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O juízo de
realidade e
suas
alterações (o
delírio)
Psicopatologia I
Juízo
• "Pelos juízos afirmamos a nossa relação com o mundo,
discernimos a verdade do erro, asseguramo-nos da
existência ou não de um objeto perceptível (juízo da
existência), assim como distinguimos uma qualidade de
outra qualidade (juízo de valor). Ajuizar quer dizer julgar.
Todo juízo implica certamente, um julgamento, que é em
parte subjetivo, individual, e, que, em parte, social,
produzindo historicamente, em consonância com
determinantes socioculturais". (Melo, 1979)
• Alterações de pensamento
• Juízos falsos podem ser patológicos ou não
Erro simples x Delírio
O erro origina-se da ignorância, do julgar
apressado e baseado em premissas falsas
• Ocorre erro quando:
• confusão de coisas semelhantes
• coincidências ocasionais (tabus, mitos)
• Enganos dos sentidos
• Os erros são passíveis de serem corrigidos pela
experiência
• Situações afetivas intensas ou dolorosas
impedem o indivíduo de analisar corretamente
a experiência (lógica e objetivo)
"Erros são geneticamente
compreensíveis" (Jasper)
• Podem surgir em virtude de:
• Ignorância
• Fanatismo religioso
• Fanatismo político
• Delírio: incompreensibilidade
Erros comuns (não patológicos)
• Preconceito: um ajuizamento apressado baseado em premissas
falsas; determinados grupos sociais; situação (sensação) de
superioridade.
• "Uma opinião precipitada que transforma-se em uma
prevenção" (Paim)
• Racismo
• Sexismo
• Etnocentrismo
• Classismo - preconceito de classe
• Preconceito religiosos
Erros comuns
(não
patológicos)
• Crenças culturalmente
sancionadas
• Compartilhadas por um grupo
(religioso, étnico, místico, de
jovens...)
• Superstições: o indivíduo
compartilha com um grupo social
a sua crença, mesmo que esta seja
bizarra ou absurda
Erros comuns (não patológicos)
• Ideias prevalentes
• Adquirem uma predominância enorme sobre os demais
pensamentos, e se conservam obstinadamente na mente da pessoa
• Tem sentido para o paciente
• Identificam-se plenamente com elas
• Colocam sua personalidade a serviço delas
• Catatimia (influência dos afetos) manifesta-se evidentemente
Alterações patológicas do
juízo
• Delírio: juízos patologicamentes falseados...
um erro do ajuizar. (Jaspers)
• Motivado por fatores patológicos
• três características fundamentais
1. convecção extraordinária - crença total
2. impossível a modificação pela experiência
objetiva
3. Juízo falso, conteúdo impossível.
4. É uma convicção de um só homem, o
doente produz sua própria religião, cultura
Indicadores de gravidade,
Kendler e colaboradores
(1983)
• Convicção: até que ponto está convencido
• Extensão: até onde envolve a vida
• Bizarrice: até que ponto se distanciam das
convicções culturais
• Desorganização: até que ponto são
organizadas e lógicas
• Pressão: o quanto está envolvido
• Resposta afetiva: o quanto "abalam" o
paciente
• Comportamento desviante: o quanto age em
função do delírio
Delírio primário ou ideias
delirantes verdadeiras
• "O verdadeiro delírio é um fenômeno
primário... é psicologicamente
incompreensível, não tem raízes na
experiência psíquica... é impenetrável... é
algo inteiramente novo..." (Jaspers)
• Transformação qualitativa de toda
existência do doente
Delírio secundário
ou ideias deliróides
• Alterações profundas em outras áreas da
atividade mental (afetividade,
consciência, etc), que indiretamente
fazem com que se produzam juízos falsos
• O delírio de ruína e culpa da depressão;
um aspecto, uma dimensão que o humor
depressivo toma
• Aspecto secundário o delírio de grandeza
de um episódio maníaco (defesa contra o
sentimento de inferioridade)
Delírios
simples e
complexos
• Simples: constituem-se de ideias que
se desenvolvem em torno de um só
conteúdo (por exemplo religioso ou um
tema persecutório) - "Uma mente
brilhante")
• Complexos: múltiplas facetas;
conteúdos de perseguição, místico-
religioso, de ciúmes, de
reivindicação...)
Delírios sistematizados e não
sistematizados
• Não sistematizados: sem relacionamento de ideias; variam de
momento para momento (indivíduos com baixo nível intelectual)
• Sistematizados: bem organizados, com histórias ricas e consistentes
que se mantém ao longo do tempo (indivíduos intelectualmente
desenvolvidos - O caso Schreber)
Surgimento e evolução do delírio:
estados pré delirantes
• Surgem após um humor delirante (Jaspers) ou trema (K.
Konrad)
• Aflição e ansiedade intensas, sente que algo terrível irá
acontecer, mas não sabe o que é
• Pode durar horas ou dias
• Cessa quando o paciente "configura" o delírio (quando
"descobre" o que está acontecendo - "realmente estão tramando
contra mim!")
• O paciente se acalma (diminuição da angústia) com a explicação
• Delírios agudos: surgem de forma rápida e podem desaparecer
em pouco tempo
• Delírios crônicos: persistentes, contínuos, de longa duração e
pouco modificados ao longo dos tempos
Mecanismos
constitutivos
• Diversos fatores e tipos de vivências
• Uma construção
• Tentativa de reorganização do funcionamento
mental
• Lidar com a desorganização que a doença no
fundo produz
• "Assim fala-se em mecanismo alucinatório,
interpretativo, intuitivo, imaginativo,
retrospectivo (fantasias da memória), onírico,
etc... o delírio nasce de uma multiplicidade de
fatores complexos, que involucram e
comprometem o psiquismo todo."
Formadores do delírio
• Interpretação: delírio interpretativo ou
interpretação delirante: distorção radical na
interpretação de fatos e vivências; respeita
determinada lógica, produzindo histórias
que, embora delirantes, guardam
verossimilhança
• Intuição: delírio intuitivo - ocorrência ou
intuição delirante: um novo sentido nas
coisas; totalmente convincente e
irredutível; não interpreta e conclui, não
busca provas que certifiquem a verdade, ele
simplesmente sabe
Formadores do delírio
• Imaginação, delírio imaginativo: imagina determinado episódio ou
acontecimento e a partir disto, pela interpretação, vai construindo o
delírio
• Afetividade, delírio afetivo: o indivíduo passa a viver num mundo
fortemente marcado por tal estado afetivo (catatimia). O sujeito
reorganiza o mundo e o seu com um delírio de conteúdo depressivo.
o maníaco desenvolve a partir do estado afetivo de euforia e
exaltação um delírio de grandeza coerente com esse estado
Formadores do
delírio
• Memória, delírio mnêmico (recordação
delirante): elementos verdadeiros ou falsos
que ganham uma dimensão delirante;
alucinações ou ilusões mnêmicas (criança
criada por pais milionários)
• Alteração da consciência, delírio onírico:
turvação da consciência, ricos em vivências
oníricas, com alucinações cênicas,
ansiedade intensa e certa confusão no
pensamento.
Formadores do
delírio
• Alterações sensoperceptivas, delírio alucinatório:
experiências alucinatórias ou pseudo
alucinatórias (auditivas, visuais) muito vívidas,
tão marcantes que não deixa alternativas a não
ser se integrar à experiência de vida por um
delírio
• Percepção delirante: percepção normal que
recebe imediatamente ao ato perceptivo uma
significação delirante (atribuição de um
significado delirante à percepção normal). A
percepção delirante é vivenciada como uma
revelação
Mecanismos de manutenção do delírio
Por que um delírio se estabiliza? Sims (1995):
• Inércia em mudar as ideias
• Pobreza na comunicação interpessoal, falta de contatos pessoais,
isolamento social (comum nas doenças mentais)
• Comportamento agressivo resultante do delírio persecutório
desencadeia mais rejeição, reforça o círculo vicioso de sentimentos
paranoides
• O delírio pode diminuir o respeito e consideração que as pessoas
tem pelo paciente - novas interpretações delirantes (estado
depressivo)
O conteúdo e tipos mais frequentes do delírio,
Manfredini (1959)
• Delírio de perseguição (pessoas conhecidas ou
desconhecidas) - a perseguição é o tema mais
frequentes do delírio
• Delírio de referência (alusão ou auto
referência): alvo frequente de referências
depreciativas, caluniosas. Às vezes ouve ser
xingado, ou simplesmente deduz que estão
falando dele; ocorre juntamente com a
temática da "perseguição".
O conteúdo e tipos mais frequentes
do delírio, Manfredini (1959)
• Delírio de relação: constrói conexões significativas entre os fatos
normalmente percebidos, sem uma motivação compreensível
• Delírio de influência: acredita estar sendo controlado por uma força
ou entidade externa, afirma que perdeu a capacidade de resistir a
essa força externa – fortes indicativos de esquizofrenia (Schreber)
• Delírio de grandeza: Acredita ser extremamente especial e dotado
de poderes de uma origem superior; dominado de ideias de poder e
riqueza – quadros maníacos e nas psicoses associadas (Schreber)
O conteúdo e tipos mais frequentes
do delírio
O conteúdo e tipos mais frequentes
do delírio, Manfredini (1959)
• Delírios de ciúmes ou infidelidade: percebe-se
traído pelo companheiro (a) - dependência afetiva.
O sentimento de ciúmes intenso e desproporcional
em indivíduos muito possessivos e inseguros pode,
e eventualmente, ser difícil diferenciar o delírio do
ciúmes - psicoses e alcoolismo
• Delírio erótico (erotomania): uma pessoa
(geralmente de destaque social) está apaixonado
pelo paciente, mais comum em mulheres,
geralmente o "enamorado" é uma pessoa mais rica
e mais velha (é comum acontecer na relação
médico/paciente - relação transferencial
O conteúdo e tipos mais frequentes
do delírio, Manfredini (1959)
• Delírio de ruína (niilista): indivíduo se vê num mundo cheio de
ruína e desgraça, o futuro reserva apenas sofrimentos e fracassos,
acredita estar morto ou que o mundo acabou – síndromes
depressivas
• Delírio de culpa e auto acusação: sente-se culpado por tudo de ruim
que acontece na vida das pessoas, deve ser punida pelos seus
pecados – síndromes depressivas
• Delírio de negação de órgãos: experimenta profundas alterações
corporais e nos órgãos - Delírio de Cottard: quando o delírio de
negação de órgãos vem acompanhado de delírios de imortalidade,
vivencia o corpo se expandindo - Depressões graves e esquizofrenias
O conteúdo e tipos mais
frequentes do delírio,
Manfredini (1959)
• Delírio hipocondríaco: convicção de que tem uma
doença grava ; difícil de ser diferenciado de ideias
hipocondríacas não delirantes, a diferença está na
intensidade da crença (Paciente A)
• Delírio cenestopático: individuo acredita ter animais
e/ou objetos dentro do seu corpos; baseia-se na
interpretação delirante de sensações corporais
vivenciadas pelo paciente, mas sem a temática da
doença - Esquizofrenia e transtornos delirantes
(Uma mente brilhante)
O conteúdo e tipos mais
frequentes do delírio,
Manfredini (1959)
• Delírio de infestação (Síndrome de Ekbom): acredita que a
pele ou cabelos está coberta por micro organismos, pode
ocorrer alucinações táteis - pacientes esquizofrênicos e nos
deprimidos , delirium tremens
• Delírio fantástico ou mitomaníaco: descreve histórias
fantásticas com convicção plena, sem qualquer crítica
(parafrenia demência + paranoia = parafrenia fantástica
• Mitomania: tendência patológica para mentira, mesmo
sabendo que o conteúdo é falso, seus feitos e aventuras são
falsos – transtornos de personalidade, histeria e quadros
maníacos
Ideias obsessivas x
ideias delirantes
• As ideias ou pensamentos são descritos como
ideias falsas, recorrentes, que se introduzem
de forma repetida e incomoda na consciência
do indivíduo. Reconhece tais pensamentos
como absurdos mas não consegue se livrar
deles.
• O que diferencia estas ideias com as
delirantes é que no delírio falta, de modo
geral, a crítica a falsidade e ao caráter
absurdo do juízo em questão

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  • 1. O juízo de realidade e suas alterações (o delírio) Psicopatologia I
  • 2. Juízo • "Pelos juízos afirmamos a nossa relação com o mundo, discernimos a verdade do erro, asseguramo-nos da existência ou não de um objeto perceptível (juízo da existência), assim como distinguimos uma qualidade de outra qualidade (juízo de valor). Ajuizar quer dizer julgar. Todo juízo implica certamente, um julgamento, que é em parte subjetivo, individual, e, que, em parte, social, produzindo historicamente, em consonância com determinantes socioculturais". (Melo, 1979) • Alterações de pensamento • Juízos falsos podem ser patológicos ou não
  • 3. Erro simples x Delírio O erro origina-se da ignorância, do julgar apressado e baseado em premissas falsas • Ocorre erro quando: • confusão de coisas semelhantes • coincidências ocasionais (tabus, mitos) • Enganos dos sentidos • Os erros são passíveis de serem corrigidos pela experiência • Situações afetivas intensas ou dolorosas impedem o indivíduo de analisar corretamente a experiência (lógica e objetivo)
  • 4. "Erros são geneticamente compreensíveis" (Jasper) • Podem surgir em virtude de: • Ignorância • Fanatismo religioso • Fanatismo político • Delírio: incompreensibilidade
  • 5. Erros comuns (não patológicos) • Preconceito: um ajuizamento apressado baseado em premissas falsas; determinados grupos sociais; situação (sensação) de superioridade. • "Uma opinião precipitada que transforma-se em uma prevenção" (Paim) • Racismo • Sexismo • Etnocentrismo • Classismo - preconceito de classe • Preconceito religiosos
  • 6. Erros comuns (não patológicos) • Crenças culturalmente sancionadas • Compartilhadas por um grupo (religioso, étnico, místico, de jovens...) • Superstições: o indivíduo compartilha com um grupo social a sua crença, mesmo que esta seja bizarra ou absurda
  • 7. Erros comuns (não patológicos) • Ideias prevalentes • Adquirem uma predominância enorme sobre os demais pensamentos, e se conservam obstinadamente na mente da pessoa • Tem sentido para o paciente • Identificam-se plenamente com elas • Colocam sua personalidade a serviço delas • Catatimia (influência dos afetos) manifesta-se evidentemente
  • 8. Alterações patológicas do juízo • Delírio: juízos patologicamentes falseados... um erro do ajuizar. (Jaspers) • Motivado por fatores patológicos • três características fundamentais 1. convecção extraordinária - crença total 2. impossível a modificação pela experiência objetiva 3. Juízo falso, conteúdo impossível. 4. É uma convicção de um só homem, o doente produz sua própria religião, cultura
  • 9. Indicadores de gravidade, Kendler e colaboradores (1983) • Convicção: até que ponto está convencido • Extensão: até onde envolve a vida • Bizarrice: até que ponto se distanciam das convicções culturais • Desorganização: até que ponto são organizadas e lógicas • Pressão: o quanto está envolvido • Resposta afetiva: o quanto "abalam" o paciente • Comportamento desviante: o quanto age em função do delírio
  • 10. Delírio primário ou ideias delirantes verdadeiras • "O verdadeiro delírio é um fenômeno primário... é psicologicamente incompreensível, não tem raízes na experiência psíquica... é impenetrável... é algo inteiramente novo..." (Jaspers) • Transformação qualitativa de toda existência do doente
  • 11. Delírio secundário ou ideias deliróides • Alterações profundas em outras áreas da atividade mental (afetividade, consciência, etc), que indiretamente fazem com que se produzam juízos falsos • O delírio de ruína e culpa da depressão; um aspecto, uma dimensão que o humor depressivo toma • Aspecto secundário o delírio de grandeza de um episódio maníaco (defesa contra o sentimento de inferioridade)
  • 12. Delírios simples e complexos • Simples: constituem-se de ideias que se desenvolvem em torno de um só conteúdo (por exemplo religioso ou um tema persecutório) - "Uma mente brilhante") • Complexos: múltiplas facetas; conteúdos de perseguição, místico- religioso, de ciúmes, de reivindicação...)
  • 13. Delírios sistematizados e não sistematizados • Não sistematizados: sem relacionamento de ideias; variam de momento para momento (indivíduos com baixo nível intelectual) • Sistematizados: bem organizados, com histórias ricas e consistentes que se mantém ao longo do tempo (indivíduos intelectualmente desenvolvidos - O caso Schreber)
  • 14. Surgimento e evolução do delírio: estados pré delirantes • Surgem após um humor delirante (Jaspers) ou trema (K. Konrad) • Aflição e ansiedade intensas, sente que algo terrível irá acontecer, mas não sabe o que é • Pode durar horas ou dias • Cessa quando o paciente "configura" o delírio (quando "descobre" o que está acontecendo - "realmente estão tramando contra mim!") • O paciente se acalma (diminuição da angústia) com a explicação • Delírios agudos: surgem de forma rápida e podem desaparecer em pouco tempo • Delírios crônicos: persistentes, contínuos, de longa duração e pouco modificados ao longo dos tempos
  • 15. Mecanismos constitutivos • Diversos fatores e tipos de vivências • Uma construção • Tentativa de reorganização do funcionamento mental • Lidar com a desorganização que a doença no fundo produz • "Assim fala-se em mecanismo alucinatório, interpretativo, intuitivo, imaginativo, retrospectivo (fantasias da memória), onírico, etc... o delírio nasce de uma multiplicidade de fatores complexos, que involucram e comprometem o psiquismo todo."
  • 16. Formadores do delírio • Interpretação: delírio interpretativo ou interpretação delirante: distorção radical na interpretação de fatos e vivências; respeita determinada lógica, produzindo histórias que, embora delirantes, guardam verossimilhança • Intuição: delírio intuitivo - ocorrência ou intuição delirante: um novo sentido nas coisas; totalmente convincente e irredutível; não interpreta e conclui, não busca provas que certifiquem a verdade, ele simplesmente sabe
  • 17. Formadores do delírio • Imaginação, delírio imaginativo: imagina determinado episódio ou acontecimento e a partir disto, pela interpretação, vai construindo o delírio • Afetividade, delírio afetivo: o indivíduo passa a viver num mundo fortemente marcado por tal estado afetivo (catatimia). O sujeito reorganiza o mundo e o seu com um delírio de conteúdo depressivo. o maníaco desenvolve a partir do estado afetivo de euforia e exaltação um delírio de grandeza coerente com esse estado
  • 18. Formadores do delírio • Memória, delírio mnêmico (recordação delirante): elementos verdadeiros ou falsos que ganham uma dimensão delirante; alucinações ou ilusões mnêmicas (criança criada por pais milionários) • Alteração da consciência, delírio onírico: turvação da consciência, ricos em vivências oníricas, com alucinações cênicas, ansiedade intensa e certa confusão no pensamento.
  • 19. Formadores do delírio • Alterações sensoperceptivas, delírio alucinatório: experiências alucinatórias ou pseudo alucinatórias (auditivas, visuais) muito vívidas, tão marcantes que não deixa alternativas a não ser se integrar à experiência de vida por um delírio • Percepção delirante: percepção normal que recebe imediatamente ao ato perceptivo uma significação delirante (atribuição de um significado delirante à percepção normal). A percepção delirante é vivenciada como uma revelação
  • 20. Mecanismos de manutenção do delírio Por que um delírio se estabiliza? Sims (1995): • Inércia em mudar as ideias • Pobreza na comunicação interpessoal, falta de contatos pessoais, isolamento social (comum nas doenças mentais) • Comportamento agressivo resultante do delírio persecutório desencadeia mais rejeição, reforça o círculo vicioso de sentimentos paranoides • O delírio pode diminuir o respeito e consideração que as pessoas tem pelo paciente - novas interpretações delirantes (estado depressivo)
  • 21. O conteúdo e tipos mais frequentes do delírio, Manfredini (1959) • Delírio de perseguição (pessoas conhecidas ou desconhecidas) - a perseguição é o tema mais frequentes do delírio • Delírio de referência (alusão ou auto referência): alvo frequente de referências depreciativas, caluniosas. Às vezes ouve ser xingado, ou simplesmente deduz que estão falando dele; ocorre juntamente com a temática da "perseguição".
  • 22. O conteúdo e tipos mais frequentes do delírio, Manfredini (1959) • Delírio de relação: constrói conexões significativas entre os fatos normalmente percebidos, sem uma motivação compreensível • Delírio de influência: acredita estar sendo controlado por uma força ou entidade externa, afirma que perdeu a capacidade de resistir a essa força externa – fortes indicativos de esquizofrenia (Schreber) • Delírio de grandeza: Acredita ser extremamente especial e dotado de poderes de uma origem superior; dominado de ideias de poder e riqueza – quadros maníacos e nas psicoses associadas (Schreber)
  • 23. O conteúdo e tipos mais frequentes do delírio
  • 24. O conteúdo e tipos mais frequentes do delírio, Manfredini (1959) • Delírios de ciúmes ou infidelidade: percebe-se traído pelo companheiro (a) - dependência afetiva. O sentimento de ciúmes intenso e desproporcional em indivíduos muito possessivos e inseguros pode, e eventualmente, ser difícil diferenciar o delírio do ciúmes - psicoses e alcoolismo • Delírio erótico (erotomania): uma pessoa (geralmente de destaque social) está apaixonado pelo paciente, mais comum em mulheres, geralmente o "enamorado" é uma pessoa mais rica e mais velha (é comum acontecer na relação médico/paciente - relação transferencial
  • 25. O conteúdo e tipos mais frequentes do delírio, Manfredini (1959) • Delírio de ruína (niilista): indivíduo se vê num mundo cheio de ruína e desgraça, o futuro reserva apenas sofrimentos e fracassos, acredita estar morto ou que o mundo acabou – síndromes depressivas • Delírio de culpa e auto acusação: sente-se culpado por tudo de ruim que acontece na vida das pessoas, deve ser punida pelos seus pecados – síndromes depressivas • Delírio de negação de órgãos: experimenta profundas alterações corporais e nos órgãos - Delírio de Cottard: quando o delírio de negação de órgãos vem acompanhado de delírios de imortalidade, vivencia o corpo se expandindo - Depressões graves e esquizofrenias
  • 26. O conteúdo e tipos mais frequentes do delírio, Manfredini (1959) • Delírio hipocondríaco: convicção de que tem uma doença grava ; difícil de ser diferenciado de ideias hipocondríacas não delirantes, a diferença está na intensidade da crença (Paciente A) • Delírio cenestopático: individuo acredita ter animais e/ou objetos dentro do seu corpos; baseia-se na interpretação delirante de sensações corporais vivenciadas pelo paciente, mas sem a temática da doença - Esquizofrenia e transtornos delirantes (Uma mente brilhante)
  • 27. O conteúdo e tipos mais frequentes do delírio, Manfredini (1959) • Delírio de infestação (Síndrome de Ekbom): acredita que a pele ou cabelos está coberta por micro organismos, pode ocorrer alucinações táteis - pacientes esquizofrênicos e nos deprimidos , delirium tremens • Delírio fantástico ou mitomaníaco: descreve histórias fantásticas com convicção plena, sem qualquer crítica (parafrenia demência + paranoia = parafrenia fantástica • Mitomania: tendência patológica para mentira, mesmo sabendo que o conteúdo é falso, seus feitos e aventuras são falsos – transtornos de personalidade, histeria e quadros maníacos
  • 28. Ideias obsessivas x ideias delirantes • As ideias ou pensamentos são descritos como ideias falsas, recorrentes, que se introduzem de forma repetida e incomoda na consciência do indivíduo. Reconhece tais pensamentos como absurdos mas não consegue se livrar deles. • O que diferencia estas ideias com as delirantes é que no delírio falta, de modo geral, a crítica a falsidade e ao caráter absurdo do juízo em questão