Antologia Poética de um Segundo de Inspiração

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Antologia Poética de um Segundo de Inspiração

  1. 1. Antologia poética de umsegundo de inspiração
  2. 2. EDITORA MULTIFOCORio de Janeiro, 2012Antologia poética de umsegundo de inspiraçãoR O B E R T O D A L M O
  3. 3. EDITORA MULTIFOCOSimmer & Amorim Edição e Comunicação Ltda.Av. Mem de Sá, 126, LapaRio de Janeiro - RJCEP 20230-152REVISÃO Roberto DalmoCAPA Roberto Dalmo e Natália CarusoIMAGEM DE CAPA: Jeanne Hebuterne with necklace de Amedeo ModiglianiDIAGRAMAÇÃO Natália CarusoAntologia Poética de um segundo de InspiraçãoDALMO, Roberto1ª EdiçãoJulho de 2012ISBN: 978-85-7961-959-5Todos os direitos reservados.É proibida a reprodução deste livro com fins comerciais semprévia autorização do autor e da Editora Multifoco.
  4. 4. Aos filósofos, poetas, pintores, cientistas eboêmios que precederam minhas palavras. Háum pouco de todos aqui.Aos muitos amigos e familiares quepacientemente leram e opinaram em cadadetalhe com carinho, e aos muitos amigos quenão participaram do processo de elaboração,mas que são importantíssimos por existirem.Aos Filhos da Boemia, grupo muito sabido emuito querido.
  5. 5. Roberto Dalmo7SUMÁRIO09_ Cortina10_ Amadas minhas11_ Poesia da melhor amiga12_ Devaneios13_ Stella14_ Brasa15_ Comanda16_ Bueiro17_ A mulher perfeita18_ PARAJEANNE ou... “O Buquê”20_ Elas21_ Poema de todas as coisas22_ A quarta23_ Arpo a dor24_ Sob os Arcos25_ Solidão nº 226_ Água sagrada28_ Clichê30_ Tempos que até Márquez invejaria31_ Aroma33_ Necrófagos36_ 365 dias38_ Respiração39_ Poesia para um samba
  6. 6. Antologia Poética de um segundo de Inspiração840_ Levianarte: poesia, filosofia e declaração de amor41_ Depressivamente estáticos43_ O silêncio e as palavras45_ Dedo mindinho46_ A pequena história de amor de Rafaela e um qualquer48_ Singela poesia para uma nádega esbelta50_ Numa manhã de Primavera51_ Maquinarização55_ Dada56_ Reinventação57_ Malbec59_ Reflexões inadequadas a um ensolarado domingo dePáscoa64_ Sinestesia sem tintas... ou o Pássaro de fogo66_ Transitoriedade humana70_ O Voo do Morcego72_ Algumas coisas deveriam ser eternas...74_ Aborto Artísico75_ Aparências76_ Antologia poética de um segundo de inspiração
  7. 7. Roberto Dalmo9CortinaAqui não está a Cortina que esconde a ALMAA manipulação fria da sociedadeA oposição do serA manutenção das aparênciasA dor de viverAqui não está o perigo da originalidadeAs rédeas da moralidadeMuito menos as falsas esperançasAqui não está uma vida não vividaTransparência e sutilizaPara saborear os doces momentossem a cortina...
  8. 8. Antologia Poética de um segundo de Inspiração1 0Amadas minhasViver apaixonado por três mulheres é possível?Uma possui a doçura, o mel, o charme, o borogodóo quebrado que o capeta depositou sobre as ancas das maisinalcançáveis.Possui o sentimento, o carinho e a ternura,o sorriso e a bravura de viver a nostalgia.A outra... Ah... possui a originalidade, é extrovertidaé despojada, uma menina de olhos transparentes e cristalinosmostrando a verdade do meu ser.A terceira é ela mesma... Eu gosto, e sem precisar adjetivarQual a graça de tanta incerteza?É a cabeça de poeta, que me permite deixar a dúvidaEram elas três, ou as três que eu enxergo em você?
  9. 9. Roberto Dalmo1 1Poesia da melhor amigaAhh minha amiga mais queridaCura-me dos sofrimentosTraz a pazDeixa-me com saudadeMe faz sofrerLinda todaDeixa-me felizTraz a tona meus sentimentosDeixa-me felizA cada instanteDeixa-me felizHoje e sempreMinha belaCerveja
  10. 10. Antologia Poética de um segundo de Inspiração1 2Devaneios...Doce loucura é o amorLouco sou homem que vivo para amarAmor louco que faz sofrerSofrer que me faz chorarChorar que me faz viverViver nos faz amar...Um segundo depoisSó nos restará pedir um viva à desilusãoUm viva e palmas à toda sedimentação que se instaura emnossos sentimentosDeixando-os rochososNossa mente a cada dia mais descrenteForte.Transformando-nos todos os dias na podre figura humanaque se degradaPor medo de sofrer.
  11. 11. Roberto Dalmo1 3StellaA cada cerveja um poema que me aproxima de tiA cada tragada um suspiro que me revela a doçura detu’almaPensar o momentoPensar a arbitrariedade da existênciaPensar e pensarMe faz existir?Pensar e pensarMe faz indagar das belezas inexoráveis do mundo ao seulado?Pensar me faz atingir a essênciaA essência poética que apreende o mundo minha e aexistência...Pensar,me faz ser.Não porque pensando logo existo, mas porque pensandocreio no amor
  12. 12. Antologia Poética de um segundo de Inspiração1 4BrasaO amor é como uma brasa que cai em nosso tapete.Em um momento teremos que retirá-la de sua posiçãoestáticaQual a melhor forma ?Esperar que a brasa apague ou correr o risco de se queimarmachucando os dedos?Haverá momento certo para limpar todo o ambiente?O amor é a dúvida, a incerteza.É a luz e a escuridãoO breu no momento de maior reflexão.É a perda da racionalidadeTão intransponível e tão venerada.É a Loucura,Leve e doce loucura que nos leva à(a) vida.
  13. 13. Roberto Dalmo1 5ComandaComanda minha vida, mulher amadaAbraça-me na relva de sua pureza, na beleza da mais límpidaseiva.Perco-me em seus braços!Não é assim?Palmas!Então como é?É terna, efêmera?É a beleza e a doçura da mais cara mulata do cabaréÉ o preço de uma noite como amantes, sussurrando desejos,declamando poesias...É a minha barba mal feita que carrega um sorriso frívoloÉ o desejo em seu ventre ardenteComo uma piadaFaz rirDa prazerPassaAmar é simplesCusta apenas alguns réis.
  14. 14. Antologia Poética de um segundo de Inspiração1 6BueiroCheiro pútrido da libertinagem libertaMomentos de luxúria que ludibriam minutos da existência.Sol de 40° ao meio dia e a necessidade do artista de criarProcurando nos subterrâneos mais profundos a sua próximacriação.Ofuscado pela beleza mais triste de amar uma nova mulherele entra pela porta dos fundos.Viaja nessa experiência que desde muito cedo o consomeDiz - Um doze anos, por favor!E assimTenta aventurar-se na mais nova e antiga odisseia.A coragem lhe falta.Então ele continua vivendo a genialidade das mais nobresaventurasContinua a sonhar com o dia que não lhe faltará a coragemE enfim encontrará sua maior obra.Talvez não debaixo de um sol de 40° ao meio diaTalvez não sob a podridão da luxúria barataTalvez não sob o bueiro mais pecaminoso da cidadeMas no colo da mulher amada.
  15. 15. Roberto Dalmo1 7A mulher perfeitaA mulher perfeita não precisa de tanto quanto ele já tiveraditoPrecisa apenas de uma relação simétrica entre os dedos dopé estabelecida a 45º de inclinaçãoUma leve cor rósea nas bochechasUm pescoço sensual que mostre sua graça e que possasuavemente ser mordido e acariciadoPrecisa de uma doce felicidade expressa no sorrisoE uma amarga tristeza expressa no olharPrecisa ter uma beleza amável e uma destreza de amantefrancesa. – Não conheço as amantes francesas, mas falam tãobem que não podem estar mentindo.Precisa de um ouro no olhar retratado por KlimtPrecisa trazer a art nouveau com sua a simplicidade ecomplexidade todo o dia em nosso amorEla deve ter e uma voz encantadora e sussurrar-me sublimespalavrasEla deve me faz suspirar.Ao ser atingido por uma simples gotícula de chuvaDeve me faz largar tudo e pensar na existênciaSer a caça e o caçador das noites embriagadasEla precisa ser,e assim sorrir.Dar a felicidade, e mesmo que morra um diaviva e ame.
  16. 16. Antologia Poética de um segundo de Inspiração1 8Precisa amar e crer.No fimEla não precisa de quase nada...A mulher perfeita se faz perfeita no olharA mulher perfeita é, e isso basta!
  17. 17. Roberto Dalmo1 9PARAJEANNE... Ou O buquêEu não conseguiria pintar-teNão conseguiria transpor para uma simples telatodo o brilho presente em teu olhar,Toda a paz de seu sorrisoToda a luz de sua face.Nem se fosse Modigliani!Não conseguiria retratar seu tom de pele enlouquecedorSeu beijo de poesia, seu doce aromaO mais apaixonante de todos os aromas já sentidos.Seria impossívelMesmo dotado das melhores tintas, telas, da mão maishabilidosa, e de dez mil dias ao seu lado!Não consigo, e simplesmente não consigo.Vou guardar-te apenas em meu coração.Faço apenas um buquê, tentando lembrar seu cheiroPor toda minha vida.
  18. 18. Antologia Poética de um segundo de Inspiração2 0ElasTodas elas fazem poesiaErrantes, audaciosasBrilhantes, formosasComo uma marchinha de carnavalEm poucos segundos todas fazem meu coração pulsarFortemente pulsar!Despertam-me uma doce nostalgia earrancam bruscamente um sorriso de meu rosto.A forte batida no peito acelera a respiração e eu digo:-Vamos cantar!PulamosUnimos nosso suorAtritamos nossas rótulase passa...Como a gota de orvalho de uma quarta feira de cinzasVoltemos pra vida, pois a boemia é um luxo para os finais desemana!
  19. 19. Roberto Dalmo2 1Poema de todas as coisasTodos vivemMas só os poetas tiram versos da mais simples badaladade um antigo relógio.Todos vivemMas só os poetas enxergam o toque de algodão doce nascarregadas nuvens de um fim de tarde de um dia de calorTodos vivemMas só os poetas transmutam seus sofrimentos em docespalavras ao invés de se romperem em prantos.Todos bebem a sagrada cerveja gelada do fim de semanaMas só os poetas trazem a cada porre versos de esperança.Todos vivemMas só os poetasVivem!
  20. 20. Antologia Poética de um segundo de Inspiração2 2A quartaDalí me olha em mundos imagináriosFaz todos meus pêlos do braços ficarem eretosCoração disparado, como no clímax do Bolero de RavelComo durante a melodia do Trenzinho CaipiraComo o mágico momento de encontro das almas no distanteespaço de (in)consciência a doisA luz que incide sobre seu brinco me lembra algo...Não, a perfeição não foi criada. Ela é, simplesmente é.Um dia de carnaval, uma manhã de domingoA lembrança mais pura da longínqua e adjacente infânciaO forte atrito de coxas que se entrelaçamSe unem em frenético ritmo meio frevo, maracatu,candomblé.És tu, a quarta!Talvez a de CinzasE o sorriso finalNada desperta mais a emoção do que um doce sorriso.A perfeição é!
  21. 21. Roberto Dalmo2 3Arpo a dorSolidão à tardeNum vivo e ensolarado sábado de carnaval-Estarei mesmo sozinho?Forte brisa bate em minhas costas e o pensamento voaVai longeDistanteMe leva a mundos desconhecidos, talvez esquecidosO som de um trio chama a presença da ausente amadaO som do mar invade minh’alma e traz a essência de um dia.Só?Acompanhado de lembranças,Pensamentos,Paixões...Barco que passa seguido de gaivotas e levando peixes e parao mercadoE eu, entre a pedra e o marLendo meu Neruda e vagandoEm pensamentos de águas verdes e calmasEm uma tarde de amante.Amante do que sou, ou do que estou sendoPoeta do instante e de tardes infantesTudo issoEntre a pedra e o/a mar.
  22. 22. Antologia Poética de um segundo de Inspiração2 4Sob os arcosArcos do amor num sonho de carnavalAo som das mais antigas marchinhasO poeta renasceEscreve momentosLeves e brevesTrazem à luz do meu diaUma mistura verdadeiramente brasileiraCachaça e fumo!Te encontreiMeus olhos brilharam ao anoitecerSigo e penso em ti.Em nossos momentos ao lado de bons amigosVivo o mais límpido e sinceroAquele que faz do dia minha noitee da noite ouro reluzente.Sou felizE sei
  23. 23. Roberto Dalmo2 5Solidão nº 2E mais uma vez a solidãoA volta pra casa é a angustia do momento finalAgonia e dorNum dia, a luz de uma criança brincandoNoutrora a explosão que devasta corações e o enche demágoas.Um misto de agonia e êxtase que vai sutilmentepreenchendo o vazio com lembranças de uma vidavivida de verdade!Caminhamos nessa incansável bateriaPierrôs passando, procurando por sua Colombina,Palhaços brincandoE o rei cobrindo de brilho e alegria o comando do carnavalE as pessoas?Elas apenas passamEm um momento de tristeza e alegriaAgonia e êxtase.
  24. 24. Antologia Poética de um segundo de Inspiração2 6Água sagradaTalvez eu não quisesse sair desse limboTalvez tudo que precisasse fosse um dia na escuridão.Músculos imóveis, pensamento fracoRotações tão baixas que quase param no tempoFaz minha alma se transportar para outros mundosSurrealistas? Imaginários?Não importa!Por outro lado, talvez eu realmente necessitasse do brevesegundoDo cheiro de marisco queimado invadindo meu olfato.Mesmo assim queria a vida estática dos piores vagabundosOs que não vivem, não produzem, não pensam e não são!Só por um dia!Quando nem isso for possívelHei de me contentar com apenas algumas horas dessadesejada vida pífiaEm seguidaViverPara poder expressar em arte a felicidadeCaminhar a beira-marSentir o ventoO tão incomodo cheio de mariscoVer as belas e importantíssimas nádegas das garotas quepassame sorrir! sentido-me vivo.Com o coração vibrante
  25. 25. Roberto Dalmo2 7Sorrir e pensarVale a pena
  26. 26. Antologia Poética de um segundo de Inspiração2 8ClichêSim, o brilho do sol foi depositado no seu olhar.Clichê? – realmente, há anos todos falam dos brilhos dasestrelas!Mas o sol não é qualquer estrela! Sem ele não haveria vida,nem noite nem dia.Impossível é que a cegueira não tome conta do meu ser.Ficar fronte a ti, encarar-te,olho no olho,sem óculos escuros e muito menos filtro solar.Tudo isso é viver o segundo que antecede a total perda deracionalidade.Cegueira dada pelas trevas do pensamento.Logo após,breves instantes de luz intensa.E tudo isso no seu olhar.Paixão em poucas palavras,algumas doces, simples e sutis, outras nem tanto...e um olharamante, brilhante, muito brilhante,ofuscante!A paixão e o amor de centenas de anosconcebidos em uns instante,e o riso histérico e sem motivo nenhum toma conta de todoo ambiente.Surgem o medo da ausência, e devaneios!Tudo isso porque o amoré o andar sobre as nuvens para morder a lua
  27. 27. Roberto Dalmo2 9e ainda esperar que ofereçam goiabada.é a chuva num dia quente de verão, eao olhar pro alto ver o arco-íris. Ainda assim esperar queofereçam o pote de ouro.E em nano segundos,a cegueira do olharhá de curar toda a racionalidade de um beijo seu.
  28. 28. Antologia Poética de um segundo de Inspiração3 0Tempos que até Márquez invejariaEla é meu amor nos tempos de cóleraRelação inabalável e inigualávelPaixãoEla é fogo presente em meu peitoArdendo e curando feridas como os querubins, serafins, emuitos ins que cuidam do nosso frágil coração.Ela é a corda bamba e o exercício de constante equilíbrio.A discórdia no momento da falaO caos no momento da criação.Essencial, solene, esplendorosa!É a brisa, o mar, a lua, o ar, olhar,e tudo isso na intocável pele de mulher.Sedosa como a pétala de rosa, macia como a pluma dosmais seletos gansos da linha de produção de travesseirospara a mais alta nobreza.E tudo isso longe de mim!E em tempos de cólera que até Garcia Márquez ficariapasmo.Espero que dure apenas alguns diasQuem sabe algumas horas?Para que possa em um tempo muito breveAfogar-me em seus lábios macios e úmidosE morrer de paixão
  29. 29. Roberto Dalmo3 1AromaCorre corre!Veja só!A chuva está chegando e com ela vem um turbilhão desentimentosDor, amor, solidão, amizade, e muitos outros.Sendo sentimentos ou não,quando a chuva chega, eles se tornam.Tornam-se pensamento ao olhar pela janela e ter alembrança nostálgica.Acho que sempre que olhamos pela chuva na janela noslembramos de nossos nove anos.Ao sentir aquele doce aroma de terra molhadaQueremos pular, brincar, cantar...Mas nada isso é possívelSomos adultosEm um escritórioO cheiro de terra molhada se mistura intensamenteAroma de papel e tinta de impressoras, caféA leve música que soava nos ouvidos acompanhando o cairconstante da chuva tornou-se gritosA doçura da criança tornou-se a distante lembrança.Talvez por isso a cada chuva a esperança volte.Um dia serei criança, novamente e brincarei com a terraaté que por ela digerido serei.E serei
  30. 30. Antologia Poética de um segundo de Inspiração3 2parte o sonho de muitas outras pessoas.Ao ver a chuva, e sentir o doce aroma de terra molhada,terra que farei parte.
  31. 31. Roberto Dalmo3 3NecrófagosE nós, seres humanos,dotados de telencéfalo altamente desenvolvido e polegaropositorfomos feitos para amar.Quem diria, a grande ironia que seria o dia,aquele que corriaesbaldando-se em uma vida vadiae em um breve instantedeleitar-se-ia da mais gostosa agonia.A paixão!O primeiro amor é o desesperoO mais puro anseio do coraçãoPulsante no peito e brilhanteem olhos de diamante com dureza deTalco.Tão superiores, nós humanos. Tão vulneráveis.O segundo amor, talvez já tenha um brilho de ouroPode ser como a marcela, que amou aquele nosso colega poralguns contos de réis,ou muitas outras “ela”s que transcenderão os quinze meses,mas não acredito que irão transcender aos contos de réis.E tudo termina, novamenteO terceiro amor, quarto amor, quinto amor,tudo se renova.
  32. 32. Antologia Poética de um segundo de Inspiração3 4No final estamos nós.Simples assim, vulneráveis assim.Quem diria, nós humanos,dotados de telencéfalo altamente desenvolvido e polegaropositorteríamos nossos orgulhos e nossos fracassos em algo quenem tocado é.Quem diria, caro amigo,gozamos por conquistar o mundo, mas não domamosnem mesmo nossos sentimentosSomos vulneráveis!A comédia dos sentimentos inicia-se pela não compreensão,pela necessidade do consolo irmão e pelo pedido, e pormuitos poemasao longo de muitos anos que utilizam-se de “ao” para rimarcom coração.Que devaneio romântico é apaixonar-se por algumaspalavras!Sim, acontece.Somos vulneráveis!Dias e noites e as palavras envolvem o coração,já não dominávamos nossos sentimentos,agora dominamos muito menos.As palavras chegam, nos arrancam sorrisos, os transmutamem lágrimas,e nos da a sensação de ter vivido.Muito, e além!Em momento seguinte não há paixão, não há amor.sofrimento e dor, ingratidão e talvez um pouco decompaixão.
  33. 33. Roberto Dalmo3 5Às vezes nem isso.Sofrimento e dor, e pronto!Somos vulneráveis!Mas há de chegar o dia em que dominaremos nossossentimentosem uma racionalidade ímpar.Nesse dia talvez falte ar,talvez o sangue não corra,talvez os pequenos e desprezados seres decompositoresestejam láe vejam, o dia que os seres superioresdotados de telencéfalo altamente desenvolvido e polegaropositorestarão dominando seus sentimento!E de camarote eles presenciarão tal momento enquantodeliciam-secom nossos restos mortais!Tudo isso porque somos vulneráveis!
  34. 34. Antologia Poética de um segundo de Inspiração3 6365 diasExiste sensação melhor no mundo?Estar apaixonado é melhor do que amar!Estar apaixonado é deixar o coração pulsar mais forteAs pupilas dilataremSem esquecer do importantíssimo sorrisoPara mostrar que você está realmente apaixonadoé preciso sorrir.Sorrir para todos e todasMas muito cuidado!Sorrir para todas é perigoso, pode despertar a irá da mulheramada.Ciuminho bobo de amanteA paixão é o cálice de vinho do tempo presente e o devaneiolatente.Racionalidade de embriãoDigo mesmo que é bom!Queria eu me apaixonar 365 dias por ano e 366 em anosbissextos.Entregar-me, viverNão deixar que o medo tome contaQueria eu, que dentre esses 365 dias e366 em anos bissextos, houvesse um dia para o amor.Provavelmente seria 1º de abril.Mas se não encontrar, que venham os próximos 365 diase 366 em anos bissextos.A paixão é o amor de um instanteContada por um navegante
  35. 35. Roberto Dalmo3 7Marinheiro destemido que viaja os sete mares em busca deterra firme.Vaguemos pela infinitude dos oceanos!
  36. 36. Antologia Poética de um segundo de Inspiração3 8RespiraçãoAmor amante, tão perto e distanteEm tragos e trovas tramoNosso momento adiante.Trancado, trancafiado, em transe.tramo.Viajando e transitando,pelo instante em que se torna impossível qualquermovimento....Respiração profunda, peito acelerado,sensoriedade, sensibilidade.O despertador tocaAinda imóvel continuo....Aos poucos...Sinto meu peito desacelerando,pelos, e a respiraçãovoltando ao normalmúsculos descontraindo,levemente...A doce capacidade de admirar tão breve momento comolhos de eternidade.Apreciar o êxtase não é para qualquer um,mas olhos de poeta bastam.
  37. 37. Roberto Dalmo3 9Poesia para um sambaNão há nada mais democrático do que o samba!O negro, o branco, o rico o pobre.Recital de versos ritmadosA gênese da sinfonia do morroDo povo, da nossa gente!Invade a alma e mexe com o serE logo, tomado pelo espírito do bom malandroO corpo desfruta da beleza que é o samba.O samba é amor em melodiaa paixão em harmoniaum batuque em alegria.Alegria de povo sofrido e cheio de esperançaexaltado em notas acordes e fémuito batuque, gira e axé.Terreiro da paixão,que no conforto do coraçãofaz transparecer toda emoção!Saudando a cultura negra que mostrao dom que o samba tem,Trazer felicidade onde mora agonia,fazer chorar de nostalgiaE lembrar que pra viver é preciso só alegria!
  38. 38. Antologia Poética de um segundo de Inspiração4 0Levianarte: poesia, filosofia e declaração de amor.LevianartelevianaRepita diversas vezes, deixe o som invadir seu corpoe me digaSeria mesmo a vida uma incoerência?Quem estabeleceu o que é coerência para que possamosclassificarA vidaLogo elaTão...Tudo.Achou banal? pense outra palavra que expresse melhor avida.Sem a vida não haveria homem que não haveria pensamentoque não haveria reflexão que não haveriacoerência.Então, logo existo e, porque existo penso ou vice versa.O homem fez a coerência,logo ele, imperfeito que só, estabelece alguns padrões e fala-Isso é coerente! -Isso não é!A vida realmente é uma incoerência na sua coerênciahumana.Talvez seja uma incoerência porque algum dia tentaramachar uma coerência.Inexistente, porque a exceção é a coerência.Sorte que tenho meus amigosCom eles posso afogar as mágoas de tanta razãoEm um mundo que só precisa um pouco maisde sentimentos.
  39. 39. Roberto Dalmo4 1Depressivamente estáticosSem as mulheres nós não nasceríamosMuito menos seríamos.Mas, se por alguma aleatoriedade do destino, ainda houvessevida não haveria o doce aroma das rosaso canto dos pássaros não ecoariaE o dia passaria mais rápido porque o sol não teria pra quemolhar.Sem as mulheres não haveria arteE se houvesse - Meu Deus!Não teria 1/3 da beleza.Os quadros não trariam paixãoPorque a paixão, dessa forma, não seria reconhecida.Seria apenas um “gostar muito”No meio de tantas cores e formas não estaria aquele olharpenetrante.Seria apenas um pequeno brilho nos olhosNada demais.Sem as mulheres não haveria música,e se houvesse, seria chatafalando apenas de natureza, quem sabe de algumasdivindadessó!Nunca chegariam na essênciaSem as mulheres faltariam razões para viver.Faltaria o ímpeto para descobrir a essência se é que existe a
  40. 40. Antologia Poética de um segundo de Inspiração4 2essência.Sem elas seriamos um barco vagando na infinitude dooceanoSem destino e sem paz.Inevitável amar e adorar criatura tão divina-Algumas nem tanto, realmente.Sem as mulheres não haveria poesia.Que mundo triste esse, sem uma bela razão para escrever?A rima só seria dissaborE o verso, coitado.Não seria amor,nem desamor, humor, fulgor, e muito menos calor.Esse que deveria ser definido comoFluido exalante do peito das mulheres,com a capacidade de invadir o coração alheio e contagiar.Instantaneamente.O verso seria como a pálida folha do outono.Porque sem as mulheres, não haveria primavera.Não haveria o doce e o amargo, o ser nem o não ser.Não haveria mais nem menos.Não haveria o devir.Seriamos todos depressivamente estáticos
  41. 41. Roberto Dalmo4 3O silêncio e as palavrasA maldição do egocentrismo é o prazer da solidão.Momentos em silêncio fazem com que a existência sejacurada.Doente é a humanidadecomunicativa e ambiciosaAcredita realmente num progresso barato.Comprado no botequim da esquina pra acompanhar acerveja da sexta.É necessário que chamem o curativo, por mais estranho quepossa parecer.Necessário mas praticamente inalcançável.É ele sim, o silêncio.Quem diria que ao falar simples palavrasum jogo de poder começa a ser traçado.Questões ditas vão além do quem, por que, onde, e pra quemdisse.Fortes debates me instigam a pensar nos simples momentosde solidão.De repente uma vontade me domaO jogo começa, tento falarBrevemente sinto que algo inibe a palavra.Será que a poesia poderá fazer com que esse jogo se dilua?Tudo isso poderia acabar ou nunca ter começado?Bastaria simplesmente a solidão tomar meu peitoo silêncio gozar minh´almaE imediatamente as palavras morreriam.Todas, absolutamente todas.
  42. 42. Antologia Poética de um segundo de Inspiração4 4Trazendo o querido silêncioReduzindo a hipocrisiaQuem disse que eu consigo?Comunico-me pra viver, e vivo por me comunicarDiria mais e alémO silêncio é tão o oposto da vida quanto a morteO silêncio faz com que a mais bela flor de um jardim deprimavera murcheE nós, simples aprendizesJogamos o jogoDominamos as palavrasTransformamos tudo em arte.A arte cala o silêncio e dá sentido ao serViva esse mundo mesquinhamente comunicativo.
  43. 43. Roberto Dalmo4 5Dedo mindinhoHoje me peguei pensando em você.Provavelmente estava no meio de bilhões de pensamentosDigo que só me dei conta porque tomado por tamanhadistração fui surpreendido por uma forte dor de batida.Meu pé tinha acabado de travar uma batalha sangrentaDedo mindinho versus pé da cama.Não preciso dizer quem ganhou.O que importa é que a dor me fez lembrar.Distraidamente pensava em tiNão com pensamentos megalomaníacose muito menos com devaneios românticosMas com um carinho que toma o peito e invade a almaAmor maior é aquele que não se perpetuaE está sempre na segura distância que o torna eterno.O devir transforma-se na inalterável e sólida certezaÉ a inconstância, a loucura e a clareza,É a dor do não viverMuito maior do que a topada no pé da cama.
  44. 44. Antologia Poética de um segundo de Inspiração4 6A pequena história de amor de Rafaela e um qualquerÉ ela Gabriela, de todas a mais belasaborosa e donzela,que me tira da capela enganando o sentinelae me leva a uma ruela trocando-me em passosEis que estava Rafaela, a mais linda da favela,que já fiz em minha tela seu olhar de Cinderela.Com ciúmes foi aquela que o sapato atirou em minhacostela.E acertou, viu!Falando assim- “Larga essa cachaça, seu safado”!Minha dama da favelapediu para largar “ela”, a donzela, a mais gostosa, Gabriela.Mas eu não!-“Se largar a Gabriela, trocar-te-ei por uma dama bemsingela”.E Rafaela sentiu-se ameaçada!Parou de bater panela.Aceitou a Gabriela, a cachaça mais gostosa.E disse-“Traga-me uma de siriguela, já que a sua é de cravo ecanela!Prefiro perder-te pro álcool do que pra todas ´elas´, de todasas zonas da favela”.E ambos embriagaram-seE amaram-se
  45. 45. Roberto Dalmo4 72002 noites sem pararIsso da aproximadamente 5 anos e 177 dias, sem contar osbissextosMorreram de cirrose hepática, sim!Mas se amaram por bem mais tempo do que Romeu eJulieta.Fim
  46. 46. Antologia Poética de um segundo de Inspiração4 8Singela poesia para uma nádega esbeltaNádegas esbeltas foram construídas com grande destrezaTodas as mais belas se encaixam perfeitamente na geometriaNão Euclidiana.Descrevem formas sinuosas,levam boêmios ao delírio desde bem antes da invenção docarnaval.Tristes eram os cubistas retratando-as retasrealmente muito pouco desejadas.A história teria se escrito diferentese ao invés de serem influenciados pelas máscaras africanasfossem influenciados pelas quentes negrasque vieram para o Brasil toda sua formosuraSeria o ápice das Belas Artesse a grande odalisca mudasse o seu ângulo de inclinaçãoIngres teria feito muito mais sucesso!E digo mais,se seu violino fosse um pandeiro soaria muito maisharmônico,muito mais brasileiro!Seria um samba erudito de batidas sincopadasSeria a passagem da garota de Ipanema,e de todas as outras garotas de Ipanema,vindo do Leblon e indo à Copa,desfilando,simplesmente desfilando.Depois uma leve subida no Arpoador, para alegria geral daNação.
  47. 47. Roberto Dalmo4 9Ela exibiria a maior beleza da humanidade.tão bela, que nem Pablo resistiu.Fugiu de suas formas secasem apenas quatro traços a eternizou.E ratificando a máxima Viniciana,as sem bunda que me perdoem, mas nádegas sãofundamentais.
  48. 48. Antologia Poética de um segundo de Inspiração5 0Numa manhã de PrimaveraPulsaCálido, pálido, sempre presente.Árido, válido, vibra latentePulsando, pulsante, perto, distanteseus olhos, meus olhos,amor tão instanteBrincando, levando, marcando, amando.PulsaeParalento, vagarosamenteParaDigo que é a primavera,a primazia da paixão.IronicamenteMeu coração que pulsava em busca do desabrochar das floresjá cambia entre o pulsar e não pulsarParaNa primeira manhã de Primavera
  49. 49. Roberto Dalmo5 1MaquinarizaçãoTroco facilmente uma noite pelos bares da cidadepor uma noite a escreverO curto momento onde o Eu está comigo “mesmo” fingindoser outroTroco toda efemeridade de noites vazias pela profundidadedas palavrasTortas, calejadas, marcadas de historicidade.Falar sobre temas já falados como amor, dor, solidãoamizade, ciúme, paixãoFalar sobre a liberdade do homem!Sobre o pensamento...Se é que existe outro lugar onde o homem é realmente livreeu não conheço.Talvez em um picadeiro anarquista em um palcoesquizofrênico,mas não.Não acredito mesmo que a real noção de liberdadetranscenda ao pensamento.Basta que nós, domados por nós mesmos, libertemo-nosBasta que nos afastemos de toda a prisão domiciliar existenteafastemo-nos das redes e conexões,do emaranhado de sinapses,Afastemo-nos da mecanização do homem.Para obter, enfimA liberdade.
  50. 50. Antologia Poética de um segundo de Inspiração5 2Temos instantes de escrita, voz,temos instantes de humanização na humanidadeonde nossa presença se faz realmente presente.E nesse breve momentoEstamos amarrados.Correntes de âncora nos prendem ao pé da camaIncessantemente tentamos cerrar elo por eloda imensidão estrutural ao invés de apenas cerrar o pé dacamamadeira envelhecida, quebradiça,imperceptível.A impossibilidade se faz e a liberdade foge de nosso serantes mesmo de chegar à boca.Foge e corre como uma criança que não conhece asmaldades do mundomas que não aceita doce de estranhos.Foge rapidamente para onde ela possa se fazer presentenovamente.Vai para o pensamento de muitos outros,Amantes caladospoetaspara o pensamento dos solitários.Foge para o pensamento daqueles que aproveitam opensamentoE escorre em uma fluidez muito pouco tensionada
  51. 51. Roberto Dalmo5 3Escorre para outros enquanto o homem se faz máquinaE nesse momento incessanteMaquinarização, amarraHumanização, amanteUm som de ferrovia invade a almae nos lembra, novamentede nossa sofreguidão,De nossa ânsia por liberdadeFluidaque escorre por palavras,armadilhas sociaissilábicas e sedentas e saturadas.Armadilhas instauradasUm prego para cada braço e um para os pésE a contemporaneidade repete de forma sutil o ritualÉ o preço por tentar a liberdade em um mundoonde os pensamentos se transformam em palavrase as palavras se transformam em um mundoÉ o preço de tentar a liberdade em uma palavraonde o mundo se transforma em palavrase as palavras se transformam em pensamentosEspero apenas o dia em que o silêncio marcará a liberdadeEnquanto isso seguimosEm bares, em noites de escritaem bons sorrisos, e choros marcantes.
  52. 52. Antologia Poética de um segundo de Inspiração5 4dia após diacom a consciência de nossas amarras, a invisibilidade do péda camaSempre transformandohomem em máquina, máquina em homemE com medo do porvir.
  53. 53. Roberto Dalmo5 5DadaNo meio do caminho tinha uma palavraTinha uma palavra no meio do caminhoA N A R Q U I S M OÀs vezes ordem produz tanto sentido quanto a desordemInevitavelmente complementaresSão estabilidade e progressoNecessidade e vida
  54. 54. Antologia Poética de um segundo de Inspiração5 6ReinventaçãoQue saudade do TempoDesde que parasteMeu coração busca-te nas singelas batidas desritimadasProcura pela ordem, localização.Estou perdido, mas a brisa que vem do martraz com ela a respiração ofeganteMinhas pupilas dilatamE não muito depoisA calmaria açoita todas as ideiasordenando-as e tornando-as improdutivaspré-existentesNesse instante faltam motivos para escreverDe uma hora pra outra o mundo se tornou cinzae as loucuras pós modernas tornaram-se a razãoRazão do tempo presenteE tudoNovamenteEstagnadoO bonito da vida é que ela se reinventaComo a lua, que em quartosConstantes e ContrastantesÉ iluminada aparentando-se luminosaRetirando lágrimas das florese suspiro dos amantes
  55. 55. Roberto Dalmo5 7MalbecEm Travessia leve, ritmada, sensorialTravessia travessa transcende.Transcende o tempo, o espaçoA paixão, o bom gostoRequinte da boemia imperialResplandece.Em compassos ordenados e sons desconcertantesComo o da flauta.Transversal e o doce som da flauta.O Bandolim em melodias históricasO retrato de amantesRioDe Janeiro a DezembroO violãoEm Cinco linhas, uns compassos, sete cordasLeva-nos a Mil Novecentos e vinte!Em um rio que
  56. 56. Antologia Poética de um segundo de Inspiração5 8Reinventa, renasce, rejuvenesceRecria, recanta, recresce, encantaretrata, relata, remexe, se espantacorre em água e deságua em Choromorre e mágoa, deságua em Sambareina vibrante ao som consoanteretumbante em peito infanteEm presente Rio se fazvida, fé e pazluz de velaluz da lualuz do RioReinanteResplandecenteAgora vou tomar um gole desse vinho que está acima!Ouvirei chorinho e fumarei um bom charutoNesse delicioso e nostálgico clima- Com licença, pois tenho muito a comemorar!
  57. 57. Roberto Dalmo5 9Reflexões inadequadas a um ensolarado domingo dePáscoaNão, eu nunca li poesiaEu nunca tive a ânsia de expressar em versos todo o respiroMuito menos tive a paciência de retratar o mundotão sem significado em palavras com menos significadoaindaA poesia nasce, e nasceNão sei bem de queNão sei quem é seu pai, sua mãeSeus avósEla nasceTalvez ela esteja pré-escritaQuando meu lápis toca o papel ela já esteja prontaPronta pela aleatoriedade que move o mundoPronta pela complexidadePronta para que o mundo (que acredito que exista)Possa acreditar-meTalvez ela nasça pelo medo do esquecimentoMensageira dos mais nobres sentimentosTalvez nasça pelo medo da morteAssim como cinquenta por cento das “coisas” do mundo.Metapoesia é o pensar racionalmenteSe dizemAfastem a metafísica, agora todos devemos pensarracionalmente.E então
  58. 58. Antologia Poética de um segundo de Inspiração6 0Utilizam-se da metafísicaE num momento seguinte a apagam, e dizemNinguém passou por aqui...Aqui jaz a metafísica e reina o esplendor da lógica.E digoSe fazem isso,permitam-me utilizar da metapoesia antes de ir ao papelE ainda dizer que a palavra é polissêmica, logovocê irá pensar e pensar para descobrir o meu sentido demetapoesiamas nada disso adiantaráNo final, muito cansado, irá utilizar o seu sentido e mejulgar.-louco, burro, despreparado.Permita-me usar a metapoesia para pensar na morte depoisa jogarei foraJogue-a dizendoapenas de razão se faz um cientistaapenas de sonhos se faz um poetaE mantenha esse mundo mesquinhoJogue-a porque não queres ouvir sobre seu medo principalO mundo dos podres morre de medo de apodrecerO mundo dos podres (por seu medo de apodrecer)se vesteCria-se um Deus, e um Deus criaUm podre, muitos podresImagem e semelhançaE o podre busca a nãopodrização de sua existência
  59. 59. Roberto Dalmo6 1Daí indaga-se-Se Deus é minha imagem semelhança não sou podre.Logo, o podre cria um não podre (criador) para sedespodrizarE talvez por isso, tenha um infame medoO de apodrecerA criatura cria o criador que o doma e o da sentidoO podre agora passará a ser chamado de homem, paramelhor entendimentoCovarde, indagante, simplesmente homem.Pela palavra somos modificados na essência,antes podre hoje homem.Pelas aparências somos falsificados desde antes, talvez, dainvenção do espelhoEu estava lá para saber!Essa fuga da realidade se faz tristeMas, triste se faz, por ser incompletae incompleta por ser tristeGraças à enorme racionalidade do podre, agora chamado dehomem,e graças à enorme capacidade de dominar tudo que o cercamenos sua própria existênciaa soberania o deu um presenteTalvez irônico, mas um presenteA memóriaSabemos todos os dias da vida que estamos um dia mais
  60. 60. Antologia Poética de um segundo de Inspiração6 2perto de nossa real aparênciaPodresEssa memória que a todo instante nos dizbom dia, boa tarde, boa noiteComo vai? Um pouco de melancolia?Seja ela com açúcar ou adoçante?Ela nos faz ajoelhar para o invisívelAcreditar no sentido não sentidoTudo isso por uma simples promessa dominatóriaou dominicalA salvação (leia como a despodrização eterna)Essa memória de efêmeros nos faz buscar a concretudeNos faz buscar também a inconcretude para nos afastar doconcretoNos faz responsável pela vida e pela mortee nos faz sera todo instante diferentesNossa efemeridade bate na porta e diz:-Não esqueça, você é só mais umAí fazemos arteBuscando a diferençaA eternidadeO prazer de brincar na e com a podridãoRirComo uma criança que sabe que cairá da escada,
  61. 61. Roberto Dalmo6 3mas sobe assim mesmosópela diversão.Cria-se Arte, e a Arte cria um podrecom algumas cores diferentes, disfarçado de menos podreÉ o suficienteFicamos felizes e apodrecemos coloridamente em paz
  62. 62. Antologia Poética de um segundo de Inspiração6 4Sinestesia sem tintas... ou o Pássaro de fogoCabeças explodemTemperatura sobe falta a concentraçãoChoro choro choroDorCabeças se sacodemFalta emoçãoParo um segundo e coloco Bach ao fundoO clima barroco bastará para que o choro parepara que a cabeça se regeneree para que a dor se refugie na América centralSim, eu bebo demais- Me dê mais uma, por favor!Com tanta dor não conseguirei pensar.Parece que o clima barroco não foi o suficiente, a dor arde apeleSuo frio.Acredito que dissonância seja o suficiente para afastar a dorTalvez Stravinsky.Sim, STRAVINSKYSTRAVINSKY É A SOLUÇÃOÉ preciso que dor se mistureEm notas sobrepostas.É preciso que a dor se transforme em melodiaDoce, alegre, contagiante e ao mesmo tempoDesconcertante.
  63. 63. Roberto Dalmo6 5É preciso um pouco mais de Stravinsky em nossa vidaE que a condução se faça como um pássaro de fogo.O pássaro de fogoQue a vida brote.Mais STRAVINSKYMAIS STRAVINSKYM-A-I-S -- S-T-R-A-V-I-N-S-K-YSSSSSSS TTTTTT RRRRR AAAA VVVVV IIIII NNNN .SKY!!!!!!!!!(Palmas)
  64. 64. Antologia Poética de um segundo de Inspiração6 6TransitoriedadeA todo instanteReflita, reflita, reflita!Superemo-nosRefletindo que nessa noite descobri que sou poetaEndeusando pré-socráticosEnaltecendo a anarquia.Decretando a morte de RicardoTambém percebo que não falo de verdadesDevemos nos afastar da busca pela verdadeE nos afastando da busca pela verdade nos tornaremosverdadeiroIncoerentemente verdadeirosÓ vil e frágil CiênciaIludindo-nos com a falsa liberdadeCom a falsa noção de conhecimentoEu Não me encaixo.Simplesmente,Eu não me encaixo.Não tentem impor parâmetros, definir gruposNão tentem fazer com que eu perca a potencialidade demeus pensamentose troque-a por rótulos simplórios.Talvez a arte permita-me o não encaixeAHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHIAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA!!!!!!!
  65. 65. Roberto Dalmo6 7Agora tudo faz sentido, sim me encaixo!Me encaixo no pequeno grupo dos que não se encaixam!Viciado em não ter víciosPensando-me e repensando-meE a busca se faz a todo instanteInventando-me, reinventando-meDo animal ao ÉterTodos os dias, todos os segundosA arte permite-me o não encaixeFalso não encaixe, mas permite-meSe perguntam-me se estou ocupado falo que a todo instanteestou ocupadoSe não estou ocupado, ocupo-me estando ocupado em estardesocupadoAfinal o tempo ocupado cansa-me, e o que seria de mim semum tempo de desocupação.Desocupação necessária para ir do animal ao ÉterTodos os dias, todos os segundosAHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHAHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHMas agora que me encaixei no grupo dos sem encaixe mesinto mais HumanoNão vou do animal ao ÉterFico demasiadamente no meio termoPosso até pedir a um historiador que faça meu rótuloApague minha complexidadeFaça-me um ser simples, que pode ser descrito em palavras
  66. 66. Antologia Poética de um segundo de Inspiração6 8que serão lidas de forma simplesFaça-me uma reta, caro amigo.Uma reta que apesar de sua infinitute de pontos é apenasuma retaJá posso pedir para um estudioso das grandes Artes apaguemeu pensamentoInterpretando minhas ideias com as suas ideias, vivênciasCom sua cultura.Posso pedir que coloque seu óculos embaçado para ler meuser e acredite.PROFUNDAMENTE, ACREDITECEGAMENTE, ACREDITE que seus embaçados óculosconseguem retratar toda complexidade do pensamentohumanoLogo eu que passei a vida nos polos.De animal ao ÉterAo encaixar-me no grupo dos sem rótulosAcreditando-me profundamente neste grupoAbro-me para receber um rótulo, afinal todos o receberão.É assim que fazemos, é assim que faremos.Transformando-me em retasNo ser medíocre (no sentido de médio), ou em palavrasque apesar de seus muitos significados são lidas com osignificado do rotulanteE são somadas, não de forma perfeita e angelical, aosignificado dos curiosos.Perco minha complexidade para fazer parte da históriaTalvez felizes sejam os que não fazem parte dessa falsanecessidade humana
  67. 67. Roberto Dalmo6 9Sim!Felizes são os apagadosEles não serão corrompidos por interesses de outrosEles serãoPara sempreO nada que se faz tudo por não ser nadaEles serão elesComplexosRealmente polissêmicos.
  68. 68. Antologia Poética de um segundo de Inspiração7 0O Voo do MorcegoSonar. zummmmmmmmmmmmmmmmmmm (Bate-reflete)mmmmmmmmmmmmmmmmmmmuz stop.Direita...Sonar zummmmmmmmmmmmmmmmmmm (Bate-reflete)mmmmmmmmmmmmmmmmmmmuz stopesquerda...Sonar zummmmmmmmmmmmmmmmmmm (Bate-reflete)mmmmmmmmmmmmmmmmmmmuz stopdireita, esquerdaSonar zummmmmmmmmmmmmmmmmmm (Bate-reflete)mmmmmmmmmmmmmmmmmmmuz stoppra cimaSonar zummmmmmmmmmmmmmmmmmm (Bate-reflete)stopÉParou de vez!Uma clareza invisível e uma localização ímpar
  69. 69. Roberto Dalmo7 1E nós, possuidores de tantos sentidose tanta razão, vivemos sensorialmente desgastadosInlocalizavelmente refugiados.Perdidos.
  70. 70. Antologia Poética de um segundo de Inspiração7 2Algumas coisas deveriam ser eternas...Flores morrem, como morrem todos os nossos sentimentosFlores nascem, assim como sentimentos novos nascem acada diaEu não me vejo para o resto da vida com ninguém.Isso é impossível!Se o mundo é feito por constantes mudanças porque nós,simples filhos do mundo, temos que ser os mesmos a cadadia?EstáticosConstantesDeprimentesEu quero uma vida para admirarUma vida onde cada nascer do sol seja diferentee que a lua cheia se faça sol em noites obscuras.Definitivamente eu não tenho medo de sofrerTenho medo é de passar o resto da vida sofrendo por umaestabilidade forçadaInexistente e imposta.QueroTodos os diasMudar a finalidade do meu ser, se é que meu ser algum diameu ser teve alguma finalidade.Se ela existiu foi apenas uma necessidadeFez-se necessária a débil existência humana.
  71. 71. Roberto Dalmo7 3Dias passam e as únicas coisas que me fazem mudar de ideiasão a arte, uma bela nádega,e seios na medida certa!Essas belezas da vida deveriam ser eternas e imutáveis.Quanto a elas não me preocupoHumanificação e transcendência da irracionalidade racionalna bestialização da carne.Nesse momento, tomado de um espírito humano ematerialista só posso dizer que a vida é bela
  72. 72. Antologia Poética de um segundo de Inspiração7 4Aborto ArtísticoMinha moral foi transformando-se até o ponto que minhamoral permitiu que minha moral se transformasse.Nesse jogo de coerções internas afirmo que não sou livre.-Tragam um pouco de metafísica, por favor!E com açúcar!Preciso de metafísica em minha vida racional e medíocre.Caminho sozinho por toda essa tecnologiaCimento, asfalto, e um delicioso ar sufocanteA perfeita mistura do monóxido de carbono contemporâneoe o oxigênio mal consumido das lembranças presentes.Onde estão os fios?Não há nada mais escuro do que a luz do elevadorNão há nada mais cruel do que cultivar a dor- Salva de palmas e gritos para consolar-meTraga-me um ventilador porque após rimas e rezas apenasum ventiladorpoderá enxugar o pranto, a prata, e o ouro de minha faceapaixonadaAh, sensação latente, intrauterina, calor divino.Ah, momentos, transformações.Ah, movimento,Eterno responsável por tudo.A pressa presente prescreve premonições.Perdido em inspirações, transformo a poesia que não nasceuem umAborto Artístico
  73. 73. Roberto Dalmo7 5AparênciasBonito brilho constante no céu marca nosso mundo feito deaparências.Ser belo é ser percebido com a grandeza de uma supernovaSer percebido é deixar nossa marca como humanos ou coisas- Sei lá?!Simples aparência que marca o que não somos pelos olhosdos que são.Simples aparência que nos significaMarcas deixadas em um espectro de cores e lembranças empreto e brancoSomos nós, marcas vivas de algo muitas vezes já inexistentesMarca travada de nossa humanidade tardiaSomos nós, estrelas!Somos a marca de nosso brilho retardado à nossahistoricidade
  74. 74. Antologia Poética de um segundo de Inspiração7 6Antologia poética de um segundo de inspiraçãoI ATODe maneira inexplicávelCada segundo revelaEm instantes de solidão e silêncio profundoA voz!A natureza, o ser, a inspiraçãoEm cada segundo a alma é domada pela arte, e a arte apossui.Simbioticamente.Empresto meu corpo ao espírito da arte,(Re)Interpreto o mundo.Falo de amor, de vida,Tudo isso, em um milésimo de segundoA inspiração tocou a alma, chegou ao coração,Por meio de palavras, cores, sons, sorrisos, beijos, noitesardentes,o dia amanhece mais instável.II ATOO poeta é o ator das palavrasO “Eu lírico” é o único sujeito que tira a cortina de ferro quea sociedade impõe.Valores pré-estabelecidosSentimentos que outros sentem por mim...E você, ainda assim, quer acabar com ele?Quer que eu revele meu segredo?Digo que não!Nunca saberá se é ou não meu pensamento!Se vivi ou não viviSerá que foi apenas um sonho?
  75. 75. Uma história que me contaram?Pensamentos de terceiros?Nunca saberão!O grito da criança existiu ou foram meus fantasmas?Nunca saberão!Aquele beijo que todos beijam por mim.Nunca saberão!O choro na quarta-feira às onze da noite.Nunca saberãoPoesia é como a vida,Nunca saberemos!FIM
  76. 76. Este livro foi composto em Minion Pro pelaEditora Multifoco e impresso em papel pólen 90 g/m².

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