A história ilustrada do cristianismo 7

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A história ilustrada do cristianismo 7

  1. 1. E até aos confins do terra: uma história ilustrada do cristianismo A era dos conquistadores volume 7
  2. 2. E até aos confins do terra: uma história ilustrada do cristianismo l/A era dos mártires 2/ Aera dos gigantes 3/ Aera das trevas 4/ Aera dos altos ideais 5/ Aera dos sonhos frustrados 6/ Aera dos reformadores 7 / Aera dos conquistadores 8/ Aera dos dogmas e das dúvidas 9/ Aera dos novos horizontes 10/ Aera inconclusa
  3. 3. Justo l. González E até aos confins da terra: uma história ilustrada do cristianismo A era dos conquistadores volume 7 Tradução Itamír Neves de Souza edições vida nova
  4. 4. e 1994 de Justo L. González Título do original: Y hasta lo último de la tierra: Una Historia Ilustrada dei Cristianismo Tomo 7 - La Era de los Conquistadores 1~edição: 1983 Reimpressões: 1986, 1990, 1995 Publicado no Brasil com a devida autorização e com todos os direitos reservados por SOCIEDADE RELIGIOSA EDIÇÕES VIDA NOVA, Caixa Postal 21486, São Paulo, SP. 04698-970 Proibida a reprodução por quaisquer meios (mecânicos, eletrônicos, xerográficos, fotográficos, gravação, estocagem em banco de dados, etc.). Permitida a reprodução parcial somente em citações breves em obras, críticas ou resenhas, com indicação de fonte. Capa: O descobrimento da América por Cristóvão Colombo. A óleo, 1959. ADAGP, Paris, 1980. Usado com permissão. Printed in Brazil / Impresso no Brasil Dados internacionais de catalogação na publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, sP, Brasil) González, Justo L. E até aos confins da Terra: uma história ilustrada do Cristianismo I Justo L. González: - São Paulo: Vida Nova, 1995. Várias tradutores. Título original: Y hasta lo último de la tierra: una historia ilustrada dei cristianismo. Conteúdo: v. I. A era dos mártires - v. 2. A era dos gigantes - v. 3. A era das trevas - v. 4. A era dos altos ideais - v. 5. A era dos sonhos frustrados - v. 6. A era dos reformadores - v. 7. A era dos conquistadores - v. 8. A era dos dogmas e das dúvidas - v. 9. A era dos novos horizontes - v. 10. A era inconclusa. ISBN 85-275-0215-1 (obra completa) I. Igreja - História I. Título 95-2793 CDD-270 Índices para catálogo sistemático I. Cristianismo : História da Igreja 270
  5. 5. Dedicatória À memória do Doutor Ramon Vifias, meu primeiro professor de história eclesiástica.
  6. 6. A era dos conquistadores - 7 índice Lista de ilustrações 9 Cronologia 11 I. Isabel, a Católica 13 Herança incerta 15 O trono se afiança..................................... 23 A guerra de Granada................................. 28 II. Um novo mundo.............................................. 32 O empreendimento de Colombo............... 33 A importância do empreendimento de Colombo..................................................... 43 III. A justificação do ernpreendlmento. 50 As bulas papais.......................................... 51 O protesto: Frei Bartolomeu de Las Casas 57 Francisco de Vitória................................... 61 IV. O empreendimento antilhano 66 Colonização de A Espanhola.................... 66 Porto Rico.................................................. 71 Cuba 73 Os escravos negros 74 V. A serpente emplumada...... 76 Primeiros encontros com os índios........... 79 Tenochtitlán 83 Os Doze Apóstolos.................................... 87 Frei Juan de Zumárraga 89 A Virgem de Guadalupe 92 Novos Horizontes... 95 VI. Castela do Ouro............................................... 102 Vasco Núfiez de Balboa 102 Castela do Ouro 106 Em direção à Centro-América 107
  7. 7. 8 - A era dos conquistadores VII. Nova Granada :....................................... 110 Santa Marta................................................ 110 Venezuela................................................... 112 Cartagena e Bogotá................................... 114 O apostolado entre os índios: São Luís Beltrão........................................................ 116 O apóstolo dos negros: Pedro Claver i.L.; 119 VIII. Os filhos do Sol............................................... 125 O Tahuantínsuyu 126 Francisco Pizarro 132 Resistência e guerra civil...... 141 O vice-reinado do Peru 147 A obra missionária 149 Por terras de Collasuyu 154 IX. A Flórida............................................................ 159 O Desafio francês 161 O empreendimento espanhol 162 X. O movi mento da Prata..................................... 165 Assunção.................................................... 166 Tucumán 166 Buenos Aires 167 As missões do Paraguai 168 XI. Os portugueses na África................................ 175 O Congo 178 Angola 180 Moçambique 181 XII. Em direção ao nascer do sol.. 184 São Francisco Xavier................................. 185 A questão da acomodação.. 190 XIII. O Brasil 197 As capitanias 199 A colônia real........................................ 201 Villegagnon e os primeiros protestantes... 204 A triste sorte dos índios 207 XIV. A cruz e a espada............................................ 210
  8. 8. 1.: 2. 3. 4. 5. 6. 7. 8. 9. 10. 11. 12. 13. 14. 15. 16. 17. 18. 19. 20-21. 22. 23. 24. 25. 26. 27. 28. 29. 30-33. 34. 35. 36. 37. 38. A era dos conquistadores - 9 Lista de Ilustrações Madrigal das Altas Torres . Henrique IV ,.""" , ,.'" ," Castelo de Arévalo ""." "." ". ",., ' Castelo de dom Beltrão da Cova " .." ". Os touros de Guisando " " . Bodas de Isabel e Fernando" " . Alcaçar de Segóvia ' ." " .." ". Poste de enforcar." " " "." ". Cristo das Batalhas" " "" " ..", .. Isabel e Colombo em Santa Fé ""." ..,.. Desembarque de Colombo." "., . Antigo mapa.. "" ,.." ..", .,..", "., ".', ,'o , •• , A Alhambra " ..""." " "." " " Enterro de Isabel "."" " "" " .., . São Tiago lutando contra os índios . Frei Bartolomeu de Las Casas "." " " Estátua de Francisco de Vitória " " . Vista de São João "" .." .."""""" " " Pirâmide de Chichén Itzá ..." ..""" " ..,., Antigos monumentos mexicanos " " " Dona Marina ...,.""",,, ..,,.,, .,.",." ,.." A serpente emplumada. " .... , . O fim de uma era "" , .. " ..,....." .."' . O começo de outra "".,,, ' , ,." .. " " Cortés na batalha de Otumba " .. " . Sacrifícios humanos" ", " ' , ' " A Virgem de Guadalupe " " " ". Vista aérea de uma redução ."", ." " " As missões franciscanas do Texas ..".".", Mapa: Castela do Ouro . Balboa toma posse do Mar do Sul " . Mapa: Nova Granada " " "." . Rituais fúnebres em Nova Granada.", ..,.. Mapa: O Tahuantinsuyu " " .." ' 14 16 17 18 20 22 23 26 29 35 36 37 40 44 52 57 61 72 78 77 81 82 82 85 86 97- 101 10 111 113 127
  9. 9. 10 - A era dos conquistadores 39. 40-41. 42. 43. 44. 45-47. 48. 49. 50. 51. 52. 53. 54. 55-56. 57. 58. 59. 60. 61. 62. 63. 64. 65. 66. 67. 68. 69. 70-71. Festa religiosa........... . 128 Ruínas de Tiahuanaco . 130 O culto ao Sol.... 131 Pizarro na Ilha do Galo.................... 133 Muro no Cuzco . 135 Ruínas de Machu Picchu 138-139 Suplício de Atahualpa.... .. 140 Os cavalos dos conquistadores... 143 Estátua eqüestre de Pizarro 144 Blasco Núriez Vela diante de Carlos V 146 Porta no Cuzco 148 Toríbio Alfonso de Mogrovejo................... 150 Santa Rosa de Lima .......................... ..... 152 Restos das missões bolivianas , 155-156 Dom João Ponce de Leão.............. 160 Edifício de apartamentos numa missão do Texas . Crucifixo paraguaio . Mapa: Os portugueses na África e no Oriente . Vasco da Gama . O navio capitão de Vasco da Gama . Antigo mapa da África . Morte de São Francisco Xavier . Mateus Ricci . O mapa de Ricci . Pequim nos tempos de Ricci . O culto aos antepassados . A cruz e a espada . São Pedro e São Paulo no Altiplano 170 171 174 176 177 182 188 191 192 194 195 209 boliviano.................................................... 213
  10. 10. A era dos conquistadores - 77 Cronologia o leitor notará que a "era dos conquistadores" correspon- de cronologicamente à "era dos reformadores". Portanto, na presente cronologia nos limitamos a apontar uma série de fatos que se relacionam com o tema deste volume, e rogamos ao leitor que a utilize juntamente com a que aparece no princí- pio do volume anterior, onde encontrará datas e acontecimen- tos paralelos. 1460 1474 1479 1492 1497-98 1500 1504 1508-11 1509-13 1510 1511-15 1513 1516 1519 1520 1521 1521 1522-23 1524-28 1527-46 Morre Henrique, o Navegante Isabel rainha de Castela Fernando rei de Aragão Rendição de Granada, Colombo na América Vasco da Gama viaja para as fndias Pedro Álvares Cabral descobre o Brasil Morre Isabel Conquista de Porto Rico Alfonso de Ojeda e Diego de Nicuesa em terra firme Os portugueses se estabelecem em Goa Conquista de Cuba Balboa chega ao Mar do Sul (Oceano Pacífico) Pedrarias Dávila governador de Castela do Ouro Morre Fernando Cortés entra pacificamente em Tenochtitlán A "noite triste" Viagem de Magalhães e o Cano Tentativa de colonização pacífica em Cumaná, por Las Casas Expedição de Ponce de Leão a Flórida Sítio e tomada de Tenochtitlán Conquista de Nicarágua (Gil Gonzalez Dávila e Francisco Hernandez de Córdoba) Pizarro chega a Tumbes e regressa ao Panamá Conquista de Yucatán
  11. 11. 12 - A era dos conquistadores 1528 1529 1532 1533 1534-35 1535 1536-38 1536 1538 1540-53 1541 1542 1542-44 1546-48 1552 1555 1557 1558-72 1562 1565 1566 1581 1582 1601 1606 1610 1617 1628 1639 1654 1780 Expedição de Pánfilo de Narváez a Flórida Expedição dos Welsers a Venezuela Captura de Atahualpa Relações de Francisco de Vitória Morte de Atahualpa Expedição de Pedro de Alvarado a Quito Fundação de Lima Gonzalo Jimenez de Quesada conquista o reino chibcha na Colômbia Fundação de Buenos Aires Alvar Núnês Cabeza de Vaca chega ao México, depois de longo cativeiro Morte de Almagro Pedro de Valdívia no Chile Hernando de Soto chega ao Mississipi Vice-Rei nado do Peru: Blasco Núnes Vela Alvar Núfies Cabeça de Vaca em Assunção Gonzalo Pizarro dono do Peru . Morte de Francisco Xavier Villegagnon chega ao Brasil Os portugueses se estabelecem em Macau Mem de Sá no Brasil Jean Ribaut na Flórida Matança de franceses na Flórida Morre Bartolomeu de Las Casas Morre Luís Beltrão . Mateus Ricci em Macau Ricci em Pequim Morre Toríbio Alfonso de Mogrovejo Morre Francisco Solano Morre Santa Rosa de Lima Morre Roque Gonzales Morre Martín de Porres Morre Pedro Claver Rebelião de Tupac Amaru
  12. 12. Isabel, a Católica - 13 I Isabel, a católica ... que nisso ponham muita diligência, e não consistam nem dêem lugar a que os índividuos vizinhos e moradores das ditas fndias e terra firme, ganhas e por ganhar, recebem agravo em suas pessoas e bens; e assim ordeno que sejam bem e justamente tratados. Testamento de Isabel, a Católica. Isabel, a Católica, a rainha cuja política religiosa nos serviu como ponto de partida no volume anterior, encabeça também o presente. Este procedimento serve para destacar dois fatos fundamentais. O primeiro é que, na questão do tempo, a "era dos reformadores" coincidiu com a "era dos conquistadores". Enquanto Lutero se ocupava em dar os pri- meiros passos que levariam à reforma da igreja, Cortés e Pizarro sonhavam em conquistar glórias e impérios. O segun- do fato é que, quando abandonamos a perspectiva germânica ou anglocêntrica que tem dominado boa parte da história eclesiástica, o papel da Espanha na história do século XVI se agiganta. E, como fundadora dessa S:spanha, se vislumbra sempre a figura destacada de Isabel, a Católica.
  13. 13. 14, A era tios conquistadores o castelo de Madrígal das Altas Torres, onde nasceu Isabel.
  14. 14. Isabel, a Cetolice - 15 Herança incerta Quando Isabel nasceu, no Madrigal das Altas Torres, em 22 de abri I de 1451, não se esperava que herdasse o trono de Castela. Tal herança correspondia a seu meio irmão Henrique, nascido da primeira esposa de João II, dona Maria de Aragão, vinte e cinco anos antes. Em fins de 1453, a mãe de Isabel, dona Isabel de Portugal, dava a João outro filho varão, Alfon- so, e com isso parecia certo que o cetro de Castela nunca chegaria às mãos da infanta Isabel. Oito meses depois do nascimento de Alfonso, morreu João II, e o trono passou, sem problema algum, para seu filho mais velho, Henrique IV. Entretanto, este não tinha dons de governante, e logo apareceram os descontentamentos. O no- vo rei empreendeu repetidas campanhas contra os mouros de Granada, estimulado por aqueles que ambicionavam glória e despojos de guerra. Porém todas suas campanhas não passa- ram de meras incursões nos territórios mouros, onde os solda- dos se dedicavam a destruir colheitas do inimigo. Desta manei- ra o rei esperava debilitar os qranadinos, Porém o que na verdade conseguia era granjear a inimizade dos guerreiros castelhanos, que viam nele um príncipe titubeante. Ao mesmo tempo, outros se queixavam de que a justiça do rei se vendia por dinheiro, e que o monarca, que se mostrava misericordio- so para com os mouros, era cruel com os castelhanos que criassem obstáculos para seus desejos. Entre eles se contava sua madrasta dona Isabel de Portugal, e os dois filhos desta, Isabel E1 Alfonso. O ódio do rei fêz recolher Dona Isabel no castelo de Arévalo, onde aquela que tinha sido até pouco tempo antes rainha de Castela, perdeu a razão. Foi em tais condições, odiada e afastada da corte por seu irmão, e em companhia de sua mãe louca, e de seu pequeno irmão, que a futura rainha Isabel passou os primeiros anos de sua vida. Em 1460,quando tinha nove anos, foi afastada à força de sua mãe e levada de novo para a corte, onde a colocaram sob a custódia dos capitães do rei. Ao que parece, a razão que levou Henrique a tomar tal decisão foi que se apercebeu das tramas que come-
  15. 15. 16 - A era dos conquistadores o trono passou sem distúrbio algum, para o filho mais velho de João II, Henrique IV. çavam a formar ao redor de seus meio-irmãos, e que iam se avultando porque Henrique não tinha filhos que pudessem herdar o trono. Quando era muito jovem, e antes de morrer seu pai Henri- que tinha-se casado com a princesa Branca de Navarra. Logo correu a notícia de que o príncipe era incapaz de consumar o
  16. 16. Isabel, a Católica - 17 o ódio do rei fêz recolher dona Isabel no castelo de Arévalo. matrimônio e posteriormente, quando por motivos de estado decidiu dissolver a união, as autoridades castelhanas obtive- ram do papa a sua anulação. A razão que então se deu, e que tornou-se importantíssima para a história posterior da Espa- nha era que, por "algum feitiço", Henrique era incapaz de unir-se a sua esposa. A partir disso seus inimigos começaram a chamá-lo de "Henrique, o Impotente", e por esse nome ficou conhecido na história. Enquanto isso, o rei necessitava providenciar um suces- sor para o trono, e por isso contraiu um novo casamento com Joana de p;ortugal, irmã do rei desse país. Até o dia de hoje os historiadores não concordam sobre o fato de ter-se consuma- do ou não aquele casamento. Os cronistas da época se contra- dizem mutuamente, de acordo com os seus interesses partidá- rios. Uns dizem que a impotência do rei com sua primeira esposa não se manifestou com a segunda, e apontam para o fato de que depois Henrique teve várias amantes. Outros afir- mam o contrário, dizem - o que já era comentado enquanto Henrique estava vivo - que tais suspeitas amantes não foram verdadeiras, senão que simplesmente se prestaram a dissimu- lar a incapacidade do soberano. Estes mesmos cronistas
  17. 17. 18 - A era dos conquistadores Estado atual de um dos castelos que o rei doou a Dom Beltrão da Cova. Assim passa a glória deste mundo! acrescentam ainda que Henrique, diante da necessidade de prover um herdeiro para o trono, procurava amantes para sua mulher. Foi a presença de um desses pretensos amantes que provocou um escândalo e, por fim, a guerrà civil. Dom Beltrão da Cova, a quem o rei cumulara de honras, costumava visitar a rainha quando o seu esposo estava ausente. Tais visitas deram
  18. 18. Isabel, a Católica - 19 lugar a conjecturas, que os inimigos do rei e de Dom Beltrão não deixaram sem explorar. Quando finalmente a rainha deu a luz uma menina, a infanta Dona Joana de Castela, não faltaram aqueles que diziam que a pretensa herdeira do rei, era na verdade a filha de Dom Beltrão. Contudo, a menina foi declarada herdeira da coroa e os poderosos do reino lhe juraram obediência. Em seu batismo, Isabel a futura rainha de Castela, foi sua madrinha. A oposição ao rei ia crescendo, e com ela o partido daque- les que, sinceramente ou por conveniência, chamavam a her- deira de "a Beltraneja". O marquês de Villena, antigo favorito do rei que via-se eclipsado por Dom Beltrão da Cova, uniu forças com seu tio Alonso Carrilo, arcebispo de Toledo, e ambos promoveram uma rebelião na qual vários dos mais poderosos nobres e prelados do reino se atreveram a exigirdo rei a declaração de sua própria desonra, fazendo seu herdeiro o seu meio irmão Alfonso e negando a legitimidade da "a Beltraneja". Contra o conselho dos seus achegados, que estimula- vam a pegar as armas contra os rebeldes, Henrique capitulou. Mesmo sem declarar explicitamente que dona Joana não era sua filha, nomeou Alfonso herdeiro da coroa. Dom Beltrão teve que ausentar-se da corte, e o marquês de Vilhena recebeu a custódia do jovem herdeiro. Mas isso não satisfez os rebel- des, que estavam empenhados em despojar a coroa de toda autoridade, e nem ao rei que sentia-se humilhado. Crendo contar com o apoio do arcebispo Carrillo, Henrique marchou contra os rebeldes. Sua desilusão foi grande quando desco- briu que Carrillo e os rebeldes tinham-se organizado para coroar Alfonso, e declará-lo deposto, ele, Henrique. Assim os rebeldes marcharam para reunirem-se em Ávila, e enquanto isso o rei fugia para Salamanca. Alfonso, que na ocasião contava com pouco mais de onze anos, se deixou levar pelas promessas dos conspiradores e aceitou o título real, contra os conselhos de sua irmã mais velha Isabel, que lhe disse que um trono fundado na usurpação necessitava de bases mais sóli- das. Porém Alfonso não teve tempo para vercumprida a profe- cia de sua irmã, pois morreu pouco depois de coroado, dei- xando acéfalo o partido rebelde.
  19. 19. 20 - A era dos conquistadores Alonso Carrillo correu então ao convento cisterciense de Santa Ana, em Ávila, onde residia Isabel, para oferecer-lhe a coroa que antes tinha cedido a seu irmão. Porém a princesa se mostrou inflexível, argumentando com o arcebispo de igual maneira como fizera antes com seu irmão: "Se eu ganhar o trono rebelando-me contra ele (Henrique), como poderei con- denar amanhã alguém que porventura me desobedecer?" Mas finalmente, junto aos velhos Touros de Guisando, chegou-se a um acordo entre as partes em luta. Segundo este acordo, os rebeldes reconheciam Henrique como soberano, e este em troca disso nomeava Isabel como sua sucessora. Deste modo o partido dos rebeldes, carentes de uma base sobre a qual colocassem a coroa da rebeldia, ganharam pelo menos a humilhação do rei. .Isabel aceitou este acordo porque estava convencida de que dona Joana, a Beltraneja, levava com justiça esse "apeli- do", e não era portanto a legítima herdeira do trono. Assim, quem nunca esperou ocupar o trono de Castela, e passou seus primeiros anos em meio a penú riase solidão, foi transfor- mada na legítima herdeira de seu meio irmão Henrique IV. Junto aos velhos Touros de Guisando chegou-se a um acordo entre as . partes em luta.
  20. 20. Isabel. a Católica - 27 Henrique não ficou contente com esse acerto que, afinal de contas, era uma mancha em sua honra. Ao reunirem-se as cortes do reino, elas se negaram a ratificar o acordo dos Touros de Guisando. E os partidários de Henrique se dedica- ram a alijar Isabel procurando casá-Ia com algum potentado estrangeiro, enquanto fortaleciam sua posição oferecendo a mão da Beltraneja ao rei de Portugal. Entretanto Isabel não estava disposta a deixar que lhe arrebatassem a coroa que agora, depois da morte de Alfonso, lhe pertencia legitimamente. Depois de fazer suas próprias investigações, decidiu casar-se com o príncipe herdeiro de Aragão, dom Fernando, que vinha bem recomendado por vários dos conselheiros da princesa. Quando Henrique inteirou-se das gestões independentes que Isabel levava a efeito com respeito ao seu casamento, ordenou que fosse encarcerada. Porém o povo de acanha se amotinou e impe- diu que se cumprisse a ordem do rei. Dali Isabel passou ao Madrigal das Altas Torres, e depois a Valladolid, onde se sentia segura por contar com numerosos simpatizantes. Enquanto isso, em Aragão, os agentes do rei de Castela estavam vigiando Fernando, para que não fosse até Castela casar-se com Isabel ou incitar uma rebelião. Mas o príncipe conseguiu burlar a vigilância dos castelhanos e, enquanto supostamente dormia, escapou. Assim, disfarçado de tropeiro e com uma tropa de mulas que levava escondidos em grossei- ros fardos os trajes necessários para o casamento, chegou a Valladolid, onde o esperava sua prometida. A única dificuldade que se interpunha então era o fato de que Fernando e Isabel eram primos em segundo grau, e por is- so era necessário uma dispensa papal antes da celebração do matrimônio. a papa Paulo" se negava a dar tal dispensa, solicitada repetidamente pelo rei de Aragão, dizendo que o rei de Castela não estava de acordo com o casamento projetado. Porém ao chegar o momento do casamento o arcebispo Carri- lo apresentou uma suposta dispensa papal, e o casamento se realizou. Mais tarde os historiadores chegaram à conclusão de que tal dispensa era espúria, mesmo que, no parecer de Isa- bel, o arcebispo não fizera tal arranjo. Em todo caso, quando os ventos políticos sopraram decididamente a favor de Isabel
  21. 21. 22 - A era dos conquistadores o casamento teve lugar em Val/ado/id. e Fernando, Roma confirmou a validade do casamento. Enquanto isso, Henrique declarou guerra contra Aragão, alegando que o reino vizinho tinha-se intrometido nos assun- tos internos de Castela. Porém, o papado estava interessado em fomentar a unidade e a harmonia entre os príncipes cris- tãos, porque a ameaça turca se fazia presente na Europa. Rodrigo Bórgia, o futuro Alexandre VI, foi enviado a Espanha como delegado do pontífice. As gestões do delegado tiveram bom êxito, e Henrique consentiu em fazer as pazes com os aragoneses, aceitar o matrimônio entre Isabel e Fernando, e declarar uma vez mais que sua meia irmã era a legítima herdei- ra do trono. As diversas partes que aceitaram este acordo esperavam novas tensões e lutas. Porém pouco depois dos fatos que acabamos de relatar, Henrique IV morreu inesperadamente, e no dia seguinte, 12 de dezembro de 1474, Isabel foi coroada, em Segóvia, rainha de Castela.
  22. 22. Isabel. a Católica - 23 Isabel morava emSeçovie quando recebeu notícias da morte de seu irmão. o trono se afiança A urgência com que Isabel foi coroada destaca a incerte- za de sua posição. Embora Fernando estivesse fora de Castela, combatendo junto com seu pai no Rosellon, Isabel e seus conselheiros decidiram não aguardar seu retorno. E o que sucedeu foi que o partido da chamada "Beltraneja" que não havia desparecido de todo se movimentou. Tão logo teve notícias do acontecido, o rei de Portugal, que tinha recebido
  23. 23. 24 - A era dos conquistadores em promessa a mão dessa infortunada princesa, reclamou para si o título real em nome de sua futura esposa e invadiu as terras castelhanas. Fernando acudiu pressurosamente em defesa da herança de sua esposa, enquanto essa, apesar de encontrar-se no meio de sua segunda gravidez (pouco antes tinha dado a luz a sua primogênita, a quem chamou Isabel), dedicou-se a percorrer o país recrutando um improvisado exército. O magnetismo pes- soal da rainha se manifestou então, e logo Fernando pode opór-se ao invasor diante de um exército de quarenta e dois mil homens. Os dois exércitos se enfrentaram nos campos de Touro, e a batalha ficou indecisa. Porém, enquanto o rei de Portugal se dedicava a reorganizar suas tropas, Fernando enviou correios a todas as cidades de Castela, e a vários reinos estrangeiros, dando-lhes a notícia de uma grande vitória, na qual as tropas portuguesas tinham sido aniquiladas. Diante de tais notícias, o partido da Beltraneja se dissolveu, e os portugueses foram forçados a regressar ao seu reino. Entretanto, como conse- qüência de suas longas cavalgadas em defesa do reino, a rainha perdeu o bebê de sua segunda gravidez. Após todas essas vicissitudes, Isabel ficou dona dos reinos de Castela e Leão, que antes tinham pertencido a seu pai João II e a seu meio irmão Henrique IV. Porém aqueles reinos se encontravam num estado tremendamente grave. Os grandes nobres e prelados tinham-se aproveitado da debilidade dos monarcas anteriores para encherem-se de poder. Eera a eles a quem Isabel devia, pelo menos em parte, o poder que agora possuía. Porém a idéia de realeza que Isabel tinha não lhe permitia acomodar-se às pretensões dos poderosos. Além dis- so a administração pública, depois de longos anos de incerte- zas, estava no mais completo abandono. A administração da justiça, que Henrique tinha confiado a subalternos ineptos e indignos, deixava muito a desejar. Os campos dentre as mon- tanhas estavam nas mãos de pequenos bandos armados, que viviam do saque. Porém o problema mais urgente, porque impossibilitava todo plano de governo por parte da rainha, era a atitude turbulenta dos magnatas, que durante o reinado de
  24. 24. Isabel, a Católica - 25 Henrique IV tinham-se acostumado a agir conforme seus ca- prichos, e a impôr suas vontades sobre a do rei. A atitude de Isabel diante dos poderosos se manifestou de imediato. Logo que surgia a mais tênue fagulha de rebelião, se apresentava a rainha, combinando a autoridade de sua posição e pessoa com a das armas que a acompanhavam, e acabava com a rebelião. Ao mesmo tempo que perdoava os que tinham sido enganados pelos grandes, castigava os che- fes da revolta, para não parecer débil como seu falecido irmão. Porém, geralmente seus castigos se limitavam a tirar os sedi- ciosos de suas posses, e quando muito, punia-os com o desterro. Assim foi a rainha afiançando seu poder por todos seus territórios, desde a Galícia ao norte até Andaluzia ao sul. As ordens militares, nascidas nos tempos das constantes guerras contra os mouros, eram outra ameaça ao poder real. As três mais importantes eram as de São Tiago, a de Alcântara, e a de Calatrava..Para dar uma idéia do poder de tais ordens, basta dizer-se que a de São Tiago contava com duas centenas de vilas e praças fortes, além das rendas de outras paróquias. Por várias décadas o cargo de grão-mestre de qualquer destas ordens tinha sido cobiçado por magnatas, e os que o alcan- çavam se atreviam a enfrentar o poder real. Quando o cargo de grão-mestre de São Tiago ficou vago, a rainha pediu ao papa que lhe concedesse autoridade para nomear a pessoa que o ocuparia. Um nobre, dom Alonso de Cardenas, tratou de adiantar-se aos desígnios de Isabel convo- cando uma eleição urgente, que devia ter lugar em Uclés. Porém Isabel ali se apresentou inesperadamente e ordenou que a eleição fosse suspensa até que chegasse a resposta do papa. Quando esta resposta chegou, a rainha num golpe mestre de habilidade política, nomeou grão mestre o próprio dom Alonso, deixando bem claro que lhe dava "graciosamente o que ele pretendia como. direito". A partir de então a grande ordem de São Tiago serviu de instrumento dócil nas mãos de Isabel. Este processo de sujeitar as ordens militares a coroa foi levado a um final feliz quando Fernando foi nomeado como o grão mestre de Alcântara em 1487, e de Calatrava em 1492.
  25. 25. 26 - A era dos conquistadores Quando em 1499, morreu dom Alonso de Cardenas, o rei foi feito também grão mestre da ordem de São Tiago. Um aspecto fundamental da política centralizadora de Isabel foi a reforma financeira. Até então eram muitos os que cobravam impostos de diversas classes, e só uma fração de tais impostos chegava à coroa. Com a finalidade de aumentar o poder do trono, e refrear o dos magnatas, era necessário estabelecer um sistema arrecadador que fizesse chegar os fundos às arcas reais. E foi isso que fêz Isabel. Seu principal colaborador neste campo, dom Alonso de Quintanilha, man- dou fazer um inventário de todas as riquezas do reino, que se compilaram em doze grossos volumes. Baseado nesse inven- tário se reformou o sistema de impostos, com tão bom êxito que nos oito anos de 1474 a 1482 as entradas para a coroa se multiplicaram quatorze vezes. E, graças as reformas implanta- Em postes como este, a Santa Irmandade fazia enforcar os malfeitores que capturava.
  26. 26. Isabel, a Católica - 27 das, isso foi conseguido sem aumentar as taxações sobre os trabalhadores e os necessitados. Por último, o trono de Castela se afiançou sobre a Santa Irmandade. Desde várias gerações anteriores, em diversas par- tes da Espanha, tinham-se organizado irmandades de defesa mútua. Porém estas tinham caído em desuso durante os reina- dos de João" e Henrique IV. E agora Isabel decidia dar nova vida a essa antiga instituição, se bem que colocando-a di reta- mente debaixo do poder real. Para por fim às rapinas e abusos que existiam por todas as partes, organizou-se uma força policial que recebeu o nome de "Santa Irmandade". Para esta força cada cem vizinhos devia contribuir com a manutenção de um homem a cavalo que estaria sempre pronto a perseguir os malfeitores. Além disso, a Santa Irmandade recebeu pode- res judiciais que lhe permitiam julgar e castigar os criminosos que capturasse. Tratava-se então de urna força militar perma- nente, de características populares, mas que servia tanto para limpar o país dos bandidos e outros criminosos, serviço esse prestado a coroa, como também servia para fortalecer sua política de limitar o poder dos magnatas. Posteriormente, a Santa Irmandade, conseguiu autoridade até para castigar os abusos dos poderosos. Assim, uma vez mais, a coroa se apoiou sobre as classes médias e baixas para liquidar com a alta nobreza e os prelados turbulentos. Enquanto isso, continuavam as dificuldades com Portu- gal, cujo rei, insistindo sempre em seu propósito de casar-se com dona Joana, "a Beltraneja", reclamava para si a coroa d Castela. A França, por sua parte, aproveitava as tensões que existiam na Península Ibérica para tratar de apoderar-se dos territórios vazios. Porém posteriormente, as tropas de Isabel e Fernando se impuseram em ambas as frentes, e liquidaram também os castelhanos que continuavam apoiando as preten- sões de Portugal e da "Beltraneja". Fernando se encontrava ausente em Aragão, tomando posse do trono de seu recém falecido pai quando Isabel conseguiu concluir a paz com Portugal. Unidas então as coroas de Castela e de Aragão, firmada a paz com a França e com Portugal, e assegurando o poder real dentro de Castela, ficou aberto o caminho para a mais aprecia-
  27. 27. 28 - A era dos conquistadores da ambição de Isabel: completar a reconquista mediante a tomada de Granada. A guerra de Granada Desde o ano 711, os mouros tinham estado presentes na Espanha. Mesmo que posteriormente os cristãos chegassem a crer que os sete séculos entre os anos de 711 e o de 1492, fossem uma longa guerra de reconquista contra o poderio mouro, o certo é que boa parte desse tempo passou sem que houvessem maiores conflitos entre os mouros e os cristãos, e que repetidamente se fizessem alianças políticas e militares entre eles, diante de algum atacante de uma ou outra região. Em todo caso, a obra da reconquista tinha ficado praticamente paralizada desde o século XIII, quando o rei Fernando III, o Santo tinha permitido que se estabelecesse, no extremo sul da Península, e como Vassalo de Castela, o reino mouro de Grana- da. A condição de vassalagem requeria que Granada pagasse tributos a Castela. Porém com o correr dos anos, o reino de Granada foi fortalecendo suas fronteiras, enquanto o de Caste- la via-se envolvido na anarquia, e os tais impostos ou tributos não foram mais pagos. A existência do reino de Granada era um espinho na carne de Isabel, para quem a missão histórica de Castela requeria a conquista desse reino. Fernando, por sua parte, seguia a velha política aragonesa de estar mais interessado nos assuntos do Mediterrâneo que nos da Espanha. Assim, em certo sentido, o empreendimento da conquista de Granada foi um projeto isabelino e castelhano, se bem que Fernando to- mou nele parte ativíssima. Quando se sentiu suficientemente forte, Isabel tratou de fazer valer sua autoridade sobre Granada, exigindo o paga- mento dos tributos que esse reino devia à coroa de Castela. ~ de se supor que a hábil rainha sabia que os mouros granadinos negar-se-iam a pagar, e que isso provocaria a guerra. Com efeito, os granadinos responderam que em Granada não se dedicavam a lavrar ouro nem prata, mas sim a fabricar armas contra seus inimigos. Diz-se que ao receber notícia desta resposta Fernando exclamou: "Dessa Granada, eu arrancarei
  28. 28. Isabel, a Católica - 29 Conta-se que este "Cristo das Batalhas" acompanhava os reis católicos na guerra contra Granada, e que em certa ocasião, quando os cristãos rogavam a São Tiago que os ajudasse, ouviu-se este Cristo dizer: "Para que necessi- tais de São Tiago, quando me tendes a mim?"
  29. 29. 30 - A era dos conquistadores os grãos um a um!" Pouco depois, os mouros tomaram sur- preendentemente a praça de Zahara, com a qual deram come- ço as hostilidades. A partir daí (1481), e até 1492, Fernando e Isabel se dedi- caram, por assim dizer, a tomar os grãos de Granada um a um. Cada ano se levou a cabo uma campanha nas quais sitiaram e tomaram várias praças fortes dos mouros. Fernando dirigia os exércitos, enquanto Isabel, muito perto dos campos de batalha os encorajava com sua presença e se ocupava com seu susten- to. Foi em 1489, quando os gastos com a guerra exigiam medidas drásticas, que a rainha enviou suas jóias a Valência, em garantia de um empréstimo. Posteriormente se tem con- fundido este fato, dizendo-se erroneamente, que Isabel empe- nhou suas jóias para o empreendimento de Colombo. Por fim, em 1490, Fernando e Isabel consideraram-se prontos para sitiar a própria cidade de Granada. E com a finalidade de mostrar aos mouros que o cerco era permanente, e que não o levantariam antes da vitória, os castelhanos cons- truiram em frente a cidade mulçumana a vila de Santa Fé. No início, esta cidade militar foi feita com materiais provisórios; porém quando o fogo fêz presa dela os reis católicos ordena- ram que fosse reconstituída em alvenaria. Enquanto isso o reino de Granada passava por profundas dificuldades internas. Boabdil, seu último rei mouro, tinha conseguido essa posição mediante uma rebelião, e durante a maior parte do período de guerra contra os castelhanos houve também dissenções e até guerras entre os próprios mouros. Posteriormente, depois de firmar as Capitulações de Gra- nada, os reis católicos entraram triunfantes na cidade em 2 de janeiro de 1492. A reconquista havia terminado. Como destacamos no volume anterior desta História, as Capitulações de Granada garantiam aos mouros toda classe de direitos, que logo foram ab-rogados. Posteriormente os últimos mouriscos de Castela foram obrigados a receber o batismo e a adaptarem-se aos costumes dos cristãos. A rendição de Granada permitiu a rainha ocupar-se com um marinheiro genovês que desde algum tempo antes projeta- va uma arriscada viagem as fndias navegando, não para o leste como era de costume, mas sim para o oeste. Foi a cidade de
  30. 30. Isabel, a Católica - 31 Santa Fé, nos arredores de Granada, onde se firmaram as Capi- tulações de Santa Fé, que serviu de base para o empreendi- mento colombino.
  31. 31. 12 - A era dos conquistadores II Um novo mundo Eu te ordeno que, com todas as pessoas que tratarem contigo, trate-as com honras e trate-as bem, desde o maior até o menor, porque são povo de Deus nosso Senhor. Cristovão Colombo para seu filho Diego Apenas terminava a Espanha de ganhar sua unidade na- cional, graças ao casamento de Fernando e Isabel, e de alcan- çar a integridade territorial com a conquista de Granada, quan- do lhe foram oferecidos novos mundos para descobrir, conquistar, colonizar, e evangelizar. Poucos episódios na história humana são tão surpreendentes como a enorme ex- pansão espanhola do século XVI, sobretudo se tivermos em conta que uns poucos anos antes os reinos de Castela e Aragão estavam separados, que os mouros retinham o reino de Granada, e que a própria Castela se encontrava dividida pela discórdia das lutas sucessórias. Atribuir a Isabel toda a glória desse inesperado despertar espanhol seria cair no erro daqueles que crêem que a história é uma sucessão de perso- nagens heróicos, e não se apercebem dos muitos fatores que fazem possível a façanha do herói. Mas, mesmo levando isso em conta, não resta dúvida de que Isabel foi a personagem do momento, soube dar forma às circunstâncias que a rodeavam, fazendo possível o nascimento da Espanha moderna e do império espanhol.
  32. 32. Um Novo Mundo - 33 o empreendimento de Colombo Quase que ao mesmo tempo da rendição de Granada, apareceu na história um personagem de origem obscura e todavia muito discutido, que compartilharia com Isabel a gló- ria de fundar o império espanhol do além-mar. Cristóvão Co- lombo era de origem genovesa, ao que parece, filho de um penteador de lã, e que com vinte e cinco anos chegou a Portugal, onde começou a conseguir fortuna casando-se com dona Felipa Muniz, que pertencia a nobreza de Portugal, e cujo pai era governador da Madeira. Sobre o motivo e a maneira da chegada de Colombo a Portugal, os historiadores diferem, pois enquanto uns dizem que formava parte da tripulação de uma pequena frota geno- vesa que foi atacada pelos portugueses, e que foi feito prisio- neiro, outros sustentam que em realidade, era um pirata, ou pelo menos um corsário, e apontam que houve um corsário de nome Coulom que tomou parte ativa a favor da França e Portugal nas guerras que temos comentado anteriormente com relação ao direito da sucessão da Beltraneja. Se assim for, se explica o fato pelo qual Colombo foi tão pouco explícito com respeito a suas origens e carreiras anteriores. Em todo caso, Colombo conheceu em Portugal, vários navegantes e cartógrafos, e além disso teve oportunidade de navegar tanto para Madeira e Porto Santo como para a Guiné, na África. Posteriormente chegou a sua famosa con- clusão de que, se o mundo era redondo, como afirmavam tantos sábios, deveria ser possível chegar ao Oriente navegan- do constantemente para o Ocidente. Se esse foi seu projeto inicial, ou se a princípio pensava somente descobrir novas terras, inclusive as "Antilhas" que alguns cartógrafos coloca- vam a oeste do oceano, não está de todo claro. Ao que parece, o projeto de Colombo apresentado à corte portuguesa não consistia em buscar uma nova rota para as Indias, mas sim- plesmente em explorar o Atlântico ocidental. Morta sua esposa, sem esperança de que a coroa portu- guesa apoiasse se empreendimento, e carregado de dívidas; Colombo abandonou o país em secreto, e dirigiu-se ao sul da Espanha. Em Huelva vivia a irmã de sua falecida esposa, e
  33. 33. 34 - A era dos conquistadores possivelmente o futuro descobridor queria deixar com ela o seu pequeno filho Diego. Além disso alguns antigos escritores falam de um piloto de Huelva, Alonso Sanches, que tinha vislumbrado terras ao oeste quando seu navio foi arrastado nessa direção por uma tormenta. Em vários lugares de Andaluzia, e particularmente em La Rábida, Colombo encontrou ouvidos atentos e pessoas de prestígio dispostas a apadrinhar seu projeto na corte castelha- na. Visto que a corte residia em Córdoba, de onde se dirigiam os assuntos da guerra granadina, Colombo radicou-se nessa cidade. Os reis católicos não receberam com grande entusiasmo o projeto colombino. Submeteram-no a várias juntas de dou- tores, e o informe recebido não foi satisfatório. Ao que parece, além da questão geográfica de se o que Colombo projetava era possível, havia dúvidas acerca da legitimidade de tal em- preendimento. Em todo caso, foi dito ao futuro Almirante que, por causa da guerra de Granada, a coroa espanhola não estava em condições de adotar seu projeto. Em vista da continuação da guerra, Colombo começou a falar da possibilidade de marchar para a França ou para Ingla- terra, e oferecer-lhes seus serviços. Parece que realmente se preparava para viajar, quando um personagem influente, con- vencido do valor de seu projeto, ou pelo menos temendo as conseqüências se Colombo se colocasse a serviço de outro país e seu empreendimento resultasse em bom êxito, interviu uma vez mais diante de Isabel em prol do empobrecido aven- tureiro. A rainha lhe concedeu então alguns fundos, e com eles sustentou Colombo até que a rendição de Granada lhe deu novas esperanças. As condições que Colombo estabelecia para colocar-se ao serviço da coroa espanhola pareciam muito exageradas aos reis, e por algum tempo o projeto ficou em suspenso. Finalmente em abril de 1492, foram firmadas as Capitulações de Santa Fé, que lhe concediam os títulos de Almirante do Mar Oceânico e Vice-Rei e Governador Geral das terras coloniza- das. Além disso, visto que a empresa era principalmente co- merciai, levada pela esperança de chegar-se às fndias, foi outorgado ao Almirante e a seus sucessores a décima parte de
  34. 34. .Utn Novo Mundo - 35 Finalmente, em abril de 1492, firmaram-se as Capitulações de Santa Fé. todo O comércio que produzisse o empreendimento. É muito provável que estas Capitulações, que têm despertado o inte- resse dos historiadores, tenham sido vistas pela corte castelha- na como de pouca importância. Ninguém sonhava que a via- gem que se preparava pudesse ter os resultados que teve e, portanto a coroa, que arriscava bem pouco na empresa, estava disposta a mostrar-se pródiga. São de todos conhecidas as dificuldades que teve Colom- bo para reunir a tripulação para suas três caravelas. Foi graças à intervenção e o apoio decidido do prestigioso navegante Martin Alonso Pinzón que a flotilha pode afinal fazer-se ao mar, em 3 de agosto de 1492. Depois de uma escala nas Canárias, as três caravelas partiram para o ocidente desconhecido. Colombo dirigiu sua embarcação, seguindo sempre o paralelo 28. Porém seu cálcu- lo da circunferência da terra era inexato ao extremo, pois a
  35. 35. 36 - A era dos conquistadores Em 12 de outubro de 1492, os cansados aventureiros puseram seus pés na ilha de Guanahaní, a qual chamaram São Salvador. fixava na terceira parte do que na verdade o era. Portanto, em princípios de outubro a tripulação começou a duvidar de todo o empreendimento. Se chegou a ocorrer motim ou não, não está claro. Porém em todo caso foi Martin Afonso Pinzón que, com seu prestígio entre a tripulação, conseguiu acalmar os ânimos e prolongar a busca por mais uns dias. Finalmente, em 12 de outubro de 1492, os cansados aventureiros puseram seus pés na ilha de Guanahaní, nas Lucaias, a qual chamaram São Salvador. Depois de navegarem pelas Lucaias, a flotilha colombina dirigiu-se para o sul, onde encontrou as terras de Cuba e do Haiti. A primeira recebeu o nome de Joana em honra ao infante dom João, e a segunda o nome de A Espanhola. Na Espanhola, a principal das três caravelas, a Santa Maria, enca- lhou, e com suas madeiras Colombo construiu o forte Nativi-
  36. 36. Um Novo Mundo - 37 Antiga gravura e mapa que alguns têm atribuido a Cristóvão Colombo.
  37. 37. 38 - A era dos conquistadores dade, na baía de Samaná. AIí deixou, como guarnição, al- guns de seus homens, os da Santa Maria, prometendo-lhes visitaro lugar em sua próxima viagem. As duas caravelas restantes empreenderam viagem de retorno. Mas o mal tempo as separou, e foram aportar em dois distintos portos da Península Ibérica. Porém posteriormente regressaram a Paios de Moguer, de onde tinham partido, em 14 de março de 1493. Os reis, que se encontravam em Barcelona, fizeram trazer-lhes o intrépido marinheiro, que trouxe consigo várias provas de seus descobrimentos, inclusive alguns habitantes das terras descobertas, aos quais se chamou "índios" por procederem supostamente das índias. Ainda que se tenha exagerado a recepção dada pelos reis ao Almirante, não resta dúvida de que foi cordial, e que logo começaram fazer planos para uma outra viagem, ao mesmo tempo que se expediam solicitações a Roma para que o papa, naquela ocasião o arago- nês Alexandre VI, desse as bulas necessárias para um em- preendimento de colonização e evangelização. Não é necessário relatar aqui os pormenores das demais viagens colombinas. Sobre a segunda, é preciso destacar que nela navegou, como legado apostólico, o religioso frei Bernar- do Boil. Além de descobrir Porto Rico e várias ilhas menores, Colombo e os seus se dirigiram de novo a Espanhola, onde encontraram destruído o forte Natividade. Os índios, fartos do mal trato dispensado pelos espanhóis, tinham-se sublevado e matado a todos os colonizadores. Ali deixou Colombo o frei Bernardo, com a responsabilidade de evangelizar a ilha, junto com o militar Pedro Margarit, com a incumbência de conquis- tá-Ia. Assim começou o que seria tão característico dos em- preedimentos espanhóis na América, isto é, a união dos inte- resses de conquista e colonização com a tarefa evangelizado- ra. Depois de visitar de novo a Cuba, e registrar em ata que se tratava de terra firme, e que portanto havia chegado na Ásia, Colombo regressou a Espanha. Durante esta segunda viagem se manifestaram algumas atitudes de Colombo que começa- ram a produzir desconfiança entre as autoridades espanholas,
  38. 38. · Um Novo Mundo - 39 que duvidavam sobre suas aptidões de comando, e além disso temiam que ele tivesse a intenção de seguir o exemplo dos grandes da Espanha. Em conseqüência disso, mesmo que tenha sido muito bem recebido no seu regresso a corte, Co- lombo não pode partir em sua terceira viagem tão logo quanto planejara. Além disso, enquanto o Almirante navegava em sua se- gunda viagem, Espanha e Portugal concluíram o Tratado de Tordesilhas, que demarcava os campos de exploração e colo- nização de cada uma das duas potências marítimas. Isto era indício de que a corte espanhola se apercebeu da possível importância dos descobrimentos de Colombo mesmo que os ideais do Almirante, no sentido de que as índias produziriam riquezas suficientes para organizar uma nova cruzada que tomasse Jerusalém, fossem recebidos com sorrisos por parte dos reis. A terceira viagem terminou mal para o Almirante. Nas Canárias dividiu sua frota em duas, e enviou uma diretamente para a Espanhola, enquanto ele se dirigiu para o sudoeste, onde foi parar na ilha de Trindade. Dali atravessou a península de Paria, e portanto tocou' pela primeira vez o continente americano, ainda que somente vários dias depois, convencido pelo fluxo das águas do sistema Orenoco, declarou que, tinha descoberto "outro mundo". O tratamento dos nativos, doce e acolhedor, o ouro e as.pérolas que pareciam abundar, e toda uma série de supostos indícios geográficos, convence- ram o almirante que havia chegado ao paraíso terrestre, e assim o fêz mencionar. Do paraíso, entretanto, Colombo pas- sou ao inferno. Quando chegou na Espanhola descobriu que as notícias da sua má administração e de seus irmãos Diego e Bartolomeu já haviam chegado na Espanha, e que a rainha tinha enviado Francisco de Bobadilha com amplos poderes para julgar o assunto. Sobretudo se dizia que a administração dos Colombos era por vezes débil e cruel, e que isto tinha provocado a rebelião de alguns espanhóis. Quando Bobadilha chegou a São Domingo, a primeira coisa que viu foi um cada- falso onde jaziam os cadáveres de sete espanhóis. Ao pedir contas de Diego Colombo, este simplesmente lhe disse que outros cinco seriam enforcados no dia seguinte. Sem dar mais
  39. 39. 40 - A era dos conquistadores Seis semanas depois de sua chegada foram convocados à presença real, em Alhambra, em Granada. voltas em torno do assunto, Bobadilha tomou posse do local em nome da coroa e fêz encarcerar a dom Diego. Quando o Almirante se apresentou um pouco depois, também foi preso. E o terceiro dos irmãos, Bartolomeu, que na ocasião se encon- trava fora da cidade com um pequeno exército e poderia ter resistido, rendeu-se às insistências do Almirante, que não de- sejava resistir à autoridade real. Os três irmãos foram enviados prisioneiros para a Espa- nha, onde seis semanas depois de sua chegada foram convo- cados a presença real em Alhambra, em Granada. Apesar de serem declarados inocentes de todo delito, sua má administra- ção ficou patente; e os soberanos não estavam dispostos a conceder ao velho marinheiro o poder quase absoluto que reclamava sobre o novo mundo que tinha descoberto. Visto que o Almirante também não era uma pessoa que se conten- tasse com pouco, posteriormente foram de novo conferidos a ele os títulos de Almirante e Vice Rei, porém a administração de Espanhola - a única colónia que até então havia fundado - foi confiada a Nicolás de Ovando. A amargura do Almirante
  40. 40. Um Novo Mundo - 41 pode ser vista nestas linhas, escritas quando estava ainda em cadeiras: "Se eu roubasse as fndias, ...e as desse aos mouros, não poderia na Espanha mostrar-se maior inimizade". Não restava então outro recurso ao velho lobo do mar que empreender outra viagem. As demoras foram muitas, e en- quanto isso, outros navegantes partiam para as supostas [n- dias e regressavam com inforrnações de novos descobrimen- tos. Finalmente, em princípios de 1502,os reis autorizaram uma nova viagem de exploração comissionando o Almirante para que buscasse o estreito que se supunha existir entre o Caribe e o Oceano fndico. Com quatro caravelas e uma tripulação composta em sua maioria de moços sem experiência, Colom- bo se fêz ao mar. Levava entre outras coisas, uma carta de apresentação para o navegante português Vasco da Gama, que tinha partido para o Oriente rodeando a África, e com o qual o Descobridor espera encontrar-se nas fndias, depois de cruzar o estreito que procurava. A travessia do Atlântico, completada no tempo insólito de três semanas, foi a única parte feliz dessa terceira viagem. Ao chegar ao Caribe, Colombo descobriu os indícios, aprendidos anteriormente numa amarga experiência de que um furacão se aproximava. Contra as instruções reais, pediu refúgio em São Domingo, onde seu inimigo Nicolás de Ovando negou- lhe, esquivando-se da pretendida advinhação de que poderia ocorrer o temporal. Colombo achou abrigo num porto próxi- mo, e Ovando continuou com seus planos de enviar a Espanha uma frota de trinta navios. O vendaval surpreendeu a esquadra de Ovando no passo da Mona. Vinte e cinco navios naufraga- ram, quatro regressaram em más condições a São Domingos, e o único que chegou Espanha foi o que levava o dinheiro que Colombo tinha conseguido cobrar do que se lhe devia na Espanhola, por alguns de seus direitos. Entre os afogados naquele desastre se encontrava Francisco de Bobadilha. Depois de esperar o furacão passar, Colombo continuou sua viagem para Jamaica, dali a costa sul de Cuba, e estava a ponto de descobrir o estreito de Yucatán quando voltou para o sul, e foi parar nas costas de Honduras. Seguiu-se então um largo período de navegação ao longo da América Central, buscando sempre o suposto estreito que o levasse a mar
  41. 41. 42 - A era dos conquistadores aberto. Depois de diversas dificuldades nas quais perderam dois de seus quatro navios, os exploradores chegaram a costa da Jamaica. Os dois que ainda restavam estavam tão perfura- dos pelas bromas - moluscos em forma de bichos que comiam madeiras submersas - que Colombo não teve outro recurso além de encalhá-los e esperar que de algum modo viesse socorro de Espanhola. Entretanto os que ficaram parados na Jamaica trataram de subsistir através do comércio com os índios, e duas canoas foram enviadas a Espanhola em busca de auxílio. Porém em São Domingo, Ovando não se motrava dis- posto a ajudar seu rival a quem havia suplantado e a quem depois não dera ouvidos recebendo desastrosaconseqüência. Na Jamaica a espera já era longa, e boa parte da tripulação seamo:" tinou e tratou de ira São Domingo com canoastomadas dos índios. Quando essa alternativa fracassou, o contigente espanhol fi- cou dividido em dois bandos que posteriormente resolveram suas diferenças mediante as arrnas.O bandode Colombotriun- fou, ainda que não sem baixas. Os índios se recusaram a dar mais provisões aos espanhóis, pois as suas começavam a escassear. Foi então que Colombo apelou para uma artimanha que depois os autores de ficção tem atribuido a muitos perso- nagens. O almanaque apontava que logo haveria um eclipse lunar. Colombo convocou os cheges indígenas, e lhes disse que o Deus Todo Poderoso estava zangado porque eles não alimentavam adequadamente os cristãos, e predisse o eclipse. Quando a Lua se escureceu os caciques lhe imploraram per- dão, e Colombo esperou para aceitar suas petições até o momento preciso em que o astro haveria de brilhar de novo. A partir de então os seus não tiveram mais dificuldades de sustentarem-se. Foi grande a alegria dos "encalhados" quando apareceu no horizonte uma caravela espanhola. E ainda maior foi sua decepção ao descobrirem que se tratava de um bote enviado por Ovando com instruções precisas de inteirar-se do que estava sucedendo na Jamaica, porém sem recolher ninguém. Finalmente, quando os infelizes já estavam há mais de um ano na Jamaica, chegou um velho bote que apenas flutuava, com as velas podres fustigado pelas bromas, que foi tudo o que puderam encontrar e contratar os que Colombo tinha
  42. 42. Um Novo Mundo - 43 enviado a Espanhola. Embarcados nele, os sobreviventes de- moraram mais de um mês e meio para chegar a São Domingo. Alí Colombo contratou outro navio e partiu pela última vez das terras que havia descoberto. Com seu filho, seu irmão, e uns poucos marinheiros, chegou finalmente a São Lucas de Barra- meda, depois de dois anos e meio de viagem. O momento não era propício para a Espanha. A rainha estava gravemente enferma, e morreu três semanas depois do regresso do Almirante. No meio de tais circunstâncias, nin- guém se ocupava do velho marinheiro, principalmente porque Fernando nunca tinha sido tão entusiasta como sua esposa no empreendimento das fndias. O próprio Colombo estava enfer- mo, embora não seja certo se estava empobrecido também. Os fundos levados a Espanha pelo navio que tinha sobrevivido quando o furacão destruiu a frota de Ovando, e algum ouro que Colombo trouxe consigo da quarta viagem, constituíam uma boa soma. Além do mais, a coroa respeitava seu direito a décima parte do ganho nas fndias, se bem que com uma interpretação bem diferente da doAlmirante: Colombo dizia que lhe correspondia a décima parte de tudo que fosse ganho, enquanto a coroa entendia que o que lhe pertencia era os dez por cento da quinta parte que o Rei recebia. Em 1505 Fernando o recebeu, e começou uma longa série de negociações nas quais o rei lhe ofereceu bons rendimentos, enquanto o Almi- rante insistia em seus títulos e no cumprimento estrito das Capitulações de Santa Fé. Depois de ter estado na corte, o velho lobo do mar viajou de Segóvia a Salamanca, e dalí até Valladolid, onde morreu em 1506. A importância do empreendimento colombino Se temos nos detido nesta narrativa das viagens e peripé- cias de Colombo, o temos feito porque nisso tudo vemos o primeiro exemplo de muitos elementos característicos do em- preendimento espanhol no Novo Mundo: o arrojo audaz e visionário do Almirante, sua busca constante de lugares míti- cos, levado por vagos rumores, e a conquista de grandes façanhas com um grupo muito pequeno de homens. E tudo
  43. 43. 44 - A era dos conquistadores A rainha estava enferma gravemente, e morreu três semana depois do regresso do Almirante. isso dá grande importância a empresa colombina, diminuindo assim a constante discussão sobre se foi Colombo o verdadei- ro descobridor da América, ou se antes dele chegaram a estas terras os normandos ou outros viajantes. O fato é que, se tratássemos de descobrimentos, os únicos verdadeiros desco-
  44. 44. Um Novo Mundo - 45 bridores do hemisfério ocidental são os antepassados dos índios americanos que primeiro chegaram a essas praias, pro- vavelmente seguindo a ponte que lhe oferecia as ilhas Aleutas. Depois foram chegando outros, e há indícios de viagens, não só através do Atlântico, mas também do Pacífico. E em todo caso, os moradores originais das chamadas "Indias" não esta- vam esperando ser "descobertos", pois tinham sua cultura e civilização próprias. A importância das viagens de Colombo não é diminuta, como poderemos pensar, não tanto pelo fato dele ter sido ou não o pri meiro a ver terras americanas, mas se tornam importantes, porque de suas viagens se despreendeu uma vasta empresa de conquista, colonização e evangelização que posteriormente uniria ambos os hemisférios. Vistas sob tal perspectiva, as quatro viagens de Colombo, e tudo o que ao redor delas aconteceu, são muito mais que uma interessantís- sima aventura marítima. São o primeiro indício da forma que tomaria o encontro entre os dois mundos que pela primeira vez se viram face. a face naquele 12 de outubro de 1492. Se considerarmos a história de Colombo deste modo, logo veremos que os conflitos entre as autoridades espanho- las, que tanta amargura causaram ao Almirante, foram uma das características do empreendimento durante várias gera- ções. O que estava em jogo em tais conflitos era nada mais nada menos que a politica de Isabel e seus principais acesso- res, de limitar o poderio dos magnatas. Na Espanha, como temos narrado, a rainha teve de enfrentar repetidamente os poderosos, que aspiravam impôr suas vontades sobre o trono. Os pequenos burgueses, aos quais convinha uma monarquia forte e centralizadora, mais que o velho sistema feudal que os grandes tratavam de restaurar, foram os principais aliados da coroa nos seus empenhos centralizadores. Ao abrirem-se en- tão os enormes horizontes do Novo Mundo, os reis católicos queriam assegurar-se, por todos os meios, de que não se desenvolvesse aqui uma nobreza tão poderosa que pudesse opôr-se aos desígnios reais. Esse perigo era tão mais real diante do fato de que as grandes distâncias dificultavam a tarefa do governo. Foi em parte por isso que os reis católicos negaram-se a cumprir o estipulado nas Capitulações de Santa Fé, pois elas haviam dado a Colombo recursos e poder supe-
  45. 45. 46 - A era dos conquistadores riores aos que tinham quaisquer dos velhos nobres contra os quais os soberanos tinham tomado severas medidas. Tão logo chegaram à Espanha as primeiras notícias dos abusos dos Colombo na Espanhola - e abusos houve - os reis enviaram Bobadilha, e o Almirante e seus irmãos foram enviados presos para a Espanha. Isto, que muitas vezes tem sido descrito como um ato de ingratidão, se ajusta perfeitamente à política que! Isabel seguia em Castela. Nem ainda os mais importantes estavam isentos da justiça real. Logo, as leis da coroa em defesa dos índios não tinham um interesse unicamente huma- nitário, mas se ajustavam aos propósitos políticos dos sobera- nos, que temiam que, se os conquistadores e colonizadores não tivessem limites em sua exploração dos índios, tornar-se- iam senhores feudais com o mesmo espírito independente que os grandes da Europa. De outro lado, os conflitos entre os espanhóis no Mundo Novo não se limitaram a divergências sobre a autoridade civil, mas incluiram também as de natureza religiosa. Rapidamente os missionários estabeleciam com os índios laços mais estrei- tos que os estabelecidos pelos colonos, e assim começavam a protestar contra o tratamento dispensado aos habitantes natu- rais das terras. Os protestos dos missionários chegavam repetidamente ao trono espanhol, e por isso muitos dos coloni- zadores viam os missionários como obstáculos ao empreendi- mento colonizador. A resposta da coroa às comunicações dos missionários foi sempre ambígua, pois os soberanos estavam numa difícil situação. De um lado, a exploração dos índios era a base sobre a qual se levantavam grandes senhorios cuja obediência e lealdade à coroa não eram de todo seguras. Para evitar o desenvolvimento de um novo sistema feudal, era necessário editar leis que protegessem os índios contra a exploração por parte dos espanhóis. Além disso não resta dúvida de que Isabel sentia verdadeira compaixão para com os seus recéns descobertos súditos, e queria que, na medida do possível, fossem tratados como seus súditos espanhóis. Por outro lado, a exploração das novas terras - entenda-se, de seus habitantes - era necessária para manter o nascente império espanhol. Sem o ouro das fndias, a política espanhola na Europa não poderia subsistir. Logo, as leis que protegiam os
  46. 46. Um Novo Mundo - 47 índios nunca se cumpriram em totalidade. Eram obstadas tan- to pelas distâncias e dificuldades na comunicação, como pelos conflitos de interesses nos quais a coroa se achava envolvida. Tudo isso pode ser visto na legislação de Isabel sobre as fndias. Sem repassar toda essa legislação, convém que nos detenhamos para ver como a rainha tratou da questão da possível escravidão dos índios. Quando Colombo regressou a Espanhola, em 1495, e encontrou os índios amotinados contra os abusos dos espanhois, iniciou uma campanha de pacifica- ção militar. Parte do resultado dessa campanha foi um número de prisioneiros de guerra, aos quais o Almirante enviou a Espanha para serem vendidos como escravos. A chegada dessa mercadoria humana causou revolta na Península, onde Colombo havia descrito a população americana como gente pacífica, doce e simples. Isabel recorreu aos juristas da época, a fim de averiguar se Colombo estava em seu direito escravi- zando os índios. Ao que parece, o que mais molestava a coroa não era que o Almirante escravizasseos índios, masque ao fazê-Io apropriava-se de direitos que deviam pertencer somente a coroa. Quando finalmente Isabel proibiu que se escravizasse os índios, excluiu dessa legislação os caribes, por serem cani- bais. Pouco tempo depois permitiu escravizar aos que fossem tomados como prisioneiros nos combates, e aqueles que fos- sem comprados de outros amos índios. Além disso, se desen- volveu o sistema de encomendas, que em muitos casos não foi mais que um subterfúgio para impôr de novo a escravidão. Quando os índios viram que os espanhois que iam chegando eram cada vez mais numerosos, negaram-se a fazer planta- ções, e a partir de então foi determinado que era lícito obrigar os índios a trabalhar naquelas coisas que fossem necessárias para o bem comum. Assim se estabeleceu o sistema das "mi- tas" que perdurou por todo período colonial. Contra tudo isso o clero protestou repetidamente. A coroa respondeu com novas leis que supostamente limitavam os abusos contra os índios, as quais, contudo, raramente eram cumpridas, e às quais sem- pre houve numerosas excessões. Além disso se editaram outras cujo propósito era regular a vida moral dos índios, ordenando-lhes que vestissem roupas, que não se banhassem tão freqüentemente, que vivessem em povoados, etc. Porém,
  47. 47. 48 - A era dos conquistadores. no final das contas, cumpriu-se neles o destino que os conde- nava a uma situação difícil, porque a coroa necessitava de seu trabalho para encher suas arcas, enquanto ao mesmo tempo queria evitar que os conquistadores se enriquecessem dema- siadamente às custas desse mesmo trabalho. Tudo isso, sem dúvida, não quer dizer que aqueles que se viram envolvidos em todo esse processo foram hipócritas de- salmados, que se diziam cristãos porém, ao mesmo tempo, com descaramento, burlavam os princípios de amor ao próxi- mo. O dito de Colombo que encabeça este capítulo foi escrito pelo Almirante com toda sinceridade. De sua convicção reli- giosa não resta qualquer dúvida, e até em ocasiões que não sabemos precisar parece ter tido experiências místicas. Porém ao mesmo tempo, esse homem de profunda fé tratou de enriquecer-se estabelecendo um tráfico de escravos com os índios. O mesmo pode-se dizer de quase todos seus acompa- nhantes. A grande tragédia da conquista não foi que sederramou sobre o continente americano uma turba de desalmados espa- nhóis, mas que aqueles que chegaram a essas terras eram católicos sinceros que apesar disso não pareciam capazes de ver a relação que havia entre a sua fé e o que estava acontecen- do em seus dias. Isto é certo, não só de Colombo e de muitos descobridores, mas também de conquistadores como Cortés e Pizarro, que viam suas empresas como um grande serviço prestado à pregação do evangelho. A tragédia foi então que, com toda sinceridade e em nome de Cristo, se cometeram os mais horrendos crimes. Aos habitantes destas regiões lhes arrebataram suas terras, sua cultura, sua liberdade, e sua dig- nidade, sob o pretexto de dar-lhes cultura e religião superio- res, dos europeus. Em poucas ocasiões se tem visto tão clara- mente como somente a sinceridade não basta para o bem agir, pois o poder cega os poderosos de tal maneira que podem cometer os mais terríveis atropelos sem que, pelo que se percebe, suas consciências sejam molestadas. O empreendimento colombino e sua seqüela levaram à mais rápida e extensa expansão do cristianismo que a igreja tinha conhecido. Nessa expansão, apareceram personagens cuja dedicação ao nome e aos ensinos de Cristo eram tais que lhes permitiram prevenir do crime que se perpretava. Porém a
  48. 48. Um Novo Mundo - 49 maioria dos que confessavam o nome de Cristo, e iam regular- mente aos serviços religiosos, e se preocupavam pela salvação das almas, e tratavam de cumprir o que entendiam ser os preceitos do cristianismo, não sabiam elevar-se por cima dos interesses do país ou de sua esposa, e deu-se assim origem a chamada "lenda negra" sobre a conquista, que, como vere- mos, não é tão legendária.
  49. 49. 50 - A era dos conquistadores· III A justificação do empreendimento ... porque em coisa tão santa e tão necessária, como é o dito empreendimento contra os infiéis, não queríamos que faltasse alguma coisa das que mais pudesse justificar ... queríamos que... procurásseis ganhar do nosso mui Santo Padre uma bula em que de forma geral declarasse a dita guerra contra os infiéis, e desse a nós... tudo o que com a ajuda de Deus Nosso Senhor conquistássemos das terras dos infiéis. Fernando, o Católico. A questão da legitimidade da empresa conquistadora pre- ocupou tanto aos reis católicos como a seus conselheiros. Já temos dito que, entre as dificuldades que se apresentaram quando Colombo propôs sua primeira viagem, se contava a questão de se a coroa de Castela tinha o direito de empreender tal projeto. Depois do descobrimento, essa questão se apre- sentou mais urgente. Seguindo então o padrão dos séculos anteriores, tanto no que se referia a mediação entre soberanos
  50. 50. A Justificação do Empreendimento - 51 cristãos como no que se referia a convocação das guerras de cruzadas, os soberanos espanhóis apelaram ao papado para que lhes concedesse bulas que autorizariam suas viagens de exploração, seus esforços colonizadores e, posteriormente, a conquista. Logo, apesar das vozes de protesto que rapidamen- te se levantaram, todo o empreendimento conquistador se realizou em nome de Cristo, e a tarefa evangelizadora foi um dos principais argumentos que se encontraram para justificar a invasão dessas terras. Portanto, no presente capítulo deve- mos nos deter para ver o modo pelo qual os cristãos europeus tratavam de justificar o que nelas se fazia, tanto por meio de bulas papais como através do argumento teológico e jurídico. As bulas papais Como sucede sempre em tais casos, os cristãos europeus trataram de enfrentar a nova situação surgida com o descobri- mento da América com base em diversos antecedentes que lhe pareciam aplicáveis. Um deles era a história das cruzadas. Nelas, os papas tinham declarado guerra aos infiéis, e haviam confiado a certos soberanos cristãos o comando dos exérci- tos. Quando tais empreendimentos resultavam ter bom êxito, os papas outorgavam, ou pelo menos reconheciam, os direitos de posse sobre as terras conquistadas, como sucedeu, porexem- pio, ao fundar-se o reino latino de Jerusalém. Sobre essa base, em muitos dos documentos referentes a conquista aparecem antigas frases e fórmulas que se empregaram nas cruzadas. Para os conquistadores, seu empreendimento era semelhante ao daqueles que séculos antes na Terra Santa, tinham se arremessado contra os sarracenos. Essa atitude se fazia tanto mais viável por que até o próprio momento do descobrimento os cristãos peninsulares tinham estado lutando contra os mouros, numa guerra que lhe parecia ser uma continuação das cruzadas. Nessa guerra con- tra os mouros se estabeleceram certos precedentes que de- pois se aplicariam na América. Conforme o avanço da guerra de Granada, os reis católicos se ocuparam em estabelecer a igreja nos territórios conquistados. Porém, aproveitando circunstâncias favoráveis, e com vistas a evitar motivos de
  51. 51. 52 - A era dos conquistadores Na guerra contra os mouros se estabeleceram precedentes que depois seriam empregados na América. A relação entre ambos empreendimentos pode ser vista pelo modo em que, na conquista da América, se pensava que São Tiago continuava lutando a favor dos espanhóis, como se supunha que havia feito antes contra os mouros.
  52. 52. A Justificação do Empreendimento - 53 discórdia com a Santa Sede em questões tais como a nomea- ção de bispos e a fundação de novas dioceses, em 1486os reis católicos obtiveram duas bulas papais que lhes concediam o direito de patronato sobre a igreja em Granada e Canárias. Segundo outra bula do mesmo ano, era outorgado aos sobera- nos, entre outras coisas, o "direito de apresentação". Tal direi- to consistia em poder "apresentar" em Roma os nomes das pessoas escolhidas pela coroa para ocupar os altos cargos eclesiásticos, particularmente os episcopados. Desse modo esperavam os reis católicos poder fazer nomear pessoas de seu agrado, e evitar as desavenças que repetidamente se pro- duziam em outras partes do mundo quando ficava vaga uma sede importante. Como veremos mais adiante, esse patronato real concedido sobre Granada e Canárias foi um dos modelos que se empregaram para determinar o modo pelo qual se regeria a igreja na América. A guerra contra os mouros também serviu para levantar a questão dos limites entre Castela - depois Espanha - e Portugal. Este último reino tinha terminado seu empreendi- mento de reconquista antes que Castela, e portanto tinha-se lançado a tomar territórios mouros no norte da África. Em princípios do séculos XV, Celta foi tomada pelos portugueses, que a partir dali se consideraram chamados a dirigir as cruza- das contra os mouros norte-africanos. Isto trouxe uma série de negociações com os demais reinos da Península, especial- mente quando a conquista de Granada abriu as portas da África a Castela. Estabeleceram-se então linhas de demarca- ção nas terras mouras que se esperava conquistar, e o papado aprovou tais acordos. Tudo isso serviu de base para a solução que se daria depois ao problema semelhante surgido pelo descobrimento da América. Desde várias décadas antes, Portugal tinha-se feito ao mar. Suas explorações se dirigiram na grande maioria para a costa ocidental da África, com a esperança de rodear esse continente e assim chegar às índias. Conforme avançavam, os portugueses solicitaram a aprovação pontifícia. Seu propósito era principalmente comerciar, portanto, o papa concedeu-lhes o monopólio da navegação para as Indias rodeando a África. Pouco depois, em 1456, foi-lhes concedida também a jurisdi-
  53. 53. 54 - A era dos conquistadores ção espiritual sobre os territórios descobertos, incluindo toda a costa africana, "até os índios". Nas quatro décadas seguin- tes, sempre com a esperança de chegar ao limite sul do conti- nente, os portugueses continuaram explorando as costas da Guiné e do Congo, até que finalmente chegaram ao cabo da Boa Esperança. Os primeiros esforços em converter os africa- nos, e de estabelecer colônias nestas costas, foram dando uma forma concreta ao que naquelas bulas tinha sido geral. Desse modo os antecedentes portugueses serviram para dar maior precisão às bulas que os espanhóis solicitaram mais tarde. Enquanto isso, Castela tinha-se dedicado a um empreen- dimento que nunca pareceu ocupar toda sua atenção, porém mais tarde tornou-se uma espécie de ensaio para a conquista da América. Trata-se da tomada e colonização das Canárias. Desde o século XIV os genoveses tinham-se interessado por essas ilhas que, a partir de então foram objeto de vários em- preendimentos militares e, sobretudo, da pilhagem. Posterior- mente, depois de uma série de circunstâncias, as Canárias caíram sob a jurisdição de Castela, reconhecida por Portugal - o único contendente sério - em 1479. A tarefa de coloniza- ção das Canárias foi então um micro cosmo do que seria a da América. Ali também chegaram os aventureiros em busca de ouro e glória. Ali foram chegando também os missionários, que repetidamente tiveram que opôr-se aos desmandos dos colonizadores. E, segundo temos dito, foi sobre estas ilhas, e sobre o reino de Granada, que primeiro os reis católicos obti- veram o direito de patronato sobre a igreja. Foi com base em tudo isso que tanto os cristãos ibéricos como os papas levantaram as questões relativas ao Novo Mundo. A conquista, colonização e evangelização da América lhes pareciam ser uma extensão do empreendimento nas Ca- nárias e Granada, e as bulas e demais documentos expedidos nessas ocasiões anteriores foram os modelos que se emprega- ram nas novas circunstâncias. O descobrimento da América apresentava vários proble- mas. Antes de tudo, era necessário legitimar os direitos de exploração, comércio, conquista e colonização. Na mentalida- de da época, tudo isso estava estreitamente ligado a tarefa
  54. 54. A Justificação do Empreendimento - 55 evangelizadora. Logo, uma das principais preocupações dos reis católicos ao mesmo tempo que o sonho colombino come- çou a tornar-se realidade foi obter as bulas necessárias para continuar o empreendimento. Isto não era tarefa demasiada- mente díficil, pois na ocasião reinava em Roma o papa, de triste memória, Alexandre VI, de origem aragonesa, que se mostrava sempre disposto a satisfazer os desejos de Fernan- do, particularmente em questões tão distantes como a das terras recém descobertas. Portanto, numa série de bulas expedidas em 1493, Alexandre VI concedeu aos reis católicos os direitos que antes outros papas haviam concedido aos reis de Portugal. Desse modo, desde o ponto de vista pontifício, o mundo não cristão ficou dividido em duas grandes esferas de influência, uma portuguesa e outra espanhola. Além disso, recordando sempre que havia cristãos em lugares como a [ndia e Etiópia, dos quais somente se tinham notícias vagas, estas bulas escla-. reciam que a autoridade política e religiosa que se lhes concedia a coroa espanhola se limitava àqueles territórios que não per- tencessem já a algum príncipe cristão. Em 1508, Fernando o católico obteve de Júlio II a conces- são de patronato real sobre a igreja em todos os territórios descobertos ou conquistados - ou por descobrir e conquistar - na América. O rei, como patrono e fundador das igrejas nas Indias, tinha então uma série de direitos e responsabilidades, entre os quais se incluía o "direito de apresentação" de que já falamos anteriormente, quando tratamos do patronato real sobre Granada e Canárias. Ainda que naquela bula não se achava a maneira pela qual seriam manejadas as finanças da nascente igreja, dois anos mais tarde o rei obteve outra bula, na qual se outorgavam, com algumas excessões, todos os dízimos das igrejas nas índias. Desse modo a igreja americana ficou completa e diretamente vinculada em suas finanças e em seu episcopado à coroa espanhola, que recebia quase todos seus ingressos e se ocupava com seus gastos, e que além disso tinha o "direito de apresentação" que quase equivalia ao direito de nomear bispos e demais prelados para os cargos que se tornariam vagos no Além-Mar. Pouco a pouco foram se somando a este patronato real outros direitos, até o ponto em que a igreja americana chegou a perder quase todo contato
  55. 55. 56 - A era dos conquistadores direto com a Santa Sé, e se tornou uma igreja nacional espa- nhola que, sem romper de modo algum com Roma, e ao mesmo tempo que lhe jurava absoluta obediência, servia na realidade aos interesses da coroa espanhola. Tudo isso se entende se recordarmos que os reis católi- cos e seus sucessores imediatos se encontravam entre os mais poderosos monarcas da Europa, que por diversas razões os papas se inclinavam a aceitar suas petições, e que em todo caso os que naquela época ocupavam o trono papal eram os papas renascentistas que temos estudado noutro volume des- sa história. Durante os primeiros anos depois da conquista, quando os tesouros dos astecas e dos incas não eram mais que rumores distantes, o empreendimento missionário ameri- cano se apresentou como uma tarefa onerosa que os papas renascentistas não estavam dispostos a tomar sobre seus om- bros, e sim entregá-Ia aos soberanos da Espanha. Em todo caso, esta série de bulas papais teve duas fun- ções. A primeira foi legitimar a conquista. Com base nas teo- rias do poder temporal dos papas que tinham se desenvolvido durante a Idade Média, havia os que sustentavam que o sumo pontífice tinham autoridade temporal sobre o globo, e que portanto podia conceder as terras dos pagãos aos reis cris- tãos. Essa teoria, interpretada de diversos modos, se achava atrás das bulas que concediam aos portugueses e espanhóis os direitos de exploração, comércio, conquista e exploração comercial. Porém, visto que tais teorias extremas do poder pontifício nunca tinham sido aceitas por todos, durante a conquista houve os que expressaram dúvidas sobre a validade de tais concessões papais. Outros, movidos por suas próprias expe- riências nas fndias, onde tinham sido testemunhas, e algumas vezes até participado, do maltrato aos índios, alçavam também a voz de protesto. Se bem que posteriormente o empreendi- mento seguiu o caminho traçado pelos interesses econômicos e políticos, não é possível narrar a história do cristianismo na América sem dizer algo sobre os que tão esforçadamente lutaram em prol de uma maior obediência aos ditames do evangelho.
  56. 56. A Justificação do Empreendimento - 57 Frei Bartolomeu de Las Casas o protesto: Frei Bartolomeu de Las Casas A história de Las Casas tem sido objeto de grandes con- trovérsias, sobretudo porque lhe culpam de haver criado, ou pelo menos difundido, a "lenda negra" sobre a conquista. De modo geral, os que tomam a atitude de acusação são historia- dores católicos espanhóis que tratam de manchar ou distorcer os abusos que foram condenados por Las Casas, sem aperceberem-se de que se há alguém de quem a igreja católica espanhola deveria gloriar-se, esse alguém é precisamente Frei Bartolomeu de Las Casas.
  57. 57. 58 - A era dos conquistadores Nascido em Sevilha em 1474, após licenciar-se em leis, Bartolomeu partiu de sua cidade natal em 1502, com a frota que os reis católicos enviaram a América sob o comando de Nicolás de Ovando, quando Colombo estava em desgraça. Durante dez anos o licenciado sevilhano viveu na Espanhola, onde recebeu um grupo de índios de encomenda, e onde, de modo igual aos demais encomendadores, dedicou-se a des- frutar do produto do trabalho dos índios, sem ocupar-se com seu bem estar nem com sua evangelização. Oito anos passou Las Casas em Santo Domingo quando chegaram os dominicanos. No ano seguinte, no quarto domin- go do Advento de 1511, isto é, imediatamente antes do Natal, o sacerdote dominicano Antonio,Montesinos pregou um sermão contra os abusos de que os índios eram vítimas. Foi um ser- mão fulminante, que causou grande revolta em toda a colônia. As autoridades e demais interessados trataram de fazer oalar os dominicanos, que apoiaram a Montesinos. A disputa che- gou rapidamente à corte espanhola,onde ambas as partesargu- mentavam em defesa de suas posições. Pela primeira vez se começou a questionar seriamente o modo pelo qual se desen- volvia o empreendimento americano. Enquanto isso, o licenciado Las Casas, tinha sido ordena- do sacerdote, sem que se saiba exatamente em que data, se bem que parece ter sido o primeiro a receber ordenação no Novo Mundo. Porém na questão que se debatia entre os domi- nicanos e os colonos, Las Casas, ou guardava silêncio, ou tomava o partido dos colonos. Foi no Pentecostes de 1514, que Las Casas teve uma verdadeira conversão com relação ao tratamento com os ín- dios. A partir de então, a fé cristã lhe pareceu radicalmente incompatível com o modo desumano pelo qual os espanhóis tratavam os índios, e não teve dúvidas em dizê-lo nem em tomar o partido dos dominicanos na polêmica que o sermão de Montesinos tinha iniciado. No ano seguinte, em companhia de Montesinos, regressou à Espanha, onde conseguiu o apoio do cardeal Cisneros, na ocasião regente por Carlos V. Cisne- ros o enviou de regresso as fndias com uma comissão de jerônimos que devia investigar o tratamento dispensado aos índios. Porém, a má opinião que vários dos membros da co-
  58. 58. A Justificação do Empreendimento - 59 missão tinham dos índios, e suas atitudes apaziguadoras para com os encomendadores, levaram Las Casas a romper com a comissão e regressar para a Espanha, onde continuou sua apaixonada defesa dos índios. Talvez para desfazer-se dele, ou talvez para dar-lhe uma oportunidade de provar suas teo- rias sobre o melhor modo de evangelizá-los, as autoridades espanholas lhe outorgaram um território para evangelizar, em Cumaná, que hoje é a Venezuela. O experimentado Las Casas fracassou, em parte porque tendia em idealizar a bondade dos naturais, e em parte porque os colonizadores espanhóis fizeram todo o possível para criar obstáculos ao projeto e criar todo tipo de violência. Posteriormente, quando os índios se rebela- ram, Las Casas abandonou o projeto e se refugiou entre os dominicanos em Espanhola. Ali se uniu finalmente a ordem de Santo Domingo, e passou vários anos dedicando-se a traba- lhos literários. Depois de doze anos em São Domingos, Las Casas partiu para o Peru, porém o mau tempo obrigou-o a desembarcar na Nicarágua. Os colonizadores dessa região reagiram de tal modo a suas idéias sobre os índios, que teve de fugir para a Guatemala. Tratou então de aplicar sua teoria de que o evan- gelho deveria ser pregado pacificamente, porém os índios, que não conheciam dos espanhóis mais do que a pilhagem e a opressão de que eram objeto, não se mostraram dispostos a escutá-lo. Foi durante esse período, em 1537, que escreveu O único modo de chamar todos os povos à fé. Depois foi para o México, onde fêz o trabalho missionário, e regressou a Espa- nha em 1540. Na Espanha, Las Casas publicou sua obra Brevíssimo relatório da destruição das fndias, que imediatamente suscitou grande controvérsia, e ainda hoje suscita tal controvérsia. Trata-se de uma narração do acontecido nas [ndias logo de- pois da chegada dos espanhóis. Como história, deixa muito a desejar, pois é uma obra polêrnica cujo autor trata de mover seus leitores a tomar posição em favor dos índios. Os números se exageram às vezes, e não resta dúvida que Las Casas escolheu os incidentes que melhor poderiam comover seus leitores. Porém isto não quer dizer que seu informe tenha sido falso, como têm pretendido historiadores que ficam molesta-
  59. 59. 60 - A era dos conquistadores dos pelo fato do livro de Las Casas ter servido aos interesses dos inimigos da Espanha. Visto em seu próprio contexto, como um chamado a seus compatriotas a viver a plenitude de sua fé no trato com os índios, a dita obra é admirável e comovedora. Em parte, como resultado deste livro, Carlos V fêz prom ul- gar as Leis Novas, que limitavam os direitos dos espanhóis sobre os índios. Isto causou grande revolta na América, e no Peru se chegou a uma rebelião armada. Rapidamente as Leis Novas caíram no esquecimento, e o abuso e a exploração continuaram. Las Casas gozava de grande prestígio entre os elementos mais progressistas da corte espanhola, e lhe foi oferecido o importantíssimo episcopado de Cuzco, a velha capital do im- pério Inca. Porém ele se negou a aceitá-lo, e finalmente foi nomeado bispo de Chiapas, no sul do que hoje é o México. Ali mostrou-se inflexível para com os encomendadores, como pode ver-se no seu Confessionário. A oposição dos coloniza- dores se fêz cada vez mais veemente, e depois de um ano de resistência Las Casas partiu de novo para a Espanha, onde renunciou a sua diocese. Daí em diante (desde 1547) até sua morte, em 1566, aos noventa e dois anos de idade, Las Casas dedicou-se a corrigir e fazer publicar seus escritos, e a opôr-se à política colonial espanhola. Las Casas baseava sua defesa aos índios nos princípios gerais de direito que gozavam de aceitação na Europa. Com base nesses princípios, Las Casas argumentava que os caci- ques índios eram os verdadeiros senhores de suas terras e de seus vassalos, e que o único direito que os espanhóis tinham no Novo Mundo era o de proclamar o evangelho. Esse direito não justificava as guerras contra os índios, nem o regime de remessas, mas simplesmente permitia aos espanhóis dedica- rem-se à propagação de sua fé através de meios pacíficos. Além disso, dizia Las Casas, os habitantes originais das terras eram gente afável e generosa, que facilmente seria ganha mediante um bom exemplo e amor. Foi esse último ponto, com sua idealização do caráter índio, o que mais força deu aos argumentos dos oponentes de Las Casas, pois seus inimigos se alegravam ao ver fracassarem seus intentos de aplicar métodos pacíficos. Além do mais, à medida em que foi recru-
  60. 60. A Justificação do Empreendimento - 61 Francisco de Vitória ocupou a principal cátedra de teologia de Salamanca, e foi considerado fundador do direito internacional. descendo a inimizade entre índios e espanhóis, menos aceita- ção tinham os escritos e as idéias de Las Casas. Suas obras foram proibidas no peru em 1552, e na Espanha alguns anos mais tarde. Em meados do século seguinte, a Inquisição pro- ibiu a leitura das obras de Las Casas. Francisco de Vitória Mais respeitadas foram as opiniões de Francisco de Vitó- ria, o dominicano que, a partir de 1526, ocupou a principal cátedra de teologia da universidade de Salamanca, e que tem sido chamado de o "fundador do direito internacional". Em suas duas Relações teológicas dos índios, Vitória apresentou a questão da legitimidade do empreendimento espanhol no No- vo Mundo.
  61. 61. 62 - A era dos conquistadores o ponto de partida dessa questão é se os índios eram ou não os verdadeiros senhores de suas possessões e de suas instituições antes da chegada dos espanhóis Isto quer dizer, que se os índios não tinham direito sobre as terras, os espa- nhóis podiam tomá-Ias sem atentar a eles. A isto respondeu Vitória que os índios eram certamente os senhores legítimos. Nem o pecado mortal, nem a idolatria, nem a suposta falta de capacidade mental eram suficientes para negar-lhes o direito de posse. E isto, por sua vez, quer dizer que os espanhóis não poderiam justificar a conquista dizendo que, visto que os ín- dios era idólatras" ou visto que praticavam crimes, seus territórios não lhes pertenciam. Vitória passou então a discutir as diversas falsas razões, ou "títulos não legítimos", que se somavam para justificar a conquista. O primeiro deles é que o imperador é senhor de todo o mundo. Este título, que não se esgrimiu nos tempos dos reis católicos tinha especial importância porque ao ditar Vitó- ria suas Relações o rei da Espanha era também o imperador, Carlos V. A isto respondeu Vitória que não é certo que o imperador seja dono ou senhor de todo o mundo e que, ainda que o fosse, ele não tinha o direito de depô r os senhores naturais dos territórios índios. O segundo título é semelhante ao primeiro, pois se baseia na autoridade universal do papa, que tinha outorgado aos espanhóis os territórios em questão. Esse título não é legítimo, pois o papa não é o senhor temporal de toda a terra, e se o fosse tampouco teria. autoridade para delegar seu poder a príncipes seculares. A autoridade do papa se baseia nas coisas espirituais e em sua administração, e portanto não se estende aos não crentes. Isto, por sua vez, quer dizer que a negação por parte dos "bárbaros" em aceitar a autoridade pontifícia não é razão suficiente para fazer-lhes guerra. Com isto, Vitória rechaçava a prática espanhola de ler aos índios um "requeri- mento" ou invitação em abraçar o cristianismo, e fazer-lhes guerra se se negassem. O terceiro título, que é o direito de descobrimento, tão pouco é legítimo, pois se os índios eram verdadeiros senhores de suas terras, como se tem dito anteriormente, esses territó-
  62. 62. A Justificação do Empreendimento - 63 rios não estavam esperando ser descobertos, como se se tratassem de uma ilha deserta. Em quarto lugar, poderia argumentar-se que os índios por não crer em Cristo, tinham perdido seus direitos. Mas aí Vitória responde que os índios, antes de ouvir a proclamação do evangelho, não pecavam com incredulidade, e que tão pouco pecam se não o aceitassem tão logo que se lhes anun- ciava, se esse anúncio não ia acompanhado de provas concre- tas da fé. Pelas notícias recebidas, comentava nosso teólogo, "não estou convencido de que até este momento a fé cristã tenha sido apresentada aos bárbaros de tal maneira que se não a aceitem estejam em pecado mortal". Em outras palavras, que os meios violentos que estavam empregando, por sua própria natureza, exoneravam os que se negavam a aceitar um cristia- nismo que lhes chegava com tão tristes recomendações. Além disso, ainda que estivessem em pecado mortal por haverem rechaçado o evangelho, isso não privaria os índios de seu legítimo direito de propriedade. O quinto título se baseia nos pecados dos índios, e argu- menta que os espanhóis tem o dever de castigá-los. A isto respondia Vitória que, por mais graves que fossem os pecados dos índios, os cristãos não tinham jurisdição sobre eles. Tão pouco deveria ser aceito o sexto título, que é o de uma suposta eleição voluntária do senhorio espanhol por par- te dos índios. Tal eleição teria que fazer-se sem medo ou igno- rância, e o que ficava patente era que tais circunstâncias não estavam existindo do Novo Mundo. Além disso, se os caciques são os verdadeiros senhores, tão pouco poderia o povo índio chamar outros para os seus lugares sem uma causa razoável para fazê-lo. Por último, havia os que diziam que Deus, numa doação especial, tinha dado essas terras aos espanhóis, como antes tinha dado aos filhos de Israel as terras dos cananeus. Diante desse argumento responde Vitória que "é perigoso crer naque- le que apoia uma profecia contra a lei comum e contra as regras da Escritura, se não confirma suas doutrinas com mila- gres, os quais não se viam na ocasião por parte alguma nem eram realizados por tais profetas". E ainda que houvesse tal doação por parte do Senhor, isto não garantia que aqueles que
  63. 63. 64 - A era dos conquistadores tomassem as terras estavam isentos de pecado, como pode ver-se no caso dos reis da Babilônia aos quais Deus entregou os israelitas. Por outro lado, Vitória cria que poderia haver razões, ou "justos títulos", para fazer a guerra aos índios. O primeiro destes títulos é o da livre comunicação. Os espanhóis tinham o direito de viajar por terras indígenas, e de comerciar com eles, sempre que se ajustassem às leis que nesses territórios se aplicavam aos estrangeiros. Se os índios não permitissem esse livre comércio e comunicação, aí sim os espanhóis poderiam apelar para a força, ainda que sempre numa medida que se ajustasse às circunstâncias, e não utilizando a atitude dos índios como desculpa para fazer-lhes violência excessiva, ou para apoderarem-se de suas possessões. Em segundo lugar, os espanhóis tinham o direito de pre- gar o evangelho. Se bem que esta tarefa corresponde a todos os cristãos, o papa, como senhor espiritual dos crentes, pode encomendá-Ia aos espanhóis e proibí-Ia aos demais. Se os índios permitissem a livre pregação do evangelho, porém se recusassem a converter-se, os espanhóis não poderiam usar a força. Porém se os chefes índios apelassem para a força a fim de impedir as conversões e os batismos, ou se tratassem de obrigar os convertidos a abandonar a sua fé, os espanhóis poderiam utilizar as armas, sempre dentro da medida necessá- ria para corrigir o mal, e não como desculpa para destruir o senhorio dos índios. Esta era a terceira razão que poderia ser usada em defesa da conquista. Em quarto lugar, o título legítimo seria uma decisão papal, dando aos índios novos senhores. Porém, visto que o papa só tem jurisdição sobre os cristãos, esse título não poderia ser usado a não ser no caso em que boa parte da população fosse cristã. Em quinto lugar, ainda que os pecados dos índios não lhes tiravam o seu direito de senhorio, os espanhóis tinham autoridade para defender uns aos outros, como no caso dos sacrifícios humanos e a antropofagia. A fim de evitar tais coi- sas, e em defesa dos que de outro modo seriam mortos, os espanhóis poderiam intervir mediante a força.
  64. 64. A Justificação do Empreendimento - 65 Além do mais, os espanhóis poderiam tomar o senhorio sobre essas terras se os chefes índios, "compreendendo a humanidade e a.sábia administração dos espanhóis", pedis- sem ao rei da Espanha que fosse seu soberano. O sétimo título legítimo para a intervenção armada seria o das alianças feitas com algum chefe índio, que então se veria envolvido em guerra com outro. Em tal caso, os espanhóis teriam que cumprir sua obrigação com seus aliados .. Existe por último um título, que se tem somado, sobre o qual Vitória tinha dúvidas, e este é o da incapacidade dos índios em governar-se a si mesmos. Se, como diziam alguns, os índios necessitavam de maturidade mental para governar seu próprio país, os espanhóis poderiam ocupar-se com a tutela. Naturalmente, neste último ponto Vitória quase se con- tradisse em relação ao que já tinha dito antes, pois se os índios são incapazes de governar-se dificilmente poderiam ser senhores de suas próprias terras e instituições. As conferências de Vitória, ditadas em resposta às notí- cias recebidas dos desmandos ocorridos no Peru, causaram grande revolta. O imperador fêz calar os mais exaltados segui- dores do mestre dominicano, porém ele mesmo viu a necessi- dade de julgar de novo todo o empreendimento de conquista e colonização. As Novas Leis das fndias, promulgadas em 1542, levam o selo de Vitória. A partir de então proibiram-se conquis- tas ao estilo da que ocorrera no Peru, e proibiu-se fazer guerra aos índios que estivessem dispostos a estabelecer relações pacíficas com os espanhóis. Porém, por outra parte, não é possível ocultar o fato de que Vitória, apesar de ter sido o grande crítico dos desmandos dos espanhóis, foi também quem previu justificação jurídica e teológica ao empreendimento de conquista e colonização. Os "justos títulos" se prestaram a enormes injustiças. A modera- ção de Vitória, ao mesmo tempo que condenava os crimes dos conquistadores, acabava de justificar o maior dos crimes, que foi a própria conquista, como podemos ver nas últimas pala- vras de sua primeira Relação: "Fica patente que, depois que tenha ocorrido a conversão de muitos bárbaros, não é admissí- vel nem lícito ao príncipe renunciar porcompletoa administra- ção dessas províncias".
  65. 65. 66 - A era dos conquistadores IV O empreendimento Antilhano ... procurareis com toda diligência animar e atrair os naturais das ditas fndias a toda paz e quietude, e que nos sirvam e estejam sob nosso senhorio e sujeição benignamente, e principalmente que se convertam a nossa santa fé católica. Os reis católicos Como vimos no capítulo anterior, as primeiras terras que Colombo visitou no Novo Mundo formavam parte do arquipé- lago antilhano, e foi nele, na ilha que se chamou Espanhola, que o Almirante fez a primeira tentativa de colonização, que fracassou. Em sua segunda viagem, Colombo trazia instru- ções mais precisas dos soberanos, no sentido de que estabele- . cesse colônias permanentes nas novas terras, e fizesse todo o possível pela evangelização dos índios. Com a finalidade de ajudá-lo neste último propósito o acompanharam, além do padre beneditino Bernardo Boil, que já temos mencionado anteriormente, três franciscanos, um mercedário e um jerônimo. Colonização da Espanhola Depois de encontrar destruído o forte Natividade, Colom- bo e os seus seguiram navegando ao longo da costa da Espa-

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