorrentes que os processos de Comunicação passam da eficiên- cia para a eficácia. Assim, o planejador da Comunicação contemporâneo, que vive a revolução digital, tem por missão a introjeção e a aplicação adequada dos conceitos de killer application, definido por Downes & Mui (2000) como “todo novo bem ou serviço que estabelece toda uma nova categoria na economia e, que por ser pioneiro, domina o mercado e traz retornos significativos para o investimento inicial”, e de ruptura tecnológica, cu- ja definição agregada de diferentes autores refere-se a um cenário onde a introdução de uma killer application resulta na piora da performance do produto ou serviço im- pactado, pelo menos no médio prazo, e que tem a capacidade de criar novos valores e condições do mercado, inclusive pela adição de novos clientes, pois os produtos de- correntes da ruptura são mais baratos, mais simples, mais compactos e, quase sem- pre, mais convenientes ao uso.
  • 6. COMUNICAÇÃO DIGITAL: UMA QUESTÃO DE ESTRATÉGIA E DE RELACIONAMENTO COM PÚBLICOS • ELIZABETH SAAD CORRÊA 99ANO 2 • NÚMERO 3 • 2º SEMESTRE DE 2005 • organicom • De forma direta, podemos dizer que hoje as TICs equivalem à killer application que produz serviços e produtos de comunicação específicos para a ambiência digital, com os quais o comunicador tem que criar, planejar e implementar estes novos serviços e produtos para que o seu trabalho alcance os resultados esperados. Ocorre que, na prática, assistimos a um processo jamais visto de inovação/absorção de tecnologias para alavancar a comunicação humana que chega à beira do incontro- lável. Um dos dilemas do comunicador contemporâneo é dar conta da compreensão deste processo, seu uso e sua obsolescência. Seria possível e necessário? Para o campo da Comunicação (e para muitíssimos outros), têm-se tomado como pa- râmetros orientadores de tendências estudos macroeconômicos e estatísticos como a teoria das ondas de Kondratieff, as curvas de aprendizagem, a teoria de Bright e as análises de Christiansen, entre outros, que posicionam a internet como uma tecnolo- gia de ruptura que veio para ficar por pelo menos 50 a 60 anos. Um detalhado estu- do elaborado por Santos e Devezas (2003), pesquisadores da Universidade da Beira Interior, em Portugal, aponta que: “a internet constitui-se em uma autêntica inovação de base, que está a transformar profundamente todo o sistema socioeconómico. Através da análise da sua evolução histórica podemos verificar que desde a sua génesis até agora, já foram cumpridos cla- ramente os seis primeiros estágios da inovação de base segundo a classificação de Bright, podendo-se já notar fortes manifestações do 7º estágio, isto é, o seu impacto economi- co-social. Ao longo da última década do século XX surgiram um grande número de novas empresas e um imenso número de novos empregos e novas actividades profis- sionais. Algumas das novas empresas geradas neste período adquiriram enorme di- mensão financeira (Amazon, eBay, Yahoo! etc.), verificaram-se grandes fusões (AOL- Time Warner, Compaq-HP etc.), e uma nova economia vem crescendo, atraindo para dentro dela outros sectores tradicionais da economia. Acima de tudo, cumprindo aquela característica fundamental de todas as inovações de base, os hábitos das pes- soas estão a transformar-se em função dela, inserindo-se profundamente no seu quo- tidiano. A análise quantitativa da evolução permite-nos mostrar que o seu crescimento é logís- tico, com um tempo característico de cerca de 23 anos, valor este compatível com os apre- sentados por outras inovações de base que a precederam. Este crescimento atingirá até ao ano de 2004 a sua saturação quando então, o seu crescimento físico completar-se-á, dando lugar a um novo ciclo da sua existência, o da consolidação final. Verifica-se que todo o processo evolutivo da Internet está perfeitamente em fase com o desenvolvimento da última onda (4ª) de Kondratieff. A sua Fase de Invenção correspon- deu à fase ascendente e recessão primária desta onda, e a sua Fase da Inovação corres- pondeu à fase descendente. A sua Fase de Difusão já está iniciada e será a base do ar- ranque para a próxima fase de expansão económica correspondendo ao início da 5ª onda de Kondratieff.”
  • 7. Se considerarmos o uso das TICs1 como divisor de águas, fica evidente a aceleração dos ciclos tecnológicos da comunicação humana. Aceitando que uma das primeiras formas de expressividade do homem foram as pinturas rupestres do homem das caver- nas (a ruptura inicial), vemos um longo processo de esforços do homem para ampliar, acelerar e encurtar os processos de disseminação de suas mensagens, com uma suces- são de rupturas: o uso da força motora animal e mecânica para disseminação de men- sagens; a invenção da prensa e a formatação do livro, marcando a reprodução em sé- rie e a difusão do conhecimento; a introdução da eletricidade nos meios de comunicação desencadeando uma série de suportes e instrumentos como o telégrafo, o rádio, o te- lefone, o cinema, e a televisão entre outros; a ruptura da reprodução e armazenamen- to da imagem e do som com os gravadores de áudio, os videocassetes, chegando aos CDs e DVDs; a ruptura da massificação das mensagens com a aldeia global preconi- zada por Marshall McLuhan; até chegarmos aos últimos vinte anos, quando as trans- formações ocorridas superaram todas as rupturas anteriores. Este dilema – a relação indissolúvel entre comunicação e tecnologia – coloca o comu- nicador contemporâneo num constante exercício de correlação entre a ciência das TICs e a arte de comunicar. Aqui, muito antes do pensamento comunicacional estratégi- co, temos que encontrar o equilíbrio entre constatações típicas da Ciência, a exemplo dos princípios, das recorrências fundantes, das explicações, das descobertas e das aná- lises, e a característica criativa da arte de comunicar, numa rotina em que predomi- nam as práticas, a experimentação de performances, a ação, a invenção, a síntese e a construção. O lugar da comunicação digital A Comunicação Empresarial contemporânea, não só pelos aspectos tecnológicos já apontados, mas fundamentalmente pela mudança social que as TICs aportaram pa- ra as ações de informar e comunicar, tem sido considerada como área estratégica em uma quantidade cada vez mais significativa de organizações ou agrupamentos sociais. Ao mesmo tempo e exatamente por sua instância, não se pode pensar esta comuni- cação sem uma visão de seu planejamento integrado e alinhado à estratégia global da organização. Na seqüência, se estratégica e integrada, a Comunicação contemporâ- nea também atua direta e diferencialmente no processo de competitividade global em que as empresas hoje se vêem inseridas. A exemplo do item anterior, são diversas as referências na literatura que sustentam esta visão. Optamos por apresentar alguns conceitos desenvolvidos por docentes e/ou pesquisadores nacionais, sem deixar, evidentemente, de considerar outros autores e COMUNICAÇÃO DIGITAL: UMA QUESTÃO DE ESTRATÉGIA E DE RELACIONAMENTO COM PÚBLICOS • ELIZABETH SAAD CORRÊA • organicom • ANO 2 • NÚMERO 3 • 2º SEMESTRE DE 2005100 1 Aqui consideradas como o salto da base tecnológica analógica para a digital.
  • 8. referências internacionais que, pela delimitação de espaço para este artigo, não foram incluídos. O professor Wilson Bueno (2000: 50), ao discorrer sobre o papel estratégico da Co- municação nas empresas, afirma que “A Comunicação Empresarial evoluiu de seu estágio embrionário, em que se definia co- mo mero acessório, para assumir, agora, uma função relevante na política negocial das empresas. Deixa, portanto, de ser atividade que se descarta ou se relega ao segundo pla- no, em momentos de crise e de carência de recursos, para se firmar como insumo estra- tégico, de que uma empresa ou entidade lança mão para idealizar clientes, sensibilizar multiplicadores de opinião ou interagir com a comunidade”. Em sua essência, a Comunicação Organizacional tem por função estabelecer os ca- nais de comunicação e respectivas ferramentas para que a empresa fale da melhor ma- neira com seus diferentes públicos. Nesse sentido, todas as possibilidades de relacio- namento com estes públicos devem estar integradas e alinhadas pela mesma visão estratégica, por um discurso uniforme e pela coerência das mensagens. Tal processo de integração estratégica envolve, segundo as proposições da professora Margarida Kunsch, um composto comunicacional que envolve a Comunicação Interna, a Comu- nicação Mercadológica (aquela vinculada diretamente aos produtos e serviços da or- ganização) e a Comunicação Institucional (aquela que trata da imagem e da presen- ça da organização em seus diferentes ambientes de atuação e influência). Para Kunsch (2003:90), “As organizações têm de se valer de serviços integrados nessa área, pautando-se por po- líticas que privilegiem o estabelecimento de canais de comunicação com os públicos vin- culados. A abertura de fontes e a transparência das ações serão fundamentais para que as organizações possam se relacionar com a sociedade e contribuir para a construção da cidadania na perspectiva da responsabilidade social”. Este é o cenário que abriga a chamada comunicação digital nas empresas. Ela ocor- re estratégica e integradamente no composto comunicacional da organização. Portanto, considero que não podemos falar em Comunicação digital organizacional sem compreender e conhecer o plano estratégico de comunicação global. Assim, não cabe na proposição deste artigo restringir a comunicação digital à simples existência de um sítio na Internet ou a uma Comunicação Interna feita por meio do correio ele- trônico. São visões inadequadas e reducionistas para uma proposta muito mais fun- dante. Assim, apresento uma proposta de organização do conceito de comunicação digital coerente às proposições dos autores citados e, ao mesmo tempo, que seja clara e ob- jetiva para sua aplicação por parte dos comunicadores. COMUNICAÇÃO DIGITAL: UMA QUESTÃO DE ESTRATÉGIA E DE RELACIONAMENTO COM PÚBLICOS • ELIZABETH SAAD CORRÊA 101ANO 2 • NÚMERO 3 • 2º SEMESTRE DE 2005 • organicom •
  • 9. • organicom • ANO 2 • NÚMERO 3 • 2º SEMESTRE DE 2005102 COMUNICAÇÃO DIGITAL: UMA QUESTÃO DE ESTRATÉGIA E DE RELACIONAMENTO COM PÚBLICOS • ELIZABETH SAAD CORRÊA Conceituamos comunicação digital de per si como o uso das Tecnologias Digitais de Informação e Comunicação (TIC’s), e de todas as ferramentas delas decorrentes, pa- ra facilitar e dinamizar a construção de qualquer processo de Comunicação Integra- da nas organizações. Falamos, portanto, da escolha daquelas opções tecnológicas, dis- poníveis no ambiente ou em desenvolvimento, cujo uso e aplicação é o mais adequado para uma empresa específica e respectivos públicos específicos. Com isso, nem todo o processo comunicacional de uma organização é digital ou di- gitalizável, e nem toda TIC é adequada à proposta de Comunicação Integrada de uma dada organização. Temos, portanto, que definir e desenvolver no ambiente de Comu- nicação Organizacional o plano de comunicação digital integrada, baseado e susten- tado pelo próprio plano de comunicação estratégica integrada. Sistematizando, a comunicação digital integrada é construída a partir de uma avalia- ção de cada ação comunicacional prevista para as três grandes vertentes da Comuni- cação Integrada – Institucional, Interna e Mercadológica – e de seu cotejamento face ao público a que se dirige e ao nível de eficácia ampliado caso a ação seja executada por meio do uso das TICs. A Figura 1 apresenta esquematicamente nossa visão: Comunicação DIGITAL integrada Comunicação Institucional Comunicação Interna Comunidades de interesse Newsletters Comunicação Digital Integrada Relações Públicas Marketing social Marketing cultural Jornalismo Assessoria de imprensa Identidade corporativa Propaganda institucional Marketing Propaganda Promoção de vendas Feiras e exposições Marketing direto Merchandising Venda pessoal Comunicação Mercadológica Fonte: Autora
  • 10. COMUNICAÇÃO DIGITAL: UMA QUESTÃO DE ESTRATÉGIA E DE RELACIONAMENTO COM PÚBLICOS • ELIZABETH SAAD CORRÊA 103ANO 2 • NÚMERO 3 • 2º SEMESTRE DE 2005 • organicom • Um conceito correlacionado pode ser identificado no processo de comunicação di- gital integrada – a eficácia comunicacional. Integrar os recursos das TICs a partes e públicos específicos do plano de Comunicação Integrada de uma empresa exige que escolhas e decisões estejam baseadas no conceito de eficácia, não devendo o comu- nicador contentar-se apenas com a eficiência. Maximiano (2003) desenvolve extensa reflexão sobre os termos. Resumimos a seguir suas principais idéias. A eficiência pode ser entendida como o esforço da empresa e seus colaboradores em fazer corretamente as atividades planejadas. Assim, tais es- forços concentram-se nos meios e modos de execução, na resolução de problemas e na salvaguarda dos recursos disponíveis. Numa metáfora simplista, ser eficiente é se- guir estritamente a receita de um bolo padrão para que ele seja consumido pelos co- mensais. Já a eficácia traz em sua essência uma valoração e o uso de critérios para a execução das ações empresariais. Uma empresa ou uma ação são eficazes quando ocorre uma avaliação da forma mais adequada para sua execução, objetivando resultados e metas previamente acordados, dentro de uma proposta de otimização dos recursos disponí- veis. Retomando a mesma metáfora, ser eficaz é fazer um ou mais bolos específicos para cada necessidade dos diferentes comensais que aguardam na boca do forno. Transpondo estas idéias para o ambiente da Comunicação Empresarial integrada, podemos dizer que de maneira geral, toda e qualquer ação de comunicação é com- posta por dados e informações que podem ser recuperáveis a partir dos meios digi- tais. Numa visão de eficiência, este processo de recuperação e digitalização é sufi- ciente. Mas, quando a área de Comunicação de uma organização começa a analisar, dentro do quadro geral de ações, quais poderão ser recuperadas, como e para quê recuperará-las num contexto de tecnologias digitais, iniciamos um movimento ru- mo à eficácia da comunicação digital. Por fim, aspectos como o tratamento comu- nicacional, visual e arquitetônico do material recuperado – aquilo que emerge nas telas de todos na empresa e nos clientes – serão determinantes para o sucesso da co- municação digital. Construção da estratégia de comunicação digital e seus sistemas de representação Alinhamento e integração à estratégia global de Comunicação, acrescidos das espe- cificidades dos diferentes públicos diante dos meios digitais, exigem um processo de- talhado de concepção e construção do composto de comunicação digital. É o que de- nominamos de estratégia de comunicação digital, um processo que se inicia pela compreensão de suas duas variáveis determinantes – estratégia e ambiente digital –, e por um delineamento claro do ambiente da empresa em seu espectro de atuação.
  • 11. Novamente, por conta das delimitações formais deste artigo, apresentamos a seguir um brevíssimo referencial destas variáveis determinantes. Por que estratégia? Considerando que a comunicação digital é parte do plano de Co- municação Integrada da empresa, não seria mais simples o uso de termos como ações, tarefas ou até mesmo planos? Iniciamos pelo conceito de estratégia. Definir o que é estratégia é uma tarefa que nem mesmo os mais conhecidos autores sobre o tema, como Stoner, Igor Ansoff, Peter Drucker, Henry Mintzberg, C.K. Prahalad e Michael Porter, os chamados gurus da administração das décadas de 80/90, chegaram a cumprir por inteiro, pois falamos de um processo de percepção empresarial totalmente vinculado ao ambiente, ao momen- to e às pessoas. Agregando as diferentes visões, vemos que ao trabalharmos com es- tratégia das organizações e discutirmos os seus processos de formulação e implemen- tação, estamos tratando, ao mesmo tempo, de aspectos do ambiente interno e externo, da estrutura de funções e comunicação, do desenvolvimento e construção de produ- tos e/ou serviços e de suas funções de distribuição e divulgação, bem como das rela- ções com os clientes e também com outras entidades do ambiente. Zaccarelli (2000) propõe sua visão de estratégia moderna, quando a empresa deixa de focar atenções apenas em análises e processos lógicos, muito característicos do pla- nejamento estratégico, e passa a enfatizar a importância do jogo competitivo. No con- ceito de estratégia moderna, objetivos, planos, táticas e metas estão no plano de res- posta à pergunta que deve pairar em todas as mentes de uma empresa: “Com quem disputamos o sucesso?” Para isso, a empresa deve estar em permanente estado de aten- ção para promover as mudanças certas, na hora certa. Pontuando e sistematizando, consideramos que: • estratégia envolve tomada de decisões acerca de produtos e tecnologia a serem de- senvolvidos e/ou absorvidos; da seleção do mercado e tipo de clientes a serem atin- gidos; e da criação e manutenção de vantagens competitivas; • tal tomada de decisões pode ocorrer em nível genérico ou corporativo – a estraté- gia corporativa (corporate strategy), mas também em níveis específicos do negócio – a estratégia de negócios (business strategy); • cabem no conceito e nas ações de configuração estratégica termos/atividades co- mo: adequar o ambiente e a empresa; processos formais de análise; posicionamen- to de mercado; processo de aprendizado; trabalhar a cultura organizacional; de- senvolver a visão de um líder; processo mental; reação ao ambiente; negociar e construir alianças, entre outras. Com o avanço das TICs, evidenciado a partir do início dos anos 1990, praticamente to- das as grandes empresas, e posteriormente também as médias e pequenas, engajaram- COMUNICAÇÃO DIGITAL: UMA QUESTÃO DE ESTRATÉGIA E DE RELACIONAMENTO COM PÚBLICOS • ELIZABETH SAAD CORRÊA • organicom • ANO 2 • NÚMERO 3 • 2º SEMESTRE DE 2005104
  • 12. se nesse processo de transformação tecnológica paradigmática, no qual convulsio- nam-se os tradicionais papéis de emissor e receptor das mensagens. Com isso, as TICs assumem uma competência social, pois, sua performance deve encaixar-se nos pa- drões existentes das interações humanas para que ela seja significativa num sistema so- cial específico. Tal competência, conforme análise apresentada por Corrêa (1994: 63), “deve avaliar os valores culturais face aos conteúdos gerados pelas novas mídias e, fe- chando o círculo, avaliar o impacto das mídias nos valores culturais [...] com isso, os determinantes das tecnologias de informação estão absolutamente relacionados às ques- tões culturais, seus valores e seus recursos, diferenciando, ou melhor, ampliando o con- ceito do processo de inovação tecnológica, e da formulação de sua estratégia”. No item 2 deste artigo exploramos o conceito de tecnologia de ruptura vinculado às TIC’s e que deve ser aqui retomado para fecharmos o conceito de estratégia de co- municação digital. Christiansen (1997: XV) reafirma o conceito de ruptura e das con- seqüentes mudanças empresariais para a sua absorção e alcance da competitividade. Para ele, a maioria das inovações tecnológicas é decorrente de melhorias no desem- penho dos produtos – são as chamadas tecnologias de sustentação. Em geral, seus resul- tados reforçam a satisfação e as necessidades dos consumidores já conquistados e, prin- cipalmente, quase nunca provocam insucessos empresariais. Vez por outra, emergem no mercado tecnologias de ruptura que resultam na piora da performance do produ- to ou serviço, pelo menos no médio prazo, e defende que as tecnologias de ruptura têm a capacidade de criar novos valores e condições do mercado, inclusive pela adi- ção de novos clientes, pois os produtos decorrentes da ruptura são mais baratos, mais simples, mais compactos e, quase sempre, mais convenientes ao uso. Segundo o autor, a Internet é uma tecnologia classificada como de ruptura que, em curto prazo, piora a performance do produto ou serviço comunicacional ao qual a em- presa está habituada, pois os indicadores de desempenho existentes não são adequa- dos à inovação digital. Um outro aspecto que pesa na construção de uma estratégia de comunicação digital é que empresas em geral convivem simultaneamente com a rotina baseada em tecno- logias já dominadas e a cobrança do mercado em inovar por caminhos desconheci- dos. Nesse ambiente, as decisões empresariais lógicas e competentes que são cruciais para o sucesso de curto e médio prazo, em geral levam a insucessos se aplicadas a ino- vações tecnológicas de ruptura. O dilema é como tomar decisões simultâneas e anta- gônicas sem encarar prejuízos e perdas? Qualquer executivo de sucesso sabe que é preciso sair do dilema no mínimo intacto, e, na melhor das hipóteses, com o sucesso incondicional. Downes e Mui (1998: 58) afirmam que “a mudança nos princípios básicos da estratégia está no ‘como’ se desenvolvem produtos e se tornam operacionais. Para ter sucesso no mundo digital é preciso comer, dormir, respirar e pensar digitalmente”. COMUNICAÇÃO DIGITAL: UMA QUESTÃO DE ESTRATÉGIA E DE RELACIONAMENTO COM PÚBLICOS • ELIZABETH SAAD CORRÊA 105ANO 2 • NÚMERO 3 • 2º SEMESTRE DE 2005 • organicom •
  • 13. Um último aspecto fundamental e que, em geral, quando falamos de estratégias di- gitais ou posicionamentos das empresas com relação à Internet, acabamos por consi- derar como um dado, é o real significado da Internet para cada empresa. Martin (1996: 89) afirma que toda e qualquer estratégia de presença digital de uma empresa deve partir de um conceito claro do que é a Internet para o negócio. Sua proposta: “Internet não deve ser considerada apenas mais um meio de comunicação. Ela é o sistema de circulação da nova economia [...] a armadilha que geralmente vemos é confundir a tecnologia e o que ela possibilita através da internet com as necessidades do mercado. A internet é um meio para um fim e não um fim em si mesma. Reconhecer essa diferença é igual à compreensão da sociedade sobre o telefone, que se tornou uma aplicação fundamental por facilitar a comunica- ção e não porque era apenas uma inovação tecnológica”. Se temos, de um lado, a delicada operação empresarial que se desencadeia ao assu- mir as TICs como parte do processo de Comunicação Empresarial com seus diferen- tes públicos, temos, de outro lado, a compreensão exata das características digitais das mensagens. A mensagem difundida por meio das ferramentas da comunicação digital difere em sua essência daquelas verificadas nas formas de comunicação tradi- cionais. Reforçando, o medium Internet requer mudanças nos processos editoriais e de lin- guagem para aproveitar as novas possibilidades de estruturação narrativa através do hipertexto, da multimídia e da interatividade. Para o professor espanhol Ramón Sa- laverría, o marco conceitual que sustenta a diferença de estruturas narrativas entre a comunicação tradicional e a comunicação digital está na retórica. Assim, segun- do Salaverría (2005: 23), “o contexto retórico – aquele que resulta da combinação de cir- cunstâncias específicas do emissor, do receptor, do canal, da linguagem e do conteúdo da men- sagem – é diferente. [...] o jornalismo impresso (e da mesma forma o televisivo e o radiofônico) não é igual ao ciberjornalismo pela simples razão de que cada canal impõe um contexto re- tórico próprio.” O contexto retórico do ciberespaço ou das redes digitais transforma completamente os fatores referenciais de tempo e espaço. No dizer de Salaverría, tal contexto apre- senta um policronismo – as múltiplas relações temporais que ocorrem entre a emis- são e a recepção no ciberespaço – fazendo com que uma única elocução feita por um emissor possa ser recebida em coordenadas temporais completamente diferentes e por receptores distintos; e, uma multidirecionalidade – a troca de muitos para muitos, fa- zendo com que apenas no ciberespaço ocorram trocas comunicacionais personaliza- das e interativas. Assim, qualquer forma narrativa para o meio digital deve obrigatoriamente estar in- serida no contexto retórico da policronia e da multidirecionalidade, sem que isto comprometa a compreensão e interpretação do sentido das mensagens por parte dos receptores, seja qual for a sua coordenada temporal e espacial. Além disso, de- COMUNICAÇÃO DIGITAL: UMA QUESTÃO DE ESTRATÉGIA E DE RELACIONAMENTO COM PÚBLICOS • ELIZABETH SAAD CORRÊA • organicom • ANO 2 • NÚMERO 3 • 2º SEMESTRE DE 2005106
  • 14. ve incorporar as características-chave da comunicação nos meios digitais, a saber: a hipertextualidade – a capacidade de interconectar diversos textos digitais entre si; a mul- timedialidade – a capacidade, outorgada pelo suporte digital, de combinar na mesma mensagem pelo menos um dos seguintes elementos: texto, imagem e som; e a intera- tividade – a possibilidade do usuário interagir com a informação disponibilizada no meio digital. Uma vez definidas as variáveis determinantes do processo de comunicação digital das empresas, é chegado o ponto essencial – a construção da comunicação propriamen- te dita – as mensagens mais adequadas para cada tipo de público, correlacionadas à ferramenta digital específica. COMUNICAÇÃO DIGITAL: UMA QUESTÃO DE ESTRATÉGIA E DE RELACIONAMENTO COM PÚBLICOS • ELIZABETH SAAD CORRÊA 107ANO 2 • NÚMERO 3 • 2º SEMESTRE DE 2005 • organicom • O primeiro conjunto a ser considerado na formatação da comunicação digital de uma empresa é a sua cultura e a relação desta cultura com os quesitos de inovação, tecno- logia, uso de computadores, de Internet, entre outros. Por exemplo, de nada adianta A Figura 2 apresenta esquematicamente a estrutura que envolve a construção da estratégia de comunicação digital: Fonte: Autora CULTURA DA EMPRESA CONTEÚDO INSTITUCIONAL CONTEÚDOS ESPECÍFICOS COM RECURSOS HIPERMÍDIA AMBIENTE-TAREFA FORNECEDORES P Ú B L I C O S PROSPECTS CONCORRENTES
  • 15. uma empresa lançar um portal de relacionamento digital com seus clientes se, inter- namente, em suas crenças e valores, usar computador não é fator determinante. O segundo conjunto refere-se aos públicos estratégicos da empresa. Quem são e quais suas afinidades com o ambiente digital vivenciado. Por exemplo, se a empresa consi- dera a comunidade de moradores do entorno de sua sede como um público estraté- gico, há que se verificar se este grupo tem por hábito o uso do computador e o aces- so à Internet em sua rotina. Definir qual o suporte tecnológico para a criação de um canal direto de comunicação comunidade-empresa depende desta avaliação de uso. Um fale conosco disponível na página web da empresa só será eficaz se esta comunida- de usa intensivamente a mídia digital. Caso contrário, provavelmente uma linha tele- fônica ou um balcão de atendimento presencial sejam mais eficazes. É a partir da combinação cultura-características dos públicos que se inicia a estrutu- ração do conteúdo das mensagens comunicacionais, formatadas quase que de forma personalizada. Inclui-se neste conteúdo o que chamamos de institucional, qual seja, o conjunto de informações sobre a empresa que devem ser transmitidas independen- temente das características de cada público estratégico. Chegamos, por fim, à última etapa de construção da estratégia de comunicação digi- tal – a definição de seus sistemas de representação. Embora um sítio na web ou um portal corporativo sejam as formas mais evidentes e visíveis, existe uma multiplicida- de de outros recursos de base digital que podem ser utilizados conforme a ação pla- nejada, o conteúdo das mensagens, a característica do público e as respostas espera- das. É aqui que se percebe o exercício da arte de comunicar sem a perda da eficácia. Também é neste mesmo espectro que o comunicador corre o risco da ineficácia por conta da inadequação do recurso. Atualmente os sistemas de representação mais comuns são: e-mail marketing, fóruns, interfaces gráficas – websites, intranets, portais corporativos, ferramentas de busca, transações, multimídia, mensagens instantâneas. E algumas das potenciais ineficácias decorrentes passam por situações como spam, excesso de informação, percepção de marca inadequada, usabilidade, design e layout não centrados no usuário, arquitetu- ra complexa, conteúdo confuso, problemas técnicos no acesso ao site, entre outros. O detalhamento de cada um dos sistemas de representação e suas potenciais ineficá- cias extrapola os propósitos deste artigo. A busca da eficácia comunicacional e a práxis Apresentei até este ponto as principais idéias que considero fundantes para pensar a comunicação digital nos ambientes empresariais como uma ferramenta diferen- cial. COMUNICAÇÃO DIGITAL: UMA QUESTÃO DE ESTRATÉGIA E DE RELACIONAMENTO COM PÚBLICOS • ELIZABETH SAAD CORRÊA • organicom • ANO 2 • NÚMERO 3 • 2º SEMESTRE DE 2005108
  • 16. Por outro lado, sabemos que a aceleração e a competitividade que pautam a rotina empresarial exigem respostas eficazes, em espaços de tempo muito curtos, podendo inviabilizar uma proposta de construção estratégica como a que apresentei. Não se conquista eficácia comunicacional no ambiente digital de forma instantânea e a mesma pode ser atingida por meio de patamares que vão evoluindo conforme as necessidades do ambiente empresarial. Numa compilação de informações coletadas junto a fontes primárias2 – profissionais que atuam direta ou indiretamente com comunicação digital e com diferentes posi- ções das estruturas empresariais – pudemos notar que existem áreas sensíveis para a comunicação digital e que o mercado convive com uma sucessão de paradoxos. Apenas para ilustrar essas opiniões, detectamos que, de maneira geral, existe uma vi- são positiva do uso da comunicação digital nas empresas, mas, ao mesmo tempo, di- ficuldades neste uso. Algumas das fontes apontam, por exemplo, que durante a ela- boração do conteúdo de uma ação de comunicação digital ocorrem precipitações e ruídos na elaboração das mensagens e em seu processo de distribuição eletrônica. No caso de empresas globais, os entraves aparecem na diferença de culturas que não po- dem ser adequadas por conta de sistemas de representação fechados e uniformes mundo afora. Um outro ponto identificado refere-se à comunicação interna que, ape- sar de potencializada e valorizada com as intranets, acaba massificando o conteúdo das mensagens, num processo de redução de custos pela digitalização. Pudemos notar, ainda, uma forte relação direta entre tamanho da empresa e intensi- dade de uso da comunicação digital sem o adequado processo de planejamento e im- plementação. Por fim, a convivência e a dificuldade de compatibilização e equilíbrio entre sistemas de representação digitais e analógicos ou tradicionais. São muitos os casos de supressão do jornal interno impresso e sua transposição integral em versão PDF para as páginas da intranet, um dos mais graves erros contra a multimedialidade e as características do público leitor. O cenário refletido reforça nossa proposição de que estamos vivenciando um proces- so longo, adaptativo e diretamente vinculado ao timing de cada empresa e respectivos ambientes. No momento, alguns patamares de eficácia comunicacional digital podem ser siste- matizados, todos balizados por três variáveis-chave: o grau de tratamento da informa- ção no meio digital, o grau de visibilidade e diferenciação que se objetiva no ciberes- COMUNICAÇÃO DIGITAL: UMA QUESTÃO DE ESTRATÉGIA E DE RELACIONAMENTO COM PÚBLICOS • ELIZABETH SAAD CORRÊA 109ANO 2 • NÚMERO 3 • 2º SEMESTRE DE 2005 • organicom • 2 O levantamento em questão foi realizado de forma não estruturada ao longo dos anos de 2004 e 2005, perfazendo em torno de 100 fontes entrevistadas ou contatadas.
  • 17. paço, e o grau de segmentação e personalização que se confere aos públicos estraté- gicos. Desta forma, poderíamos identificar os seguintes patamares de busca da eficácia co- municacional: • comunicação digital zero: refere-se a uma visibilidade genérica e unidirecional no ambiente digital, voltada para qualquer público sem identificação e oferecendo um conteúdo linear e estático, sem qualquer possibilidade de aprofundamento ou cor- relação; • eficiência comunicacional: refere-se ainda a uma visibilidade genérica com um maior cuidado no tratamento do conteúdo das mensagens. A empresa define um siste- ma computacional de gestão das informações, possibilitando a organização hierár- quica dos dados para produzir correlações e conseqüentes significados, sua repre- sentação semântica associada à subjetividade e significação junto aos públicos, e a inclusão de maiores cuidados com os aspectos de identidade visual, arquitetura e design, aumentando as possibilidades de percepção por parte dos públicos. Neste patamar ainda não se definem com clareza as diferenças entre os públicos estraté- gicos; • eficiência comunicacional em transição: aqui já podemos identificar diferentes pú- blicos estratégicos e o uso paulatino de sistemas de representação bidirecionais, que permitem o diálogo e a interação. Existem planos específicos de geração e tro- ca de mensagens de formas diferenciadas para cada ação e uma definição da iden- tidade visual e da arquitetura da informação que apóia esta construção de relacio- namentos com os públicos. Optamos por não configurar o último patamar – a própria eficácia comunicacional – uma vez que estamos em plena transição. Encerramos esta contribuição com algu- mas considerações que favorecem o atingimento da eficácia. Ela ocorrerá quando: as informações digitalizadas – mensagens, conteúdos – passam pelo crivo de pessoas, en- trando no mundo real; conseguem produzir conhecimento no público focado; pro- duz aplicações pragmáticas e conectadas com o mundo real; ocorre a interação do usuá- rio com a interface como parte da experiência; gera competências e capacidade de aplicação do conhecimento em diferentes situações do mundo real. Portanto, e finalizando: quanto mais integrada a proposta de comunicação com os di- ferentes públicos no meio digital, mais complexo o sistema de representação; quanto maior a complexidade, maiores as possibilidades de ações de relacionamento eficazes com os públicos. COMUNICAÇÃO DIGITAL: UMA QUESTÃO DE ESTRATÉGIA E DE RELACIONAMENTO COM PÚBLICOS • ELIZABETH SAAD CORRÊA • organicom • ANO 2 • NÚMERO 3 • 2º SEMESTRE DE 2005110
  • 18. Bibliografia BUENO, Wilson da Costa. A Comunicação como espelho das culturas empresariais. Revista Imes - Comunicação, ano I, nº 1, jul/dez 2000. CHRISTIANSEN, Clayton M. The innovators dilemma: when new technologies cause great firms to fail. Boston: Harvard Business School Press, 1997. CORRÊA, Elizabeth Saad. Tecnologia, Jornalismo e competitividade: o caso da Agência Estado. Tese de doutora- mento apresentada junto ao Departamento de Jornalismo e Editoração da ECA-USP. São Paulo: ECA-USP, 1994. Documento mimeografado. DOWNES, Larry e MUI, Chunka. Unleashing the killer App: digital strategies for market dominance. Boston: Harvard Business School Press, 1998. KUNSCH, Margarida Maria Krohling. Planejamento de Relações Públicas na Comunicação Integrada. 4ª. Ed. São Paulo: Summus, 2003. MARTIN, Chuck. The Digital Estate: strategies for competing, surviving and thriving in an internetworked world. New York: McGraw Hill: 1996. MAXIMIANO, Antonio Cesar Amarú. Introdução à Administração. São Paulo: Atlas, 2003. SANTOS, Humberto e DEVEZAS, Tassaleno Campos. Análise e interpretação do crescimento da internet. Disponível em http://www.dem.ubi.pt/~humberto/Investiga/html/sintese-8.htm, e acessado em 31 de janeiro de 2006. ZACCARELLI, Sergio B. Estratégia e sucesso nas empresas. São Paulo: Saraiva, 2000. COMUNICAÇÃO DIGITAL: UMA QUESTÃO DE ESTRATÉGIA E DE RELACIONAMENTO COM PÚBLICOS • ELIZABETH SAAD CORRÊA 111ANO 2 • NÚMERO 3 • 2º SEMESTRE DE 2005 • organicom •