University of California, Berkeley
Spanish and Portuguese Department
Honors Thesis
Do divino ao humano, o herói-camaleão d...
1
Dedico esta tese à minha família e à todos os heróis literários,
divinos ou mortais, na literatura de Língua Portuguesa.
2
Agradecimentos
Primeiramente gostaría de agradecer a Professora Catarina Gama, a minha “gurú”, quem
me guiou nessa jorna...
3
Sumário:
O Herói-Camaleão da Língua Portuguesa tem por intuito desconstruir a identidade heróica e
desenvolver uma leitu...
4
Índice
Introdução …………………………………………………………....…………….……..…. Pg. 5
Conceitos: Herói, Camaleão, herói-camaleão
Capítulo 1: O ...
5
Introdução
Este trabalho insere-se na realização de uma tese de licenciatura no departamento de
Espanhol e Português na ...
6
o retorno do herói1. Na primeira etapa da separação (x), o personagem abandona a sua terra natal
com uma missão e vai à ...
7
a imagem do camaleão como um ser mais próximo da terra, que possui características de se adaptar
a diferentes espaços, q...
8
que o herói mortal desenvolve a sua identidade à partir do ambiente em que ele vive. de suas
críticas sociais que os her...
9
O herói épico d’Os Lusíadas escrito por Luis Vaz de Camões é a primeira versão do herói-
camaleão da Língua Portuguesa. ...
10
narrativa. Aqui também vemos como o heróismo épico tradicional exalta a ideologia nacionalista
e a necessidade desta co...
11
Os Lusíadas reflete a dinâmica do cenário social, cultural, político e econômico de Portugal
durante o século XVI. No i...
12
do grande êxito português representado n’Os Lusíadas. Os portugueses, tanto burgueses quanto de
clases mais baixas, que...
13
mesma construção identitária da Língua Portuguesa, como fez com a imagem de D. Sebastião I.
Ele faz com que a Língua Po...
14
tradicional é constríua pela órretica camoniana. Os Lusíadas, a presença dos dois personagens
narradores Vasco da Gama ...
15
Através deste poder da narrativa, mais próximo dos deuses e referente a coroa portuguesa
durante o percurso da obra Cam...
16
Canto I, quando mal acaba de se começar o livro, Camões diz “Que eu canto o peito ilustre
Lusitano, a quem Neptuno e Ma...
17
suas ferramentas que ajudam a desenvolver um espaço em comum entre eles, que é o poder e o
heroísmo dentro da identidad...
18
tripulações durante as expedições, mas também uma forma de mostrar que a bravura e poder não
são condecorados diante da...
19
deixar a sua terra natal. Desta forma, o Velho do Restelo apresenta uma visão dos portugueses
que não é vista mencionad...
20
.
Capítulo 2: Herói-camaleão mortal em Chiquinho
O herói mortal de Chiquinho escrito por Baltasar Lopes é a segunda ver...
21
deuses. Diferente do herói épico11, o herói mortal tem um pensamento mais crítico de sí mesmo e
da sua própria comunida...
22
Na última parte deste capítulo, também levamos em consideração a crítica de Chiquinho
que argumenta à favor do seu anti...
23
Manuel Veiga descreve em sua obra Insularité et littérature aux îles du Cap-Vert, a claridade foi
“a base da aparição d...
24
tropicalismo20. Então, podemos ver que a Claridade também foi um projeto de um “modernismo
nacionalista, superando o tr...
25
Através da estrutura do romance, Baltasar Lopes usa o personagem Chiquinho e o seu
enredo para ilustrar o cíclo da vida...
26
um passado que faz falta na vida do narrador, ao fazer com que acentue o grau de afetividade com
que o narrador recorda...
27
em crescimento, pois, como um homem, Chiquinho também abre os olhos para o próprio
crescimento biológico.
Ao nível soci...
28
De certa forma, podemos interpretar um arrependimento presente no diálogo de Andrezinho, ou
até mesmo um ressentimento ...
29
e a oportunidade que não é não é acessivel para muitos cabo-verdianos25. Portanto, a obra ãon
inclui uma identidade nac...
30
Porém, essas crícas e ideias possuem um fundo político ao qual retratam a divergência
entre os dois movimentos da Certe...
31
mostra que é importante destacar as suas diferenças e pluralidades dentro do âmbito nacional.
Como o livro Entre África...
32
movimento Claridoso abriu portas para a procura da identidade cabo-verdiana e apoiou a formação
mortal do nosso herói. ...
33
imagem maior e mais completa de ambas identidades conseguiremos entender o objetivo deste
trabalho. Então, agora que ch...
34
Portanto, um dos grandes âmbitos em que gostaríamos de ilustrar neste trabalho é a difusão
do heroísmo presente na comu...
35
Journal of the Linnean Society, 2006. Web.
(http://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1111/bij.2006.88.issue-3/issuetoc).
G...
36
SOUSA, Ronald W. The Rediscoveries. Pennsylvania: The Penn State Press, 1943.
Capítulo 2:
AA.VV. , “Cabo-verdianos nos ...
37
TAVARES, Eugène. Littératures lusophone des archipels atlantiques. Paris: L’Harmattan,
2009.
VEIGA, Manuel. Insularité ...
Próximos SlideShares
Carregando em…5
×

RodrigodeMoraesHonorsThesis

78 visualizações

Publicada em

0 comentários
0 gostaram
Estatísticas
Notas
  • Seja o primeiro a comentar

  • Seja a primeira pessoa a gostar disto

Sem downloads
Visualizações
Visualizações totais
78
No SlideShare
0
A partir de incorporações
0
Número de incorporações
38
Ações
Compartilhamentos
0
Downloads
0
Comentários
0
Gostaram
0
Incorporações 0
Nenhuma incorporação

Nenhuma nota no slide

RodrigodeMoraesHonorsThesis

  1. 1. University of California, Berkeley Spanish and Portuguese Department Honors Thesis Do divino ao humano, o herói-camaleão da Língua Portuguesa: Uma leitura identitária das obras Os Lusíadas e Chiquinho Rodrigo Junqueira de Moraes Berkeley Maio, 2015
  2. 2. 1 Dedico esta tese à minha família e à todos os heróis literários, divinos ou mortais, na literatura de Língua Portuguesa.
  3. 3. 2 Agradecimentos Primeiramente gostaría de agradecer a Professora Catarina Gama, a minha “gurú”, quem me guiou nessa jornada literária desde Cabo Verde até Portugal e me ensinou a abrir os olhos e o coração para diferentes perspectivas no mundo. Segundo às minhas colegas de tese, Elisandra Santos e Evelyn Prosser, que entre risos e incentivos, me acompanharam juntas no processo de escrever uma tese. E finalmente, gostaría de agradecer ao meu tio Fernando, que é e sempre será o meu eterno herói na terra.
  4. 4. 3 Sumário: O Herói-Camaleão da Língua Portuguesa tem por intuito desconstruir a identidade heróica e desenvolver uma leitura horizontal das obras Os Lusíadas e Chiquinho. Aqui propomos uma análise que desafia a perspectiva do herói levando em consideração o seu espaço, tempo e voz, enquanto mostramos as suas diferenças na sua construção identitária, quer mais próxima do divino, quer mais próxima do humano. Ao começar pela obra Os Lusíadas de Luís de Camões, analizamos o contexto histórico de Portugal no século XVI e desconstruímos o seu heróismo “épico” dentro da retórica camoniana. Nesta obra analizamos também uma contra-partida à qual desafia a sua formação heróica. Na obra Chiquinho de Baltasar Lopes, revelamos o contexto político e literário de Cabo Verde em meados do século XX e analizamos o herói “mortal” enquanto abrimos espaço para discutir a justiça (ou injustiça) sociais perante as críticas de um anti-heroísmo. Ao trazer juntas as duas obras de Portugal e de Cabo Verde, damos luz a uma tese alternativa, de dialogo entre nações e identidades heróicas, que põe em perspectiva os dois tipos de heróis, “épico” e o “mortal” junto com a sua contrução identitária. Através do uso da análise identitária de Os Lusíadas e Chiquinho, “O Herói-Camaleão da Língua Portuguesa” tem o objetivo de desconstruir os diferentes modelos de heroísmo presente nas obras enquanto constrói uma identidade comum baseado nas suas diferenças ao invés de suas semelhanças. Abstract: “The Hero-chameleon of the Portuguese Language” has the goal to deconstruct the heroic identity in portuguese-speaking literatures and to develop a horizontal reading of the masterpieces of The Lusiads and Chiquinho. In this thesis we propose an analysis that challenges the heroic perspective in the selected literary works, by taking into consideration their respective time, spaces and narrative voices, while showing how the works diverge in the construction of different national identities. In The Lusiads written by Luís de Camões, we analyze its historical context in Portugal during the XVIth century and deconstruct its “epic” heroism embedded within Camões’ rhetoric style. We also analyse different counter-arguments that challenge the heroic image and deconstructs the hero illustrated in The Lusiads. In Chiquinho written by Baltasar Lopes, we study how the political and literary context of Cape Verde during the mid-XXth century develops a “mortal” hero, while it portrays different themes regarding the social justices and injustices in Cape Verde. By bringing together these two works from Portugal and Cape Verde, we bring light to an alternative thesis, that develops a dialogue between both nations and their forms of looking at their national identity that puts into perspective two types of heroes, the “epic” and “mortal”. Therefore, “The Hero-chameleon of the Portuguese Language” has the goal to deconstruct the different models of heroism present in The Lusiads and Chiquinho while it builds a common heroic identity for the portuguese-speaking identity.
  5. 5. 4 Índice Introdução …………………………………………………………....…………….……..…. Pg. 5 Conceitos: Herói, Camaleão, herói-camaleão Capítulo 1: O herói-camaleão épico n’Os Lusíadas ...………………………….………...…. Pg. 9 1.1 As ferramentas na obra Camoniana que criam dualidade do herói épico…...…. Pg. 11 a. A retórica Camoniana, a coroa portuguesa e a Língua Portuguesa 1.2 O herói épico tradicional ..…………………………………………………....… Pg.14 b. Construção de um herói tradicional mais perto do divino c. Vasco da Gama e Camões narrador 1.3 O herói-épico não-tradicional …………...…………………………………….... Pg.17 d. Não aceitação do heroísmo, mais perto do humano e. Velho do Restelo e portugueses tripulantes Capítulo 2: O herói-camaleão mortal em Chiquinho ……………………………..……..…. Pg. 21 2.1 O séc. XX e a procura da identidade cabo-verdiana………………....……...….. Pg. 23 a. Movimento da Claridade e influências 2.2. A construção do herói mortal e a procura da identidade cabo-veridana………...Pg. 25 b. Construção do herói mortal c. Narração, estrutura e temáticas de Chiquinho 2.3 Perspectivas de um anti-herói ……………………………..…………....……… Pg. 29 d. O herói mortal não existe e. Movimento da Certeza e crítica do anti-herói Capítulo 3: Reflexões …………………..…………………………………………….……. Pg. 33
  6. 6. 5 Introdução Este trabalho insere-se na realização de uma tese de licenciatura no departamento de Espanhol e Português na Universidade da Califórnia Berkeley, realizada nos semestres do outono de 2014 e primavera 2015 com a orientação da Professora Catarina Gama. Na persecussão da tese deparamos com as seguintes dificuldades: primeiro, no processo de pesquisa das obras selecionadas, à qual requiriu muita pesquisa, leituras, conversas e paciências para desvendar alguns conceitos presentes em cada obra; segundo, na conceptualização e síntese do material aonde tentamos desenvolver de forma mais clara diante da complexidade do material apresentado; e finalmente, terceiro, na lógica em que escolhemos os temas para desenvolver a ideia do herói-camaleão para fazer esta tese compreensível e proveitosa para o leitor obter inspirações tanto para descordar com o que é dito ou expandir sobre as ideias apresentadas. Posto isso, este trabalho que agora se apresenta, se desenvolve em torno do título, “Do divino ao humano, o herói-camaleão da Língua Portuguesa: Uma leitura identitária das obras Os Lusíadas e Chiquinho”. A ideia de construir um herói-camaleão da Língua Portuguesa representa a união de dois símbolos do divino e do humano que ilustram uma única identidade formada de múltiplas outras. O herói-camaleão é o ser que se encontra entre o homem e os deuses. Ele não é exatamente como um “semideus”, que possui diferentes feitíos de voar, de aumentar de tamanho ou até mesmo de desaparecer, mas também não é um filho de deus, que possui todos os privilégios de ter um destino abençoado. O herói-camaleão é o ser humano – de pele e de osso, de carne grossa ou de carne fina, de pele escura ou de pele clara. Ele é um como todos, que vivem à mercê dos sonhos conquistados, reconquistados e perdidos na jornada da vida. Ele é aquele que vive das diversas advertências do turbulento caminho do destino e é ameaçado pela sua astúcia e venerado pela sua própria compaixão. O herói-camaleão é um complexo e engimático, construído pela união das suas duas figuras que carrega em seu nome, o herói e o camaleão. O herói na literatura é muitas vezes conectado com forças divinas que passa por um processo de formação pertos dos deuses e forças mais fortes que ele para ajudar a sua familía ou comunidade na sua terra natal. Como David Campbell descreve na sua obra A Thousand Faces of A Hero, a construção da identidade heróica possui três etapas, que são a separação, a iniciação e
  7. 7. 6 o retorno do herói1. Na primeira etapa da separação (x), o personagem abandona a sua terra natal com uma missão e vai à procura dos Deuses para ajudá-lo. Na segunda etapa da iniciação (y), o personagem possui contato direto com os Deuses e forças mais poderosas que ele, para enfrentar desafios e conquistas que façam com que ele aprenda o caminho da sabedoria e retorne para a sua comunidade. Na terceira etapa do retorno (z), o personagem se torna um herói para a sua terra natal e recebe a missão de combater o mal alheio e utilizar a sua sabedoria divina adquirida durante a primeira e segunda etapa da sua saga. Campbell ilustra o ciclo da jornada do herói nestas três etapas de tal modo que ele desenvolve um modelo tradicional para definir como se tornar um herói. Esse modelo, visto em obras classico-romanas, como Ulisses, Ilíada, Odiséia, Homero, ilustra a posição de poder e a necessidade do contato com o divino para conseguir completar o cíclo e possuir o seu título heróico. Portanto, o herói é um símbolo do divido na terra, ao qual a sua formação acontece fora do seu berço natal. De uma maneira oposta da visão literária do herói, o camaleão é um animal da terra e mais próximo do que consideraríramos da realidade humana. Por ser um réptil de espaços desérticos, o camaleão é conhecido como o “leão da terra” que domina o seu território e se adapta à diferentes espaços logo após a sua emigração. Ele possui diversas características em que neste trabalho consideramos para analisar a construção do herói-camaleão da Língua Portuguesa. A sua primeira característica é a sua adaptação em diferentes ambientes que ilustra a hibridez da sua imagem de acordo com o espaço em que emigra. O camaleão consegue fazer parte de diferentes ambientes mesmo ele sendo sobreposto à eles. Outra característica do camaleão é a sua visão de 360 graus em cada glóbulo ocular, em que ele consegue mover os olhos em diferentes direções, fazendo com que ele tenha uma leitura de diferentes ângulos e perspectivas múltiplas de uma só situação. Finalmente, destacamos uma terceira característica, que muitas vezes é confundida com a sua verdadeira formação, que é a sua característica da mudança de cor. Se acredita que o camaleão troca de cor de acordo com o ambiente em que ele é sobreposto ou o seu pano de fundo como uma camuflagem, porém, a verdade é que a mudança da sua coloração corresponde com o seu conforto no ambiente em que está ou quando se sente ameaçado por um adversário2. Desta forma, ao utilizar 1 CAMPBELL, Joseph. The Hero With a Thousand Faces, pg. 30. 2 Gregory, R.; Samuels, R.; Hanks, T. “Dynamic Color Change Chameleon Fiber Systems”, Pg.1.
  8. 8. 7 a imagem do camaleão como um ser mais próximo da terra, que possui características de se adaptar a diferentes espaços, que involvem visões mais completas de uma situação e uma des-mitificação da sua identidade, podemos analisar a construção da identidade do herói da Língua Portuguesa. Portanto, neste trabalho argumentamos que o herói da Língua Portuguesa é um herói- camaleão. Ele se desenvolve de uma forma cronológica na qual foi ilustrado como épico, (mais próximo do divino) e mortal (mais próximo do humano), através da variação do seu espaço, da sua voz e do seu tempo de criação. O herói-camaleão da Língua Portuguesa propõe a união de diferentes reflexões dos heróis propostos nas obras Os Lusíadas e Chiquinho para formar um único herói-camaleão da língua. A razão à qual escolhemos utilizar estas obras de duas diferentes nações lusófonas3, ao invés da mesma, é de compartilhar interpretações distintas do heroísmo português e cabo-verdiano, que interpretam a identidade heróica de formas peculiares e quando unidas aderem a uma nova formação . As duas obras também foram escolhidas pelas suas variadas datas de publicação (1572 e 1947), que trazem uma análise mais peculiar de como a política e a literatura se desenvolveram entre as relações identitárias e ideológicas da comunidade lusófona. No primeiro capítulo analizamos o herói-camaleão “épico” na obra Os Lusíadas escrita por Luís Vaz de Camões em que deu o primeiro passo para interpretação heróica da Língua Portuguesa e contribuiu para a construção da identidade portuguesa até os dias de hoje. O herói-camaleão épico ganhou o seu título heróico o seu contexto histórico do século XVI. Este herói se adapta ao ambiente martímo e possui a uma retórica de registro alto que destaca a coroa portuguesa na sua retórica e usa diferentes ferramentas para desenvolver a sua própria identidade símbolica. Ele mostra a criação de duas formas heróicas, do tradicionais e do não-tradicional, que se unem para criar uma identidade única da nação portuguesa, e por consiguiente, constroem o seu caráter “épico” na obra Camoniana. No segundo capítulo analizamos a premissa do herói-camaleão “mortal” na obra Chiquinho de Baltasar Lopes. Diferente do herói épico, este herói se encontra mais perto da realidade humana e mais longe da perspectiva divina. Chiquinho mostra que o heroísmo não faz parte da imaginação do autor e muito menos do leitor sobre a ficção. A obra revela através de uma narrativa descritiva 3 Em prol de evitar de evitar a problemática que leva respeito aos temas como colonização e disputa de poder autárquico e absoluto nas coloniais portuguesas,este trabalho usará o termo “Lusofonia”, ou mais especificamente o derivado radical “Luso”, para expressar o conjunto dos países falantes da Língua Portuguesa.
  9. 9. 8 que o herói mortal desenvolve a sua identidade à partir do ambiente em que ele vive. de suas críticas sociais que os heróis existem na terra sem precisar de ter contato com o divino. Este herói reflete a sua formação diante dos desafios do ser humano com a natureza das ílhas cabo-verdianas e a natureza de si próprio. No terceiro capítulo, ao juxtapor os dois tipos de heróis épico e mortal, desde a criação Camoniana até a obra de Baltasar Lopes, analisamos o herói da Língua Portuguesa como um todo e retomamos a sua interpretação cronológica ao passar dos anos. Revemos as semelhanças das narrativas através de temas recurrentes da formação e representação identitária e dinâmicas de poder, mas também, algumas diferenças como a transformação cronológica da forte aproximação do divino até desmistificação das características humanas do próprio herói da Língua Portuguesa. Contudo, este trabalho tem o intuito de trazer as duas obras Os Lusíadas e Chiquinho para uma leitura horizontal diante de uma perspectiva contemporânea do heroísmo da Língua Portuguesa. Um dos grandes âmbitos gostaríamos de ilustrar é a difusão do heroísmo presente na comunidade lusófona e desconstruir qualquer tipo de hegemonia ou sobre-potência presente nações lusófonas. Por fim, gostaríamos convidar o leitor à desenvolver este diálogo alternativo, ao unificar o herói-camaleão da Língua Portuguesa respeitando as suas diferenças ao invés de aglomerar as suas semelhanças. “Deus quer, o homem sonha, a obra nasce. Deus quis que a terra fosse toda uma, Que o mar unisse, já não separasse". Fernando Pessoa Mensagem, Segunda Parte – “Mar Português: I O Infante Capítulo 1 - O Herói-camaleão Épico n’Os Lusíadas
  10. 10. 9 O herói épico d’Os Lusíadas escrito por Luis Vaz de Camões é a primeira versão do herói- camaleão da Língua Portuguesa. Este herói possui a capacidade de se adaptar à diversas leituras e contextos históricos, sem deixar de perder a sua estrutura textual e a sua identidade heróica, enquanto a sua caracterização depende da sua proximidade ao elemento divíno destacado na obra de Camões. Desde 1572 até o dia hoje, Os Lusíadas foi re-lido, re-interpretados e re-adaptado à diferentes contextos sociais, políticos e ideológicos. Acadêmicos e pensadores como Teixeira de Pascoal, Agostinho Silva, Miguel Real, e Fernando Pessoa já questionaram, tesearam, contestaram e também acrescentaram novas visões sobre a representação da obra e a sua influência sobre a identidade portuguesa. Porém, é importante destacar como a característica heróica da obra Camoniana fincou na identidade portuguesa e abriu portas para novas interpretações. Através da retórica e retrato heróico dos seus personagens, Camões construiu a imagem de dois heróis épicos, um tradicional mais perto do divino e outro não tradicional mais perto do humano, que dão os primeiros passos ao encontro do português com a sua própria identidade enquanto também abrem as portas para o heroísmo na literatura lusófona. Uma das grandes dávidas da obra Camoniana está na forma em que Camões constrói uma conexão do divino como o humano, na qual resultou na perpetuação da identidade portuguesa. Ao começar pela retórica camoniana na produção d’Os Lusíadas, analizamos elementos que influenciaram o espaço nacional português, referente ao rei D. Sebastião e ao contexto mundial do século XVI. Aqui revisitamos alguns elementos da mitologia greco-romana e da história de Portugal que enfocam no sucesso e ambição da coroa portuguesa, quer no espaço nacional quer no espaço lusófono. Destacamos um elemento chave que é a Língua Portuguesa, sublinhada por um alto registro, que abre portas para entender melhor a construção e a desconstrução do heroísmo épico. Assim, diante da retórica de Camões rodeado pelo contexto histórico e literário do século XVI e a influencias de diferentes ferramentas contribuintes à sua narração, damos o primeiro passo para comprender como se construiu o herói épico português, que possui uma dualidade identitária através do heroísmo tradicional e do heroísmo não-tradicional. Ao falar do herói épico tradicional n’Os Lusíadas, analisamos, de fato, a presença de dois personagens narradores da obra que são o próprio autor, Camões, e a figura literária de Vasco da Gama. Ambos os narradores, utilizam os recursos mencionados previamente na retórica de Camões e eles simbolizam o êxito do navegador e do povo português tanto dentro quanto fora da
  11. 11. 10 narrativa. Aqui também vemos como o heróismo épico tradicional exalta a ideologia nacionalista e a necessidade desta contrustacão identitária nacional. O herói épico tradicional representado em Camões não é um personagem, mas também a construção da identidade do povo português que se fincou até os dias de hoje. Em contraste com o herói épico tradicional, também gostaríamos de destacar o herói épico não-tradicional e a sua importante presença na obra e no simbolismo identitário português. O herói épico não-tradicional n’Os Lusíadas ilustra a desconstrução da identidade heróica enquanto revela um lado mais humano da obra. Através de personagens como o Velho do Restelo e os portugueses que sacrificaram as suas vidas durante batalhas marítimas, especialmente no incidente de Calute, o herói não-tradicional é reflexionado sobre a falta de reconhecimento e ainda por cima apagado na leitura tradicional do herói épico. Aqui, destacamos a importância destes personagens, a caracterização do seu simbolismo e identificamos a sua falta de reconhecimento à qual destaca uma visão heróica que é mais próximo do divino e mais longe do humano. Neste primeiro capítulo revemos o espaço, a voz e a retórica Camoniana que constróem os dois tipos de heróis épicos tradicionais e não tradicionais n’Os Lusíadas. Ambas construções do herói épico d’Os Lusíadas desenvolvem uma dualidade identitária em Portugal, ao fazer com que o heroísmo tradicional épico abrace a idéia do divino ou do humano na obra Camoniana — mas não os dois. Aqui o herói, de uma forma breve e concisa, mostra como a epopéia camoniana possui a característica de adaptação que se desenvolve a diferentes tipos de contextos através da retórica, da construção e da desconstrução do herói-camaleão épico. Este herói se adaptou ao seu caráter tradicional de uma forma dinâmica, espontânea e progressiva, e por consiguiente, insistiu até o ponto que ele conquista com grande êxito o seu comforto com o ambiente, sobreposto à seu favor ou contra a sua vontade de ser o não-tradicional. 1.1 As ferramentas na obra Camoniana que criam dualidade do herói épico O herói-camaleão foi épico e buscou no retrato da realidade do mundo mais próximo do divino para construir e encontrar a sua própria identidade.
  12. 12. 11 Os Lusíadas reflete a dinâmica do cenário social, cultural, político e econômico de Portugal durante o século XVI. No início do século XVI Portugal se encontrava num dos seus auges políticos e econômicos4. A monarquia tinha uma forte estabilidade política, a economia mercantilista se expandia nas colonias africanas e asiáticas, pois a sua liderança aumentava no âmbito global comparado com ingleses, espanhóis e franceses5. O rei de Portugal, D. Sebastião I, era um soberado adorado pelos seus súditos, especialmente após ganhar guerras contra os Mouros. Ele representava a autoridade e a legitimidade da coroa portuguesa para o povo português. A coroa e a sociedade burguesa possuiam mais poder, riquezas e com isso construíram um sentimento nacionalista no inicio do século XVI. Porém, desde a segunda metade do século XVI até o início do século XVII, Portugal passou por uma crise de legitimidade política e identitária causada pela tomada do trono português por empérios estrangeiros6. Como vemos durante o reinado de D. Sebastião I, a burguesia portuguesa decolou na sua economia política e poder autoritário. Porém, após a batalha de Alcárcer-Quibir em 1578, quando D. Sebastião desapareceu, Portugal caiu nas mãos do reino espanhol, Felipe I (na Espanha) e Felipe II (em Portugal). Em termos sociais, o clero e a burguesia portuguesa passavam por um momento de fraqueza política e instabilidade autônoma. A crise de legitimidade política e da identidade portuguesa debaixo do reino espanhol, Portugal sentiu a falta da construção identitária heróica proposta por Camões. Em termos sócio-sociologicos, esta mudança de poderes representou a instabilidade e a fraqueza identitária da coroa portuguesa. Sem o soberano Português no poder, a idendentidade que era baseada na coroa virou um castelo de cartas pronto para ser derrubado. Quando Camões publicou Os Lusíadas em 1572, um dos fatores mais marcantes na obra foi a sua retórica que resgata ao auge histórico de Portugal e soberania à coroa portuguesa. A obra mostra de forma bem explícita como a coroa portuguesa se destacava na sua excelência soberana, poder administrativo e econômico no século XVI. Académicos e pesquisadores se referem a esse período como a época do Sebastianismo e Quincenhismo7, sublinhado por sentimentos saudosistas 4 PERES, Damião. A History of Portuguese Discoveries. Lisboa: Comissão Executiva das Comemorações do Quinto Centenário da Morte do Infante D. Henrique, 1943. 5 Ibid 4. 6 SARAIVA, António José; LOPES, Óscar. História da Literatura Portuguesa. Lisboa: Porto Editora, 17a edição, 2010. Pg. 182-185. 7 REAL, Miguel. Portugal Ser e Representação. Algés: Difel, 1998. Pg. 39.
  13. 13. 12 do grande êxito português representado n’Os Lusíadas. Os portugueses, tanto burgueses quanto de clases mais baixas, queriam retomar a identidade respeitada como antes da sua crise de instabilidade política e através da obra Camoniana, o povo português encontrou uma forma de reviver o sentimento nacionalista às margens da fragilidade. Além de representar a construção da identidade heróica portuguesa, Os Lusíadas também é uma ferramenta de relembrar o “quem realmente somos”. Assim, a epopéia Camões simboliza uma memória viva do português soberano e vencedor, que permanece na identidade nacional. Logo no começo da obra, vemos características saudosistas que sublinham a retomada de Camões como reótcóa na construção da identidade portuguesa. No Canto I desde as estrofes seis até dezoito, Camões venera a juventude e poder de D. Sebastião e honra a sua imagem imperial: “E vós, ó bem nascida segurança da Lusitana antiga liberdade, e não menos certíssima esperança de aumento da pequena Cristandade; Vós, ó novo temor da Maura lança, Maravilha fatal da nossa idade (Camões, Canto I estrofes 6-8)”. A retórica camoniana estrategicamente apresenta a veneração da coroa logo ao começo para dar um ponto de partida à construção identitária do heroísmo épico. Camões se refere à primeira pessoa do plural, “vós”, ao rei D. Sebastião, e dá-lhe grande a soberania e título na sua retórica como figura da “segurança Lusitana” e “maravilha fatal da nossa idade”. Aqui vemos que D. Sebastião I é um símbolo de força e de determinacão para os navegadores portugueses e a sua imagem se torna uma representação para o povo português, ao abraçar o soberano da nação para provar a legitimação da obra. De uma forma exemplar, a imagem de D. Sebastião serve de ponto de partida para o êxito português e a construção do herói épico na obra Camoniana. Outro elemento importante na retórica de Camões é o uso da Língua Portuguesa como ferramenta para destacar a coroa portuguesa. Camões utiliza um registro alto para fazer referir-se a coroa e os êxitos de portugueses. Isso faz com que a obra tenha um nível, mais alto que só inclua a coroa portuguesa e o clero e também ilustre a honra do português formal lusitano. Aqui referimos às origens da língua diante das suas raízes do latim, em que a língua se modificou e evoluiu para se destacar do Galego-português e também do Latim lusitano8. Ao desenvolver uma escrita de registro mais elevado de um português burguês e diferente sintaticamente do português mais prómixo do latim e do galego, Camões abre as portas para a 8 CASTRO, Ivo. Introdução à História do Português, “Territórios e comunidades linguísticas”, Capítulo I.
  14. 14. 13 mesma construção identitária da Língua Portuguesa, como fez com a imagem de D. Sebastião I. Ele faz com que a Língua Portuguesa transmute o seu caráter tradicional do seu passado lusitano como um meio de comunicação, para se tornar um elemento simbólico da identidade portuguesa durante o tempo colonial. Logo no ínicio do Canto I, no começo da obra, Camões diz, “A fama das vitórias que tiveram; que eu canto o peito ilustre Lusitano, a quem Neptuno e Marte obedeceram” (Camões, estrofe 3). Pela primeira vez, a palavra lusitano é mencionada por Camões e neste contexto, vemos que o seu simbolismo faz referencia a honra da identidade “lusitano”, que desenterra o passado dos povos portugueses que vivam antes dos romanos na Península Ibérica. Aqui Camões dá mais uma pista para a construção do caráter nacional que referencia o passado e o apego que existe com a Portugal e a Língua Portuguesa. Na obra camoniana, a língua se torna mais do que uma ferramenta de comunicação entre o leitor e o autor, ao representar o símbolo da identidade portuguesa e a sua expansão no globo. A Língua Portuguesa utilizada n’Os Lusíadas vai além da gramática e sintaxe da Língua Portuguesa, ela também expressa a construção identitária portuguesa. Portanto, a retórica camoniana que venera a coroa portuguesa e utiliza a língua como símbolo da mesma, também constrói um caráter identitário que enfoca na bravura dos portugueses navegadores e na tradicão da burguesia portuguesa. Esta retórica dá a luz ao caráter heróico da epopéia e faz d’Os Lusíadas o ícone tradicional da construção e desenvolvimento da identidade nacional. Desta forma, vemos que essa retórica desenvolve mais ainda na construção do herói épico nos personagens d’Os Lusíadas. Portanto, além de representar a construção da identidade herói portuguesa, Os Lusíadas também dá uma resposta ao futuro da identidade de Portuguesa, com raízes fortes no passado de desafios, de conquistas e de superações. 1.2 O herói épico tradicional: construção de um herói tradicional mais perto do divino A identidade do herói épico é a tradicional e ela representa mais do que do que o simples heroísmo da narrativa, mas o heroísmo da sua própria nação. Após vistarmos a retórica de Camões diante da veneração da Coroa portuguesa e do simbolismo da Lígua Portuguesa n’Os Lusíadas, encontramos um ponto de partida para aprofundar na interpretação do heroísmo épico português. Nesta sessão analizamos como a imagem do herói
  15. 15. 14 tradicional é constríua pela órretica camoniana. Os Lusíadas, a presença dos dois personagens narradores Vasco da Gama e Camões ilustram. Na obra camoniana, o personagem de Vasco da Gama é o porta-voz da coroa portuguesa durante as explorações marítimas e também é o personagem que manteve vínculos e diálogos com os Deuses dos mares durante a narrativa da obra. Como no Canto III da epopéia, Vasco da Gama toma o papel de narrador e compartilha com a deusa da poesia épica, Calíope, a História de Portugal desde o tempo das suas origens. Ele ilustra de uma maneira persuasiva como a monarquia portuguesa se expandiu e se aventurou no ultramar. Na estância 42 deste diálogo, Da Gama conta à Calíope, “Mas já o Príncipe Afonso aparelhava O Lusitano exército ditoso, Contra o Mouro que as terras habitava De além do claro Tejo deleitoso”. Essa passagem é um exemplo ideal da manobra comoniana de venerar a coroa portuguesa enquanto apresenta diferentes elementos da retórica. Em síntes essa passagem mostra elementos, através da voz de Vasco da Gama, que são a menção vangloriosa da coroa portuguesa, a força do povo lusitano — abrindo a porta ao sentimento nacionalista da obra —, a presença do inimigo Mouro e finalmente um elemento primordial que é o rio Tejo a representar o ponto de partida e de chegada de Portugal para o seu domíneo marítimo. Desta forma, essa passagem mostra a dinâmica e o jogo simbólico que Vasco da Gama traz ao diálogo e conscientemente menciona na construção da narrativa com a deusa Calíope. Além desta narrativa de elementos e um jogo simbólico, Vasco da Gama legitimiza a sua autenticidade literária e autoridade como o personagem porta voz da História de Portugal. Como um narrador-personagem, que também foi um grande símbolo das navegações e dos navegadores portugueses, a voz de Vasco da Gama possui um peso muito forte na narrativa da História de Portugal. De certa forma, é importante apontar que o público alvo da narrativa Camoniana contada pro Vasco da Gama, é a coroa portuguesa. A forma com que a História, com H maiúcuslo é contada, reflete os sucesso e âmbitos da expansão da coroa portuguesa e os reis precendentes do século XVI, justamente para os reis e o clero lerem. A narrativa que aponta a coroa e o poder da mesma, faz com que o personagem de Vasco da Gama, consequentemente, também ganhe o mesmo poder e a legitimição que a Histórica que contou. Assim, a narrativa de Vasco da Gama, conectada à hierarquia portuguesa e a legitimação da sua história também revela o seu âmbito como um personagem que não é ordinário, mas que também não fa parte da coroa portuguesa, porém possui o poder da narração para ilustrar-se como tal.
  16. 16. 15 Através deste poder da narrativa, mais próximo dos deuses e referente a coroa portuguesa durante o percurso da obra Camoniana, Vasco Da Gama se tornou um ícone heróico em que o leitor se associa “ideologicamente” ou “identitariamente”. Além do personagem e do homem na vida real, a sua imagem prende ao heroísmo do explorador e a visão de que ele é a identidade heróica Camoniana. Desta forma, o pesonagem em sí, é uma respresentação sócio-sociológica do que referimos à veneração à coroa portuguesa. Através do simbolismo de ser um capitão, líder, Vasco da Gama possui essa identidade que os Portugueses do século XVI gostariam de abraçar e nomeá-la como identidade nacional. Assim, o personagem de Vasco da Gama representa parte do herói épico tradicional que ajuda a construir a identidade do português, da coroa e da nação. Junto à Vasco da Gama também temos o próprio autor, Camões, como um dos personagens presente na obra que simbolizam herói épico tradicional. A presença de Camões é muito interessante de ser analisada como personagem dentro da obra e o autor fora da obra, pois ele é um dos tripulantes, poré a sua narrativa tem o mesmo peso que a narrativa de Vasco da Gama. Começando por Camões como autor d’Os Lusíadas, é importante lembrar que Camões pertencia à uma família de classe média-alta que vivia em Lisboa e quando adolescente ele era um delinquente encarcerado diversas vezes por burlar a lei9. Numa das vezes antes de ser preso ele fugiu para uma das navegações de Vasco da Gama aonde começou a sua aventura e a sua escrita d’Os Lusíadas.10 Como um dos tripulantes da navegação em vida real, a ficção se torna mais real e também desenvolve a confiança do leitor sobre obra. Assim, ela o e aproxima do narrador. Camões mostra um caráter de um narrador mais confiável, com um viéis menos evidente em relação ao poder da obra Camoniana. Camões personagem tem um papel tripulante na obra, em que ele obedece ordens é sujeito ao poder de Vasco da Gama e ao poder da hierarquia no século XVI. O personagem de Camões conecta-se com a sua representação social e abraça junto à eles uma identidade heróica que também é compartilhada com Vasco da Gama. Nos Cantos I e VII-X Camões começa a narrar a sua aventura durante a expansão de forma vangloriosa à coroa portuguesa. De maneira idêntica da narrativa de Vasco da Gama, o personagem de Camões também enfatiza o poder das navegações e a veneração do povo Lusitano. Logo no 9 Ibiden (3), Pg. 317 e 318. 10 Ibiden (9).
  17. 17. 16 Canto I, quando mal acaba de se começar o livro, Camões diz “Que eu canto o peito ilustre Lusitano, a quem Neptuno e Marte obedeceram” (Pg.1), como um canto de veneração do povo lusitano que é mais forte que Deuses mitológicos como Neptuno, o Deus dos mares, e Marte, o Deus inimigo dos navegadores portugueses. Camões mostra, logo no começo da sua obra, que o poder lusitano exercido pelos navegadores também simboliza uma identidade comum do povo português. O sentimento da lusitanidade é construído desde o princípio da obra e carregado junto com a retórica que venera a coroa portuguesa ao ganhar poder e legitimidade. Assim, ambos personagens principais de Vasco da Gama e Camões representam a presença do herói tradicional épico n’Os Lusíadas. Através de uma forte presença da retórica Camoniana, à qual destaca o poder da coroa e a dinâmica dos navegadores com os Deuses mitológicos, ambos os personagens ganham a sua legitimidade como personagens principais e a autoridade perante as suas respectivas narrativas. Em virtude deste poder legitimador e autoritário, vemos a façanha Camoniana que construiu a identidade detrás de uma hierarquia na narrativa. Os portugueses que estiveram mais perto do divino e participaram das batalhas marítimas foram e são considerados como o heróis na narrativa. O heroísmo é visto diante do poder em que o narra. Desta forma, a entidade legitimadora que seria a coroa portuguesa junto com a retórica camoniana, permitem que se desenvolva a criação do herói tradicional épico n’Os Lusíadas. Portanto, o êxito proclamado por forças de poder e hegemonia clássica é um elemento essencial para a criação e o desenvolvimento da identidade heroica que também se extende ao âmbito nacional. Então, aonde está o poder e a quem o possui? A formação do herói épico tradicional n’Os Lusíadas dentro da narrativa de Vasco da Gama e de Camões, faz com que eles sejam personagens correspondentes da contrução da identidade heróica do navegador português que precisamente aponta êxitos da coroa Portuguesa e a bravura do protuguês navegador. Ambos abrem portas para o leitor aproximar-se da narrativa camoniana e aceitar a retórica camoniana, ou até re-interpretar a sua narrativa de vanglória como uma estratégia contra a coroa e um canto de alarme aos precedentes na sua obra. Desta forma ambos os personagens conseguem desenvolver uma só imagem de um herói tradicional perante às
  18. 18. 17 suas ferramentas que ajudam a desenvolver um espaço em comum entre eles, que é o poder e o heroísmo dentro da identidade nacional. 1.3 O herói-épico não-tradicional: aproximação do humano mais longe do divino Mas ao mesmo tempo, a identidade heróica abre portas para a crítica e a exploração de uma perspectiva diferente de si própria que é a do herói não-tradicional. Como o seu próprio nome diz, o herói-épico não-tradicional n’Os Lusíadas são os personagens abdicados do seu heroísmo por conta do seu caráter mais humano e menos divino. Eles fazem parte de uma interpretação distinta de personagens secundários, como o Velho do Restelo e os portugueses que morreram nas batalhas marítimas presentes na obra Camoniana. Apesar de que esses personagens contribuem para formação e construção do herói tradicional, eles não são considerados heróis nem legitimados na literatura Camoniana. O seu papel é no entanto paradoxo, pois, eles apoiam a construção do heroi-é tradicional enquanto mostram diferentes perspectivas de uma contrapartida do heroi-é tradicional. Então, nesta sessão do trabalho analizamos o herói não-tradicional vis à vis a sua participação na colaboração do desenvolvimento do herói tradicional, junto com a formação da sua própria identidade como um herói mais próximo do humano. Aqui também vemos que este herói é a nossa invenção para discutir mais a fundo a interpretação heróica, reler o tema recurrente do poder da narrativa heróica e o impacto d’Os Lusíadas sobre a identidade nacional portuguesa. Como dito anteriormente, os personagens do Velho do Restelo e dos portugueses assasinados na ilha de Ceuta mostram a contrapartida do heroísmo tradicional na narrativa Camoniana, enquanto abrem a porta para interpretação de um heroísmo não-tradicional na obra. No canto IV, Camões narrador descreve a Batalha de Ceuta, que foi quando 170 portugueses lutaram contra os Mouros, mas só 55 proseguiram com a viagem. Diante da perda de quase metade da tripulação, Camões nunca menciona a veneração ou agradecimentos pelas suas forças durante a batalha, muito menos ressalta a presença desses personagens que sacrificaram as suas vidas para servir a coroa e representar a sua nação lusitana. Assim, vemos que as vidas dos portugueses que morreram durante as expedições foram em vão e as suas mortes não receberam um título ou êxito quanto os que sobreviveram as batalhas. A morte dos portugueses pode ser observada como uma forma de representar os perigos das
  19. 19. 18 tripulações durante as expedições, mas também uma forma de mostrar que a bravura e poder não são condecorados diante da interpretação do herói não-tradicional, mas sim do tradicional. Os aplausos aqui estão para a tripulação que sobreviveu durante as batalhas e as mortes demonstram o desafio dos que sobreviveram. Outro personagem que exemplifica a mesma ideia de reinforçar o poder das tripulações é o Velho do Restelo. Esse personagem é criticado pela seu “pessimismo” à respeito das suas profecias dictadas antes da partida dos portugueses e também visão das expansões marítimas e o mal que eles sofreriam após a partida de Portugal. No canto IV, versos 90 até 104, o Velho do Restelo profecia as atrocidades com um tom verdadeiro porém sarcástico sobre a viagem marítima enquanto as tripulações embarcavam na suas perspectivas caravelas. Aqui, o Velho do Restelo exclama: “Ó filho, a quem eu tinha Só para refrigério e doce amparo Desta cansada já velhice minha, Que em choro acabará, penoso e amaro, por que me deixas miséria e mesquinha? Porque de mim te vás, ó filho caro, A fazer o funéreo enterramento Onde sejas de peixe mantimento? (Pg.183 - 90)”. “Ó glória de mandar, ó vã cobiça Desta vaidade a quem chamamos fama! Ó fraudulento gosto, que se atiça Cuma aura popular, que honra se chama! Que castigo tamanho e que jutiça Fazes no peito vão que muito te ama! Que mortes, que perigos, que tormentas Que crueldades neles experimentas! (Pg. 184 - 95)". Esses dois versos da obra Camoniana captam a verdade dolorosa dos Portugueses que estavam a ponto de enfrentar durante as navegações. Neste primeiro verso é interessante ver como o Velho Restelo faz referência à situação política e econômica de Portugal nas mãos do Rei Felipe II, ao referir-se da “miséria” que os portugueses deixariam ao sair de Portugal, junto com o seu interesse mercantilista “mesquinho” de explorar o mundo. Já no segundo verso, o Velho do Restelo transfere o seu foco do sistema ao desejo da tripulação Portuguesa da “cobiça” e da “vaidade” em que chamam de “fama”. É interessante em ver que a fama, de certa forma conectada com a construção da identidade do herói tradicional. Aqui “fama” por representar os interesses do português em
  20. 20. 19 deixar a sua terra natal. Desta forma, o Velho do Restelo apresenta uma visão dos portugueses que não é vista mencionada na literatura e contradiz a construção heróica do tradicional. A crítica do Velho do Restelo aponta uma contraposição da imagem do herói tradicional ao criticar o mostrar que era pensado como heroísmo e consequentemente como criação identáitria e desenvolver uma própria construção diante do herói não tradicional. Aqui vemos que o fato do Velho do Restelo ser um personagem que não acompanhou os tripulantes durante a viagem, mostra que a identidade heróica não depende só dos que vão a luta, mas tambem os que ficam. O fato do Velho não possuir a mesma retórica e legitimação que Vasco da Gama ou Camões, não resigna a falta do seu status como herói. O heroísmo não-tradicional ilustrado pelo Velho do Restelo é justamente a contraposição do herói tradicional na obra Camoniana. Os dois exemplos das centenas de portugueses que morreram na batalha de Ceuta junto com o personagem do Velho do Restelo, representam o heroísmo não-tradicional pelo simbolismo criado como contrapartida diante do herói tradicional e também pela retórica Camoniana que os revolve. O papel desses dois exemplos revolvem sobre a ideia do herói tradicional para justificar a sua própria existência. Tanto os portugueses quando o Velho do Restelo mostram que, para que haja uma construcão, deverá de existir uma contraposição. Mas pelo menos aqui, esta contraposição é vista como uma reitoração da construção diante da retórica Camoniana. Desta forma, o Velho do Restelo e os portugueses tripulantes reinforçam a ideia do heroísmo tradicional, por eles representarem o não tradicional. Finalmente, o herói épico não-tradicional n’Os Lusíadas possui uma forte presença na epopéia, apesar de que ele tenha um espaço limitado para o seu próprio desenvolvimento em comparação com o herói tradicional. O capítulo 1 mostra na retórica camoniana uma construçnao do herói épico que está mais perto do divino pelo seu contato com os deuses e a sua legimitação de poder com a coroa. Mas ao mesmo tempo, existem os heróis não tradicionais que não tem espaço na narrativa e contrapõem o heroísmo tradicional. Contudo, aqui vemos como o espaço, tempo e voz constroem a identidade heróica mais perto do divino e do legitimador, comparado com a identidade hereoica humana e desponderada.
  21. 21. 20 . Capítulo 2: Herói-camaleão mortal em Chiquinho O herói mortal de Chiquinho escrito por Baltasar Lopes é a segunda versão do herói- camaleão da Língua Portuguesa. Este herói possui a capacidade de se adaptar à diversas leituras e contextos históricos, sem deixar de perder a sua estrutura textual e a sua identidade heróica. Ele possui um caráter mais humano e menos divino ao qual o conecta mais ao seu povo ao invés dos
  22. 22. 21 deuses. Diferente do herói épico11, o herói mortal tem um pensamento mais crítico de sí mesmo e da sua própria comunidade e ele procura desenvolver a sua própria identidade com os “pés fincados na terra”12. A obra Chiquinho escrita por Baltasar Lopes em 1947, é uma obra inovadora à qual ilustra o herói mortal na sociedade cabo-verdiana através de uma narrativa temática que adere à proposta da construção identitária da caboverdianidade. Para desenvolver a análise de Chiquinho perante ao heroísmo épico da obra, separamos este capítulo em três sessões, em que explicam como o contexto dos movimentos literários e políticos em Cabo Verde dão um ponto de partida para a construção identitária da obra; como Lopes ilustra o herói a identidade cabo-verdiana, cabo- verdianidade13, do herói mortal através da narrativa e da temática em Chiquinho; e finalmente como os críticos apontam uma contrapartida à respeito da construção de Lopes e da obra como um anti-herói. Começando pelo seu contexto literário e cultural em Cabo Verde no século XX, primeiro vemos como o contexto da obra, diante do movimento Claridoso em Cabo Verde, foi um processo da procurar da cabo-verdianidade e de como a obra de Lopes for um elemento em que provou a sua autenticidade. O movimento da Claridade fundado por Manuel Lopes, Jorge Barbosa e Baltasar Lopes (que usava o seu pseudónimo poético Osvaldo Alcântara) e Jorge Barbosa, e influenciado pelo movimento modernista brasileiro, mostra a procura identidade caboverdiana dentro da exploração da identidade do indivíduo e da nação. Ao fazer isso, o movimento foca na identidade autônoma do cabo-verdiano , mostrando a proximidade da representação da identidade com o povo cabo-verdiano. Logo em seguida, analisamos como Baltasar Lopes desenvolve em Chiquinho uma resposta para o movimento da Claridade, enquanto, revela diferentes temáticas sobre a situação socioeconômica em Cabo Verde. Lopes desenvolve uma estrutura narrativa dividida em três partes do romance que são, “Infância”, “S. Vicente” e “Às-Águas”, para o leitor acompanhar o crescimento do personagem principal, Chiquinho, e também estar mais próximo da forma com que ele observa o ambiente ao seu redor. Desta forma, Lopes desenvolve a imagem do cabo-verdiano ressalta o seu caráter heróico como um sobrevivente e representante da nação em Chiquinho. 11 Definição do herói-camaleão-épico, introdução e pg 7. 12 ANJOS, José Carlos Gomes. intelectuais,literatura e pode em cabo verde: lutas de definição de identidade nacional.Pg. 116-117. . 13 Ibiden (9), pg. 140. “A cabo-verdianidade tem, sob esse prisma, a mestiçagem como uma espécie de totem. ela é uma espécie de essência que conforma o conjunto dos corpos cabo-verdianos".
  23. 23. 22 Na última parte deste capítulo, também levamos em consideração a crítica de Chiquinho que argumenta à favor do seu anti-heroísmo14. Aqui, vemos como a crítica da obra também possui raízes políticas e culturais, aonde analizamos a presença do neo-realismo portguês, vis à vis a influência do Estado Novo de Salazar. Os críticos apontam que temas sobre a pobreza a negritude e o privilégio que não foram mencionados nas linhas de Baltasar Lopes, e por consiguiente, para eles Chiquinho deveria de ser considerado um anti-herói por abandonar a ílha e não representar a identidade caboverdiana como uma toda. Neste primeiro capítulo analizamos como o contexto político e cultural influenciam o desenvolvimento do heroísmo mortal em Chiquinho, junto com a forma em que Baltasar Lopes desenvolve a estrutura do seu texto ilustrando temas socioculturais e socioeconômicos em Cabo Verde; e finalmente como os críticos desenvolvem uma contra-postura diante do desenvolvimento identitário da obra. Desta forma, mostramos que Chiquinho é uma obra inovadora na academia cabo-verdiana, que traz luz à interpretação de um herói da Língua Portuguesa ao se distinguir pelo seu caráter mais humano que ilustra uma perspectiva mais real do herói mortal. Ele mantêm o seu caráter humano, não só, por não ter contato com os deuses como o herói épico, mas também, por sobreviver nas condições socieconômicas e culturais do sistema cabo-verdiano. 2.1 O séc. XX e a procura da identidade cabo-verdiana Hoje em dia, o herói-camaleão é mortal e a sua imagem retrata a realidade do mundo mais próximo da expressão do homem para também construir e questionar a sua própria identidade. Chiquinho, publicada em 1947, faz parte do movimento da Claridade à procura da autenticidade da identidade caboverdiana. Baltasar Lopes, um dos pais do movimento da Claridade, mostra como a sua obra se liberou da imposição do sistema colonial conectado a Portugal, enquanto desenvolveu um sentimento autônomo para a literatura cabo-verdiana. Como 14 XAVIER, Lola Geraldes. “Chiquinho: o anti-herói e a pertinênica de um discurso narrativo organizado em função da Hora di Bai”, Pg. 40-46.
  24. 24. 23 Manuel Veiga descreve em sua obra Insularité et littérature aux îles du Cap-Vert, a claridade foi “a base da aparição de um grupo de escritores que, dentro da realidade da Claridade, se liberaram dos canons estrangeiros e clarificaram o ‘sentimento íntimo’ nacionalista”15. Antes da Claridade aparecer, Cabo Verde ilustrava um vínculo político e cultural muito forte à Portugal, especialmente por ainda ser uma das suas colônias16. Durante a década de 40, Portugal intensivava a exploração econômica em Cabo Verde e a quantidade de Portugueses que emigravam para as colônias aumentava17. Diante destas dinâmicas nacionais e culturais, o movimento da Claridade tentou se liberar, pelo menos na literatura, do regime Português e promer o “ ‘sentimento íntimo’ nacionalista”. Levando em conta o desejo de criar uma imagem autônoma, o movimento da Claridade traz luz à procura da identidade e da autenticidade em Cabo Verde. Como Chabal diz na sua obra The Postcolonial Literature of Lusophone Africa, Chabal esclarece que a “Claridade se tornou sinônimo da identidade da ílha. Essa magia, publicada entre 1936 até 1960, é muitas vezes vista como vertente fundamental, cujas fraquezas e pontos mais fortes são casualmente medidas18". Desta forma, a Claridade mostra o desenvolvimento da criação da identidade caboverdiana baseado no seu contato com o povo e a forma em que os autores vêem o povo. Uma das formas em que os pais da Claridade viram o desenvolvimento da identidade cabo-verdiana foi através do regionalismo, emprestado do modernismo brasileiro19. O modernismo Brasileiro teve grandes influências na Claridade em Cabo Verde perante à construção modernista sobre a identidade regionalista, especialmente no nordeste do Brasil, que trouxeram as ideias sobre a construção autônoma da região. Em Literaturas Africanas de Expressão Portuguesa, Laranjeira comenta que “O romance proveniente do Nordeste brasileiro contagiou portugueses e africanos. Jubiabá , de Jorge Amado, provocou um grande impacto em Baltasar Lopes e seus confrades (Pg. 205)”. Assim, outro autores também tiveram grandes influêcias, como por exemplo Gilberto Freyre e as suas teorías sobre miscigenação e luso- 15 Tradução feita pelo autor; versão original de a seguir, em Francês “à la base d’apparition u groupe d’écrivains qui, dans la revue Claridade, se libérènt des canons étrangers et clarifièrent le ‘sentiment intime’ de nationalité” (pg. 125). 16 Só em 1951, em que o termo províncias ultramarinas foi implementado por Salazar. 17 Elsa Santo Alpínio. Salazar e a Europa, História da adesão à EFTA (1956-1960) Pg.35. 18 Tradução feita pelo autor; versão original de Chabal, versão original a seguir em inglês,“Claridade became synonymous with the islands’ identity. This magian, published intermittently between 1936 and 1960, is often seen as the yardstick by which the weaknesses and strengths ofthis who preceded or followed it are measured (pg. 179)”. 19 Ibin (9), pg. 108-114.
  25. 25. 24 tropicalismo20. Então, podemos ver que a Claridade também foi um projeto de um “modernismo nacionalista, superando o tradicionalismo convencional vigente de influência estranha direta”21 . À partir deste momento, o movimento da Claridade procura desenvolver a sua identidade regional mais elevado à um nível nacional, diante da exploração da identidade cabo-verdiana autêntica. Além de desenvolver uma pesquisa ideológica sobre a exãoploração da identidade cabo- verdiana e o ambiente em que ela se encontra, o movimento da Claridade também explora as características sociológicas e socioeconomicas de Cabo Verde. Como veremos na próxima sessão em Chiquinho, o movimento Claridoso reflete através do obra a realidade da população em Cabo Verde, como “uma preocupação sociológica e estética que excede a simples tematização literária da realidade, para se assumir como programa alargado às ciências humanas, inaugurando uma literatura que se faz realista e comprometida, expressão viva da realidade total, como diz Roland Colin, a propósito da literatura africana” (LARANJEIRA, pg 325). Portanto, na próxima sessão veremos como a identidade cabo-verdiana se desenvolve em Chiquinho e como o herói mortal se forma na estrutura e temática da obra. 2.2. A construção do herói mortal e a procura da identidade cabo-veridana A sua identidade também é construída pelo seu heróismo, só que ele é mais próximo do real e do humano que é o seu próprio sobreviver. Chiquinho abriu portas para a exploração da identidade Cabo Verdiana e do herói mortal através da voz inocente de um narrador jovem que ilustra de temas recurrentes na sociedade cabo- verdiana. Baltasar Lopes desenvolve em sua obra uma estrutura simples dividida em três partes “Infância”, “S. Vicente” e “Às-Águas” para descrever temáticas da seca, da fome, da emigração e da saudade. Desta forma, Baltasar Lopes busca construir a identidade cabo-verdiana, através do seu personagem principal, Chiquinho, que também representa a identidade herói mortal mais perto do humano e mais longe do divino. 20 Ibin (20). 21 LARANJEIRA, Pires. LiteraturasAfricanas de Expressão Portuguesa,Prefácio de Alberto Carvalho. Pg. 304
  26. 26. 25 Através da estrutura do romance, Baltasar Lopes usa o personagem Chiquinho e o seu enredo para ilustrar o cíclo da vida do personagem principal como uma forma para que o leitor tenha uma perspectiva sobre o cenário socioeconomica de Cabo Verde através dos olhos jovens e ingênuos do narrador. Ao começar pela primeira página da obra, Baltasar Lopes provoca o leitor com a seguinte frase: O corpo, qu’ê nêgo, sa ta bái. Coraçom, qu’ê fôrro, sa ta fica… (O corpo, que é escravo, vai; o coração, que é livre, fica…). O autor dá uma pista para o leitor sobre o tema da obra e o seu desenvolvimento a partir da ida física do corpo, mas as emoções e o coração que vão ficar. Lopes mostra que a obra vai lidar com essa temática de ida e vindas enquanto sublinha o saudosismo como um elemento recurrente no desenvolvimento da obra. Desta forma, Lopes mostra que a saudade representa o desenvolvimento da memória da terra natal de onde vem o personagem principal e quem esteve presente o curso do seu desenvolvimento. Diante deste contexto, a obra revela em cada parte “Infância”, “S. Vicente” e “As-Águas”, uma visão do crescimento do personagem e da construção da sua identidade. A primeira parte da obra revela um caráter explorador da memória familiar da ílha, da preparação para enfrentar as dificuldades socioeconomicas do mundo a fora e do saudosismo rural de Cabo verde. O personagem de Chiquinho quando menino conta com ingenuidade, o quotidiano da ílha sem mostrar entendimento da ílha e dos problemas atuais. Chiquinho participa como um personagem observador e aprendedor, através de histórias contadas pela sua mãe e sua avó. Ele constrói aos poucos uma imagem mais forte de onde ele vem que é no Caleijão. “Minha avó não compreendia que era ela, nha Rosa, Chic’Ana, todos os velhos, que com as histórias, que a sua experiência tinha depositado, modelando a minha alma de menino” (p.82). Tanto a avó quando a mãe constroem para Chiquinho a memória familiar do Caleijão. De uma forma subjetiva essa memória é fundamental para entender a saudade que ele sentirá nos próximos capítulos. Por isso, o capítulo mantêm-se nos tempos do pretérito perfeito e imperfeito, com se fora uma descrição de
  27. 27. 26 um passado que faz falta na vida do narrador, ao fazer com que acentue o grau de afetividade com que o narrador recorda o seu passado mais longíquo22. Desta forma, a obra transfere desde um microcosmos familiar da construção do indivíduo para transição ao macrocosmos que seria a sua preparação para o mundo fora de São Nicolau. A transição insula logo no final do capítulo mostra o crescimento do personagem principal, que pouco a pouco se desvincula da família e se torna o Chiquinho-homem. Fora de sua família, sendo sua mãe avó e tio, Chiquinho visa o mundo de frente e começa a refletir sobre os problemas reais de Cabo Verde, da seca, da fome e da pobreza. A segunda parte da obra mostra a adolescência de Chiquinho, quando se muda para a ilha de São Vicente para viver com os seus tios e estudar no ensino secundário. Diferente de São Nicolau, São Vicente é uma ilha mais urbanizada com famílias mais afluentes do que nas terras rurais. Em São Vicente Chiquinho é institucionalmente educado e a suas Chiquinho presencia um choque cultural e identitário ao perceber que a sua vida urbana não é a mesma que a sua vida rural. À par da realidade e visão menos ingênua, a segunda parte , “S. Vicente” , revela o crescimento de Chiquinho e o começo da sua maturidade forçada e imposta pelo ambiente ao qual ele é inserido. A mudança de Chiquinho para São Vicente denuncia a falta de estrutura escolar em zonas rurais em São Nicolau enquanto revelam o primeiro passo da emigração insular entre as duas ílhas. São Vicente é uma ílha mais industrializada comparada com outros sítios, e por consiguiente, é evidente o contraste entre do mundo erudito com o mundo empírico23. A emigração insular de Chiquinho representa, mais do que tudo, uma denuncia à necessidade de refletir sobre as representação de cada espaço em que o personagem principal está presente. Tanto em São Nicolau como uma terra rural cheia de memórias e caracterizada pela saudade e melancolia, ou tanto em São Vicente em que destaca-se a oportunidade e o avanço da educação. Junto à isso também vemos o personagem crescer com um relacionamento mais aprofundado com outros personagens secundários que o ajudam a construir uma identidade na segunda parte. Nuninha, a jovem com que Chiquinho se apaixonou, ajuda a desenvolver o contexto da vida do personagem principal ao nível pessoal e social. Ao nível pessoal, o fato dele se enamorar pela jovem, mostra os primeiros sinais de puberdade e crescimento para a vida adulta. É importante destacar tais valores para um personagem 22 Ibin (11), Pg. 41-42. 23 Ibin (11), Pg. 44.
  28. 28. 27 em crescimento, pois, como um homem, Chiquinho também abre os olhos para o próprio crescimento biológico. Ao nível social, Nuninha traz a atenção de Chiquinho à emigração ao estrangeiro, ao qual no primeiro capítulo foi comentado em superfície, mas aqui foi aprofundado à uma realidade mais perto do quotidiano de ambos os persongens. “E se amanhã tu embarcares, Chiquinho?; não quero que vocêm falem, tanto de crise, da necessidade de saírem para fora…(Lopes, p. 166). Mas tu não vais partir, não, Chiquinho? (Lopes, 195)”. A emigração ao estrangeiro se aproxima e é quase prevista para Chiquinho, mas é interessante, que ele não hesita nem põe-se contra à tal. Como se fosse subentendido ou já aceitável, Chiquinho sabe que o seu futuro seria exatamente como o de seu pai. Na terceira e última parte da obra, “Às-Águas”, logo no final da sua adolescencia, Chiquinho parte de Cabo Verde para seguir os passos do seu pai nos EUA. Essa parte transiciona da emigração insular para a emigração nacional. Chiquinho deixa de viver em Cabo Verde para poder adquirir uma vida melhor no exterior. Ele cresceu e está ciente das dificuldades e desafios de sobreviver diante da seca, da pobreza e da família. A emigração final para os EUA demarca o destino traçado de Chiquinho que um dia, possivelmente, irá voltar para ajudar a sua família que ficou, ou, de uma forma totalmente oposta, irá mostrar o fim da sua história em Cabo Verde — ou só o começo. “As-Àguas” simboliza a Hora di Bai , considerado mais que um fenômeno social emigratório entre cabo-verdianos e também um momento de despedida e da saudade da sua própria terra24. Depois de ter os seus olhos abertos para o mundo e à realidade em Cabo Verde através da educação adquirida em São Vicente, Chiquinho procura um destino melhor no exterior. Chiquinho está ciente da sua falta de escolha e não se acanha em pensar de que este é o seu destino. Neste capítulo os diálogos mudam de forma e da retórica ao apoiar Chiquinho para continuar na sua busca de uma vida melhor. Por exemplo, o diálogo com o personagem de Andrezinho retrata esta mudança. Andrezinho diz-lhe que “nós somos pássaros engaiolados. E pior é que a porta da gaiola anda sempre aberta e contudo não podemos sair dela…” (pg. 212). A oportunidade que Chiquinho possui é inmensurável. Andrezinho mostra o oposto do caráter de Chiquinho, que são os personagens que tiveram alguma vez a chance de partir de Cabo Verde mas não saíram das ílhas. 24 GUIMARÃES, T. T. . Claridade e Certeza em Hora di Bai. In: II Jornada UFRGS de Estudos Literários, 2012.
  29. 29. 28 De certa forma, podemos interpretar um arrependimento presente no diálogo de Andrezinho, ou até mesmo um ressentimento de não ter partido. Outro exemplo de diálogo que de certa forma retoma a obra como um tudo é a despedida de Chiquinho com a sua avó, Mãe-Velha. Na última cena do livro Chiquinho dá adeus a sua avó e comenta ressentir por saber que não a vería mais. “ — Então, nhô Chiquino, tem que ser … Eu só via o lenço ranco de Mamãe-Velha acenando no último adeus (pg. 289, Lopes)”. A separação de Chiquinho com a sua avó faz parte da separação identitária da sua identidade materna de cabo verde. A avó e a mãe que foram os fundamentos mais fortes da sua infância e da sua formação na ílha de São Nicolau que são separadas pelo destino de Chiquinho e pla sua emigração. As três partes analisadas mostram como a construção literária em Chiquinho ilustra os temas socieconômicos em Cabo Verde através do enredo do acompanhamento de um jovem cabo- verdiano. Baltasar Lopes destacar diferentes temáticas da seca, da fome, da insularidade, da emigração para o exterior, e, da saudade, dá o primeiro passo de refletir sobre estas temáticas e apresentá-las como problemas socioeconômicos das ílhas. Por sua vez, a obra Chiquinho pode ser considerado um “herói mortal” por construir a sua identidade dentro do ambiente humano em que ele nasceu e sobreviveu. 2.3 A crítica do herói mortal visto como anti-herói Mas ao mesmo tempo que ele é mais perto do humano, ele também é perto do desumano, que descorda com o seu próprio heroísmo e ilustra o herói como anti-herói. Apesar de que Chiquinho constrói uma identidade heróica nacional para os Claridosos, ainda há críticos que não concordam com o caráter heróico de Chiquinho e argumentam que a obra na verdade é um exemplo do anti-heroísmo. Alguns literários e pensadores, em especial do movimento da Certeza, chegam a chamar Chiquinho de anti-herói diante da omissão da sua temática dentro da obra. Eles dizem que a obra falha em discutir assuntos como o privilégio, a raça
  30. 30. 29 e a oportunidade que não é não é acessivel para muitos cabo-verdianos25. Portanto, a obra ãon inclui uma identidade nacional, mas sim uma identidade regionalista, fundada nas metrópoles de Cabo Verde através da voz privilegiada de uma classe mais alta que a grande maioria do povo cabo-verdiano26. Mas antes mesmo de evaluar a premissa que suporta este argumento na estrutura e composição textual de Chiquinho, é importante revelar que as críticas do anti-heroísmo em Chiquinho vem de uma contraposição política e literária originadas do movimento da Certeza vs. o movimento da Clairdade. O movimento da Certeza foi originado em 1944, à partir da publicação da primeira edição da revista “Certeza”, com um grupo de intelectuais aos quais se destacam, Arnaldo França, Orlanda Amarilis, Tomás Marins, Euclides Meneses, Gabriel Mariano, entre outros. O movimento da Certeza engajava no processo de “descolonização e afirmam a africanidade do arquipélago como parte das lutas políticas contra o poder colonial portugués” (Anjos, 134). O seu objetivo era se separar do poder colonial, como a Claridade também propôs, mas também destacar a sua identidade formada pelas caracterísitcas individuais do cabo-verdiano, ao invés de sublinhar as semelhanças nacionais. Críticos do movimento da Certeza, explicitamente apontavam uma oposição direta ao movimento Claridoso, especialmente ao subjugá-los pela importação de modelos literários européios e pela conjuntura de sobrepolitização 27. Como Chabal comenta no seu livro The Post- Colonial Literature of Lusophone Africa, o cenário visto em cabo verde compunha “a dicotomia da literatura cabo-verdiana entre as suas preocupações com problemas locais e a exploração do sentimento de uma identidade nacionalista, ou a fuga do que alguns possam ver como um provincialismo entre os domíneos da academia como um novo fenômeno28 (Chabal, pg. 204).” Desta forma, a Certeza criticava a continuidade do modelo europeu na composição literária da Claridade. A ideia era desvincular-se da proximidade da europeidade e construir um caráter único para a identidade cabo-verdiana29. 25 Ibin (9), pg. 117. 26 Idem (22). 27 Ibin (9), pg. 134. 28 Texto traduzido pelo autor, a seguir a versão original em inglês: “The dichotomy in Cape Verdean literature between either concern with local issues and with the exploration of a native sense ofidentity, or the flight from what some might conceive of as provincialism into the domains of high literacy is not a new phenomenon”. (Chabal, pg. 204). 29 Ibin (9), pg. 119.
  31. 31. 30 Porém, essas crícas e ideias possuem um fundo político ao qual retratam a divergência entre os dois movimentos da Certeza e da Claridade. Enquanto a Claridade foi fundada, ela utilizou do modelo europeu e brasileiro para desenvolver uma identidade comum à qual abriu portas para a ideia da independência e do nacionalismo em Cabo Verde, o movimento da Certeza fundado, quase dez ano depois, tem origens de literárias e acadêmicas de figuras que fizeram parte do Estado Novo de Salazar que foram influenciadas pelo neo-realismo português30. Como um por menor dentro da análise identitária e a dinâmica entre estes dois movimentos é, importante denotar a diversidade destes dois movimentos como uma chance de promover as suas capacidades e também os projetos políticos. Desta forma, a Certeza e a Claridade não se encontraram diante do contexto literário nem polío em Cabo Verde, e por consiguiente, Chiquinho é visto como um anti-herói pela Certeza. Ao analisar o caráter anti-heróico de Chiquinho dentro da obra, vemos que a obra falha em assinalar temas como o privilégio e a negritude nas suas entrelinhas. Uma das críticas da Certeza mostra que a insularidade representada em não pode ser relacionada com uma identidade nacional, pois, muitos cidadão da ilha não possuem os recursos de emigrar para outras ílhas ou até para o exterior. Assim, a posição de Chiquinho diante da sua temática é mais privilegiada do que a maioria dos cabo-verdianos, por isso que a Certeza exclama que a obra se desclassifica o caráter como um construtor de uma identidade nacional e aponta que Chiquinho representa a desigualdade e desunificação de classes. Os críticos da emigração e do caráter social de Chiquinho apontam que o personagem representa a falta de aceitação social da realidade cabo-verdiana e por isso, ele não deveria ser considerado o ícone da identidade cabo-verdiana. Desta forma, a determinaão do movimento da Certeza era de encontrar ou reproduzir um cárater mais relacionado com o povo cabo-verdiano como que a Claridade desenvolveu em Chiquinho. Logo dentro da obra resigna um caráter privilegiado de classe-média e alta que têm a oportunidade de emigrar para o exterior e descontrói o caráter do herói mortal. Junto à isso, o movimento da Certeza também critica a falta do ênfase na negritude e africanidade dentro de Chiquinho. Com raízes do neo-realismo português, movimento da Certeza 30 Ibin (24).
  32. 32. 31 mostra que é importante destacar as suas diferenças e pluralidades dentro do âmbito nacional. Como o livro Entre África e a Europa de Suzano Costa e Cristina Sarmento aponta: “Entre as décadas de 1950 e 1960, a justificação da espécificidade cabo-verdiana coincidia, em parte, com os intentos porpagandísticos e ideológico-coloniais do Estado Novo em torno de ideia de Portugal como nação multirracial e pluricontinental, partindo do pressuposto que a própria ideia de especificidade era fundamentada como consequência última e manifesta da ação colonial portuguesa (Sarmento, Costa, pg. 164). Assim, foi importante para o movimento da Certeza em destacar as diferenças, principalmente “ideológico-colonias” m Cabo Verde. Pois, para a Certeza, ser Cabo Verdiano não era o suficiente, para eles ainda faltava uma representação da negritude dentro da literatura e na política. Portanto, para a Certeza, Chiquinho representa a identidade cabo-verdiana, muito menos possui um caráter heróico em âmbito nacional. Desta forma para os críticos do movimento da Certeza, a obra possui erros e os seus interesses não abraçam Cabo Verde como um todo. De certa forma pensamos que tais críticas sobre a identidade herói de Chiquinho, fazem o oposto de desconstruir ou dissolver a identidade heróica da obra, essas críticas reinforçam a sua característica como herói mortal da Língua Portuguesa. O seu anti-heróismo faz parte de um pensamento tradicional e conservador do herói da Língua Portuguesa, que de certa forma nos traz devolta para o herói-camaleão épico. Chiquinho como obra não deixa de ser um herói por ser um dos primeiros a revelar as dificuldades da ílha de maneira como outros não fizeram e abriram as portas para as críticas e novos pensamentos sobre a identidade caboverdiana quer insular, quer peninsular, quer global. A obra abriu portas à construção da identidade cabo-verdiana e também para diferentes interpretações desta mesma identidade, à qual também inclui a própria crítica do anti-herói. Ao provar a sua autenticidade, Chiquinho mostrou à Cabo Verde o seu caráter identitário e de certa forma provocou um êxito ao se diferenciar de Portugal, proclamando a sua própria independência cultural. Chiquinho é o herói mortal, até porque se houve algum erro no seu processo de formação, é importante lembrar que errar é humano. Contudo, no capítulo 2 exploramos o desenvolvimento do herói mortal em Chiquinho ao ver onde ele se encontrou no contexto histórico e literário em Cabo Verde. Vemos que o
  33. 33. 32 movimento Claridoso abriu portas para a procura da identidade cabo-verdiana e apoiou a formação mortal do nosso herói. Mas o movimento da Certeza apresentou pontos que desmentem o heroísmo em Chiquinho. Assim, vemos que aqui a obra abre as portas para uma constrãouç idenátitria longe do divino e perto do humano, ao qual constrói a visão do personagem na sua terra natal. .. Capítulo 3: Reflexões O intuito deste trabalho foi de fazer do impossível, possível. Pegamos duas obras emblemáticas na Língua Portuguesa e desconstruímos os seus aspectos ideológicos diante da nossa visão do heróica presente em ambas as obras. Analisamos os seus diferentes tempos, espaços e vozes e encontramos peculiaridades de cada obra que fazem parte da sua composição identitária. Porém, se nos atrevemos a juntar ambas as obras e criar uma
  34. 34. 33 imagem maior e mais completa de ambas identidades conseguiremos entender o objetivo deste trabalho. Então, agora que chegamos perto de um fim, juntamos todas as partes do nosso texto e começamos numa missão de dizer quem é o herói-camaleão da Língua Portuguesa: O herói-camaleão foi épico e buscou no retrato da realidade do mundo mais próximo do divino para construir e encontrar a sua própria identidade. A identidade do herói épico é a tradicional e ela representa mais do que do que o simples heroísmo da narrativa, mas o heroísmo da sua própria nação. Mas ao mesmo tempo, a identidade heróica abre portas para a crítica e a exploração de uma perspectiva diferente de si própria que é a do herói não-tradicional. Hoje em dia, o herói-camaleão é mortal e a sua imagem retrata a realidade do mundo mais próximo da expressão do homem para também construir e questionar a sua própria identidade. A sua identidade também é construída pelo seu heróismo, só que ele é mais próximo do real e do humano que é o seu próprio sobreviver. Mas ao mesmo tempo que ele é mais perto do humano, ele também é perto do desumano, que descorda com o seu próprio heroísmo e ilustra o herói de anti-herói. Diante da análise do herói camaleão da Língua Portuguesa, vemos a obra Camoniana como o primeiro nascimento do herói da Língua Portuguesa, em que utilizou os recursos literários mais próximos do divino para ganhar a sua legitimidade e construir image identidade nacional que permanece até os dias de hoje. Depois, vemos como herói evoluiu e se aproximou do seu caráter humano em Chiquinho através da sua própria voz e legitimidade para construir a sua própria identidade nacional. O herói-camaleão é o que encontra a sua identidade na cronologia da história e da literatura. Ele se dissolveu da retórica antiga da necessidade de estar perto do divino para estar mais perto do humano. Ele encontrou o seu paradeiro se adaptando à diversos ambientes e observando as suas propostas com um olhar aguçado e surpreendente. O herói-camaleão é o ponto de encontro das duas obras, que abriram portas para a construção de uma identidade nacional tanto para Cabo Verde quanto para Portugal.
  35. 35. 34 Portanto, um dos grandes âmbitos em que gostaríamos de ilustrar neste trabalho é a difusão do heroísmo presente na comunidade lusófona e a sua desconstrução diante de qualquer tipo de hegemonia ou sobre-potência presente em diferentes nações. A identidade individual épica proposta n'Os Lusíadas faz parte da construção do herói-camaleão. A identidade mortal proposta em Chiquinho também faz parte do herói-camaleão. Assim, a identidade do herói-camaleão evolui durante o seu período cronológico e se adapta à diferentes proporções de tempo, de espaço e de voz. Ele encontra o seu caráter heróico tanto no mar quanto na terra. O herói-camaleão é o indivíduo. O herói-camaleão da Língua Portuguesa também somos nós que procuramos as nossas identidades dentro do espaço, do tempo e da voz que nos constrói. Tanto no divino quanto no humano, o herói é um produto social e individual. Para ele é importante compreender as suas origens mas também saber desconstruí-la. Ver quando é a hora de se adaptar à um novo ambiente e ter um olhar mais aguçado diante da retórica em que ele é sobreposto. Assim, ele constrói uma identidade comum baseada nas suas diferenças ao invés das suas semelhanças. … Bibliografia: Introdução: CAMPBELL, Joseph. The Hero With a Thousand Faces. New York: Pantheon Books, 1961 CAMPBELL, Joseph. The Hero’s Journey. San Francisco: Harper & Row Publishers, 1990. DEAN A., Miller. The Epic Hero. Baltimore: The Johns Hopkins University Press, 2000. DEVI STUART-FOX, MARTIN J. WHITING and ADNAN MOUSSALLI. “Camouflage and colour change: antipredator responses to bird and snake predators across multiple populations in a dwarf chameleon”,Volume 88, Issue 3, pages 437–446. Biological
  36. 36. 35 Journal of the Linnean Society, 2006. Web. (http://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1111/bij.2006.88.issue-3/issuetoc). GREGORY, R.; SAMUELS, R.; HANKS, T. “Dynamic Color Change Chameleon Fiber Systems”, Pg.1. National Textile Center Annual Report: November 2002 Web. (http://www.ntcresearch.org/pdf-rpts/AnRp02/M01-CL07-A2.pdf). HAKER, .H; MISSLICH, H.; OTT, M.; FRENS, M.A., HENN, V.; HESS, K. SÁNDOR, P.S. “Three-dimensional vestibular eye and head reflexes of the chameleon: characteristics of gain and phase and effects of eye position on orientation of ocular rotation axes during stimulation in yaw direction”. Journal of Comparative Physiology A, Volume 189, Issue 7, July 2003, pp 509- 517. Capítulo 1 CAMÕES, Luís. Os Lusíadas. Rio de Janeiro: Livros de Bolso Europa-América, Obra Completa, 1963. COELHO do Prado, Jacinto. Dicionário de Literatura, 1o volume. Barcelos: Editora do Minho, 1969. CHANDEIGNE, Michel. Lisbonne hors les murs, 1415-1580. L’invention du monde par les navigateurs portugais, édition autrement- Séries Mémoires no1. Paris: Éditions Autrement, 1991. FIGUEIREDO, Fidelino. História da Litteratura Clássica. Lisboa: Livraria Clássica, 1922. LOURENÇO, Eduardo. NÓS E A EUROPA ou as duas razões. Lisboa: Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1994. PERES, Damião. A History of Portuguese Discoveries. Lisboa: Comissão Executiva das Comemorações do Quinto Centenário da Morte do Infante D. Henrique, 1943. REAL, Miguel. Portugal Ser e Representação. Algés: Difel, 1998. RASQUINHO, Rui; BARROS, Jorge. Portugal e o Mar — Viagens pelos descobrimentos. Lisboa: Conselho da Europa, 1983. SANTOS, Boaventura de Sousa. "Entre Próspero e Caliban: colonialismo, pós-colonialismo e inter-identidade", 39, 2, 9-43. Lisboa: Luso-Brazilian Review, 2003. SARAIVA, António José; LOPES, Óscar. História da Literatura Portuguesa. Lisboa: Porto Editora, 17a edição, 2010. SARAIVA, António José. Estudos sobre a arte d'Os Lusíadas. Lisboa: Público, 1996 SOROMENHO, Castro. Maravilhosa Viagem dos Exploradores Portugueses, Primeiro Tomo. Lisboa: Terra-Editora, 1946.
  37. 37. 36 SOUSA, Ronald W. The Rediscoveries. Pennsylvania: The Penn State Press, 1943. Capítulo 2: AA.VV. , “Cabo-verdianos nos EUA não chegam a 100 mil segundo Census 2000”, VisãoNews.com, 2002. WEB, (http://imigrantes.no.sapo.pt/page2CVEmigrac1.html) ANJOS, José Carlos Gomes. intelectuais, literatura e pode em cabo verde: lutas de definição de identidade nacional. Porto Alegre: UFRGS Editora, 2006. ALÍPIO SANTOS, Elsa. Salazar e a Europa, História da adesão à EFTA (1956-1960). Lisboa: Enigma books, 2013. CHABAL, Patrick. The Post-Colonial Literature of Lusophone Africa. Illinois: Northwestern University Press, 1996. LARANJEIRA, Pires. Literaturas Africanas de Expressão Portuguesa. Lisboa, Editora: Universidade Aberta, 1995. LOPES, Baltasar. Chiquinho. Lisboa: África, 1947. LOPES, Leão. Baltasar Lopes, um homem arquipélago na linha de todas as batalhas. Mindelo: Edições Ponto e Vírgula, 2011. GUIMARÃES, T. T. . Claridade e Certeza em Hora di Bai. In: II Jornada UFRGS de Estudos Literários, 2012, Porto Alegre. Anais II Jornada UFRGS de Estudos Literários. Porto Alegre: Editora do Instituto de Letras, 2012. GRASSI, Marzia. "Cabo Verde pelo mundo: O género na diáspora cabo-verdiana". Género e Migrações Cabo-Verdianas. Imprensa de Ciências Sociais, Lisboa (2007). MORAES, Rodrigo Junqueira. “O Enigma Identitário da Emigração Cabo-verdiana: Uma leitura histórico--literária das obras Chiquinho e Galo Cantou na Baía”, Trabalho Final. Berkeley, 2014. PRADO, Maria Felisa Rodriguez. “Certeza” Cabo-Veridana: Quais as Certezas? O Movimento Literário em Meados do Século XX. Editora: Latitudes, 2004. WEB. PILGRIM, Aminah Nailah. “Free Men Name Themselves”: Cape Verdeans in Massachusetts Negotiate Race, 1900-1980, New Brunswick, New Jersey; 2008. SARMENTO, Cristina Montalvão; COSTA, Susano. Entre África e a Europa. Coimbra: Aldemina, 2013.
  38. 38. 37 TAVARES, Eugène. Littératures lusophone des archipels atlantiques. Paris: L’Harmattan, 2009. VEIGA, Manuel. Insularité et littérature aux îles du Cap-Vert. Paris: Karthala, 1997. VENÂNCIO, José Carlos. Literature e poder na África Lusófona. Lisboa: Ministério da Educação. Instituto de Cultura e Língua Portuguesa, 1992. XAVIER, Lola Geraldes. “Chiquinho: o anti-herói e a pertinênica de um discurso narrativo organizado em função da hora di bai”, Pg. 40-46. Coimbra: Revista ECOS, 2007.

×