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Baixar para ler offline
1
Rafaela Gonçalves
1ª Edição
Fundação Instituto do Livro de Ribeirão Preto
Ribeirão Preto - SP
2015
2
3
...Mas a minha história não começa aqui,
tudo começou em 2002, no dia do meu
aniversário de 16 anos, dia 12 de junho,
para ser exata.
4
Ficha Catalográfica
Gonçalves,
Sim, 1ª Edição, Ribeirão Preto - SP, 2015
148 p. 148 x 210 mm
1.869.91 Literatura brasileira. Poemas, Crônicas e Contos
Rafaela
Título
SIM
Autora
Rafaela Gonçalves
Projeto Gráfico
Ilustração
Rafaela Gonçalves
Arte Final
PortaIdeia Deisgn Gráfico
Fundação Instituto do Livro de Ribeirão Preto
ISBN 978-85-62852-34-3
Introdução............................................................................................15
Dia 2 de junho......................................................................................19
A proposta............................................................................................27
As primeiras três horas.........................................................................31
O sonho................................................................................................35
O roubo e mais três horas.....................................................................41
E nasce um sentimento.........................................................................47
Hugo....................................................................................................51
Revelações...........................................................................................55
A primeira vez......................................................................................59
Dia 27: festa e decepção.......................................................................63
Superação............................................................................................67
Esperança: mudança.............................................................................71
26 de julho...........................................................................................75
Olá, Trix................................................................................................79
Emmafala.............................................................................................83
5
Sumário
Éric.......................................................................................................87
Novo aluno...........................................................................................91
Be, você aceita namorar comigo?.........................................................95
Reencontro..........................................................................................99
Hugo...................................................................................................103
A primeira noite com ela.....................................................................107
Em algum lugar por ai.........................................................................111
Éric ia voltar........................................................................................115
Pai?....................................................................................................119
Adeus.................................................................................................123
Acidente.............................................................................................127
Luto....................................................................................................131
Uma nova eu, um novo Hugo..............................................................135
O baile................................................................................................141
Um recomeço.....................................................................................143
Finalmente.........................................................................................147
6
7
Agradecimentos
Aos meus pais, que nunca
permitiram que eu vivesse na
realidade do meu livro; ao
Einstein e principalmente à
professora Magel, pela brilhante
ideia do projeto; a Camila e ao
João Vitor, que me incentivaram
desde o início minha; aos meus
amigos e em particular ao André,
Tâmisa, Júlia, Victória e Nagib,
que sempre me apoiaram; a
minha família, a qual não vivo
sem; a tia Dulce e a tia Cris,
aquelas que eu tenho admiração
pela competência nata; a
Rosângela Pásseri, Edwaldo
Arantes e ao Instituto do Livro,
que acreditaram em mim, e
tornaram este sonho realidade,
aos meus avôs , que não tiveram
a oportunidade de ler SIM; e a
todos que leram e opinaram
durante o processo de produção
paraumamelhorhistória.
8
9
Quantassãoasartimanhasdoamor?
Como alguém pode se achar acima do bem e do mal, ou das
peripéciasdodestino?
Rafaela Gonçalves apresenta, com sua escrita, as peças e os reveses
quepodepregarodestino.
Uma história que prende a atenção do leitor, do começo ao fim, com
o foco narrativo centrado na personagem Beatriz e suas expectativas e
ansiedades.
Discorre sobre os valores mais significativos, num mundo tão
“coisificado”, A autora consegue destacar o quão importante é uma família,
laços afetivos e de carinho, ter com quem contar e quem nos acolha, diante
dosdesafiosdavida.
Umahistóriatocante,instigante,sensível!
O livro consegue reunir os ingredientes perfeitos, contidos nos
melhoresromancesjáescritos.
Parabéns a autora, pela inspiração e criatividade e também, a
verdadeira Mestra, que ousou instigar alunos a produzirem textos literários
dealtíssimaqualidade!
Cristiane Framartino Bezerra
Historiadora,Escritora(autoradoslivrosSolNoturno,FlordeAntares,RompendoocasuloeO
meninoeomistériodoarco-íris)
Prólogo 1
10
11
O desafio de escrever é maravilhoso. Um país se faz
efetivamente com o estudo, com conhecimento. Ao ler este
livro, que nem estava pronto ainda, me prendi à história, ao
desenrolar de cada situação e, de repente, me vi triste pelas
dificuldades, injustiças e tristezas da narradora. Me vi alegre
com suas conquistas, torcendo, comemorando. Enfim, aí está a
beleza de um livro. Me surpreendi com a habilidade narrativa
da autora. Quem sabe aqui começa uma carreira promissora no
mundodasletras?
Mas, independentemente disso, o que vale é o trabalho de
escrever, pensar, criar. E como deve ser interessante este papel
do escritor! É a hora do desafio: a página em branco, uma
profusão de ideias e a necessidade de vencer o abismo que
existe entre o pensamento, a criação mental, e a materialização
detudoisso.
Por fim, não posso deixar de falar sobre quão é interessante a
miscelânea de sentimentos pelos quais vive, permanen-temente, a alma
humana. Onde está o ódio pode estar o amor, onde está a confiança pode
estar a traição, em um gesto pequeno de atenção ou carinho pode estar o
roteirodeumfilmedeumavidaricaemexperiências.
Estahistóriapodeserconsideradaahistóriadetantosdenós.
E que saibamos todos, como Rafaela, que cada história tem suas
Prólogo 2
12
Dulce Neves
Jornalista e Presidente da
Fundação Dom Pedro II
tristezas e seus amores, mas que podemos acreditar e reescrever sempre,
poisaquiloqueéfeitocomocoraçãoécapazdetransformar.
Se Rafaela conseguiu evocar minha curiosidade a cada capítulo que
eu avançava, minha tristeza pelas tristezas da personagem, minha torcida,
minha alegria, Rafaela é uma daquelas pessoas de alma rica. E quem assim o
é,devesempredesafiarumafolhaembranco.
13
“ Happiness can be found even in darkest of
times, if one only remembers to turn on the light”
– J.K. Rowling
14
Introdução
SIM, eu, Beatriz, vi. Eu senti. Eu estava lá, quando tudo aconteceu.
Hoje sei que o que eu fiz foi o certo a se fazer. Se me arrependo? Não, nem
um pouco, para falar a verdade. Afinal, conheci uma nova eu... E um novo
ele.
Sempre fui aquela garota que nunca levanta o braço durante a aula
para perguntar algo, que vai a festas e fica no celular, que, quando entra em
uma discussão, rende-se facilmente (não por falta de argumentos, mas por
vergonha de continuar e todos pararem para prestar atenção), que passa
horasehorasdesuasfériaslendo.
Sempre fui uma pessoa infeliz, uma máquina cotidiana que está
morrendo aos poucos, dia após dia, hora após hora, sem aproveitar, de fato,
asuavida.
Masaquelanoite,nossa!...Amelhordaminhavida,fiztudoporamor
eéissooquenofinalmaisimporta,certo?
Mas a minha história não começa aqui, tudo começou em 2002, no
diadomeuaniversáriode16anos,dia12dejunho,paraserexata.
15
16
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18
19
Dia 12 de junho
–AcordeBeatriz!Ocaféestánamesa,querida.
–Jáestouindo!
Acordei disposta naquele dia, afinal, não é sempre que se faz 16 anos,
éumaveznavidaeeuqueriaaproveitaraomáximo.
Levantei da cama um tanto quanto tonta e fui direto para o banheiro.
Tomei um longo e gelado banho, penteei meus longos cabelos ruivos, vesti-
me,coloqueimeuRayBanedesciparatomarcafédamanhã.
Dona Lurdes era muito gentil e sempre me fizera companhia desde
quando meus pais me abandonaram, a trabalho. Estava conosco desde
quando eu me entendia por gente. Ela é a minha segunda mãe, se não a
primeira,poispassamuitomaistempocomigodoqueaEmma,minhamãe.
Meus pais nunca estiveram presentes na minha vida, só pensam em
dinheiro e em me sustentar para eu ter uma vida melhor, mas eu sempre me
pergunto "Para que tanto dinheiro se eu não tenho amor?". A verdade é que
eu preferiria estar morando debaixo de uma ponte, sem comida e sem o que
vestir, recebendo todo o amor paterno e materno do mundo, a nunca mais
ter visto os meus pais desde os cinco anos de idade e receber toneladas de
dinheironaminhacontadobanco.
Fui para a escola, e como era de se esperar, somente as minhas duas
amigas,CamilaeEstela,eosprofessoresdosegundo
colegialmederamparabéns.
SoumuitogrataporteraCáeaStéaomeulado,semelaseuseriauma
completa deslocada numa escola em que sofro bullying por uma mera falha
genética que ocasionou um olho verde, como a floresta mais exuberante, e
um castanho, da cor de sei lá, terra talvez? Já me acostumei com apelidinhos
bestasameurespeito,nãoquenãomemagoasse,maseuignoreieseguiem
frente sempre. Já ouvi de tudo, "bicolor", "olho de vidro", "desumana",
20
"vírus","falsa","docamelô","propagandaenganosa","mosca"(pelofatode
que eu sempre ia com óculos escuros na escola), “bug”, e o pior de todos, o
clássico, o favorito de todos: "mal feita" ou "falha no sistema". Outra coisa
que eu não gostava nem um pouco era quando colocavam ênfase no “z” do
meunome:Beatrizzzzzzzz.
Sentei-me na quinta carteira da fileira do canto da janela, o meu lugar
preferido da sala, pois ninguém me enchia o saco e eu podia dormir em paz,
já que fico até tarde, toda noite, fantasiando uma vida que não a minha.
Imaginando como a minha vida seria se ela não fosse tão "perfeitinha", em
termos, e sem amor. Como seria ter uma vida mais feliz, em que meus pais
me amassem pelo que sou e que sentissem orgulho de mim e não de si
mesmos,porconseguiremcompraroqueeuqueroenãopreciso.
A escola Evanesceu não é lá essas coisas... Eu estudo na realidade da
minha cidade, onde tudo o que eu vejo todos os dias são brigas por motivos
idiotas, elites, professores vagabundos que não ensinam a matéria e não
estãonemaíparaosalunoseofuturodecadaum.
A primeira aula do dia era de Física Quântica. O professor Horácio, um
velho alto, muito acima do peso, careca e que usava óculos, além de ir para a
escola em uma BMW, na maior humildade, era um tédio e não sabia explicar
amatériadejeitonenhum.
Sinceramente, eu nunca repeti o ano, somente porque meus pais
sempre fizeram "doações" bem generosas em valores altos para a escola no
final do ano letivo, porque se não fosse por isso eu provavelmente estaria na
quinta série ainda, não por eu não ser uma boa aluna, mas pelos professores
serempéssimos.
Apósduasaulasdebomsono,eraointervalo.Fuimeencontrarcomas
minhas melhores e únicas amigas, pois elas estudavam em outra sala. Não
gostavanemumpoucodaideiadeterdeatravessaraescolasozinha.
Assim que as encontrei, fomos juntas para a cantina. Um cheiro de
fritura nauseante invadiu o lugar, era dia de feijoada, de longe a comida que
eumenosgostava.
Sentamo-nos à mesa do fundo e começamos a conversar sobre
diversosassuntos,comodecostume.Euficavamuitofeliznapresençadelas,
21
mas quando eu olhei para a frente, minha felicidade se esvaiu do corpo e eu
senti um calafrio, o time de futebol inteiro estava andando em nossa
direção.Coisaboaéquenãoseria.
Quando se aproximaram mais, começaram com os apelidos
constrangedoresetambémafazerosomhabitualdeumamosca,algocomo
"Zzzzzzzz". Eles não sabem o quanto a minha vida já é difícil, porque se
soubessem parariam com essa criancice, ou não, já que são uns idiotas
insensíveis.
Aconteceu tudo muito rápido. Logo que a Camila olhou para mim e
viu-me encolhendo, levantou-se abruptamente. Ela é a minha amiga mais
descontraída, apesar de não parecer tanto assim. Olhou nos olhos de Hugo,
ocapitãodotimedefutebol,ecomeçouafalarumasverdadesparaele.
A Estela, porém, é a mais protetora e vendo que o Hugo e seus amigos
nãoiamparartãocedo,partiuparacimadotimeinteiro.
"Retire tudo o que você disse, capitãozinho vagabundo!", gritou ela
tão alto que todo o refeitório ouviu e juntou-se em volta gritando "Briga!
Briga!Briga!".
Eu entrei em choque, elas nunca tinham feito algo desse porte para
me defender, eu não sabia o que fazer, não sabia no que isso tudo ia dar,
entãosaícorrendoembuscadeajuda.
Encontrei o conselheiro e expliquei o ocorrido resumidamente, para
ganhartempo.
Voltamosparaorefeitório.
A primeira coisa que eu vi foi um Hugo peludo e gordo encima da
minhaamiga.Nãodeuoutra,entreinabriga.
Quando me dei por mim novamente estávamos, Camila, Estela, Hugo
eamigoseeu,sentadosnasaladoconselheiroespirituallevandoumlongoe
entediantesermão.
Nãolembrobemcomotudoacabou,masadecisãofinaldadiretorafoi
de que todos os envolvidos teriam que cumprir serviço comunitário para a
escoladurantetrêsmeses,trêshoraspordia,apartirdodiaseguinte.
Perdemos a terceira aula, então fui até o pátio para ver qual seria a
22
próxima. Aula dupla de geografia e uma de história da arte. Para melhorar o
meu dia, bateu o sinal e eu fui esperar Dany, meu motorista, no lugar de
sempre, na árvore do outro lado da rua. Ele chegou cedo e logo me deu os
parabéns.Aessaalturadodiaeujátinhaatémeesquecidodequediaera.
Almoçamos no Burger King (todo aniversário eu almoçava lá, pois
todos os outros dias do ano eu era obrigada a comer em casa algo muito
refinado,eparasersincera,desgostoso),voltamosparacasaefuidormirum
pouco.
Um sonho estranho eu tive. Eu estava em um labirinto e tinha que
achar meus pais, porém eles estavam fugindo de mim, tentando por tudo
me despistar. Encontrei uma chave e ao pegá-la, novos e amáveis pais
aparecerameme"adotaram".
Acordeiassustada...Edecepcionada,portersidosomenteumsonho.
Eufuiobrigadaavoltarparaaescolaàs16:00poiseutinhavôlei.
Karina,aprofessoradevôlei,eraumahipócritaeinjusta.
Como em todos os treinos, ela separou os melhores dos piores, como
eu, é claro. Deu qualquer coisinha para o meu grupo e ficou ajudando
aquelesquesesaíammelhor.Nofinaldo treino,elaseparou os mesmosdois
times e fez um jogo um contra o outro, como em todo treino. Quem sempre
ganhava? Pois é, o meu time que nunca foi. Eu só continuava a praticar vôlei
semanalmente,poiseunãofazianenhumoutroesporte.
Uma aula que eu sempre tive a vontade de começar era pole dance, ao
contrário do que parece, não é somente uma dança de mulheres de
programa, é um estilo de dança muito legal e que te deixa com um corpo
“escultural”,digamosassim.
Mais de noite, fui para casa, jantei e capotei na cama em um sono
profundo...
A minha festa seria dali duas semanas, pois o dia do meu aniversário
caiu justamente em uma quinta-feira, e fora isso, todos os salões haviam
sidoreservadosantes.
Que belo aniversário de 16 anos. Passei a minha vida toda na
23
esperançadequecom16anosaminhavidajáiriaestarmelhor,maseusoua
prova de que querer não é poder. Não posso mudar a minha realidade, não
posso escolher ser popular, escolher pais que me amem, escolher ter
amigos, escolher ser uma garota normal, escolher ter olhos como de todos,
escolhernãosofrerbullyingeserumapessoanormal.
Eraoqueeupensava.
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A proposta
Sexta-feira 13. O despertador gritava sem parar e não havia ninguém
parasilenciá-lo,então,comosempre,levantei-meecaleioobjetoberrante.
Tomei banho, penteei meu cabelo, troquei-me e fui tomar café-da-
manhã com a dona Lurdes. Estava quase saindo de casa quando me lembrei
demeusóculos,Deusmelivredeiràescolasemeles.
Fui para a escola a pé naquele dia. Lembro-me que encontrei muitas
amigas de minha mãe no caminho, todas sorridentes, acompanhando suas
filhas. Nunca soube como era essa sensação, afinal, eu sempre tivera
motoristaparticular,oDany,umcaramuitolegal
parasersincera.
ChegueiàescolaelogomepusàprocuradeCamilaeEstela.
Não sei bem como tudo aconteceu, mas em um só movimento fui
nocauteadanacabeçaemeviembrulhadaemumgrandeescuro.
Carregaram-me para uma sala. Não me debati e nem gritei por ajuda,
eu sabia que seria tudo em vão. Quando o saco com cheiro de mofo fora
arrancado, a luz machucou os meus olhos, estava claro na sala, muito claro.
Encontrei-me sentada em frente às garotas mais irritantes e mimada da face
daTerra,asgarotasmaispopularesdoEvanesceu.
Só podiam estar brincando com a minha cara, o que ao certo elas
queriamdemim?Nãohavianadaqueeutivessequeelasjánãotivessemem
dobro,anãoser,éclaro,umgrandevazio,issoeraexclusivomeu.
Em instantes minha pergunta foi respondida, como se elas tivessem
lidoaminhamente.
– É o seguinte, mosca, você vai fazer uma coisa para gente, não adianta
negar, espernear ou implorar, se não fizer, daremos um jeito de tornar a sua
vida medíocre em uma vida pior ainda. Você vai roubar as chaves da piscina
dos fundos do Evanesceu. Estaremos testando a sua competência,
queremosobservarseumagarotatãocertinhapodealgumdiaserrebelde...
É o nosso trabalho de sociologia e você é a cobaia perfeita. Se você cumprir
essa tarefa e não abrir esse bocão gigante para ninguém, a gente faz a escola
inteiratedarummêsdefolgadaszoações.
Acredita que isso tudo saiu da boca de uma loira oxigenada chamada
28
Mackenzie?
A proposta parecia-me tentadora, imagina como seria legal não ser
zoadadurante30diascompletos?Muito,muitotentadora.
–Porquenãofazemissovocêsmesmas?–indaguei.
– Ora, isso é Ó-BE-VE-O! - Mackenzie falou, com pausas, exatamente
como escrevi,junto com amaniaidiotadeestralaros dedos quatro vezesem
"Z" - não podemos nos arriscar. Você é a queridinha da diretora, é a coitada
da escola. Nós não temos uma boa reputação com a titia Lauli. Fica muito
maisfácilparavocêdoqueparanós...
–Ecomofareiisso?-perguntei,umtantoquantoansiosa,admito.
– Isso é com você, espertinha. Vire-se! - completou Mônica, o "ombro
direito"deMackenzie.
Volteiparaaescolaeperdiaprimeiraaula.Normal.
Não parei de pensar na proposta/ameaça nem por um segundo, era muito
tentador...Eassustador.Eununcatinhafeitonadadeerrado,semprefuiuma
menina"dentrodasnormas".
“Droga!"pensei,aolembraroserviçocomunitárioqueteriadepoisdaaula.
O sinal bateu e eu fui direto para a praia, onde deveríamos recolher o
máximodelixopossível.
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31
As primeiras três horas
Chegando lá, percebi não só que faltava ainda alguns incompetentes
do time de futebol como também a Fernanda, onde ela se metera? Ignorei o
fato e comecei o longo processo de catação que acabaria somente dali a três
horasinteiras.
Hugo foi o último a chegar ao local combinado. Chegou todo arrumadinho
comoquemiriaaumrestaurantedalialgunsminutos.
Encarou-me, cochichou algumas palavras para os amigos e todos
caíramnagargalhada.Ridículos,naminhahumildeopinião.
Trêshorasmaistarde,adiretoraLaulianunciou:
– Hora de formar as duplas para os próximos encontros. A partir de
amanhã, vocês farão coisas mais difíceis e eficientes, precisarão aprender a
cooperaretrabalharemgrupo.
Quase que de imediato agarrei o braço de Camila, que agarrou o braço de
Estela,queagarrouomeubraço.Rimos.
– Nada disso mocinhas, eu é que escolherei quem irá com quem. E
fingiuumarisadamaléfica,algocomo"mua-ha-ha-ha-ha".
– Estela irá com Bruno, o co-capitão do time, Camila irá com Júnior,
Túlio irá com... E continuou a formar os pares até que me veio um arrepio na
espinha: "Beatriz, você irá com Hugo. Boa sorte a todos e divirtam-se, se
puderem"eriumaleficamentemaisumavez.
Como assim, eu teria que passar três meses, três horas por dia, na
companhia de Hugo? Isso era alguma brincadeirinha de mau gosto por
acaso?Assimnãodavaparaconviver!
Virei-me a tempo de ver um grande sorriso de satisfação nos lábios de
Hugo.Quehorror!
Nocaminhopracasa,oferecicaronaàStéeaCa,que
aceitaram e me acompanharam até a saída. Eu tinha até me esquecido do
ocorridoantesdaaula.Logoperceberamcertosustoemmeuolhar.
"OquehouveBe?"
Então tomei coragem e contei tudo. Eu não podia esconder delas, elas
eram minhas únicas amigas e o que eu mais prezava era a verdade. Elas
estranharam. “Por que alguém como a Mackenzie pediria ajuda a você Be? E
paraqueaschaves?Semquerertedesmerecer...”
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35
O sonho
Eu tinha mais ou menos 30 anos já. Estava um sol de rachar, os
passarinhos cantavam em sintonia e tudo parecia muito calmo. Eu estava
mais que feliz, pela primeira vez em anos, meu lindo marido(marido?!...)
acenava para mim com aquele sorriso cheio de vida que eu sentia, tinha me
apaixonado. Mais além, um espelho refletia uma mulher maravilhosa, com
roupas simples, porém, aconchegantes, carregando uma criança loira, de
olhos escuros como duas jabuticabas, vestida com um conjuntinho amarelo,
a cor da felicidade, em concordância com o leve sorrisinho que deixava
expostoosdoisúnicosdentinhosdeleite
daquela boquinha tão delicadinha. Sua risada era contagiante, era música
para os meus ouvidos. Assustei-me ao perceber que a mulherrefletida no
espelhoeranadamais,nadamenosqueeumesma,sóquemaisbonita,mais
envelhecida,ecomcerteza,maisfeliz.
Olheimaisaoredorenoteiqueeuestavaemumlindoefloridocampo,
umacasagrandeesingelademadeiraeraaúnica
construçãodolocal,océuestavaazulclaroesemnuvemnenhumaeumlago
imenso e incrivelmente limpo, cheio de peixes e algas, estendia-se em volta.
Não consegui reconhecer o lugar e nem tive tempo. Um furacão repentino
surgiu no meio da casa e roubou tudo, acasa, o lago, os passarinhos, o meu
marido e a minha filha, furtou toda a minha felicidade. Tudo ficou escuro,
tudoficoutristeedeprimente.
Acordei encharcada, não sabia se de suor ou de lágrimas e gritando
também.DonaLurdesencontrava-seaomeuladocomumterçoemumadas
mãosenaoutraumtermômetro.
– Graças ao bom Deus! Meu Senhorzinho, amém, amém! Que susto,
menina! Não acordava de jeito nenhum, quase me matou do coração!
Gritavasemparar,suava,choravaeacordarqueébom?
Nada!
–CalmaDonaLurdes!Euestoubem,foisóumpesadelo...
– Você anda muito quieta de uns tempos para cá, o que vem
acontecendo,querida?
Parei para refletir alguns instantes. Contar para ela, mudaria de fato alguma
36
coisa? Será que ela poderia me ajudar em algo? Afinal, ela era a figura
materna mais próxima de mim, será que acolheria? Será que ela sentia o
mesmoamorqueeusentiaporela?Elanãotinhafilhos,apropósito.
–AiDonaLurdes,euvoutecontarjáqueasenhoraquersaberoquehá
comigo. Na realidade, acho que nem eu sei ao certo. Pode parecer hipocrisia
e drama, mas não, não é. A minha vida é um lixo! Não tenho uma mãe, nem
um pai, o que para mim é direito detodos, né? Não tenho uma mãe para
dividirsegredos, nem um pai para me contar histórias para eu dormir. Sabe o
quão difícil foi crescer vendo todos ao meu redor sendo amados e eu não?
Meus pais nunca demonstraram se importar comigo, mal me conhecem.
Sumiram da minha vida quando eu tinha apenas quatro aninhos! Só pensam
em dinheiro e trabalho! E para melhorar a minha situação este não é o meu
único problema, como se já não bastasse a ausência de meus pais, a escola é
olugarqueeumaisodeionessemundoeeuvoutecontaroporque.Eusofro
bullyingtodosantodiainjustamente,ouvaimedizer
que a cor dos meus olhos foi escolha minha? Foram 14 anos de escola, 14
anosdesofrimentoemumlugaremquenãoháumpingodejustiça.
É uma escola particular, ou seja, eu pago para ir lá e ouvir palavras que
machucam e que ninguém em sã consciência gosta de ouvir. Os professores,
coordenadores e diretores não estão nem aí para nós, alunos, ou para
nossosfuturoseprincipalmenteemrelaçãoaminhapessoa.Elessãofalsose
fingem tomar providências para o “melhor da escola” pois vivem só de
aparências. Todo dia tudo se repete. Nem no dia do meu aniversário me
deixaram em paz. Conseguiram para mim três meses de serviços
comunitáriosportentarapartarumabrigaidiota.
Eadivinhasóqueméaminhaduplaparaospróximos90dias?
Simplesmente Hugo Oliveira, o capitão do time de futebol, o cara mais
repugnantementemimadoesemcoraçãoqueexiste!
Dona Lurdes não falou nada, eu senti que ela não sabia o que falar.
Senti-me culpada por ter explodido com ela, pois ela não tinha24 nada a ver
com os meus problemas. Ao longo do meu discurso/desabafo, foi me
subindo uma raiva que fez o meu sangue borbulhar e eu fui aos poucos
começando a gritar. Por alguns minutos ficamos nos encarando. Instantes
desconfortáveissepassaram,porém,eufiqueialiviadaporfinalmentesoltar
isso tudo de dentro de mim. Ela me abraçou e beijou a minha testa como
37
uma verdadeira mãe. Secou minhas lágrimas – até então eu não tinha
percebido que estava chorando – e foi fazer um bolo de cenoura com
coberturadechocolate,meupreferido.
Foi reconfortante o meu primeiro momento de amor recordável com
ela, aliás, acho que com qualquer um. Minha mãe, até onde eu me lembro,
nunca tinha feito nada parecido. Eu não tinha raiva, nem rancor, nem
mágoasguardadasdemeuspais.Esperaummomento!Quementirosa!Sim,
eutinhasimtudoissodentrodemim,maspercebiquetodosossentimentos
ruinsforamamenizados,finalmente.
38
39
40
41
O roubo e mais três horas
A minha festa seria dali a exatamente 14 dias, dia 27 de junho, e eu
estavamuitoanimada,eparasersincera,commedo
também...Eseninguémaparecesse?Eujánãoeramuitopopular,mastodos
gostam de festas! Por que não ir, então? Eu e Dona Lurdes estávamos
programando cada pequeno detalhe para que tudo saísse perfeito... Aquela
festa poderia ser a minha salvação! Todos iriam parar de me irritar se eu
parecessepelomenosumpouquinholegal,certo?
Mas enfim, esta não era a minha única preocupação, fora isso eu ainda
tinha que arranjar um jeito de roubar as chaves da piscina do Evanesceu. De
repente,eutiveumabrilhanteideiaecoloqueioplanoemação.
– Diretora Lauli, eu gostaria de conversar com a senhora sobre um
assunto importante... (Eu ainda não sabia sobre o que ao certo, mas eu
precisavadetempo!)
– Claro Senhorita Carvalho, siga-me até a sala dos professores, por
favor.
SeguimosrumoaúltimasaladocorredorDequandoeladestrancouaporta,
a Estela gritou de longe: "Diretora, Diretora! Guerra de comida no refeitório!
Acheiquedeveriasaber..."
– Senhorita Carvalho, pode entrar na sala e me aguardar, não
demorarei. E quanto a você, Senhorita Esteves, mostre-me onde está a tal
"guerra".
Pisquei para a Estela com o olho direito, conforme o combinado, e ela
retribuiuigualmente.
Corri para dentro e fechei a porta para que ninguém visse o que eu
estava prestes a fazer. Se eu fosse a chave da área de natação, onde me
guardariam? Sei que é uma pergunta idiota, mas valia a pena tentar. Abri a
primeira gaveta da escrivaninha da diretora e deparei-me com dezenas de
chaves. O que eu faria agora? Sorte que todas estavam com etiquetas e em
menosde5minutosachei:"Piscinas".
Fechei a gaveta a tempo de ver a diretora longe, furiosa por ter descoberto
quetudonãopassavadeumamentira.
- Oi diretora, pensando bem, já resolvi o meu problema, muito
42
obrigadamesmoassim!
Esaícorrendoparanãoperderaprimeiraaulaapósointervalo.Missão
cumprida, e com sucesso! Encontrei a Sté rindo e a Cá sem entender o que
estavaacontecendo.Elachegoutarde,porissonãoainformeidoplano.
Às 17:00 eu precisei voltar ao colégio. Todos já estavam presentes, só
faltavaoHugo,comosempre.
- Hoje e, provavelmente, até o final desse mês, vocês participarão de
um novo projeto. Este se chama "Felizes para sempre". Mas em que consiste
esteprojeto?Eupassoaresponderestapergunta.
Cada dupla ficará encarregada de um idoso da casa de repouso "Cantinho de
Paz". Vocês terão de cuidar deles e mostrar o verdadeiro valor da felicidade.
Todos os dias às 17:00horas uma van partirá daqui do Evanesceu com todos
os alunos. Preciso da autorização dos pais ou responsáveis até amanhã, no
próximoencontro.
Logo que a Diretora acabou o discurso, Hugo chegou. Ele não sabia o
que era para fazer, então Dona Lauli falou para eu explicar e em poucas
palavraseuofiz.Suareaçãonãopoderiaserdiferente,fezumapiadinhacom
osamigoseseguimosparaotaldo"CantinhodePaz".
Chegamos lá e a primeira coisa que fizemos foi a seleção dos idosos.
Encarregaram-nosdecuidardeumavelhinhachamadaJúlia.
Ela tinha 60 anos e naquele dia descobrimos a sua história de vida. Ela fora
professora durante 40 anos de sua vida, acabou a faculdade cedo e casou
com 31 anos. Teve cinco filhos, três meninas e dois meninos. As meninas
viraram modelos na Rússia, saíram de casa aos 18 anos para seguirem seus
sonhos e depois disso nunca mais voltaram para o conforto da casa dos pais.
Um dos filhos faleceu de leucemia aos 14 anos e o outro filho foi internado
em uma clínica de reabilitação. O marido faleceu por causas naturais e ela
preferiuvivernessacasaderepousojuntocomasuanovafamília.Sentipena
dela, imagina ser praticamente abandonada pela família e por todos que
você ama? Eu sei como é não ter quase ninguém, mas não ter ninguém? Isso
devesermuitotriste...
Durante as três longas horas de serviço comunitário, algo me
impressionou. O jeito como o idiota do Hugo agiu foi impressionante para
mim. Nunca o imaginei como uma pessoa não tão má. Ele cuidou de Júlia
como se fosse a sua própria avó. Mostrou-se realmente interessado nas
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históriasdavelhinha.
Júlia tinha olhos incrivelmente azuis, uma pele clarinha e cabelos
curtinhos e grisalhos. Ela era meio rabugenta e triste, mas as circunstâncias
emsijáexplicavamoporquê.Eusentiqueprecisavaajudá-laaveravidacom
novos olhos. Eu me sinto realmente muito bem quando ajudo alguém, pois
euimaginoesintooprazer,afelicidade,deserajudado,deteralguémquese
importe.
Porincrívelquepareça,nãotrocamosnemumxingamento.
Nem uma palavra, para falar a verdade... Acho que ele estava ocupado o
suficienteparafinalmentemeesquecer.
À noite, sentamos, eu e a Dona Lurdes, para resolver o últimos
detalhesdafesta...Tudoestavasaindoperfeitamentecomoeu
sempre sonhei. O lugar, os vestidos, o bolo, os doces, as atrações, a dupla
sertaneja,osDj's,osconvidados,tudoperfeito.
Dona Lurdes estava se empenhando bastante, tanto para a minha festa,
quanto em relação a mim. Antes de eu dormir, toda noite ela passou a me
darumbeijonatestaemecobrircomocobertor.
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E nasce um sentimento
Cada encontro com a Senhora Júlia nos tornou mais próximos. Eu,
Hugo e a velhinha mais engraçada e reclamante que eu já vi. Ajudamos Júlia
a arrumar o seu pequeno quartinho. Ela tinha posse de objetos que
carregavam lembranças muito boas e a cada pedaço de sua memória,
explicava a história que estava envolvida. Era emocionante ver uma pessoa
que tinha tudo para ser a mais triste do mundo, com alegria nos olhos de
relembrarosbonsmomentos...Achoqueesseéo
pior defeito do ser humano, não conseguir achar o lado bom em algo ruim,
maselaconseguiueeuacolhiissocomoumaliçãodevida.
Em um dos encontros acho que ela notou como eu olhava para Hugo,
com os olhos de "uma garotinha apaixonada", de acordo com ela, e a partir
desse dia eu passei a conversar com ela sobre ele, afinal, com quem mais eu
conversariasobreessetipo decoisa? Nãoseiao certo o que eusentiapor ele
naquela época... Um sentimento diferente começou a nascer dentro de
mim,algoforte,maseuaindanãoestavadecididaseeraalgobom,ouruim...
Às vezes, tarde da noite eu me pegava pensando nele, olhando para as
estrelasecontando-as,atédormir.
Eraestranho.EleeraumoutroHugotrêshoraspordia,umHugobome
protetor, não um valentão que fazia de tudo para chamar a atenção de
todos.
Certo dia eu e dona Júlia tivemos uma conversa que ficou marcada em
mim:
–Escuta,Bê,eutenhomuitomaisexperiênciaquevocê...
Reconheço a paixão nos olhos de uma garotinha quando vejo. Aquele brilho
quando vê o primeiro amor. Sabe, você pode enganar a todos, mas a mim,
não. Eu passei por isso pelo meu amado João. Eu negava a todos que
perguntassem se o que eu sentia por ele era algo mais que somente
amizade.Hojeeuperceboqueeusóadieioinevitáveleissofoi
ruim, pois passei dois longos anos da minha vida sem ele ao meu lado, para
me amar e cuidar de mim. Olhe bem para mim, se você gosta dele, por que a
senhoritanãoseabreparaele?Vocêétãobela,pordentroeporfora...
– Obrigada, Dona Júlia, mas não, eu não sou bonita... Eu sou estranha,
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por acaso já notou que meus olhos têm problema? E outra, se ele não sente
o mesmo, de que adianta? Nem eu sei o que eu sinto por ele, é tudo muito
complicado.
– Beatriz Carvalho, não fale assim dos seus lindos olhos, isso não é
defeito nem falha, é uma marca. Eles te tornam única. Olhe ao redor, cada
um tem a sua marquinha, algo que é exclusivo. Alguns têm essa
exclusividade internamente, e outros, como você, a tem externamente. Não
se deixe levar pelo que as pessoas dizem a seu respeito, querida. Você sabe
quemvocêé,eéissooquemaisimporta.
Lembro do dia em que ficamos amigos de verdade, eu e Hugo... De
repente, ele se tornou meu melhor amigo e a única que sabia disso era a
Júlia.
No dia seguinte deste em que a Júlia descobriu meus sentimentos, ela
nos ensinou a dançar à moda antiga. Chegava a ser engraçado, pois o Hugo
era meio descordenado e eu também não era lá uma dançarina... Foi
naquelediaqueeutivecertezadosmeussentimentos,passeiavê-lonomeu
futuro, que poderia não ser tão ruim quanto o presente, e seria muito difícil
serpior.Emquefuradaeutinhamemetido?
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Hugo
Passei a ver a Senhora Júlia mais frequentemente e por minha conta,
elase tornou uma verdadeira amiga para mim e,com o tempo, passei a amá-
la como a minha própria vovozinha. Júlia era uma velhinha muito astuta,
sempre sabia a coisa certa a se dizer. E percebo que ela, nesse tempinho que
passou comigo e com o Hugo, deixou um pouco o seu lado rabugento. No dia
em que a conheci, eu poderia dizer que esta era a sua marca, mas hoje sei
que não, este defeito é somente um corte que foi aberto e que finalmente
estácicatrizando.
Hugo voltou. Ele havia ido buscar o leite da Dona Júlia. Eu olhei nos
olhos dele e me perdi. Perdi-me e quando eu voltei para a realidade, já
estavanahoradeirembora.
Oamoréalgoestranho.Quando vocêmenosespera,seapaixonaepor
quem você menos espera também. Se eu pudesse escolher, escolheria me
apaixonar por alguém ao meu alcance, não pelo líder do time de futebol,
alguémtãoinatingível.
Ele olhou para mim e percebeu que eu o estava encarando a um bom
tempo e notou em meus olhos um tom meio triste, que eu não pude
esconder.
–Oquehouve,Be?(Sim,elemechamoudeBe!!!)
–Nadanão,Hugo,eusóvouaobanheiroejávolto...
SaindodobanheiroouviumpedaçodaconversaentreHugoeJúlia.
– Hugo, se você sente isso por ela, por que nunca demonstrou? Vocês
seriam tão felizes juntos, um casal só não mais perfeito do que eu e o meu
querido João. E, aqui entre nós, um coelho contou-me que talvez esse
sentimentosejarecíprocoentreosdois...
–Umcoelho?PerguntouHugo.
–Quisdizerumpassarinho.
Eles riram um pouquinho e eu entrei, admito que com um sorriso no rosto.
Seráqueestavaacontecendooqueeupensavaqueestavaacontecendo?Ele
realmentegostavademim?Ah,meuDeus,euestavanasnuvens.
Voltando para o ônibus ele me puxou pelo braço para atrás do ônibus. Eu
estavaquasesemar,oqueeleestavafazendo?
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–
Eufiqueiboquiaberta,comoassimelederepenteresolvedizerisso?
–Vocêmeouviu,Be?Eutambémnuncaimagineiqueissoalgumdiana
minhavidaaconteceria,masestáacontecendo,agora,nessemomento.
Ele se aproximou. Nossos lábios estavam a centímetros. Eu já não
sentia mais as minhas pernas. Parecia que tinham mil e duas borboletas no
meu estômago. Eu não estava acreditando ainda, como é possível em tão
poucotempooódioquemecegavasetransformarem
amor?
Ele me beijou, com força, como se ele não quisesse me soltar nunca
mais.Beijoucompaixão.Tudocomeçoulentamente,porém,com
o tempo, esse beijo foi acelerando, foi ficando cada vez mais apaixonante. E
nomeiodobeijoeleparou,olhounosmeusolhosedisse:
–Eutequerocomonuncaquisumagarotaantes,estranho,nãoé?
Nós rimos e eu envolvi seu pescoço com meus braços e o beijei
novamente. Era o meu primeiro beijo, afinal, quem iria querer beijar a
"mosca" da escola? E eu não poderia reclamar de nada, tudo estava às mil
maravilhas.Eracomoseasestrelastivessemdescidodos
céusparabrilharsomenteparanós,afinaljáeram20horas.
BeatrizCarvalho,euestoucompletamenteapaixonadoporvocê.
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Revelações
No dia seguinte, ninguém sabia ainda sobre mim e Hugo. Acordei
animada e percebi que essa era a primeira vez que eu estava indo para a
escola feliz. Tomei banho correndo, tomei meu café da manhã e pela
primeira vez na história eu passei maquiagem e me arrumei de verdade para
ir ao Evanesceu. Eu estava tão avoada que quase esqueci os meus óculos, eu
podia estar agora com o Hugo, mas isso não impediria os outros de me
zuarem.Ouimpediria?
Dei um beijinho de tchau na Dona Lurdes e vi um lindo sorriso em seus
lábios.Conteiaelatudooqueaconteceueelaficourealmentefelizpormim.
Comoeuaamo!
Dany me levou para a escola e logo entrando na sala os apelidos
começaram novamente. Sentei no meu lugar de costume e continuei feliz,
nada estragaria o meu bom e raro humor. De repente, o Hugo apareceu.
Achoqueeununcatinhareparadonoquãobonitoeleera.Epercebinaquele
momentoqueelevinhaemagrecendoeganhandomassamuscular.
Sem nem pensar duas vezes, ele chegou e me beijou na frente de
todos. Quando o beijo acabou, olhei em volta e a cena me fez rir. Todos
estavam nos encarando com as bocas abertas sem nem piscar os olhos. Até
osalunosdasoutrassalasvierampresenciaromomento.
Obeijofoitãolongoassim?
–Achomelhorfecharemaboca,vaientrarmosquito,galera.
Acho que ninguém esperava por isso, nem eu, para falar a verdade. Eu
nuncafalavaempúblico.
O professor entrou e a aula começou. Era aula de química e a cada
equação eu olhava para o Hugo e ele para mim. Era impressionante como a
genteestavasedandobemjuntos.
Aofindarasaulasdoprimeirotempo,tivemosoprimeirointervalo.
"Caramba, não contei sobre o Hugo para a Sté e a Cá", pensei. E logo as
avistei de longe com uma cara de choque. Olhei para baixo e percebi que eu
estavademãosdadascomoHugoefizumsinalde"depoisexplicotudo".
Eu sentei à mesa do time de futebol pela primeira vez na minha vida e
mesenticulpadaporasminhasamigasnãoestaremcomigo.
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O time inteiro estava em silêncio encarando-nos e eu me senti meio
desconfortável. Hugo olhou para mim e tirou os meus óculos devagar e com
cuidado. Pela primeira vez, em anos, eu estava sem os meus óculos. Senti-
me indefesa e todos começaram a gargalhar e me xingar. Uma lágrima
escorreu de meu olho esquerdo, mas eu não queria que ninguém me visse
chorar,entãosaícorrendoemdireçãoaobanheiroomaisrápidopossível.
Somente quando cheguei à porta do banheiro eu percebi que o Hugo
saiucorrendoatrásdemim.Pegouomeubraçoantesdeeugiraramaçaneta
e me beijou. Foi um beijo muito emocionante. Minhas lágrimas escorriam
dosmeusolhosepercorriamasminhasbochechas.
Não me contive e enlacei minhas pernas em volta da cintura de Hugo, o qual
mepegounocolosemnenhumesforço,poiseueramuitomagrinha.
Olhounosmeusolhosedisse:"Nãoligueparaoqueosoutrosfalamou
pensamaseurespeito.Vocêélindadequalquerjeito,pelomenosparamim,
eéissoqueimporta,certo?"
–Certo.
Respondiessaúnicapalavraeobeijeinovamente.
Inesperadamente,elemesoltoueajoelhou-seàminhafrente.
Pegouaminhamãoetirouumacaixinhadobolso.
– Beatriz Carvalho, você aceita namorar comigo? Quero ser seu, e
somente seu. E você, a partir do momento que aceitar isso, será minha para
sempreenãoterámaisvolta.
-Somentesua.
Ele colocou a aliança no meu dedo tão delicadamente que eu nem o
reconheci.Nosbeijamosmaisumavezefomosparaaaula.
Passei a aula inteira observando cada detalhe do meu novo anel.
Como era perfeito, tanto o anel quanto o meu Hugo Oliveira. Não sabia mais
setudooqueeuestavavivendoeraumsonhoourealidade.
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A primeira vez
Hugo e eu saímos nesse mesmo dia e fomos ao cinema. Fomos assistir
onovofilmedasaga“HarryPotter”.
Eujátinhalidoolivroeestesetornaraumdosmeusfavoritos.
Antes de entrar na sessão, Hugo me encarou com uma cara diferente,
meioquestionador.
–Oquehouveamor?
– Só estava pensando na sorte que eu tenho de ter uma joia tão rara
para chamar de namorada. Obrigado, Be, você realmente me transformou
emumhomemmelhor.
Eunãosabiaoquefazeralémdesorrirebeijá-lo.
– É isso mesmo, Be. Todos te chamam de "Be"... É muito clichê, posso
techamarderara?
Eurieconcordei.
Eu amara o filme, por mais que eu tenha perdido algumas partes: é
inevitávelquandosetemalguémcomoHugoaoseulado.
Jantamos no McDonalds e eleme deu carona para casa, afinal, já tinha
carta de motorista. Sei o que está pensando, mas como? A verdade é que
Hugo já tem 18 anos, ele repetiu a segunda série do ensino fundamental e o
segundo colegial. Com medo de que ele repetisse mais uma vez, prometi
ajudá-lo a estudar dali para frente e ele concordou, por mais que eu não
fosseumadasmaisbrilhantesalunasdaescola.
Ainda no carro, agradeci pela carona e entrei em casa. Fechei a porta
domeuquartoedormidojeitoqueeuestavamesmo.
Acordei somente no dia seguinte. Já eram 14:30 hs de um sábado
ensolarado. Vi o meu celular e li a mensagem de bom dia de Hugo. Mandei
umaresposta,quetinhaacabodeacordarefuitomarbanho.
Dia 27, terça, o dia da minha festa, Dona Lurdes fora conversar com a
diretora para que eu pudesse chegar à escola, no dia seguinte ao da minha
festa, mais tarde que de costume, pois eu com certeza dormiria tarde. Ainda
bem, pois eu não aguentaria acordar cedo e ir à aula, por mais que agora eu
tivesseumbommotivoparanãoreclamar.
Encontrei-me com Hugo para almoçar e nós almoçamos em um
restaurantenovoqueabrirapertodaminhacasa.
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Caminhando pela calçada, nós estávamos conversando sobre as férias
edescobriqueeleiriaviajar.Fiqueitriste,masaceiteinumaboa.
Denoiteeuoconvideiparajantaremcasaeeleaceitou.
"Dingdong"...
–Euatendo!
Gritei para Dona Lurdes e fui abrir a porta. Era Hugo, claro, e trouxera
flores! Dei um beijo nele e fui colocar as flores em um recipiente com água
gelada.
Apresentei Hugo à Dona Lurdes, que jantaria conosco. Eles se deram
superbemeeufiqueifelizcomisso.
Depois do jantar, levamos os pratos à pia e depois subimos para o meu
quarto.
Sentamos na cama e eu liguei a Tv em qualquer canal e virei para ele.
Beijamo-nos por um longo tempo. Percebi que ele tentava tirar a minha
blusaepermiti.
–Vocêestáprontaparaisso?Senãoestivereuvouentender...
Depoisderefletirumpoucorespondiqueeudefatoestavapronta.
Ele era muito cuidadoso, cuidava de mim como ninguém nunca
cuidou.Perguntavaacadasegundoseeuestavabememe
acariciavadeformaamáveledócil.
Já era meia-noite e ele precisava ir embora. Vestimo-nos e eu o levei até a
porta.
–Boanoite,meuamor.
–Boanoite,rara.
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Dia 27: festa e decepção
Acordei mais que animada! JÁ ERA DIA 27!!!! Era o dia da minha festa,
o dia mais importante para mim... Porém eu não fazia nem ideia do que
estavaparaacontecer.
Cheguei no salão de beleza, onde eu faria o cabelo, a maquiagem e as
unhas às 18:00h, pois queria estar prontinha às 21:00h em ponto para
chegar cedo no local onde seria a minha festa para ver se tudo estava
perfeito.
Pronta, fui me ver no espelho e, meu Deus, eu realmente estava
bonita, eu me sentia linda pela primeira vez na minha vida e eu não ligaria
para o que dissessem a meu respeito, aquela era a minha noite e ninguém a
estragaria!
Às 22 horas começou a festa e logo os convidados chegaram. Fiquei
muitofelizquebastantegentefoi.
A cada um que adentrava a minha noite dos sonhos era um click
diferente. O flash já estava me cegando quando ele chegou. Ele estava
maravilhoso naquele terno risca de giz preto e um lencinho roxo no bolso
direito do peito. Beijou-me como se nenhuma câmera ou mesmo nenhum
convidado estivesse ali presente. Cheguei a tropeçar e a derrubar o meu
discurso no chão. Coincidentemente, Hugo derrubou um papel também.
Pegamosrapidamenteospapéisdochãoeeuseguicomasfotos.
Meia noite lá estava eu, em cima do palco, em frente a uma plateia,
com um microfone na mão direita e o discurso na esquerda. Comecei a ler
em voz alta: "Eu Hugo Oliveira Nunes concordo com os termos dessa aposta
que estabelece...". Minha voz falhou e eu parei de ler em voz alta o que
estavaescritonessemomentoecontinueinopensamento.
O quê? Tudo aquilo não passou de um teatrinho fingido? Hugo nunca
gostou de mim e eu fui uma tola de cair em seu papo! Poxa, para que tanta
maldade?
Lánofinaldapáginaestavaescritoonomedaresponsávelpelaimpressãoda
aposta: Mackenzie. Então ela e ele apostaram que se Hugo me fizesse
apaixonar-se por ele antes da festa, ele ganharia um mês de refeição
gratuita.Issoexplicavaacordopapelrosa,assimcomoomeu.
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Euestavaincrédula.Eracomoseomeumundodesmoronasseàminha
frente e as minhas mãos estivessem amarradas, impedindo que eu pegasse
sequerumamigalha.
Atéentãoeunãopercebiosilêncioqueestavaosalão.
Procurei Hugo no meio da multidão e lá estava ele, lendo o meu discurso. O
discurso em que eu agradeceria as minhas amigas Ca e Fer por nunca terem
me deixado, agradeceria a Dona Lurdes e o Dany, os quais sempre estiveram
presentes, e principal e especialmente agradeceria ao Hugo por ser o
"melhor namorado do mundo" e me acolher como ninguém jamais me
acolheu.
Só de pensar na satisfação que ele deveria estar sentindo, um lágrima
escorreuecomela,vierammuitasoutras.
Quando me dei conta, eu estava correndo para fora do salão e atrás de
mim vinha um Hugo desesperado. Continuei o mais rápido possível, porém,
ele era sem dúvida, mais atlético e veloz, portanto me alcançou sem grandes
dificuldades e agarrou o meu braço. A minha vontade era de espancá-lo com
todasasminhasforças,maseuestavacientedequeissonãofuncionaria.
Hugo tentou se explicar, disse que no começo realmente tudo não
passava de uma aposta, porém ele tinha "se apaixonado de verdade". Uma
crise de riso me veio e ele ficou sem entender, sem reação. Parei de rir, dei
um tapa (ardido, admito e agradeço por ter dado certo) em sua face e saí
correndo sem direção. Eu estava destruída por fora, e por dentro, e mais
umavezeumesentiasozinhanessemundotãogrande.
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Superação
Depois daquele desastre, não fui à escola, pois passei dois dias inteiros
chorando. Não conseguia parar, porque quando eu finalmente me acalmava
eu olhava para qualquer coisa e esse algo me lembrava dele. E eu voltava a
chorar e gritar de raiva. Dona Lurdes ficou assustada e resolveu que seria
melhormedeixarsozinhapararespirarfundoeseguiremfrente.
Como eu não desconfiei? Tudo aconteceu tão rápido, tão impossível
de acontecer, e eu me apaixonei pelo único cara que já tinha dito estar
igualmente apaixonado por mim. Que raiva que eu tinha de mim naquele
momento... Cansei de culpá-lo por tudo, a culpa também era minha de ter
sidotãoingênua,tãosonhadora.
Acordei sexta-feira com o pior humor de toda a minha vida. Eu era
obrigadaairparaaescola,olugarqueeuvolteiaacharrepugnante.
Levantei da minha cama sentindo que ela gritava para que eu voltasse e fui
direto ao banheiro. Tomei banho, escovei os dentes e coloquei meus óculos
escuros. Vesti minha camisa preta onde lia-se "F*** the world", minha calça
jeans militar preta e meu vans preto. Tudo preto, em concordância com o
queeuestavasentindo.
Cheguei à escola e ninguém parecia me notar. Era como se eu não
existisse.
Segui para a minha aula de História da Arte e na porta estava Hugo.
Quandoelemeavistou,correuemminhadireçãoemebeijou.
–Bomdia,rara.
Que moleque insolente! Ele pensava que depois de tudo, nós ainda
estaríamos juntos? Quanta petulância! Chegava a ser falta de respeito
comigo.
"Hugo, o que você está fazendo? Nós não-estamos-mais- juntos!"
griteietodaaescolaparouparaobservaroespetáculo.
Elemeolhoucomcaradeinocenteetentouseexplicarpelamilésimavez.
"Se o que você está me dizendo é verdade, por que raios você estava
carregando aquele acordo no seu bolso no dia da minha festa? Estava
mostrando que cumpriu? Queria a sua recompensa? Bom, a sua
recompensa está aqui." e mostrei o dedo do meio para ele sem nem ligar
paraquantosprofessoresestavamassistindoaoshow.
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"Opapelestavacomigopoiseuiacancelaraaposta"tentouHugo.
"É, pelo visto não deu certo, não é?" falei baixo e saí andando. A escola
estava espantada, chocada, quieta e perplexa. Acho que ninguém nunca
imaginaria que a tola da Beatrizzzzzzzz teria coragem de enfrentar qualquer
umdocolégio.
Camila e Estela, que andaram meio sumidas, vieram atrás de mim me
consolar.
"Poxa Be, ficamos preocupadas com você! Sumiu por três dias sem
nem dar sinal de vida!" falou Sté me olhando nos olhos e Ca completou me
abraçando:"Sentimosasuafalta".
"Eutambémsentiadevocês".
Abraçamo-nos e a aula finalmente começou. De tarde eu teria a
porcaria do serviço comunitário com o Hugo. Mais três horas com ele?
Sério?Ninguémmerecia.
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Esperança: mudança
Naquelatarde,Hugonãocompareceuàcasaderepouso,nãofoivisitar
Júlia.
Contei tudo a ela, tudo o que aconteceu nesse meio tempo entre hoje
eaúltimavezquenosvimoseelanãoconseguiaacreditar,assimcomoeuno
começo. Ela fez aquela cara de quem espera por um "É uma brincadeira" no
final, mas infelizmente ela também percebeu que dessa vez seria diferente,
elanãoouviriataispalavras.
Uma lágrima escorreu, mas eu jurei que não choraria mais por um
vagabundo que não soube ser verdadeiro. Júlia limpou a fugitiva e pela
primeiravezmeabraçou.Foireconfortantesentiraquelesbracinhosfracose
dóceisenvoltosemmim.
Fuiparacasaeporcuriosidadeolheiocalendáriodaescola.
Na manhã seguinte seria o último dia de aula antes das férias. Eu teria paz,
teriatempoparamerecompor100%.
Eu não seria aquela garota indefesa com medo de tudo e todos. Eu
voltaria renovada. Eu já havia até pesquisado sobre uma cirurgia que
deixaria os meus olhos normais. Eles seriam verdes e somente verdes.
Ninguémmaispoderiamecompararaummonstro,um
erro. Eu seria uma nova eu, eu seria a verdadeira eu e ninguém iria me
impedir.
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26 de julho
Dia26dejulho.Umdiaderevelações.
Cheguei em casa depois de uma tarde no spa e encontrei a coisa mais
inesperada que eu já havia visto: Hugo, com uma pasta vermelha nas mãos
aoladodeDonaLurdes.
Aparentemente,elesnão tinham percebido a minha presença,porém,
de repente Hugo ergueu a cabeça, veio em disparada à minha frente e em
poucas palavras resumiu o assunto que levaria a tarde toda para ser
questionadocomcalmalánomeuquarto:"Seiaverdadesobreasuamãe".
Euri,afinalaquilosópoderiaserumapiada.Comorepentinamenteele
descobre algo que eu levei a minha infância toda para aceitar? Pensei um
instante e pisei no primeiro degrau da escada. Virei-me e perguntei se ele
não viria atrás de mim. Ele não respondeu nada, pediu licença à Dona Lurdes
-Quefofinho!-emeseguiu.
Sentamos na minha cama um de frente para o outro e nos encaramos
durante alguns segundos. Para quebrar a tensão, pedi para ele me explicar
tudo,desdeocomeçoatéaqueleexatomomento.
"Be, é o seguinte, no dia em que te pedi em namoro, resolvi que você
merecia algo a mais, então me esforcei e esforcei muito para descobrir pelo
menos algo sobre a sua mãe ou pai." Ele fez uma pausa para olhar em meus
olhos e tentar decifrar o que se passava na minha cabeça, ele sempre fazia
isso. Vendo que eu não abriria a boca até ele acabar, ele seguiu com a
história. "Eu sabia que tinha que fazer isso, só não sabia como... Então eu fiz
muitasemuitaspesquisasechegueiaonomedeumhospitalnaCalifórnia."
Nessa hora meu coração parou, a Califórnia era exatamente o lugar
onde minha mãe disse (para Dona Lurdes, é claro, pois nós não nos
falávamos desde os meus 5 anos praticamente) que estaria em um
importante congresso. "Eu não pude ir até a Califórnia, mas continuei
pesquisando e achei mais e mais nomes de hospitais em vários lugares do
mundo. Tóquio, São Paulo, Roma, Londres, Texas... Todos lugares de alta
tecnologia medicinal. Cheguei então à conclusão de que ela não viaja por
negócios,esimporcausadesaúde,ouafaltadela.Não
consegui ainda descobrir qual o problema com ela, mas sei que agora ela
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está internada no hospital Einstein, Guarujá, e permanecerá até amanhã,
Be. Então vim pedir a autorização da Dona Lurdes, no caso a sua responsável
na falta dos pais, para te levar até lá e conversar com a sua mãe
pessoalmente."
Olhei para Hugo, incrédula. Permaneci com a boca aberta por
segundos seguidos até eu tomar coragem e falar algo: "Como?" Hugo riu e
respondeu.
– Meus pais aceitaram nos levar para o Guarujá hoje mesmo se eu
tirasse 10 em matemática, e graças a você, eu consegui. Trato é trato e eles
estão a nossa espera, então eu quero saber, Be, você vem conosco? Porque
euvoucomousemvocê,eissoporvocê.
Não consegui responder nada além de um engasgado "Muito
obrigada". Senti meu rosto molhado somente no momento em que
entrelacei meus braços em torno do pescoço de Hugo e meu rosto tocou a
sua camisa. Era o nosso primeiro abraço após o rompimento, senti-me
desconfortávelemeafastei.
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Olá, Trix
A viagem parecia não acabar nunca! Dona Paula e o senhor Victor não
abriram a boca o trajeto todo e toda vez que eu olhava para o lado eu via
Hugo me encarando e disfarçando logo em seguida. Esqueci meu fone de
ouvido então tentei dormir, mas era impossível com o carro chacoalhando a
cada buraco, Será que Victor não sabia dirigir? Após pararmos três vezes em
três postos diferentes por causa da minúscula bexiga de dona Paula,
chegamosfinalmenteaonossodestino,ohospitalEinstein.
Os pais de Hugo nos deixaram na porta e foram almoçar, então
entramosnohospitalepegamosumasenhaparaavisita.
Passados três minutos a nossa senha apareceu no visor preto escrito
em vermelho escarlate, levantamo-nos e fomos até a atendente de número
cinco.
"Boanoite,possoajudá-los?"
"Sim",respondemosemcoro,porémHugodeixou-mefalar.
"ViemosvisitarapacienteEmmaFaleiros".
Após teclar algo no seu computador, a atendente nos indicou o
caminhoparaoquartoeavisouqueteríamossomentequinzeminutos.
Antes de abrir a porta, senti minhas pernas tremerem e suei frio. Pedi com a
voz falhando para entrar primeiro e passar um tempo sozinha com a minha
mãe, afinal, não a via desde os meus cinco anos praticamente. Hugo
concordou e eu, que sou meio supersticiosa, entrei com o pé direito no
quarto.
Uau,oquehouvecomamãedeonzeanosatrás?
Minha mãe, minha amada e querida mãe, estava deitada com a
expressão mais infeliz que eu já havia visto. Nela era aparente a pele pálida,
olheiras profundas e roxas, os ossos estavam quase rasgando a pele de tão
magra, e por fim notei os inúmeros soros e fios que nela estavam ligados e
injetados.
Chorei, não consegui conter minhas lágrimas. Passei mais que a
metade de minha vida tendo rancor dela e naquele dia eu descobri que ela
nuncaviajouporfinstrabalhistasprofissionais,massim,porumacura.
Eu não tinha noção do que ela tinha (anorexia, talvez?), não sabia pelo
o que ela esteve passando todo esse tempo ou tudo que ela abandonou,
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massenti-meculpada,pecadoraporjulgarsemaomenossaberaverdade.
Ela abriu os olhos e me olhou pela primeira vez em mais de uma
década. Aqueles lindos olhos verdes que eu amava quando criança já não
estavammaistãobelos,exalavamsofrimento,exalavamexaustãoefoiaíque
eunoteioquantosentiafaltadela.
Aproximei-me mais e senti um forte impulso de beijar a sua testa, mas
não pude, ela tinha muitos cortinhos na testa, provavelmente causados pela
pelemuitoseca.
"Olá,Trix"
Trixeraomeuapelidoquandocriança,somenteelamechamavaassim
e ouvir isso foi reconfortante, fez-me lembrar que eu de fato tinha uma mãe,
nopresenteenãosomentenopassado.
"Oi,mãe"
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Emma fala
Lembrando que eu tinha pouco tempo, enfim perguntei o que eu mais
queria: o que ela tinha e porque ela nunca mais esteve presente na minha
vida.
«Trix, querida, quando você nasceu o parto foi muito complicado e
deixou sequelas em mim, sequelas que até um pouco antes de você
completar cinco aninhos não haviam aparecido. Quando você completou
cincoanosetrêsmesesmaisoumenoseusentimeuspulmõesqueimareme
desmaiei. Acordei sete dias depois em um hospital em São Paulo. Foi
assustador, não conseguia parar de chamar por você ou pelo seu pai, mas
ninguémmeexplicavaoqueestavaacontecendo.Doisdiasdepoisdemuitos
testes, falaram-me o que houve, mas os médicos não conseguiam
diagnosticar o que eu tinha ao certo.Foi desesperador, eu sabia que você
precisava de mim e eu de você, mas eles me proibiram de vê-la, proibiram-
medesairdohospital,
pois a qualquer segundo eu poderia ter um ataque. De acordo com os
médicos, até hoje ninguém tem uma resposta, mas sabe-se que o que eu
tenho é generalizado. A qualquer momento meu coração pode parar, a
qualquer momento meus pulmões podem falhar, ou então meu fígado, ou
rins, ou qualquer parte do meu corpo. Depois de muito tempo de terapia
aceitei que eu nunca mais veria você e rapidamente contratei Dona Lurdes,
queéumaamigadeinfânciaminha,aúnicaaquemeu
confiaria você e ela topou logo de cara, afinal ela não pode ter filhos, ela é
estéril e aceitou a oportunidade de ter uma filha. Minha vida tem sido um
horror.Eessadoençamecorróidedentroparaforasemeupoderfazernada,
sem os médicos poderem fazer alguma coisa, então é por isso que eu rodo o
mundo por aí, eu ainda não desisti de ter uma vida ao seu lado e ao lado de
seu pai. Um dia ainda seremos aquela família unida que parou no tempo, e
tudoporminhacausa".
Ela começou a chorar, porém eu via que as lágrimas saíam com
extremoesforço,imagineiqueadoençaeramesmogeneralizada.
Elavirouparamimefalou:"Vocêmeperdoa,minhafilha?
Mamãeteamamuitoeeunemimaginocomodevetersidodifícilviver
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semaverdade".
Antesmesmodeeuconseguirrespondereladeuumgritoaltoeagudo
de dor, tossiu um pouco de sangue, olhou para mim e tentou estender a
mão. Instantaneamente ergui minha mãe em sua direção, porém tarde
demais,elaapagou.
Gritei alto chamando os médicos, alguém que pudesse ajudá-la e em
meioaomeudesesperoHugoentrounoquartoesementenderoqueestava
acontecendomeabraçouforte.
Osmédicosentraramenosobrigaramanosretirar.
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Éric
Não dormi por duas noites seguidas. Eu simplesmente não conseguia.
Eu finalmente falei com a minha mãe e naquele momento eu não sabia nem
se ela continuava viva ou morta. Não tive tempo nem de perguntar o porquê
do meu pai ter sumido também. Será que ele acompanhou minha mãe em
cadapaís?Seráqueeleestavamorto?Eunãosabia.
Ouçoomeucelular,vejonovisor"Hugo"eatendi.
Esperei que ele falasse chegando à conclusão de que fora um erro eu
atender o telefone, ele queria se encontrar comigo na praça perto de casa. O
queseráqueelequeria?
Corri para a praça com esperanças de mais informações sobre minha
família, porém tudo em vão. Cheguei preparada para ouvir qualquer coisa,
menosoqueeletinhaparadizer.
- Rara, eu estive pensando muito. Eu não consigo mais. Não consigo
sem você. Eu nunca pensei que eu de fato me apaixonaria por você, eu só
queria aquela porcaria de passagem livre para sair das aulas na hora que eu
quisesse... Estou pouco me lixando para aquilo, o que eu quero de verdade é
quevocêvolteaserminhanamorada.
Olhei para ele e percebi que ele se aproximava para um beijo, porém,
eunãodariaessegostinhoparaelenão.
- Devia ter pensado nisso antes de assinar a aposta, ou então me
contado assim que se "apaixonou de verdade". Você é muito fútil. Se fosse
inteligenteobastante,teriacanceladoaapostabemantesdaqueledia.
Terminei com um olhar fulminante, virei-me e voltei para casa.
Naquela hora eu só queria alguém que me acompanhasse até em casa e me
fizesseesquecerdeHugo.
Eu estava tão ocupada reorganizando meus pensamentos que não
olhei por onde andava e trombei com alguém. A sorte era que esse alguém
tinha bons reflexos e me segurou antes de eu ir direto com os dentes no
paralelepípedo.
–Oi,souÉric,prazer.
MeuSenhor,quecaralindo!Deviaserdeoutracidade,tinhaumsotaque
estranho,masnemperguntei.Deiumarisadinhaemeapresenteitambém.
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–
Aceneiebeijandoaminhamão(quecaraesquisito)elerespondeu:
– Eu vou por aquele outro lado. Eu não vou estar lá para te segurar
novamente,entãocuidado.Tchau.Sorriuefoiembora.
Obrigadapormesegurar.Bom,eujávouindo.Tchau.
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Novo aluno
Eu estava tendo um sonho maravilhoso... com o Éric. Não consegui
parar de pensar nele, será que ele era de outra cidade? Afinal não era muito
comumoqueelefezemminhamão.
Acordei sem fôlego com o despertador berrando nos meus ouvidos,
entãolevantei-meemearrumeiparaaescola.
Chegando lá, peguei o meu lugar de sempre e notei um alvoroço do
lado de fora da sala ao lado. Curiosa como sou fui ver o que estava
acontecendo.
Você acreditaria se eu dissesse que sim, era ele. Era o cara do meu
sonhobemali,conversandocomumasloucasdesaiacurta.
Ele não parecia muito confortável ao lado delas então tive a brilhante
ideia(eatéhojenãoseidaondeveiotantacoragem)detirá-lodelá.
–Éric,aqui!Licença,meninas.OiÉric,lembra-sedemim?
Vemcá,vamosconversar!
Ele veio atrás de mim e nós fomos para perto da cantina que ainda
estavafechada.
–VocêéalunonovodoEvanesceu?
–Sim,eusou.
Esorriumostrandoaquelesdentesmaisbrancosqueopróprioleite.
Conversamosumpoucoeassimqueouvimososinalnosdespedimose
fomosparaasnossassalas,queinfelizmentenãoeramasmesmas.
A aula passou rápido e eu senti o olhar de Hugo sobre mim algumas
vezes,masnãoolheidevolta.
Passei o intervalo com Éric, Camila e Estela. Descobrimos que ele
realmente não era daqui, ele era da Nova Zelândia e estava fazendo
intercâmbio.Ficariaumano.
Na saída, ele pediu meu celular, passei o número e fui para casa
desacreditada.
«Bling",umanovamensagem:"Be,vamosaocinemasábado?"
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Be, você aceita namorar comigo?
Foinaquelesábadoànoitequetudocomeçou.
Ele me buscou em casa e nós fomos para o cinema. Até agora eu não
seiquefilmenós"assistimos",masfoimaravilhoso.
Passamos três meses ficando e de repente no dia sete de outubro ele
mepediuemnamorodojeitomaisapaixonantedomundo.
Fui a casa dele naquela noite após a escola. De noite ele me convidou
para dormir na casa dele, então liguei para Dona Lurdes e avisei que passaria
anoitefora.Fomosparaoquartodeleeoqueeuvideprimeirameassustou,
masdepoiseuentendieacheimuitofofo.
O quarto era inteiro (e quando eu digo inteiro, eu não estou
exagerando)repletodefotosminhas,tantocomelequantosozinha.
Olhei para a cama e vi uma rosa vermelha. Olhei para ele meio confusa,
entãoelecomeçouafalar.
"Be, no meu país a gente costuma demonstrar que ama através de
umarosa.Cadapétalarepresentaalgo."
E arrancando cada pétala jogando sobre a cama ele continuou: "A
primeiraéparaoprimeirodiaqueeutevi,asegundaparaasortequetiveao
te segurar em meus braços, ingênuo desse nosso destino, a terceira é por ter
me livrado daquelas cachorras de decote, a quarta é para o nosso primeiro
beijo, e nossa, que beijo. Já a Quinta, dedico à sua beleza e aos seus olhos
que brilham mais que uma constelação. A sexta é para essa noite que espero
que você guarde em seu coração para sempre. A sétima, eu te amo. E essa
oitava, a última dessa delicada rosa, serve para perguntar a você o que eu
venhoquerendoperguntarhátempos.Be,vocêaceitanamorarcomigo?"
Nãotevejeito,escorreuumalágrimaelogoaenxuguei.
Ninguém nunca tinha feito algo desse porte para mim. Eu realmente o
amava e como resposta à pergunta, empurrei-o na cama sob as pétalas e
beijei-ocomonuncahaviafeitoantes.
"Vocêestápronta?"
Mal ele sabia o quão pronta eu estava, então perdida em suas palavras
indecentes que vieram logo após, entreguei a ele meu corpo pela primeira
vez e deixei-me ser amada de verdade, deixei-o provar de tudo que ele tinha
direito,atéqueadormeciparavaleremseusbraços.
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Reencontro
PercebiqueHugoandavamuitoestranhodesdequeeucomeceiaficar
com Éric. Entendo que ele gostaria que eu voltasse com ele, mas eu não iria
voltarnunca,eledeviaseguiremfrente,assimcomoeufiz.
Dois dias após eu e Éric começarmos a namorar, recebi uma ligação no
meiodamadrugada,oquemeassustou.
Eradohospitaleestavammechamandolá,deacordocomamulherdo
outro lado da linha "era muito importante", então imediatamente eu
acordeioDanyepediquemelevasseatélá.
Chegando ao hospital, uma mulher logo me reconheceu (não sei
como) e pediu para eu entrar na sala 5B do segundo andar. Eu não sabia o
queesperar.
Entrando na sala, sorri e agradeci a Deus como nunca na vida, era a
minhamãe,sorrindodestavez.
"Minha filha, tenho uma ótima notícia! Parece que ao injetar células-
tronco no meu corpo eu fiquei melhor. Os médicos fizeram os testes durante
esses três meses e desde que eu venha aqui diariamente eu poderei voltar
paracasa,finalmente."
E ela desabou em lágrimas de alegria.Ela agradecia a Deus por atender
às suas preces e dizia que me amava e diante o que ela acabara de dizer, eu
tambémnãomecontive,choramosjuntasatéqueeuperguntei:
-Equandovocêvemparacasa?
-Amanhã,apósosúltimosexames.
-Tevejoemcasaentão,mãe.
Beijei sua testa e abracei-a levemente, com medo de machucá-la, por
maisqueelajaestivesse“bem”.
Saindo da sala 5B olhei para o lado e vi Hugo desacordado em uma
maca. Perguntei desesperada o que aconteceu ao médico e o mesmo
respondeuqueHugosofreraumacidentedemoto.
Resolvi que seria melhor visitá-lo de manhã, quando ele
provavelmenteestariaacordadonovamente.
Naquelefimdemadrugada,nãoconseguidormirdejeitonenhum.
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Hugo
No dia seguinte, fui cedinho ao hospital visitar Hugo, afinal ele já tinha
sidomeunamorado,eraomínimoqueeupoderiafazer.
"Rara", ele falou baixinho, porém, ele estava de olhos fechados, como
poderia saber? E como se ele tivesse lido a minha mente, como de costume,
elerespondeuqueomeuperfumeerainconfundível.
"Oquehouve?",pergunteiatrásdeexplicações.
Suspirandoaltoelerespondeu:
-Be,nãoconsigovervocêcomumnamoradosenãoeu.
Descobri ontem de noite sobre o namoro e enlouqueci. Peguei a moto do
vizinho, que sempre deixa as chaves na ignição, e saí por aí apostando
corrida sozinha, de madrugada, e sem rumo ao certo. Sei que não foi a coisa
mais sensata a se fazer, mas quando eu penso em você, nada mais me vem à
cabeça, é como se você fosse a minha razão de viver e mesmo assim tenho
de vê-la com alguém que você há pouco conheceu. É muita coisa para a
minha cabeça e agora estou aqui e provavelmente permanecerei aqui por
umtempinho.
Perdiocontroledomeusistemanervosoecomeceiachorar.Nãosabia
ao certo o porquê de todas essas lágrimas, elas não deviam estar presentes
naquele momento. Olhei para ele e não pude dizer nada, não consegui.
Simplesmentevirei-meemesmoouvindoHugogritarmeunome,saídasala.
Fui direto para casa, eu precisava de um tempo, do meu espaço.
Sozinha,ondeninguémpudessemeencherouinfluenciar.
Passei boa parte do dia pensando sobre Hugo, em como ele mexia
comigo e em como eu nunca de fato esqueci o primeiro amor da minha vida.
Mas por outro lado, pensei em Éric, e em quão bom ele era, em todas as
qualidadesdelequemefaziamsorrircadadiamais.
Peguei o celular e liguei para ele pedindo para que viesse à minha casa
eemquinzeminutosláestavaele,tocandoacampainha.
DonaLurdesatendeuaportaefalouparaÉricqueeuestavanomeuquarto.
Pedindo licença, ele entrou e eu vi meu mundo melhorando de um a
cemporcento.
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A primeira noite com ela
Às 19 horas ouvi a ambulância chegando e esqueci de avisar Éric sobre
a minha mãe. Resumi toda a história (omitindo a parte de Hugo, claro) e
descicorrendoasescadas.
Fiquei muito feliz em vê-la tentando andar sozinha, mesmo que com
poucosucesso,entãoenvolvimeusbraçosemsuacinturaeajudei-aachegar
àmesadejantar.
Dona Lurdes serviu o jantar e minha mãe a convidou para jantar com a
gente. Contei a minha história com Éric para minha mãe e ela ficou muito
feliz. Aliás, Éric conheceu minha mãe naquele dia, um dia muito especial
paramim.
Éric foi embora e eu ajudei minha mãe a subir as escadas e pedi que
dormisse comigo aquela noite. Ela aceitou com um largo sorriso estampado
nafacedeorelhaàorelha.
Antes de dormir, contei a história inteira, já que tive que omitir a parte
de Hugo na frente de Éric. Contei também sobre todo o sofrimento que
passei na escola antes de Hugo e sobre a minha festa. Contei tudo e aos
poucososonoveiochegandoenósadormecemos.
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Em algum lugar por ai
Eu estava quase adormecendo quando lembrei de uma questão que
medeixavaaflita,ondeestavameupai?
Fiquei com dor no coração de acordar a minha mãe, afinal era a
primeira noite de sono tranquilo na sua casa. Ela merecia que eu esperasse
atédemanhã,entãofoiissooqueeufiz.
"Bomdia,Be".
Ouviminhamãechamarpormimemedarumcutucãozinhodeleve.
"Bomdia,mãe".
Fomos para a sala de jantar, onde já estava pronta a mesa de café da
manhã.
No meio da refeição pensei que seria uma boa hora para perguntar e
elarespondeudestaforma:
-Be, minha filha... Quando seu pai descobriu que nunca mais me veria,
ele ficou muito aflito e entrou em depressão. Entrou para o mundo das
drogas e bebidas alcoólicas. Passou a beber todos os dias, até que ele
também precisou ser internado. Foi o que me disseram e eu piorei, pois me
senti mal pela pessoa que eu amava. Somente sei até aí, não sei onde ele se
encontra,masamariasaber.Euaindaoamo.
Olhei para o meu prato e fiz uma promessa à minha mãe, ela veria sim
meupainovamenteeeudescobririaoquehouvecomele.
Eu precisava reunir meus pais, estava cansada de uma família
despedaçada, eu precisava de uma família unida novamente, como uma
família de verdade deveria ser. O único problema seria se meu pai tivesse
falecido, mas se não tivesse, eu faria qualquer coisa para encontrá-lo, só não
sabiaaocertoondeecomo.
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Éric ia voltar
Enquantoeuiapesquisando,otempoiacorrendoecorrendo.
Pedi ajuda a Éric para encontrar meu pai e ele aceitou sem nem pensar duas
vezes, ele também não tinha pai, porém, o dele já não estava mais vivo e de
acordo com ele, faria de tudo para ter o pai de volta, por isso aceitou logo de
primeira.
Essa procura nos uniu mais ainda e eu já não conseguia me imaginar
sem ele ao meu lado, seria cruel a sua partida de volta à Nova Zelândia.
Lembrando disso, tivemos uma conversa um dia, o que me magoou demais,
comoseumpedaçodemimestivessequasepartindocomele.
Estávamos no meu quarto naquele dia, pesquisando como em todos
os dias desde que decidi encontrar meu pai. Olhei para ele e comecei. Falei
que eu havia perdido a noção do tempo e que eu precisava saber quando ele
iria embora, para ter tempo de me recompor, pois seria uma grande perda e
ele respondeu olhando para as mãos, porque assim como eu, ele não
conseguiaolharnosmeusolhosnaquelemomento.
– Be, esperava não ter que voltar. A minha vida aqui tem sido a melhor
em anos. Conheci você e você foi a primeira garota por quem eu já me
apaixonei de verdade. Senhor, você não tem noção do quanto estou
dividido. Quando parti, jurei à minha mãe que eu voltaria. Ela fez de tudo, o
possível e o impossível para pagar esse intercâmbio. Minha família não tem
uma boa condição financeira, sabe? Precisei trabalhar por um ano em uma
loja de CDs para poder pagar minhas aulas de português e foi realmente
muito dura a minha despedida. Eu nunca tinha passado mais de uma
semanalongedaminhamãeederepenteeuestavapartindoparasódalium
ano voltar. Tentei aproveitar ao máximo aqui, pois sei o sacrifício que custou
a minha mãe. Não falo com ela desde o dia da partida, afinal as ligações
internacionaissãomuitocaras.
Euprecisodelanovamente.Eulamentomuito,Be.
Desde a primeira palavra, eu estava pronta para tudo, menos para
aquilo,porqueeudefatooentendia.Eupasseipelamesmacoisa.
Euprecisavadaminhamãeealiestavaela,emcasa,comigo.Elemereciaisso
também.
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-Éric,pormaisquemedoaocoração,pormaisqueeuestejapassando
por outro adeus, eu te entendo. Eu sei como é precisar de uma mãe. Passei
onze anos longe da minha mãe, e mesmo sem ter tido uma despedida com
tempo certo de volta, sei que você precisa voltar e vai. Queria manter
contato com você para sempre, e como sei que ligações internacionais são
caras,compreiisso,esperoquegoste.
Entreguei a ele um embrulho. Ele abriu com cuidado e retirou o objeto
dedentro.EraumIPhone.
- Be, não posso aceitar isso. É muito caro! E lá eu não terei internet e
nemninguémparaligar.
- Éric, você merece isso, e esta é a forma que eu encontrei de manter
contato, então você tem que aceitar, não quero perder contato com você,
amor. Ele vem com 3G e eu vou pagar todo mês, pode ficar tranquilo, você só
nãoconseguiráfazerligações,masaintatemofacetimeeowhatsapp.
-Éperfeito!
Beijamo-noseeuconseguifinalmenteparardechorar,porémlembrei-
medaprincipalquestãoepergunteiquediaexatamenteelepartiria.
-Vouvoltardaquiquinzedias.
-Mas,já???
Ele respondeu, engasgado, que sim. Sabia que ele estava triste, eu não
queriapiorarascoisas.
De repente ele deu um grito: "BINGOO!", o que me assustou, então ele me
chamouparaverocomputador.Eletinhaachadomeupai.
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Pai?
Meu pai estava internado em uma clínica de reabilitação fazia três
anos.Aclínicachamava-seGrupoVidaHospitalTerapêutico,desde1988.
Procurei mais informações e descobri que o Hospital de Internação
localizava-se no município de Sorocaba, a 80 km da Capital Paulista, entre as
rodoviasCasteloBrancoeRaposoTavares.
Perfeito! Não era tão longe assim, então pedi para que Dany nos
levasse, no dia seguinte, para lá. Perguntei para Éric se ele viria junto e ele
disseque,comcerteza,iria.Euestavatãofelizqueseriacapazdetudo.
Pedi para que Éric dormisse em casa aquela noite para sairmos bem de
manhã e para outros motivos também. A noite foi perfeita e minha mãe
aceitoudormirestanoitecomaDonaLurdes.
Acordamos cedinho e fomos. Chegando lá, aquele friozinho na
barriga, de quando eu vi minha mãe pela primeira vez em anos, voltou. Só
podiaentrarnoquartoumdecadavez,entãoeufui.
–Pai?
Entrei no quarto e o vi sentado, lendo. Ele se virou para mim e por um
momento eu pensei que ele não estava me reconhecendo, porém. em um
segundo momento ele se levantou e veio direto me abraçar. Como era bom
tê-lo por perto. Senti seu cheiro e posso jurar que reconheci o perfume dele.
Lembro-me de quando criança que eu amava sentar no colo dele e ouvir
aquelavozroucaqueeuestavaloucaparaouvirnovamente.
–Minhaqueridaabelinha,quesaudadeeusentiportodosessesanos!
Abelinha era o apelido que ele me deu, desde pequena eu sempre
ameimelecombinavacomomeunome.
– Tenho uma ótima notícia, papai. Mamãe voltou. Ela está em casa,
finalmente! Falei com a sua inspetora e perguntei se você poderia voltar. Ela
acha que como você começou com tudo isso até chegar aqui por causa da
falta da minha mãe, ela acha que com o retorno dela, você está seguro e
livre.Maseuprecisosaberdevocê,papai,voltaparacasa,porfavor...
Posso jurar que seus olhos se encheram de lágrimas, assim como os
meus, e sem nem pensar muito ele respondeu que com toda certeza
voltaria, que três anos de abstinência foram o suficiente e que agora ele não
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tinhamaismotivosparavoltaràquelavida.
Éric estava sentado na sala de espera e assim que todos os papéis
foram assinados e que liberaram meu pai, apresentei-o a ele. Eles se deram
bem logo de primeira, afinal ambos entenderam o quão eu estava feliz com
elesporperto.
Chegamos em casa e lembrei que minha mãe não sabia da surpresa.
Pediqueeuentrasseprimeiroparatercertezadequeminhamãecontinuava
dormindo. Depois da confirmação, pedi que meu pai sentasse à mesa e fui
acordarminhamãeeDonaLurdes.
Elas desceram as escadas e sentaram-se à mesa. De repente, como em
uma cena perfeita de um livro, meu pai apareceu com uma frigideira na mão
eanunciou:"Alguémaceitapanquecas?"
Minha mãe olhou para ele é ambos começaram a chorar. Meu pai foi
ao encontro dela e eles se beijaram e se abraçaram repetidas vezes. Olhei
paraDonaLurdeseviotantoqueelaestavafeliz,assimcomoeu.
Finalmente, a casa estava cheia e eu não precisaria mais passar a vida
sozinha.
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Adeus
Era a despedida de Éric. Ele iria embora no dia seguinte de
manhãzinha.
Após a festinha de despedida que eu organizei em casa para ele, Éric
me convidou para dormir na casa dele e graças a Deus tivemos a nossa
melhoremaismemorávelnoite.
Nodiaseguinte,acordamoseeupudeveradoremseusolhos,assim
comoeunãopudeescondernosmeus.
Sentamosnoaeroportoapósocheck-ineesperamosachamada.
"Passageirosdenúmero5Bembarquem".
Olhei para ele e não contive minhas lágrimas. Tivemos então aquela
conversa.
–Éachoqueissoéonossoadeus.
Eleconcordoudecabeçabaixa.
– Escuta Be, obrigada por tornar essa viagem a melhor que eu já fiz
na minha vida. Você com certeza foi a melhor escolha que eu já fiz na
minhavidaeeununcavoumearrependerdenada.Euteamo,amor.
Amulhernoauto-falantechamounovamente.
–Éric, você com toda a certeza do mundo, foi o melhor namorado
que eu já tive. Fez-me o melhor bem possível quando eu precisei e me
ajudou muito. Eu também te amo e ainda tenho esperanças de você voltar
oueuirvisitá-lo.
Nosbeijamosprofundamentepelaúltimavez,semvergonhaalguma
dosoutros,eraonossomomentoetalvezoúltimo.
EspereiÉricembarcarechorandofuiembora.
Chorei e chorei em minha cama e pela primeira vez em mais de uma
décadameuspaismeacolheramemeacalmaram.Comoissoerabom.
–Amovocês.
–Nósteamamostambém,minhapequena.
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Acidente
No dia seguinte, acordei com uma gritaria absurda. Meus pais estavam
brigando.
Desci as escadas correndo a tempo de ver meu pai sair de casa e minha
mãegritandoporseunome.
Corri atrás do meu pai, mas ele pegou a moto e eu não era tão rápida
assim.
Volteiparacasaeviminhamãeaosofá,chorando.
Abracei-a e pensei que não seria uma boa hora para perguntar o
motivodabriga,entãofizumboloparaelaeesperamospormeupai.
Esperamos e esperamos, e nada. Nenhum sinal de sua chegada. Não
sabíamosoquetinhaacontecidoeestávamospreocupadas.
Dormimos muito mal aquela noite. A cada barulhinho nós
acordávamoscomesperanças,euiaatéajaneladomeuquarto,enada.
Recebemos uma ligação na manhã do dia seguinte. Eu atendi e ouvi
pacientementeatévirodesespero.
- Quem fala é o policial Júnior Rosa, vim informar que na noite de
ontem seu pai, Renan Carvalho, sofreu um acidente de moto e está no
hospitalaquidacidade.Acheinacarteiradeleonúmerodesuacasa.
Deixeiotelefonecairnochão.Efuidiretoparaohospital.
Preferiqueminhamãeficasseemcasa,entãoDanymelevoulá.
Cheguei desesperada e logo me encaminharam ao quarto em que ele
estava.
Que cena horrível. Acho que nunca tinha visto tanto sangue na minha
vida.Eleestavacomumadaspernasengessadaecomumtubosaindodireto
dagarganta.Volteiachoraremeapoieinamaca.
Omédicochegoueeupergunteioqueeletinha.
– Beatriz, ele fraturou a coluna. Se sobreviver, terá de aceitar o fato de
que sua medula espinhal foi rompida. Se ele acordar, será tetraplégico.
Infelizmente, não posso dizer se ele acordará ou não, não há previsões. Ele
entrouemcomaassimquechegouaqui.
Como eu diria uma coisa dessas para a minha mãe? Logo agora que a
famíliaestavaperfeita.
128
Fui à delegacia pedir o relatório do que aconteceu e o delegado Neto
explicouoocorrido.
– Seu pai dirigiu alcoolizado. Ele devia estar muito alterado, pois bateu
na parede de um estacionamento. Talvez ele tenha tentado estacionar, mas
nãoestavabemosuficienteparaisso.Sintomuitopeloocorrido.
Volteiparacasaarrasada.Comoodestinoeraimprevisível,não?
Chegando em casa, resumi a história, poupando minha mãe dos
detalhes.
Foihorrívelcontaraela.
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Luto
Nodiaseguinte,recebiumaligaçãodohospital.Meupaifaleceu.
Foi muito difícil para mim e para a minha mãe. Agendei o enterro para
dali uma semana. Aquela semana foi a pior da minha vida. Organizar o
enterro do meu pai foi dificílimo, mas dentro dessa semana, eu e minha mãe
fomos aceitando aos poucos. Esse era o destino dela, já tinha acontecido, de
qualquerjeito,entãofomosreaprendendoaviversemele.
No enterro dele, minha mãe me contou a pior verdade que eu com
certezapoderiaviversemsaber.
– Trix, preciso te contar uma coisa. Espero que isso morra e fiquei aqui,
junto com o seu pai. Naquela manhã que ele saiu de casa, contei a verdade
para seu pai. Antes de você nascer, antes de eu casar com o seu pai, antes
mesmo de eu ver o seu pai pela primeira vez, eu me apaixonei por um
homem.Euoamavaeentãoengravidei.Nós
íamos nos casar, porém ele sofreu um acidente e faleceu. Desesperada,
conheci seu pai e fingi engravidar dele, pois eu não tinha condições de
sustentar sozinha um bebê. E eu fiquei com medo da sociedade me julgar
porterengravidadodeumhomemquenemmeumaridoera.
Casei com o seu pai e me apaixonei por ele. Por mais que ele não tenha sido
meu primeiro e grande amor, não me arrependo de nada. Amo o homem
que está ali dentro, sendo enterrado, porém a verdade é que o bebê nasceu.
Eravocêminhafilha.
Olheiparaelaconfusa,entãoelacontinuou.
– Você não é filha de sangue do homem que está ali, mas sim do que
morreuantesmesmodeeumecasar.Conteiaoseupaiissologodemanhã,e
esse foi o meu pior erro. Eu só não conseguia mais manter isso dentro de
mim, isso estava me sufocando. Então ele pegou uma garrafa de Whisky e
saiudecasa.Medesculpa,Trix.Aculpaétodaminha.Porminhacausa,agora
estou vendo meu segundo amor falecido, ambos mortos do mesmo jeito.
Esperoqueumdiavocêmeperdoe.
Euestavadebilitadadeacreditarnoqueeuestavaouvindo.
Estavaincrédula.Entãovireiparaaminhamãeefalei:
–Elesempreseráomeupai.
Então fui até o caixão que ainda permanecia aberto. Beijei sua testa e
repetiomesmoaele.
132
133
134
135
Uma nova eu, um novo Hugo
Eu não sabia se estava brava ou se eu já havia superado tudo o que a
minha mãe disse ter feito, mas segui em frente, não queria perder minha
mãetambém.Nodiaseguintenaescola,todosjásabiamdoacontecido.Pela
primeira vez, todos me olhavam com pena. Hugo veio falar comigo. Veio se
desculpar pelo completo idiota que ele andava sendo e pediu um recomeço.
Aceitei a ideia, mas deixei claro, nós não éramos namorados, estávamos
recomeçandotudoeeletevedeaceitar.
Lembrei-me das chaves que eu nunca havia entregado para Mackenzie
e resolvi fazer a coisa certa a se fazer, devolvi para a diretora Lauli. Ela ficou
brava,masdeixoupassarporcausadosrecentesacontecimentos.
Passei a tarde com Ca e Sté e chamei-as para dormir em casa naquela
noite. Apresentei-as à minha mãe. Logo vi que elas se dariam muito bem, o
quemedeixoumuitofeliz.
De noite, Camila e Estela vieram com o papo estranho para cima de
mimestranho:
-Be,vocênuncacogitouvoltarcomoHugo?
PenseiumpoucoerespondiàCaquenão,afinal,oqueeletinhafeitocomigo
era inaceitável e eu sofri demais, porém Sté, que nãotinha nenhum motivo
paramentir(afinal,assimqueelasoubeoqueHugofizera,elafoiaprimeiraa
quererquebraracaradele)disse:
– Be, eu e a Ca ouvimos uma conversa entre Hugo e a Mackenzie. Ele
estava implorando para que Mackenzie não fizesse algo que eu não ouvi
direito com você. Ele pediu também para que Mackenzie explicasse para
vocêqueeledefato tinharesolvidocancelarantes,maso combinado eraela
rasgaraapostanasuafesta,elenãoqueriaotaldoprêmioouseiláoque.Ele
te ama, Be, e se eu fosse você, eu não desperdiçaria a chance de ter o cara
que você ama, porque aqui entre nós, eu sei que você nunca o esqueceu,
mesmoquandovocêestavanamorandooÈric.
Tais palavras me fizeram pensar em Hugo, não mais como o vilão da
história,talvezStéestivessecerta,afinal,porqueelamentiriasobreissopara
mim?
Dormi mal naquela noite e acordei com profundas olheiras. Acordei
minhasamigasefomosnosarrumarparaescola.
136
Eu já não conseguia mais olhar para Hugo com ódio, olhava para ele
comdó,fuimuitoinjustacomele,nãoouvioseuladodahistória,maseunão
seria tão facil assim, agora que nós tínhamos resolvido recomeçar tudo, ele
teriademeconsquistarnovamente.
Passamos o intervalo juntos e pela primeira vez eu o estava
conhecendo de verdade. Não como a namorada que admira e não vê
defeitos,mascomoaamigaqueeununcafui.
Euestavamuitofeliz.
137
138
139
O baile
Logo logo já seria o baile de formatura (sei o que está pensando, mas
eu também não sei o porquê da minha escola fazer uma formatura entre o
segundo colegial e o terceiro, talvez fosse porque não tivemos uma entre o
nono ano e o primeiro colegial) e eu não tinha um par para o baile. Eu nunca
tinhamepreocupadocomisso,porqueagoraeuestavatãoaflita?
"E ai, Hugão, já escolheu a sua próxima presa para convidar como sua
parceira no baile?", perguntei fingindo desinteresse e ri, mas o real
propósitoerasaberqualseriaainfelizqueestarianomeulugar.
"Ah, Bê, sabe como é, né? Não vou pegar ninguém no baile...", ele deu
umapausaeolhouparamim,"Evocê,alguémjáteconvidou?"
Fui sincera e disse que não (usei a minha melhor cara de "Me convida,
por favor, por favor, por favor") e como esperado, ele me convidou.
Obviamente eu aceitei na hora, e só depois percebi o quão desesperada eu
pareci,quevexame...
O sinal bateu e eu fui para sala junto com ele. Naquele dia, não
conseguipensaremmaisnada,somentenoqueacontecerianobaile.
140
141
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143
Um novo recomeço
Acordeimuitofeliz,finalmenteeraodiadobaile!
Saí com a minha mãe para comprar meu vestido (eu sei que eu não devia ter
deixadoparaaúltimahora),parafazermeucabelo,
maquiagem,depilação...
Depois de pronta, olhei-me no espelho pela primeira vez. Uau, eu me
sentia bonita, talvez até mais que na minha festa. Eu havia cacheado o
cabelo e feito um penteado de lado, comprei um vestido vermelho tubinho
com uma calda que arrastava, estava usando corpete, meu salto era preto
assim como minhas unhas e a maquiagem que mesclava também com o
dourado.
Conforme o combinado, Hugo tocou a campainha quase que
exatamente às 20h. Antes de descer as escadas para atender à porta, minha
mãe deu uma última checada em mim e confirmou que de fato eu estava
maravilhosa.
O baile não seria somente para alunos, então minha mãe e até a Dona
Lurdes e o Dany, que foram a minha família por bastante tempo, se
arrumaram. Minha mãe já estava milhares de vezes mais saudável que da
primeira vez que a vi. Ela estava maravilhosa com o vestido preto que usava.
Dona Lurdes também estava muito elegante e o Dany estava usando pela
primeiravez(pertodemimpelomenos)umterno.
Hugo entrou em casa e ouvindo a porta se fechar, desci as escadas o
mais cuidadosamente possível. Ele estava um deus, vestia um terno risca-
de-giz preto e uma gravata vermelha assim como meu vestido (juro que foi
coincidênciaacombinação).
Tiramosumafototodomundojuntoédepoisfomosparaobaile.
A escola estava muito linda com decorações por todas as partes.
Tiramosafotodaentradaefomostodosnosdivertir.
Hugo pegou ponche para mim e nos juntamos com nosso grupo de
amigos. Ca estava usando um vestido preto com pedrinhas pretas brilhantes
eumsaltoloubotineStévestiaumvestidorosacomsaltopreto.
Anoiterendeuváriaseváriasfotos.
Por volta de meia-noite e pouco, Hugo chamou-me, pois ele queria
"falarcomigo",entãoeuosegui.
144
Eu não sabia para onde ele estava me levando, e cheguei até a ter um
poucodemedo.
Ele tapou os meus olhos durante o caminho dizendo que queria fazer
uma surpresa para mim e quando ele tirou as mãos para que eu pudesse ver,
eunãoconseguiaacreditar.
Júlia estava lá. Vestida com um vestido de baile muito antigo pelo que
parecia,afinaltinhatodosunsbabadosestranhoseombros
fofõescafonas,comoemfilmesantigos.
"Júlia! Quanto tempo! Me desculpe por ter parado de visitá-la", falei
realmentearrependida.
"Bê, obrigada pela consideração, eu entendo o porque de você não
mais ter ido me visitar. Hugo continuou indo e me contou tudo o que estava
acontecendo...Bê,vocêprecisaacreditarnele,eleéumbomgarotoeambas
sabemosoquantoeleéimportanteparavocê.Somentereflitasobreisso."
Elameabraçouforteefalouqueiacurtirafesta.
OlheiparaHugo,“desbussolada”."Eagora?",pensei.
Me olhou com aqueles olhos que tão vagarosamente me apaixonei e
fez aquilo que eu sempre amei, tocou a nuca com quem não sabia o que
fazer.
Odeioofatodeeunãotê-loesquecido.
Odeioofatodeeuestarperdidamenteapaixonadaporele.
Odeioofatodeleestaracentímetrosdemime...
Beijou-me.
145
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Finalmente
Nunca havia beijado daquela forma. Era como se eu estivesse
recuperando todo o tempo perdido longe dele. Minhas pernas tremiam
muito e eu não conseguia respirar direito (o corpete também não ajudava
nessaparte).
Nos afastamos somente o suficiente para encostar nossas testas e
ambosnãoabriramosolhostãocedo.
Elepegouaminhamãoepediuqueeuoseguisse.
Segui-o, afinal, eu já não mais pensava com o meu cérebro, estava
sendo movida pelo meu coração, estava fazendo o que eu queria no
momento,seguindominhasemoções,seguindoHugo.
Subimos vários lances de escada. Subimos, subimos, subimos. Eu
estavamuitocansadajá.
Ok,tudobem,oqueeraaquilo?
Observeiolugar,maseununcatinhavistonadaparecido.
Era alto o lugar, eu podia ver a minha casa de lá, podia ver muita coisa,
aliás.
"Onde estamos?" foi a primeira pergunta que me veio à cabeça, mas a
substituíporumamelhor,"Porquemetrouxeaqui,Hugo",pergunteientão.
"Bê, eu precisei passar por tudo isso para finalmente perceber o
quanto eu estou apaixonado por você. Vi você me abandonar, vi você
sofrendo,oquemefezsofrermaisaindaeeunãoconseguiaentendero
porquê, vi você se recuperar, você me enfrentou e sem vergonha de
ninguém, vi você feliz ao lado de Éric, vi você dizendo adeus a ele, e aqui
estou eu, pedindo mais uma chance, pedindo que no futuro, mais um "eu vi"
entre na nossa história, um "eu vi você me perdoar e dizer que ainda me
amava,edizerquemeaceitadevolta,edizerque..."
Coloquei o dedo em seus lábios e não permiti que continuasse. Sentia
as minhas bochechas queimarem, percebi que estava chorando, mas não de
tristezaesim,deemoção.
Foinaquelemomentoqueeupercebioquantoeuqueriaouviraquelas
palavras. O tanto que demorei a perceber que eu nunca o esqueceria, e por
quetentaresquecê-loseeupoderiatê-lo?
SIM,Hugo,sousuanovamente.
148
Formato: 16 cm x 21 cm
Tipologia: Calibri, Arial Norrow 11 e 12
Papel Supremo 300 g (capa)
Papel off set 75 g (miolo)

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Livro "SIM"

  • 1. 1 Rafaela Gonçalves 1ª Edição Fundação Instituto do Livro de Ribeirão Preto Ribeirão Preto - SP 2015
  • 2. 2
  • 3. 3 ...Mas a minha história não começa aqui, tudo começou em 2002, no dia do meu aniversário de 16 anos, dia 12 de junho, para ser exata.
  • 4. 4 Ficha Catalográfica Gonçalves, Sim, 1ª Edição, Ribeirão Preto - SP, 2015 148 p. 148 x 210 mm 1.869.91 Literatura brasileira. Poemas, Crônicas e Contos Rafaela Título SIM Autora Rafaela Gonçalves Projeto Gráfico Ilustração Rafaela Gonçalves Arte Final PortaIdeia Deisgn Gráfico Fundação Instituto do Livro de Ribeirão Preto ISBN 978-85-62852-34-3
  • 5. Introdução............................................................................................15 Dia 2 de junho......................................................................................19 A proposta............................................................................................27 As primeiras três horas.........................................................................31 O sonho................................................................................................35 O roubo e mais três horas.....................................................................41 E nasce um sentimento.........................................................................47 Hugo....................................................................................................51 Revelações...........................................................................................55 A primeira vez......................................................................................59 Dia 27: festa e decepção.......................................................................63 Superação............................................................................................67 Esperança: mudança.............................................................................71 26 de julho...........................................................................................75 Olá, Trix................................................................................................79 Emmafala.............................................................................................83 5 Sumário
  • 6. Éric.......................................................................................................87 Novo aluno...........................................................................................91 Be, você aceita namorar comigo?.........................................................95 Reencontro..........................................................................................99 Hugo...................................................................................................103 A primeira noite com ela.....................................................................107 Em algum lugar por ai.........................................................................111 Éric ia voltar........................................................................................115 Pai?....................................................................................................119 Adeus.................................................................................................123 Acidente.............................................................................................127 Luto....................................................................................................131 Uma nova eu, um novo Hugo..............................................................135 O baile................................................................................................141 Um recomeço.....................................................................................143 Finalmente.........................................................................................147 6
  • 7. 7 Agradecimentos Aos meus pais, que nunca permitiram que eu vivesse na realidade do meu livro; ao Einstein e principalmente à professora Magel, pela brilhante ideia do projeto; a Camila e ao João Vitor, que me incentivaram desde o início minha; aos meus amigos e em particular ao André, Tâmisa, Júlia, Victória e Nagib, que sempre me apoiaram; a minha família, a qual não vivo sem; a tia Dulce e a tia Cris, aquelas que eu tenho admiração pela competência nata; a Rosângela Pásseri, Edwaldo Arantes e ao Instituto do Livro, que acreditaram em mim, e tornaram este sonho realidade, aos meus avôs , que não tiveram a oportunidade de ler SIM; e a todos que leram e opinaram durante o processo de produção paraumamelhorhistória.
  • 8. 8
  • 9. 9 Quantassãoasartimanhasdoamor? Como alguém pode se achar acima do bem e do mal, ou das peripéciasdodestino? Rafaela Gonçalves apresenta, com sua escrita, as peças e os reveses quepodepregarodestino. Uma história que prende a atenção do leitor, do começo ao fim, com o foco narrativo centrado na personagem Beatriz e suas expectativas e ansiedades. Discorre sobre os valores mais significativos, num mundo tão “coisificado”, A autora consegue destacar o quão importante é uma família, laços afetivos e de carinho, ter com quem contar e quem nos acolha, diante dosdesafiosdavida. Umahistóriatocante,instigante,sensível! O livro consegue reunir os ingredientes perfeitos, contidos nos melhoresromancesjáescritos. Parabéns a autora, pela inspiração e criatividade e também, a verdadeira Mestra, que ousou instigar alunos a produzirem textos literários dealtíssimaqualidade! Cristiane Framartino Bezerra Historiadora,Escritora(autoradoslivrosSolNoturno,FlordeAntares,RompendoocasuloeO meninoeomistériodoarco-íris) Prólogo 1
  • 10. 10
  • 11. 11 O desafio de escrever é maravilhoso. Um país se faz efetivamente com o estudo, com conhecimento. Ao ler este livro, que nem estava pronto ainda, me prendi à história, ao desenrolar de cada situação e, de repente, me vi triste pelas dificuldades, injustiças e tristezas da narradora. Me vi alegre com suas conquistas, torcendo, comemorando. Enfim, aí está a beleza de um livro. Me surpreendi com a habilidade narrativa da autora. Quem sabe aqui começa uma carreira promissora no mundodasletras? Mas, independentemente disso, o que vale é o trabalho de escrever, pensar, criar. E como deve ser interessante este papel do escritor! É a hora do desafio: a página em branco, uma profusão de ideias e a necessidade de vencer o abismo que existe entre o pensamento, a criação mental, e a materialização detudoisso. Por fim, não posso deixar de falar sobre quão é interessante a miscelânea de sentimentos pelos quais vive, permanen-temente, a alma humana. Onde está o ódio pode estar o amor, onde está a confiança pode estar a traição, em um gesto pequeno de atenção ou carinho pode estar o roteirodeumfilmedeumavidaricaemexperiências. Estahistóriapodeserconsideradaahistóriadetantosdenós. E que saibamos todos, como Rafaela, que cada história tem suas Prólogo 2
  • 12. 12 Dulce Neves Jornalista e Presidente da Fundação Dom Pedro II tristezas e seus amores, mas que podemos acreditar e reescrever sempre, poisaquiloqueéfeitocomocoraçãoécapazdetransformar. Se Rafaela conseguiu evocar minha curiosidade a cada capítulo que eu avançava, minha tristeza pelas tristezas da personagem, minha torcida, minha alegria, Rafaela é uma daquelas pessoas de alma rica. E quem assim o é,devesempredesafiarumafolhaembranco.
  • 13. 13 “ Happiness can be found even in darkest of times, if one only remembers to turn on the light” – J.K. Rowling
  • 14. 14
  • 15. Introdução SIM, eu, Beatriz, vi. Eu senti. Eu estava lá, quando tudo aconteceu. Hoje sei que o que eu fiz foi o certo a se fazer. Se me arrependo? Não, nem um pouco, para falar a verdade. Afinal, conheci uma nova eu... E um novo ele. Sempre fui aquela garota que nunca levanta o braço durante a aula para perguntar algo, que vai a festas e fica no celular, que, quando entra em uma discussão, rende-se facilmente (não por falta de argumentos, mas por vergonha de continuar e todos pararem para prestar atenção), que passa horasehorasdesuasfériaslendo. Sempre fui uma pessoa infeliz, uma máquina cotidiana que está morrendo aos poucos, dia após dia, hora após hora, sem aproveitar, de fato, asuavida. Masaquelanoite,nossa!...Amelhordaminhavida,fiztudoporamor eéissooquenofinalmaisimporta,certo? Mas a minha história não começa aqui, tudo começou em 2002, no diadomeuaniversáriode16anos,dia12dejunho,paraserexata. 15
  • 16. 16
  • 17. 17
  • 18. 18
  • 19. 19 Dia 12 de junho –AcordeBeatriz!Ocaféestánamesa,querida. –Jáestouindo! Acordei disposta naquele dia, afinal, não é sempre que se faz 16 anos, éumaveznavidaeeuqueriaaproveitaraomáximo. Levantei da cama um tanto quanto tonta e fui direto para o banheiro. Tomei um longo e gelado banho, penteei meus longos cabelos ruivos, vesti- me,coloqueimeuRayBanedesciparatomarcafédamanhã. Dona Lurdes era muito gentil e sempre me fizera companhia desde quando meus pais me abandonaram, a trabalho. Estava conosco desde quando eu me entendia por gente. Ela é a minha segunda mãe, se não a primeira,poispassamuitomaistempocomigodoqueaEmma,minhamãe. Meus pais nunca estiveram presentes na minha vida, só pensam em dinheiro e em me sustentar para eu ter uma vida melhor, mas eu sempre me pergunto "Para que tanto dinheiro se eu não tenho amor?". A verdade é que eu preferiria estar morando debaixo de uma ponte, sem comida e sem o que vestir, recebendo todo o amor paterno e materno do mundo, a nunca mais ter visto os meus pais desde os cinco anos de idade e receber toneladas de dinheironaminhacontadobanco. Fui para a escola, e como era de se esperar, somente as minhas duas amigas,CamilaeEstela,eosprofessoresdosegundo colegialmederamparabéns. SoumuitogrataporteraCáeaStéaomeulado,semelaseuseriauma completa deslocada numa escola em que sofro bullying por uma mera falha genética que ocasionou um olho verde, como a floresta mais exuberante, e um castanho, da cor de sei lá, terra talvez? Já me acostumei com apelidinhos bestasameurespeito,nãoquenãomemagoasse,maseuignoreieseguiem frente sempre. Já ouvi de tudo, "bicolor", "olho de vidro", "desumana",
  • 20. 20 "vírus","falsa","docamelô","propagandaenganosa","mosca"(pelofatode que eu sempre ia com óculos escuros na escola), “bug”, e o pior de todos, o clássico, o favorito de todos: "mal feita" ou "falha no sistema". Outra coisa que eu não gostava nem um pouco era quando colocavam ênfase no “z” do meunome:Beatrizzzzzzzz. Sentei-me na quinta carteira da fileira do canto da janela, o meu lugar preferido da sala, pois ninguém me enchia o saco e eu podia dormir em paz, já que fico até tarde, toda noite, fantasiando uma vida que não a minha. Imaginando como a minha vida seria se ela não fosse tão "perfeitinha", em termos, e sem amor. Como seria ter uma vida mais feliz, em que meus pais me amassem pelo que sou e que sentissem orgulho de mim e não de si mesmos,porconseguiremcompraroqueeuqueroenãopreciso. A escola Evanesceu não é lá essas coisas... Eu estudo na realidade da minha cidade, onde tudo o que eu vejo todos os dias são brigas por motivos idiotas, elites, professores vagabundos que não ensinam a matéria e não estãonemaíparaosalunoseofuturodecadaum. A primeira aula do dia era de Física Quântica. O professor Horácio, um velho alto, muito acima do peso, careca e que usava óculos, além de ir para a escola em uma BMW, na maior humildade, era um tédio e não sabia explicar amatériadejeitonenhum. Sinceramente, eu nunca repeti o ano, somente porque meus pais sempre fizeram "doações" bem generosas em valores altos para a escola no final do ano letivo, porque se não fosse por isso eu provavelmente estaria na quinta série ainda, não por eu não ser uma boa aluna, mas pelos professores serempéssimos. Apósduasaulasdebomsono,eraointervalo.Fuimeencontrarcomas minhas melhores e únicas amigas, pois elas estudavam em outra sala. Não gostavanemumpoucodaideiadeterdeatravessaraescolasozinha. Assim que as encontrei, fomos juntas para a cantina. Um cheiro de fritura nauseante invadiu o lugar, era dia de feijoada, de longe a comida que eumenosgostava. Sentamo-nos à mesa do fundo e começamos a conversar sobre diversosassuntos,comodecostume.Euficavamuitofeliznapresençadelas,
  • 21. 21 mas quando eu olhei para a frente, minha felicidade se esvaiu do corpo e eu senti um calafrio, o time de futebol inteiro estava andando em nossa direção.Coisaboaéquenãoseria. Quando se aproximaram mais, começaram com os apelidos constrangedoresetambémafazerosomhabitualdeumamosca,algocomo "Zzzzzzzz". Eles não sabem o quanto a minha vida já é difícil, porque se soubessem parariam com essa criancice, ou não, já que são uns idiotas insensíveis. Aconteceu tudo muito rápido. Logo que a Camila olhou para mim e viu-me encolhendo, levantou-se abruptamente. Ela é a minha amiga mais descontraída, apesar de não parecer tanto assim. Olhou nos olhos de Hugo, ocapitãodotimedefutebol,ecomeçouafalarumasverdadesparaele. A Estela, porém, é a mais protetora e vendo que o Hugo e seus amigos nãoiamparartãocedo,partiuparacimadotimeinteiro. "Retire tudo o que você disse, capitãozinho vagabundo!", gritou ela tão alto que todo o refeitório ouviu e juntou-se em volta gritando "Briga! Briga!Briga!". Eu entrei em choque, elas nunca tinham feito algo desse porte para me defender, eu não sabia o que fazer, não sabia no que isso tudo ia dar, entãosaícorrendoembuscadeajuda. Encontrei o conselheiro e expliquei o ocorrido resumidamente, para ganhartempo. Voltamosparaorefeitório. A primeira coisa que eu vi foi um Hugo peludo e gordo encima da minhaamiga.Nãodeuoutra,entreinabriga. Quando me dei por mim novamente estávamos, Camila, Estela, Hugo eamigoseeu,sentadosnasaladoconselheiroespirituallevandoumlongoe entediantesermão. Nãolembrobemcomotudoacabou,masadecisãofinaldadiretorafoi de que todos os envolvidos teriam que cumprir serviço comunitário para a escoladurantetrêsmeses,trêshoraspordia,apartirdodiaseguinte. Perdemos a terceira aula, então fui até o pátio para ver qual seria a
  • 22. 22 próxima. Aula dupla de geografia e uma de história da arte. Para melhorar o meu dia, bateu o sinal e eu fui esperar Dany, meu motorista, no lugar de sempre, na árvore do outro lado da rua. Ele chegou cedo e logo me deu os parabéns.Aessaalturadodiaeujátinhaatémeesquecidodequediaera. Almoçamos no Burger King (todo aniversário eu almoçava lá, pois todos os outros dias do ano eu era obrigada a comer em casa algo muito refinado,eparasersincera,desgostoso),voltamosparacasaefuidormirum pouco. Um sonho estranho eu tive. Eu estava em um labirinto e tinha que achar meus pais, porém eles estavam fugindo de mim, tentando por tudo me despistar. Encontrei uma chave e ao pegá-la, novos e amáveis pais aparecerameme"adotaram". Acordeiassustada...Edecepcionada,portersidosomenteumsonho. Eufuiobrigadaavoltarparaaescolaàs16:00poiseutinhavôlei. Karina,aprofessoradevôlei,eraumahipócritaeinjusta. Como em todos os treinos, ela separou os melhores dos piores, como eu, é claro. Deu qualquer coisinha para o meu grupo e ficou ajudando aquelesquesesaíammelhor.Nofinaldo treino,elaseparou os mesmosdois times e fez um jogo um contra o outro, como em todo treino. Quem sempre ganhava? Pois é, o meu time que nunca foi. Eu só continuava a praticar vôlei semanalmente,poiseunãofazianenhumoutroesporte. Uma aula que eu sempre tive a vontade de começar era pole dance, ao contrário do que parece, não é somente uma dança de mulheres de programa, é um estilo de dança muito legal e que te deixa com um corpo “escultural”,digamosassim. Mais de noite, fui para casa, jantei e capotei na cama em um sono profundo... A minha festa seria dali duas semanas, pois o dia do meu aniversário caiu justamente em uma quinta-feira, e fora isso, todos os salões haviam sidoreservadosantes. Que belo aniversário de 16 anos. Passei a minha vida toda na
  • 23. 23 esperançadequecom16anosaminhavidajáiriaestarmelhor,maseusoua prova de que querer não é poder. Não posso mudar a minha realidade, não posso escolher ser popular, escolher pais que me amem, escolher ter amigos, escolher ser uma garota normal, escolher ter olhos como de todos, escolhernãosofrerbullyingeserumapessoanormal. Eraoqueeupensava.
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  • 27. 27 A proposta Sexta-feira 13. O despertador gritava sem parar e não havia ninguém parasilenciá-lo,então,comosempre,levantei-meecaleioobjetoberrante. Tomei banho, penteei meu cabelo, troquei-me e fui tomar café-da- manhã com a dona Lurdes. Estava quase saindo de casa quando me lembrei demeusóculos,Deusmelivredeiràescolasemeles. Fui para a escola a pé naquele dia. Lembro-me que encontrei muitas amigas de minha mãe no caminho, todas sorridentes, acompanhando suas filhas. Nunca soube como era essa sensação, afinal, eu sempre tivera motoristaparticular,oDany,umcaramuitolegal parasersincera. ChegueiàescolaelogomepusàprocuradeCamilaeEstela. Não sei bem como tudo aconteceu, mas em um só movimento fui nocauteadanacabeçaemeviembrulhadaemumgrandeescuro. Carregaram-me para uma sala. Não me debati e nem gritei por ajuda, eu sabia que seria tudo em vão. Quando o saco com cheiro de mofo fora arrancado, a luz machucou os meus olhos, estava claro na sala, muito claro. Encontrei-me sentada em frente às garotas mais irritantes e mimada da face daTerra,asgarotasmaispopularesdoEvanesceu. Só podiam estar brincando com a minha cara, o que ao certo elas queriamdemim?Nãohavianadaqueeutivessequeelasjánãotivessemem dobro,anãoser,éclaro,umgrandevazio,issoeraexclusivomeu. Em instantes minha pergunta foi respondida, como se elas tivessem lidoaminhamente. – É o seguinte, mosca, você vai fazer uma coisa para gente, não adianta negar, espernear ou implorar, se não fizer, daremos um jeito de tornar a sua vida medíocre em uma vida pior ainda. Você vai roubar as chaves da piscina dos fundos do Evanesceu. Estaremos testando a sua competência, queremosobservarseumagarotatãocertinhapodealgumdiaserrebelde... É o nosso trabalho de sociologia e você é a cobaia perfeita. Se você cumprir essa tarefa e não abrir esse bocão gigante para ninguém, a gente faz a escola inteiratedarummêsdefolgadaszoações. Acredita que isso tudo saiu da boca de uma loira oxigenada chamada
  • 28. 28 Mackenzie? A proposta parecia-me tentadora, imagina como seria legal não ser zoadadurante30diascompletos?Muito,muitotentadora. –Porquenãofazemissovocêsmesmas?–indaguei. – Ora, isso é Ó-BE-VE-O! - Mackenzie falou, com pausas, exatamente como escrevi,junto com amaniaidiotadeestralaros dedos quatro vezesem "Z" - não podemos nos arriscar. Você é a queridinha da diretora, é a coitada da escola. Nós não temos uma boa reputação com a titia Lauli. Fica muito maisfácilparavocêdoqueparanós... –Ecomofareiisso?-perguntei,umtantoquantoansiosa,admito. – Isso é com você, espertinha. Vire-se! - completou Mônica, o "ombro direito"deMackenzie. Volteiparaaescolaeperdiaprimeiraaula.Normal. Não parei de pensar na proposta/ameaça nem por um segundo, era muito tentador...Eassustador.Eununcatinhafeitonadadeerrado,semprefuiuma menina"dentrodasnormas". “Droga!"pensei,aolembraroserviçocomunitárioqueteriadepoisdaaula. O sinal bateu e eu fui direto para a praia, onde deveríamos recolher o máximodelixopossível.
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  • 31. 31 As primeiras três horas Chegando lá, percebi não só que faltava ainda alguns incompetentes do time de futebol como também a Fernanda, onde ela se metera? Ignorei o fato e comecei o longo processo de catação que acabaria somente dali a três horasinteiras. Hugo foi o último a chegar ao local combinado. Chegou todo arrumadinho comoquemiriaaumrestaurantedalialgunsminutos. Encarou-me, cochichou algumas palavras para os amigos e todos caíramnagargalhada.Ridículos,naminhahumildeopinião. Trêshorasmaistarde,adiretoraLaulianunciou: – Hora de formar as duplas para os próximos encontros. A partir de amanhã, vocês farão coisas mais difíceis e eficientes, precisarão aprender a cooperaretrabalharemgrupo. Quase que de imediato agarrei o braço de Camila, que agarrou o braço de Estela,queagarrouomeubraço.Rimos. – Nada disso mocinhas, eu é que escolherei quem irá com quem. E fingiuumarisadamaléfica,algocomo"mua-ha-ha-ha-ha". – Estela irá com Bruno, o co-capitão do time, Camila irá com Júnior, Túlio irá com... E continuou a formar os pares até que me veio um arrepio na espinha: "Beatriz, você irá com Hugo. Boa sorte a todos e divirtam-se, se puderem"eriumaleficamentemaisumavez. Como assim, eu teria que passar três meses, três horas por dia, na companhia de Hugo? Isso era alguma brincadeirinha de mau gosto por acaso?Assimnãodavaparaconviver! Virei-me a tempo de ver um grande sorriso de satisfação nos lábios de Hugo.Quehorror! Nocaminhopracasa,oferecicaronaàStéeaCa,que aceitaram e me acompanharam até a saída. Eu tinha até me esquecido do ocorridoantesdaaula.Logoperceberamcertosustoemmeuolhar. "OquehouveBe?" Então tomei coragem e contei tudo. Eu não podia esconder delas, elas eram minhas únicas amigas e o que eu mais prezava era a verdade. Elas estranharam. “Por que alguém como a Mackenzie pediria ajuda a você Be? E paraqueaschaves?Semquerertedesmerecer...”
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  • 35. 35 O sonho Eu tinha mais ou menos 30 anos já. Estava um sol de rachar, os passarinhos cantavam em sintonia e tudo parecia muito calmo. Eu estava mais que feliz, pela primeira vez em anos, meu lindo marido(marido?!...) acenava para mim com aquele sorriso cheio de vida que eu sentia, tinha me apaixonado. Mais além, um espelho refletia uma mulher maravilhosa, com roupas simples, porém, aconchegantes, carregando uma criança loira, de olhos escuros como duas jabuticabas, vestida com um conjuntinho amarelo, a cor da felicidade, em concordância com o leve sorrisinho que deixava expostoosdoisúnicosdentinhosdeleite daquela boquinha tão delicadinha. Sua risada era contagiante, era música para os meus ouvidos. Assustei-me ao perceber que a mulherrefletida no espelhoeranadamais,nadamenosqueeumesma,sóquemaisbonita,mais envelhecida,ecomcerteza,maisfeliz. Olheimaisaoredorenoteiqueeuestavaemumlindoefloridocampo, umacasagrandeesingelademadeiraeraaúnica construçãodolocal,océuestavaazulclaroesemnuvemnenhumaeumlago imenso e incrivelmente limpo, cheio de peixes e algas, estendia-se em volta. Não consegui reconhecer o lugar e nem tive tempo. Um furacão repentino surgiu no meio da casa e roubou tudo, acasa, o lago, os passarinhos, o meu marido e a minha filha, furtou toda a minha felicidade. Tudo ficou escuro, tudoficoutristeedeprimente. Acordei encharcada, não sabia se de suor ou de lágrimas e gritando também.DonaLurdesencontrava-seaomeuladocomumterçoemumadas mãosenaoutraumtermômetro. – Graças ao bom Deus! Meu Senhorzinho, amém, amém! Que susto, menina! Não acordava de jeito nenhum, quase me matou do coração! Gritavasemparar,suava,choravaeacordarqueébom? Nada! –CalmaDonaLurdes!Euestoubem,foisóumpesadelo... – Você anda muito quieta de uns tempos para cá, o que vem acontecendo,querida? Parei para refletir alguns instantes. Contar para ela, mudaria de fato alguma
  • 36. 36 coisa? Será que ela poderia me ajudar em algo? Afinal, ela era a figura materna mais próxima de mim, será que acolheria? Será que ela sentia o mesmoamorqueeusentiaporela?Elanãotinhafilhos,apropósito. –AiDonaLurdes,euvoutecontarjáqueasenhoraquersaberoquehá comigo. Na realidade, acho que nem eu sei ao certo. Pode parecer hipocrisia e drama, mas não, não é. A minha vida é um lixo! Não tenho uma mãe, nem um pai, o que para mim é direito detodos, né? Não tenho uma mãe para dividirsegredos, nem um pai para me contar histórias para eu dormir. Sabe o quão difícil foi crescer vendo todos ao meu redor sendo amados e eu não? Meus pais nunca demonstraram se importar comigo, mal me conhecem. Sumiram da minha vida quando eu tinha apenas quatro aninhos! Só pensam em dinheiro e trabalho! E para melhorar a minha situação este não é o meu único problema, como se já não bastasse a ausência de meus pais, a escola é olugarqueeumaisodeionessemundoeeuvoutecontaroporque.Eusofro bullyingtodosantodiainjustamente,ouvaimedizer que a cor dos meus olhos foi escolha minha? Foram 14 anos de escola, 14 anosdesofrimentoemumlugaremquenãoháumpingodejustiça. É uma escola particular, ou seja, eu pago para ir lá e ouvir palavras que machucam e que ninguém em sã consciência gosta de ouvir. Os professores, coordenadores e diretores não estão nem aí para nós, alunos, ou para nossosfuturoseprincipalmenteemrelaçãoaminhapessoa.Elessãofalsose fingem tomar providências para o “melhor da escola” pois vivem só de aparências. Todo dia tudo se repete. Nem no dia do meu aniversário me deixaram em paz. Conseguiram para mim três meses de serviços comunitáriosportentarapartarumabrigaidiota. Eadivinhasóqueméaminhaduplaparaospróximos90dias? Simplesmente Hugo Oliveira, o capitão do time de futebol, o cara mais repugnantementemimadoesemcoraçãoqueexiste! Dona Lurdes não falou nada, eu senti que ela não sabia o que falar. Senti-me culpada por ter explodido com ela, pois ela não tinha24 nada a ver com os meus problemas. Ao longo do meu discurso/desabafo, foi me subindo uma raiva que fez o meu sangue borbulhar e eu fui aos poucos começando a gritar. Por alguns minutos ficamos nos encarando. Instantes desconfortáveissepassaram,porém,eufiqueialiviadaporfinalmentesoltar isso tudo de dentro de mim. Ela me abraçou e beijou a minha testa como
  • 37. 37 uma verdadeira mãe. Secou minhas lágrimas – até então eu não tinha percebido que estava chorando – e foi fazer um bolo de cenoura com coberturadechocolate,meupreferido. Foi reconfortante o meu primeiro momento de amor recordável com ela, aliás, acho que com qualquer um. Minha mãe, até onde eu me lembro, nunca tinha feito nada parecido. Eu não tinha raiva, nem rancor, nem mágoasguardadasdemeuspais.Esperaummomento!Quementirosa!Sim, eutinhasimtudoissodentrodemim,maspercebiquetodosossentimentos ruinsforamamenizados,finalmente.
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  • 41. 41 O roubo e mais três horas A minha festa seria dali a exatamente 14 dias, dia 27 de junho, e eu estavamuitoanimada,eparasersincera,commedo também...Eseninguémaparecesse?Eujánãoeramuitopopular,mastodos gostam de festas! Por que não ir, então? Eu e Dona Lurdes estávamos programando cada pequeno detalhe para que tudo saísse perfeito... Aquela festa poderia ser a minha salvação! Todos iriam parar de me irritar se eu parecessepelomenosumpouquinholegal,certo? Mas enfim, esta não era a minha única preocupação, fora isso eu ainda tinha que arranjar um jeito de roubar as chaves da piscina do Evanesceu. De repente,eutiveumabrilhanteideiaecoloqueioplanoemação. – Diretora Lauli, eu gostaria de conversar com a senhora sobre um assunto importante... (Eu ainda não sabia sobre o que ao certo, mas eu precisavadetempo!) – Claro Senhorita Carvalho, siga-me até a sala dos professores, por favor. SeguimosrumoaúltimasaladocorredorDequandoeladestrancouaporta, a Estela gritou de longe: "Diretora, Diretora! Guerra de comida no refeitório! Acheiquedeveriasaber..." – Senhorita Carvalho, pode entrar na sala e me aguardar, não demorarei. E quanto a você, Senhorita Esteves, mostre-me onde está a tal "guerra". Pisquei para a Estela com o olho direito, conforme o combinado, e ela retribuiuigualmente. Corri para dentro e fechei a porta para que ninguém visse o que eu estava prestes a fazer. Se eu fosse a chave da área de natação, onde me guardariam? Sei que é uma pergunta idiota, mas valia a pena tentar. Abri a primeira gaveta da escrivaninha da diretora e deparei-me com dezenas de chaves. O que eu faria agora? Sorte que todas estavam com etiquetas e em menosde5minutosachei:"Piscinas". Fechei a gaveta a tempo de ver a diretora longe, furiosa por ter descoberto quetudonãopassavadeumamentira. - Oi diretora, pensando bem, já resolvi o meu problema, muito
  • 42. 42 obrigadamesmoassim! Esaícorrendoparanãoperderaprimeiraaulaapósointervalo.Missão cumprida, e com sucesso! Encontrei a Sté rindo e a Cá sem entender o que estavaacontecendo.Elachegoutarde,porissonãoainformeidoplano. Às 17:00 eu precisei voltar ao colégio. Todos já estavam presentes, só faltavaoHugo,comosempre. - Hoje e, provavelmente, até o final desse mês, vocês participarão de um novo projeto. Este se chama "Felizes para sempre". Mas em que consiste esteprojeto?Eupassoaresponderestapergunta. Cada dupla ficará encarregada de um idoso da casa de repouso "Cantinho de Paz". Vocês terão de cuidar deles e mostrar o verdadeiro valor da felicidade. Todos os dias às 17:00horas uma van partirá daqui do Evanesceu com todos os alunos. Preciso da autorização dos pais ou responsáveis até amanhã, no próximoencontro. Logo que a Diretora acabou o discurso, Hugo chegou. Ele não sabia o que era para fazer, então Dona Lauli falou para eu explicar e em poucas palavraseuofiz.Suareaçãonãopoderiaserdiferente,fezumapiadinhacom osamigoseseguimosparaotaldo"CantinhodePaz". Chegamos lá e a primeira coisa que fizemos foi a seleção dos idosos. Encarregaram-nosdecuidardeumavelhinhachamadaJúlia. Ela tinha 60 anos e naquele dia descobrimos a sua história de vida. Ela fora professora durante 40 anos de sua vida, acabou a faculdade cedo e casou com 31 anos. Teve cinco filhos, três meninas e dois meninos. As meninas viraram modelos na Rússia, saíram de casa aos 18 anos para seguirem seus sonhos e depois disso nunca mais voltaram para o conforto da casa dos pais. Um dos filhos faleceu de leucemia aos 14 anos e o outro filho foi internado em uma clínica de reabilitação. O marido faleceu por causas naturais e ela preferiuvivernessacasaderepousojuntocomasuanovafamília.Sentipena dela, imagina ser praticamente abandonada pela família e por todos que você ama? Eu sei como é não ter quase ninguém, mas não ter ninguém? Isso devesermuitotriste... Durante as três longas horas de serviço comunitário, algo me impressionou. O jeito como o idiota do Hugo agiu foi impressionante para mim. Nunca o imaginei como uma pessoa não tão má. Ele cuidou de Júlia como se fosse a sua própria avó. Mostrou-se realmente interessado nas
  • 43. 43 históriasdavelhinha. Júlia tinha olhos incrivelmente azuis, uma pele clarinha e cabelos curtinhos e grisalhos. Ela era meio rabugenta e triste, mas as circunstâncias emsijáexplicavamoporquê.Eusentiqueprecisavaajudá-laaveravidacom novos olhos. Eu me sinto realmente muito bem quando ajudo alguém, pois euimaginoesintooprazer,afelicidade,deserajudado,deteralguémquese importe. Porincrívelquepareça,nãotrocamosnemumxingamento. Nem uma palavra, para falar a verdade... Acho que ele estava ocupado o suficienteparafinalmentemeesquecer. À noite, sentamos, eu e a Dona Lurdes, para resolver o últimos detalhesdafesta...Tudoestavasaindoperfeitamentecomoeu sempre sonhei. O lugar, os vestidos, o bolo, os doces, as atrações, a dupla sertaneja,osDj's,osconvidados,tudoperfeito. Dona Lurdes estava se empenhando bastante, tanto para a minha festa, quanto em relação a mim. Antes de eu dormir, toda noite ela passou a me darumbeijonatestaemecobrircomocobertor.
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  • 47. 47 E nasce um sentimento Cada encontro com a Senhora Júlia nos tornou mais próximos. Eu, Hugo e a velhinha mais engraçada e reclamante que eu já vi. Ajudamos Júlia a arrumar o seu pequeno quartinho. Ela tinha posse de objetos que carregavam lembranças muito boas e a cada pedaço de sua memória, explicava a história que estava envolvida. Era emocionante ver uma pessoa que tinha tudo para ser a mais triste do mundo, com alegria nos olhos de relembrarosbonsmomentos...Achoqueesseéo pior defeito do ser humano, não conseguir achar o lado bom em algo ruim, maselaconseguiueeuacolhiissocomoumaliçãodevida. Em um dos encontros acho que ela notou como eu olhava para Hugo, com os olhos de "uma garotinha apaixonada", de acordo com ela, e a partir desse dia eu passei a conversar com ela sobre ele, afinal, com quem mais eu conversariasobreessetipo decoisa? Nãoseiao certo o que eusentiapor ele naquela época... Um sentimento diferente começou a nascer dentro de mim,algoforte,maseuaindanãoestavadecididaseeraalgobom,ouruim... Às vezes, tarde da noite eu me pegava pensando nele, olhando para as estrelasecontando-as,atédormir. Eraestranho.EleeraumoutroHugotrêshoraspordia,umHugobome protetor, não um valentão que fazia de tudo para chamar a atenção de todos. Certo dia eu e dona Júlia tivemos uma conversa que ficou marcada em mim: –Escuta,Bê,eutenhomuitomaisexperiênciaquevocê... Reconheço a paixão nos olhos de uma garotinha quando vejo. Aquele brilho quando vê o primeiro amor. Sabe, você pode enganar a todos, mas a mim, não. Eu passei por isso pelo meu amado João. Eu negava a todos que perguntassem se o que eu sentia por ele era algo mais que somente amizade.Hojeeuperceboqueeusóadieioinevitáveleissofoi ruim, pois passei dois longos anos da minha vida sem ele ao meu lado, para me amar e cuidar de mim. Olhe bem para mim, se você gosta dele, por que a senhoritanãoseabreparaele?Vocêétãobela,pordentroeporfora... – Obrigada, Dona Júlia, mas não, eu não sou bonita... Eu sou estranha,
  • 48. 48 por acaso já notou que meus olhos têm problema? E outra, se ele não sente o mesmo, de que adianta? Nem eu sei o que eu sinto por ele, é tudo muito complicado. – Beatriz Carvalho, não fale assim dos seus lindos olhos, isso não é defeito nem falha, é uma marca. Eles te tornam única. Olhe ao redor, cada um tem a sua marquinha, algo que é exclusivo. Alguns têm essa exclusividade internamente, e outros, como você, a tem externamente. Não se deixe levar pelo que as pessoas dizem a seu respeito, querida. Você sabe quemvocêé,eéissooquemaisimporta. Lembro do dia em que ficamos amigos de verdade, eu e Hugo... De repente, ele se tornou meu melhor amigo e a única que sabia disso era a Júlia. No dia seguinte deste em que a Júlia descobriu meus sentimentos, ela nos ensinou a dançar à moda antiga. Chegava a ser engraçado, pois o Hugo era meio descordenado e eu também não era lá uma dançarina... Foi naquelediaqueeutivecertezadosmeussentimentos,passeiavê-lonomeu futuro, que poderia não ser tão ruim quanto o presente, e seria muito difícil serpior.Emquefuradaeutinhamemetido?
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  • 51. 51 Hugo Passei a ver a Senhora Júlia mais frequentemente e por minha conta, elase tornou uma verdadeira amiga para mim e,com o tempo, passei a amá- la como a minha própria vovozinha. Júlia era uma velhinha muito astuta, sempre sabia a coisa certa a se dizer. E percebo que ela, nesse tempinho que passou comigo e com o Hugo, deixou um pouco o seu lado rabugento. No dia em que a conheci, eu poderia dizer que esta era a sua marca, mas hoje sei que não, este defeito é somente um corte que foi aberto e que finalmente estácicatrizando. Hugo voltou. Ele havia ido buscar o leite da Dona Júlia. Eu olhei nos olhos dele e me perdi. Perdi-me e quando eu voltei para a realidade, já estavanahoradeirembora. Oamoréalgoestranho.Quando vocêmenosespera,seapaixonaepor quem você menos espera também. Se eu pudesse escolher, escolheria me apaixonar por alguém ao meu alcance, não pelo líder do time de futebol, alguémtãoinatingível. Ele olhou para mim e percebeu que eu o estava encarando a um bom tempo e notou em meus olhos um tom meio triste, que eu não pude esconder. –Oquehouve,Be?(Sim,elemechamoudeBe!!!) –Nadanão,Hugo,eusóvouaobanheiroejávolto... SaindodobanheiroouviumpedaçodaconversaentreHugoeJúlia. – Hugo, se você sente isso por ela, por que nunca demonstrou? Vocês seriam tão felizes juntos, um casal só não mais perfeito do que eu e o meu querido João. E, aqui entre nós, um coelho contou-me que talvez esse sentimentosejarecíprocoentreosdois... –Umcoelho?PerguntouHugo. –Quisdizerumpassarinho. Eles riram um pouquinho e eu entrei, admito que com um sorriso no rosto. Seráqueestavaacontecendooqueeupensavaqueestavaacontecendo?Ele realmentegostavademim?Ah,meuDeus,euestavanasnuvens. Voltando para o ônibus ele me puxou pelo braço para atrás do ônibus. Eu estavaquasesemar,oqueeleestavafazendo?
  • 52. 52 – Eufiqueiboquiaberta,comoassimelederepenteresolvedizerisso? –Vocêmeouviu,Be?Eutambémnuncaimagineiqueissoalgumdiana minhavidaaconteceria,masestáacontecendo,agora,nessemomento. Ele se aproximou. Nossos lábios estavam a centímetros. Eu já não sentia mais as minhas pernas. Parecia que tinham mil e duas borboletas no meu estômago. Eu não estava acreditando ainda, como é possível em tão poucotempooódioquemecegavasetransformarem amor? Ele me beijou, com força, como se ele não quisesse me soltar nunca mais.Beijoucompaixão.Tudocomeçoulentamente,porém,com o tempo, esse beijo foi acelerando, foi ficando cada vez mais apaixonante. E nomeiodobeijoeleparou,olhounosmeusolhosedisse: –Eutequerocomonuncaquisumagarotaantes,estranho,nãoé? Nós rimos e eu envolvi seu pescoço com meus braços e o beijei novamente. Era o meu primeiro beijo, afinal, quem iria querer beijar a "mosca" da escola? E eu não poderia reclamar de nada, tudo estava às mil maravilhas.Eracomoseasestrelastivessemdescidodos céusparabrilharsomenteparanós,afinaljáeram20horas. BeatrizCarvalho,euestoucompletamenteapaixonadoporvocê.
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  • 55. 55 Revelações No dia seguinte, ninguém sabia ainda sobre mim e Hugo. Acordei animada e percebi que essa era a primeira vez que eu estava indo para a escola feliz. Tomei banho correndo, tomei meu café da manhã e pela primeira vez na história eu passei maquiagem e me arrumei de verdade para ir ao Evanesceu. Eu estava tão avoada que quase esqueci os meus óculos, eu podia estar agora com o Hugo, mas isso não impediria os outros de me zuarem.Ouimpediria? Dei um beijinho de tchau na Dona Lurdes e vi um lindo sorriso em seus lábios.Conteiaelatudooqueaconteceueelaficourealmentefelizpormim. Comoeuaamo! Dany me levou para a escola e logo entrando na sala os apelidos começaram novamente. Sentei no meu lugar de costume e continuei feliz, nada estragaria o meu bom e raro humor. De repente, o Hugo apareceu. Achoqueeununcatinhareparadonoquãobonitoeleera.Epercebinaquele momentoqueelevinhaemagrecendoeganhandomassamuscular. Sem nem pensar duas vezes, ele chegou e me beijou na frente de todos. Quando o beijo acabou, olhei em volta e a cena me fez rir. Todos estavam nos encarando com as bocas abertas sem nem piscar os olhos. Até osalunosdasoutrassalasvierampresenciaromomento. Obeijofoitãolongoassim? –Achomelhorfecharemaboca,vaientrarmosquito,galera. Acho que ninguém esperava por isso, nem eu, para falar a verdade. Eu nuncafalavaempúblico. O professor entrou e a aula começou. Era aula de química e a cada equação eu olhava para o Hugo e ele para mim. Era impressionante como a genteestavasedandobemjuntos. Aofindarasaulasdoprimeirotempo,tivemosoprimeirointervalo. "Caramba, não contei sobre o Hugo para a Sté e a Cá", pensei. E logo as avistei de longe com uma cara de choque. Olhei para baixo e percebi que eu estavademãosdadascomoHugoefizumsinalde"depoisexplicotudo". Eu sentei à mesa do time de futebol pela primeira vez na minha vida e mesenticulpadaporasminhasamigasnãoestaremcomigo.
  • 56. 56 O time inteiro estava em silêncio encarando-nos e eu me senti meio desconfortável. Hugo olhou para mim e tirou os meus óculos devagar e com cuidado. Pela primeira vez, em anos, eu estava sem os meus óculos. Senti- me indefesa e todos começaram a gargalhar e me xingar. Uma lágrima escorreu de meu olho esquerdo, mas eu não queria que ninguém me visse chorar,entãosaícorrendoemdireçãoaobanheiroomaisrápidopossível. Somente quando cheguei à porta do banheiro eu percebi que o Hugo saiucorrendoatrásdemim.Pegouomeubraçoantesdeeugiraramaçaneta e me beijou. Foi um beijo muito emocionante. Minhas lágrimas escorriam dosmeusolhosepercorriamasminhasbochechas. Não me contive e enlacei minhas pernas em volta da cintura de Hugo, o qual mepegounocolosemnenhumesforço,poiseueramuitomagrinha. Olhounosmeusolhosedisse:"Nãoligueparaoqueosoutrosfalamou pensamaseurespeito.Vocêélindadequalquerjeito,pelomenosparamim, eéissoqueimporta,certo?" –Certo. Respondiessaúnicapalavraeobeijeinovamente. Inesperadamente,elemesoltoueajoelhou-seàminhafrente. Pegouaminhamãoetirouumacaixinhadobolso. – Beatriz Carvalho, você aceita namorar comigo? Quero ser seu, e somente seu. E você, a partir do momento que aceitar isso, será minha para sempreenãoterámaisvolta. -Somentesua. Ele colocou a aliança no meu dedo tão delicadamente que eu nem o reconheci.Nosbeijamosmaisumavezefomosparaaaula. Passei a aula inteira observando cada detalhe do meu novo anel. Como era perfeito, tanto o anel quanto o meu Hugo Oliveira. Não sabia mais setudooqueeuestavavivendoeraumsonhoourealidade.
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  • 59. 59 A primeira vez Hugo e eu saímos nesse mesmo dia e fomos ao cinema. Fomos assistir onovofilmedasaga“HarryPotter”. Eujátinhalidoolivroeestesetornaraumdosmeusfavoritos. Antes de entrar na sessão, Hugo me encarou com uma cara diferente, meioquestionador. –Oquehouveamor? – Só estava pensando na sorte que eu tenho de ter uma joia tão rara para chamar de namorada. Obrigado, Be, você realmente me transformou emumhomemmelhor. Eunãosabiaoquefazeralémdesorrirebeijá-lo. – É isso mesmo, Be. Todos te chamam de "Be"... É muito clichê, posso techamarderara? Eurieconcordei. Eu amara o filme, por mais que eu tenha perdido algumas partes: é inevitávelquandosetemalguémcomoHugoaoseulado. Jantamos no McDonalds e eleme deu carona para casa, afinal, já tinha carta de motorista. Sei o que está pensando, mas como? A verdade é que Hugo já tem 18 anos, ele repetiu a segunda série do ensino fundamental e o segundo colegial. Com medo de que ele repetisse mais uma vez, prometi ajudá-lo a estudar dali para frente e ele concordou, por mais que eu não fosseumadasmaisbrilhantesalunasdaescola. Ainda no carro, agradeci pela carona e entrei em casa. Fechei a porta domeuquartoedormidojeitoqueeuestavamesmo. Acordei somente no dia seguinte. Já eram 14:30 hs de um sábado ensolarado. Vi o meu celular e li a mensagem de bom dia de Hugo. Mandei umaresposta,quetinhaacabodeacordarefuitomarbanho. Dia 27, terça, o dia da minha festa, Dona Lurdes fora conversar com a diretora para que eu pudesse chegar à escola, no dia seguinte ao da minha festa, mais tarde que de costume, pois eu com certeza dormiria tarde. Ainda bem, pois eu não aguentaria acordar cedo e ir à aula, por mais que agora eu tivesseumbommotivoparanãoreclamar. Encontrei-me com Hugo para almoçar e nós almoçamos em um restaurantenovoqueabrirapertodaminhacasa.
  • 60. 60 Caminhando pela calçada, nós estávamos conversando sobre as férias edescobriqueeleiriaviajar.Fiqueitriste,masaceiteinumaboa. Denoiteeuoconvideiparajantaremcasaeeleaceitou. "Dingdong"... –Euatendo! Gritei para Dona Lurdes e fui abrir a porta. Era Hugo, claro, e trouxera flores! Dei um beijo nele e fui colocar as flores em um recipiente com água gelada. Apresentei Hugo à Dona Lurdes, que jantaria conosco. Eles se deram superbemeeufiqueifelizcomisso. Depois do jantar, levamos os pratos à pia e depois subimos para o meu quarto. Sentamos na cama e eu liguei a Tv em qualquer canal e virei para ele. Beijamo-nos por um longo tempo. Percebi que ele tentava tirar a minha blusaepermiti. –Vocêestáprontaparaisso?Senãoestivereuvouentender... Depoisderefletirumpoucorespondiqueeudefatoestavapronta. Ele era muito cuidadoso, cuidava de mim como ninguém nunca cuidou.Perguntavaacadasegundoseeuestavabememe acariciavadeformaamáveledócil. Já era meia-noite e ele precisava ir embora. Vestimo-nos e eu o levei até a porta. –Boanoite,meuamor. –Boanoite,rara.
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  • 63. 63 Dia 27: festa e decepção Acordei mais que animada! JÁ ERA DIA 27!!!! Era o dia da minha festa, o dia mais importante para mim... Porém eu não fazia nem ideia do que estavaparaacontecer. Cheguei no salão de beleza, onde eu faria o cabelo, a maquiagem e as unhas às 18:00h, pois queria estar prontinha às 21:00h em ponto para chegar cedo no local onde seria a minha festa para ver se tudo estava perfeito. Pronta, fui me ver no espelho e, meu Deus, eu realmente estava bonita, eu me sentia linda pela primeira vez na minha vida e eu não ligaria para o que dissessem a meu respeito, aquela era a minha noite e ninguém a estragaria! Às 22 horas começou a festa e logo os convidados chegaram. Fiquei muitofelizquebastantegentefoi. A cada um que adentrava a minha noite dos sonhos era um click diferente. O flash já estava me cegando quando ele chegou. Ele estava maravilhoso naquele terno risca de giz preto e um lencinho roxo no bolso direito do peito. Beijou-me como se nenhuma câmera ou mesmo nenhum convidado estivesse ali presente. Cheguei a tropeçar e a derrubar o meu discurso no chão. Coincidentemente, Hugo derrubou um papel também. Pegamosrapidamenteospapéisdochãoeeuseguicomasfotos. Meia noite lá estava eu, em cima do palco, em frente a uma plateia, com um microfone na mão direita e o discurso na esquerda. Comecei a ler em voz alta: "Eu Hugo Oliveira Nunes concordo com os termos dessa aposta que estabelece...". Minha voz falhou e eu parei de ler em voz alta o que estavaescritonessemomentoecontinueinopensamento. O quê? Tudo aquilo não passou de um teatrinho fingido? Hugo nunca gostou de mim e eu fui uma tola de cair em seu papo! Poxa, para que tanta maldade? Lánofinaldapáginaestavaescritoonomedaresponsávelpelaimpressãoda aposta: Mackenzie. Então ela e ele apostaram que se Hugo me fizesse apaixonar-se por ele antes da festa, ele ganharia um mês de refeição gratuita.Issoexplicavaacordopapelrosa,assimcomoomeu.
  • 64. 64 Euestavaincrédula.Eracomoseomeumundodesmoronasseàminha frente e as minhas mãos estivessem amarradas, impedindo que eu pegasse sequerumamigalha. Atéentãoeunãopercebiosilêncioqueestavaosalão. Procurei Hugo no meio da multidão e lá estava ele, lendo o meu discurso. O discurso em que eu agradeceria as minhas amigas Ca e Fer por nunca terem me deixado, agradeceria a Dona Lurdes e o Dany, os quais sempre estiveram presentes, e principal e especialmente agradeceria ao Hugo por ser o "melhor namorado do mundo" e me acolher como ninguém jamais me acolheu. Só de pensar na satisfação que ele deveria estar sentindo, um lágrima escorreuecomela,vierammuitasoutras. Quando me dei conta, eu estava correndo para fora do salão e atrás de mim vinha um Hugo desesperado. Continuei o mais rápido possível, porém, ele era sem dúvida, mais atlético e veloz, portanto me alcançou sem grandes dificuldades e agarrou o meu braço. A minha vontade era de espancá-lo com todasasminhasforças,maseuestavacientedequeissonãofuncionaria. Hugo tentou se explicar, disse que no começo realmente tudo não passava de uma aposta, porém ele tinha "se apaixonado de verdade". Uma crise de riso me veio e ele ficou sem entender, sem reação. Parei de rir, dei um tapa (ardido, admito e agradeço por ter dado certo) em sua face e saí correndo sem direção. Eu estava destruída por fora, e por dentro, e mais umavezeumesentiasozinhanessemundotãogrande.
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  • 67. 67 Superação Depois daquele desastre, não fui à escola, pois passei dois dias inteiros chorando. Não conseguia parar, porque quando eu finalmente me acalmava eu olhava para qualquer coisa e esse algo me lembrava dele. E eu voltava a chorar e gritar de raiva. Dona Lurdes ficou assustada e resolveu que seria melhormedeixarsozinhapararespirarfundoeseguiremfrente. Como eu não desconfiei? Tudo aconteceu tão rápido, tão impossível de acontecer, e eu me apaixonei pelo único cara que já tinha dito estar igualmente apaixonado por mim. Que raiva que eu tinha de mim naquele momento... Cansei de culpá-lo por tudo, a culpa também era minha de ter sidotãoingênua,tãosonhadora. Acordei sexta-feira com o pior humor de toda a minha vida. Eu era obrigadaairparaaescola,olugarqueeuvolteiaacharrepugnante. Levantei da minha cama sentindo que ela gritava para que eu voltasse e fui direto ao banheiro. Tomei banho, escovei os dentes e coloquei meus óculos escuros. Vesti minha camisa preta onde lia-se "F*** the world", minha calça jeans militar preta e meu vans preto. Tudo preto, em concordância com o queeuestavasentindo. Cheguei à escola e ninguém parecia me notar. Era como se eu não existisse. Segui para a minha aula de História da Arte e na porta estava Hugo. Quandoelemeavistou,correuemminhadireçãoemebeijou. –Bomdia,rara. Que moleque insolente! Ele pensava que depois de tudo, nós ainda estaríamos juntos? Quanta petulância! Chegava a ser falta de respeito comigo. "Hugo, o que você está fazendo? Nós não-estamos-mais- juntos!" griteietodaaescolaparouparaobservaroespetáculo. Elemeolhoucomcaradeinocenteetentouseexplicarpelamilésimavez. "Se o que você está me dizendo é verdade, por que raios você estava carregando aquele acordo no seu bolso no dia da minha festa? Estava mostrando que cumpriu? Queria a sua recompensa? Bom, a sua recompensa está aqui." e mostrei o dedo do meio para ele sem nem ligar paraquantosprofessoresestavamassistindoaoshow.
  • 68. 68 "Opapelestavacomigopoiseuiacancelaraaposta"tentouHugo. "É, pelo visto não deu certo, não é?" falei baixo e saí andando. A escola estava espantada, chocada, quieta e perplexa. Acho que ninguém nunca imaginaria que a tola da Beatrizzzzzzzz teria coragem de enfrentar qualquer umdocolégio. Camila e Estela, que andaram meio sumidas, vieram atrás de mim me consolar. "Poxa Be, ficamos preocupadas com você! Sumiu por três dias sem nem dar sinal de vida!" falou Sté me olhando nos olhos e Ca completou me abraçando:"Sentimosasuafalta". "Eutambémsentiadevocês". Abraçamo-nos e a aula finalmente começou. De tarde eu teria a porcaria do serviço comunitário com o Hugo. Mais três horas com ele? Sério?Ninguémmerecia.
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  • 71. 71 Esperança: mudança Naquelatarde,Hugonãocompareceuàcasaderepouso,nãofoivisitar Júlia. Contei tudo a ela, tudo o que aconteceu nesse meio tempo entre hoje eaúltimavezquenosvimoseelanãoconseguiaacreditar,assimcomoeuno começo. Ela fez aquela cara de quem espera por um "É uma brincadeira" no final, mas infelizmente ela também percebeu que dessa vez seria diferente, elanãoouviriataispalavras. Uma lágrima escorreu, mas eu jurei que não choraria mais por um vagabundo que não soube ser verdadeiro. Júlia limpou a fugitiva e pela primeiravezmeabraçou.Foireconfortantesentiraquelesbracinhosfracose dóceisenvoltosemmim. Fuiparacasaeporcuriosidadeolheiocalendáriodaescola. Na manhã seguinte seria o último dia de aula antes das férias. Eu teria paz, teriatempoparamerecompor100%. Eu não seria aquela garota indefesa com medo de tudo e todos. Eu voltaria renovada. Eu já havia até pesquisado sobre uma cirurgia que deixaria os meus olhos normais. Eles seriam verdes e somente verdes. Ninguémmaispoderiamecompararaummonstro,um erro. Eu seria uma nova eu, eu seria a verdadeira eu e ninguém iria me impedir.
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  • 75. 75 26 de julho Dia26dejulho.Umdiaderevelações. Cheguei em casa depois de uma tarde no spa e encontrei a coisa mais inesperada que eu já havia visto: Hugo, com uma pasta vermelha nas mãos aoladodeDonaLurdes. Aparentemente,elesnão tinham percebido a minha presença,porém, de repente Hugo ergueu a cabeça, veio em disparada à minha frente e em poucas palavras resumiu o assunto que levaria a tarde toda para ser questionadocomcalmalánomeuquarto:"Seiaverdadesobreasuamãe". Euri,afinalaquilosópoderiaserumapiada.Comorepentinamenteele descobre algo que eu levei a minha infância toda para aceitar? Pensei um instante e pisei no primeiro degrau da escada. Virei-me e perguntei se ele não viria atrás de mim. Ele não respondeu nada, pediu licença à Dona Lurdes -Quefofinho!-emeseguiu. Sentamos na minha cama um de frente para o outro e nos encaramos durante alguns segundos. Para quebrar a tensão, pedi para ele me explicar tudo,desdeocomeçoatéaqueleexatomomento. "Be, é o seguinte, no dia em que te pedi em namoro, resolvi que você merecia algo a mais, então me esforcei e esforcei muito para descobrir pelo menos algo sobre a sua mãe ou pai." Ele fez uma pausa para olhar em meus olhos e tentar decifrar o que se passava na minha cabeça, ele sempre fazia isso. Vendo que eu não abriria a boca até ele acabar, ele seguiu com a história. "Eu sabia que tinha que fazer isso, só não sabia como... Então eu fiz muitasemuitaspesquisasechegueiaonomedeumhospitalnaCalifórnia." Nessa hora meu coração parou, a Califórnia era exatamente o lugar onde minha mãe disse (para Dona Lurdes, é claro, pois nós não nos falávamos desde os meus 5 anos praticamente) que estaria em um importante congresso. "Eu não pude ir até a Califórnia, mas continuei pesquisando e achei mais e mais nomes de hospitais em vários lugares do mundo. Tóquio, São Paulo, Roma, Londres, Texas... Todos lugares de alta tecnologia medicinal. Cheguei então à conclusão de que ela não viaja por negócios,esimporcausadesaúde,ouafaltadela.Não consegui ainda descobrir qual o problema com ela, mas sei que agora ela
  • 76. 76 está internada no hospital Einstein, Guarujá, e permanecerá até amanhã, Be. Então vim pedir a autorização da Dona Lurdes, no caso a sua responsável na falta dos pais, para te levar até lá e conversar com a sua mãe pessoalmente." Olhei para Hugo, incrédula. Permaneci com a boca aberta por segundos seguidos até eu tomar coragem e falar algo: "Como?" Hugo riu e respondeu. – Meus pais aceitaram nos levar para o Guarujá hoje mesmo se eu tirasse 10 em matemática, e graças a você, eu consegui. Trato é trato e eles estão a nossa espera, então eu quero saber, Be, você vem conosco? Porque euvoucomousemvocê,eissoporvocê. Não consegui responder nada além de um engasgado "Muito obrigada". Senti meu rosto molhado somente no momento em que entrelacei meus braços em torno do pescoço de Hugo e meu rosto tocou a sua camisa. Era o nosso primeiro abraço após o rompimento, senti-me desconfortávelemeafastei.
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  • 79. 79 Olá, Trix A viagem parecia não acabar nunca! Dona Paula e o senhor Victor não abriram a boca o trajeto todo e toda vez que eu olhava para o lado eu via Hugo me encarando e disfarçando logo em seguida. Esqueci meu fone de ouvido então tentei dormir, mas era impossível com o carro chacoalhando a cada buraco, Será que Victor não sabia dirigir? Após pararmos três vezes em três postos diferentes por causa da minúscula bexiga de dona Paula, chegamosfinalmenteaonossodestino,ohospitalEinstein. Os pais de Hugo nos deixaram na porta e foram almoçar, então entramosnohospitalepegamosumasenhaparaavisita. Passados três minutos a nossa senha apareceu no visor preto escrito em vermelho escarlate, levantamo-nos e fomos até a atendente de número cinco. "Boanoite,possoajudá-los?" "Sim",respondemosemcoro,porémHugodeixou-mefalar. "ViemosvisitarapacienteEmmaFaleiros". Após teclar algo no seu computador, a atendente nos indicou o caminhoparaoquartoeavisouqueteríamossomentequinzeminutos. Antes de abrir a porta, senti minhas pernas tremerem e suei frio. Pedi com a voz falhando para entrar primeiro e passar um tempo sozinha com a minha mãe, afinal, não a via desde os meus cinco anos praticamente. Hugo concordou e eu, que sou meio supersticiosa, entrei com o pé direito no quarto. Uau,oquehouvecomamãedeonzeanosatrás? Minha mãe, minha amada e querida mãe, estava deitada com a expressão mais infeliz que eu já havia visto. Nela era aparente a pele pálida, olheiras profundas e roxas, os ossos estavam quase rasgando a pele de tão magra, e por fim notei os inúmeros soros e fios que nela estavam ligados e injetados. Chorei, não consegui conter minhas lágrimas. Passei mais que a metade de minha vida tendo rancor dela e naquele dia eu descobri que ela nuncaviajouporfinstrabalhistasprofissionais,massim,porumacura. Eu não tinha noção do que ela tinha (anorexia, talvez?), não sabia pelo o que ela esteve passando todo esse tempo ou tudo que ela abandonou,
  • 80. 80 massenti-meculpada,pecadoraporjulgarsemaomenossaberaverdade. Ela abriu os olhos e me olhou pela primeira vez em mais de uma década. Aqueles lindos olhos verdes que eu amava quando criança já não estavammaistãobelos,exalavamsofrimento,exalavamexaustãoefoiaíque eunoteioquantosentiafaltadela. Aproximei-me mais e senti um forte impulso de beijar a sua testa, mas não pude, ela tinha muitos cortinhos na testa, provavelmente causados pela pelemuitoseca. "Olá,Trix" Trixeraomeuapelidoquandocriança,somenteelamechamavaassim e ouvir isso foi reconfortante, fez-me lembrar que eu de fato tinha uma mãe, nopresenteenãosomentenopassado. "Oi,mãe"
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  • 83. 83 Emma fala Lembrando que eu tinha pouco tempo, enfim perguntei o que eu mais queria: o que ela tinha e porque ela nunca mais esteve presente na minha vida. «Trix, querida, quando você nasceu o parto foi muito complicado e deixou sequelas em mim, sequelas que até um pouco antes de você completar cinco aninhos não haviam aparecido. Quando você completou cincoanosetrêsmesesmaisoumenoseusentimeuspulmõesqueimareme desmaiei. Acordei sete dias depois em um hospital em São Paulo. Foi assustador, não conseguia parar de chamar por você ou pelo seu pai, mas ninguémmeexplicavaoqueestavaacontecendo.Doisdiasdepoisdemuitos testes, falaram-me o que houve, mas os médicos não conseguiam diagnosticar o que eu tinha ao certo.Foi desesperador, eu sabia que você precisava de mim e eu de você, mas eles me proibiram de vê-la, proibiram- medesairdohospital, pois a qualquer segundo eu poderia ter um ataque. De acordo com os médicos, até hoje ninguém tem uma resposta, mas sabe-se que o que eu tenho é generalizado. A qualquer momento meu coração pode parar, a qualquer momento meus pulmões podem falhar, ou então meu fígado, ou rins, ou qualquer parte do meu corpo. Depois de muito tempo de terapia aceitei que eu nunca mais veria você e rapidamente contratei Dona Lurdes, queéumaamigadeinfânciaminha,aúnicaaquemeu confiaria você e ela topou logo de cara, afinal ela não pode ter filhos, ela é estéril e aceitou a oportunidade de ter uma filha. Minha vida tem sido um horror.Eessadoençamecorróidedentroparaforasemeupoderfazernada, sem os médicos poderem fazer alguma coisa, então é por isso que eu rodo o mundo por aí, eu ainda não desisti de ter uma vida ao seu lado e ao lado de seu pai. Um dia ainda seremos aquela família unida que parou no tempo, e tudoporminhacausa". Ela começou a chorar, porém eu via que as lágrimas saíam com extremoesforço,imagineiqueadoençaeramesmogeneralizada. Elavirouparamimefalou:"Vocêmeperdoa,minhafilha? Mamãeteamamuitoeeunemimaginocomodevetersidodifícilviver
  • 84. 84 semaverdade". Antesmesmodeeuconseguirrespondereladeuumgritoaltoeagudo de dor, tossiu um pouco de sangue, olhou para mim e tentou estender a mão. Instantaneamente ergui minha mãe em sua direção, porém tarde demais,elaapagou. Gritei alto chamando os médicos, alguém que pudesse ajudá-la e em meioaomeudesesperoHugoentrounoquartoesementenderoqueestava acontecendomeabraçouforte. Osmédicosentraramenosobrigaramanosretirar.
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  • 87. 87 Éric Não dormi por duas noites seguidas. Eu simplesmente não conseguia. Eu finalmente falei com a minha mãe e naquele momento eu não sabia nem se ela continuava viva ou morta. Não tive tempo nem de perguntar o porquê do meu pai ter sumido também. Será que ele acompanhou minha mãe em cadapaís?Seráqueeleestavamorto?Eunãosabia. Ouçoomeucelular,vejonovisor"Hugo"eatendi. Esperei que ele falasse chegando à conclusão de que fora um erro eu atender o telefone, ele queria se encontrar comigo na praça perto de casa. O queseráqueelequeria? Corri para a praça com esperanças de mais informações sobre minha família, porém tudo em vão. Cheguei preparada para ouvir qualquer coisa, menosoqueeletinhaparadizer. - Rara, eu estive pensando muito. Eu não consigo mais. Não consigo sem você. Eu nunca pensei que eu de fato me apaixonaria por você, eu só queria aquela porcaria de passagem livre para sair das aulas na hora que eu quisesse... Estou pouco me lixando para aquilo, o que eu quero de verdade é quevocêvolteaserminhanamorada. Olhei para ele e percebi que ele se aproximava para um beijo, porém, eunãodariaessegostinhoparaelenão. - Devia ter pensado nisso antes de assinar a aposta, ou então me contado assim que se "apaixonou de verdade". Você é muito fútil. Se fosse inteligenteobastante,teriacanceladoaapostabemantesdaqueledia. Terminei com um olhar fulminante, virei-me e voltei para casa. Naquela hora eu só queria alguém que me acompanhasse até em casa e me fizesseesquecerdeHugo. Eu estava tão ocupada reorganizando meus pensamentos que não olhei por onde andava e trombei com alguém. A sorte era que esse alguém tinha bons reflexos e me segurou antes de eu ir direto com os dentes no paralelepípedo. –Oi,souÉric,prazer. MeuSenhor,quecaralindo!Deviaserdeoutracidade,tinhaumsotaque estranho,masnemperguntei.Deiumarisadinhaemeapresenteitambém.
  • 88. 88 – Aceneiebeijandoaminhamão(quecaraesquisito)elerespondeu: – Eu vou por aquele outro lado. Eu não vou estar lá para te segurar novamente,entãocuidado.Tchau.Sorriuefoiembora. Obrigadapormesegurar.Bom,eujávouindo.Tchau.
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  • 91. 91 Novo aluno Eu estava tendo um sonho maravilhoso... com o Éric. Não consegui parar de pensar nele, será que ele era de outra cidade? Afinal não era muito comumoqueelefezemminhamão. Acordei sem fôlego com o despertador berrando nos meus ouvidos, entãolevantei-meemearrumeiparaaescola. Chegando lá, peguei o meu lugar de sempre e notei um alvoroço do lado de fora da sala ao lado. Curiosa como sou fui ver o que estava acontecendo. Você acreditaria se eu dissesse que sim, era ele. Era o cara do meu sonhobemali,conversandocomumasloucasdesaiacurta. Ele não parecia muito confortável ao lado delas então tive a brilhante ideia(eatéhojenãoseidaondeveiotantacoragem)detirá-lodelá. –Éric,aqui!Licença,meninas.OiÉric,lembra-sedemim? Vemcá,vamosconversar! Ele veio atrás de mim e nós fomos para perto da cantina que ainda estavafechada. –VocêéalunonovodoEvanesceu? –Sim,eusou. Esorriumostrandoaquelesdentesmaisbrancosqueopróprioleite. Conversamosumpoucoeassimqueouvimososinalnosdespedimose fomosparaasnossassalas,queinfelizmentenãoeramasmesmas. A aula passou rápido e eu senti o olhar de Hugo sobre mim algumas vezes,masnãoolheidevolta. Passei o intervalo com Éric, Camila e Estela. Descobrimos que ele realmente não era daqui, ele era da Nova Zelândia e estava fazendo intercâmbio.Ficariaumano. Na saída, ele pediu meu celular, passei o número e fui para casa desacreditada. «Bling",umanovamensagem:"Be,vamosaocinemasábado?"
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  • 95. 95 Be, você aceita namorar comigo? Foinaquelesábadoànoitequetudocomeçou. Ele me buscou em casa e nós fomos para o cinema. Até agora eu não seiquefilmenós"assistimos",masfoimaravilhoso. Passamos três meses ficando e de repente no dia sete de outubro ele mepediuemnamorodojeitomaisapaixonantedomundo. Fui a casa dele naquela noite após a escola. De noite ele me convidou para dormir na casa dele, então liguei para Dona Lurdes e avisei que passaria anoitefora.Fomosparaoquartodeleeoqueeuvideprimeirameassustou, masdepoiseuentendieacheimuitofofo. O quarto era inteiro (e quando eu digo inteiro, eu não estou exagerando)repletodefotosminhas,tantocomelequantosozinha. Olhei para a cama e vi uma rosa vermelha. Olhei para ele meio confusa, entãoelecomeçouafalar. "Be, no meu país a gente costuma demonstrar que ama através de umarosa.Cadapétalarepresentaalgo." E arrancando cada pétala jogando sobre a cama ele continuou: "A primeiraéparaoprimeirodiaqueeutevi,asegundaparaasortequetiveao te segurar em meus braços, ingênuo desse nosso destino, a terceira é por ter me livrado daquelas cachorras de decote, a quarta é para o nosso primeiro beijo, e nossa, que beijo. Já a Quinta, dedico à sua beleza e aos seus olhos que brilham mais que uma constelação. A sexta é para essa noite que espero que você guarde em seu coração para sempre. A sétima, eu te amo. E essa oitava, a última dessa delicada rosa, serve para perguntar a você o que eu venhoquerendoperguntarhátempos.Be,vocêaceitanamorarcomigo?" Nãotevejeito,escorreuumalágrimaelogoaenxuguei. Ninguém nunca tinha feito algo desse porte para mim. Eu realmente o amava e como resposta à pergunta, empurrei-o na cama sob as pétalas e beijei-ocomonuncahaviafeitoantes. "Vocêestápronta?" Mal ele sabia o quão pronta eu estava, então perdida em suas palavras indecentes que vieram logo após, entreguei a ele meu corpo pela primeira vez e deixei-me ser amada de verdade, deixei-o provar de tudo que ele tinha direito,atéqueadormeciparavaleremseusbraços.
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  • 99. 99 Reencontro PercebiqueHugoandavamuitoestranhodesdequeeucomeceiaficar com Éric. Entendo que ele gostaria que eu voltasse com ele, mas eu não iria voltarnunca,eledeviaseguiremfrente,assimcomoeufiz. Dois dias após eu e Éric começarmos a namorar, recebi uma ligação no meiodamadrugada,oquemeassustou. Eradohospitaleestavammechamandolá,deacordocomamulherdo outro lado da linha "era muito importante", então imediatamente eu acordeioDanyepediquemelevasseatélá. Chegando ao hospital, uma mulher logo me reconheceu (não sei como) e pediu para eu entrar na sala 5B do segundo andar. Eu não sabia o queesperar. Entrando na sala, sorri e agradeci a Deus como nunca na vida, era a minhamãe,sorrindodestavez. "Minha filha, tenho uma ótima notícia! Parece que ao injetar células- tronco no meu corpo eu fiquei melhor. Os médicos fizeram os testes durante esses três meses e desde que eu venha aqui diariamente eu poderei voltar paracasa,finalmente." E ela desabou em lágrimas de alegria.Ela agradecia a Deus por atender às suas preces e dizia que me amava e diante o que ela acabara de dizer, eu tambémnãomecontive,choramosjuntasatéqueeuperguntei: -Equandovocêvemparacasa? -Amanhã,apósosúltimosexames. -Tevejoemcasaentão,mãe. Beijei sua testa e abracei-a levemente, com medo de machucá-la, por maisqueelajaestivesse“bem”. Saindo da sala 5B olhei para o lado e vi Hugo desacordado em uma maca. Perguntei desesperada o que aconteceu ao médico e o mesmo respondeuqueHugosofreraumacidentedemoto. Resolvi que seria melhor visitá-lo de manhã, quando ele provavelmenteestariaacordadonovamente. Naquelefimdemadrugada,nãoconseguidormirdejeitonenhum.
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  • 103. 103 Hugo No dia seguinte, fui cedinho ao hospital visitar Hugo, afinal ele já tinha sidomeunamorado,eraomínimoqueeupoderiafazer. "Rara", ele falou baixinho, porém, ele estava de olhos fechados, como poderia saber? E como se ele tivesse lido a minha mente, como de costume, elerespondeuqueomeuperfumeerainconfundível. "Oquehouve?",pergunteiatrásdeexplicações. Suspirandoaltoelerespondeu: -Be,nãoconsigovervocêcomumnamoradosenãoeu. Descobri ontem de noite sobre o namoro e enlouqueci. Peguei a moto do vizinho, que sempre deixa as chaves na ignição, e saí por aí apostando corrida sozinha, de madrugada, e sem rumo ao certo. Sei que não foi a coisa mais sensata a se fazer, mas quando eu penso em você, nada mais me vem à cabeça, é como se você fosse a minha razão de viver e mesmo assim tenho de vê-la com alguém que você há pouco conheceu. É muita coisa para a minha cabeça e agora estou aqui e provavelmente permanecerei aqui por umtempinho. Perdiocontroledomeusistemanervosoecomeceiachorar.Nãosabia ao certo o porquê de todas essas lágrimas, elas não deviam estar presentes naquele momento. Olhei para ele e não pude dizer nada, não consegui. Simplesmentevirei-meemesmoouvindoHugogritarmeunome,saídasala. Fui direto para casa, eu precisava de um tempo, do meu espaço. Sozinha,ondeninguémpudessemeencherouinfluenciar. Passei boa parte do dia pensando sobre Hugo, em como ele mexia comigo e em como eu nunca de fato esqueci o primeiro amor da minha vida. Mas por outro lado, pensei em Éric, e em quão bom ele era, em todas as qualidadesdelequemefaziamsorrircadadiamais. Peguei o celular e liguei para ele pedindo para que viesse à minha casa eemquinzeminutosláestavaele,tocandoacampainha. DonaLurdesatendeuaportaefalouparaÉricqueeuestavanomeuquarto. Pedindo licença, ele entrou e eu vi meu mundo melhorando de um a cemporcento.
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  • 107. 107 A primeira noite com ela Às 19 horas ouvi a ambulância chegando e esqueci de avisar Éric sobre a minha mãe. Resumi toda a história (omitindo a parte de Hugo, claro) e descicorrendoasescadas. Fiquei muito feliz em vê-la tentando andar sozinha, mesmo que com poucosucesso,entãoenvolvimeusbraçosemsuacinturaeajudei-aachegar àmesadejantar. Dona Lurdes serviu o jantar e minha mãe a convidou para jantar com a gente. Contei a minha história com Éric para minha mãe e ela ficou muito feliz. Aliás, Éric conheceu minha mãe naquele dia, um dia muito especial paramim. Éric foi embora e eu ajudei minha mãe a subir as escadas e pedi que dormisse comigo aquela noite. Ela aceitou com um largo sorriso estampado nafacedeorelhaàorelha. Antes de dormir, contei a história inteira, já que tive que omitir a parte de Hugo na frente de Éric. Contei também sobre todo o sofrimento que passei na escola antes de Hugo e sobre a minha festa. Contei tudo e aos poucososonoveiochegandoenósadormecemos.
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  • 111. 111 Em algum lugar por ai Eu estava quase adormecendo quando lembrei de uma questão que medeixavaaflita,ondeestavameupai? Fiquei com dor no coração de acordar a minha mãe, afinal era a primeira noite de sono tranquilo na sua casa. Ela merecia que eu esperasse atédemanhã,entãofoiissooqueeufiz. "Bomdia,Be". Ouviminhamãechamarpormimemedarumcutucãozinhodeleve. "Bomdia,mãe". Fomos para a sala de jantar, onde já estava pronta a mesa de café da manhã. No meio da refeição pensei que seria uma boa hora para perguntar e elarespondeudestaforma: -Be, minha filha... Quando seu pai descobriu que nunca mais me veria, ele ficou muito aflito e entrou em depressão. Entrou para o mundo das drogas e bebidas alcoólicas. Passou a beber todos os dias, até que ele também precisou ser internado. Foi o que me disseram e eu piorei, pois me senti mal pela pessoa que eu amava. Somente sei até aí, não sei onde ele se encontra,masamariasaber.Euaindaoamo. Olhei para o meu prato e fiz uma promessa à minha mãe, ela veria sim meupainovamenteeeudescobririaoquehouvecomele. Eu precisava reunir meus pais, estava cansada de uma família despedaçada, eu precisava de uma família unida novamente, como uma família de verdade deveria ser. O único problema seria se meu pai tivesse falecido, mas se não tivesse, eu faria qualquer coisa para encontrá-lo, só não sabiaaocertoondeecomo.
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  • 115. 115 Éric ia voltar Enquantoeuiapesquisando,otempoiacorrendoecorrendo. Pedi ajuda a Éric para encontrar meu pai e ele aceitou sem nem pensar duas vezes, ele também não tinha pai, porém, o dele já não estava mais vivo e de acordo com ele, faria de tudo para ter o pai de volta, por isso aceitou logo de primeira. Essa procura nos uniu mais ainda e eu já não conseguia me imaginar sem ele ao meu lado, seria cruel a sua partida de volta à Nova Zelândia. Lembrando disso, tivemos uma conversa um dia, o que me magoou demais, comoseumpedaçodemimestivessequasepartindocomele. Estávamos no meu quarto naquele dia, pesquisando como em todos os dias desde que decidi encontrar meu pai. Olhei para ele e comecei. Falei que eu havia perdido a noção do tempo e que eu precisava saber quando ele iria embora, para ter tempo de me recompor, pois seria uma grande perda e ele respondeu olhando para as mãos, porque assim como eu, ele não conseguiaolharnosmeusolhosnaquelemomento. – Be, esperava não ter que voltar. A minha vida aqui tem sido a melhor em anos. Conheci você e você foi a primeira garota por quem eu já me apaixonei de verdade. Senhor, você não tem noção do quanto estou dividido. Quando parti, jurei à minha mãe que eu voltaria. Ela fez de tudo, o possível e o impossível para pagar esse intercâmbio. Minha família não tem uma boa condição financeira, sabe? Precisei trabalhar por um ano em uma loja de CDs para poder pagar minhas aulas de português e foi realmente muito dura a minha despedida. Eu nunca tinha passado mais de uma semanalongedaminhamãeederepenteeuestavapartindoparasódalium ano voltar. Tentei aproveitar ao máximo aqui, pois sei o sacrifício que custou a minha mãe. Não falo com ela desde o dia da partida, afinal as ligações internacionaissãomuitocaras. Euprecisodelanovamente.Eulamentomuito,Be. Desde a primeira palavra, eu estava pronta para tudo, menos para aquilo,porqueeudefatooentendia.Eupasseipelamesmacoisa. Euprecisavadaminhamãeealiestavaela,emcasa,comigo.Elemereciaisso também.
  • 116. 116 -Éric,pormaisquemedoaocoração,pormaisqueeuestejapassando por outro adeus, eu te entendo. Eu sei como é precisar de uma mãe. Passei onze anos longe da minha mãe, e mesmo sem ter tido uma despedida com tempo certo de volta, sei que você precisa voltar e vai. Queria manter contato com você para sempre, e como sei que ligações internacionais são caras,compreiisso,esperoquegoste. Entreguei a ele um embrulho. Ele abriu com cuidado e retirou o objeto dedentro.EraumIPhone. - Be, não posso aceitar isso. É muito caro! E lá eu não terei internet e nemninguémparaligar. - Éric, você merece isso, e esta é a forma que eu encontrei de manter contato, então você tem que aceitar, não quero perder contato com você, amor. Ele vem com 3G e eu vou pagar todo mês, pode ficar tranquilo, você só nãoconseguiráfazerligações,masaintatemofacetimeeowhatsapp. -Éperfeito! Beijamo-noseeuconseguifinalmenteparardechorar,porémlembrei- medaprincipalquestãoepergunteiquediaexatamenteelepartiria. -Vouvoltardaquiquinzedias. -Mas,já??? Ele respondeu, engasgado, que sim. Sabia que ele estava triste, eu não queriapiorarascoisas. De repente ele deu um grito: "BINGOO!", o que me assustou, então ele me chamouparaverocomputador.Eletinhaachadomeupai.
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  • 119. 119 Pai? Meu pai estava internado em uma clínica de reabilitação fazia três anos.Aclínicachamava-seGrupoVidaHospitalTerapêutico,desde1988. Procurei mais informações e descobri que o Hospital de Internação localizava-se no município de Sorocaba, a 80 km da Capital Paulista, entre as rodoviasCasteloBrancoeRaposoTavares. Perfeito! Não era tão longe assim, então pedi para que Dany nos levasse, no dia seguinte, para lá. Perguntei para Éric se ele viria junto e ele disseque,comcerteza,iria.Euestavatãofelizqueseriacapazdetudo. Pedi para que Éric dormisse em casa aquela noite para sairmos bem de manhã e para outros motivos também. A noite foi perfeita e minha mãe aceitoudormirestanoitecomaDonaLurdes. Acordamos cedinho e fomos. Chegando lá, aquele friozinho na barriga, de quando eu vi minha mãe pela primeira vez em anos, voltou. Só podiaentrarnoquartoumdecadavez,entãoeufui. –Pai? Entrei no quarto e o vi sentado, lendo. Ele se virou para mim e por um momento eu pensei que ele não estava me reconhecendo, porém. em um segundo momento ele se levantou e veio direto me abraçar. Como era bom tê-lo por perto. Senti seu cheiro e posso jurar que reconheci o perfume dele. Lembro-me de quando criança que eu amava sentar no colo dele e ouvir aquelavozroucaqueeuestavaloucaparaouvirnovamente. –Minhaqueridaabelinha,quesaudadeeusentiportodosessesanos! Abelinha era o apelido que ele me deu, desde pequena eu sempre ameimelecombinavacomomeunome. – Tenho uma ótima notícia, papai. Mamãe voltou. Ela está em casa, finalmente! Falei com a sua inspetora e perguntei se você poderia voltar. Ela acha que como você começou com tudo isso até chegar aqui por causa da falta da minha mãe, ela acha que com o retorno dela, você está seguro e livre.Maseuprecisosaberdevocê,papai,voltaparacasa,porfavor... Posso jurar que seus olhos se encheram de lágrimas, assim como os meus, e sem nem pensar muito ele respondeu que com toda certeza voltaria, que três anos de abstinência foram o suficiente e que agora ele não
  • 120. 120 tinhamaismotivosparavoltaràquelavida. Éric estava sentado na sala de espera e assim que todos os papéis foram assinados e que liberaram meu pai, apresentei-o a ele. Eles se deram bem logo de primeira, afinal ambos entenderam o quão eu estava feliz com elesporperto. Chegamos em casa e lembrei que minha mãe não sabia da surpresa. Pediqueeuentrasseprimeiroparatercertezadequeminhamãecontinuava dormindo. Depois da confirmação, pedi que meu pai sentasse à mesa e fui acordarminhamãeeDonaLurdes. Elas desceram as escadas e sentaram-se à mesa. De repente, como em uma cena perfeita de um livro, meu pai apareceu com uma frigideira na mão eanunciou:"Alguémaceitapanquecas?" Minha mãe olhou para ele é ambos começaram a chorar. Meu pai foi ao encontro dela e eles se beijaram e se abraçaram repetidas vezes. Olhei paraDonaLurdeseviotantoqueelaestavafeliz,assimcomoeu. Finalmente, a casa estava cheia e eu não precisaria mais passar a vida sozinha.
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  • 123. 123 Adeus Era a despedida de Éric. Ele iria embora no dia seguinte de manhãzinha. Após a festinha de despedida que eu organizei em casa para ele, Éric me convidou para dormir na casa dele e graças a Deus tivemos a nossa melhoremaismemorávelnoite. Nodiaseguinte,acordamoseeupudeveradoremseusolhos,assim comoeunãopudeescondernosmeus. Sentamosnoaeroportoapósocheck-ineesperamosachamada. "Passageirosdenúmero5Bembarquem". Olhei para ele e não contive minhas lágrimas. Tivemos então aquela conversa. –Éachoqueissoéonossoadeus. Eleconcordoudecabeçabaixa. – Escuta Be, obrigada por tornar essa viagem a melhor que eu já fiz na minha vida. Você com certeza foi a melhor escolha que eu já fiz na minhavidaeeununcavoumearrependerdenada.Euteamo,amor. Amulhernoauto-falantechamounovamente. –Éric, você com toda a certeza do mundo, foi o melhor namorado que eu já tive. Fez-me o melhor bem possível quando eu precisei e me ajudou muito. Eu também te amo e ainda tenho esperanças de você voltar oueuirvisitá-lo. Nosbeijamosprofundamentepelaúltimavez,semvergonhaalguma dosoutros,eraonossomomentoetalvezoúltimo. EspereiÉricembarcarechorandofuiembora. Chorei e chorei em minha cama e pela primeira vez em mais de uma décadameuspaismeacolheramemeacalmaram.Comoissoerabom. –Amovocês. –Nósteamamostambém,minhapequena.
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  • 127. 127 Acidente No dia seguinte, acordei com uma gritaria absurda. Meus pais estavam brigando. Desci as escadas correndo a tempo de ver meu pai sair de casa e minha mãegritandoporseunome. Corri atrás do meu pai, mas ele pegou a moto e eu não era tão rápida assim. Volteiparacasaeviminhamãeaosofá,chorando. Abracei-a e pensei que não seria uma boa hora para perguntar o motivodabriga,entãofizumboloparaelaeesperamospormeupai. Esperamos e esperamos, e nada. Nenhum sinal de sua chegada. Não sabíamosoquetinhaacontecidoeestávamospreocupadas. Dormimos muito mal aquela noite. A cada barulhinho nós acordávamoscomesperanças,euiaatéajaneladomeuquarto,enada. Recebemos uma ligação na manhã do dia seguinte. Eu atendi e ouvi pacientementeatévirodesespero. - Quem fala é o policial Júnior Rosa, vim informar que na noite de ontem seu pai, Renan Carvalho, sofreu um acidente de moto e está no hospitalaquidacidade.Acheinacarteiradeleonúmerodesuacasa. Deixeiotelefonecairnochão.Efuidiretoparaohospital. Preferiqueminhamãeficasseemcasa,entãoDanymelevoulá. Cheguei desesperada e logo me encaminharam ao quarto em que ele estava. Que cena horrível. Acho que nunca tinha visto tanto sangue na minha vida.Eleestavacomumadaspernasengessadaecomumtubosaindodireto dagarganta.Volteiachoraremeapoieinamaca. Omédicochegoueeupergunteioqueeletinha. – Beatriz, ele fraturou a coluna. Se sobreviver, terá de aceitar o fato de que sua medula espinhal foi rompida. Se ele acordar, será tetraplégico. Infelizmente, não posso dizer se ele acordará ou não, não há previsões. Ele entrouemcomaassimquechegouaqui. Como eu diria uma coisa dessas para a minha mãe? Logo agora que a famíliaestavaperfeita.
  • 128. 128 Fui à delegacia pedir o relatório do que aconteceu e o delegado Neto explicouoocorrido. – Seu pai dirigiu alcoolizado. Ele devia estar muito alterado, pois bateu na parede de um estacionamento. Talvez ele tenha tentado estacionar, mas nãoestavabemosuficienteparaisso.Sintomuitopeloocorrido. Volteiparacasaarrasada.Comoodestinoeraimprevisível,não? Chegando em casa, resumi a história, poupando minha mãe dos detalhes. Foihorrívelcontaraela.
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  • 131. 131 Luto Nodiaseguinte,recebiumaligaçãodohospital.Meupaifaleceu. Foi muito difícil para mim e para a minha mãe. Agendei o enterro para dali uma semana. Aquela semana foi a pior da minha vida. Organizar o enterro do meu pai foi dificílimo, mas dentro dessa semana, eu e minha mãe fomos aceitando aos poucos. Esse era o destino dela, já tinha acontecido, de qualquerjeito,entãofomosreaprendendoaviversemele. No enterro dele, minha mãe me contou a pior verdade que eu com certezapoderiaviversemsaber. – Trix, preciso te contar uma coisa. Espero que isso morra e fiquei aqui, junto com o seu pai. Naquela manhã que ele saiu de casa, contei a verdade para seu pai. Antes de você nascer, antes de eu casar com o seu pai, antes mesmo de eu ver o seu pai pela primeira vez, eu me apaixonei por um homem.Euoamavaeentãoengravidei.Nós íamos nos casar, porém ele sofreu um acidente e faleceu. Desesperada, conheci seu pai e fingi engravidar dele, pois eu não tinha condições de sustentar sozinha um bebê. E eu fiquei com medo da sociedade me julgar porterengravidadodeumhomemquenemmeumaridoera. Casei com o seu pai e me apaixonei por ele. Por mais que ele não tenha sido meu primeiro e grande amor, não me arrependo de nada. Amo o homem que está ali dentro, sendo enterrado, porém a verdade é que o bebê nasceu. Eravocêminhafilha. Olheiparaelaconfusa,entãoelacontinuou. – Você não é filha de sangue do homem que está ali, mas sim do que morreuantesmesmodeeumecasar.Conteiaoseupaiissologodemanhã,e esse foi o meu pior erro. Eu só não conseguia mais manter isso dentro de mim, isso estava me sufocando. Então ele pegou uma garrafa de Whisky e saiudecasa.Medesculpa,Trix.Aculpaétodaminha.Porminhacausa,agora estou vendo meu segundo amor falecido, ambos mortos do mesmo jeito. Esperoqueumdiavocêmeperdoe. Euestavadebilitadadeacreditarnoqueeuestavaouvindo. Estavaincrédula.Entãovireiparaaminhamãeefalei: –Elesempreseráomeupai. Então fui até o caixão que ainda permanecia aberto. Beijei sua testa e repetiomesmoaele.
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  • 135. 135 Uma nova eu, um novo Hugo Eu não sabia se estava brava ou se eu já havia superado tudo o que a minha mãe disse ter feito, mas segui em frente, não queria perder minha mãetambém.Nodiaseguintenaescola,todosjásabiamdoacontecido.Pela primeira vez, todos me olhavam com pena. Hugo veio falar comigo. Veio se desculpar pelo completo idiota que ele andava sendo e pediu um recomeço. Aceitei a ideia, mas deixei claro, nós não éramos namorados, estávamos recomeçandotudoeeletevedeaceitar. Lembrei-me das chaves que eu nunca havia entregado para Mackenzie e resolvi fazer a coisa certa a se fazer, devolvi para a diretora Lauli. Ela ficou brava,masdeixoupassarporcausadosrecentesacontecimentos. Passei a tarde com Ca e Sté e chamei-as para dormir em casa naquela noite. Apresentei-as à minha mãe. Logo vi que elas se dariam muito bem, o quemedeixoumuitofeliz. De noite, Camila e Estela vieram com o papo estranho para cima de mimestranho: -Be,vocênuncacogitouvoltarcomoHugo? PenseiumpoucoerespondiàCaquenão,afinal,oqueeletinhafeitocomigo era inaceitável e eu sofri demais, porém Sté, que nãotinha nenhum motivo paramentir(afinal,assimqueelasoubeoqueHugofizera,elafoiaprimeiraa quererquebraracaradele)disse: – Be, eu e a Ca ouvimos uma conversa entre Hugo e a Mackenzie. Ele estava implorando para que Mackenzie não fizesse algo que eu não ouvi direito com você. Ele pediu também para que Mackenzie explicasse para vocêqueeledefato tinharesolvidocancelarantes,maso combinado eraela rasgaraapostanasuafesta,elenãoqueriaotaldoprêmioouseiláoque.Ele te ama, Be, e se eu fosse você, eu não desperdiçaria a chance de ter o cara que você ama, porque aqui entre nós, eu sei que você nunca o esqueceu, mesmoquandovocêestavanamorandooÈric. Tais palavras me fizeram pensar em Hugo, não mais como o vilão da história,talvezStéestivessecerta,afinal,porqueelamentiriasobreissopara mim? Dormi mal naquela noite e acordei com profundas olheiras. Acordei minhasamigasefomosnosarrumarparaescola.
  • 136. 136 Eu já não conseguia mais olhar para Hugo com ódio, olhava para ele comdó,fuimuitoinjustacomele,nãoouvioseuladodahistória,maseunão seria tão facil assim, agora que nós tínhamos resolvido recomeçar tudo, ele teriademeconsquistarnovamente. Passamos o intervalo juntos e pela primeira vez eu o estava conhecendo de verdade. Não como a namorada que admira e não vê defeitos,mascomoaamigaqueeununcafui. Euestavamuitofeliz.
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  • 139. 139 O baile Logo logo já seria o baile de formatura (sei o que está pensando, mas eu também não sei o porquê da minha escola fazer uma formatura entre o segundo colegial e o terceiro, talvez fosse porque não tivemos uma entre o nono ano e o primeiro colegial) e eu não tinha um par para o baile. Eu nunca tinhamepreocupadocomisso,porqueagoraeuestavatãoaflita? "E ai, Hugão, já escolheu a sua próxima presa para convidar como sua parceira no baile?", perguntei fingindo desinteresse e ri, mas o real propósitoerasaberqualseriaainfelizqueestarianomeulugar. "Ah, Bê, sabe como é, né? Não vou pegar ninguém no baile...", ele deu umapausaeolhouparamim,"Evocê,alguémjáteconvidou?" Fui sincera e disse que não (usei a minha melhor cara de "Me convida, por favor, por favor, por favor") e como esperado, ele me convidou. Obviamente eu aceitei na hora, e só depois percebi o quão desesperada eu pareci,quevexame... O sinal bateu e eu fui para sala junto com ele. Naquele dia, não conseguipensaremmaisnada,somentenoqueacontecerianobaile.
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  • 143. 143 Um novo recomeço Acordeimuitofeliz,finalmenteeraodiadobaile! Saí com a minha mãe para comprar meu vestido (eu sei que eu não devia ter deixadoparaaúltimahora),parafazermeucabelo, maquiagem,depilação... Depois de pronta, olhei-me no espelho pela primeira vez. Uau, eu me sentia bonita, talvez até mais que na minha festa. Eu havia cacheado o cabelo e feito um penteado de lado, comprei um vestido vermelho tubinho com uma calda que arrastava, estava usando corpete, meu salto era preto assim como minhas unhas e a maquiagem que mesclava também com o dourado. Conforme o combinado, Hugo tocou a campainha quase que exatamente às 20h. Antes de descer as escadas para atender à porta, minha mãe deu uma última checada em mim e confirmou que de fato eu estava maravilhosa. O baile não seria somente para alunos, então minha mãe e até a Dona Lurdes e o Dany, que foram a minha família por bastante tempo, se arrumaram. Minha mãe já estava milhares de vezes mais saudável que da primeira vez que a vi. Ela estava maravilhosa com o vestido preto que usava. Dona Lurdes também estava muito elegante e o Dany estava usando pela primeiravez(pertodemimpelomenos)umterno. Hugo entrou em casa e ouvindo a porta se fechar, desci as escadas o mais cuidadosamente possível. Ele estava um deus, vestia um terno risca- de-giz preto e uma gravata vermelha assim como meu vestido (juro que foi coincidênciaacombinação). Tiramosumafototodomundojuntoédepoisfomosparaobaile. A escola estava muito linda com decorações por todas as partes. Tiramosafotodaentradaefomostodosnosdivertir. Hugo pegou ponche para mim e nos juntamos com nosso grupo de amigos. Ca estava usando um vestido preto com pedrinhas pretas brilhantes eumsaltoloubotineStévestiaumvestidorosacomsaltopreto. Anoiterendeuváriaseváriasfotos. Por volta de meia-noite e pouco, Hugo chamou-me, pois ele queria "falarcomigo",entãoeuosegui.
  • 144. 144 Eu não sabia para onde ele estava me levando, e cheguei até a ter um poucodemedo. Ele tapou os meus olhos durante o caminho dizendo que queria fazer uma surpresa para mim e quando ele tirou as mãos para que eu pudesse ver, eunãoconseguiaacreditar. Júlia estava lá. Vestida com um vestido de baile muito antigo pelo que parecia,afinaltinhatodosunsbabadosestranhoseombros fofõescafonas,comoemfilmesantigos. "Júlia! Quanto tempo! Me desculpe por ter parado de visitá-la", falei realmentearrependida. "Bê, obrigada pela consideração, eu entendo o porque de você não mais ter ido me visitar. Hugo continuou indo e me contou tudo o que estava acontecendo...Bê,vocêprecisaacreditarnele,eleéumbomgarotoeambas sabemosoquantoeleéimportanteparavocê.Somentereflitasobreisso." Elameabraçouforteefalouqueiacurtirafesta. OlheiparaHugo,“desbussolada”."Eagora?",pensei. Me olhou com aqueles olhos que tão vagarosamente me apaixonei e fez aquilo que eu sempre amei, tocou a nuca com quem não sabia o que fazer. Odeioofatodeeunãotê-loesquecido. Odeioofatodeeuestarperdidamenteapaixonadaporele. Odeioofatodeleestaracentímetrosdemime... Beijou-me.
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  • 147. 147 Finalmente Nunca havia beijado daquela forma. Era como se eu estivesse recuperando todo o tempo perdido longe dele. Minhas pernas tremiam muito e eu não conseguia respirar direito (o corpete também não ajudava nessaparte). Nos afastamos somente o suficiente para encostar nossas testas e ambosnãoabriramosolhostãocedo. Elepegouaminhamãoepediuqueeuoseguisse. Segui-o, afinal, eu já não mais pensava com o meu cérebro, estava sendo movida pelo meu coração, estava fazendo o que eu queria no momento,seguindominhasemoções,seguindoHugo. Subimos vários lances de escada. Subimos, subimos, subimos. Eu estavamuitocansadajá. Ok,tudobem,oqueeraaquilo? Observeiolugar,maseununcatinhavistonadaparecido. Era alto o lugar, eu podia ver a minha casa de lá, podia ver muita coisa, aliás. "Onde estamos?" foi a primeira pergunta que me veio à cabeça, mas a substituíporumamelhor,"Porquemetrouxeaqui,Hugo",pergunteientão. "Bê, eu precisei passar por tudo isso para finalmente perceber o quanto eu estou apaixonado por você. Vi você me abandonar, vi você sofrendo,oquemefezsofrermaisaindaeeunãoconseguiaentendero porquê, vi você se recuperar, você me enfrentou e sem vergonha de ninguém, vi você feliz ao lado de Éric, vi você dizendo adeus a ele, e aqui estou eu, pedindo mais uma chance, pedindo que no futuro, mais um "eu vi" entre na nossa história, um "eu vi você me perdoar e dizer que ainda me amava,edizerquemeaceitadevolta,edizerque..." Coloquei o dedo em seus lábios e não permiti que continuasse. Sentia as minhas bochechas queimarem, percebi que estava chorando, mas não de tristezaesim,deemoção. Foinaquelemomentoqueeupercebioquantoeuqueriaouviraquelas palavras. O tanto que demorei a perceber que eu nunca o esqueceria, e por quetentaresquecê-loseeupoderiatê-lo? SIM,Hugo,sousuanovamente.
  • 148. 148 Formato: 16 cm x 21 cm Tipologia: Calibri, Arial Norrow 11 e 12 Papel Supremo 300 g (capa) Papel off set 75 g (miolo)