Landes cap5

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Landes cap5

  1. 1. CAPÍTULO 5 FALTA DE AR E RECUPERAÇÃO DO FÔLEGOOs anos decorridos entre 1873 e 1896 pareceram a muitos contemporâneos umassombroso desvio da experiência histórica. Os preços caíram de maneira desigual eesporádica, mas inexorável, através de crises e explosões de crescimento - uma médiade aproximadamente 1/3 em todos os produtos. Foi a mais drástica deflação namemória do homem. A taxa de juros também caiu, a ponto de os teóricos da economiacomeçarem a invocar a possibilidade de que o capital se tornasse tão abundante aponto de passar a ser uma mercadoria gratuita. E os lucros encolheram, enquanto o queentão se reconhecia como depressões periódicas parecia arrastar-se interminavelmente.O sistema econômico parecia estar desmoronando. Então, a roda girou. Nos últimos anos do século, os preços começaram a subir,levando consigo os juros. Com a melhora dos negócios, a confiança voltou - não aconfiança irregular e evanescente dos breves surtos de crescimento que haviam pontuadoo desalento das décadas precedentes, mas uma euforia geral de um tipo que não haviaprevalecido desde os Gründerjahre do inicio da década de 1 8 70 . Tudo pareciacorrer bem outra vez - apesar do matraquear das armas e das admonitórias referênciasmarxistas ao "último estágio" do capitalismo. Em toda a Europa ocidental, esses anosperduram na memória como os bons tempos - a era edwardiana, Ia belle époque. Sua lembrança é abrilhantada pelo contraste com os anos de morte e desencantoque se seguiram. Em todos os campos, a guerra parece constituir o grande divisor:entre o otimismo e o pessimismo, a democracia par- 239
  2. 2. lamentar e o fascismo, o progresso e o declínio. A maciça mobilização de preços como um sintoma. Schumpeter talvez seja o mais famoso desse grupo, com seupessoas e recursos para o conflito, bem como sua destruição nele, pareceram tirar tudo modelo de uma máquina econômica movida a surtos de inovação. Também nesse campodos eixos, para nunca mais se aprumar. Na vida econômica a guerra assistiu à encontra-se Rostow, com uma análise mais matizada, baseada nos deslocamentos dointrodução de controles e restrições "temporários" - do comércio, dos preços, dos investimento entre aplicações com diferentes velocidades de gestação: quanto maisinvestimentos, da movimentação do capital e da pessoas - que, desde então, persistiram longo o intervalo entre o desembolso e o retorno (infinito, no caso dos gastos comsob uma ou outra forma. A economia internacional que se auto-ajustava serenamente armamentos), maior o efeito inflacionário imediato.cedeu lugar a um mecanismo atabalhoado e ineficiente, só mantido emoperação através de ajustes e consertos reiterados. Entre essas duas posições situa-se um homem como Kondratiev, que afirma que o Todavia, um exame mais criterioso deixa claro que a guerra foi apenas um movimento ascendente do ciclo longo está associado a aumentos tanto do investimento (devidocatalisador, um precipitador de mudanças que já estavam em andamento. Os sinais de a novas invenções, recursos naturais e mercados) quanto da oferta de capital. Kondratievum afastamento do otimismo e da liberdade evidenciam-se bem antes de 1 9 0 0 , tanto não encara esses elementos concomitantes da flutuação como causas, mas como produtosna literatura e na filosofia quanto na política e na economia. Isso não equivale a negar o da conjuntura, e fala enigmaticamente de "causas que são inerentes à essência da economiaimenso impacto da guerra, mas simplesmente a situá-lo em seu contexto. O sistema já capitalista". Não obstante, à parte as questões de ideologia, está claro que elas ocupamestava passando por uma dolorosa transformação, a qual, por sua vez, foi mais causa em seu esquema o mesmo lugar explicativo que têm, mutatis mutandis, nos dos outrosdo que consequência da rivalidade e do conflito internacionais. Neste ponto, en- autores que escrevem sobre o assunto.2tretanto, estamos tocando num assunto complicado e polêmico, e mais vale adiar sua Num aspecto, porém - a periodização das tendências longas -, todos estão de acordo.discussão por enquanto. Começando pelo fim do século XVIII, eles pontuariam a história econômica da era industrial mais ou menos assim: 1790-1817, inflação; 1817-50, deflação; 1 8 5 0 - 7 3 , Superficialmente, as tendências cíclicas da economia européia nesse periodo inflação; 1 8 7 3 - 9 6 , deflação; 1 8 9 6 - 19 14, inflação. (As datas exatas variam de umaafiguraram-se, para a maioria dos analistas, uma repetição das alternâncias anteriores análise para outra, mas o esquema e os pontos de demarcação aproximados continuamde contração e expansão a longo prazo. Os teóricos monetários apontaram uma os mesmos.) Além disso, a maioria concordaria quanto ao caráter cíclico dessasdiminuição da oferta de capital em relação a demanda entre 1873 e 1896, seguida flutuações. Sem dúvida, é presumível que um marxista como Kondratiev fizesse umapor um aumento acentuado do estoque de reservas, em decorrência das descobertas ressalva a isso (embora ele não a faça explicitamente), restringindo esse padrão àsde ouro na África do Sul e no Klondike.* Essa tese talvez tenha recebido sua mais economias capitalistas e sujeitando sua repetitividade à influência de mudançasplena elaboração analítica na obra de Simiand, que generalizou a experiência do século subjacentes, e de alcance ainda mais longo, no sistema total. Similarmente, o recenteXIX e construiu um modelo de tendências inflacionárias e deflacionárias longas e trabalho de Rostow sobre os estágios da industrialização parece implicar aalternadas, as primeiras caracterizadas pelo rápido crescimento quantitativo, apoiado possibilidade de que o ritmo e o caráter dessas ondas se alterem com o amadurecimentonuma base tecnológica relativamente estável (análogo ao que hoje chamamos expansão da economia. Não obstante, essas ressalvas não afetam a periodicidade aceita dodo capital), e as últimas, pelo aperfeiçoamento qualitativo (aprofundamento do capital) século XIX.e pela eliminação forçada das empresas ineficientes.1 Esse quadro me parece inexato e, em minha opinião, leva a um entendimento Opondo-se em geral a essa interpretação, há os economistas e historiadores que equivocado da relação entre o processo subjacente de industrialização e os outrosencaram o investimento como o determinante primordial e os aspectos da transformação econômica. A principal fonte de dificuldade é a ilusão de ótica produzida pelo contraste entre a explosão de crescimento da década de 1850 e a depressão da de 1870; ambas se destacam do restante e parecem introduzir uma nova * O rio canadense cujo nome passou a designar a região que foi palco de uma era, marcando um período de alta inflacionária de 1850 a 1873. Na verdade, a das mais célebres corridas do ouro, no fim do século XIX. (N. da T.) seqüência dos preços não mostra esse tipo de tendência longa. A longa deflação iniciada 240 241
  3. 3. após as guerras napoleônicas foi momentaneamente revertida pela entrada de metais nesse aspecto, as diferenças em termos de recursos materiais e instituições e as preciosos em barra e pela explosão de crédito da década de 1850. Mas a inflação não defasagens quanto ao momento do desenvolvimento foram determinantes. O durou mais do que a alta do ciclo curto. Os preços caíram em 1857 e, embora tivessem resultado foi uma variação substancial de um país para outro. altos e baixos na década e meia seguinte, a tendência foi ligeiramente descendente (no A economia a cuja carreira o curso dos preços mais se adequa é a da Grã- máximo, estável em alguns casos), com a instalação de um declínio acentuado a partir Bretanha. Isso não chega a surpreender. Primeira nação a se industrializar, ela de 18 73.3 continuou, pelo século XX adentro, a liderar o mercado internacional. Mesmo depois Em suma, o século XIX foi marcado por uma deflação prolongada e aguda, que se de ter perdido sua supremacia, na década de 1890, para os Estados Unidos e a estendeu desde 1817 até 1896, tendo apenas uma breve interrupção de uns seis ou Alemanha, em setores críticos como o ferro e o carvão, sua posição de mediadora do sete anos. Na longa história da moeda e dos preços desde a Idade Média até o presente, comércio e das finanças mundiais sustentou sua influência predominante nos preços não há nada que lhe seja semelhante - com a possível exceção de alguns declínios mais das mercadorias. brandos nas décadas que se seguiram à Peste Negra e no século XVII. Além disso, Não é minha intenção empreender, neste ponto, um exame detalhado da diversamente desses períodos anteriores, quando a queda dos preços vinculou-se a experiência britânica. Podemos simplesmente observar que os cálculos de que catástrofes, despovoamentos e depressão muito disseminada, o século XIX foi um pe- dispomos sobre suas taxas de crescimento industrial e seu aumento de produtividade - e ríodo de paz, de aumento sem precedentes da população e de rápida expansão eles são confirmados pela principal série temporal da indústria - mostram uma nítida econômica. No mais, com ou sem a conivência de reis e governos, o longo prazo é queda depois das décadas sumamente prósperas de meados do século. Eles só sempre feito de depreciação e inflação. voltaram a subir depois de 1900. De 1870 em diante, com exceção de um ramo A explicação da aberração do século XIX parece residir, precisamente, nos como a siderurgia, que foi transformada por uma série de avanços técnicosaumentos de produtividade que estimularam e possibilitaram esse crescimento fundamentais, a indústria inglesa esgotou o impulso trazido pelo grupo original deeconômico. Ao longo do século, os custos reais caíram sistematicamente, a princípio inovações que havia constituído a Revolução Industrial. Mas, esgotados esses grandessobretudo na indústria e, mais tarde após uma revolução dos transportes que abriu incrementos, as indústrias estabelecidas não ficaram paradas. A mudança estavavastos novos territórios ao cultivo comercial , também na produção de alimentos. (É a embutida no sistema e a inovação foi, no mínimo, mais freqüente do que nunca. Comsafra de avanços nesses dois setores que responde pela queda particularmente a alta do custo dos equipamentos e a queda da vantagem física sobre as técnicasacentuada dos anos de 1873-96.) Sem dúvida, haviam ocorrido aperfeiçoamentos existentes, no entanto, diminuiu o produto marginal dos aperfeiçoamentos.tecnológicos e economias de custo em épocas anteriores. Por que, então, essa deflação Essa desaceleração só foi revertida por volta da passagem do século, quando umasingularmente persistente? A resposta reside, é claro, na singularidade das inovações série de grandes avanços abriu novas áreas de investimento. Esses anos assistiram aque constituíram a Revolução Industrial; nunca houve, antes dela, um feixe de novidades vigorosa infância, senão ao nascimento, da energia e dos motores elétricos; da químicade aplicação tão generalizada e de implicações tão radicais. orgânica e dos sintéticos; do motor de combustão interna e dos dispositivos Portanto, a queda dos preços do século XIX foi uma conseqüência e um barômetro da automotores; da indústria de precisão e da produção em linhas de montagem um feixe deindustrialização européia. Desnecessário dizer que isso não implica que, por ter sido inovações que mereceu o nome de Segunda Revolução Industrial. Como essas inovaçõesmais ou menos idêntico o rumo das alterações de preços em todos os países da Europa, traziam em si a possibilidade de diminuir custos, seria concebível que sua vigorosao curso da industrialização também tenha sido o mesmo. Dadas as comunicações exploração gerasse um declino adicional dos preços - embora, dadas as condições dacomerciais e monetárias então vigentes, a sincronização das tendências dos preços era tecnologia, seu impacto relativo estivesse fadado a ser menor que o dos avanços pioneirosinevitável. Isso é da natureza do mercado. Mas os padrões e as taxas de crescimento são do século XVIII. No caso, porém, a Inglaterra não tirou pleno proveito dasoutra história. Embora a mesma comunicação internacional que deu origem à deflação oportunidades oferecidas, e o incentivo inicial fornecido aos preços pelos fluxos degeral também conduzisse a movimentos solidários na tecnologia, lingotes de ouro vindos da África do Sul (Witwatersrand, 1887), do oeste da Austrália (1887) e do 242 243
  4. 4. Klondike (1896) foi substituído e reforçado por um padrão de investimentos que gerou de minério de ferro na Lorena. Antes dessa revitalização e mesmo depois, já que aretornos lentos em bens e serviços de consumo. E então, é claro, veio a Primeira opinião é sempre variável nessas questões -, a sonolência da economia francesa evocouGuerra Mundial, trazendo consigo pressões inflacionárias que tornam impossível reiteradas advertências das Cassandras horrorizadas com a crescente defasagem entreuma comparação com o período anterior. as economias francesa e alemã. A "capacidade de crescimento" não é, em absoluto, uma Mesmo assim, esse conjunto de inovações marcou o início de uma nova subida, um invenção do debate político norte-americano contemporâneo.segundo ciclo de crescimento industrial que ainda está em andamento e cujas Ao lado das economias avançadas, certo número do que hoje chamaríamos de naçõespossibilidades tecnológicas ainda estão longe de ter-se esgotado. É nesse contexto que se "subdesenvolvidas" embarcou, durante esses anos de transição tecnológica, em suaspode compreender o debate sobre o momento do "época crítica" da Grã-Bretanha. próprias revoluções industriais. Algumas delas, como a Suécia e a Dinamarca, realizaramMudança de vida, houve. A questão é: terá ela ocorrido na década de 1870 ou na de a mudança suavemente e alcançaram rápidos aumentos da produtividade e da renda real1890? 4 A resposta, obviamente, depende do ponto de vista. O fim da grande per capita. Outras, como a Itália, a Hungria e a Rússia, assimilaram apenas parte daprosperidade após 1873 e o persistente mal-estar das décadas seguintes apontam, de fato, tecnologia moderna, e esses avanços, conquistados em pontos precisos da economia,para o ocaso da Revolução Industrial, ao passo que a articulação da década de 1890 marca demoraram a desarticular o tenaz atraso da maioria dos ramos da atividade econômica.o início de uma nova aceleração. Nesses países, além disso, a indústria respondia por uma fração tão pequena da riqueza A Alemanha proporciona um contraste impressionante. Apesar de sua capacidade, a e da renda nacional, que até os rápidos aperfeiçoamentos desse setor fizerameconomia desse país estava muito atrás da inglesa, em 1870, em termos da assimilação e relativamente pouco, a princípio, pela produção global ou pelo padrão de vida. Nãodisseminação da tecnologia da Revolução Industrial. Amplos setores da indústria ainda obstante, seu crescimento industrial foi, em geral, mais rápido nesse período que o dosestavam por ser mecanizados; a fabricação domiciliar continuava a predominar em países mais avançados, ate mesmo a Alemanha. Em parte, isso reflete uma faláciamuitos ramos; a rede ferroviária estava longe de ter sido concluída; e a escala de estatística: sua produção era tão reduzida, nesses estágios iniciais, que ate as melhoriasprodução costumava ser pequena. Assim, uma vez deixado para trás o revés de meados modestas afiguravam-se proporcionalmente grandes. Porém, reflete ainda mais ada década de 1870, a Alemanha retomou sua alta taxa de crescimento. E ainda não havia precariedade da base tecnológica desses países e o grande potencial de suas própriasesgotado esse impulso quando as novas oportunidades do fim do século deram outro revoluções industriais: o hiato entre o que eles tinham e o que poderiam fazer era muitoempurrão em sua economia. Como resultado, tem-se a impressão de uma ascensão maior do que tinha sido para os primeiros a se industrializar.5ininterrupta. Também para a Alemanha, entretanto, a década de 1890 foi um divisorde águas. O esgotamento das possibilidades tecnológicas da Revolução Industrial coincidiu A França apresenta mais um padrão diferente. Ao lado da Bélgica, ela fora a com alterações na estrutura e no tamanho do mercado que agravaram o efeitoprimeira do Continente a seguir o exemplo britânico. Mas sua taxa global de depressivo da diminuição do investimento autônomo. Nem todas essas alteraçõescrescimento industrial tinha-se tornado mais lenta, em virtude de suas décadas funcionaram na mesma direção, mas, no cômputo geral, elas contribuíram para umaprovisórias de preparação e experimentação e do desenvolvimento, dentro de seu corpo impossibilidade de a demanda se manter à altura da capacidade crescente da indústria.social, de anticorpos psicológicos e institucionais contra o vírus da modernização. "A Clientes havia, para quem soubesse encontrá-los e conquistá-los, mas era precisoFrança", escreveu Clapham, "nunca passou por uma revolução industrial." Passou, sim, procurar por eles em novos locais e cortejá-los de novas maneiras. E essa tarefamas ela foi amortecida. Os contornos do impulso que acompanhou a mudança para a não era tão simples quanto tinha sido para os industriais pioneiros da primeira metademecanização, a energia a vapor, o sistema fabril e o transporte ferroviário foram do século.suavizados, antes e depois. Após a expansão relativamente rápida do Segundo Império, A relação histórica entre a procura e a oferta no correr do século XIX não éa Terceira República foi um período de avanço outonal comedido, finalmente simples. Já assinalamos a pressão da demanda interna e externa, emacelerado pela ascensão de 1900-13, que se baseou, em parte, na nova tecnologia, e,em parte, no inicio da exploração de valiosos depósitos 244 245
  5. 5. rápido crescimento, sobre o sistema industrial da Inglaterra no século XVIII; essa pressão posta dinâmica: ali estava um comandante naval que se encarregou de zarpar com sua deu origem a pontos de estrangulamento e tensões, finalmente resolvidos por uma esquadra através do Atlântico, em tempos de guerra, a fim de roubar um pedaço do transformação dos meios e do modo de produção. Essa Revolução Industrial, por sua império espanhol para o comércio britânico. E, quando a Marinha de Sua Majestade vez, alterou radicalmente os termos do problema. De um lado, deslocou a ênfase do mostrou-se ofendida e instituiu um processo na corte marcial, Popham salvou-se consumo para o investimento: havia necessidade de capital para construir fábricas e arregimentando a comunidade mercantil britânica em sua defesa.8 realizar as potencialidades das novas técnicas. De outro, tornou os mercados Já no período de 1819-21, 2/3 dos fios de algodão produzidos na Inglaterra eram estrangeiros muito mais importantes, pois, mesmo que a taxa de poupança do país vendidos no exterior, quer diretamente, quer sob a forma de tecidos; 3/5 dos tecidos não fosse muito alta, o mercado interno seria incapaz de acompanhar o rápido aumento comercializados em jardas eram vendidos da mesma forma. Sessenta anos depois, em da produção de artigos manufaturados. 1880-2 , as proporções equivalentes foram de 84,9% e 81,6%. Os maiores aumentos De fato, a demanda interna global aumentou substancialmente em todos os países ocorreram no Oriente: em 1814, menos de um milhão de jardas de tecidos foram em- em processo de industrialização, mesmo durante o período de capitalização mais rápida. barcadas para portos a leste do Suez; em 1830, essa cifra havia aumentado para 57 Quanto aumentou, no entanto, é difícil dizer. Nesse ponto, deparamos com a questão da milhões de jardas; em 1815, para 4 1 5 milhões; e, em 1870, para 1,402 bilhão, ou cerca "miserabilização" das classes trabalhadoras, que tem despertado uma quantidade de 43% do total das exportações.9 extraordinária de debates, particulamente com respeito à experiência britânica.6 Sem dúvida, nenhum outro grande produto dependia tão maciçamente de mercados Terá o padrão de vida das classes mais pobres caído em decorrência da Revolução estrangeiros quanto o algodão. Mas quase todos os artigos manufaturados exibiam asIndustrial, digamos, durante os anos de 1780 a 1850? Seria pretensioso tentar resolver mesmas tendências: um aumento substancial do volume absoluto vendido no exterior eem poucas linhas uma questão tão complexa e emocional. As teses comumente da proporção dessas vendas na produção total. Não temos estimativas diretas daformuladas concernem ao consumo, não apenas de produtos manufaturados, mas proporção global das exportações ao longo do tempo, mas Schlote calculou a proporçãode todos os bens e serviços, e se fundamentam tanto ou mais em deduções teóricas, entre um índice das exportações de produtos acabados e um índice da produçãodogmas políticos e simpatias, quanto em dados empíricos - qualquer que seja o valor industrial (nos dois casos, 1913 = 100) que mostra uma subida de cerca de 45%, nadestes. Boa parte disso fica fora de nosso campo de interesse. O que realmente década de 1820, para quase 90% no começo da década de 1870.°nos interessa é, em primeiro lugar, que houve um aumento da demanda interna media e Essa extroversão sistemática da economia foi o principal motor da expansãoglobal de produtos manufaturados. O consumo de artigos de algodão, por exemplo, persistente, embora espasmódica, do imperialismo britânico durante todo o século. Ateelevou-se de cerca de 35.600.000 libras anuais em 1819-21 para 149.600.000 em recentemente, os estudiosos inclinavam-se a subestimar o alcance dessa expansão.1844-6 (os "famintos anos quarenta"!), dando um salto de quatro vezes num período Permitiam-se confundir os princípios e até a política incorporados no lema "Pequenaem que a população cresceu pouco menos de 1/3.7 E, se dispuséssemos de estatísticas Inglaterra" com o desempenho; e, ainda mais grave, desprezavam aquilo que, do pontocomparáveis sobre outros produtos- sobre o ferro sob a forma de bens de consumo, por de vista econômico, é a variedade mais importante e lucrativa da dominaçãoexemplo -, elas sem dúvida contariam a mesma história. imperialista - o controle sem formalidades." A verdade é que, durante esses anos, a Mesmo assim, a demanda interna não conseguiu manter-se à altura da oferta. Inglaterra não apenas anexou grandes áreas da índia, Oceania e África do Sul, comoDesde o começo, a Inglaterra teve que depender maciçamente de mercados também sua esfera de influência comercial ampliou-se enormemente, passando a abarcarultramarinos, e as interrupções das relações comerciais normais pela guerra e pelos a maior parte da América Latina, da costa da África e do sul e leste asiáticos.bloqueios, antes de 1815, e pelas tarifas protecionistas, depois disso, só fizeram com que No último terço do século, entretanto, a expansão comercial havia-seela saísse em busca de novos mercados em cantos distantes do globo. A picaresca alterado drasticamente. O monopólio cedera lugar à concorrência; a Inglaterra já não seexpedição de Popham a Buenos Aires, em 1806, é uma prova dramática das destacava sozinha como a oficina do mundo. Isso sempreansiedades comerciais e da res- 246 247
  6. 6. acontecera em relação a alguns artigos: os tecidos finos de algodão da AIsácia e da planalto de Castela e nas águas do Mediterrâneo. Politicamente, a conquista foi fonte deSuíça haviam-se equiparado aos de Lancashire desde o início do século XIX, enquanto satisfação para muitos: o sol nunca se punha sobre a bandeira britânica.os "merinos" franceses revelaram-se um rival reconhecidamente inimitável dos Economicamente, os resultados foram menos impressionantes. Já em 1870, poucoestames de Yorkshire. Mas, a partir de 1870, houve um aumento acentuado dessas restava além do refugo: os melhores mercados já tinham sido formalmente anexados ouexportações concorrentes, em particular as que vinham das nações industrializadas mais informalmente integrados na economia européia em expansão. Ainda haviajovens - Alemanha, Estados Unidos e até a Índia e o Japão. lucros por realizar na África e, especialmente, na Ásia. De fato, a parcela das Os observadores comerciais ingleses do século XIX estavam habituados a se exportações enviada para essas áreas aumentou nas décadas subseqüentes. Mas, dada aentregar a um joguinho que podemos chamar de "contar os fregueses", numa analogia pobreza desses países e suas baixas taxas de crescimento, sua demanda de produtoscom a contagem das galinhas e outros passatempos similares. Eles estimavam o número manufaturados era limitada: às vésperas da Primeira Guerra Mundial, as potênciasde pessoas de uma dada área, observavam seu consumo de produtos ingleses, em industrializadas do mundo ainda eram as melhores clientes umas das outras.comparação com os mercados mais estabelecidos, e depois calculavam o lucro que Mais ainda, eram suas próprias melhores freguesas: à medida que as potencialidadesresultaria de um possível aumento das vendas ate esse padrão hipotético. A China era dos mercados externos foram diminuindo, o mercado interno adquiriu importância cadaum alvo favorito dessas suposições. Uma população de bem mais de 300 milhões de vez maior. E com razão. Ali estavam os consumidores mais ricos do mundo, e tanto seupessoas! Se seu consumo per capita de algodão inglês pudesse elevar-se até o nível número quanto sua riqueza estavam aumentando mais depressa que os das áreas maisindiano, calculou Ellison, as vendas totalizariam £25 milhões por ano, em vez dos £5 atrasadas. De 1870 a 1910, a população da Europa elevou-se de 290 milhões para 435milhões de 1883. Nada ilustra melhor as implicações comerciais do surto de milhões de habitantes, e a das principais nações industrializadas (o Reino Unido e a Ale-industrialização de retardatários, como a Índia e o Japão, do que o que aconteceu com manha), de 72 milhões para 110 milhões, enquanto as rendas nacionais dobraram ouesses devaneios. De 1885 a 1913, as vendas inglesas de fios na China caíram de 20 triplicaram. (A França, é claro, era uma exceção: sua população ficou praticamentemilhões de libras esterlinas para 2 milhões. Em 1905 , a Índia, sozinha, vendeu ali inalterada.) Se os dias de fácil expansão comercial estavam terminados, e se era chegada200 milhões de libras.12 A cifra japonesa foi de 156 milhões em 1913. A exportação a hora de cultivar a demanda em profundidade, não havia melhor lugar paratotal de fios e linhas deste país valia bem mais do dobro da que vinha da Alemanha, e trabalhar do que em casa.cerca de 4 0 % da do Reino Unido.13 Mais importante do que o crescimento do poder global de compra foi a mudança Essa passagem do monopólio para a competição foi, provavelmente, o mais do padrão de consumo. A elevação sistemática da renda per capita, que atingia até asimportante fator isolado a dar o tom da iniciativa industrial e comercial européia. O camadas mais baixas da população, liberou somas crescentes para a aquisição decrescimento econômico passou então a ser também a luta econômica - uma luta que produtos manufaturados em vez de alimentos, de confortos materiais em vez deserviu para separar os fortes e os fracos, desencorajar alguns e endurecer outros, e gêneros de primeira necessidade.14favorecer as nações novas e ávidas à custa das antigas. O otimismo em relação a um Diversos fatores reforçaram esse processo. Antes de mais nada, depois de 1875 osfuturo de progresso infindável cedeu lugar à incerteza e a um sentimento de agonia, no preços dos gêneros alimentícios caíram em relação aos demais, como resultado dossentido clássico da palavra. Tudo isso fortaleceu e, por sua vez, foi fortalecido por fluxos maciços de grãos provenientes das grandes planícies e estepes da América dorivalidades políticas que se aguçavam, fundindo-se essas duas formas de competição no Norte e do sul da Rússia, e das importações ainda maiores de carne da Argentina e desurto final de avidez de terras e na caçada de "esferas de influência" que foram óleos e frutas de áreas tropicais e semitropicais. Foi preciso uma combinação dechamados de Novo Imperialismo. aperfeiçoamentos tecnológicos para possibilitar esse aumento e diversificação De 1876 a 1914, as potências colonialistas do mundo anexaram mais de i I milhões radicais do abastecimento de gêneros alimentícios na Europa: as ferrovias, que ligaramde milhas quadradas de território. Esse foi o ponto culminante da expansão européia regiões agrícolas interioranas ao mar; o transporte marítimo mais eficiente, queiniciada no século XI, nas planícies a leste do Elba, no levou a um aumento acentuado da capacidade e a uma queda correspondente das taxas de frete; as novas técnicas de cultivo, especialmente a lavoura 248 249
  7. 7. irrigada em planícies desérticas; e os novos métodos de conservação de alimentos, abelhas para não ter que comprar açúcar e que fazia o terno dominical durar a vida inteira,entre eles o enlatamento e a refrigeração. era capaz de comprar para si um relógio de pulso, dar um pingente de ouro à sua Essa concorrência dos produtores externos, por sua vez, provocou uma vigorosa filha, deixar seu filho visitar uma cidade de veraneio ou permitir que sua mulherresposta tecnológica de alguns setores da agricultura européia. Alguns países ou decorasse a casa.15 (Em tudo isso, a influência predominante das mulheres e criançasregiões voltaram-se para a especialização, optando pelos gêneros em que a natureza e sobre o consumo, tendência esta que persiste até hoje, foi evidente.) A longo prazo,as habilidades combinavam-se na produção de uma qualidade diferenciada, que entretanto, esse "efeito do exibicionismo" interno foi, provavelmente, o fator maisdesafiava a concorrência. A Dinamarca é o melhor exemplo disso, com seus produtos importante - mais importante do que a elevação da renda no desenvolvimento de umsuínos e seus laticínios (o separador de nata foi a inovação vital neste último mercado de consumo superior (adaptando o termo de W.W. Rostow), ou seja, de umcaso). Mas a Suíça e a França tinham seus queijos, e toda grande cidade tinha seu corpo de consumidores aptos e dispostos a comprar acima da linha daanel de hortas para fins comerciais. Ao mesmo tempo, os cultivadores obtiveram necessidade.índices de produção muito mais altos por acre em todas as lavouras, mediante o uso Mais uma vez, os processos econômicos e sociais mais amplos muito deveram àextensivo de fertilizantes, especialmente os novos tipos minerais e artificiais e as inovação tecnológica - nesse caso, à introdução de novos métodos de distribuiçãoimportações orgânicas puras, como o guano peruano (outro dividendo da revolução varejista. Foram essas as décadas que assistiram ao espetacular desenvolvimento dasnos transportes). O resultado foi o mais elevado padrão de alimentação que o lojas de departamentos e das cadeias de lojas (magazines com sucursais), com todos osmundo já havia conhecido. Pela primeira vez, o homem pôde dar-se o luxo de seus recursos associados para tentar o consumidor: preços fixos, direito de devoluçãoalimentar os animais com seu próprio sustento vital, os cereais, a fim de engordá-los gratuita das mercadorias, embalagens padronizadas, encomendas através de catálogos,para sua mesa. vitrines eficazes, liquidações periódicas e propaganda.16 E a estes convém acrescentar os Em segundo lugar, os mesmos aperfeiçoamentos dos transportes que tanto esforços dos comerciantes e industriais para aumentar o próprio mercado, cultivandocontribuíram para diminuir o custo dos gêneros alimentícios também funcionaram mudanças consonantes com a moda e firmando a reputação de marcas registradas eno sentido de reduzir o preço dos produtos manufaturados. Não só o processo de nomes comerciais.embarque tornou-se menos dispendioso, como também a criação de mercados Tudo isso foi ainda mais importante em virtude da relação entre a novarealmente nacionais conduziu à eliminação das peculiaridades locais de gosto e, com tecnologia industrial e o caráter do consumo. Como veremos, os grandes avançosisso, à economia da produção em massa. dessas décadas - aço barato, indústria de precisão, energia elétrica - possibilitaram toda Em terceiro lugar, as necessidades dos consumidores aumentaram sig- uma nova gama de bens de consumo, ou o que agora chamamos bens de consumonificativamente. Houve, para começar, o processo sistemático de urbanização, que durável: a máquina de costura, relógios baratos, bicicletas, iluminação elétrica e,apresentou a milhões de camponeses um estilo de vida mais expansivo. E esse apetite de eventualmente, eletrodomésticos. A conseqüente expansão da produção após o rápidobens materiais tampouco se restringiu apenas aos que se estabeleceram nas cidades. incremento inicial, primordialmente baseado nos bens de capital e no complexo deLenta, mas inexoravelmente, ele seduziu o homem do interior, tradicionalmente demandas associadas às ferrovias, só foi possível nesse novo tipo de mercado-não ligado àabnegado a ponto de chegar à avareza. Alguns, visitando a cidade, principalmente subsistência básica.graças às ferrovias, nunca voltaram a ser os mesmos; e alguns sentiram necessidade de O rigor da competição pelos mercados externos e a importânciaimitar os primos citadinos, fosse em nome da auto-estima, fosse para enfrentar a con- concomitantemente crescente da demanda interna levaram a uma intensa reação contracorrência de uma vida mais confortável e variada, em nome da lealdade dos filhos, a liberdade econômica, e portanto, contra a insegurança de meados do século. Anamoradas e esposas. Visto em linhas gerais, o processo foi dolorosamente lento e liberalização do comércio mal fora atingida quando a maré se inverteu. Na França, adesigual: o atraso material da maioria das propriedades rurais continua a ser um agitação contra a nova política de baixa proteção nunca desapareceu; desde o início, osproblema ainda hoje. E foi inevitavelmente errático: o mesmo camponês que representantes dos interesses indus triais deixaram o protocolo de lado e denunciaram ovendia seu queijo e comia coalho, que criava acordo com a Inglater- 250 251
  8. 8. ra como um ato arbitrário abusivo e até fraudulento. (Em certo sentido, o Império familiar, com seu apego à independência empresarial, ocupava um lugar de peso, mesmocomeçou a morrer em janeiro de 1860.) Todos os males da indústria francesa foram nos ramos industriais com elevado coeficiente de capital. Em segundo, a ênfase naimputados "ao Tratado"; todos os sucessos eram obtidos apesar dele. A campanha pelo diversidade e na diferenciação dos produtos dificultava o controle grupal. Por último, eretorno do protecionismo fortaleceu-se com a crise de 1867, obteve alguns pequenos mais importante, a indústria francesa mantinha, desde longa data, limites tácitos àsucessos nos primeiros anos da Terceira República e, finalmente, atingiu seu objetivo competição, que tinham mais ou menos a mesma eficácia dos contratos formais. Nãocom a aprovação da tarifa de Méline em 1892. Na Alemanha, a depressão da década de apenas o empresário, como também o trabalhador e, a rigor, a sociedade em geral1870 e o desejo de Bismarck de obter o apoio da nova aliança formada entre os encaravam a guerra de preços como essencialmente desleal (déloyale) e subversiva. E, dadaindustriais e os aristocratas levaram à rejeição, em 1879, da política tradicional de tarifas a situação de oligopólio abrandado que era característico de muitas indústrias umasbaixas, que havia atingido seu auge com a livre importação de ferro-gusa em 1873. A poucas empresas grandes e eficientes em meio a um enxame de firmas pequenas eItália adotou uma proteção elevada em 1887; a Áustria e a Rússia retornaram a ela em atrasadas -, esses sentimentos moralistas eram reforçados por recomendações de1874-5 e em 1877, respectivamente; a Espanha estabeleceu novas tarifas em 1877 e prudência: a competição vigorosa só poderia convidar a retaliações por parte de rivais tão1891; e assim por diante, na Europa inteira. No exterior, as tarifas de importação norte- grandes e poderosos quanto a empresa que a praticasse. Em suma, a França não precisavaamericanas tenderam a subir a cada nova lei tarifária a partir da Guerra Civil. Até na de cartéis. Chegou realmente a desenvolver alguns, em particular na fabricação de ferroInglaterra, a confiança no livre comércio ficou abalada. A interdependência comercial e aço. Mas o papel deles foi mais de conveniência do que de influência.dessas economias cada vez mais especializadas multiplicou o impacto desses aumentos; A indústria britânica viu-se numa situação confusa em matéria de integração. Emcada ação trazia suas reações, até que as tarifas alfandegárias passaram a ser estipuladas primeiro lugar, os complôs para restringir o livre comércio eram proibidos pelotanto para fins de barganha quanto de proteção. A espiral continuou subindo, com direito consuetudinário; no entanto, os cartéis remontavam a séculos antes napoucas pausas ou inversões, até que as limitações da guerra fizeram com que essas Inglaterra, e foi Adam Smith que escreveu: "As pessoas de um mesmo ramorestrições anteriores se assemelhasem à liberdade. raramente se reúnem, mesmo para o prazer e o divertimento, sem que a conversa Paralelamente a essa encapsulação dos mercados nacionais, houve esforços para acabe numa conspiração contra o público ou em algum estratagema para elevar osminizar a concorrência internacional. Os cartéis de controle dos preços e da produção - preços." Em segundo lugar, a ausência de barreiras tarifárias era um grave obstáculo àuma instituição que remontava ao século XVII ou antes (cf. a Venda de Newcastle) - fixação dos preços ou da produção num regime de conluio; entretanto, os custos decomeçaram a se multiplicar, especialmente depois de períodos de depressão, transporte ou as vantagens locais da produção serviam para proteger alguns setores,prolongada ou aguda. Caracteristicamente, eles eram encontrados em indústrias como regional ou nacionalmente, e para tornar sua integração lucrativa. Por fim, a estruturaas de carvão, ferro ou produtos químicos, onde a homogeneidade do produto facilitava a da empresa, ao contrário da que havia na Alemanha, era pouco adequada à cooperaçãoespecificação de quotas e preços, os vultosos requisitos de capital geravam importantes formal; a maioria das firmas, mesmo as que eram nominalmente sociedadeseconomias de escala, o número de empresas concorrentes era conseqüentemente anônimas, tinha um caráter privado e um comportamento independente; alémpequeno e o ingresso era difícil. Os cartéis tiveram seu número e eficiência máximos na disso, havia pouca integração vertical ou controle bancário. No entanto, tal como naAlemanha, onde a psicologia empresarial, a estrutura da indústria, as instituições legais França, havia também uma forte tendência para o tipo de acordo de cavalheiros(os cartéis podiam fazer valer seus contratos nos tribunais) e a proteção tarifária contra que torna os cartéis desnecessários.os intrusos combinaram-se, todos, para promover acordos de restrição do comércio. Com essas forças contraditórias em ação, a Inglaterra desenvolveu uma tendência Os cartéis foram menos importantes na França, por razões que podem ser branda para uma integração branda. Surgiram cartéis na metalurgia, na moagem, nadeduzidas da análise de seu sucesso na Alemanha. Em primeiro lugar, a indústria leve indústria química e na fabricação de vidro, mas eles foram menos rígidos do queera muito mais importante ali do que a pesada, e a firma seus análogos alemães, tiveram um caráter 252 253
  9. 9. menos compulsório, foram menos eficazes em épocas de contração e mostraram-se indústrias erradas, ou, quando nas certas, pelas razões erradas; muitas vezes, erammenos duradouros. Os intrusos estrangeiros sempre constituíram um problema. fundados por agentes promocionais, e não por produtores, e a supervalorização inicialAssim, a Associação Britânica de Fabricantes de Vidro, altamente eficiente, teve seus do capital onerava o desempenho posterior; a própria multiplicidade de seus membrosesforços de manutenção dos preços no mercado interno continuamente prejudicados complicava sua tarefa e, também nesse caso, a falta de proteção tarifária expunha ospela concorrência belga. As propostas de estabelecimento de um acordo internacional membros prósperos às incursões dos intrusos - o sucesso era quase tão perigoso quantoforam desconsideradas durante décadas, até que os distúrbios trabalhistas do início da o fracasso.década de 1900 convenceram os produtores belgas de que a segurança trazida pela Não é fácil isolar as conseqüências dessa nova versão comercial do movimento deunião mais do que compensava as restrições. Tal como finalmente criado, o Convênio enclosure [demarcação de terras] e a multiplicidade de outros fatores quedo Vidro para Espelhos de 1904, o mais exitoso dos cartéis internacionais do vidro, determinaram o caráter e o volume do comércio mundial; tampouco se prestam aincluiu não apenas o Reino Unido e a Bélgica, mas também a Alemanha, França, Itália, generalizações simplistas. A volta do protecionismo desestimulou algumas formas deAustro-Hungria e Holanda. Acordos similares foram negociados em campos como a intercâmbio internacional, mas serviu para estimular a rivalidade nos mercados abertos.fabricação de trilhos e o tabaco, onde, por estar o grosso da demanda no exterior, ou em Similarmente, os cartéis contribuíram para restringir a competição e estabilizar osvirtude de o valor em relação ao peso ser tão elevado que os custos de transporte não preços e a produção até certo ponto, mas seu próprio sucesso alimentou ambições queofereciam nenhuma proteção, os acordos nacionais eram ineficazes. Grosso modo, esses levaram a rupturas eventuais e a flutuações maiores do que antes. Mesmo quando oscartéis internacionais funcionavam bem enquanto havia acordo, mas mostravam pouca acordos eram mantidos, o esforço de cada um dos membros no sentido de garantirresistência à dissenção e à ruptura; sua história tem um ritmo alternado de vigência e quotas maiores amiúde estimulava um desenvolvimento mais rápido da capacidade donão-vigência. 18 que a livre concorrência teria produzido, ou do que uma política racional de À parte os cartéis, ou seja, as associações de empresas independentes, havia investimentos, baseada no retorno esperado, teria justificado. Em última análise,também vários "trustes" instituições monopolistas, ou de pretensões monopolistas, que entretanto, esses novos arranjos institucionais nos interessam como esforços paraagrupavam uma parcela considerável das empresas produtoras de determinado ramo em curar - e portanto, como indícios de - um mal-estar interno. O fato de nem semprevários graus de amalgamação. Em alguns casos, essas coalizões eram simplesmente o que terem cumprido sua finalidade não deve causar surpresa.os alemães chamam de Interessengemeinschaft:* cada participante preservava sua Qual é, pois, a significação mais ampla dessa profusão de inovações, ora mutuamenteautonomia, e a direção central era fornecida por um colegiado as vezes difícil de reforçadoras, ora contraditórias? A resposta parece residir no vívido termo de Phelps-manejar, cuja influência dependia da boa vontade das empresas-membros. A primeira Brown, "climatério" - só que aplicado não apenas à Inglaterra, mas à economia mundialEnglish Sewing-Cotton Company [Companhia Inglesa de Linhas de Algodão (1897) e como um todo, e primordialmente concebido em termos das relações das economiasa Calico Printers Association [Associação dos Estampadores de Algodão (1899) foram nacionais entre si. O que temos, em suma, é uma passagem da monarquia para adesse tipo. Outras eram verdadeiras fusões, como a União Salina de 1888, que afirmava oligarquia, de um sistema industrial uninacional para outro multinacional, ou, secontrolar 91% da produção de sal do Reino Unido, ou a Companhia Unida de Álcalis, quisermos preservar a metáfora biológica, de um organismo unicelular para um multi-formada em 1891 num derradeiro esforço dos produtores que usavam o método de celular. O fato de essa mudança de vida ter coincidido com uma transformaçãoLeblanc para se sustentarem contra a concorrência do processo de Solvay. tecnológica igualmente fundamental só fez complicar o que era, intrinsecamente, uma Os trustes foram a resposta da Inglaterra a integração e à concentração da indústria adaptação difícil - tão difícil, na verdade, que os mais decididos esforços dos homensalemã. De modo geral, uma resposta precária: surgiram nas mais sensatos não conseguiram aplacar os ressentimentos e inimizades nascidos do equilíbrio conseqüentemente alterado do poder político. Os estudiosos marxistas da história têm costumado encarar as rivalidades internacionais que precederam a *Comunidade de interesses. Em alemão no original. (N. da T.) Primeira Guerra Mundial como a derrota de um sistema em processo de declínio e dissolu- 254 255
  10. 10. ção. A verdade é que essasforam as dores de crescimento de um sistema em processo de dem-se do pequeno grupo de indústrias que se acham no cerne da revolução para ogerminação. restante do setor produtivo. Nessa situação, teremos de abandonar nossa concentração Não foi a primeira vez que a economia mundial, como sistema interatuante, passou em alguns focos selecionados de transformação. Em vez disso, tentaremos organizar ospor esse climatério. Uma crise comparável fora concomitante ao avanço da Inglaterra dados do progresso tecnológico em linhas analíticas, agrupando-os de acordo com oem direção a uma ordem industrial moderna. Também nessa ocasião, como vimos, o princípio, e não com a área de aplicação: (a) novos materiais e novas maneiras deequilíbrio do poder econômico e político tinha-se alterado drasticamente, impondo um preparar materiais antigos; (b) novas fontes de energia e força; (c) mecanização esevero desafio a todas as nações que aspiravam a participar do concerto das potências divisão do trabalho.de primeira classe. O fato de as conseqüências internacionais não terem sido tão A ordem escolhida não indica importância relativa, já que não ha maneira de avaliar odesafortunadas quanto viriam a ser durante o climatério seguinte reflete, em parte, impacto de cada um desses elementos na produtividade geral. Minha intenção é, antes,algumas consideraçõés mercadológicas: de um lado, no período anterior, a existência conciliar tanto quanto possível o esquema analítico, que em certo sentido é intemporal,de uma demanda mundial ainda inexplorada e altamente elástica de produtos com a seqüência cronológica da transformação tecnológica, de modo a que o leitor nãomanufaturados, e de outro, as oportunidades de interação frutífera entre o grande centro perca o fio da história econômica qua história. Por essa razão, o grosso do espaço seráprodutor isolado e seus rivais ainda principiantes. destinado aos tópicos (a) e (b), pois eles se prestam melhor à descrição como um Se o climatério do fim do século XIX não foi o primeiro desse sistema internacional, processo, um desenvolvimento através do tempo. Mais do que os outros, além disso,tampouco foi o último. Tanto quanto o historiador é capaz de compreender sua própria eles permitem ao historiador introduzir as questões gerais do crescimento econômicoépoca, parecemos estar agora atravessando mais uma mudança de vida, novamente comparado, que são o leitmotif deste capítulo.acarretada pelo ingresso, na disputa, de um novo grupo de nações industrializadas e emprocesso de industrialização, sendo a mais importante dentre elas a Rússia soviética. Destavez, porém, o problema da adaptação é agravado por diferenças fundamentais de estrutura NOVOS MATERIAISe organização sociais entre o velho e o novo. Na verdade, os recém-chegados estãocompetindo com as nações industrializadas mais antigas menos em termos econômicos do O tema dos novos materiais e das novas maneiras de produzir antigos materiaisque políticos, e os esforços econômicos não são direcionados para a busca da riqueza, apresenta muitas faces. Se fôssemos acompanhá-lo até seu limite, ele nos faria penetrarcom as conseqüências políticas lamentáveis que isso possa ou não implicar, mas para a em todos os ramos da indústria. A bem da economia, entretanto, vamos concentrar-busca do poder, com resultados mais provavelmente desastrosos. Aqui, uma certa nos em dois temas: a invenção e disseminação do aço barato e a transformação dareserva melancólica e ansiosa, além da prudência costumeira do historiador, desaconselha indústria química.qualquer tentativa de predição. Com esta breve alusão ao desafortunado presente, inserida apenas para completar alógica desta análise, podemos voltar-nos com alívio para os detalhes anódinos da A idade do açohistória da tecnologia. O homem é um animal denominador. Adora pespegar rótulos às coisas. E ninguém é Nas últimas décadas do século XIX, o avanço tecnológico prosseguia numa frente mais prolífico em matéria de nomenclatura do que o historiador, que não conseguetão ampla, nas indústrias mais antigas, que a tarefa do historiador fica imensamente resistir à oportunidade de designar cada setor cronológico de sua matéria por um títulocomplicada. E isso, por sua vez, contribui muito para explicar por que esse tema tem vigoroso - o Século das Luzes, a Era dos Bons Sentimentos, a Idade da Reforma -, emsido negligenciado.19 O progresso amplo, como observa Rostow, é a marca da parte por conveniência pedagógica ou heurística, em parte por um efeito proclarnatório,maturidade: as inovações básicas difun- e em parte como um substituto da compreensão. Temos, pois, a Idade do Aço. Trata-se de um dos melhores desses títulos-lemas. Se tivéssemos que destacar o traço primordial da tecnologia do 256 257
  11. 11. último terço do século XIX, ele seria a substituição do ferro pelo aço e o aumento pudlagem e da laminação acentuou essa tendência, que era fonte permanente deconcomitante do consumo de metal per capita. assombro para os visitantes oriundos de terras mais pobres. Foi o caso do É lugar-comum observar que a indústria moderna se constituiu (e, a rigor, siderurgista francês Achille Dufaud, de Fourchambault, em 1823 : "Dizem que ocontinua a ser construída, mesmo após o desenvolvimento dos plásticos e do consumo interno é de 110.000 toneladas; é uma quantidade assombrosa, mas,concreto) sobre uma estrutura de metal, particularmente o metal ferroso. Vale a quando se percorre a Inglaterra, não parece inacreditável.20 Passada apenas umapena fazermos uma pausa, entretanto, para examinar por que isso foi e é assim. A geração, em 1849, ela consumia talvez quinze vezes mais.resposta encontra-se menos nas características isoladas do metal, algumas das O aço é um tipo superior de ferro. Possui todas as vantagens acimaquais estão presentes em outros materiais, do que na combinação delas, que é atribuídas ao metal, e especialmente ao metal ferroso, em grau mais elevado.única, e da qual, até hoje, nenhum outro produto da engenhosidade humana se Quimicamente, os dois se distinguem pelo teor de carbono: ferro-gusa, 2,5-4%;aproximou. aço, 0,1% a cerca de 2%; ferro forjado, menos de 0,1%. Quanto mais alto o As vantagens mais destacadas são três: grande força em relação ao peso e ao teor carbônico, mais duro o metal; quanto menor o carbono presente, mais elevolume, plasticidade e dureza. A primeira está implícita na elasticidade do metal, é macio, maleável e dúctil. A tenacidade atinge seu auge a aproximadamente 1, 2%isto é, em sua resistência às várias formas de compressão tênsil (inclusive o tipo de carbono, na zona do aço, e depois diminui rapidamente até 3%. Comoconhecido como percussão), estiramento e vergadura ou torsão. Nem mesmo resultado, o ferro-gusa é duro, mas é também quebradiço. Não pode serum material tão notável quanto o concreto reforçado ou protendido, leve em processado sem partir, e tem que ser moldado para poder ser usado. Além disso,relação ao volume e capaz de desempenhos surpreendentes como elemento de não suporta a tensão, e por isso se presta apenas à fabricação de coisas como panelascontenção ou suporte de estruturas fixas, consegue competir com o metal de cozinha, radiadores ou blocos de motores, nas quais a compressão e a torsão sãoquando a economia de espaço e o movimento são considerações importantes. insignificantes. O ferro forjado, por outro lado, pode tornar-se tão macio que éNos primórdios da Revolução Industrial, quando as técnicas de metalurgia eram possível trabalhálo manualmente. Na Índia, os ferreiros testam seus pregosrudimentares e os artesãos empregavam voluntariamente quaisquer materiais vergando-os na testa. Pela mesma razão, entretanto, o ferro forjado ésubstitutos que se oferecessem - em especial a madeira, mas também o couro e a extremamente suscetível ao desgaste causado pelo uso, altera-se facilmente com ocorda, dependendo do uso -, as partes mais importantes das máquinas, como os impacto e oferece baixa resistência à distensão ou à vergadura. Onde o ferro-gusafusos, por exemplo, já eram de ferro. E não se passou muito tempo para que tudo, racha ou quebra, o ferro forjado cede.inclusive a armação, fosse feito dessa maneira. Nenhum material melhor para as O aço combina as vantagens de ambos. É duro, elástico e deformável. Podepeças articuladas foi descoberto desde então. ser esmerilhado até obter um gume afiado, e depois mantê-lo; nenhuma outra coisa A superioridade do ferro nessas utilizações decorre de sua força excepcional - presta-se tão bem para cortar e fresar outros metais. Sua resistência ao impacto e àmaior que a dos outros metais - e de sua plasticidade e rigidez. Ele pode ser abrasão torna-o ideal para martelos, bigornas, -limas, trilhos e outros objetos sujeitosmodelado sem perda significativa da elasticidade - martelado (maleabilidade), à percussão ou ao desgaste. Sua força, proporcionalmente ao peso e ao volume,trefilado (ductilidade), cortado, cunhado e perfurado; limado e esmerilhado; possibilita máquinas e motores mais leves, menores e, ainda assim, mais precisosfundido e moldado. E pode ser processado com precisão: nele se pode fazer um e rígidos - portanto, mais rápidos. A mesma combinação de compacidade e forçatalhe preciso, um furo uniforme, uma impressão nítida. Por fim, ele preserva faz do aço um excelente material de construção, especialmente na construção naval,bem sua forma sob o efeito do atrito e do calor: o gume continua liso e, quando onde o peso da embarcação e o espaço deixado para a carga são de importâncianecessário, afiado; os furos continuam uniformes; a impressão permanece fundamental. 21 Os metalurgistas da Antiguidade tinham conhecimento dasnítida. peculiaridades do aço. Os antigos fornos de lingotes, que faziam o ferro maleável di- Como resultado dessa íntima ligação entre os metais ferrosos e as máquinas, retamente a partir do minério, produziam uma massa de metal heterogêneoo consumo de ferro per capita sempre foi uma das medidas mais exatas daindustrialização. Já tivemos oportunidade de assinalar o precoce "temperamentoferruginoso" dos ingleses no século XVIII. A introdução da 258 259
  12. 12. cujo grau de descarbonização variava conforme a eficiência da oxidação e o contato com de combustível. Não surpreende que o aço de qualidade superior fosse um produtoo combustível. A maior parte do lingote era de ferro doce ou forjado (fer doux), mas caro, que chegava a custar várias centenas de libras esterlinas por tonelada. Na verdade,uma parte, especialmente a matéria que ficava na superfície ou próxima dela (o fe r esse era um metal vendido e usado, em quantidades mínimas, na fabricação de pequenosfort), tinha a qualidade do aço ou até do ferro-gusa. objetos de alto valor em relação ao peso, especialmente navalhas de barbear, A reação dos ferreiros primitivos era rejeitar como imprestável esse material instrumentos cirúrgicos, lâminas, tesouras, lixas e limas grossas. Mesmo o aço de bolharebelde. Com o tempo, entretanto, as virtudes do aço foram sendo reconhecidas, comum era caro demais para ser usado em quantidade: a lâmina da foice doespecialmente na produção de ferramentas de corte e armas. Em algum lugar e em camponês - quando ele podia arcar com o preço de uma foice - geralmente consistiaalgum momento do mundo antigo, os ferreiros aprenderam a produzir deliberadamente numa superfície de aço soldada sobre o núcleo de ferro. A única área em que haviao aço, em vez de aceitar o que era acidentalmente gerado na fabricação das barras. A pouca ou nenhuma parcimônia era a fabricação de armas: o homem raramente usaprincipal técnica empregada era a carbonização do ferro doce por cementação, isto é, por subterfúgios no que tange ao custo dos instrumentos da morte.sua imersão, a uma temperatura elevada, num banho sólido de matéria carbonífera; o Era essa a situação da tecnologia do aço às vésperas da Revolução Industrial. Aresultado era o que passou a ser conhecido como aço de bolha, assim chamado por primeira grande inovação nessa área, desde a invenção anônima e imemorial dacausa do empolamento característico da superfície quando a carbonização se cementação, foi a técnica do cadinho de Huntsman (1740-2), que gerou melhoras decisivascompletava. Uma alternativa, menos satisfatória, era o metodo direto de interromper o na qualidade do produto. Huntsman tomou o aço de bolha, conseguiu uma temperaturaprocesso de separação antes que o carbono fosse inteiramente eliminado pela suficientemente alta para fundi-lo em pequenos recipientes, junto com um fluxo decombustão. carbono e outros metais, retirou a película de escória e verteu-o. O resultado foi Pela natureza do processo de cementação, em que o metal quente, mas sólido, (1) um aço mais puro, pois a separação natural entre a matéria imprópria e o ferroabsorvia seu carbono de fora, o aço de bolha era de qualidade irregular, indo desde o derretido era muito mais eficaz do que jamais conseguiria ser a eliminação dasaço doce (na parte mais interna) até o ferro (na superfície). Era possível obter maior impurezas por martelamento ou compressão, e (2) um aço mais homogêneo do que seriahomogeneidade quebrando o aço de bolha em pequenos fragmentos, envolvendo-os possível obter pelo martelamento do metal sólido na bigorna (compare-se a diferençanum revestimento e martelandoos juntos sob o calor da solda, assim distribuindo mais entre bater massas moles e preparar massa de pão).igualmente o carbono pela massa e gerando o que veio a ser conhecido como aço O aço de cadinho era mais duro e resistente até do que o melhor aço cisalhado;cisalhado. As barras resultantes podiam então ser vergadas em duas, repetindo-se o pro- seu único ponto fraco era que ele não podia ser tratado com mais do que ocesso de martelamento tantas vezes quantas necessárias para obter a qualidade aquecimento ao rubro, e portanto, era difícil de usinar, especialmente com asdesejada. Na Inglaterra, um martelamento era considerado suficiente para a maioria das ferramentas do século XVIII. (Evidentemente, podia ser moldado.) Além disso, nosfinalidades, e o aço cisalhado malhado duas vezes era tido como o melhor que se primórdios do monopólio ou quase-monopólio de Huntsman, seu preço era mais altoproduzia. Na Alemanha, a habilidade artesanal foi levada mais longe, e o chamado que o do aço cisalhado, apesar da economia de mão-de-obra resultante da eliminação doviermal raf nierter Stahl * consistia em barras duras e fortes que consolidavam, em seu trabalho repetitivo de forja. Em decorrência disso, os ferreiros mostraram-se hostis, e operfil de 30 centímetros, cerca de 320 camadas separadas de aço a carvão vegetal. uso do novo metal ficou limitado aos objetos em que o preço da matéria-prima era uma Esse tipo de trabalho levava tempo: uma a duas semanas para concluir a fração desprezível do custo total - peças de relojoaria, por exemplo, e as ferramentas decementação e vários dias de trabalho de forja depois disso. Ademais, o aquecimento corte mais finas. Ele só se impôs realmente depois de 1770.e o martelamento alternados exigiam um dispêndio fabuloso Com o tempo, entretanto, a entrada de concorrentes fez o preço baixar. O efeito do monopólio pode ser avaliado, em parte, com base na experiência francesa: em 1815, o aço moldado tinha que ser importado da* Aço quatro vezes refinado. Em alemão no original. (N. da T.) 260 261
  13. 13. Inglaterra a £700 ou £ 800 por tonelada; em 1819, após a instalação de fábricas em se separasse como uma massa pastosa, em virtude de seu ponto de fusão mais elevado. O Badevel (Doubs), por Japy, e nas imediações de Saint-Etienne, por James Jackson resultado era que o aço pudlado raramente era tão homogêneo e resistente quanto o (inglês, como indica o nome), o preço foi de £140.22 Os aperfeiçoamentos da técnica aço de cadinho, ou tão duro quanto o aço cisalhado. Muitas vezes, era conduziram ao mesmo resultado. Os produtores aprenderam a trabalhar com simplesmente um substituto do aço cisalhado ou do ferro no processo do ingredientes mais baratos, a começar pelo ferro forjado, por exemplo, e ir chegando ao cadinho. Por outro lado, ele era barato - na década de 1850, era vendido na Alemanha aço através da adição de carbono em pó. Em meados do século XIX, os siderurgistas por cerca de £22 por tonelada - e podia ser produzido em grandes volumes para suecos misturavam ferro-gusa e minério de ferro com carvão vegetal e vendiam o utilizações pacíficas, como pneus, rodas, engrenagens e eixos de transmissão. O produto a £5 0 - £ 6 0 por tonelada. processo foi adotado com mais rapidez no Continente do que na Inglaterra, onde o mi- A técnica do cadinho tinha uma vantagem adicional, que abriu as portas para a nério, aparentemente, produzia um gusa impuro demais para servir de base para amoderna tecnologia do aço: ela possibilitava - de forma implícita, no início, e de forma fabricação de aço por pudlagem.24 Na França, o novo metal superou todas as outrasefetiva em meados do século XIX - a fabricação de peças grandes. Não é que fosse formas de aço em termos de importância em 1857; as cifras alemãs não permitem umapossível fazer cadinhos muito grandes: eles tinham, inicialmente, talvez 9 a 11 polegadas comparação similar (o aço pudlado e o cisalhado aparecem juntos), mas é provável que ode altura - o tamanho de um vaso - e, decorrido mais de um século (em 1860), ainda ano decisivo tenha ocorrido pelo menos com a mesma precocidade. 25atingiam uma altura de apenas cerca de 16 polegadas; é possível que contivessem 45 a 6o Na falta de coisa melhor, o aço pudlado teria sido o mais próximo do açolibras-peso, embora, ocasionalmente, se usassem tamanhos maiores. Mas eles podiam ser produzido em massa - os custos acabaram sendo comprimidos para cerca de £ 1 oaquecidos e vertidos en masse, ou melhor, em estreita sucessão; e, com o tempo, os por tonelada -, não fosse pela invenção dos processos de Bessemer e Siemens-fabricantes aprenderam a coordenar o trabalho de um pequeno exército de homens, que Martin, em suas variações ácida e básica.despejavam centenas de cadinhos, para produzir lingotes de muitas toneladas. Krupp foi o (i) Bessemer. Mais uma vez, a inspiração veio das armas. Henry Bessemerpioneiro nessa área, e seu cilindro de 2,25 toneladas foi a sensação da Exposição do (1813-1898), que não era metalurgista, mas uma espécie de experimentador de altaPalácio de Cristal; mal decorrida uma geração, em 1869, Vickers usava 672 cadinhos de classe, já abastado por sua engenhosidade e versatilidade, concebeu, no início dauma vez para fabricar peças dez vezes mais pesadas. 2 3 década de 1850, um projétil de artilharia que requeria um canhão excepcionalmente Os produtos desses tours de force destinavam-se a ser broqueados como canhões; longo e forte. O problema era produzir aço suficientemente barato para viabilizar, emao preço de £100 ou mais por tonelada, os grandes lingotes de aço de cadinho eram termos orçamentários, a produção em massa de peças tão grandes. (Até os militaresexcessivamente caros para os fins industriais comuns. Todavia, as vantagens do aço torceram o nariz diante do custo, consideradas as técnicas de aceração existentes.)sobre o ferro forjado eram patentes, e considerável dinheiro e esforço foram Bessemer encontrou uma daquelas soluções que, depois de imaginadas, surpreendemempenhados na tentativa de descobrir um método de produção de aço barato em por sua simplicidade. Em vez de refinar o ferro-gusa pela aplicação tradicional de calorgrande quantidade. na sua periferia, ele soprou ar dentro e através do metal fundido, usando o calor O primeiro passo foi o desenvolvimento do aço pudlado; a principal contribuição emitido pela própria oxidação para manter o ferro liquefeito.26 Como resultado, afoi feita no início da década de 1840 por dois técnicos alemães, Lohage e Bremme. O descarbonização era extremamente rápida: três a cinco toneladas, nos primeirosprincípio era simples: se o processo de pudlagem era capaz de separar o ferro-gusa, tempos, em dez ou vinte minutos, em contraste com talvez 24 horas para se obter umtransformando-o em ferro forjado livre de carbono, por que não interrompê-lo antes volume equivalente de aço pudlado. 27 Um conversor Bessemer em plenode sua conclusão, enquanto ainda havia carbono suficiente no metal para fabricar aço? A funcionamento praticamente entra em erupção com a súbita descarga de energia. Éexecução foi outra história. Era particularmente difícil saber quando o aço estava pronto, um pequeno inferno. Com suas chamas e suas fagulhas velozes, de tonalidademas não cozido demais, e a temperatura tinha que se manter suficientemente alta cambiante, ele é também uma das mais excitantes visões que a indústria tem apara derreter o ferro-gusa, mas baixa o bastante para permitir que o aço oferecer. 262 263
  14. 14. A conseqüente economia de mão-de-obra e de matéria-prima (Bessemer deu ao plesmente enfatizou de novo o problema do minério: o processo de Siemens-Martinartigo em que anunciou sua descoberta, em 1856, o título de "A fabricação de ferro também requeria ferro não fosfórico. Como o nome indica, a inovação foi dupla. Osem combustível") possibilitou o primeiro aço capaz de competir em termos de preço forno em si foi obra de Frederick e Wilhelm Siemens, irmãos e membros de uma famíliacom o ferro forjado - £7 (incluindo royalties de aproximadamente £1) por tonelada, alemã que ficará registrada como a mais criativa da história. (O ramo principal dacontra cerca de £4 por tonelada para o ferro. Mas a adoção foi lenta. Por um lado, os família, como veremos, foi de pioneiros nas comunicações e engenharia elétrica.) Asiderurgistas e os usuários relutavam em admitir que a maior força e durabilidade do aço originalidade do forno residia em sua utilização do princípio da regeneração, pelo qualmais do que compensavam a diferença de preço remanescente; na verdade, o próprio os gases de oxidação desperdiçados eram usados para aquecer uma estrutura faviforme deadvento do aço barato foi o bastante para mexer com os brios dos produtores de ferro tijolos refratários, a qual, por sua vez, superaquecia o ar e o combustível gasoso emforjado, estimulando-os a envidar esforços mais enérgicos. Por outro lado, o processo combustão; ao mesmo tempo, a geração do gás necessário numa câmara separadade Bessemer era cercado de dificuldades técnicas, sendo algumas o concomitante possibilitava o emprego de carvão de qualidade inferior. O resultado foi a obtençãoinevitável da inovação, e outras inerentes ao próprio processo. de temperaturas muito mais altas - o único limite imediato era a resistência do próprio A mais grave delas era a incapacidade de o conversor eliminar o fósforo, por forno - e uma economia substancial de combustível.combustão, juntamente com as outras impurezas do gusa; qualquer coisa acima de uma A contribuição potencial do princípio da regeneração não se restringiu à metalurgia;proporção diminuta desse elemento tornava o aço imprestável. Foi por mero acaso que ele foi um método eficiente de produção de calor aplicável a qualquer processo industrialBessemer usou o tipo certo de gusa puro ao inventar sua técnica. (Compare-se isso com a que consumisse energia. Sua estréia na fabricação do ferro ocorreu no forno a jato de arsorte de Darby, 150 anos antes.) Seus produtores licenciados tiveram menos sorte: mal quente de E.A. Cowper, um sócio de Siemens, em 1857; desde o início, ele produziuhaviam iniciado a produção, tiveram que parar. O contratempo surgiu, nas palavras um jato de ar de 620 °C, com isso aumentando a produção de gusa em 20%.28 Ode Bessemer, "como um raio surgido do nada". forno de revérbero concebido por Carl Wilhelm Siemens teve sua primeira utilização Recomeçou-se o trabalho com minérios de hematita, não fosfóricos. A dificuldade em 1861 , numa fábrica de cristal em Birmingham. Foram um fiasco os primeiros esforçosconsistia em que eles eram mais raros e mais dispendiosos do que o minério de ferro para usá-lo na fabricação do aço, onde, ao lado do conversor de Bessemer, ele tinha acomum. Em todo o mundo industrial, somente os Estados Unidos tinham um vantagem de conseguir derreter o gusa completamente (o forno de pudlagem produzia,suprimento suficiente: aproximadamente metade da bacia do Lago Superior era não no máximo, uma massa viscosa). O sucesso comercial só foi alcançado em 1864, quandofosfórica. A Inglaterra tinha um grande depósito de hematita na área de Cumberland- Pierre Martin introduziu sucata no banho de imersão para facilitar o processo deFurness, que floresceu em virtude disso, mas, quase que desde o começo, ela teve de descarbonização. Mesmo assim, a difusão teve que esperar até que os diferentes centrosimportar suprimentos adicionais da Espanha; os leitos de minério duro de ferro não fosfórico de produção de aço, cada qual usando suas próprias qualidades de minério, ferro e hulha,da região de Bilbao eram, provavelmente, os mais ricos da Europa. A Alemanha aprendessem por ensaio e erro a combinação de ingredientes adequada. Alguns usavamdispunha de pequenas quantidades no Siegerland, mas teve que suprir o grosso de suas uma mistura que continha mais de 50% de sucata; outros acrescentavam apenas umanecessidades a partir da Espanha e da Áustria. A França, que possuía apenas pitada de limalha de ferro; outros, ainda, usavam aço velho juntamente com o ferro, ouafloramentos dispersos de hematita na região central, teve que trazer em vez dele; o próprio Siemens usava minério de ferro. O uso efetivo da técnica dominério do Elba e da Argélia para suplementar as importações vindas da Espanha. A forno Siemens-Martin data, realmente, da década de 1870.Bélgica não tinha nada. Não surpreende que o uso da técnica de Bessemer tenha-se (3) Aço básico. Em decorrência de sua situação favorável em termos de recursosdesenvolvido devagar no Continente e que, quase uma década após sua invenção, o naturais, a Inglaterra dominou a idade inicial do aço apesar de nenhum outro país teraço pudlado continuasse a predominar. mais interesses em jogo na antiga maneira de fazer as coisas. Até o fim da década de (2) Siemens-Martin. O segundo grande avanço na fabricação de aço sim- 1870, ela respondeu por mais de metade 264 265
  15. 15. da produção dos quatro grandes países industrializados da Europa ocidental pelos sica, em lugar dos habituais tijolos siliciosos ácidos, para impedir que essaprocessos Bessemer e Siemens-Martin. Essa deficiência dos países continentais numa escória básica corroesse as paredes e tornasse a liberar fósforo dentro do metal. Eranova situação tecnológica tinha, potencialmente, importância crucial em termos uma solução simples, baseada num princípio amplamente conhecido. O sucessoeconômicos e políticos. Para a Alemanha, em particular, os grandes avanços das residiu na engenhosidade das disposições práticas – a combinação de fluxo edécadas de 1850 e 1860 foram substancialmente contrabalançados, e o novo equilíbrio revestimento básicos - e, provavelmente, não foi por coincidência que a idéia ocorreu ado poder foi questionado. Obviamente, é difícil dizer o que teria acontecido se o um amador que abordou o problema com a mente aberta.30 Nesse aspecto, Thomas éproblema do minério não tivesse sido solucionado (compare-se a questão do comparável a Bessemer, que, apesar de toda a sua experiência como inventorcombustível na Inglaterra do século XVIII). A conjuntura não fornece nenhuma pista. profissional, não era um homem do aço. Mas, enquanto Bessemer havia feito seuFica-se tentado a atribuir a gravidade da depressão da indústria siderúrgica alemã na trabalho uma geração antes, quando a química metalúrgica estava ainda em suadécada de 1870 - cinco anos no vermelho e uma queda de 19% da .produção, entre o primeira infância, Thomas solucionou um problema que durante anos havia atraído aauge e o ponto mais baixo - a razões estruturais: uma quase-inanição por falta de atenção de alguns dos engenheiros mais altamente preparados da Europa. Ele foi um dosalimento. Admite-se que o declínio foi compartilhado, embora em menor grau, pela últimos, e talvez o mais importante, da linhagem de experimentadores que fizeram aInglaterra e também pela França e a Bélgica. Ainda assim, parece sumamente Revolução Industrial. Depois dele, os profissionais praticamente tomaram conta doimprovável que a espetacular ascensão do Reich a .uma posição de preeminência terreno.econômica na Europa, no final do século, tivesse sido possível sem uma indústria A invenção do aço básico foi um evento de alcance mundial. Thomas viu-sesiderúrgica vigorosa, e é duvidoso que os siderurgistas do Ruhr pudessem cercado de ofertas; os pleiteantes nem sequer o deixavam tomar seu desjejum em paz.florescer como o fizeram, se tivessem sido forçados a ir buscar sua matéria- Conta-se a história de que duas das principais empresas siderúrgicas alemãs enviaramprima na região do Mediterrâneo e no norte da Espanha, concorrendo com os representantes a Middlesbrough numa espécie de corrida da lebre e da tartaruga: quemprodutores britânicos, já beneficiados pelos depósitos domésticos de hematita.29 A não parasse para dormir venceria. A história talvez seja apócrifa, mas transmite um poucoLorena, é claro, longe do bom carvão de coque e dependente da minette barata, mas da excitação da época. No fim, um punhado de gigantes industriais do Continentecom alto teor de fósforo, teria saído da competição com o ferro forjado e o forno de (Schneider, na França; Wendel, na Lorena alemã; e as siderúrgicas Hõrder-Verein epudlagem. Rheinische, na Alemanha) alugaram os direitos de patente por somas que, embora não A resposta foi encontrada em 1878-9 por dois ingleses: Sidney Gilchrist tenham sido tão inconseqüentes quanto pretende a tradição, foram uma esplêndidaThomas, escriturário de ofício num tribunal de policia, e seu primo Sidney Gilchrist, barganha; a maioria deles, por sua vez, sublocou-os a outros produtores. A fabricaçãoquímico numa usina de ferro galesa. Eles puseram calcário básico no ferro fundido, para comercial do aço Thomas começou no fim de 1879; em quatro anos, havia 84que se combinasse com o fósforo ácido numa escória passível de ser retirada, e conversores básicos em funcionamento na Europa ocidental e central (inclusive a Austro-revestiram o conversor com matéria bá- Hungria), com uma capacidade de 755 toneladas. A produção de 1883 totalizou mais de 6oo.ooo toneladas; compare-se isso com a produção ácida de Bessemer, que levou bem mais de uma década para atingir esse nível. 31 A adaptação do processo ao forno Siemens- TABELA 9. PRODUÇÃO DE AÇO PELOS PROCESSOS Martin teve quase a mesma rapidez. BESSEMER E SIEMENS-MARTIN (FLUSSEISEN) - (em milhares (4) Aço versus ferro forjado. Juntos, os processos de Bessemer, SiemensMartin e de toneladas) básico empurraram o custo real do aço bruto uns 80% ou 90% para baixo, entre o início da década de 1860 e meados da de 1890, e abriram os depósitos de minério 1865 1869 1873 1879 de ferro da terra a uma exploração frutífera. As conseqüências podem ser Grã-Bretanha 225 275 588 1030 acompanhadas na curva da produção, que se comporta, em sua íngreme Alemanha , 99,5 161 310 478 tendência ascendente, como a de uma França 40,6 110 151 333 Bélgica 0,65 2,9 22 111a. Inclui Luxemburgo. Novas fronteiras a partir de 1893.Fonte: Beck, Geschichte des Eisens, V, p. 233 e 308. 267 266
  16. 16. nova substância confrontada com uma demanda extremamente elástica. A produção nha, as curvas de produção só se cruzaram em 1887; na França, somente em 1894.conjunta da Inglaterra, França, Alemanha e Bélgica em 1861 - antes que o processo Essas fases amenas de retomada do crescimento e das realizações na obsolescênciaBessemer se impusesse - foi de aproximadamente 125.000 toneladas; em 1870, a são um fenômeno econômico comum: basta testemunhar os anos dourados dasprodução total talvez tenha atingido 385.000 toneladas; em 1913, importou em carruagens depois do surgimento da ferrovia, ou o desenvolvimento dos veleiros32.020.000 toneladas, ou um aumento de 83 vezes (10,8% por ano) ao longo do e das grandes escunas intercontinentais após a introdução dos navios a vapor. Elasperíodo de 43 anos. derivam de um ou mais dentre vários fatores: (1) uma resposta tecnológica Convém contrastar com isso o declínio do ferro forjado, que fora por muito criativa ao desafio do novo concorrente; (2 ) uma compressão dos custos e umatempo o sustentáculo da estrutura industrial. A princípio, a antiga forma maleável eliminação do desperdício na luta pela sobrevivência; (3 ) oportunidades decorrentes daresistiu: era mais barata e, em países como a Inglaterra, havia uma fortuna investida em demanda criada pela técnica mais eficiente (cf. o papel dos coches como alimentadoresusinas de pudlagem. Além disso, a homogeneidade dos primeiros aços bessemerizados dos troncos ferroviários nas décadas de 1830 e 1840).deixava a desejar, e mesmo a variedade produzida nos fornos de revérbero, Como vimos, o ferro forjado experimentou o primeiro desses fatores semantes de tudo mais dispendiosa, não era suficientemente boa para os usos mais sucesso. A meta revelou-se uma quimera. Dadas as vantagens qualitativas do aço, éexigentes - as grandes chapas laminadas, por exemplo. Tampouco se deve subestimar a altamente improvável que a mecanização pudesse ter feito mais do que retardar oforça da inércia e do conservadorismo nessas questões o ceticismo do Almirantado inevitável. Mais eficazes foram a racionalização geral dos métodos e a redução dosbritânico, a relutância dos ferroviários franceses em admitir que os trilhos de aço salários (compare-se com a compressão dos salários dos tecelões manuais empodiam durar mais que os de ferro, numa proporção de seis para um. Em pouco décadas anteriores), que possibilitaram uma redução dos preços a cerca da metade,tempo, entretanto, os fabricantes de aço aprenderam a corrigir as falhas de seu desde o início da década de 1870 até meados da seguinte.produto, e os aumentos de eficiência eliminaram uma fração suficiente da diferença de Quanto ao terceiro fator, o ferro forjado e o aço eram essencialmente substitutos,preços para tornar impossível a concorrência na maioria das aplicações. As ferrovias e não complementares, sobretudo após a invenção do aço básico. Sem dúvida, aforam os primeiros grandes consumidores (depois dos militares, é claro) a adotar o demanda geral de metal - de todos os metais - estava aumentando, e o efeito do açonovo metal. A mudança estava substancialmente consumada na década de 1870; foi es- barato sobre a renda pode ter redundado num certo beneficio para a antigatimulada pela razão decrescente entre os preços dos trilhos de aço e de ferro- 2,65:1 substância. No fim, entretanto, o ferro passou a ficar restrito a aplicações em que aem 1867, 1,50:1 em 1871 e 1,16:1 em 1875. 32 Em contraste, a construção naval, maleabilidade não era uma desvantagem e a resistência à corrosão era especialmenteque estabelecia padrões mais altos, sob o olhar vigilante de seguradoras como o desejável: âncoras e correntes de âncora, grades e portões ornamentais, móveis paraLloyds, só começou a aceitar aço em lugar do ferro no fim da década de 1870. Em jardim e coisas similares.1880, 38.000 toneladas de embarcações feitas de aço foram acrescentadas ao cadastro (5) Divisão internacional do trabalho e competição. Seria demasiadamente demoradodo Reino Unido, contra 487.000 toneladas feitas de ferro. Cinco anos depois, o ferro discutir em detalhe as diferentes características técnicas do aço bessemerizado eainda predominava 308.500 toneladas contra 185.000 -, especialmente na do fabricado pelo processo de Siemens-Martin, ácido e básico, e analisar asconstrução de barcos a vela, nos quais o custo inicial era uma consideração decisiva. implicações de ambos para o desenvolvimento industrial. Elas estão resumidasMais cinco anos de economia na fabricação de chapas nos fornos de revérbero, na tabela aqui apresentada. Em termos muito sucintos, o aço Bessemer era mais barato,entretanto, bastaram para virar a mesa: 913.000 toneladas de aço contra 46.000 de de qualidade mais aproximativa, e produzido em fábricas maiores e que exigiamferro em 1890 .33 maior inversão de capital; o Siemens-Martin era mais homogêneo, mais próximo das A rigor, o ponto alto da fabricação de ferro forjado só foi atingido na especificações e mais adequado à montagem feita por encomenda. O primeiro tinhaInglaterra e na França em 1882 (2.841.000 e1.073.000 toneladas, respectivamente), seu emprego mais importante nos trilhos; o segundo, nas chapas. À medida quee em 1889 na Alemanha (1.65o.ooo toneladas). Ainda em 1885, a Grã-Bretanhaproduzia mais ferro pudlado do que aço; na Alema- 268 269
  17. 17. os padrões de produção se elevaram e a construção de ferrovias foi reduzida, a tendência a longo prazo passou a ser para o aço Siemens-Martin; porém foi muito mais rápida na Inglaterra, a maior construtora mundial de navios, do que na Europor continental (Tabela 11). Parte dessa diversidade deveu-se a diferenças nos recursos naturais. A Inglaterra, com seus minérios de hematita, permaneceu fiel ao processo ácido durante muito tempo. Já os países continentais - obrigados a se concentrar na técnica básica por causa da ausência de minério de hematita e incentivados pela abundância de minério rico em fósforo, na Lorena e na Suécia - constataram que o aço de Thomas (isto é, o Bessemer básico) era especialmente recompensador. Todavia, não se deve subestimar o fator humano. Estimulados pela necessidade, os siderurgistas continentais trabalharam no processo básico com uma determinação científica: obtiveram e conservaram uma mistura adequada e produziram um metal de qualidade boa e uniforme. Os ingleses experimentaram e improvisaram, e a irregularidade de seu produto meramente confirmou as dúvidas dos consumidores, o que, por sua vez, desestimulou a experimentação e os investimentos. A situação inteira era auto-reforçadora. Por volta de 1890, os países continentais produziam mais aço básico do que ácido, enquanto este último respondeu por 92% da produção inglesa nos fornos de revérbero e por 73% de sua produção em conversores ainda em 1897.34 As proporções respectivas foram de 63% e 65% em 1913, e foi preciso haver a Primeira Guerra Mundial para afastar a Grã-Bretanha de sua fidelidade ao processo mais antigo e mais dispendioso.35 Essa especialização por tipo de processo moldou e foi moldada pelos padrões de crescimento das respectivas indústrias siderúrgicas nacionais. A Inglaterra tinha usinas relativamente pequenas; a Alemanha, grandes. Por volta da passagem do século, as maiores usinas inglesas produziam apenas o equivalente à produção das usinas vestfalianas médias. (Contraste-se isso TABELA 11. PERCENTAGEM DO AÇO PRODUZIDO PELO PROCESSO SIEMENS-MARTIN 1890 1913 1930 Grã-Bretanha 43,6 79,2 94,3 Alemanha 17,4 40,2 52,3a França 36,8 33,8 27,5 Bélgica desprezível desprezível desprezível a. Chegara a atingir 6o,6% em 1920. Fonte: T.H. Burnham e G.O. Hoskins, Iron and Steel in Britain 1870-1930, Londres 1943, p. 183270 271

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