Aqui em salvador

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Aqui em salvador

  1. 1. " aqui em Salvador, a cidade do axéa cidade do terror" Complete Control pelo Camisa de VenusDeve ser uma coisa extremamente estranha para um americano observar o rock nroll em um pais como o Brasil.Mais estranho ainda ver suas ramificações e suadisseminação em lugares tão pouco prováveis como na Bahia. O livro escrito porEdnilson Sacramento, "Rock Baiano- historia de uma cultura subterrânea", é oprimeiro(que eu saiba) a se propor a contar a historia de um ritmo(cultura?, estilode vida?, nada disso?), estranho numa terra estranha. Estranha e hostil.Logo na introdução, Ednilson, se refere as reações que a dedicação a tal temasuscita nesta terra: perda de tempo com a xérox da xérox?, Desperdício de papel?Para a maioria certamente, mas para uma minoria extremamente apaixonada, setrata de um "labor of love" ou seja um trabalho de e por amor.E Ednilson, traça um painel e um relato, no mínimo emocionante, de uma culturasubterrânea, fora das atenções centrais da cultura oficial da Bahia, que vaifrequentemente na contramão do que se convencionou chamar de "baianidade",alem de alargar a perspectiva cultural do fenômeno, abrindo espaço também paraoutras manifestações artísticas fundamentais que compõem o espectro do rock, taiscomo programas de rádios, imprensa, grafitti, e fanzines.Segundo ele mesmo diz,não existiu a intenção de sua parte de ter feito a biblia do rock baiano. Foram entre10 a 12 anos de pesquisas, leituras, e muita vivencia com o rock local.Mais 11 anosforam necessários para que o livro fosse lançado.Obstinação, determinação emuita, mas muita paixão pelo assunto, o tal "labor of love".Como explicar a sobrevivência do rock"n"roll na Bahia, resistente desde o fim dosanos 50, quando através do cinema(agente imperialista?) a baianada tomoucontato com o rock?n?roll, quando no Cine Excelsior passou ?Sementes daViolência?, e desde, segundo consta, Raul Seixas trocou cigarros por discos de rockcom americanos lotados no consulado dos USA, do qual era vizinho. A partir daí,Raulzito se encontraria com Valdir Serrao( o Big Ben), outro que tinha travadocontato com o rock, mas este de forma totalmente intuitiva.Ednilson da uma geraldo momento em diante em que Raul e Big Ben passam a andar juntos epraticamente forjam do nada o rock na Bahia. Fundam o Elvis Rock Club, no bairroda Calçada, e a essa altura do campeonato envolvidos com uma turma (ThildoGama, David Barouh e outros) que foi pioneira do rock na Bahia, formariamconjuntos(não se chamavam bandas então) como Os Relâmpagos do Rock, TheBlack Cats, Os Cinco Loucos, e outros. Já a partir de 1963/64 o estouro dos Beatlesia tomando conta do mundo, e a Bahia sentia os reflexos, com conjuntos como OsSombras, Quadrante 6, e outros se apresentando na TV Itapoan no programa"Poder Jovem", tocando em bailes e shows no Cine Roma, Clube Mesbla,e dandorolé na Praça da Sé. O rock foi continuado na Bahia durante o restante dos anos 60pela Jovem Guarda, o movimento capitaneado por Roberto Carlos, que a partir doprograma de televisão homônimo, que realmente popularizou o rock no Brasil.Bandas locais como Os Mustangs se destacavam em bailes estilo Jovem Guarda.Note-se que desde sempre o rock?n?roll nunca foi a musica considerada de bomgosto pela elite intelectual brasileira, sempre teve a bossa nova e a depois a MPBpara arrebanhar nossos melhores rebentos.Alias a Tropicália foi forjada pela MPB oupelo rock?Raul, o maior e mais importante nome do rock"n"roll a sair da Bahia( prestem bematenção aos adjetivos), se mandou para o Sul Maravilha, uma vez que, fazer eviver de rock na Bahia era(era?) impossível. Raul ressurgiria para a Bahia em
  2. 2. 1972 ,com umas das mais impactantes performances ja feitas em terra brasilis, empleno Festival Internacional da Canção, com Let Me Sing Let Me Sing. Mas há muitojá deixara a Bahia para trás e o rock baiano, da qual era um dos seus principaisagitadores.Durante os anos 70 o rock baiano viveria sob uma influencia distante da psicodeliae da contra-cultura tardia. A Bahia, muito por causa da Tropicália, viveria seus"Summers of Love" , num misto de Hendrix, Caetano e Arempebe, umapeculiaridade geográfica que se tornou Meca hippie. Bandas como Os Cremes,Banda do Companheiro Mágico e principalmente o Mar Revolto tentavam emular dealguma forma aqueles tempos. A primeira metade dos 70 foram "dias estranhos".Passei a acompanhar o rock nesta época antes mesmo da adolescência (11 anos).Ouvia o programa do Big Ben na radio Bahia( que ficava perto do campo da Graça),e ia comprar discos promocionais que o mesmo vendia por de baixo do pano. Umavez comprei na mão dele um Doors( o péssimo Full Circle, sem Morrison!), e umcolega meu levou o espetacular School?s Out de Alice Cooper, fiquei anos achandoque Doors era aquilo . As rádios Cruzeiro e Bahia( ambas AM), tocavam no meio dasua programação hits do rock?n?roll( Beatles, Credence, Stones) , mas o programado Big Ben tocava Hendrix, Sly & The Family Stone, J. Gueils Band, misturado comoutras coisas sem muito critério(ie suas próprias musicas). Aos 13 comecei a ir emshows na Concha Acústica e logo aos 14 ia ao ICBA. Vi shows dos sudestinos Terço,Made In Brasil, do expatriado Raul e do local Mar Revolto. Se a diferença entre acopia com a matriz era gritante, a copia da copia era foda( de ruim). Só Raul eraque fazia frente, Raul fazia agente acreditar num tal de rock brasileiro.Importante notar, que ate então, não se configurava na Bahia uma cena rock, asinformações, que agora aparecem de forma organizada e de forma cronológica, nãoestavam disponíveis, nem articuladas, nos períodos mencionados ate então, emuito menos os movimentos do rock baiano eram articulados, com uma geraçãosucedendo a outra.Pelo contrario um movimento começava, depois acabava, depoissurgia outro do nada, sem ter a menor noticia que tinha existido banda tal, com talestilo em outra época. E? por isso que o rock baiano sempre foi ciclotimico , indopra frente, depois para trás, e frequentemente para lugar nenhum. Apenas paraconstar( e isto não resolve o NOSSO problema), este é um problema da questãocultural brasileira como um todo, apenas aplique o grau adequado para cada setorcultural correspondente.Nesta altura chegamos ao ponto crucial do livro de Ednilson, a década de 80 e aexplosão do Rock Brasil e da construção de uma incipiente cena rock na Bahia,devido ao advento do punk. Ednilson cobre exaustivamente o período com aexplosão do Camisa de Vênus que gerou uma cena que traria na sua esteira ummovimente punk(!!!) na Bahia, mas que teve sua gestação e doutrinação a partirdo momento que Marcelo Nova , o maior(eu disse o maior) colecionador econhecedor de rock?n?roll da Bahia ever,fechou uma loja de discos chamada Nektare foi trabalhar como programador de musica internacional na Aratu FM. Radio FMera uma puta novidade na Bahia, com audiência elitizada, uma coisa de ponta. Empouco tempo Marcelo estava colocando Zepellin, Lennon e Hendrix naprogramação. Nesta época, Marcelo, segundo o próprio Kid Vinil(vejam o DVDBotinada), foi o primeiro cara a programar punk rock numa radio brasileira.Naquela época, Marcelo, um dos caras mais antenados(desculpem, foi mal) emrock, começou a travar contato com o punk rock que estava começando lá fora.Esqueçam as referências de hoje .Não tinha internet, nem MTV, muito menos YouTube. Ninguém sabia que porra era aquela.As noticias demoravam meses, as vezes
  3. 3. 1 ano para chegar. Ao mesmo tempo Marcelo convencera seu chefe na Aratu,Linsmar Lins, a fazer um programa especial sobre bandas de rock, o Rock Special.No inicio apenas um programa didático sobre bandas consagradas de Rock, comoZepellin, Hendrix, contando a historia de forma cronológica, o Rock Special cresceude tal forma a sua audiência, que Marcelo em pouco tempo estava tocando bandastotalmente desconhecidas e da vanguarda do punk e da New Wave , mudando adinâmica da cidade.Ao mesmo tempo, já incorporando o espírito do faça vocêmesmo do punk, começava a formar o Camisa de Vênus.Marcelo, com o RockSpecial, educou e doutrinou toda uma geração de rock baiano.Quando o Camisaveio, as pessoas, que sexta a noite paravam mesmo para ouvir um programa deradio(vejam só), já sabiam do que se tratava. Tiveram acesso a informação deponta por parte de um agendador cultural( copiraite Marcos Rodrigues!), queconspirou e montou uma cena de um posto privilegiado, onde pela primeira vez naBahia, o rock era o prato principal. O discurso anti baianidade do Camisa é pordemais conhecido de todos, só que a agressividade e a articulação de Marcelopegou o status quo de surpresa.Um dos principais méritos de Marcelo foi evidenciara faceta urbana da cidade da Bahia, de forma contundente, explodindo os clichêssobre uma pretensa ?baianidade? dos soteros, que viveriam num eterno estado degraça num paraíso tropical em permanente estado de festa. Não eram questõesnovas, alias elas iriam recrudecer no futuro. Por uma única vez, o rock foiprotagonista da questão cultural, e para surpresa total de muitos, ditou a pautacultural.A construção de uma cena era fundamental para a sustentação do furacão que veiodepois, da explosão de bandas e da comoção que causou na cidade de Todos osSantos. Lógico que os tempos conspiraram a favor, os meios de comunicação tinhaelegido o rock como bola da vez e o Rock Brasil em breve estouraria com a Blitz eRitchie. E principalmente uma certa juventude baiana estava esperando ummomento como aquele, e longe de ser marionete do Camisa, aproveitou omomento e fez acontecer por conta e brilho próprio.Ai entram Gonorréia, Espíritode Porco, Trem Fantasma, Delirium Tremens , mais uma pa de bandas.O Camisaainda demorou mais de 1 ano morando na cidade, depois de ter estouradonacionalmente, o que o diferencia dos outros dois grandes do rock baiano, Raul ePitty, que já tinham saído da cidade quando estouraram. Então, na minha opinião,se Raul foi indiscutivelmente o nosso maior rocker, Marcelo foi o principalarticulador e figura central do estabelecimento da ?cena rock? baiano.Depois da saída do Camisa, a incipiente cena entrou num vácuo, que depois foipreenchido por bandas importantíssimas como Via Sacra e Dever de Classe(principalmente). Estamos ai em 86, o rock dava as cartas no hit parade nacional,mas na Bahia rapidamente voltava a condição de marginal. Não obstante a cidadefervilhava com bandas como Doutrina Decadente, AI 5, Razão Social, JesusBastardus, ect, gangues de punks, a cena do PABX, a galera do Moto Lanches, ect.Fanzines como o Espunk pipocavam. O grafiteiro(e artista plástico) Miguel Cordeiroera Faustino, um acido critico da clase merdia baiana, que chegou ao ponto defazer o vestuto jornal A Tarde pedir a atenção das autoridades ao ?tal do Faustino?.Só que o discurso punk trazia no seu radicalismo uma falta de consistência na suapráxis, que esvaziava a cena rock, alem de expor a questão da cidade dividida, tãobem focalizada por Ednilson. Os punks de verdade eram os de bairros proletários?O que era ser punk? E o rock nisso, é arte pura ou engajada? A arte engajada émelhor só por causa disto, independente da sua qualidade artística? Foi fácil para ostatus quo empurrar o rock baiano para o subterrâneo de novo.
  4. 4. Mas a esta altura o estrago estava feito, a quantidade de publicações alternativas,lojas alternativas e outras manifestações correlatas ao rock,pela primeira vezconfigurava uma ?cena rock? na cidade da Bahia .Com todos os seus defeitos, inconsistências e contradições , a "cena rock" dacidade começou a se firmou. Porque o pior estava por vir. Passado o auge do RockBrasil, a cena baiana iria se defrontar com um monstro gestado pela políticacultural do estado associado a agentes de uma emergente industria cultural(donosde blocos e gravadoras), a axé music. Nao vou discutir de quem é a culpa(alo ToniLopes!). Mas os agentes da axé music foram extremamente competentes emcapitalizar elementos da cultura popular baiana de carnaval, rentabilizando-o aozenith. E ai chegamos a parte final do livro de Ednilson, que fala de bandas queestão ai ate hoje como o Cascadura, outras em estado de hibernação com abrincando de deus, e outras já extintas, mas que foram determinantes para a cenaatual , como a mitológica Úteros Em Fúria. A Úteros, foi a inspiração maior para omaior nome do rock do Brasil atualmente, Pitty. Acho, que esta cena , talvez tenhaescrito os momentos mais heróicos do Rock Baiano, porque, poucas vezes umageração de artistas foi ignorada de forma tão brutal como esta.Um exemplo deamor ao rock, porque só gostando muito para aturar anos e anos de isolamento efalta de reconhecimento. Então parabéns Ednilson, sua iniciativa, numa terra pobrede pessoas fazedoras, é um exemplo, alem de esclarecer e possivelmente iluminaralguns dos novos rockers da cidade. E mesmo contra sua vontade, é por enquantoé a biblia do Rock Baiano. Keep on Rockin! Quarta, 23 de abril de 2008, 07h57 Ednilson, historiador do rock baianoPaquitoDe Salvador (BA)Há duas quinzenas, escrevi sobre o livro de Ricardo Cury, Para colorir, que tem, como pano defundo e de maneira despretensiosa, a cena do rock baiano de meados dos anos 90 até hoje. O ciclo sefecha, agora, com o livro Rock baiano - história de uma cultura subterrânea, de EdnilsonSacramento, este sim, uma tentativa de contar esta história desde os seus primórdios, e que terminaonde o de Cury começa, no meio da década de 90. O livro demorou dez anos pra ser escrito e maisseis pra ser lançado finalmente em surdina em 2006, por opção do próprio autor, que se sentiuacanhado, pois achou que, devido ao tempo passado entre a feitura e o lançamento, já poderia tê-loreescrito, contando os novos capítulos de uma história tão singular quanto acidentada.Por que, então, falar de um livro lançado há quase dois anos? Em primeiro lugar, Ednilson foi oúnico, até agora, que teve a iniciativa de dar conta do movimento e movimentos do rock num lugarque, aparentemente, nada teria a ver com uma atitude própria do estilo, o que, aliás, dá pano pramanga e rende discussões infindáveis. Além disso, o autor, que teve uma formação ancorada nomovimento punk, nem por isso deixa de citar as bandas que não seguiam a mesma cartilha. Estão láo início de Raul Seixas e Valdir Serrão, o Big Ben, nos anos 60, o Mar revolto, dos anos 70, atrajetória do Camisa de Vênus, "um capítulo à parte" nos anos 80 e, a partir daí, um detalhamentoimpressionante das bandas e do circuito local - a "cultura subterrânea" a que o título se refere - num
  5. 5. período em que o rock brasileiro entrou na moda, mas na Bahia vicejou a indústria da música ligadaao carnaval, que resultou no que passou a se chamar de "Axé-music". Na consolidação dessaindústria, o rock ficou de fora e tornou-se, por isso, ensimesmado, raivoso e à margem.Conversei com o próprio Ednilson na Associação Baiana de Cegos, onde é Diretor de Educação eCultura, pois, além de trabalhar em projetos sociais, ele perdeu a visão enquanto terminava a ediçãodo livro. Muito bem humorado e falante sem afetação, disse que realizou o sonho de fazer umfanzine, escrevendo o livro, ou seja, o livro é um grande fanzine. "Escrevi o que vivi", falou,referindo-se ao fato de ter se detido nos anos 80, quando fazia parte da cena na condição de "maisque testemunha". Lembramos de que eu mesmo fui entrevistado por ele no início dos anos 90, poisfui integrante de uma banda, Flores do mal, e que a situação estava se invertendo, pois era ele,naquele momento, o entrevistado.Sobre a cena hoje, ele admitiu que "se faz com mais riqueza de meios, tem mais tecnologia pra seproduzir e espaço pra ensaiar, o que não significa que a gente tenha uma cena de rock. No final dos80, havia uma ambientação...". No entanto, não há ressentimento no discurso de Ednilson. Eleadmitiu as conquistas advindas do fato da Bahia ter se tornado um pólo produtor, por conta docarnaval, e mantém-se conectado ao novo mundo marcado pela internet e cultura digital, pois usa umprograma que permite aos cegos utilizar o computador, inclusive, digitando textos. Ressaltou que olivro foi escrito na raça, e gostaria de ter condições de reeditá-lo com mais tempo e recursos.Ao final do encontro, pedi que autografasse o meu exemplar, no qual escreveu "os ventos sopram erefrigeram, refresque o ar com poesia". No final, transcrevo a provocação contida nas últimaspalavras da introdução do livro: "No decorrer deste apanhado, procurei cercar-me da contribuição depesquisadores, críticos e estudiosos da música pop, o que não se deu em maior escala devido à faltade tempo de alguns e à ausência de tantos, tornando-o, desde já, um relato incompleto. Talvez essedesfalque tenha afetado um pouco a abordagem, mas ao mesmo tempo deve ter deixado lacunas ediscussões abertas para o florescer de novas pesquisas e consertos daquilo que não foisuficientemente dissecado. Tantos irão se queixar da ausência de muitos grupos e muitosreivindicarão uma maior atenção para o setor A ou B, mas quem sabe? Tais falhas lhes servirão deincentivo para a confecção da sua própria história".O contato de Ednilson, pra quem desejar adquirir este livro, desde já, uma obra de referência sobre orock baiano, é ednaweb@terra.com.br.Paquito é músico e produtor.Fale com Paquito: anjo.paquito@terra.com.brOpiniões expressas aqui são de exclusiva responsabilidade do autor e não necessariamente estão de acordo com os parâmetros editoriais deTerra Magazine.

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