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Lívia Barbosa, antropóloga, é
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Até que ponto essa incapacidade de perceber como o grupo se classificava afetou
a coleta de dados? É difícil dizer ou aval...
são utilizados de forma a criar- sentidos na vida das pessoas. Portanto, devem ser
entendidos e pesquisados no interior do...
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Marketing EtnográFico

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Marketing EtnográFico

  1. 1. O uso que se tem feito da etnografia, uma técnica de pesquisa da antropologia, para investigar o consumidor no Brasil pode induzir a erros, pois ela vem sendo aplicada como se fosse um trabalho de campo qualquer. Conheça a abordagem que congrega exigências metodológicas específicas e o princípio teórico de mapear todo o sistema de consumo em que um produto se insere. Por Lívia Barbosa e Eugenio Giglio esde a década de 80, a pesquisa em marketing, no mundo e no Brasil, vem D passando por profunda modificação metodológica que pode ser resumida no gradual afastamento dos dados agregados, áridos e quantitativos em direção aos dados qualitativos e mais particularizados. Essa mudança baseia-se na crescente evidência dos limites da abordagem econômica para explicar o consumo e o comportamento do consumidor em um mundo interconectado e cada dia mais complexo. O uso de dados qualitativos não é novidade para o marketing. A inovação está no interesse crescente pela etnografia, a metodologia antropológica tradicional, que consiste em observar, participar e entrevistar o quot;nativoquot; em seu próprio ambiente, tentando compreender e revelar sua existência como um todo. Embora a etnografia já tenha se tornado conhecida como ferramenta metodológica, são necessários conhecimentos e posturas metodológicas específicas para se obterem dela os resultados que ela potencialmente pode produzir. O que nossa experiência como pesquisadores e consultores tem indicado é que o uso que se tem feito da etnografia para pesquisas com o consumidor ou mesmo em branding no Brasil está longe de atender a essas exigências teóricas e metodológicas específicas. E é para esse aspecto que nosso estudo pretende contribuir. Como a etnografia é usada pela antropologia Para entender o potencial da etnografia para o marketing é interessante tentar responder o que é etnografia, por que os antropólogos a usam no trabalho de campo, que tipo de informação ela produz e qual sua aplicabilidade no marketing e nos negócios em geral. A realidade social tem uma dupla natureza: uma é composta pelo mundo material que nos envolve; a outra, pelos meios simbólicos por meio dos quais os seres humanos tomam consciência desse mundo material. Pessoas, objetos, relações, fatos HSM Management Update nº19 - Abril 2005
  2. 2. que são parte da vida diária e do mundo material que nos cerca só têm sua existência Lívia Barbosa, antropóloga, é professora da Universidade considerada como parte de nossa realidade quando são inseridas dentro de um sistema Federal Fluminense (UFF) e de valores e significados. Valores e significados que não emergem a partir das pode ser contatada pelo e-mail propriedades físicas e biológicas das pessoas e dos objetos, mas que lhes são atribuídos livia@visualnet.com.br. Eugenio Giglio é professor da pelos sistemas classificatórios que operam na mente humana. Escola Superior de Os antropólogos usam a etnografia porque essa metodologia os ajuda a Propaganda e Marketing do apreender os modos lógicos e significativos pelos quais as pessoas organizam a Rio de Janeiro (ESPM-RJ) e quot;realidadequot;. Quando a observação direta é combinada com entrevistas em pode ser contatado pelo e-mail eugenio@espm.br. Giglio profundidade, como normalmente ocorre, a informação visual é enriquecida com os agradece o apoio institucional pontos de vista dos próprios quot;nativosquot; sobre suas práticas, valores e significados e do do Núcleo de Pesquisas da grupo social ao qual pertence. Isso dá aos antropólogos a oportunidade de olhar a ESPM-RJ. realidade de um grupo ou de uma sociedade por meio das categorias deles, evitando, assim, a armadilha do etnocentrismo. Portanto, uma das atividades básicas do trabalho de campo da etnografia é identificar as principais categorias que são usadas por um grupo de pessoas para classificarem a si mesmas, o mundo social a sua volta, os diferentes tipos de pessoas e as relações entre elas, o mundo material no qual vivem e suas relações com objetos que o compõem. Assim, qualquer trabalho de campo e de observação direta precisa começar com os pesquisadores evitando qualquer espécie de classificação a priori sobre o grupo, caso contrário o antropólogo estará investigando seu próprio modo de pensar sobre o mundo e não o pensamento dos quot;nativosquot; sobre o mundo deles. Como a etnografia vem sendo usada pelo marketing -a pesquisa com as mulheres nordestinas No universo do marketing, a quot;visão do consumidorquot; pode ser considerada o equivalente estrutural das quot;categorias nativasquot; do antropólogo. Mas outras exigências metodológicas se fazem necessárias quando se trabalha dentro de nossa própria sociedade, onde tudo nos parece tão familiar. Isso porque estar familiarizado com quot;algoquot; não significa conhecer quot;algoquot;. Assim, uma atitude de distância e estranhamento deve ser adotada para transformar o supostamente conhecido em algo quot;exóticoquot;, como nos ensina o antropólogo Roberto DaMatta. Estranhar algo significa olhá-lo com novos olhos, colocar quot;por quêsquot; para coisas tidas como sabidas e pesquisar a lógica e o significado por trás de procedimentos automáticos. Em resumo, olhar coisas familiares como se elas pertencessem a outros mundos e pessoas. Um dos melhores exemplos de abordagem errada de etnografia no marketing que presenciamos foi a imposição etnocêntrica da classificação de pobre a um grupo de mulheres nordestinas por pesquisadores de uma multinacional de pesquisa oriundos de São Paulo. Pobreza é um conceito relativo, não absoluto. Depende do contexto e pode ainda ser definida de várias maneiras. Embora o grupo de mulheres entrevistadas estivesse na base da pirâmide de renda dos brasileiros, elas não atribuíam a si mesmas a classificação de quot;pobresquot;. Todavia, para a equipe de pesquisa a quot;pobrezaquot; era a característica definidora dessas mulheres. Em conseqüência, durante todo o tempo foi possível perceber o choque entre a classificação dos pesquisadores e a reação das mulheres a ela. Essas mulheres só se referiam a si mesmas como pobres ou reconheciam sua carência material explicitamente, quando isso estava vinculado -e era compensado- por uma posição superior em um sistema de classificação social ou moral. quot;Sou pobre, mas honestaquot;. quot;Sou pobre, mas limpaquot; ou quot;Sou pobre, mas abençoada por Deusquot;. HSM Management Update nº19 - Abril 2005
  3. 3. Até que ponto essa incapacidade de perceber como o grupo se classificava afetou a coleta de dados? É difícil dizer ou avaliar, mas por certo a equipe de pesquisadores perdeu boas oportunidades de entender aspectos básicos da vida daquelas mulheres. Algumas dessas perdas são evidentes, por exemplo, a diferença entre a concepção do pesquisador e das mulheres quanto ao significado de privação material e de seu impacto na vida de cada um. Para os pesquisadores o critério principal para classificar aquelas pessoas era a condição material delas, mas para elas, qual seria o principal critério para classificarem a si mesmas e aos pesquisadores? Se recusavam o rótulo geral de quot;pobrequot; e só o aceitavam em certos contextos, como a pobreza poderia ser interpretada? Como a privação material era entendida e como isso afetava suas hierarquias de compras e consumo? A abordagem correta do marketing etnográfico Temos de estar conscientes de que as armadilhas metodológicas como as observadas no caso citado surgiram e continuarão a aparecer em outros trabalhos de campo, uma vez que a maioria dos pesquisadores empregados nos projetos ignora os pressupostos metodológicos da etnografia e o que ela busca. Não basta quot;estar láquot; e observar modos de vida quot;exóticosquot;. Isso, por si só, não revela a informação que os pesquisadores procuram. É importante saber: Por que é importante estar lá? O que a observação direta propicia em termos de dados? * Por que a observação direta daquela realidade pode trazer conhecimento sobre padrões de consumo, seus respectivos significados e como eles interagem com outras partes da vida do consumidor? Se essas perguntas não forem respondidas, o uso do trabalho de campo se torna apenas uma experiência exótica para o pessoal de marketing, mas pobre do ponto de vista do conhecimento sobre o consumo e os consumidores. Outro aspecto importante diz respeito aos pesquisadores. Embora a etnografia seja uma metodologia qualitativa, nem todas as metodologias qualitativas e trabalhos de campo são etnografia. Isso quer dizer que pesquisadores de marketing treinados em entrevistas de campo não têm o necessário treinamento para observação direta e para o tipo de entrevista de campo profunda que a etnografia e a antropologia requerem. É necessária uma distinção dos recursos humanos que vão utilizar a etnografia. Além dessas observações metodológicas, é importante que os institutos de pesquisa e mesmo os departamentos de marketing das empresas adquiram uma perspectiva teórica mais afinada com uma percepção holística e sociológica da vida social cotidiana. Isso faria maravilhas para o enriquecimento das análises e interpretações dos dados. Estudar consumo é analisar, em grande parte, a cultura material de uma sociedade e o que as pessoas fazem com ela. Em outras palavras, como as pessoas usam os objetos e os produtos, como os resignificam, onde os inserem em na vida cotidiana, o peso e o valor que lhes atribuem para a reprodução social de si mesmos, entre outros. A vida social não é um conjunto de ações aleatórias, mas ordenadas. Por isso é que se torna possível quot;fazer sentido da ação das pessoasquot;. Essa constatação nos leva de imediato a um princípio teórico e metodológico que deveria estar por trás de toda e qualquer pesquisa de marketing: produtos e serviços não estão quot;boiandoquot; em um vácuo sociocultural: são instrumentos que carregam -e HSM Management Update nº19 - Abril 2005
  4. 4. são utilizados de forma a criar- sentidos na vida das pessoas. Portanto, devem ser entendidos e pesquisados no interior do sistema a que esse pertence. São as relações no interior dos sistemas que fornecem o significado cultural de bens e serviços. E esse significado não é nem estático nem imutável, está permanentemente posto em cheque pela experiência da vida real. Por exemplo, quando uma mulher compra sabão em pó para lavar roupa, esse produto está inserido no interior de um sistema de higiene doméstica que é organizado a partir de certa lógica que estrutura as práticas cotidianas. Entretanto, para se apreender essa lógica é preciso ir além da análise do produto específico e entender seu papel no interior do sistema como um todo. O mapeamento de um sistema de consumo em sua totalidade fornece uma ferramenta poderosa para quem quer entender o processo de mudança e a reação à introdução de inovações. Qualquer novo produto terá sempre de se inserir no interior de um sistema de consumo preexistente, no qual outros produtos e práticas já têm seus significados e posições definidos. Portanto, sempre ocorrerá um quot;diálogoquot; entre o que é novo e o que existia. Conseqüentemente, já ter mapeado o sistema onde meu produto se inserirá é meio caminho para que eu entenda as novas tendências e oportunidades que podem surgir. A antropologia, como indicado antes, e o marketing etnográfico como uma ferramenta para coletar e interpretar dados podem ajudar o marketing nessa tarefa. Como tentamos demonstrar, eles ajudam a desdobrar, mapear e relacionar produtos e práticas dentro de sistemas de significado e então nos conscientizar de como esses sistemas de significados se relacionam a padrões de consumo e estilos de vida. HSM Management Update nº19 - Abril 2005

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