Mayumi - mia - lana

571 visualizações

Publicada em

A cidade de São Paulo é a paisagem destas três histórias que tem em comum o jovem Jim e
três mulheres arrasadoras que mudarão seu destino de forma singular.

Em Mayumi Jim é um jovem estudante de cinema que anda confuso e tem problemas com a realidade após sofrer um grande trauma amoroso, e se vê vagando sem destino pela cidade até conhecer a japonesa que mudará sua percepção sobre o amor e sobre a vida.

Na história de Mia Jim ainda é um estudante do colegial que vive em uma pequena cidade do interior e sonha em morar na cidade de São Paulo e assim se estabelecer financeiramente. Mas o futuro lhe reservou uma grande surpresa quando se vê trabalhando como carteiro e morando com sua avó - Jim logo é absorvido pelos desejos de consumo e luxuria que a cidade lhe oferece e vê seus sonhos ficarem cada vez mais distantes, até conhecer Mia - uma jovem prostituta que perambula pelas ruas do centro da cidade. O destino da prostituta está ligado ao do carteiro sonhador e juntos descobrirão algo maior que os desejos capitais, o amor.

E por fim em Lana Jim já é adulto e vive sozinho em um apartamento na boca do lixo do centro da cidade. Um jovem niilista que já não se importa com nada e com ninguém, vive seus dias regados a cerveja e amizades passageiras andando de bar em bar pelas ruas enquanto a cidade vive seus dias de protestos contra o atual governo e a realização da Copa do Mundo no Brasil. Sua vida mudará de rota quando Jim conhecer Lana, uma ruiva arrasadora que está de passagem para curtir o carnaval na capital, Jim logo se verá inquieto com algo que mudará completamente seu estilo de vida e suas razões existenciais, o amor.

Mayumi, Mia e Lana são três histórias em tempos diferentes que tem em comum a maravilhosa cidade de São Paulo em seu cenário mais obscuro e underground. Aqui o amor se manifesta da maneira mais simples à mais controversa quebrando alguns tabus e provando que o amor é a única saída.

Publicada em: Diversão e humor
0 comentários
1 gostou
Estatísticas
Notas
  • Seja o primeiro a comentar

Sem downloads
Visualizações
Visualizações totais
571
No SlideShare
0
A partir de incorporações
0
Número de incorporações
6
Ações
Compartilhamentos
0
Downloads
2
Comentários
0
Gostaram
1
Incorporações 0
Nenhuma incorporação

Nenhuma nota no slide

Mayumi - mia - lana

  1. 1. Mayumi Mia Lana 2
  2. 2. Beto Santana 3 Mayumi Beto Santana
  3. 3. Mayumi Mia Lana 4
  4. 4. Beto Santana 5 Índice Traumas de infância..................................................09 Mayumi..........................................................................21 Voltando pra casa ......................................................33 Despertar .....................................................................55
  5. 5. Mayumi Mia Lana 6 “O amor é uma espécie de preconceito. A gente ama o que precisa, ama o que faz sentir bem, ama o que é conveniente. Como pode dizer que ama uma pessoa quando há dez mil outras no mundo que você amaria mais se conhecesse? Mas a gente nunca conhece.” Charles Bukowski
  6. 6. Beto Santana 7 SÃO PAULO Julho – Dezembro 2013
  7. 7. Mayumi Mia Lana 8 Prólogo Eu vou começar pelo começo, mas talvez não seja o inicio desta história, pra falar a verdade eu ainda não tenho certeza se isto é uma história real ou apenas fruto da minha imaginação. E eu espero que não seja, porque ela é linda, inspiradora, e não é só minha ou sobre mim. Ela pertence a mais uma pessoa, a minha heroína, a mulher que me fez despertar, e, literalmente acordar para a vida. Seu nome é Mayumi e talvez ela não exista, mas isto não importa agora, afinal nós só saberemos a verdade no fim da história. E no momento eu só preciso começar contando como tudo começou. Jim
  8. 8. Beto Santana 9 Traumas de infância Acordei, era mais um dia do pior ano da minha vida. Estou na cama, adormeci ouvindo uma música que agora não me lembro qual, mas não importa, o que importa mesmo é descobrir que dia é hoje e como vim parar aqui. Minha vida está confusa, já não sei mais se estou vivo, morto, se estou alucinando, estou perdido no tempo. Minha vida se confunde com a imaginação e a realidade. Já não sei mais. Só sei que adormeço e acordo em dias diferentes, lugares estranhos com pessoas que nunca vi, e já não sei se é um sonho, se faz parte da minha imaginação, então escrevo, escrevo e guardo em lugares que eu possa lembrar depois e juntar os fragmentos, eu preciso descobrir se é real. Isto tudo pode parecer confuso pra você, pra mim também é, confesso que ainda acho que estou louco, ou enlouquecendo aos poucos, talvez seja parte do processo da loucura, como os escritores e artistas que por vezes passam por algum tipo de insanidade em seus processos criativos, acho que estou no meio disto agora, algo confuso que me levará a algo maior. Posso estar errado. Só sei que adormeço ouvindo uma música que me vem à cabeça, só lembro que é psicodélica. Algo entre Doors e Velvet Underground, estas músicas entram na minha cabeça, fico sonolento e adormeço, depois acordo em algum lugar perdido no tempo, na minha própria historia. O que pode ser bom porque posso tirar algum proveito disto, posso tentar corrigir alguns erros do
  9. 9. Mayumi Mia Lana 10 passado, deixar de conhecer algumas pessoas que foderam a minha vida, e ter a oportunidade de foder algumas também. Assim mesmo, foder algumas também, porque neste mundo ou você fode ou tá fodido. Por outro lado pode ser arriscado mudar o futuro ou o presente, é perigoso ver o futuro, se bem que não sei bem em que época estou só sei que estou na cama, em algum lugar na cidade, na casa de alguém que não conheço, e isto pode nem ser uma alucinação ou viagem da mente, pode ser apenas a casa de alguma pegada que descolei a noite em algum boteco da vida, afinal, nunca duvidei dos meus talentos para isto. Mas de qualquer modo não quero esperar o fim do dia para tirar prova disto. A cidade é a mesma, sem cor, sem brilho, só as pessoas são diferentes, eu não conheço ninguém, é como se estivesse sozinho no mundo, correndo contra o tempo, contra o sono, tentando me encaixar em algum lugar na história. Isto parece incrível, às vezes tenho medo, sempre tive medo do desconhecido, não das palavras, do conhecimento, mas sim do espaço, das pessoas, em alguma época da vida eu passei a desacreditar das pessoas e isto me faz falta até hoje seja em qual tempo eu estiver, a falta de confiança me faz falta. Quando vejo os rostos desconhecidos eu temo pela minha segurança. A vida esta confusa, eu tenho quase certeza que tudo começou no inicio da faculdade, mas talvez isto tenha sido antes e eu não percebi, um dia saberei, espero.
  10. 10. Beto Santana 11 Neste momento preciso saber onde estou, sei que é um quarto, um lugar sujo com toalhas molhadas, parece um motel barato do centro da cidade, mas que cidade? Seria minha querida São Paulo? Ou alguma cidade no fim do mundo? Estou sozinho neste colchão molhado, a banheira esta transbordando pelo chão e alguém usou as tolhas para escoar. Quem seria? Eu? Acho melhor ir embora antes que me meta em alguma confusão, na última acordei debaixo da cama de uma mulher casada, eu não a conhecia e ela também não, gritou pelo marido, disse que era ladrão, já imagina que precisei sair correndo às pressas para não apanhar, ou pior, ser preso. Preparo-me para sair quando percebo que não tenho roupas e nem sapatos, fico pensando em que tipo de merda estaria metido desta vez, não é possível que isto esteja acontecendo comigo, pra piorar o telefone toca. E agora? Atendo? Pergunto pra mim mesmo. Atendo ou não? Mas que hora pra tocar o telefone, seria da recepção? Talvez estejam ligando pra avisar que o tempo acabou. E agora, não tenho roupas pra ir embora, quanto mais grana pra pagar a diária de um quarto de motel. Começo entrar em crise de pânico, já estive em situações desesperadoras nesta jornada louca pelo tempo, já deveria estar acostumado, mas a cada dia que acordo é algo novo que me surpreende sempre, não tenho como prever o que pode acontecer e sempre entro em desespero, isto tem que acabar. Resolvi atender, é a coisa mais sensata, eles podem achar que não há
  11. 11. Mayumi Mia Lana 12 ninguém no quarto e vir fazer a limpeza, preciso ser frio e calcular os danos possíveis. Atendo o telefone: - Alô! Uma voz do outro lado responde: - Alô, senhor estamos ligando para confirmar que sua diária esta acabando em quinze minutos, o senhor já está pronto para fazer o check-out? Respondo friamente: - Sim, já estou descendo. Respondi que estou descendo, mas nem imagino quantos andares tem este prédio, que loucura, aqui vou eu mais uma vez ao inusitado, desta vez torcendo para que a música toque novamente, sim, aquela música que sempre me vem a mente e me leva para um desconhecido lugar no tempo. Ela poderia me salvar agora, mas que aventuras e enrascadas me reserva pela frente, poderia acordar em uma situação pior, na segunda guerra mundial, ou pior ainda, no meio da inquisição espanhola, que Deus me livre e guarde. A situação está ficando desesperadora que estou recorrendo a Deus, não me lembro de ser religioso, o ano deve ser antes de 2008 quando eu ainda tinha fé nestes tipos de coisas místicas e inacreditáveis. Só agora percebo o quanto isto pode me fazer mal, esta alucinação, ou viagem, ou sei lá o que estou passando não só esta me deixando louco e confuso, mas também
  12. 12. Beto Santana 13 esta afetando meus valores. Nesta altura minha personalidade esta em choque e estou ficando preocupado. Já me perdi no plano físico, já me perdi no tempo, nem sequer sei onde estou, mas não quero me perder como pessoa, me tornar alguém que não sou. Preciso escrever isto, não posso me esquecer, preciso sempre lembrar quem sou. Na minha situação só me restou o caráter, a personalidade intuitiva e curiosa, a vontade de me encontrar, a minha essência não pode se perder. Neste momento sinto um grande frio na barriga, a perda da minha personalidade pode levar ao fim da minha existência, e seria triste tudo acabar desta maneira, perdido no tempo da minha própria história. Alguém bate na porta, meu coração acelera, começo a suar frio, quem será? Alguém responde: - Sou eu, filho - calma que o pai vai te ajudar, fica parado. Uma imagem vem a minha cabeça, uma criança chorando de dor em um banheiro de uma casa velha. Um menino de sete anos, cabelos loiros e olhos verdes, usando um tênis barato, uma camiseta branca da escola e um pinto preso no zíper da calça jeans. Porra! Este menino sou eu, porra eu me lembro disto, eu prendi a porra do meu pinto na calça jeans na manhã do meu primeiro dia de aula no primário. Lembro que foi agonizante e traumático aquilo. Estava me arrumando
  13. 13. Mayumi Mia Lana 14 para ir à escola, primeiro dia de aula, eu estava muito empolgado com aquilo, eu não tinha sete anos, mas uns cinco, eu era um menino precoce e comecei um ano mais cedo o primário. Estava no banheiro arrumando o cabelo e resolvi dar uma mijada antes de sair, e ai foi quando prendi o pinto no zíper da calça, terrível, uma dor insuperável para uma criança de cinco anos, estava com vergonha de chamar a minha mãe, meu pai acordou com os gritos e veio me ajudar. - Calma, filho, sou eu, o pai vai te ajudar - dizia meu finado pai, um dos poucos momentos que me deu consolo em vida. Aos poucos foi abrindo o zíper da minha calça e consegui tirar o pinto sem machucar. Passaram-se os anos e eu me esqueci disso, mas agora me recordo que houve uma época na vida que eu sempre lembrava este ocorrido, e o mais engraçado que uma coisa tão traumática se passou despercebida por muitos anos. Só não entendia porque isto me vinha à mente agora, neste momento. Talvez eu tenha perdido a memória e aos poucos os fragmentos do que sobrou dela estão se recompondo, o que me intriga é que sejam os fragmentos mais traumáticos. Talvez exista uma explicação lógica para isto, os momentos que foram perdidos e esquecidos com o tempo estão de volta em minha mente, preciso escrever isto, não sei onde posso estar na próxima vez que despertar. Aqui eu não tenho ninguém, as pessoas na rua não me conhecem e eu não reconheço ninguém, às vezes acho
  14. 14. Beto Santana 15 que me observam como se soubessem quem eu sou, será que estou sonhando? Algumas vezes vejo alguém com aparência familiar, mas não me recordo, talvez seja algum ator de cinema ou astro de rock, seria legal encontrar o Jim Morrison por aqui ou algum ator de cinema dos meus filmes favoritos. Se isto for um sonho pode até ser possível. A porta mais uma vez tira a minha atenção: - Amor você esta ai? Dizia a voz em tom meloso vinda do outro lado da porta. Olho ao meu redor e não estou mais no quarto sujo de antes, onde estou? Penso - possivelmente estou ficando louco. Respondo: - Já estou saindo. - Não demora porque já estou pronta - respondia uma mulher do outro lado da porta. De quem seria esta voz? Não é familiar, quem me chamaria de amor? Já havia me desacostumado com isto bem antes desta loucura começar, sim, acho que estou louco. Neste momento estou no banheiro de alguma casa, será que me casei? Que ano será neste momento? Futuro ou passado? Gostaria que fosse os anos sessenta, com música boa e um mundo inteiro a se descobrir, mas pelo jeito não era, eu estava vestido, e não era um roupão molhado de motel barato, era um
  15. 15. Mayumi Mia Lana 16 terno preto com gravata borboleta. Eu estava me casando ou algo assim, seria possível? Eu me casando? Porque não? Até o Bukowski se casou – eu me perguntava. Não imagino coisa mais brega no momento, eu em uma constante crise de existência em minha própria linha da vida me casando em algum momento da história que eu nem sei qual é. Pensei em perguntar pra ela que dia é hoje, mas tenho medo que ela responda que é o dia do nosso casamento, ou pior, que ela responda perguntando: - Quem diabos é você? Ai seria pior, preciso arrumar um jeito de sair desta enrascada, não sei quem é ela, e não gosto do jeito que ela me chama, não me ama não me chama, sempre levei isto para os relacionamentos que tive - todos curtos, diga-se de passagem. Talvez seja por isto que não tenham durado, mas é estranho que estas coisas venham à minha memória agora. Relacionamento sempre foi um tema traumático pra mim, nunca consegui me relacionar bem com ninguém, sempre gostei de ser odiado mesmo, não gostava da palavra amor e duvidava dos sentimentos delas, talvez fossem até verdadeiros, mas pra mim não eram reais, e é estranho falar em realidade agora que nem sei em qual estou vivendo. Talvez eu tenha mesmo uma noiva e estou prestes a me casar. Mas isto seria fantástico demais para ser verdade, e a verdade neste momento está longe da minha realidade. E outra, jurei pra mim
  16. 16. Beto Santana 17 mesmo que nunca iria me casar, será que estou perdendo meus princípios novamente? Preciso reler o que escrevi e ver onde foi que perdi o fio da meada. Este não sou eu, não mesmo. Não posso me casar, nem sei que dia é hoje, e ainda estou aqui trancado no banheiro como uma criança de cinco anos com medo, chorando porque prendeu a porra do pintinho no zíper da calça jeans, sim, este sou eu. E novamente esta lembrança me vem à mente justamente em um momento de desespero, em que tenho medo de abrir a porta e encarar a realidade, se é que isto seja real. Sinto-me como Neo em Matrix - será que ele tinha estas dúvidas? Não, ele não tinha dúvidas sobre a Trinity, ele realmente sabia onde estava se metendo. O casamento não o assustava tanto. Encarar o mundo era bem pior que o matrimônio, encarar a realidade era sua tarefa, e a minha é descobrir qual é a minha realidade e quem faz parte do meu mundo. Fico pensando em que dia será hoje, um dia imaginei que se me casasse seria em um dia de sol, em um sitio, sem pastores nem padres, nada de cerimônias religiosas, só um escrivão oficial e os amigos mais chegados. Mas seria difícil encontrar uma noiva que pensasse assim, as mulheres da minha realidade são muito diferentes, muito ligadas à grana, aos costumes familiares religiosos, materialistas ao extremo, e fúteis acima da média. Ah, esta não pode ser minha realidade, eu não posso me casar com uma pessoa assim, eu não mereço. Eu quero dormir, quero acordar em outro lugar, outro ano, desta vez eu aceito todos os riscos, mas não
  17. 17. Mayumi Mia Lana 18 posso me casar ainda Só vou me casar se for com a Frances Há. Se eu soubesse como controlar isto, se fosse apenas dormir e acordar em outro lugar eu deitaria aqui mesmo no chão gelado do banheiro, mas não é. Não é simples assim, eu nunca sei quando vai acontecer, é algo desesperador não poder controlar a sua vida, suas ações. Eu era feliz e não sabia. Preciso escrever isto, eu tinha uma vida boa e não dava valor, hoje estou reaprendendo comigo mesmo a dar valor a minha liberdade de escolhas. Fico pensando se vai acontecer durante a cerimônia, com um padre bitolado fazendo aquela pergunta clichê e eu simplesmente me desmaterializando na frente de todos, aliás, não sei como isto acontece e é a primeira vez que penso sobre isto. Como será que acontece esta viagem, se é que isto é uma viagem. Será que eu simplesmente desapareço no ar? De acordo com as coisas que escrevi eu não voltei ao mesmo lugar duas vezes ainda, não sei se isto é possível, mas estou começando a achar que isto é uma viagem, um encontro com minhas lembranças mais trágicas, apesar de eu nunca ter me casado ou ao menos ter ficado noivo. Talvez eu esteja me precipitando, isto pode nem ser um casamento e se for talvez eu seja o padrinho de algum amigo. Não consigo imaginar algum deles se casando. Não consigo lembrar seus rostos, só vejo em minha mente uma imagem borrada, seria algo ruim? Quem será que está casando? Talvez ninguém esteja se casando, eu posso ser um ator de cinema pronto pra ir à entrega do Oscar com uma modelo top
  18. 18. Beto Santana 19 da época, ah como elas eram lindas sem todo este padrão de beleza imposto hoje. Se bem que nem sei que dia é hoje. Que confusão, é melhor parar de sonhar, se isto for um sonho eu diria que pode ser um sonho dentro de outro, o que seria ao mesmo tempo confuso e fantástico. Mas abrir a porta e encarar a realidade é paradoxo, tudo que eu quero é encontrar minha realidade. Ainda tenho medo de abrir as portas, elas sempre estão ai à minha frente, prontas para me confrontar, devo encarar? Não sei se estou pronto, preciso de um plano de fuga, sair deste banheiro e fugir. Espero que não seja um apartamento, posso pular a janela e me espatifar no asfalto, ainda não tinha pensando nisto, será que posso morrer? Se for um sonho eu posso reviver? Talvez a morte seja a resposta para as minhas dúvidas, mas isto seria meu último recurso. E o suicídio é um ato de loucura, e apesar das circunstâncias eu ainda estou bem, um louco meio sóbrio e meio confuso, mas não suicida. Não nasci pra isto, já pensei uma vez, mas tenho princípios que me impedem de fazer um ato de insanidade destes e acima de tudo, tenho uma família, ah sim, eu tenho uma família, preciso escrever sobre eles, preciso me lembrar deles, as pessoas mais importantes da minha vida precisam ser também as inesquecíveis e imortais na minha memória. - Amor, porque tanta demora? A festa já vai começar! Aquela voz feminina me chamava pela porta novamente, eu até gostei dela, uma voz firme, parecia ser de uma mulher decidida, não era uma menina, mas
  19. 19. Mayumi Mia Lana 20 uma mulher, quantos anos será que ela tem? Qual das mulheres da minha vida seria ela? Nunca fiquei com uma mais que alguns meses, talvez seja mais um dos meus namoricos, mas em que época seria? Sinto-me como um homem das cavernas no mito de Platão, com medo de sair da caverna e descobrir a verdade. O mundo real não pode ser tão ruim assim, o meu não era, eu já estava acostumado, adaptado ao estilo americano de ser, com todas as minhas coisas, minha vida confortável, meus amores passageiros, e agora eles se confundiam com meus amores imaginários. Terrível, incrível, posso tirar boas lições deste momento único da vida. Uma festa, e eu pensando que era o dia do meu casamento. Resolvo abrir a porta e encarar meu destino de frente, talvez seja o meu presente, preciso arriscar. Abro a porta, mas tudo que vejo é uma luz que ofusca meus olhos, ouço alguém me chamar: - Jim, Jim... Adormeço.
  20. 20. Beto Santana 21 Mayumi Acordei, os sinos tocam, parecem sinos de uma igreja, mas não é o meu casamento, felizmente não. É tarde, quase noite, está frio, um vento gelado sopra nas ruas neste momento, estou na rua, parece o centro da cidade, estou sentado em uma calçada em uma caixa de papelão, seria este o futuro? - Em que anos estamos, amigo? Pergunto pra um cara do meu lado. - 2055, cara - respondeu aquele desconhecido. Não, não pode ser 2055, os carros são iguais aos que eu conheço e a roupa das pessoas também, nada mudou por aqui. Começo reparar bem no cara ao lado e percebo que é um mendigo bêbado deitado na calçada. Mas o que eu estaria fazendo ali em um fim de tarde, em frente a uma igreja, os sinos ainda tocavam, acho que eram seis horas e pela primeira vez eu tinha noção do tempo, talvez fosse outono e pelo movimento das pessoas vindo do trabalho dava pra se imaginar que era um dia de semana. E aquela igreja não era estranha, era a igreja da Sé. Era inacreditável, eu estava deitado na calçada junto com mendigos em frente à Praça da Sé. Se isto é o futuro era terrível, nunca imaginei algo assim pra mim, se aquilo era o meu futuro então alguma coisa trágica aconteceu no passado, agora não consigo imaginar o quão ruim seria, eu tinha família e amigos, nunca me
  21. 21. Mayumi Mia Lana 22 deixariam em tal situação. Aquilo não poderia ser realidade, agora eu começava a duvidar da minha sanidade seriamente. Acho que estou louco, só pode ser a resposta, talvez eu esteja criando historias paralelas com a minha realidade, misturando os meus maiores medos com meus traumas do passado. Talvez eu esteja revivendo tudo isto em um sonho. Agora já passo a temer pela minha segurança, um mendigo nunca está seguro, aliás, eu não sei nada sobre a vida de um mendigo, só sei que não é boa e eu preciso sair logo daqui, está frio, e eu estou com medo. Nunca fui de ter medo, sempre encarei meus desafios, meus desafetos, mas agora estou com medo, agora o desconhecido me assusta, sou mais um animal perdido na floresta de concreto e aço, algo que na minha realidade eu desprezava. Ah, como eu era feliz na minha vida perfeita, uma vida sem medos é uma vida plena. As pessoas estão me olhando, é estranho, não sei se é pelo fato de eu ser um mendigo sentado na calçada deles ou se me reconhecem de algum lugar. Tenho receio de falar com eles, falei com o mendigo por impulso, mas desde que estas paranoias vêm me acontecendo eu tenho evitado contato com as pessoas, talvez seja um estado de misantropia, mas eu chamo de medo das pessoas mesmo, tenho medo da reação delas, o que elas poderiam me fazer? Hoje tenho medo do desconhecido.
  22. 22. Beto Santana 23 Ah, Platão teria nojo de mim. E pensar que a alguns anos ele sentiria orgulho, sim, eu já fui alguém de quem se orgulhar, meus amigos mais inteligentes sempre reconheciam meu talento, minha inteligência em sacar as coisas. Não era um gênio, mas era inteligente o bastante para me virar no meio desta geração de merda mais conhecida como geração Y. Eu não suporto este povo alienado, conheço gente que nunca leu um livro, alguns têm orgulho de falar que demoraram três meses para ler um. Quanta ignorância, pessoas sem engajamento político e social. Rebeldes sem causa na internet. Sempre me enojava ver os jovens desperdiçando o tempo. Isto me lembra a historia daquele velho sábio que sempre saia nas manhãs de domingo a passear pela cidade, jogava dominó com outros velhinhos na praça e brincava com as crianças nos parques. E o que ninguém sabia é que ele voltava de noite pra casa, bêbado e decepcionado com os jovens, sentava em frente sua máquina de escrever e registrava mais uma vez o que via pelas ruas da cidade. E isto se repetia dia após dia até que uma noite ele não voltou mais. E os velhinhos morreram e as crianças cresceram e com o tempo ninguém mais se lembrava. Talvez aquele velho sábio tenha morrido, ou talvez apenas tenha parado de se importar. Sempre dava conselhos aos amigos mais próximos e eles nunca me agradeciam, nunca me importei, tenho orgulho do meu senso altruísta, é coisa de família,
  23. 23. Mayumi Mia Lana 24 herdei da minha mãe, a pessoa mais importante do meu mundo. Os sinos não param de tocar, são seis horas de uma tarde fria de outono em São Paulo, o mendigo me olha curioso, não sei o que está pensando, mas não pode ser algo bom. Levanto-me e saio dali, vou dar umas voltas pela praça, ver se encontro alguém familiar, ou algo que me faça despertar deste pesadelo, algo que me faça retornar para casa, para minha realidade. As pessoas na rua parecem apressadas, é como se estivessem fugindo de algo, uma tempestade ou algum mal tempo. Dez mil pessoas na rua e nenhuma se conhecem, andam de lá para cá no fluxo da vida, do tempo, em seus mundos a parte, na sua grande inocência e egoísmo. Antigamente as pessoas se falavam mais, se respeitavam mais, mas hoje é outra coisa, na corrida do capitalismo é cada um por si, e dar um bom dia ou um sorriso representa um sinal de fraqueza, e ninguém quer parecer fraco ou louco em sair cumprimentando as pessoas pelas ruas. Gestos simples que foram esquecidos a muito tempo. Nós vemos em filmes e livros que pessoas se conhecem e se apaixonam por outras nas ruas, mas isto é impossível, sabemos que sim, na vida real isto não acontece, as pessoas tem medo das outras, dos desconhecidos. Afinal, com tanta violência quem se arrisca a dar atenção para alguém que nunca viu na vida? Acho impossível se apaixonar por alguém na grande floresta de concreto e aço.
  24. 24. Beto Santana 25 Continuo pelas ruas, já passei pela Praça João Mendes e cheguei ao o Bairro da Liberdade, um dos meus preferidos em São Paulo, adoro a cultura oriental, seus costumes, sua sabedoria. Ah se eles soubessem o quanto eu os admiro, aqui as pessoas parecem mais sensatas, te tratam melhor, com mais respeito, elas parecem querer te agradar o tempo todo. Desço pela Rua Galvão Bueno e paro em frente ao Sogo Plaza Shopping, fico ali parado olhando para o semáforo, as luzes da cidade começam acender. Aqueles postes orientais com aquelas lâmpadas fracas dão um tom ameno à noite que estava para começar. Notei que alguém me observava, aliás, já tinha notado há algum tempo desde a Praça João Mendes, alguém tem me observado. No começo achei que não era nada, achei que era mais alguém na rua, mas agora esta pessoa parou do outro lado da rua e está me observando. Sinto um frio no estômago, achei que ninguém me conhecia aqui, que estava sozinho, mas quem será ela? Sim, ela. É uma mulher, uma japonesa de cabelos negros, olhos castanhos, estatura baixa, e com uma expressão séria, na verdade até parece preocupada. E agora? Falo com ela ou espero ela falar comigo? O sinal fecha, os carros param, ela continua me olhando, parece estar esperando que eu faça algo, que tome alguma atitude e vá falar com ela, mas quem é ela? Estou com medo novamente, ela parece decidida, continua firme me olhando do outro lado da rua. Com uma reação inesperada ela atravessa a rua e vem em
  25. 25. Mayumi Mia Lana 26 minha direção, o coração dispara, o frio na barriga aumenta, ela vai falar comigo, e agora o que será que vai acontecer, será mais uma encrenca? Já estou me acostumando com isto. Pronto, ela está aqui. - Oi Jim, é Jim, né? - Oi, é sim, mas como você sabe? - Pelo seu corte de cabelo, acho que te chamam de Jim por isto né? Respondia ela, com um sorriso acanhado. - Sim, mas como você sabe? A gente nem se conhece, eu não te conheço. - Calma Jim, eu só imaginei que seria pelo seu corte de cabelo clássico, mas não precisa ficar bravo, disse sorrindo aquela japonesa intrigante que já não parecia mais preocupada com nada. - Ah, me desculpe a paranoia, é que ultimamente muitas coisas estranhas tem acontecido comigo, você nem imagina. Mas afinal, quem é você? - Mayumi, meu nome é Mayumi, e por algum motivo eu senti que deveria falar com você, acredita nisto? - Bem, com tanta coisa estranha acontecendo eu não duvido de mais nada, você não imagina o que está acontecendo comigo Mayumi, se te contar vai achar que sou louco. Mas afinal, por que você achou que deveria
  26. 26. Beto Santana 27 vir falar comigo, e porque está me seguindo desde a praça? - Ah sim, deixa eu te falar – respondeu Mayumi. – Vi você deitado na praça conversando com o mendigo, parecia atordoado, achei que estava precisando de ajuda, ou tivesse se perdido de casa, você não me parece um mendigo, está bem arrumado, com roupas limpas e penteado, parece mais um Rockstar do que um mendigo - sorria Mayumi ao falar comigo. Ela tinha este jeito meigo de falar sorrindo, como se tudo estivesse bem, e não houvesse mal no mundo. Será que ela sabia o quanto isto era cativante? - Pois é, acordei no meio da praça, deitado naquele papelão velho, não sei como vim parar aqui, a um instante atrás eu estava em outro lugar no meio de uma confusão e agora estou aqui, simplesmente adormeci e apareci aqui. Consegue entender? Perguntei meio receoso pra ela, tinha medo que ela me achasse louco. - Ah, sério? – Nossa então você deve estar com fome, já é quase hora da janta, e você vai precisar de um banho. Respondeu sorrindo como se não se importasse com a minha aparente loucura, ou como se já soubesse da minha situação. Por alguma razão eu gostei daquela conversa, estava aliviado que ela não me achava louco, era a primeira vez que eu não precisava sair correndo ou pular uma
  27. 27. Mayumi Mia Lana 28 janela para escapar de alguma confusão, e então de imediato respondi pra ela: – Pois é japa, você tem razão, estou com muita fome e um banho cairia muito bem. Com um grande sorriso no rosto ela apenas respondeu: - Vem comigo Jim, eu moro aqui perto descendo a rua. Descemos a Galvão Bueno até a rua dos estudantes e eu olhava tudo como se fosse a primeira vez ali na Liberdade, já estive muitas vezes, mas aquela era diferente, eu não sabia que ano era, poderia ser qualquer um, poderia até ser o mesmo, o ano de 2010, eu logo saberia. - Escuta Mayumi, em que ano estamos e que dia é hoje? - Hei Jim, é sério mesmo aquela história que você viaja pelo tempo sem rumo? Achei que estava brincando... – você não sabe mesmo? Fiquei irritado com a brincadeira dela e respondi grosseiramente: - Claro que não, se soubesse não perguntaria pra uma maluca como você. Ela sorrindo apenas respondeu:
  28. 28. Beto Santana 29 - Estamos em Agosto de 2010 Jim, de que ano você acha que veio? Apesar de trata-la grosseiramente ela não se chateou e respondeu sorrindo como se agora acreditasse realmente na minha história. Respondi que eu também sou de 2010 do mês de agosto, mas já fazia alguns dias que não conseguia voltar para casa, sempre que tentava acontecia algo e eu acabava adormecendo e acordando em algum lugar diferente. – E foi assim que vim parar aqui Mayumi, na praça junto com os mendigos, me desculpe pela grosseria, mas estou realmente preocupado com minha situação. As coisas podem mudar a qualquer momento e eu posso desaparecer novamente, eu só queria poder voltar pra casa, e pra falar a verdade eu não me lembro o que estava fazendo antes de sumir pela primeira vez, não tenho ideia do que esteja acontecendo comigo, na verdade as vezes acho que estou dentro de um sonho e a qualquer momento vou acordar para minha vida de novo. - Relaxa Jim, você não está sonhando, aqui é a Liberdade, você é bem real e eu também. Não sei o que está acontecendo com você, nunca ouvi falar de algo assim, só vi nos filmes e nos livros, mas você precisa comer algo e descansar, amanhã você estará melhor e eu vou te ajudar a voltar pra casa. Sei que sou uma estranha pra você, mas pode confiar em mim, eu só quero ajudar.
  29. 29. Mayumi Mia Lana 30 Mayumi mais uma vez me confortava com suas palavras, ela tinha razão, eu nem a conhecia, e até o momento estava com medo de fazer contato com as pessoas e de que algo ruim pudesse me acontecer. Mas agora me sinto totalmente confortável ao falar com ela e contar minha história louca, pela primeira vez eu não me sinto só nestes dias que eu não sei explicar. Por um momento tive esperança que voltaria pra casa, ela tem razão, só preciso de um banho e um pouco de descanso, e tudo voltará ao normal. - O tempo está mudando, precisamos nos apressar Jim, ou vamos tomar chuva. Mayumi acabou de falar e as primeiras gotas caíram sobre nossas cabeças, o tempo mudou de repente e tivemos que correr até a cobertura de um hotel próximo. Paramos para nos abrigar da chuva, e lá estava Mayumi ainda com aquele sorriso nos lábios, parecia uma criança que se divertia na chuva, parecia não se incomodar com a mudança súbita no tempo em São Paulo. Aqui é assim, a chamada terra da garoa, em qualquer momento pode chover e estragar o seu piquenique no parque ou sua tarde na piscina. Mas ela não se incomodava, apenas sorria. As gotas de chuva escorriam em seus cabelos longos e desciam até a testa enquanto ela tentava em vão se enxugar, que linda, será que ela sabe disto? -Hei Mayumi, sua casa está longe daqui? Eu posso tentar pegar o metrô, não quero incomodar.
  30. 30. Beto Santana 31 - Relaxa Jim, moro logo ali na outra esquina, e hoje você não vai a lugar nenhum - dizia ela enrolando seus cabelos longos com a mão e prendendo com algo que parecia uma caneta. Passamos alguns minutos sem dizer nada, ela me olhava fixamente nos olhos, me encarava, eu sou tímido e não gosto de encarar as pessoas, mas mantive a postura e encarei também, queria saber um pouco mais sobre ela, e porque ela estava me ajudando naquele momento confuso da minha vida. Ficamos nos olhando e estar ali com ela era como estar em um daqueles filmes do Terrence Malick, com poucos diálogos e muitas expressões, onde os gestos dizem por si só, e apenas o corpo fala. A chuva passou e seguimos para o apartamento dela. Era pequeno, apenas um quarto, uma cozinha pequena, uma sala e um banheiro, mas era o suficiente para ela, uma jovem que já morava sozinha, trabalhava e estudava aos moldes do estilo de vida americano. Entramos e ela me mostrou o sofá, fiquei por ali enquanto ela tirava o casaco molhado e ensaiava o preparo de uma sopa para nós. Eu estava de terno e pela primeira vez nestas viagens loucas eu retornei com a mesma roupa que estava da última vez, me lembro do roupão do motel e aquilo não foi nada bom - ah, o motel e aquelas lembranças terríveis da minha infância que quero esquecer.
  31. 31. Mayumi Mia Lana 32 Tirei o terno e os sapatos para relaxar um pouco, ela me trouxe um cobertor e brincou: - você está fugindo do casamento Jim, estilo noivo em fuga? E soltou uma breve gargalhada, eu ri também, mais uma vez ela me sacava, ela parecia saber tudo de mim sem me conhecer. Tomamos a sopa, uma delicia por sinal, uma receita oriental que ela aprendeu com a avó que mora no Japão. Mayumi era filha de japonês com brasileira, tinha 23 anos de idade, estudava cinema na Belas Artes em São Paulo, naquela noite no sofá me contou sobre sua vida, seus planos para o futuro, o projeto de escrever um roteiro de cinema e talvez um dia um filme. Conversamos muito sobre cinema e artes e sobre a estranha coincidência de eu também estudar cinema em outra escola em Higienópolis, sobre nossas bandas preferidas, nossos estilos musicais. Brincamos sobre o acaso de dois estudantes de cinema se conhecer em uma praça do centro da cidade – ela uma jovem moça oriental, eu, um pseudo-mendigo que viaja pelo tempo fugindo de seus casamentos e traumas de infância. Fizemos piada com isto e rimos bastante durante a noite, percebemos as coisas que tínhamos em comum. Em algum momento da conversa ficamos novamente em silêncio, aquele silêncio amedrontador que precede o medo de se envolver com alguém. Mayumi ligou a TV e sugeriu um filme, estava passando “Os Amantes de Montparnasse”, um clássico francês com a diva do cinema Anouk Aimée que conta a precoce e boêmia
  32. 32. Beto Santana 33 historia de vida do pintor italiano Amadeo Modigliani. Mayumi parecia mesmo me entender, ou aquilo foi apenas uma coincidência. Uma bela e estranha coincidência. As horas passaram e eu estava com medo de adormecer, tinha medo do que poderia acontecer, de não acordar ali. Por fim o filme acabou e ela foi para seu quarto, já não sorria mais como antes, não sei se foi efeito do filme que tem o final muito triste, ou se ela realmente estava pressentindo alguma coisa. Neste momento Mayumi me disse as últimas palavras da noite: - Boa noite, Jim! - Boa noite, Mayumi!
  33. 33. Mayumi Mia Lana 34 Voltando pra casa Acordei, o dia está claro, minhas costas doem, estou deitado em um banco duro em algum lugar barulhento, as pessoas me olham com espanto, aquele lugar balança e elas se apertam, entram e saem a cada parada, estou em um trem. Mayumi, agora me dei conta que adormeci e acordei longe de você, não tive tempo de me despedir, de agradecer a estadia, a refeição e principalmente pela conversa boa que tivemos ontem, aliás, será que foi ontem? Já não sei que dia é hoje. Pra mim se passaram só algumas horas, mas podem ter se passado dias desde que acordei naquela praça, desde que conheci aquela japonesa, Mayumi. Tive uma ótima noite depois de tempos, tão boa que até me esqueci de voltar pra casa, agora acordo em um trem, o maquinista informa que a próxima estação é a Barra Funda, estou mais perto de casa do que imagino, finalmente. Não estou usando terno, nem sapatos, talvez tenha deixado na casa dela, minha barba cresceu e eu estou descabelado. As pessoas me olham desconfiadas, eu já estou me acostumando com isto, só ela não me julgou e eu não tive tempo de agradecer. Espero um dia vê-la novamente, ela mora perto, posso pegar um trem e ir visita-la quando tudo isto acabar. Desço na estação da Lapa, moro em um dos bairros mais tradicionais da cidade, o Alto da Lapa, um bairro
  34. 34. Beto Santana 35 de classe média emergente, cheio de gente esnobe e metida a rica, onde as pessoas mais sensatas e carismáticas são os porteiros e as domésticas que trabalham por aqui. Subo a pé a Rua Pio XI, ando algumas quadras e já estou perto de casa, lá está o meu prédio, o famoso Villagio Real. Olho para a vizinhança na calçada, mas eles não me reconhecem, na verdade aqui ninguém se conhece, um amontoado de vizinhos estranhos que não se falam e nem olham na cara um dos outros. Sento na calçada do meu prédio, tento imaginar como foi que comecei esta jornada, como sai de casa e não voltei, parece que estou fora a anos, na minha cabeça só se passaram alguns dias. Tudo está diferente, parece que estamos no natal e as pessoas enfeitam suas casas com adornos e luzes coloridas. Não vejo sentido em fazer estas coisas todo fim de ano, mas as crianças adoram e ninguém discute isto. Meus pés estão doendo, andei descalço da estação até aqui, também esqueci os sapatos na casa da Mayumi. É estranho que todas as coisas que me desfiz naquela noite ficaram lá. O terno, a gravata e o sapato, não é a toa que me olhavam desconfiados no trem, eu pareço um louco barbudo que fugiu do hospício. Em outros tempos eu teria vergonha de ser visto assim, mas hoje não me importo mais, já transcendi esta fase, não ligo mais para o julgamento das pessoas, elas não conhecem
  35. 35. Mayumi Mia Lana 36 minha história, não sabem pelo que eu tenho passado ultimamente e principalmente, nunca entenderiam. Finalmente me levanto e tomo coragem para subir ao meu apartamento, passei pelo portão, mas fui barrado pela portaria. - Aonde vai senhor? Disse um senhor de bigode do outro lado da guarita, o porteiro. Já não era mais o porteiro de antes, talvez o outro tenha sido demitido. Quanto tempo eu estaria fora? Tudo está diferente. - Senhor, eu moro aqui, no 114. – Interfone pra lá e alguém pode lhe confirmar. - Tudo bem, vou interfonar, enquanto isto o senhor espera ali fora, por favor. Respondia o porteiro com tom de desconfiança. Não acredito que fui tratado desta maneira em minha própria casa, tudo bem que estou descabelado, barbudo e descalço, mas não justifica me tratar como um mendigo intruso em minha própria casa. O porteiro retorna e me notifica que não tem ninguém em casa. - Senhor, confirmei que não mora mais ninguém no 114, os moradores se mudaram a alguns meses e o apartamento está a venda. - Como assim? Eu moro lá, não me mudei, só estava viajando. – Por favor, tente novamente, deve haver alguém lá pra confirmar que eu moro aqui.
  36. 36. Beto Santana 37 - Vou ter que pedir para o senhor se retirar, não há mais nada que eu possa fazer. - O senhor está assustando as crianças no playground. – Peço que vá embora e tente ligar para alguém que possa lhe ajudar a voltar para casa. - Você está louco, como assim voltar pra casa? Esta é minha casa. Eu já falava em voz alta sem paciência. O porteiro fez uma cara séria, segurou o portão e murmurou: - Só vou falar mais uma vez, se o senhor insistir eu terei que chamar a policia ou usar força contra o senhor. Eu não quero lhe agredir, por favor, volte pra sua casa. E fechou o portão na minha cara. Inacreditável, fui expulso da minha própria casa, mais uma vez estou perdido, sozinho e sem ninguém para recorrer. Meu celular não funciona, eu só uso para escrever estas memórias, mas já faz um tempo que não faço mais, ando meio desligado, achei que finalmente voltaria pra casa. Mas aqui estou e esta não é minha casa, finalmente percebo que eu posso estar em algum lugar do futuro ou do passado, mas aqui não é o meu presente. Saio andando pelas ruas sem rumo, desço a Doze de Outubro, a rua mais movimentada do bairro da Lapa de Baixo, aqui todos se misturam. Ricos e pobres, camelôs e mendigos, um bairro sujo cheio de botecos e trombadinhas. Já fui roubado ali perto do shopping umas duas vezes. As lembranças da minha vida começam a voltar, começo a lembrar dos tempos que
  37. 37. Mayumi Mia Lana 38 vivi ali, da época do colégio, dos namoros na praça, ah, já faz tanto tempo. Estou me sentindo velho, mas no fundo ainda sou novo, as lembranças parecem estar tão distantes, mas acredito que não se passou tanto tempo assim. Preciso arrumar uns sapatos, meus pés estão me matando, não tenho dinheiro para comprar um par novo e os trocados que tenho só dão pra comprar um par de chinelos barato, enfim, é melhor que andar só de meias pelas ruas parecendo um retardado. Que vida louca, tive uma noite boa, até dormi, imaginei que tudo seria diferente, mas a vida joga na minha cara a dura realidade, eu estou perdido e não tenho ninguém, e aos poucos as coisas só tendem á piorar. Sempre tive medo de ficar sozinho no mundo e agora estou revivendo estes medos, preciso aprender a me virar, não contar com as pessoas, preciso encontrar um lugar para ficar. Não sei onde acordarei amanha e até quando isto irá durar. Gostaria de encontrar a Mayumi agora, talvez ela pudesse me ajudar, ela disse que me ajudaria a voltar pra casa e eu desapareci antes que ela tivesse uma chance, talvez ainda haja. Mas talvez não seja uma boa ideia, não devo incomoda-la, afinal, ela já fez muito em me dar abrigo e algo para comer. Mayumi, a única coisa boa que me aconteceu nos últimos dias, por onde você andará. Sem perspectiva eu caminho pela cidade, as horas passam e já está anoitecendo, andei da Lapa até a
  38. 38. Beto Santana 39 Barra Funda, alguns quilômetros pela selva de concreto e sua fauna capitalista. Agora a noite dá espaço para os mais distintos, os sem-classe, as putas e bêbados começam a sair de seus buracos, os mendigos se preparam para dormir. Não sei o que faço, não tenho ninguém senão a mim mesmo. Teoricamente seria suficiente, alguém como eu poderia me ajudar, mas neste momento sou a pessoa mais confusa deste lugar, já não me conheço mais, um homem sem lar e sem perspectiva não é ninguém. Sento em uma calçada e tento me proteger do frio, agora as pessoas já não me julgam mais, somos todos iguais aqui, talvez aqueles mendigos fossem como eu um dia, talvez cansados de tentar encontrar o caminho de volta apenas se entregaram. Posso parecer depressivo, mas é apenas frustração. Não vou me entregar, eu vou sair deste pesadelo. Agora me veio à cabeça algumas memórias de infância, dos meus avós, pessoas simples, do interior, que não tinham grande ambição na vida. Gostavam disso, deste sentimento de liberdade. Não eram intelectuais, mas tinham grande sabedoria sobre a vida e o sentido da felicidade. Viveram uma vida livre até o fim e eu não consigo encontrar o sentido de casa, vivendo aqui na grande floresta, na grande cidade. Na metrópole do amor e do medo. Levanto-me e sigo andando, consigo encontrar forças ao me lembrar dos poemas do Bukowski. Eu me sinto um
  39. 39. Mayumi Mia Lana 40 marginal andando sem rumo, sem me preocupar com o amanhã, a felicidade está em outro plano e eu vou gastar meus últimos trocados em uma garrafa de vodca. Vou me embriagar nas lembranças da vida terrena do meu lar doce lar, esquecer aquela vida que já não me orgulho mais e tentar dormir sem ser ateado fogo por algum moleque de rua. Tomo mais um gole de vodca e não vejo mais nada, adormeço ao som dos Doors que ainda toca na minha cabeça e sob um clarão apocalíptico que se parece com o fim do mundo eu adormeço. As horas passam e quando acordo, estou sentado em um banco de praça no centro da cidade. Eu conheço este bairro, estes postes antigos e estas luzes baixas, pessoas particularmente interessantes circulando no contra fluxo dos veículos que param no farol. Aqui é a Liberdade. O destino ou sei lá que tipo de força que controla meus passos ironicamente me trouxe para o meu lugar mais sacro, o bairro que mais gosto na cidade e que por coincidência conheci alguém que posso confiar. Mayumi. Preciso encontra-la. Desço pela Rua dos Estudantes e dobro as esquinas em passos largos, estou eufórico e ao mesmo tempo com medo, já não sei quanto tempo faz que não a vejo, talvez ela não se lembre mais de mim, talvez imagine que sou doente e perturbado com minhas histórias loucas de sumiço no tempo e essas coisas. Preciso arriscar, preciso vê-la mais uma vez.
  40. 40. Beto Santana 41 Subo as escadas do seu apartamento, toco sua campainha duas vezes, exagerei, não precisava tanto. Ninguém atendeu. Talvez ela não esteja em casa, ou talvez não more mais ali, quanto tempo teria se passado? Não tenho pra onde ir e o dia está começando, passei a noite com uma garrafa de vodca e alguns mendigos e acordei no meu paraíso pessoal, as circunstâncias me trouxeram aqui e preciso aproveitar esta oportunidade. Sento no degrau da escada e espero, apenas espero. Lembro-me de quando era pequeno e sentava nos degraus da escada do meu prédio esperando meus pais chegar do trabalho, eu tinha medo de ficar sozinho em casa, sempre fui uma criança medrosa, quando faltava energia elétrica em casa eu me trancava no banheiro. Hoje eu superei isto. Não sei por que, mas só me vêm à cabeça as piores lembranças da minha vida. Parece que não tive nada de interessante na juventude e adolescência. Só traumas, talvez eu precise supera-los para voltar pra casa. Alguém sobe as escadas, ouço barulho de passos em um andar abaixo do meu, algumas crianças aparecem e entram no apartamento ao lado, não era ela. Um sentimento de desolação me toma no momento, a frustração mais uma vez dá as caras. Preciso ir embora e seguir sozinho. Quando me levanto para descer as escadas alguém abre a porta, uma moça linda, com roupão de banho me olha surpresa e com um sorriso nos lábios pronuncia as melhores palavras do dia:
  41. 41. Mayumi Mia Lana 42 - Jim é você, não acredito que voltou, vem, entra, está frio ai fora. Dizia Mayumi surpresa. Eu estava sem graça e ao mesmo tempo feliz em vê-la e saber que ela ainda se lembrava de mim. - Desculpe aparecer aqui do nada, eu não tinha pra onde ir, acordei em uma praça aqui perto e resolvi visita-la. Eu tentava me explicar pra ela, mas ela parecia não se importar com as circunstâncias daquilo. Ainda sorrindo me pediu para esperar na sala que ela iria se trocar, estava no banho. Eu estava de queixo caído, aquela japonesa linda estava só de roupão na minha frente, com os cabelos molhados presos por alguma coisa, o perfume do banho ainda estava no ar, era linda, parecia uma gueixa. - Quanto tempo esperou ai fora Jim? Eu cheguei da escola de cinema e fui direto para o banho, você tocou a campainha? Perguntava Mayumi. - Sim, toquei duas vezes, mas ninguém saiu, fiquei um tempo sentado na escada e quando me preparava para sair você apareceu. - Ah que sorte a minha então, dizia ela com um sorriso. Ela se achava sortuda, mas era eu que estava feliz por encontra-la, ela era como meu anjo da guarda que voava baixo pelas ruas da cidade.
  42. 42. Beto Santana 43 - Mayumi, me desculpe pela outra vez, eu dormi e acordei em um trem, sem meu terno e sapatos, queria ter agradecido pela sua hospitalidade, mas não tive a oportunidade. - Ah Jim, não se preocupe, imaginei que você teria um bom motivo pra sair às pressas e esquecer até os sapatos. Neste momento ela soltava altas gargalhadas, ela sorria, estava sempre sorrindo. Seu sorriso tem poder, me faz esquecer que ainda tenho uma vida perdida em algum lugar no tempo. - Não tem problemas Jim, eu guardei suas coisas, mas já que está aqui pode pegar depois, acho que prefere ficar de chinelos né, seus pés devem estar cansados. - Mas e ai, encontrou sua casa? Perguntava novamente. Contei a história do porteiro e ela caiu na gargalhada, não sei se ela acreditava em mim ou se achava que eu mentia o tempo todo, mas ela sempre achava graça e me confortava dizendo que iria me ajudar a voltar pra casa. - Jim, tome um banho enquanto eu preparo o almoço, vamos dar uma volta mais tarde e tentar encontrar um jeito de você voltar pra casa, não se preocupe. Mayumi vestiu um short jeans e uma camiseta branca, soltou os cabelos e se sentou no sofá a minha frente. Ela não tinha vaidade, não se incomodou em secar os cabelos ou vestir uma roupa simples. Lembrei-me o
  43. 43. Mayumi Mia Lana 44 quanto eu adoro isto nas mulheres, a simplicidade, a beleza natural, não gosto de beijar batom, eu gosto do sabor natural dos lábios de uma mulher. As coisas simples sempre me agradaram, e a beleza exótica das mulheres também. Neste momento Mayumi interrompe meus pensamentos: - Jim, já para o banho. E soltou um sorrisinho no canto da boca, ela parecia tímida naquele momento. Talvez pelo fato de me mandar tomar banho. Eu realmente precisava de um banho, passei a noite na rua e estava cheirando a cachaça, e era incrível como aquilo não a incomodava, ela nunca demonstrou se sentir incomodada com a minha aparência de mendigo ou maluco fugitivo de hospício, ela parecia me entender, ou não se incomodava com a minha aparente loucura. Fico pensando se ela também não é louca, pessoas normais nunca abririam sua casa para estranhos que encontram na rua e lhe dariam alimento e abrigo. Eu não consigo entender porque ela faz isto, talvez ela esteja tão insana quanto eu, mas eu não posso julga-a, a minha avó sempre dizia que ainda existem boas pessoas no mundo, talvez eu tenha encontrado a última delas. Ficamos ali no sofá olhando um para o outro, ela me encarava e quando eu a olhava ela disfarçava, não puxou assunto e nem eu. Não sabia o que dizer naquela hora, estava sem jeito, me levantei e perguntei onde era o banheiro, ela me indicou e disse que iria ao quarto pegar uma troca de roupas que seu irmão deixou da última vez que veio visita-la.
  44. 44. Beto Santana 45 - Jim, já te levo uma toalha e umas roupas, ok? Balancei a cabeça respondendo que estava tudo bem e entrei no banheiro. Um lugar espaçoso, com uma banheira e um Box que separava o lavabo. Liguei o chuveiro e comecei o banho, a água caia sobre minha cabeça e eu relaxava lembrando-me de casa, de quando eu tomava banhos demorados e refletia sobre a vida e sobre as coisas que eu pretendia realizar durante ela. Meu avô dizia que as melhores ideias saem de um bom banho, é a hora em que as pessoas estão sozinhas e pensam com mais clareza sobre as coisas. Lembrei-me da citação de um poeta desconhecido que dizia que a arte é solidão. O Box estava aberto, fechei apenas a porta do banheiro, mas não tranquei, não gosto de lugares trancados. Mayumi bateu na porta interrompendo meus pensamentos, ela adorava fazer isto. - Jim, a toalha e as roupas estão aqui. Respondi que ela poderia deixar no chão ao lado da porta que logo eu pegaria. Ela abriu a porta, colocou as roupas em cima do lavabo, a porta do Box estava aberta e ela não se incomodou. Ficou ali parada na porta do banheiro me olhando com um olhar diferente e com uma expressão mais séria mordeu os lábios e me olhou de cima em baixo. Fiquei surpreso, meu coração acelerou e eu já não podia mais controlar as reações do
  45. 45. Mayumi Mia Lana 46 meu corpo, ela me olhava com desejo e o meu corpo denunciava, eu também desejava. Ela tirou a camiseta, o short jeans, soltou os cabelos e entrou comigo no chuveiro. Ficamos um tempo nos observando calados e em seguida nos beijamos sob a água quente. Ela mordia meu pescoço, arranhava minhas costas e entrelaçava as pernas em mim, eu acariciava seu corpo e viajava por aquelas curvas orientais pela primeira vez. Aproveitamos cada momento de intimidade, as trocas de olhares e caricias. Transamos como se fosse a segunda vez, a mais gostosa. Saímos do banheiro, nos secamos e fomos para a sala, ficamos nus ali sentados no tapete apenas nos olhando. O almoço ficou para depois, comemos algumas frutas, nos beijamos como dois adolescentes, ela mordia meu queixo, eu beijava seus olhos, os corpos falavam, nós queríamos mais. Transamos mais uma vez e a cena se repetiu por toda tarde, fizemos amor e fizemos sexo, e era quase poética aquela transição de um para o outro, aquele momento em que o amor se transformava em sexo e o sexo em amor, quando aquele ato atendia as necessidades do corpo e do coração. Por um momento ficamos nos olhando fixamente nos olhos, os meus tentavam desvendar os segredos daquela mulher misteriosa, e os dela pareciam já terem me desvendado desde a primeira vez. Meus olhos desciam pelas curvas do seu corpo no momento em que minha língua abria passagem para mais um ato de amor e sexo.
  46. 46. Beto Santana 47 Anoiteceu, a noite estava quente e a brisa estava amena, Mayumi me emprestou uma bermuda e camiseta e resolvemos dar uma volta pelas ruas do bairro. Estava tendo um festival oriental por ali, o Toyo Matsuri. As ruas estavam cheias, muitas barracas de artesanato, comidas típicas e um palco armado no começo da Rua Galvão Bueno com algumas atrações artísticas. Era um fim de noite perfeito pra mim, o dia foi intenso e depois de uma noitada esquisita regada a vodca com os mendigos da Barra Funda eu merecia aquilo, estava feliz e já não pensava em voltar pra casa. Caminhamos pelas ruas, paramos para comer um Tempura, tomamos saquê no gramado do parque, rimos das minhas historias esquisitas de aparecer e desaparecer e por fim nos beijamos. Parecíamos um casal de namorados, mas acabávamos de nos conhecer. Perguntei se ela não achava estranho transar com um cara que ela mal conhecia, ela me contou sobre as mulheres que transam com o primeiro cara que conhecem nas baladas, falamos sobre a banalização do sexo nos dias de hoje e por fim ela terminou me dizendo que já era a segunda vez que nos encontrávamos, e eu já a tinha visto de roupão de banho e agora teríamos de nos casar. Por um momento rimos sobre isto e então parei para refletir, eu estava feliz ali. Voltar pra casa já não me incomodava mais, eu poderia fazer isto, eu poderia me casar com ela. Seria isto possível? Talvez eu não estivesse dando a seriedade que a minha situação
  47. 47. Mayumi Mia Lana 48 exigia, ficamos calados por um momento, e logo ela interrompeu nosso silêncio. - Jim, é brincadeira, não precisa se sentir pressionado. E soltou um sorrisinho que não era típico dela. Aquele momento de felicidade estava passando, ia embora junto com a noite e mais uma vez a realidade me dava um tapa na cara, o medo aparecia, o medo de dormir, de acordar no desconhecido, sozinho, e principalmente, sem ela. Voltamos para o Apartamento, assistimos um pouco de TV, um capítulo da novela das oito e estranhamente aquela figura culta e politizada gostava de novelas, dos romances fáceis com trilha sonora e um final feliz. Eu não questionei, vimos o capitulo da novela e quando acabou ela se levantou e me convidou para o quarto. - Jim, desta vez você não vai dormir no sofá, hoje você foi um bom menino. Fomos para o quarto, mas eu não estava me sentindo a vontade, alguma coisa me preocupava, meu medo voltara e ela percebendo minha agonia me consolou. - Não precisa ter medo de desaparecer, Jim - você pode sempre voltar aqui.
  48. 48. Beto Santana 49 Demos um beijo e fomos para cama. Eu com um sorriso na cara como uma criança que acaba de ganhar sua primeira bicicleta, tudo estava perfeito, até agora. Acordei tarde, ela não estava em casa, talvez estivesse na faculdade ou trabalhando, pra falar a verdade eu nem perguntei o que ela fazia pra viver, só sei que ela estudava cinema e trabalhava para pagar as contas. Típico dos estudantes em qualquer lugar do mundo, até em São Paulo vivemos o jeito americano, claro, nem todos conseguem sobreviver aqui na floresta de concreto e aço. Talvez ela trabalhe em um café como balconista ou garçonete. São os tipos de trabalhos mais clichês para estudantes, era só o que eu podia imaginar naquele momento, lembrei que até Peter Parker entregava pizza nas horas que não estava salvando a cidade. Parece ridículo, mas esta é a síndrome do herói que em seus momentos mais íntimos é também frágil e humano. Mayumi era meu tipo de heroína pessoal, estava ali mais uma vez para me salvar dos perigos que a minha mente me causava, e certamente ela também devia ter seus momentos de fragilidade. Onde estaria agora? Estava ansioso pelo seu retorno, sentia sua falta, ela me consolou de noite, mas acordei com a sensação que eu estou sozinho novamente. Eu dormi demais, já passou a hora do almoço e resolvi dar uma volta pela cidade e retornar mais tarde, ela
  49. 49. Mayumi Mia Lana 50 saiu sem me acordar, não deixou recado, é melhor andar um pouco pra tentar esquecer isto por um momento. Afinal, eu ainda preciso voltar para casa. Sai pelas ruas da Liberdade e fui até a estação do metrô, fiquei ali um tempo olhando o fluxo de pessoas, imaginando quantas pessoas devem passar ali por dia, milhares de pessoas vão e vêm a todo instante, habitam a mesma cidade, moram no mesmo país, mas não no mesmo mundo, cada um ali no seu mundinho infinitamente particular, no qual não é permitido penetrar sem ser convidado. O máximo que se pode conseguir destas pessoas é um “bom dia” ou alguma expressão facial não muito convidativa, um gesto de “não me incomode” ou “não te conheço”. Mas no fundo elas têm razão, nesta corrida meteórica pelo capitalismo e o consumismo não há tempo para cordialidades e coisas simples da vida. Tudo é simplesmente complicado. Entrei no metrô, andei umas dez estações. Pensei mais uma vez em ir pra casa, mas da última fui expulso pelo porteiro, pensei no que Mayumi me disse sobre encontrarmos juntos alguma solução para o meu problema. Estou andando pelas estações da cidade, mas não sei que dia é hoje, talvez eu tenha adormecido e acordado dias depois da noite passada, quando penso nisto me vem um súbito frio na barriga, não é fome, é aquele velho medo. Voltei para a Liberdade e retornei para o apartamento e ela não estava. Já era quase noite e resolvi espera-la
  50. 50. Beto Santana 51 por ali, não queria sair novamente e correr o risco de desencontra-la. Percebi que havia algo errado, as coisas estavam muito arrumadas, parecia que ninguém vivia ali a alguns dias, só a cama estava desforrada do jeito que eu deixei. Que relaxo, esqueci-me de arrumar a cama, mais um dos meus hábitos burgueses. Pensei em arruma-la agora, mas já era noite e não faria sentido. Sentei no sofá vendo TV, uma novela adolescente ridícula sobre jovens mimados de classe média, pensei em todos os jovens que habitam esta cidade e se eles realmente merecem aquilo. Uma programação enlatada para uma sociedade fechada que vive nas trevas da cultura e conhecimento, que não gostam de filosofia, poesia, boa música e bons filmes, que são condicionados a assistirem uma programação feita na medida para estagnar a mente humana. Fiquei ali vendo a novela e rindo sozinho, imaginando que um dia eu também já fui assim, um jovem mimado de classe média, mas hoje é diferente, me sinto outro, uma nova pessoa. Adormeci no sofá, acordei com o sol brilhando na sala, o vento soprava as cortinas e eu me dei conta que mais um dia se passara, andei até o quarto e ela não estava lá, tudo estava no lugar, ninguém tinha estado ali. Ela desaparecera da minha vista. Agora tenho certeza que eu dormi no tempo, havia se passado muito tempo, talvez aquele nem seja mais o apartamento dela, na verdade não parecia mesmo, era como se outra pessoa morasse ali. Resolvi ir embora, estava desesperado, sozinho. Fiquei atordoado com tudo aquilo, andava sem rumo pelas ruas do bairro, sentei na praça e fiquei
  51. 51. Mayumi Mia Lana 52 observando os carros passarem, eu não tinha ninguém e nem pra onde ir. Acho que esta é a pior condição humana, eu estava sozinho no mundo, apenas com minhas lembranças. Comecei andar sem rumo pelas ruas novamente e o vento soprava forte ameaçando uma típica chuva de verão em São Paulo. Ainda ontem era outono. A minha vida voltou a ser uma confusão, tudo estava tão bom. Mayumi, por um tempo você foi tão real. E agora você se foi. Começou a chover e eu ainda caminhava pelas ruas, já não me importava mais, estava todo molhado e as pessoas me olhavam curiosas. Todos por ali se abrigavam da chuva e eu na contra mão andando pelas calçadas. Talvez pensassem que eu era um mendigo novo que chegou ao bairro e me adaptava ao clima. Eu realmente me sentia assim, sem casa, sem rumo e sem ninguém. Andei até a estação e fiquei ali sentado olhando para as pessoas que entravam e saiam do trem e por algumas horas fiquei ali torcendo para encontrar algum rosto conhecido no meio da multidão. Mas foi em vão, parecia que o mundo não me conhecia ou conspirava contra mim, me ignorava. Era como se eu não fosse deste mundo, mais uma vez. Eu quis sumir, dormir e acordar novamente em outro lugar. Queria reencontrar Mayumi, ir para casa, desejava minha vida de volta. Por um instante com ela eu me sentia aceito e até perdi a vontade de voltar para
  52. 52. Beto Santana 53 casa, mas agora sei que não é possível, eu não sou daqui e o inexplicável ainda está acontecendo, eu adormeço e acordo em tempos diferentes. Talvez ela tenha se arrependido, caído na real, abrigar um desconhecido em sua casa não é normal, talvez ela não tivesse coragem de me dizer e simplesmente foi embora pra que assim eu me tocasse e seguisse meu rumo. No momento é a coisa mais lógica a se pensar, só pode ser isto, e agora eu percebo que fui inconveniente com ela, fui egoísta e só pensei em mim. Comecei a andar pela estação e quando os trens passavam eu sentia o vento gelado na pele, aquilo me mostrava que ainda estava vivo e me deu coragem para tentar ir para casa. Fiquei parado ali por um tempo esperando o próximo trem chegar, resolvi tentar mais uma vez, desta vez o porteiro não vai me parar. Um trem chegou à estação, as pessoas desciam e quando me preparava para entrar vi através das janelas um rosto conhecido do outro lado da estação, era Mayumi. O trem fechou as portas e seguiu e eu fiquei ali parado, ansioso para ver quem estaria do outro lado, mas quando o trem partiu já não havia mais ninguém. Mais uma vez eu perdi as esperanças, devia estar delirando, tomei muito vento na cara, devo estar com febre. Fiquei ali por uns instantes olhando para o outro lado da estação, não havia ninguém, apenas a minha esperança que se perdia no vácuo do tempo. Virei-me
  53. 53. Mayumi Mia Lana 54 para escolher um banco e esperar o próximo trem e então avistei um anjo descendo as escadas da estação ao meu encontro. Com aquele sorriso de menina no rosto ela pulou nos meus braços e sussurrou baixinho: - Jim, que saudades! Eu não disse nada, não sabia o que dizer. Ela realmente estava do outro lado da estação e deu a volta para me encontrar. Nos abraçamos e nos beijamos ali mesmo, eu estava feliz, não estava mais sozinho. Andávamos pela estação enquanto eu explicava pra ela o que tinha acontecido nos últimos dias, que eu estava perdido novamente e sem rumo. - Jim, não se preocupe você vai encontrar o caminho de casa novamente. - Eu realmente pensei nisto Mayumi, estava pronto para entrar no trem quando te avistei do outro lado. Mas agora eu te encontrei e nada mais importa. Ela sorriu, eu adorava aquelas covinhas, ficamos em silêncio por alguns instantes. Ela estava certa, eu precisava voltar, não pertencia aquele lugar. Ela apenas sorria, estava feliz por mim. - Jim, eu vim me despedir, não vai ser fácil pra mim, há tempos que procuro por você. Dizia ela. - Mayumi, você procura por mim a tempos, mas eu tenho procurado por você a minha vida inteira. Se nos
  54. 54. Beto Santana 55 separarmos eu nunca mais serei feliz. Eu te encontrei japa. Mayumi me puxou pela mão e andamos até o fim da plataforma, ela me disse que tinha um presente. - Jim, está vendo a cidade? - Sim, o que tem Mayumi? - É seu presente, ela é sua, isto tudo é seu, não é você que pertence a ela, é ela que te pertence. Você pode ser o que quiser e pode realizar todos os sonhos que quiser, mas agora você precisa ir, Jim. Dizia ela com um pouco de melancolia. - Que incrível Mayumi, eu nunca tinha visto a cidade desta maneira. - Então vá Jim, apenas acorde e vá. Insistia ela. Eu não queria, mas era inevitável e eu sabia disto. O trem se aproximava da plataforma, ficamos ali por um momento nos olhando, nos despedindo com os olhos, com os olhares, ela já não sorria como antes e eu aprendi a sorrir com ela. Ela me abraçou forte, me olhou nos olhos e nos beijamos pela última vez, um beijo doce e amargo ao mesmo tempo, um beijo de despedida. Dei um beijo em seu olho para secar as lágrimas, mas elas ainda caiam, e naquele momento ela me abraçou mais forte e sussurrou baixinho no meu ouvido:
  55. 55. Mayumi Mia Lana 56 - Você vai encontrar o amor da sua vida, Jim! Eu senti as lágrimas quentes no meu pescoço, podia ouvir o som de sua respiração ofegante que só foi interrompida pelo barulho do trem que chegou à plataforma, um barulho ensurdecedor e então tudo ficou claro. Foi apenas um sonho.
  56. 56. Beto Santana 57 Despertar Despertei, mas desta vez eu não adormeci, eu me lembro de tudo, estava com Mayumi na estação, nos abraçamos e nos beijamos, era uma despedida. Olhei para os lados e tudo era familiar, o quadro da Amy na parede, os discos antigos, minhas raquetes de Tênis penduradas na parede, o notebook ainda estava ligado na TV rolando um show dos Doors. Acho que adormeci assistindo como sempre. Levanto-me e vou ao banheiro, eu conheço este banheiro, a porta fica de frente ao meu quarto, é a minha casa, finalmente, estou em casa. Agora a ficha caiu, estava sonhando e agora é tão estranha a sensação de alivio e desconsolo, estar em casa novamente e perceber que era tudo um sonho maluco, um sonho dentro de outro sonho, dentro de outro sonho. Tomo um copo de leite e me sento na cama, o Jim esta cantando Love Me Two Times, me parece familiar, foi um sonho bom, uma projeção do que seria uma vida bacana, uma projeção daquilo que eu realmente sonhava pra mim, alguém que me entendesse, me apoiasse nos momentos mais difíceis, que gostasse de cinema, música, alguém com aquele sorriso que eu só vou encontrar nos sonhos. Estou aliviado, ela me consolou. Este é o tipo de coisas que só acontece comigo, eu poderia escrever sobre isto, um sonho que me abriu a mente, que literalmente me despertou para a realidade.
  57. 57. Mayumi Mia Lana 58 Ah Mayumi nunca esquecerei o seu presente. O que me deprime é que você não seja real, foi apenas o fruto da minha imaginação. Eu me lembro de que ontem cheguei desanimado, tinha rompido mais um namoro com uma destas meninas da vida. Tomei meia garrafa de vodca assistindo aquele show dos Doors e adormeci. Mas hoje é outro dia e você se mostrou incomparável a qualquer outra, se fosse por você eu me lamentaria, mas não é. E ninguém mais merece meu desespero. Hoje é quarta-feira e eu estou de volta à vida, tenho aulas na faculdade de cinema e o roteiro de um filme pra escrever. Ainda tenho alguns amigos, uma família, e um trabalho. É como você disse Mayumi, a cidade é minha e eu posso ser o que eu quiser na vida, vou ser o meu melhor. Sai para o trabalho e a realidade começou a me encarar, a hipocrisia das pessoas é a mesma em qualquer lugar seja ele um sonho ou não. Os casais apaixonados e seus amores passageiros, os mendigos invisíveis nas praças e os milhares de pessoas em seus casulos nos trens de São Paulo. Eu apenas observo atento este comportamento delas, não quero ser assim robotizado. Vou para o trabalho e tenho um dia normal, parece que faz meses que não via as pessoas, mas foi tudo um sonho e ontem mesmo eu estava ali trabalhando, apenas era outra pessoa, alguém que eu não conhecia.
  58. 58. Beto Santana 59 E eu ando novamente pelas calçadas da Liberdade na capital do desapego, um lugar onde as pessoas já não mais se amam, gostam apenas da ideia de amar alguém. Banalizaram o amor para tornar a vida menos dolorosa. Mas eu vou seguindo o conselho daquele anjo que pairou sobre meu teto. Mayumi, você foi o amor mais real que eu nunca tive, você não existe, mas eu sempre vou te amar, até te esquecer. E eu me lembrarei de você quando te conhecer nos olhos de outra pessoa, e com o tempo eu te esquecerei novamente. Os dias vão seguir sob as chamas de Roma, e nos corações partidos só será mais um dia na terra do nunca mais, sempre o primeiro dia do resto de nossas vidas. As aulas de cinema recomeçaram, estavam em recesso de meio de ano e neste semestre eu tinha o roteiro de um filme para escrever, eu não sabia por onde começar, talvez escrevesse sobre aquele sonho, aquilo já faz tempo, se passaram alguns meses desde aquela paixão imaginária e aquelas viagens no tempo, parece loucura, mas pode dar um bom roteiro. Este semestre tem algumas caras novas na faculdade, alguns alunos se transferiram do curso de cinema da Belas Artes para a minha escola. Uns três boyzinhos metidos a Spike Lee e uma loira sorridente que não para de falar. Não sei por que, mas ela me chamou a atenção, é inteligente, sabe tudo de cinema e cultua o Woody Allen – o que já é um começo. Está sempre com um sorriso largo no rosto e com as covinhas a mostra. Não sou muito chegado a loiras, mas ela até que é
  59. 59. Mayumi Mia Lana 60 interessante. Provavelmente ela deva ser mais uma daquelas patricinhas fúteis da sala, seu nome é Carla, e me fez lembrar aquela atriz linda, a Carla Gugino, com um belo sorriso e uma beleza divina. O professor de roteiro pediu para nos juntarmos em duplas, hoje teremos que começar o roteiro de um Curta-Metragem para o nosso trabalho de conclusão de curso. As aulas estão terminando e eu finalmente me formando em algo que gosto, Cinema. As duplas se formaram e eu fiquei ali sentado, não queria me juntar com ninguém, ando antissocial ultimamente e prefiro fazer meu trabalho sozinho, mas para minha surpresa a Carla aconteceu, aquela loira sorridente veio se sentar ao meu lado e com uma retórica perguntou: - Ei Jim, é Jim né? - Vamos trabalhar juntos? Eu respondi: - Não é Jim, mas todos me chamam assim, tudo bem vamos formar dupla. E ela com um sorriso lindo de duas covinhas se apresentou: - Eu sou a Carla e vou estudar o último semestre com vocês. Gostei do seu cabelo, o estilo me lembra o Morrison, mas que nome seus pais te deram quando chorou pela primeira vez? Achei aquilo engraçado e resolvi entrar no clima.
  60. 60. Beto Santana 61 - É Cris, na verdade Cristian, mas pode me chamar de Jim mesmo, Carla. Sentia-me a vontade com ela, e de maneira descontraída e sem nenhuma encanação sentou ao meu lado e prendeu o cabelo, respirou fundo e me olhou nos olhos, por um momento ficou vermelha e deixou transparecer alguma timidez, eu sabia que por traz de toda aquela beleza e autoconfiança existia alguma fragilidade. Com uma voz acanhada e o sorriso de sempre ela sugeriu: - O que você acha de escrevermos sobre amor, amor de cinema mesmo. Eu respondi ironicamente: - Qual tipo de amor de cinema, Carla? – Comédia romântica? - Ah, aqueles amores estilo anos sessenta em Paris, quando os casais apaixonados ainda comiam crepes nas calçadas de Montparnasse e andavam de lambreta pelas ruas da cidade. – E ai Jim, você faz o estilo romântico ou é mais careta, hein? Provocava ela. Fiquei sem jeito, sorri, dei um suspiro e respondi: - Então, né... - Nem precisa dizer nada Jim, já saquei que você é romântico, não precisa se envergonhar, eu também acredito no amor. – Então está combinado, vamos escrever sobre o amor, amor de cinema. Dizia Carla com um sorriso de menina no rosto e aquele jeito de moleca que acabava de ter alguma ideia maluca na cabeça.
  61. 61. Mayumi Mia Lana 62 Aquela loira era especial, me decifrava a cada instante, eu nem precisava me esforçar para falar sobre mim, a cada gesto ela me sacava, parecia estar interessada e sorria a todo instante. Ela falava muito e eu quase não conseguia responder suas perguntas que por sinal ela já sabia as respostas. Resolvi propor outro tema para o roteiro, mas no momento ela interrompeu meus pensamentos. - Hei Jim, e ai, no amor o que você procura em uma mulher? Respondi de imediato: - Eu quero o que todo mundo quer, eu quero ser feliz. Busco um momento que dure uma vida. Ela arregalou os olhos, levantou as sobrancelhas, e com aquele jeito meigo de menina me olhou, sorriu e respondeu: - Eu também, Jim... Aquele instante foi como se o tempo parasse para nós, ficamos ali em silêncio apenas nos observando, e com toda sua timidez ela apenas sorria, era algo familiar pra mim, eu me lembrava de alguém que eu logo me esqueceria, Mayumi. E naquele momento me veio à memória suas últimas palavras: “Você vai encontrar o amor da sua vida, Jim.”
  62. 62. Beto Santana 63 ***FIM***
  63. 63. Mayumi Mia Lana 64
  64. 64. Beto Santana 65 Mia Beto Santana
  65. 65. Mayumi Mia Lana 66
  66. 66. Beto Santana 67 Índice Mia..................................................................................70 Romeu.......................................................................... 84 A Cidade Grande.........................................................89 Desespero...................................................................101 Calmaria.....................................................................109 Paris.............................................................................118 Reencontro.................................................................123
  67. 67. Mayumi Mia Lana 68 Prólogo O que vemos aqui é a história de um amor improvável. Mia é um conto sobre o amor marginal, que não respeita regras e classes, apenas acontece. Nesta história de amor os personagens só tem em comum a frustração de suas vidas e o medo do desconhecido. Ele é um carteiro, ela, uma garota de programa com um passado sombrio e desconhecido. Todos a amam, mas ela não ama ninguém. O destino do carteiro está ligado à vida da garota de coração gelado, e juntos eles vão descobrir que o amor às vezes pode ser bom. O autor.
  68. 68. Beto Santana 69 SÃO PAULO Janeiro/Fevereiro de 2014
  69. 69. Mayumi Mia Lana 70 Mia Terra da garoa, assim era chamada esta ilustre cidade pelos imigrantes nordestinos que por aqui chegavam. Aqui chovia todo santo dia e estas pessoas não estavam acostumadas com tanta água caindo do céu. Mas isto mudou, hoje não podemos mais dizer que aqui é só a terra da garoa, a cada hora do dia temos uma estação diferente, e hoje é mais um daqueles dias típicos, a manhã foi de muito sol, um dia quente e abafado, e uma tarde que prometia chuva e um pouco de frio à noite. São Paulo é assim, tem um clima imprevisível e a temperatura muda a todo o momento surpreendendo sempre os mais desavisados. A noite caia e uma garoa fina banhava lentamente as ruas da cidade, e ali, em uma esquina do centro na Praça da República uma menina circulava de uma quadra para outra sem se preocupar com o tempo adverso. De salto alto, saia de couro e meia-calça, blusa decotada e jaqueta de couro no maior estilo roqueira dos anos 90, um batom vermelho contrastava com sua pele pálida, branca e avermelhada pelo vento frio, seus olhos cansados entregavam as noites mal dormidas, seu cabelo azul reluzente cortado milimétricamente até os ombros transparecia sua personalidade forte. Era Mia, uma jovem prostituta que ganhava a vida nas ruas do centro da cidade.
  70. 70. Beto Santana 71 Você deve estar achando que esta é mais uma história clichê sobre uma menina rica e mimada que fugiu para as ruas e resolveu se tornar prostituta, mas não é. Esta é uma historia diferente, a história de uma garota órfã que não conheceu os pais, foi entregue ainda bebê a um orfanato e não encontrou seu lugar no mundo. Ninguém pode julga-la, ninguém sabe pelo que ela passou na vida, uma garota tão jovem, vinte anos e já viveu mais que muito marmanjo de quarenta por ai. Uma batalhadora que sobrevive à maneira que pode nessa selva de concreto e aço. Seu olhar misterioso desperta curiosidade em todos que conhecem sua cama. Eles sempre voltam e querem saber mais dela. Quem é Mia? Uma princesa perdida e desamparada em um mundo que não é seu conto de fadas. Ela parece não se importar, nunca a vi chorar, ou triste, está sempre disposta e com bom humor, mas não esconde seu desprezo pelas pessoas, faz seu trabalho muito bem, recebe e vai embora. Ela é fria, não dá desconto e não é de brincadeiras, parece muito inteligente e não aparenta ser inculta como as outras, sim, tem muita puta inculta por ai. Neste mercado do sexo reina a futilidade, muitas meninas só se preocupam com a aparência e com a grana, e às vezes gastam mais dinheiro do que ganham. Mas Mia não, ela parece ter outras preocupações, tem conta bancária, não guarda seu dinheiro debaixo do colchão e nem deixa parte dele nas boutiques de algum shopping da cidade. Pra ela é
  71. 71. Mayumi Mia Lana 72 apenas mais um trabalho, e ela sabe realmente o que faz. Ela não tem vergonha de ser prostituta, sabe que tem umas das profissões mais antigas da civilização. Ela não se incomoda por chama-la de puta, as pessoas se vendem por muito menos hoje em dia, se prostituem no chão de uma fábrica ou em algum escritório do centro umas dez horas por dia em troca de um salário de merda no fim do mês. Algumas se casam por interesse e se prostituem a vida inteira em troca de conforto e status. Povoam o mundo gerando herdeiros que seguirão o exemplo dos pais e se venderão barato no futuro. Uma geração inteira de vendidos que desperdiçam suas vidas em troca de coisas banais. Ela sabe que ninguém pode julga-la. Ela e seus clientes no fim das contas são muito parecidos, separados apenas pela hipocrisia. Mia é forte e destemida, uma verdadeira Scarlett O' Hara nos dias de hoje, tão confiante e determinada que só teme a si mesma e ao inevitável para toda mulher, o amor, as tentações da carne e do coração. Ela tem medo de amar, conhece este sentimento que aflora sua natureza mais selvagem, para ela o amor é um sentimento tangível e tão real que não poderia durar para sempre. Ela sabe que não pode se dar ao luxo de amar, e para o seu bem e o bem do seu negócio ela abdica este sentimento e se orgulha de nunca ter se apaixonado. Sabe que é desejada por muitos homens, mas tem convicção de que nunca será de ninguém.
  72. 72. Beto Santana 73 Nasceu em algum dia de Dezembro de 1993, nunca me disse qual, mas eu tenho certeza que foi no Natal, um anjo como ela só poderia nascer em um dia especial. Apenas se sabe que passou muitos anos da vida em um orfanato na zona leste e o restante deles morava com os pais adotivos em uma pequena cidade próxima da capital. Mia cursou o colegial, fez fotografia, frequentou algumas aulas de teatro comunitário antes de largar tudo e vir ganhar a vida na cidade grande. Apesar do mistério que envolve sua vida ela aparenta ser uma pessoa normal. Aliás, é mais normal que muitas garotas da cidade. Ela estuda inglês e desenha nas horas vagas, gosta de artes e vai sempre ao cinema no baixo Augusta, frequentemente é vista no Centro Cultural de São Paulo, ela sabe aproveitar seu tempo livre. Mia faz ponto na República, mas na Augusta é apenas mais uma pessoa que desfruta do que há de melhor na noite paulistana, os bares mais undergrounds, a musicalidade variada, e as pessoas mais interessantes que alguém poderá conhecer em São Paulo. Ela não tem amigos, mas de vez em quando é vista por ali tomando uma cerveja com algumas pessoas na porta do cinema. Não é comum para uma prostituta encontrar seus clientes curtindo uma balada por ai, a não ser que eles frequentem os mesmos lugares, e foi assim por acaso que novamente nos conhecemos. Ela estava lá sozinha tomando uma cerveja, era um daqueles barzinhos escuros da Rua Augusta, um ambiente bacana pra quem gosta de bater papo e ouvir
  73. 73. Mayumi Mia Lana 74 um som na Junkie Box. Eu peguei uma cerveja e coloquei um Jorge Ben na máquina. Fiquei ali em pé por um tempo apenas observando, já tinha saído com ela duas vezes e ela não me reconhecia, o que era perfeitamente normal, afinal ela deveria ter muitos clientes. Ficamos nos olhando por alguns segundos e ela desviou o olhar, parecia estar incomodada. Eu estava surpreso, nunca imaginei que a encontraria em um barzinho a meia luz na Augusta. Eu precisava falar com ela. Aproximei-me da mesa, esperei ela olhar novamente, ensaiei um sorriso e perguntei: - Oi, lembra-se de mim? - Eu deveria? Fiquei sem ação por um momento, eu não esperava aquela resposta. - Você não se lembra mesmo? – Você é a Mia, não é? - Hei Romeu, vai ficar só tagarelando ou vai me pagar uma cerveja? Mais uma vez me surpreendi, ela tinha senso de humor e uma personalidade forte. Sem hesitar chamei o garçom e pedi mais uma cerveja. Puxei uma cadeira e sentei ao seu lado, ficamos ali por um instante apenas nos olhando, ela me observava da
  74. 74. Beto Santana 75 cabeça aos pés, como se estivesse fazendo reconhecimento do terreno. - Hei Romeu, você é mais um daqueles tipos perseguidores? Perguntou quebrando o silêncio. - Fica tranquila eu sou do bem. - Você não se lembra de mim, mas nós já nos encontramos duas vezes lá na República. - Ah, então você é mais um daqueles clientes chatos. – O que você quer Romeu? - Porque me chama de Romeu? - Eu chamo todos de Romeu, Romeu. - Bom, eu estou sozinho por aqui e vi que também está e resolvi puxar assunto. Achei que se lembraria de mim. - Eu não me lembro dos rostos, só das vozes insuportáveis... - Mas você ganhou um ponto comigo, eu também gosto de Jorge Ben... - Eu sou fã do cara, aprendi a gostar com meu pai desde criança. Ele era um daqueles sujeitos Black Power que andava pelo Bairro do Bexiga nos anos 80 curtindo um samba soul... - Era? Perguntou ela. - Sim, ele faleceu há alguns anos, mas me deixou sua coleção de discos e seu bom gosto pela música
  75. 75. Mayumi Mia Lana 76 brasileira. E você como aprendeu a gostar de Jorge Ben? Ela ficou em silêncio por um momento, tomou um gole de cerveja e de forma desinteressada respondeu friamente: - Com a vida. Mia era um mistério, percebi que não queria falar do seu passado e logo mudei de assunto. - Então, dia 25 tem show do Jorge Ben no SESC Pompéia, tá sabendo? - Sério? Eu ando por fora do que está rolando na cidade, passei uns dias viajando e voltei hoje. Eu vou procurar me informar... - Mas e ai Casanova você é do tipo que sai abordando as garotas nos bares pra levar pra cama? - O que está fazendo sozinho por aqui? - Ah, eu gosto de sair sozinho à noite, não faço o estilo Casanova não, não sou da pegação. Gosto de sair e conhecer pessoas, quando se sai sozinho aumenta a probabilidade de conhecer pessoas interessantes. - E eu sou sua bola da vez? - Corta essa, pra mim você faz mais o tipo solitário mesmo. – O que aconteceu, brigou com a namoradinha? Ela me atacava por todos os lados, não perdia uma oportunidade de debochar de tudo que eu dizia.
  76. 76. Beto Santana 77 - Relaxa, é isto mesmo, gosto de sair à noite para tomar uma cerveja e aproveitar as possibilidades que a cidade oferece, hoje encontrei você. - OK Romeu, mas não pense que serei seu prêmio de consolação e nem sua psicóloga, se começar a chorar eu vou embora. Ela era inconstante, alterava seu humor de uma hora pra outra e eu quase não sabia se estava falando sério ou apenas brincando. O fato é que aquilo me atraia cada vez mais, era como se ela fosse uma aranha me atraindo para sua teia, eu estava em um jogo de sedução e para sair vitorioso precisaria entrar de cabeça. - Porque você se prostitui? Perguntei. - É uma de duas formas de dizer “Eu não te amo”. - E qual seria a outra? - Soletrando. Respondeu Mia, friamente com um sorrisinho no canto da boca. - Você é engraçada sabia? Porque odeia tanto os homens hein? Ela não fazia questão de esconder sua antipatia com as pessoas, parecia detestar os homens, ela tinha um passado obscuro, uma espécie de passageiro sombrio
  77. 77. Mayumi Mia Lana 78 que lhe acompanhava a cada sorriso, a cada gole de cerveja. - Você pode rir de mim ou pode rir comigo. Respondia ela com sarcasmo. Mesmo rude ela era irresistível, tão nova e tão fatal, ela não dava brechas, parecia estar sempre na defensiva, mas contra-atacando sem piedade. Assim era Mia, uma mulher sem coração. - Nunca se apaixonou? - Talvez... Respondia ela evasivamente. - Como assim? Uma pessoa sabe se está apaixonada ou não. Ela foi categórica: - Estar apaixonada é como encarar um precipício em que às vezes você precisa pular e não tem a coragem necessária. Paixão é a metáfora para uma vida perigosa e não corro riscos desnecessários. Não tenho certeza se já me apaixonei. - Hei Mia, às vezes é só deixar rolar, amar alguém não pode ser tão complicado assim. Naquele momento um silêncio constrangedor gritava em nossa mesa... Talvez eu tenha falado alguma besteira, estava adentrando as intimidades dela e ela não estava gostando.
  78. 78. Beto Santana 79 Mia quebrou o silêncio respondendo: - Sabe, acho que já me apaixonei, eu já namorei, já tive aquela vida que as pessoas acham “normal”. Mas eu quebrei o paradigma e cai fora. - Não pensa em namorar novamente? - Namoro pra mim é uma relação efêmera, algo com prazo de validade. - Tem medo do futuro? Perguntei. - Veja bem Romeu, Como ligar sua vida a vida de outra pessoa e ter certeza que ela é a pessoa que você quer passar a vida inteira? Quando você namora você vive duas vidas, a dura realidade e a fantasia que você precisa, e a cada relação uma delas se acaba e outra se inicia. - Então você está esperando o cara certo? - Não existe um cara certo pra mim, se existir deve ser chato e sem graça. É por isto que eu sou de todos e de ninguém. - Mia, eu acho que você tem medo do amor. Retruquei. - Mas de que amor você está falando? Daquela ponta de agulha que te espeta o coração e te faz esquecer a vida? Que te faz largar tudo e fugir de quem você é para se
  79. 79. Mayumi Mia Lana 80 juntar a alguém e fazer meia dúzia de Pivetes? Porque este tipo de amor foi criado por vocês homens para fazer nós mulheres enriquecer as fábricas de cosméticos. Vocês tornaram o amor burguês Romeu, e nós apenas compramos a ideia. - Mia, assim você nos faz parecer culpados, mas a mulher atual está longe de ser o sexo frágil. - Eu concordo Romeu, nós manipulamos e usamos isto a nosso favor. - Mia, eu concordo que o amor é burguês e egoísta e às vezes até selvagem e ninguém entende mais disso que vocês, mas nesta guerra dos sexos nós ainda damos as cartas. E o amor pode ser burguês, mas não é exclusivo, todos podem amar desde que paguem o seu preço. - É fácil falar de amor quando se tem a vida perfeita Romeu, e você é um estereótipo ambulante. - Por que você sai com prostitutas? Ela me enquadrava. - Eu namorei por alguns anos, na verdade fiquei noivo, eu gostava muito dela, mas você está errada, eu não tenho a vida perfeita. Estávamos há tanto tempo juntos que já não sabíamos se era amor ou apenas nos acostumamos um com o outro, sabe? - Sei sim Romeu. Respondeu Mia.
  80. 80. Beto Santana 81 - Eu vejo mais sabedoria em um casal que se casa com seis meses de namoro do que um com seis anos. Pra mim o segundo só descobriu tarde que podem se aturar por muito tempo. Não me leve a mal, eu não sou contra o amor ou contra se casar. Eu só acho que é um tempo difícil para quem sonha com felicidade a dois. Era estranho como duas pessoas que acabaram de se conhecer estivessem abrindo o jogo para o outro, talvez fosse fácil porque era algo totalmente descompromissado. Eu me sentia a vontade e ela também. Tínhamos passado aquele primeiro momento de tensão. Ela se levantou e foi ao banheiro, a fila estava grande e ela aproveitou para atender o celular, passaram uns cinco minutos e ainda falava ao telefone, talvez fosse algum familiar ligando, não tinha parado para pensar que talvez ela tivesse uma família que esperasse todas as noites pelo seu retorno. Finalmente voltou do banheiro, acabou perdendo a paciência e não esperou a fila. - É o seguinte Romeu, o papo tá bom, mas tenho outro compromisso. - Hei, já vai? Se quiser te dou uma carona, você mora perto? Meu carro está logo ali no estacionamento. - Relaxa Romeu, eu vou trabalhar, valeu pela cerveja.
  81. 81. Mayumi Mia Lana 82 - Mas e ai a gente pode se ver outra vez ou sei lá trocar telefone... Eu estava perdendo aquele jogo e a estribeira ao mesmo tempo, ela me pegou de jeito. - Você sabe onde me encontrar, não precisa se desesperar. Mais uma vez ela debochava de mim. - Ok, mas meu nome não é Romeu e afinal, qual é seu nome verdadeiro? - Pra você é Mia, Romeu, apenas Mia. Respirei fundo, tomei mais um gole de cerveja e soltei: - Eu sei que soa um pouco pretensioso... - Mas será que podemos ser pelo menos amigos? Mia parou, deu meia volta, veio em minha direção, sorriu e perguntou: - Você me promete uma coisa? - Sim, o que você quiser. Respondi. - A gente pode ser amigos, mas não passa disto, se insistir em algo mais eu caio fora. OK? Era mais do que eu precisava ouvir naquele momento, aquela foi uma boa maneira de me dizer um sim e
  82. 82. Beto Santana 83 finalmente o placar daquele jogo se igualava. Eu voltei para casa com aquele sorriso adolescente de quem tomou sua primeira dose de álcool na vida, estava entorpecido. - Sim, eu prometo. Respondi pra ela. Ela se despediu com um beijo no rosto e um sorriso e antes que eu dissesse alguma coisa ela me interrompeu: - Não se esqueça dos ingressos para o Show do Jorge Ben, OK? – A gente se vê Romeu.
  83. 83. Mayumi Mia Lana 84 Romeu Vila Pompéia, uma bairro nobre da capital paulista. A história nos diz que em 1910 surgiu por ali um empreendimento que dividiu as chácaras em lotes transformando aquele lugar em um bairro. O nome do bairro foi uma homenagem do dono da obra à sua esposa Aretusa Pompéia, criando assim o bairro que chamamos hoje apenas por Pompéia. O bairro que no inicio era habitado por uma maioria de italianos, portugueses e espanhóis tinha uma característica urbana horizontal, com casas coloniais e sobradinhos. Com o passar dos anos o bairro sofreu diversas transformações e o que era antes um bairro colonial hoje se transformou em um bairro vertical cercado por grandes edifícios e construções modernas. Alguns sobradinhos sobreviveram ao tempo e as mudanças da sociedade. E é num destes sobradinhos coloniais que moro com minha avó. Ali entre as Ruas Turiassu e Avenida Pompéia. Eu cresci no interior de São Paulo, uma cidade próxima à região metropolitana da cidade. Minha mãe conta que eu nasci na capital e morei por aqui até meus dois anos de idade, com o nascimento de minha irmã meus pais resolveram se mudar para um lugar mais tranquilo, uma casa grande no campo com espaço para criar quatro crianças, este era um sonho antigo deles. Eu vivi no campo e nas férias escolares ia para a casa da minha avó na Pompéia, minha vida foi sempre
  84. 84. Beto Santana 85 assim, as coisas aconteciam ao contrário. Parecia que eu estava sempre na contramão de tudo, detestava morar ali, eu tinha um espirito inquieto, gostava de estar em movimento e naquela pequena cidade do interior nada acontecia. Tudo era calmo demais para mim, e todos os anos eu esperava ansioso pelas férias para visitar minha avó e passar uns dias na cidade grande. Eu era um adolescente normal como todos na cidade, estudava na única escola que tinha por ali, aos domingos frequentava a igreja, não que eu gostasse daquilo, mas tinha que ir para agradar meus pais. Aquilo tudo era tedioso, o tempo parou naquele lugar e nada de novo acontecia e todo mundo se conhecia. Na praça central havia uma igreja, uma escola, a prefeitura e o coreto. As pessoas se reuniam por ali nos fins de semana para se distrair e era a única opção de lazer, eu preferia ficar em casa lendo meus livros ou inventando coisas, eu adorava misturar trecos e criar novas coisas, tinha uma caixa cheia de esquisitices na garage do meu pai. Eu vivia em um mundo a parte, um estado precoce de misantropia. Tive meus namoros de infância, mas nada sério, eu sai com umas duas meninas da minha sala na escola, não era o cara mais popular por ali, não era atlético e nunca praticava esportes, a biblioteca era mais atrativa. Eu não tinha muitos amigos e não fazia questão em tê-los.
  85. 85. Mayumi Mia Lana 86 Não queria criar laços afetivos porque quando chegasse a hora eu iria apenas partir sem olhar para trás. O tempo passou e eu já estava com 18 anos, era hora de descobrir meu futuro, eu queria fazer faculdade e morar em São Paulo. Mas não seria uma tarefa fácil pra mim, minha mãe não me deixaria sair de casa sem algo arranjado na cidade, eu precisaria de um emprego e um lugar para morar. De imediato pensei em minha avó, ela morava no centro de São Paulo em um bairro tradicional da cidade, a Vila Pompéia. Pra mim seria perfeito e ela estava aninada com a ideia, minha avó gostava da minha presença por ali nas férias escolares e acho que isto fazia um bem para nós dois. Estava decidido, eu iria morar com ela. Agora faltava a parte mais difícil, arrumar um emprego, alguma ocupação, minha mãe não gostava da ideia de me ver morando de favor na casa da minha avó, se eu quisesse ir teria que ter meios para me sustentar, afinal o custo de vida de um estudante em São Paulo é caro. Eu não poderia simplesmente juntar minhas coisas e me mudar para a cidade, precisava de um plano e precisava rápido. Era dezembro, as aulas haviam terminado e aquela cidade e todas aquelas coisas já faziam parte do meu passado, eu já estava com a cabeça em outro lugar, meus pensamentos voavam longe. Um amigo me ligou perguntando por que não compareci à formatura, eu não sabia explicar e até minha família ficou surpresa, a
  86. 86. Beto Santana 87 verdade é que eu simplesmente esqueci a formatura e realmente não me importava. Eu só queria estar o mais longe dali. E estava muito ocupado com meu plano de fuga. Na verdade as coisas não estavam tão bem para mim. Não seria fácil encontrar um emprego de imediato e não conhecia ninguém em São Paulo que pudesse me ajudar. E convenhamos que a vida de um garoto de 18 anos na cidade grande não deve ser fácil. Eu nunca trabalhei na vida, não tinha experiência e provavelmente só arrumaria emprego de Office-boy ou algo assim. Já era noite na cidadezinha do interior e como sempre não havia nada a se fazer, terminei o jantar e liguei a TV esperando passar algum filme engraçado que me fizesse esquecer um pouco a fixação de sumir daquele lugar. Por coincidência estava passando Alma Corsária, um filme que eu adorava, feito por um diretor radicado e apaixonado pela cidade. As coisas aos poucos se encaixavam e aquele filme do Carlos Reichenbach só me fez perder mais uma noite de sono. Eu sonhei acordado com a cidade. Acordei tarde no dia seguinte e estava decidido a fazer algo produtivo, resolvi caminhar pela cidadezinha e planejar minhas férias definitivas com minha avó. Comprei um jornal de empregos na banquinha ao lado da padaria e por ali mesmo tomei um café enquanto folhava as oportunidades de emprego. Para todas as
  87. 87. Mayumi Mia Lana 88 vagas exigiam experiência em carteira e meus planos desciam pelo ralo. Eu já estava ficando de mau humor quando o balconista da padaria perguntou: - Vai prestar concurso? - Que concurso? Eu respondia com outra pergunta. - Ué, não tá sabendo? – O concurso dos correios. Respondeu o balconista. Era tão óbvio, estava ali na minha frente o tempo todo, era a minha oportunidade, as vagas de carteiro não exigiam experiência, apenas ser maior de idade e ter ensino médio completo. Era tudo que eu precisava. - Estou pensando ainda - respondi e paguei a conta. No dia seguinte eu já estava inscrito no concurso e me preparava para uma jornada de estudos, eu precisava ser aprovado, eram vagas de carteiro, mas não me importava. Precisava de uma ocupação na cidade e isto seria temporário, com o tempo eu começaria a faculdade e me estabeleceria financeiramente em um emprego melhor, este era o plano.
  88. 88. Beto Santana 89 A Cidade Grande São nove da manhã de uma terça-feira ensolarada, é verão e o dia já começa quente e só fica pior até a hora do almoço. Pra quem trabalha na rua como eu é como um inferno escaldante, o asfalto quente, a roupa pesada, o vento morno e todo mundo com a lingua de fora. A cidade parece uma grande cratera de um vulcão quase em erupição. Ser carteiro não é fácil por aqui, você anda o dia inteiro, as mesmas ruas, os mesmos endereços e as mesmas pessoas. Todo mundo já te conhece, você se transforma em uma espécie de figurinha carimbada, uma piada pronta. Ser carteiro é quase como ser lixeiro por aqui. Os uniformes são parecidos e o valor que as pessoas te dão é praticamente o mesmo. Ninguém olha diretamente na sua cara. As vezes soltam os cachorros em cima de você, elas sempre esperam boas noticias mas nós sempre trazemos contas e cobranças. Esta é a nossa função, estragar o bom humor das pessoas logo cedo com uma noticia ruim. Parece engraçado, mas não é. Ninguém gosta de ser o portador de más noticias. Eu deveria estar acostumado, já faz alguns anos que sou carteiro. Tudo começou com um sonho de trabalhar e estudar na cidade grande e com o tempo me estabelecer, mas o tempo passou e ainda estou aqui andando pelas ruas levando as boas e más niticias. Eu já devia ter saido desta, mas algo me puxa para baixo, a cidade me engoliu. Nesse grande coração
  89. 89. Mayumi Mia Lana 90 pulsante que é São Paulo eu sou apenas mais um no fluxo de gente que vai e vem na rota do capitalismo canibal, as pessoas se devoram por um pedaço de carne nobre ou um carro bacana no final do ano. Aqui quase ninguém faz o que gosta, todos nós apenas sobrevivêmos como podemos, o que a cidade nos dá ela nos tira, o luxo e a luxuria tem um preço. Para sobreviver aqui é preciso vender a alma. Eu não deveria estar falando assim, mas hoje está muito quente e as pessoas reclamam de tudo no calor, é um ciclo vicioso e reclamamos sempre. Mas hoje é um dia especial, já faz duas semanas desde aquele encontro com Mia na Augusta. Passei algumas vezes na República mas ela não estava por lá, não sei se por coincidencia ou muito azar, talvez ela esteja muito ocupada. Eu me lembro de ve-la sempre por lá antes de nos conhecermos mas agora ela sumiu, talvez tenha se assustado com minha abordagem incomum. Ultimamente não tenho feito nada certo mesmo, mas de qualquer maneira hoje depois do expediente passarei de novo na praça, apesar do calor escaldante estou tendo um bom pressentimento. Cheguei em casa as sete da noite como de costume, eu precisava de um banho gelado pra lavar aquele sal do corpo, não passei filtro solar hoje e estou muito queimado de sol e a pele esta ardendo. - Vovó, preciso daquele seu creme hidratante para a pele, hoje foi um dia daqueles.

×