OPERAÇÃO TÓQUIO: 136 DIAS DE PREPARAÇÃODesde a conquista da Libertadores, no dia 28 de julho, até a final do Mundial, nodi...
Com a iminente perda de um dos seus principais jogadores na campanha daLibertadores, o Grêmio tratou de buscar um substitu...
Operação TóquioEm meio à disputa do Campeonato Estadual, a direção gremista resolveu instalar a“Operação Tóquio”, dando co...
VIAGEM ATÉ O OUTRO LADO DO MUNDODia 05 de dezembro de 1983, segunda-feira, 17h30, um vôo da Varig levando 170passageiros, ...
As presenças de Rodolfo Rodriguez, Romerito, Rodrigues Neto, Carlos AlbertoTorres e Figueroa, entre outros, causou rebuliç...
O técnico Valdir Espinosa, sabidamente temeroso quando entra num avião, jádeixara de ser o alvo das brincadeiras. Acostuma...
Um grande contingente de brasileirosaguardava no saguão do Hotel Prince pelachegada da delegação gremista. O trajeto deNar...
O Estádio NacionalInaugurado em 1958 para a disputa dos jogos asiáticos, o Estádio Nacional deTóquio, até a Copa do Mundo ...
daquele inverno europeu, e só viajou quinta-feira de manhã. Na tarde de quarta-feira, o técnico Ernest Happel havia mostra...
blusa que havia esquecido sobre uma floreira, embora milhares de pessoastivessem passado pelo local na noite anterior.    ...
Foi por isso que o Grêmio, com sua camiseta tricolor, jogou de calção branco emeias azul-escuro, numa estranha tonalidade ...
VITÓRIA NA PRORROGAÇÃOGrêmio 2 x 1 HamburgoO Grêmio entrou no campo do Estádio Nacional de Tóquio, no dia 10, com umgrande...
SEGUNDO TEMPOCom o gol, o Grêmio entrou em campo com mais energia. Todos os jogadorespareciam mais decididos a segurar o m...
PRORROGAÇÃOAntes do time entrar em campo na prorrogação, quando o jogo estava empatadoem um gol, o técnico Espinosa pedia ...
"Eu acho que só sentimos a importância do titulo quando voltamos a Porto Alegre,no meio daquela comemoração incrível da to...
O outro jogador da posição, Casemiro, era mais experiente. Mas o pessimismo dePaulo César começou a desaparecer na saída d...
O Hamburgo não chegava a ter o domínio do jogo, mas conseguiu criar lancesperigosos diante de alguns erros defensivos do G...
OS GOLS      RENATO para o Grêmio, 1 a 0 aos 38 minutos do primeiro tempo, depois detrês dribles sobre Schröder, o ponteir...
CARNAVAL EM DEZEMBROO Grêmio ganha o Campeonta Mundial de Clubes e brilha na entre-safra dofutebolNa Espanha, com seu "fut...
da Libertadores, em julho, foi requisitado pelo Flamengo, que o emprestara aoGrêmio, e abriu vaga para o veternao Paulo Cé...
velhos rivais. Assim, ele afirma que o Inter só ganhou o campeonato gaúchoporque o Grêmio preferiu poupar-se para o título...
o ataque. Cada vez, porém, que a bola cai nos pés brasileiros, os jogadores doHamburgo lembram-se do aviso do ex-zagueiro ...
Levei a sério. Na fase de preparação, eu era quem mais se esfoçava. Até nos diasde folga, treinava firme. Por isso cheguei...
Para levar a taça, os alemães tiveram que superar a poderosa Juventus, base daseleção italiana. Na equipe de Turim jogavam...
O RENATO NOME DA DECISÃOJovem. Impetuoso. Ousado. Vencedor. Os adjetivos caracterizamRenatoPortaluppi, a principal figura ...
Renato: Foi um momento complicado. Cheguei a temer se eu não voltasse para ogramado. Felizmente o Banha (massagista) fez u...
do ano, durante a pré-temporada em Gramado. Começava ali um dos trabalhos demaior sucesso de um treinador no comando do Cl...
Grêmio.Net: Qual foi o momento mais difícil?Espinosa: O gol do Hamburgo. O jogo já estava no final e isso levaria a decisã...
A metódica, repetitiva - e eficiente - equipe do Hamburgo poderia ter protagonizadooutro resultado, se o Grêmio não tivess...
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Grêmio 1983 - Operação Tóquio

  1. 1. OPERAÇÃO TÓQUIO: 136 DIAS DE PREPARAÇÃODesde a conquista da Libertadores, no dia 28 de julho, até a final do Mundial, nodia 11 de dezembro, o Grêmio teria exatos 136 dias para se preparar. Foi umaverdadeira maratona, com 40 jogos neste período, mesclando a equipe titular e areserva.Equipe titular que havia sofrido uma baixa importante. Nem mesmo a vagaassegurada na grande decisão de Tóquio foi suficiente para que o meia Titadesistisse da idéia de retornar ao Flamengo após a conquista da Libertadores.Eterno reserva de Zico no time da Gávea antes de ser emprestado ao Grêmio,Milton Queirós da Paixão, o “Tita”, viu na venda do Galinho de Quintino para aUdinese da Itália a grande chance de assumir a camisa 10 do rubro-negro carioca,um antigo sonho. A vontade do jogador aliada à pressão do Flamengo por seuretorno tornou impossível manter o atleta no Olímpico.
  2. 2. Com a iminente perda de um dos seus principais jogadores na campanha daLibertadores, o Grêmio tratou de buscar um substituto a altura. Acabou trazendonão apenas um, mas dois substitutos: os experientes Mário Sérgio e Paulo CésarCaju. Este último já havia atuado pelo Tricolor em 1979, vencendo o Estadual.Mário Sérgio atuava pela Ponte Preta, e Paulo César foi trazido do Aix em Provence,equipe do futebol francês. Estavam aí os dois reforços visando a final de Tóquio quefizeram a torcida esquecer Tita.ToquiomaniaApós a conquista da Libertadores, a palavra “Tóquio” passou a fazer parte docotidiano dos gremistas, e a conquista do Mundial, no final do ano, virou umaverdadeira obsessão. Não só para os dirigentes e jogadores do Tricolor mas,principalmente, para a torcida.Torcedores começaram a se mobilizar para fazerem parte deste momentoinesquecível em solo japonês. Muitos trataram de vender bens pessoais para juntaros quase 3 milhões de cruzeiros (3 mil dólares) em um pacote de sete dias e vôocharter oferecido por diversas empresas de turismo da capital gaúcha.Quem não tinha condições, tratava de se associar ao clube na esperança de sersorteado com uma das 80 passagens oferecidas em uma promoção de marketingorganizada pelo Grêmio com o objetivo de chegar aos 80 mil sócios no ano em quecompletava 80 anos.Nos jogos disputados após a conquista da América, uma gigantesca bandeira doJapão destoava das demais no meio da torcida organizada Super Raça Gremista.As coisas do Japão passaram a significar símbolo de status entre a coletividadegremista. O consulado japonês em Porto Alegre, normalmente absorto em suatranqüilidade habitual, passou a receber diariamente a visita de dezenas detorcedores em busca de informações sobre o país do sol nascente. Sair de lá comum simples panfleto já era suficiente. Até mesmo o restaurante Sakae´s, na épocao único de culinária nipônica do estado, dobrou o número de clientes.Tudo graças à “Toquiomania” que tomou conta dos gremistas. Um envolvimentoemocional impressionante visando a decisão do Mundial. Algo jamais visto nahistória do Clube. Estava criado um quadro de otimismo e motivação que, somadoà indiferença dos alemães do Hamburgo, trazia a certeza da vitória.
  3. 3. Operação TóquioEm meio à disputa do Campeonato Estadual, a direção gremista resolveu instalar a“Operação Tóquio”, dando completa atenção à partida com o Hamburgo.Inevitavelmente, a competição estadual passou a ter um grau de importância bemmenor do que o habitual e o clube optou por utilizar uma equipe reserva na fasedecisiva da competição. A decisão acabou alijando com as possibilidades do Tricolorde retomar a hegemonia estadual e o clube ficou na terceira colocação, atrás deInter e Brasil de Pelotas.Entre as ações da direção gremista, houve um esquema de acompanhamento afundo da equipe alemã, com o apoio da imprensa gaúcha e de gremistas radicadosna Alemanha e uma excursão pela América Central. Com a proximidade da viagempara Tóquio, a diretoria gremista decidiu afastar o grupo da euforia que tomavaconta dos torcedores gremistas em Porto Alegre e concentrou a delegação nacidade de Gramado, na Serra Gaúcha. Longe da agitação, o grupo trabalhou fortesob o comando do preparador físico Ithon Fritzen.Em um dos trabalhos, Mário Sérgio sofreu uma lesão na região glútea após umaqueda e passou a ser dúvida. Além da lesão, o jogador acabou atingido por umaséria infecção intestinal responsável por uma debilitação física. Outro problemaera Osvaldo, sentindo dores na coxa.Após o período em Gramado, o Grêmio desceu a serra para um último compromissoantes do início da viagem marcada para a tarde de segunda-feira. No sábado, aequipe reserva havia sido derrotada pelo Brasil de Pelotas, no Bento Freitas, dandoadeus ao campeonato gaúcho, e no domingo, no Olímpico, em um amistoso dedespedida, o time principal acabou derrotado pelo Novo Hamburgo pelo placar de 1a 0.O resultado não abalou a confiança da torcida gremista que prometeu lotar oaeroporto Salgado Filho antes do embarque.
  4. 4. VIAGEM ATÉ O OUTRO LADO DO MUNDODia 05 de dezembro de 1983, segunda-feira, 17h30, um vôo da Varig levando 170passageiros, entre eles os atletas gremistas, decolava do aeroporto Salgado Filho,em Porto Alegre, tendo como destino final o aeroporto de Narita, no Japão. Comeles, embarcava a esperança de milhares de torcedores ansiosos com a decisão doMundial Interclubes.A despedida emocionada de centenas de gremistas no aeroporto da capital gaúchafez com que o início de viagem fosse marcado por um clima de alegria e confiança.Ninguém demonstrava preocupação com o desgastante vôo.Porto Alegre - Rio de Janeiro – LimaA primeira parada foi no Rio de Janeiro, onde a delegação trocou para um aviãomaior. No mesmo vôo, embarcaram os jogadores do time Estrelas da América, umaequipe com atletas e ex-atletas da América do Sul que faria jogos amistosos nosEstados Unidos.
  5. 5. As presenças de Rodolfo Rodriguez, Romerito, Rodrigues Neto, Carlos AlbertoTorres e Figueroa, entre outros, causou rebuliço no avião. O zagueiro chileno, ex-Internacional, foi alvo das brincadeiras de gremistas e acabou tendo que vestir umacamisa do Grêmio, para alegria dos fotógrafos.O carteado foi a principal distração encontrada pelos passageiros para ocupar olongo tempo ocioso dentro da aeronave. Jogos animados entre atletas, torcedores ediretoria ocupavam as atenções dos demais. Poucos permaneciam em seus lugares,e a caminhada pelos corredores foi a alternativa para a bem-vinda esticada deperna. Depois da janta e com a chegada da madrugada, as luzes foram apagadas ea maioria, derrotada pelo cansaço, caiu no sono.A chegada em Lima ocorreu por volta das 3h30 de terça-feira, com escala de umahora para reabastecimento. Alguns passageiros se aventuraram a descer do aviãopara fazer compras no aeroporto, mas prontamente retornaram de mãos vaziasreclamando dos altos preços cobrados pelos comerciantes locais.Lima - Los Angeles – NaritaPor volta das 10h de terça-feira, dia 6, já com o sol brilhando do lado de fora dajanela, foi servido o café da manhã. Muitos já estavam de volta ao carteado,acompanhado do chimarrão. O avião se aproximava de Los Angeles, nos EstadosUnidos, local da última escala antes do trecho mais longo da viagem.Com o aeroporto de Los Angeles em reforma, os passageiros tiveram que aguardarem um local improvisado, dentro de um galpão inflável, até o anúncio da saída danova aeronave. Dali para o Japão seriam mais 11 horas de vôo.A constante mudança no fuso horário acabou confundindo todo mundo. A discussãoa respeito do horário durou um bom tempo. Uns tinham mudado o relógio para ohorário do Peru, outros para os Estados Unidos, mas a maioria optou por nãomexer. Na verdade, a discussão foi só mais um pretexto para passar o tempo.
  6. 6. O técnico Valdir Espinosa, sabidamente temeroso quando entra num avião, jádeixara de ser o alvo das brincadeiras. Acostumado com os barulhos das turbinas ecom as turbulências, passou algumas horas na cabine de comando, onde recebeuuma aula de pilotagem.De León, Mazarópi, Caio,Tonho e o próprioEspinosa, contavam coma presença de suasesposas no vôo. Umaconcessão da diretoriagremista após apelo deMargarita, esposa docapitão uruguaio. Delegação tricolorEnfim, depois deintermináveis 36 horasde viagem, o avião levando a delegação gremista (foto) aterrissou no aeroporto deNarita, no Japão. Eram 2h da manhã de quarta-feira no Brasil, 14h no Japão. Treinamentos em TóquioFeito todo o trâmite de entrada no país, a delegação gremista sofreu o primeirochoque cultural tendo em vista o avanço tecnológico e as modernidades japonesas.Isso sem falar no idioma. Nenhum letreiro que não tivesse a tradução para o inglêspoderia ser identificado.Sensível a estes problemas, a Toyota, patrocinadora do Mundial, colocou cincotradutores à disposição da delegação 24 horas por dia. Com a ajuda deles, todos osproblemas de alfândega foram solucionados até a delegação embarcar em umônibus especial com destino ao local da concentração, no centro de Tóquio.
  7. 7. Um grande contingente de brasileirosaguardava no saguão do Hotel Prince pelachegada da delegação gremista. O trajeto deNarita até o hotel durou aproximadamenteduas horas, um sacrifício pequeno para quemjá havia passado 36 horas em deslocamento.A recepção foi carinhosa, ao estilo japonês, eanimada, ao estilo brasileiro.A grande maioria dos gremistas preferiusubir para os quartos para tomar banho edescansar em uma cama de verdade. Odelicioso jantar foi servido às 20h15, horáriolocal. Uma hora depois, a programaçãodistribuída pelo clube anunciava que osatletas deveriam se recolher aos aposentos.O principal objetivo agora era adaptar oorganismo dos jogadores ao fuso horário Hotel Princelocal.Depois de aproximadamente 11 horas de descanso, a delegação gremistadespertou às 9h da manhã de quinta-feira para o desjejum no restaurante do hotel.Uma alimentação leve, para não interferir no treinamento marcado para o meio-diaem um centro de treinamento próximo ao hotel.O horário foi decidido pela comissão técnica por coincidir com o horário da partidade domingo. O estádio Nacional, local do jogo, só seria disponibilizado no sábadopara um rápido reconhecimento do gramado.Valdir Espinosa e Ithon Fritzen comandaram um trabalho leve tanto na partetécnica quanto física. Alguns jogadores demonstraram bastante desgaste depois daviagem de 36 horas. A baixa temperatura, em torno de 6°C, também não ajudava.O treinador gremista afirmou que manteria os trabalhos leves em todos os treinosaté a partida pois o trabalho mais forte já havia sido realizado em Gramado.Tarciso sentiu dores musculares durante o vôo e foi observado pelo DepartamentoMédico. China ainda se recuperava de uma entorse no tornozelo e Mário Sérgioapresentava um quadro gripal. Porém, nenhum chegou a ser dúvida para o jogo. Oponto positivo do dia foi que ninguém mostrou problema de adaptação ao fusohorário.
  8. 8. O Estádio NacionalInaugurado em 1958 para a disputa dos jogos asiáticos, o Estádio Nacional deTóquio, até a Copa do Mundo de 2002, era o maior orgulho do país em matéria defutebol. Em 1964, foi palco dos Jogos Olímpicos e, três anos depois, sede daUniversíade. Atualmente, recebe partidas do FC Tokyo e do Verdy Tokyo.Com capacidade oficial para 60.067 espectadores, o Estádio Nacional é um pontode referência para os esportistas japoneses por sua localização central eprivilegiada. Seu complexo esportivo, que conta com dois campos de baseball, ficaao lado do prédio do Arquivo Nacional, dentro do Meiji Jingu Gaien Park, uma áreaverde freqüentada por jovens em busca de lazer e exercícios físicos.Sábado, meio-dia, faltando 24 horas para o início da decisão, a delegação gremistadesembarcou no local da partida para o reconhecimento do gramado. O mesmoseria feito pela equipe do Hamburgo horas depois.O gramado queimado pela neve do rigoroso inverno japonês deixou uma máimpressão, mas que foi prontamente desfeita quando os atletas começaram a fazera bola rolar. Apesar de duro, amarelado e desgastado pelo frio, o piso mantinha aqualidade para a prática de um bom futebol. Os jogadores acabaram optando pelouso de travas de borracha nas chuteiras. Agora só restava ao Grêmio esperar asúltimas horas antes da maior decisão de sua história. DIAS NERVOSOS ANTECEDERAM A DECISÃOA equipe de Zero Hora acompanhou o Grêmio ao Japão, registrando atensão que marcou a véspera do grande jogo com os alemãesO Grêmio saiu de Porto Alegre rumo à Tóquio na fim da tarde de 5 de dezembro deI983, uma segunda-feira.O ponteiro-direito Renato fez uma promessa no embarque: "Eu vou trazer essetitulo", disse o jogador. A viagem foi num DC-10, com 180 passageiros e 600 quilosde bagagem só do Grêmio. Houve escalas no Rio de Janeiro, em Lima e em LosAngeles, e durou 32 horas por causa também de um atraso logo na saída: umacriança acionou o alarme de incêndio quando o avião já estava na metade da pistae ele perdeu a pressurização, tendo que voltar ao pátio do Aeroporto Salgado Filho. Enquanto o fotógrafo escalado por Zero Hora, Luís Ávila, viajava com oGrêmio, o repórter já estava na Alemanha, observando o Hamburgo. O time alemãoainda jogou na quarta-feira a noite, dia 7, debaixo dos primeiros flocos de neve
  9. 9. daquele inverno europeu, e só viajou quinta-feira de manhã. Na tarde de quarta-feira, o técnico Ernest Happel havia mostrado o teipe de uma partida do Grêmio aseus jogadores - a decisão da Copa Libertadores. O arrogante Happel, austríaco,solicitara especial atenção para um jogador: Tita. Happel não sabia que o jogadornem era mais no Grêmio, perguntou como ele estava e como resposta recebeu umestá muito bem. No domingo, após a partida, o técnico estava uma fera.Harttwig chega brincandoVai ser um longo vôo", disse quinta-feira de manhã o talentoso meio-campoMagath, usando uma expressão alemã, `plusflug (`vôo plus), olhando distraídopela janela do seu automóvel Mercedes a neve que começava a cair em Hamburgo.O `Ha Es Fau,, HSV, Hamburg Sport Verein, chegou à Tóquio sexta-feira à noite,após escalas em Copenhague, Dinamarca, e Anchorage, Alasca. A delegação viajousem uniforme, e o gozador meio-campo Jimmy Harttwig, negro e filho de umsoldado norte-americano com uma alemã, saiu correndo na frente para fazer maisuma brincadeira: "Esses caras que vem ai são jogadores de futebol?" ,perguntouaos repórteres japoneses, e passado sem ser reconhecido com uma camisa xadrez. As duas delegações ficaram no mesmo hotel, o Prince do centro de Tóquio,perto de uma torre de TV semelhante a Eiffel, e que nos cartões postais faz muitagente confundir a capital do Japão com Paris. Os dois times tiveram um frioencontro no treino de reconhecimento do Estádio Nacional do Japão, sábado demanhã. Cada um teve uma hora para treinar e a grama baixa e entrelaçada estavaseca, quase morta.Espinosa acorda irritadoO técnico Valdir Espinosa acordou irritado, domingo, e foi tomar café no andartérreo do Prince Hotel: torradas com presunto, laranjada e um ovo frito (a 15dólares, preço absurdo mas normal para o padrão japonês). O atacante César, umdos dois jogadores que acabaram nem ficando no banco de reservas (o outro foiTonho), circulava cabisbaixo com um dos chaveiros que tinha mandado fazer,"César, o gol da Libertadores". Os outros três reservas que ficaram no banco foramBeto, Leandro e Robson. O Prince tinha sido local de pelo menos dez casamentos japoneses na noite desábado, em seus diversos salões espalhados pelos 13 andares do prédio. O medicodo Grêmio, Ziuton Bohmgahren, teve uma surpresa: reencontrou no saguão uma
  10. 10. blusa que havia esquecido sobre uma floreira, embora milhares de pessoastivessem passado pelo local na noite anterior. Não era o movimento dos casamentos que tinha irritado Espinosa: elecontinuava brabo era com Happel, que na véspera havia recusado ostensivamentea mão do seu colega brasileiro estendida em cumprimento. "Ele me paga",prometeu Espinosa, que jamais perdoou a afronta.Renato quase briga com CajuO Grêmio já havia treinado nos subúrbios de Tóquio na quarta-feira e na quintaocorreu um incidente entre Renato e o meio-campo Paulo César Lima. Renato haviacobrado mais esforço do companheiro, que não gostou. "Eu tenho bagagem, garoto, eu sou da seleção brasileira que ganhou a Copado Mundo de 1970", provocou PC. "E eu vou quebrar a tua cara", respondeuRenato, já pronto para partir para a briga. Outros jogadores, principalmente ogoleiro Mazaropi e o zagueiro De León, conseguiram evitar o incidente.Na manhã do jogo, o roupeiro do Grêmio, Hélio, descobriu que tinha uma tarefainesperada: achar uma loja aberta em Tóquio no domingo para comprar meiasescuras. A TV exigia contraste total entre as duas equipes e o Hamburgo já haviaconcordado em jogar com o uniforme reserva: camisa branca, calções vermelhos emeias brancas.
  11. 11. Foi por isso que o Grêmio, com sua camiseta tricolor, jogou de calção branco emeias azul-escuro, numa estranha tonalidade azul que Hélio encontrou perto dohotel. O roupeiro do Hamburgo, o velho senhor Tominsky, tinha passado a noite desábado descosturando o logotipo "BP" - da British Petroleum - do peito dascamisetas alemãs, por exigência do patrocinador do jogo, a Toyota.Ithon comenta a grande chanceJá na quinta-feira, num encontro casual, Valdir Espinosa tinha reunido os 18 jogadores no apartamento do preparador físico Ithon Fritzen. "Serão os 90minutos mais importantes da vida de vocês e do próprio Grêmio", disse Espinosa."Muitas gerações de gremistas, inclusive mortos, ajudaram o clube a chegar ateesse dia, e é por isso que esse jogo é tão importante", completou Ithon. "Nãopodemos perder essa chance".Meio-dia de domingo no Japão, zero hora de domingo em Porto Alegre: começa ojogo. O Grêmio sai na frente. O Hamburgo empata no fim. Antes da prorrogação,quando o Grêmio já havia esgotado as suas duas substituições, a pessoa maiscalma da delegação era o vice-presidente de futebol, Alberto Galia. Gentilmente,ele foi ao vestiário para buscar um distintivo solicitado pelo jornalista alemão PeterBrandenberg.O resto da historia e conhecido: o Grêmio ganhou, o carnaval da vitória estourouem Porto Alegre, Espinosa cumpriu a decisão de pedir demissão depois do jogo, otime fez um jogo com o América, do México, em Los Angeles na volta, e houvedesfile em carro dos bombeiros quando o grupo finalmente retornou a Porto Alegre.O mundo tinha sida pintado de azul.
  12. 12. VITÓRIA NA PRORROGAÇÃOGrêmio 2 x 1 HamburgoO Grêmio entrou no campo do Estádio Nacional de Tóquio, no dia 10, com umgrande compromisso. Precisava vencer o Hamburgo da Alemanha, e comprovar quetodo um trabaIho de direção estava certa. Apostavam nesse título depois daLibertadores e era imprescindível conquistá-lo.PRIMEIRO TEMPODe León escolheu o lado esquerdo do campo para o time gaúcho. O Hamburgo saiucom a bola com bons toques e muita movimentação dos jogadores. Mostrava-semais à vontade e tinha um contra-ataque rápido. China fez o primeiro ataque a1min e 18seg. Aos 4 min o Grêmio perde a primeira oportunidade de marcar umgol, no escanteio.Até os 38 minutos, quando Renato fez o primeiro gol, o jogo foi escasso, semqualidade, não envolvendo sequer os torcedores que acompanharam o time do RioGrande do Sul. O Grêmio se caracterizava muito nervoso, impreciso. O gol emjogada de Paulo César Lima para Renato, que marcou, começou a dar o gosto decampeão ao time. Até então, individualmente, os atletas quase não tinhamaparecido. Tarciso não acertava nas conclusões. Mário Sérgio sem participaçãodireta em jogadas. Osvaldo fez apenas marcação. Paulo César Lima, em umaposição que não era a sua, praticamente se perdeu em campo.O primeiro tempo foi um jogo indefinido, sem jogadas de frente. O Grêmio nãoconcluia e as jogadas eram lentas demais para uma equipe acostumada a atacar. OHamburgo fazia uma marcação individual, provocando vários impedimentos e osgaúchos, talvez, nervosos pela situação, estavam muito imprecisos em seusarremates. Os alemães, por sua vez, tinham um contra-ataque rápido. Mesmoassim não passaram pela zaga.Mazaropi fez apenas uma defesa, aos 43 minutos.
  13. 13. SEGUNDO TEMPOCom o gol, o Grêmio entrou em campo com mais energia. Todos os jogadorespareciam mais decididos a segurar o marcador.Paulo César Lima, no primeiro minuto, sozinho já frente ao goleiro Stein poderia terfeito o segundo gol e consolidado a vitória, mas desperdiçou a oportunidade.A grande atuação a partir daí, ficou por conta do jogador Jakobs da Alemanha. Eleteve participações excelentes na área e evitou que todos os ataques adversáriosfossem concretizados. Aparecia nos momentos decisicos, como aos 7minutosquando China tentou o gol.Aos 10, a primeira e única falha do excelente juiz francês Michael Vautrot. Deixoude dar um pênalti de Hieronymus que derrubou Renato na área. O Jogo correu semlances emocionantes. Quatro minutos depois o Hamburgo demonstrava já ocansaço de uma maratona de jogos. Não apresentava ataque. Espinosa faz suasduas substituições possíveis.Aos 24 entra Caio para o lugar de Paulo César Lima. Aos 33, Bonamigo porOsvaldo. Caio marcou presença com dois ataques. Nesta fase, três cartõesamarelos, primeiro para o goleiro Stein e depois para Caio e Mazaropi. Aos 39 dotempo complementar Renato fica na lateral do gramado com cãibras. Um minutodepois, uma confusão na área e acontece o empate através de Schröder. Faltavamapenas cinco minutos para a concretização do objetivo gremista.Mas uma bola alta, a arma dos alemães, falha do Grêmio prorrogou a festa.Com essa jogada, que pegou Mazaropi desprevenido, o Grêmio praticamenteperdeu seu ritmo. O tempo regulamentar encerrou e Espinosa não podia mais fazersubstituições.
  14. 14. PRORROGAÇÃOAntes do time entrar em campo na prorrogação, quando o jogo estava empatadoem um gol, o técnico Espinosa pedia a seus jogadores que forçassem mais efizessem marcação na frente.Logo no início, China começa a sentir a lesão no tornozelo. Mas isso provoca umareação positiva no time. Em jogada de Caio, pelo lado esquerdo, Renato,novamente aparece oportunamente e marca o segundo e decisivo gol, aos 3minutos. Mais dois cartões amarelos foram distribuídos, aos 13 para Renato, queacatou sem reclamar e aos 14 para Hartwig. O Grêmio que tratou daí em diante emapenas tocar a bola e resistiu bem posicionado.Mas na verdade, o dono da prorrogação foi o alemão Jakobs que apareceu emtodas as posições. De zagueiro a centro avante na tentativa desesperada de tentarmais um empate e a decisão para os pênaltis. Não deu.Grêmio foi, então, o campeão do mundo. RENATO CUMPRE TRATO E FAZ OS DOIS GOLSO acordo feito pelo atacante com Mazaropi foi um dos detalhes com que osjogadores costuraram a vitória que se tornou inesquecível para os gremistasO primeiro gol com o pé direito, o segundo com o esquerdo - e Renato cumpriu otrato feito com Mazaropi antes do jogo. "Segura ai atrás e eu garanto lá na frente",propusera o atacante. "Ele se engajou no grupo e foi importantíssimo no jogo",lembra o antigo vice-presidente de futebol do Grêmio, Alberto Galia.Galia teve que resolver um problema entre a Libertadores e o Mundial: substituirTita, que resolvera voltar ao Rio e ao Flamengo. Por isso, primeiro o Grêmio foibuscar Paulo César Lima. Mas Espinosa continuava querendo também Mário Sérgio,apesar de algumas resistências internas. O técnico foi ver um jogo do Hamburgo naAlemanha e voltou com uma frase pronta: "Com o Mário Sérgio vamos sercampeões do mundo". Ele dizia que a velocidade que o jogador daria aos atacantesdesmontaria o mecanismo do Hamburgo.O Grêmio trouxe Mário Sérgio e ele realmente desmontou os alemães, alem de terse divertido muito, com seu olhar vesgo e debochado: era bola para um lado ejogador do Hamburgo para outro. No fim ajudou também no meio do campo,enquanto China, machucado, só seguia jogando, heroicamente, porque assubstituições do Grêmio já estavam esgotadas. O Vesgo só se irritou depois dojogo, quando descobriu que alguém tinha levado a sua medalha de campeão domundo.
  15. 15. "Eu acho que só sentimos a importância do titulo quando voltamos a Porto Alegre,no meio daquela comemoração incrível da torcida", admite hoje Alberto Galia. "Ocalor era de queimar, e nos atiramos gravatas e camisas para os torcedores",lembra Mazaropi, chegando aos arrepios."Um rapaz correu do lado do caminhão de bombeiros desde o aeroporto até oOlímpico, e nós pedíamos para subir, mas ele respondia, não, não, eu querocorrer". Mazaropi salva no último minutoO goleiro Mazaropi jamais vai esquecer o último dos 120 minutos da decisão doMundial. Escanteio contra o Grêmio. O zagueiro-central do Hamburgo, Jakóbs, estánovamente no ataque e consegue cabecear a bola para o chão. Mazaropi se abaixainstintivamente, calculando que a bola, se vier para o gol, virá rasteira. E foi a suasorte. "Eu só via um monte de pernas na minha frente e, quando enxerguei a bola,ela estava vindo pelo bico da pequena área, passando entre as pernas do De León",arrepia-se Mazaropi. "Foi numa fração de segundo, e como último recurso conseguifazer uma tesoura e defender com os dois joelhos - se ela entra, o Hamburgoempata e a decisão vai para os pênaltis".O técnico Valdir Espinosa, um ano mais velho do que Mazaropi, tinha apenas 35 emdezembro de 1983. "Cada um ajudava o outro, todos respeitavam os seus limites efoi assim que ganhamos esse título que para mim foi o mais importante da vida",diz Espinosa pelo telefone, de sua residência no Rio de Janeiro. "O Casemiro perdeua posição para o Paulo César Magalhães depois de uma lesão, por exemplo; navolta de Tóquio para Porto Alegre, ele entrou no time que jogou com o América, doMéxico, em Los Angeles, e no fim veio me dizer que estava sem ritmo e foi bomnão ter jogado contra os alemães.Sinceridade: esta foi outra palavra-chave para o Grêmio alcançar e superar odesafio de Tóquio, acredita Mazaropi. "Cheguei para o Grêmio em 1983 mesmo, eantes de um jogo em Santa Maria o Espinosa me chamou e disse que o goleiro queia jogar era o Beto porque a minha inscrição para a Libertadores, fora do prazo, eraincerta", recorda o goleiro. "Ele era o treinador, não precisava explicar nada, masera assim que a coisa funcionava". A visão de Espinosa antes e o vinho francês depoisPaulo César Magalhães não era apenas o jogador mais jovem ao Grêmio na decisãocontra o Hamburgo: ele mesmo informa que também é o mais jovem de todos oscampeões na história do mundial de clubes. Só no estádio ficou sabendo que iajogar. "Eu era companheiro de quarto do Renato, que era superamigo do Espinosa,e de manhã perguntei: e dai, Renato, será que eu entro, o homem falou algumacoisa?", lembra Paulo César. "Quando ele disse não sei, o Spina não me falounada, achei que estava fora".
  16. 16. O outro jogador da posição, Casemiro, era mais experiente. Mas o pessimismo dePaulo César começou a desaparecer na saída do apartamento, domingo de manhã,quando encontrou Espinosa sozinho no corredor. "Eu ia tomar café, o Renatopreferiu fica no quarto e vi o Espinosa saindo do quarto dele, a uns cinco metros",relata Pauto César. "Tremi, pensa, bom, agora ele vai dizer que estou fora, mas oSpina se virou e, quando me viu, olhou de um jeito que me deu confiança, botou amão no meu ombro e perguntou como é que tu estás, negrinho? Aí eu senti que iajogar".A confirmação, porém, só veio no vestiário do estádio, na preleção. "Depois disso, oSpina ainda falou comigo, com o De León e o Caio Soró num canto do estádio, econtou que havia tido uma visão, um sonho, de que eu tinha que jogar para oGrêmio ser campeão", lembra Paulo César. Acusado de ser muito ofensivo, elejogou como sempre - isto é, atacando. "No início do segundo tempo o Mário Sérgiometeu uma bola longa e eu quase fiz o gol, e aí mataria o jogo, mas um jogadordeles conseguiu tirar de carrinho", recorda o lateral. "À noite, fizemos a festa davitória no apartamento do Paulo César Lima, e foi a primeira vez na minha vida quetomei vinho francês". A GLÓRIA DEPOIS DE 120 MINUTOS TENSOSEste texto foi publicado por Zero Hora na madrugada do dia 11 dedezembro de 1983, na dez anos, na edição que circulou logo depois que oGrêmio se tornou campeão do mundo. O Grêmio conquistou o título inédito de campeão mundial interclubes de umaforma inesquecível e graças, principalmente, a dois verdadeiros heróis: Renato, quemarcou dois golaços - aos 38 minutos do primeiro tempo e aos 3 minutos daprorrogação - e Mazaropi, que realizou defesas milagrosas e só não conseguiuevitar o empate dos alemães aos 41 minutos do segundo tempo, através deSchröder. Foi, enfim, uma vitoria maravilhosa e, sobretudo, justa pelo melhordesempenho gremista durante os 120 minutos. O Grêmio começou a partida de maneira inesperada para um time que treinoutanto e se preparou intensamente para ganhar o título mundial. Inesperada porquenão conseguia fazer em campo nada do que havia planejado cuidadosamentedurante todo o período que antecedeu a decisão. O time estava bem posicionadoem campo, mas errava muitos passes.
  17. 17. O Hamburgo não chegava a ter o domínio do jogo, mas conseguiu criar lancesperigosos diante de alguns erros defensivos do Grêmio, contornados pela boapresença de Mazaropi, ou pela atenção de Baidek como último zagueiro. Passadosdez minutos, o Grêmio acalmou-se em campo e passou a trocar passes com acerto,mas só foi chutar a primeira bola contra o gol de Stein aos 18 minutos - PauloRoberto, de longe, forte, mas para fora. GOLS - No entanto, o Grêmio começou a crescer em campo e, aos poucos, foiimpondo seu jogo de toque e habilidade. Aos 38 minutos, numa jogada individualem que driblou seu marcador três vezes, Renato chegou a linha de fundo e bateurasteiro entre a trave e o goleiro, fazendo 1 a 0. Esse gol, sim, estabeleceu outracondição na partida: o Grêmio se tornou o time mais tranqüilo, com mais técnicapara realizar suas jogadas exatamente assim que começou o segundo tempo,inclusive criando várias oportunidades de gol. Logo a um minuto, Mário Sérgio deixou Paulo César Magalhães na frente deStein, mas demorou e houve tempo para que defesa conseguisse aliviar paraescanteio. Aos quatro minutos Osvaldo lançou Tarciso, que também demorou epermitiu que Jakobs tocasse a escanteio. Aos oito minutos Renato driblou Schrödere foi derrubado por trás, na área - pênalti que o juiz francês Vautrot não marcou. O problema é que o Hamburgo ainda tinha forças para reagir e comfreqüentes bolas altas sobre a área do Grêmio criava diversas dificuldades para adefesa gaúcha que resistiu como pode, até com alguns erros, consertados pelocompanheiro mais próximo. Aos 41 minutos, em mais uma bola alta, Schröderacabou recebendo sozinho na pequena área, tendo tempo para o domínio e para ogiro de pé direito - o 1 a 1 tirava o titulo que o Grêmio já merecia naquelemomento. PRORROGAÇÃO - Os dois times estavam visivelmente cansados naprorrogação e se esperava um jogo lento. Mas o gol de Renato logo aos trêsminutos mudou a situação e o resto da partida foi disputado velozmente, com garrae disposição inesperadas para duas equipes esgotadas. Os alemães utilizaram amesma bola alta do tempo regulamentar, mas desta vez o Grêmio resistiu bem econquistou o título mais importante de sua história e do futebol gaúcho.
  18. 18. OS GOLS RENATO para o Grêmio, 1 a 0 aos 38 minutos do primeiro tempo, depois detrês dribles sobre Schröder, o ponteiro-direito chutou forte de direita, cruzado, nocanto esquerdo de Stein. SCHRÖDER para o Hamburgo, 1 a 1 aos 41 minutos do segundo tempo: Rolfcobrou uma falta sobre a área, Jakobs tocou de cabeça para Schröder, no meio daárea, concluir certo. RENATO para o Grêmio, 2 a 1 aos três minutos do primeiro tempo daprorrogação: boa jogada de Caio pela esquerda - no cruzamento, Renato dominouno centro da área e completou de pé esquerdo. O Rio Grande do Sul parouO ponto de concentração da torcida gremista aconteceu na rua Érico Veríssimo, naesquina com a avenida Ipiranga, ao lado do prédio do jornal Zero Hora. A empresadisponibilizou um telão gigante para a transmissão da partida que reuniuaproximadamente 8 mil pessoas.No Olímpico, centenas de conselheiros e familiares se reuniram no Salão Nobre doConselho Deliberativo, enquanto outro grupo de gremistas das torcidas organizadasacompanhou em um pequeno televisor na sala do Departamento Eurico Lara.Após o apito final, todos confraternizaram e seguiram a pé para o prédio da ZeroHora. Milhares de gremistas em todo o Estado invadiram a madrugada de domingoaos berros e buzinaços para comemorar a grande conquista.A festa seguiu durante toda a semana até o retorno da delegação, que reuniumilhares de pessoas nas ruas da capital para acompanharem de perto o desfile docaminhão do corpo de bombeiro trazendo os campeões mundiais. Um momentoinesquecível para quem vivenciou e para quem só acompanhou as imagens anosdepois.Grêmio Campeão do Mundo. Nada pode ser maior...Parabéns Grêmio.Parabéns torcedor gremista.
  19. 19. CARNAVAL EM DEZEMBROO Grêmio ganha o Campeonta Mundial de Clubes e brilha na entre-safra dofutebolNa Espanha, com seu "futebol-maravilha", a seleção de Telê Santana perdeu aCopa do Mundo e os exigentes torcedores brasileiros foram implacáveis: de queadiantara formar um time de artistas se a vitória não viera? Em Tóquio, no últimodia 11, o Grêmio Foot-Ball Porto Alegrense exibiu seu jogo de muita aplicação epouca inspiração e, ao ganhar por 2 a 1 do Hamburgo, da Alemanha, depois deuma prorrogação de 30 minutos, conquistou o título do Campeonato Mundial deClubes.Sempre exigentes, torcedores de outros times lamentavam a falta de grandesjogadas e toques mágicos ao longo de uma partida transmitida pela TV paramilhões de espectadores em todo o planeta. Os gremistas não tinham do que sequeixar: fiéis ao código das paixões do futebol, eles improvisaram um carnaval emdezembro para festejar, em Porto Alegre, o mais luminoso título já alcançado emtoda a história do clube."Qual o país que, vivendo uma crise de entre-safra como a que estamosatravessando, consegue fazer dois campeões mundiais em apenas três anos?",desafia Giulite Coutinho, presidente da Confederação Brasileira de Futebol. Em1981, também em Tóquio, o Flamengo ganhou o Mundial de Clubes. Mas o desastrena Copa da Espanha e depois as desastradas atuações da seleção formada pelotécnico Carlos Alberto Parreira pareceram empurrar para o passado o feito doFlamengo - e deram aos brasileiros a impressão de que alguns anos passariam atéa volta dos grandes títulos. Na quinta-feira, contudo, sob a ovação da torcida, osjogadores do Grêmio desembarcaram em Porto Alegre com as faixas de campeõesmundiais.Avião fretado - Gremistas históricos reconhecem que o time atual não chega a serbrilhante, como é o caso do ex-presidente Emílio Medici. De qualquer modo, tevecompetência suficiente, além de muita valentia, para vencer um adversário queganhou o campeonato europeu e acaba de ser eleito pela revista inglesa WorldSoccer a melhor equipe do ano em todo o mundo. Até o zagueiro uruguaio Hugo deLeón, capitão do Grêmio, pudesse erguer a taça em Tóquio, o time gaúcho teve decumprir uma dura, demorada trajetória, durante a qual se viu compelido a mexerna equipe e nos cofres. O atacante Tita, por exemplo, um dos heróis da conquista
  20. 20. da Libertadores, em julho, foi requisitado pelo Flamengo, que o emprestara aoGrêmio, e abriu vaga para o veternao Paulo César Caju, responsável por umabisonha atuação no jogo de Tóquio.Nos quatro meses que durou a preparação, p Grêmio gastou 300 milhoões decruzeiros - quantia equivalente aos 300 000 dólares pagos pelos patrocinadoresjaponeses - em requintes como concentrar os jogadores na estância climática deGramado, importar teipes de partidas do Hamburgo ou fretar um avião DC-100para levar 300 pessoas a Tóquio. Enquanto espera que a repercussão da vitóriadesperte interesse de clubes de outros países por exibições da equipe, o Grêmiotrata de resistir ao assédio que começa a desenhar-se, em dólares, sobre o ponta-direita Renato, autor dos dois gols da decisão. "Sou jovem, estou no auge da minhacarreira e tenho mais é que ganhar dinheiro", avisa Renato.Na semana passada, com a definição de vários campeonatos estaduais e o virtualencerramento da temporada futebolística de 1983, Renato era um dos astros deuma rarefeita constelação onde só o corintiano Sócrates reluz com brilho especial. Medici acha que o futebol perde substânciaUm gaúcho de 78 anos resolveu interromper seu retiro de verão no último dia 9,uma sexta-feira, para percorrer de carro, em companhia da mulher, os 424quilômetros de asfalto que separam Dom Pedrito, perto da fronteira com o Uruguai,de Porto Alegre. Pouco antes da meia-noite de sábado, sentado siante do televisor,o ex-presidente Emílio Garrastazzu Medici não via nenhum exagero em mais umaexemplar exibição de amos ao futebol e, especialmente, ao Grêmio. "Na fazenda, atelevisão não pega tão bem", explicou."O jogo foi muito duro, emocionante durante todo o tempo", comentou mais tarde.A prorrogação de 30 minutos submeteu-o a mais emoções, ao fim das quais sedeclarou "muito feliz". "Também, não é brincadeira: o Grêmio é o campeão domundo", pondera. Medici ressalva que não é calouro em emoções do gênero - em1981, o Flamengo, seu time no Rio, também trouxe a taça de Tóquio. Mas a vitóriado Grêmio tem abor adicional de permitir alfinetas nos torcedores do Internacional,
  21. 21. velhos rivais. Assim, ele afirma que o Inter só ganhou o campeonato gaúchoporque o Grêmio preferiu poupar-se para o título mundial.O ex-presidente sustenta que o Grêmio já teve times melhores. "Os dos últimosanos, por sinal, eram superiores ao atual", compara. E, embora ressalve queninguém pode impedir um jogadores de tomar o rumo que quiser", mostra-sepreocupado com os rumores em torno da venda do ponteiro Renato a um clubeitaliano. Preocupa-o, aliás, a situação do futebol brasileiro, sangrado pela venda decraques ao exterior. "O futebol brasileiro não está bem", lamenta. "Está perdendosubstância." Para Medici, o triunfo do Grêmio foi um caso isolado, não um sinal derecuperação de um futebol que vive uma fase de entre-safra. A vitória do Grêmiofoi um caso isolado também no mundo das paixões futebolísticas do ex-presidente.São-paulino, amargou em São Paulo o triunfo do Corinthians. Flamenguista, sofreuno Rio com a vitória do Fluminense. Mas acha que o ano foi muito bom. "Afinal",diz, "sou torcedor do campeão do mundo." CARNAVAL EM TÓQUIOO Grêmio ganha o Campeonta Mundial de Clubes e brilha na entre-safra dofutebolMário Sérgio cadencia o jogo no meio-campo. China combate cada alemão queameaça chegar próximo à área gremista. Baidek e De León afastam o perigoquando ele ronda o gol de Mazaropi. E todos põem Renato para correy. Pela pontaou pelo meio, o jovem atacante gaúcho é o terror da zaga do Hamburgo na final doCampeonato Mundial Interclubes de 1983, em Tóquio. Ele faz a zaga alemã batercabeça desde o apito inicial do juiz Michel Vautrot, com um repertório de dribles dedeixar tonto até o mais brilhante lateral. Quanto mais o fraco Schröder.Aliás, os alemães têm motivos de sobra para estar zonzos. Hoje não enfrentamtimes argentinos e uruguaios, que fazem da raça sua única arma para vencer e quese acostumaram a decidir assim os mundiais interclubes. O Grêmio é diferente.Toca a bola de pé para pé. De Máiro Sérgio para Osvaldo. Daí, para Paulo CésarCaju - e a esticada longo para a arrancada de Renato.O Hamburgo se limita apenas a alçar bolas sobre a área brasileira, sem saber comofugir da marcação adversária. Já a jogada de Renato se repete durante todo oprimeiro tempo, deixando os 60 mil japoneses presentas ao estádios de olhosredondos como pequenas uvas negras, enquantos os torcedores gaúchos, queassistem à partida nos telões colocados na esquina das Avenidas Ipiranga e ÉricoVeríssimo, em Porto Alegre, abrem largos sorrisos emocionados. Afinal, o Grêmionunca esteve tão próximo de se tornar o melhor time do planeta. Por isso, ninguémarreda pé, mesmo que já seja quase uma hora da manhã - a partida começou aomeio-dia de Tóquio.E o time tricolor volta ao ataque de novo com Renato. Sempre ele. Agora, o pontainvade a área, corta o lateral Schröder três vezes, para lá, para cá, e fuzila, mesmosem ângulo. Gol do Grêmio. Os japoneses aplaudem, encantados com o que vêem.O baile sai do campo e incendeia Porto Alegre em um fantástico carnaval. Nosegundo tempo, a estratégia continua sendo a mesma. O Hamburgo tenta sair para
  22. 22. o ataque. Cada vez, porém, que a bola cai nos pés brasileiros, os jogadores doHamburgo lembram-se do aviso do ex-zagueiro Schultz, que se notabilizoumarcando Pelé nos anos 60. "é preciso muito cuidado, porque os brasileiros sãocapazes de lances imprevisíveis", alertou.Mas os alemães também são. Aos 40 minutos, em mais uma bola alçada na áreagaúcha, Schröder sobe mais do que toda a zaga e escora de cabeça. É como seestivesse se vingando de todos os dribles que levou até agora. Com este empateinesperado, o jogo vai se decidir só na prorrogação. Não importa. Renato está noauge de sua forma, aos 21 anos, e pronto para correr mais trinta minutos. Por isso,o técnico Valdir Espinosa vai manter a estratégia usada durante os noventaminutos.E, se na esquina da Ipiranga com a Érico Veríssimo o carnaval paroutemporariamente, em campo ele continua em ritmo frenético. Aos três minutos daprorrogação, Renato dispara para cima de seu marcador. Nada parece ser capaz dedetê-lo. Na entrada da área, corta para dentro e bate de pé esquerdo. É o gol quepode garantir o campeonato mundial.Mas ainda faltam 27 minutos para o Grêmio consolidar o título. O Hamburgo vai àfrente desesperadamente. Busca novo empate a todo custo. Os brasileirosresistem. O toque de bola não importa mais. O Grêmio agora mostra que tambémdabe ter raça. De León afasta o atacante Hansen dando chutões para a frente.China esquece a dor no tornozelo contundido em um treino e não deixa o perigosomeia Magath jogar. O juiz Michel Vautrot apita o final do jogo. A festa toma contade Porto Alegre. O mundo é do Grêmio. RENATO - SUEI PARA SER O MELHORMário Sérgio foi o primeiro a perceber o que poderia acontecer na decisão doMundial Interclubes, em Tóquio. Logo no início da preparação da equipe, ele deixouclaro que a conquista passava necessariamente por meus pés. Eu era jovem - 21anos -, tinha velocidade, explosão e podia me consagrar na partida do Japão.
  23. 23. Levei a sério. Na fase de preparação, eu era quem mais se esfoçava. Até nos diasde folga, treinava firme. Por isso cheguei tão bem a Tóquio. Aliás, toda a equipechegou. Passamos um mês na cidade de Gamado nos preparando para a partida eaté o Campeonato Gaúcho a diretoria deixou de lado - o Internacional foi ocampeão naquele ano. O Grêmio queria demais aquele título.Mas houve momentos difíceis. Como quando tomamos o gol de empate. Estávamosmuito cansados e tínhamos a taça nas mãos. Foi dura a recuperação. Logo no inícioda prorrogação, porém, Osvaldo me lançou e parti para cima do lateral Schröder.Cortei para dentro e ele deve ter pensado que eu iria repetir a jogada do primeirogol, quando dei mais dois dribles. Por isso, chutei de pé esquerdo e, felizmente,consegui marcar. Como prêmio, ganhei o Toyota oferecido pelos organizadores aomelhor em campo. Mas vendi e rateei o dinheiro. Afinal, se fiz os gols, o Grêmiointeiro mereceu o título. GRÊMIO LEVA COLORADOS AO DESESPERONo início do ano, o Inter colecionava vários títulos a mais do que o Grêmio.A vantagem acabou em dezembro, quando o Tricolor conquistou o mundoQuando 1983 começou, os torcedores do Grêmio ainda precisavam aturar asgozações dos colorados. Afinal, o Internacional tinha na coleção inúmeros títulosimportantes a mais do que o rival – 28 a 22 em termos de Campeonatos Gaúchos e3 a 1 em Brasileiros. Em julho daquele ano, o Tricolor conquistou a TaçaLibertadores, equilibrando a situação. Cinco meses depois, chegaria finalmente achance de virar o jogo. Para tanto, precisava derrotar o Hamburgo, da Alemanha,na disputa do Mundial Interclubes.O grande desfalque para a final em Tóquio era o meia Tita, cérebro da equipe quevencera a Libertadores, devolvido ao Flamengo. Para a vaga, o Grêmio contratou ohabilidoso Mário Sérgio, de 33 anos. Outro reforço: o polêmico ponta-esquerdaPaulo César Caju, de 34 anos. O centroavante Caio, então, passava para a reserva,com Tarciso saindo da ponta para o centro do ataque. No mais, Paulo Césarganhara o lugar de Casemiro na lateral-esquerda.As estrelas da equipe dirigida por Valdir Espinosa eram o eficiente zagueirouruguaio Hugo De León e o veloz e driblador ponta-direita Renato Portaluppi – queainda não era conhecido como Renato Gaúcho. Pelo lado do Hamburgo, osdestaques eram o zagueiro Jakobs e o apoiador Magath. O time comandado porErnest Happel não contava com grandes craques, mas a vitória na final da Copados Campeões da Europa de 83 o credenciava como favorito para a partida contra oGrêmio.
  24. 24. Para levar a taça, os alemães tiveram que superar a poderosa Juventus, base daseleção italiana. Na equipe de Turim jogavam Zoff, Gentile, Cabrini, Scirea, Tardellie Paolo Rossi, todos titulares na conquista da Copa do Mundo de 82, além de doiscraques importados: o francês Michel Platini e o polonês Boniek. Na hora dadecisão, porém, deu Hamburgo. Em jogo realizado em Atenas, Magath marcou oúnico gol, garantindo o título.O favoritismo não entrou em campo no dia 11 de dezembro. Se os nervososjogadores do Grêmio erravam muitos passes no início, os alemães se limitavam atocar a bola sem objetividade. O tempo foi passando e os times mostraram suasarmas. Enquanto o Hamburgo insistia em lançar bolas altas sobre a área,facilitando o trabalho de Baidek e De León, os tricolores sempre arrumavam umjeito de encontrar o endiabrado Renato pela direita. Estavam certos, era a chave davitória.E tome drible no lateral-esquerdo Schröder. Involuntariamente, o alemão entrou nobaile. Aos 38 minutos, Renato cortou para a direita, depois para a esquerda enovamente para a direita. O chute veio em seguida, com a bola entrando entre atrave esquerda e o goleiro Stein. Os boquiabertos japoneses presenciaram um golde placa.Veio o segundo tempo. A entrada de Caio no lugar do apático Paulo César Caju, aos24 minutos, fez com que os gaúchos ampliassem o domínio. Tudo levava a crer queoutro gol sairia a qualquer momento. Só que o Grêmio começou a desperdiçarvárias oportunidades de marcar e o Hamburgo passou a ameaçar, sempreinsistindo nos cruzamentos sobre a área. Aos 41 minutos, a tática deu resultado:bola da esquerda e Schröder subiu mais do que os zagueiros para empatar apartida.Não há remédio, que venha a prorrogação! Renato não havia sido tão eficiente nosegundo tempo, parecia que os alemães tinham encontrado a fórmula para anularsuas arrancadas. Até que aos 3 minutos, Tarciso tocou de cabeça e o ponta se viufrente a frente com Jakobs. A ginga de corpo fez com que o zagueiro imaginasseque Renato iria chutar com o pé direito, só que veio o corte para dentro e o tirocom o outro pé. Stein só olhou a bola entrar no canto esquerdo. Era o gol do título.Daí para a frente, para desespero de alemães e colorados, o Hamburgo não teveforças para buscar nova reação. E o Rio Grande do Sul se vestiu de preto, branco eazul.
  25. 25. O RENATO NOME DA DECISÃOJovem. Impetuoso. Ousado. Vencedor. Os adjetivos caracterizamRenatoPortaluppi, a principal figura do Grêmio na conquista do Mundial Interclubes de1983. Com sua técnica, força e habilidade, deixou de queixo caído alemães ejaponeses que ainda não conheciam suas arrancadas e seus driblesdesconcertantes pela ponta direita.Se aproveitando deste fator surpresa, Renato deitou e rolou em cima dostruculentos zagueiros do Hamburgo e marcou os dois gols da vitória gremista. Omenino que trabalhava como padeiro deixou a pequena cidade de Bento Gonçalves,na serra gaúcha, para se perpetuar na história como o jogador mais importante quejá vestiu o manto tricolor.Por telefone, Grêmio.Net conversou com Renato e relembrou os principaismomentos daquela conquista inesquecível.Grêmio.Net: Qual a principal lembrança que você tem daquela conquista noJapão?Renato: Sem dúvida foram os dois gols que eu fiz. Foi uma emoção muito grandever a alegria de todo mundo. É até difícil descrever e destacar um momento emespecial.Grêmio.Net: Em qual momento do jogo que você sentiu que o Grêmio ganharia otítulo?Renato: Foi no fim dos 90 minutos. Eu estava com câimbras, o China estava com otornozelo inchado, tinha mais alguém que estava sentindo também. Mesmo assim,a galera tava afim de voltar para o jogo e voltar com tudo. Ali senti que levaríamoso título.Grêmio.Net: Quando o Hamburgo chegou ao empate, no final de jogo, você estavacom câimbras fora de campo. O que você sentiu naquele momento? Chegou atemer que a vitória poderia escapar até porque o grupo estava sentindo bastanteno aspecto físico?
  26. 26. Renato: Foi um momento complicado. Cheguei a temer se eu não voltasse para ogramado. Felizmente o Banha (massagista) fez uma massagem esperta e medeixou na boa.Grêmio.Net: Você foi escolhido o melhor em campo e recebeu um carro da Toyota.O que foi feito com o carro?Renato: Havíamos combinado que se alguém ganhasse o carro, pegaria o valor emdinheiro e dividiria com o resto do grupo ou ficaria com o carro tirando o dinheirodo bolso para dividir com o pessoal. Eu optei pela primeira: peguei o dinheiro edividi com o grupo.Grêmio.Net: Você tem alguma história particular vivenciada durante esta estadano Japão que possa dividir com o pessoal do site?Renato: Foi um período muito legal. Os japoneses são gente finíssima e nóssacaneávamos eles direto. Mas me lembro de uma história em particular: na manhãde domingo, dia do jogo, antes da saída para o estádio, um dos intérpretesfornecidos pela Toyota tentou reunir o Espinosa e o treinador do Hamburgo (ErnstHappel) para uma foto no saguão do hotel. O técnico deles recusou o convitedizendo que não conhecia ninguém do Grêmio e que estava com pressa de sairpara o estádio para ganhar o título e ir embora pra casa. Isso me irritou demais.Depois que eu fiz o segundo gol, corri para frente dele e gritei: “agora vocêconhece o Grêmio”. O interprete estava ao lado e traduziu na hora. VALDIR ESPINOSA, APOSTA VITORIOSAValdir Ataualpa Ramirez Espinosa. Hoje em dia, o nome de um técnicoconsagrado dentro do futebol brasileiro. Em 1983, com apenas 36 anos de idade,um profissional em início de carreira em busca de oportunidade para mostrar suacompetência.A oportunidade foi dada pelo Grêmio de Fábio Koff que, com sua visão futurista,acreditou nas potencialidades daquele jovem treinador que, anos antes, haviadefendido o Grêmio como jogador. Com aval da direção, Espinosa assumiu no início
  27. 27. do ano, durante a pré-temporada em Gramado. Começava ali um dos trabalhos demaior sucesso de um treinador no comando do Clube.Por telefone, direto de Fortaleza, Espinosa atendeu a reportagem de Grêmio.Net efalou sobre aquele inesquecível momento em Tóquio.Grêmio.Net: Quando você assumiu o Grêmio, tinha alguma idéia de que poderiachegar até onde chegou conquistando o Mundial Interclubes?Espinosa: Eu tenho muito medo de avião e lembro que no dia da minhaapresentação, em Gramado, falei para os jogadores no vestiário: “Façam umasacanagem comigo. Me levem a Tóquio no fim do ano”. Não sei se eles tinham essareal idéia mas a verdade é que chegamos lá.Grêmio.Net: Mas quando você foi contratado, a direção gremista já tinha esseobjetivo de chegar ao Japão no final do ano?Espinosa: Sim. Quando fui contratado, junto com outros companheiros, o FábioKoff foi bem claro e disse: “Estes são os contratados e nós temos um título mundialpara disputar no final do ano”.Grêmio.Net: Qual a importância desta conquista para sua carreira que estavacomeçando?Espinosa: Se até hoje são poucos os clubes que chegaram a esta conquista noBrasil, também são poucos os treinadores. Valoriza muito o currículo de qualquerprofissional. Ele fica muito mais forte. E a importância aumenta quando vocêconquista um título desta grandeza defendendo o time que você torce.Grêmio.Net: Como foi a preparação com relação ao Hamburgo? Como foi feitopara tomar informações sobre o adversário?Espinosa: Naquela época não tínhamos a facilidade que temos hoje em dia.Conseguimos apenas uma fita com a gravação de um jogo do Hamburgo trazida daAlemanha por um comandante da Varig que era gremista. Eu e o Ithon Fritzenfomos para Hamburgo ver uma partida contra o Werder Bremen. Oacompanhamento da imprensa gaúcha também foi importante. Houve umacumplicidade muito grande por parte de todo mundo. Não era só o Grêmio queestava em jogo, era o futebol brasileiro.Grêmio.Net: Qual a principal lembrança que você tem daquela conquista?Espinosa: São duas lembranças: antes do início da prorrogação, o De Leon, queera o capitão, chegou pra mim e disse: “Fica tranqüilo. Lá na área ninguém maisvai cabecear”.Ouvindo isso, o Renato chegou pra mim e falou: “Se lá atrás a defesagarante, pode deixar que lá na frente eu vou arrebentar”.
  28. 28. Grêmio.Net: Qual foi o momento mais difícil?Espinosa: O gol do Hamburgo. O jogo já estava no final e isso levaria a decisãopara uma prorrogação. Mas depois do que escutei do De Leon e do Renato nãoperdi a confiança.Grêmio.Net: Quando você teve a certeza de que o título seria nosso?Espinosa: A gente sempre acreditou. O grupo era extraordinário. Com uma grandequalidade técnica, força e determinação. Talvez uma das maiores equipes que oGrêmio já teve em sua história. Nós não fomos para Tóquio para apenas disputarum jogo, fomos para buscar o título.Grêmio.Net: Como era sua relação com os atletas?Espinosa: Havia uma amizade muito grande e muito respeito. Evidente que aexperiência não é a mesma que tenho hoje mas sempre houve muito respeito.Tanto por parte dos jogadores quanto por parte do Koff, dos médicos, do Verardi.Havia uma cumplicidade muito grande e uma entrega por parte de todos.Grêmio.Net: Você tem alguma história curiosa vivida neste período no Japão quepossa ser relembrada?Espinosa: Logo após o final do jogo, eu, o De Leon e o Renato, que havia sidoeleito o melhor em campo, permanecemos no estádio para a entrevista coletivaenquanto o resto do grupo ia para o hotel. Quando chegamos de volta ao hotel,chamei todos os jogadores para o meu quarto e pedi três champanhas paracomemorar. Quando o japonês trouxe a conta eu me apavorei. Não tinha comopagar. Chamei o Koff e disse: “Presidente, assina essa conta aqui pra mim”. Eledisse: “Tá bom. Deixa comigo”. (Risos) Isso que foram só três champanhas.Imagina se tivesse pedido mais? O MUNDO É DO GRÊMIOInspirado pela garra e genialidade de Renato, o Grêmio arrancou umamaravilhosa vitória de 2 x 1 sobre o Hamburgo, da Alemanha, e conquistouseu lugar na galeria dos campeões mundiais de clubesMultidões iam embora, cansadas. Mas outras chegavam - num movimento de ondassucessivas - e não deixavam o samba cair. Quem não aguentava mais, e nemqueria abandonar a festa, tratava de se enrolar ali mesmo na bandeira tricolor e sófoi acordar quando o sol já estava alto.Assim foi o carnaval da torcida do Grêmio, que se irradiou do cruzamento daavenida Érico Veríssimo com a Ipiranga - onde o povo assistiu aos 2x1 sobre oHamburgo em telões ao ar livre - para todas as ruas de Porto Alegre. Naquelaaltura ainda se ouvia no Morro Santa Teresa os últimos acordes da torcida GarraTricolor.Sem dúvida, tão cedo o Rio Grande do Sul não terá uma madrugada barulhentacomo a de domingo último. Mas também é certo que jamais o Grêmio havia sidocampeão do mundo antes. Toda a loucura do lado de cá do mundo correspondia aoque havia acontecido no lado de lá, no Estádio Nacional de Tóquio - a imagemluminosa do camisa 7 Renato, com sua maluquice genial, extasiavasimultaneamente os lados opostos do planeta. Ele fez tudo que um jogador podefazer dentro dos 90 minutos: atacou, defendeu, driblou, vibrou e... marcou os doisgois da vitória. Sua atuação confirmou uma profecia feita por Willy Schultz - ex-zagueiro do Hamburgo e marcador de Pelé nos anos 60 - na semana passada."Muito cuidado", advertia. "Toda equipe brasileira é traiçoeira. De repente alguéminventa uma jogada que ninguém previa."
  29. 29. A metódica, repetitiva - e eficiente - equipe do Hamburgo poderia ter protagonizadooutro resultado, se o Grêmio não tivesse Renato. É verdade que apresentavatambém o bom Mário Sérgio, cadenciando e lançando desde o meio; e o jovemBaidek, dono e senhor da área; ou o heróico China, correndo com o tornozelodolorido.Mas trazia,principalmente, o Renato Portaluppi, 21 anos, que personificou os medosde Schultz com sua deliciosa loucura. Que outro jogador driblaria três vezes oatônito Schröeder e ainda chutaria para as redes praticamente sem ângulo? Era omesmo que vive sendo multado e que, na semana passada, havia machucado otornozelo do companheiro China ao atirá-lo numa piscina quase vazia.Na verdade, este gol - aos 37 do primeiro tempo - seria suficiente para desmontaro burocrático Hamburgo. No entanto, a persistência alemã aliada ao recuo doGremio proporcionaram o empate através do mesmo Schröeder a apenas 5 minutosdo final da partida. Um clima de tragédia pairou no ar durante os instantes queantecederam a prorrogação de meia hora. Mas logo aos 3 minutos o maluco deu ocorte num alemão e completou com o pé esquerdo quando o goleiro Stein esperavauma bomba de direita. Não foi por acaso que ficou com o carro Toyota zeroquilômetro - destinado ao melhor jogador em campo.O título mundial mostrou que o Grêmio - apesar da saraivada de críticas - estavano caminho certo quando concentrou forças no jogo de Tóquio em prejuízo,inclusive, do Campeonato Gaúcho. A conquista revelou - rebatendo ácidas críticasque se prolongaram por toda a temporada - que quatro meses de preparação físicae emocional não são, afinal, excessivos. Somente quem tenha morado no RioGrande nos últimos meses pode avaliar o que Tóquio representava para o Grêmio.

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