Caderno do estado 7 série

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Caderno do estado 7 série

  1. 1. 8o ANO 3o TERMO
  2. 2. Educação de Jovens e Adultos (EJA) – Mundo do Trabalho: Arte, Inglês e Língua Portuguesa: 8o ano/3o termo do Ensino Fundamental. São Paulo: Secretaria de Desenvolvimento Econômico, Ciência e Tecnologia (SDECT), 2013. il. (EJA – Mundo do Trabalho) Conteúdo: Caderno do Estudante. ISBN: 978-85-65278-57-7 (Impresso) 978-85-65278-64-5 (Digital) 1. Educação de Jovens e Adultos (EJA) – Ensino Fundamental 2. Artes – Estudo e ensino 3. Língua Inglesa – Estudo e ensino 4. Língua Portuguesa – Estudo e ensino I. Secretaria de Desenvolvimento Econômico, Ciência e Tecnologia II. Título III. Série. CDD: 372 FICHA CATALOGRÁFICA Sandra Aparecida Miquelin – CRB-8 / 6090 Tatiane Silva Massucato Arias – CRB-8 / 7262 A Secretaria de Desenvolvimento Econômico, Ciência, Tecnologia e Inovação autoriza a reprodução do conteúdo do material de sua titularidade pelas demais secretarias do país, desde que mantida a integridade da obra e dos créditos, ressaltando que direitos autorais protegidos* deverão ser diretamente negociados com seus próprios titulares, sob pena de infração aos artigos da Lei no 9.610/98. *Constituem “direitos autorais protegidos” todas e quaisquer obras de terceiros reproduzidas neste material que não estejam em domínio público nos termos do artigo 41 da Lei de Direitos Autorais. Nos Cadernos do Programa de Educação de Jovens e Adultos (EJA) – Mundo do Trabalho são indicados sites para o aprofundamento de conhecimentos, como fonte de consulta dos conteúdos apresentados e como referências bibliográficas. Todos esses endereços eletrônicos foram verificados. No entanto, como a internet é um meio dinâmico e sujeito a mudanças, a Secretaria de Desenvolvimento Econômico, Ciência, Tecnologia e Inovação não garante que os sites indicados permaneçam acessíveis ou inalterados, após a data de consulta impressa neste material.
  3. 3. Geraldo Alckmin Governador Nelson Luiz Baeta Neves Filho Secretário em exercício Maria Cristina Lopes Victorino Chefe de Gabinete Ernesto Masselani Neto Coordenador de Ensino Técnico, Tecnológico e Profissionalizante SECRETARIA DA EDUCAÇÃO Herman Voorwald Secretário Cleide Bauab Eid Bochixio Secretária Adjunta Fernando Padula Novaes Chefe de Gabinete Maria Elizabete da Costa Coordenadora de Gestão da Educação Básica SECRETARIA DE DESENVOLVIMENTO ECONÔMICO, CIÊNCIA, TECNOLOGIA E INOVAÇÃO
  4. 4. Fundação do Desenvolvimento Administrativo – Fundap Geraldo Biasoto Jr. Diretor Executivo Lais Cristina da Costa Manso Nabuco de Araújo Superintendente de Relações Institucionais e Projetos Especiais Coordenação Executiva do Projeto José Lucas Cordeiro Coordenação Técnica Impressos: Selma Venco Vídeos: Cristiane Ballerini Equipe técnica e pedagógica Ana Paula Lavos, Clélia La Laina, Dilma Fabri Marão Pichoneri, Emily Hozokawa Dias, Fernando Manzieri Heder, Lais Schalch, Liliana Rolfsen Petrilli Segnini, Maria Helena de Castro Lima, Paula Marcia Ciacco da Silva Dias, Silvia Andrade da Silva Telles e Walkiria Rigolon Autores Arte: Eloise Guazzelli e Gisa Picosque. Ciências: Gustavo Isaac Killner. Geografia: Mait Bertollo. História: Fábio Luis Barbosa dos Santos. Inglês: Eduardo Portela. Língua Portuguesa: Claudio Bazzoni. Matemática: Antonio José Lopes. Trabalho: Maria Helena de Castro Lima e Selma Venco. Fundação Carlos Alberto Vanzolini Antonio Rafael Namur Muscat Presidente da Diretoria Executiva Hugo Tsugunobu Yoshida Yoshizaki Vice-presidente da Diretoria Executiva Gestão de Tecnologias em Educação Direção da Área Guilherme Ary Plonski Coordenação Executiva do Projeto Angela Sprenger e Beatriz Scavazza Gestão do Portal Luiz Carlos Gonçalves, Sonia Akimoto e Wilder Rogério de Oliveira Gestão de Comunicação Ane do Valle Gestão Editorial Denise Blanes Equipe de Produção Assessoria pedagógica: Ghisleine Trigo Silveira Editorial: Adriana Ayami Takimoto, Airton Dantas de Araújo, Beatriz Chaves, Camila De Pieri Fernandes, Carla Fernanda Nascimento, Célia Maria Cassis, Cláudia Letícia Vendrame Santos, Gisele Gonçalves, Hugo Otávio Cruz Reis, Lívia Andersen França, Lucas Puntel Carrasco, Mainã Greeb Vicente, Patrícia Maciel Bomfim, Patrícia Pinheiro de Sant’Ana, Paulo Mendes e Tatiana Pavanelli Valsi Direitos autorais e iconografia: Aparecido Francisco, Beatriz Blay, Olívia Vieira da Silva Villa de Lima, Priscila Garofalo, Rita De Luca e Roberto Polacov Apoio à produção: Luiz Roberto Vital Pinto, Maria Regina Xavier de Brito, Valéria Aranha e Vanessa Leite Rios Projeto gráfico-editorial: R2 Editorial e Michelangelo Russo (Capa) CTP, Impressão e Acabamento Imprensa Oficial do Estado de São Paulo Secretaria de Desenvolvimento Econômico, Ciência, Tecnologia e Inovação Coordenação Geral do Projeto Juan Carlos Dans Sanchez Equipe Técnica Cibele Rodrigues Silva e João Mota Jr. Concepção do programa e elaboração de conteúdos Gestão do processo de produção editorial
  5. 5. Caro(a) estudante, É com grande satisfação que a Secretaria de Desenvolvimento Econômico, Ciência, Tecnologia e Inovação, em parceria com a Secretaria da Educação do Estado de São Paulo, apresenta os Cadernos do Estudante do Programa Educação de Jovens e Adultos (EJA) – Mundo do Trabalho, em atendimento a uma justa reivindicação dos educadores e da sociedade. A proposta é oferecer um material pedagógico de fácil compreensão, para complementar suas atuais necessidades de conhecimento. Sabemos quanto é difícil para quem trabalha ou procura um emprego se dedi- car aos estudos, principalmente quando se retorna à escola após algum tempo. O Programa nasceu da constatação de que os estudantes jovens e adultos têm experiências pessoais que devem ser consideradas no processo de aprendi- zagem em sala de aula. Trata-se de um conjunto de experiências, conhecimen- tos e convicções que se formou ao longo da vida. Dessa forma, procuramos respeitar a trajetória daqueles que apostaram na educação como o caminho para a conquista de um futuro melhor. Nos Cadernos e vídeos que fazem parte do seu material de estudo, você perceberá a nossa preocupação em estabelecer um diálogo com o universo do trabalho. Além disso, foi acrescentada ao currículo a disciplina Trabalho para tratar de questões relacionadas a esse tema. Nessa disciplina, você terá acesso a conteúdos que poderão auxiliá-lo na procura do primeiro ou de um novo emprego. Vai aprender a elaborar o seu currículo observando as diversas formas de seleção utilizadas pelas empresas. Compreenderá também os aspectos mais gerais do mundo do trabalho, como as causas do desemprego, os direitos trabalhistas e os dados relativos ao mercado de trabalho na região em que vive. Além disso, você conhecerá algumas estra- tégias que poderão ajudá-lo a abrir um negócio próprio, entre outros assuntos. Esperamos que neste Programa você conclua o Ensino Fundamental e, pos- teriormente, continue estudando e buscando conhecimentos importantes para seu desenvolvimento e para sua participação na sociedade. Afinal, o conheci- mento é o bem mais valioso que adquirimos na vida e o único que se acumula por toda a nossa existência. Bons estudos! Secretaria de Desenvolvimento Econômico, Ciência, Tecnologia e Inovação Secretaria da Educação
  6. 6. Sumário Arte..........................................................................................................................................7 Unidade 1 A materialidade nas criações artísticas 9 Unidade 2 O corpo como suporte e matéria da arte 29 Unidade 3 Matéria e materiais inusitados na arte 45 Unidade 4 @rte e tecnologia: outros modos de materialidade 63 Inglês................................................................................................................................. 75 Unit 1 Food 77 Unit 2 The origins of work 91 Unit 3 Work safety 103 Unit 4 Common work issues 113 Língua Portuguesa.........................................................................................127 Unidade 1 Sentidos dentro e fora dos textos 129 Unidade 2 Fio de histórias... 153 Unidade 3 Cartas: seus autores e seus leitores 165 Unidade 4 Pesquisando o mundo em dicionários e enciclopédias 187 Unidade 5 O que fazem os poetas com as palavras? 203
  7. 7. Língua Portuguesa Caro(a) estudante, Este Caderno de Língua Portuguesa tem o objetivo de levar você a apro- fundar seus conhecimentos nas práticas de linguagem como leitura, fala, escuta e escrita. Espera-se, desse modo, que você possa ampliar seu envolvi- mento com as palavras e ter mais confiança para se expressar e interpretar os diversos textos, nos mais variados contextos, tendo melhor participação social como cidadão. A construção de sentidos dentro e fora dos textos e a compreensão de como os autores entrelaçam ideias para ligar um trecho do texto ao trecho seguinte em composições escritas serão trabalhadas na Unidade 1. Nela, você estudará os conceitos de coerência e coesão, descobrindo por que um texto é muito mais que a soma de um conjunto de palavras e frases. Na Unidade 2, você aprofundará seus estudos sobre o conto, um gênero bastante versátil. Lembrará o que acontece com contos da tradição oral que ganham versão escrita e poderá entrar em contato com os que já “nasceram” escritos. Terá a oportunidade de ler e interpretar um conto e diversos minicontos – criações com o mínimo de palavras, mas que produ- zem enorme impacto no leitor. Logo depois, na Unidade 3, você vai escrever, ler e analisar alguns gêne- ros de cartas, bem como conhecer características, estilos, valor histórico e outras informações sobre elas, que fazem com que a correspondência, ainda hoje, exerça uma importante função na vida das pessoas. Revisando as car- tas que vai redigir, além de aprimorar a produção escrita, aprenderá tam- bém a aplicar boas estratégias para reclamar e solicitar seus direitos. Na Unidade 4, você vai ler e comparar diferentes verbetes. Nela, você verá que, quando se quer aprender algo de maneira mais formal e sistematizada, você pode pesquisar em obras de referência, como dicionários e enciclopédias, que reúnem os conhecimentos produzidos pela humanidade. Por fim, na Unidade 5, você vai ler, divertir-se, emocionar-se e aprender com os poemas – um dos modos humanos de interpretar a vida e seus sen- tidos. Vai ainda lidar com alguns recursos textuais que os poetas utilizam para expressar, em versos, as mais diversas emoções, de modo diferente do que fariam na linguagem cotidiana. Para aprender a construir sentidos nos textos desse gênero, cuidadosamente escritos para provocar reflexão, encan- tamento e emoção, será convidado a reconstruir e explorar, na leitura de poemas antigos e contemporâneos, as estratégias textuais dos poetas. Bons estudos! 8o ANO 3o TERMO
  8. 8. 1 Sentidos dentro e fora dos textos A primeira coisa importante a dizer sobre um texto é que ele é produto da intenção de alguém que o fala ou escreve. ABREU, Antônio Suárez. Texto e gramática: uma visão integrada e funcional para a leitura e a escrita. São Paulo: Melhoramentos, 2012, p. 17. (Coleção Como Eu Ensino). Nesta Unidade, você vai estudar coerência e coesão textuais em atividades de leitura e análise de textos de diferentes gêneros. Verá como os sentidos de um texto se constroem dentro e fora dele – na relação entre autor e leitor –, e como isso é importante tanto para escrever como para ler. Além disso, conhecerá diferentes estraté- gias que os autores utilizam para “costurar” as ideias em seu texto, “amarrando” um termo a outro, substituindo-o e estabelecendo rela- ções entre um trecho e os seguintes. Para iniciar... Você sabia que a palavra “texto”, em seu sentido original, tem relação com tecido, pano, estofo? Que significa obra feita de muitas partes reunidas; ou, ainda, entrançado, entrelaçado? Converse com os colegas e o professor. • O que significa afirmar que um time de futebol, de basquete ou de outro esporte coletivo é um time coeso? Times coesos são fáceis de ser derrotados? Por quê? • Ao costurar um tecido, entrelaçam-se os fios até que as partes do pano fiquem bem “ligadas”. Que cuidados, em sua opinião, deve-se ter para entrelaçar/unir as palavras em um texto? • Um roteiro de uma novela ou de um filme é construído com cortes e vínculos entre cenas e personagens da história. Quando os cor- tes são bem-feitos, é mais fácil compreender a história? Por quê? • O que você entende por “coerência”? O que, em sua opinião, significa ter uma atitude coerente? 129
  9. 9. • É possível que algumas pessoas considerem uma situação coeren- te, enquanto outras a consideram incoerente? Por quê? • Quando alguém afirma que um texto não tem coerência, o que você acha que essa pessoa quer dizer? O entrelaçamento do texto Apesar de você se deparar a todo instante com textos diversos, na escola e fora dela, definir o que é um texto não é tarefa simples. Para dizer o que ele significa, é preciso considerar uma porção de fatores. O primeiro é que texto é um objeto simbólico que sempre precisa ser interpretado. Complicado? O que significa ser “um objeto simbó- lico”? Por que sempre precisa ser interpretado? Um texto é considerado “um objeto simbólico”, porque é uma representação; ou seja, o sentido (ou os sentidos) não está(ão) só nele, mas também no que é possível desvendar por trás dele, na interpretação. Por exemplo, se você escutasse a frase “Eu adoro tomar sorvete”, qual seria sua interpretação para a palavra “sor- vete”? E na frase “Se fosse possível viver uma próxima vida, toma- ria mais sorvete e menos sopa de lentilha”? Você acha que essa pala- vra é usada com o mesmo sentido? Dizer “Se fosse possível viver uma próxima vida, tomaria mais sorvete e menos sopa de lentilha” significa mais do que manifestar uma preferência alimentar. Nesse caso, “sorvete” representa os pra- zeres da vida. Assim, embora expressem as intenções do autor, os sentidos de um texto nunca estão totalmente prontos. No caso específico de textos verbais – orais ou escritos –, o sentido dos trechos que os compõem depende do sentido dos demais com que eles se rela- cionam e do contexto em que se inserem. Contexto é tudo o que acompanha e envolve um fato ou uma situação. Desse modo, em um texto verbal, saber quem é o autor, que posição social ele ocupa, em que situação escreve, para quem, em que época, em que veículo ou instituição publica o texto, com que finalidade o criou – tudo isso – deve fazer parte da leitura. Além disso, a construção dos sentidos de um texto sempre depende da interpretação do leitor (ou ouvinte), que a faz com base em seus conhecimentos pessoais, adquiridos por meio de experiências e convívio social. 130 LínguaPortuguesa–Unidade1
  10. 10. Atividade 1 É coerente ou não? 1. Você vai ler e analisar algumas tirinhas. a) Você costuma ler tirinhas ou histórias em quadrinhos? Cos- tuma se divertir com a maneira como elas abordam os mais variados temas relacionados à vida humana? Por quê? b) O que há de particular na maneira como tirinhas e histórias em quadrinhos abordam esses temas? 2. Leia a tirinha de Fernando Gonsales e responda: a) Você achou a tirinha engraçada? Por quê? b) Você acha que a centopeia tem razão de ficar chateada por não ter ganhado o papel principal da peça? Por quê? ©FernandoGonsales/Folhapress LínguaPortuguesa–Unidade1 131
  11. 11. c) Em sua opinião, alguém que não conhecesse a figura do saci- -pererê acharia a tirinha divertida? O que essa pessoa não compreenderia? d) A tirinha pode ser interpretada de muitas maneiras? Que in- terpretações poderiam ser feitas? e) Em sua opinião, essa tirinha foi produzida com que finalidade? 3. Em Diga-me com que carro andas e te direi quem és!, Caco Galhardo (2001) criou a série 36 jeitos de ver um mosquito esmagado na parede, que apresenta 36 leituras diferentes para um mesmo acontecimento: um mosquito esmagado na parede. Conheça algumas dessas leituras. Fica a dica Para dar boas gargalhadas, você pode acessar sites ou consultar livros que trazem outras tirinhas. Aí vão algumas sugestões: GONSALES, Fernando. Níquel Náusea: Com mil demônios!! São Paulo: Devir, 2002. GONSALES, Fernando. Níquel Náusea: Vá pentear macacos! São Paulo: Devir, 2004. GONSALES, Fernando. Níquel Náusea: Em boca fechada não entra mosca. São Paulo: Devir, 2008. GONSALES, Fernando. Níquel Náusea: Minha mulher é uma galinha. São Paulo: Devir, 2008. GONSALES, Fernando. Níquel Náusea: Um tigre, dois tigres, três tigres. São Paulo: Devir, 2009. GONSALES, Fernando. Níquel Náusea – site oficial. Disponível em: <http://www2.uol.com. br/niquel/>. Acesso em: 26 out. 2012. QUINO. Toda Mafalda. São Paulo: Martins Fontes, 1991. GALHARDO, Caco. Diga-me com que carro andas e te direi quem és! São Paulo: Via Lettera, 2001, p. 27-29. ©CacoGalhardo 132 LínguaPortuguesa–Unidade1
  12. 12. Considerando que você, como leitor, constrói sentidos para o que lê, responda: a) Das leituras apresentadas, há alguma que você achou incoerente? Por quê? b) Qual leitura você faria do acontecimento “um mosquito es- magado na parede”? c) Como um professor leria esse acontecimento? d) Como você explica que um mesmo fato possa ter tantas leituras? e) Em sua opinião, com qual intenção Caco Galhardo criou a série 36 jeitos de ver um mosquito esmagado na parede? Coerência Quando se fala em coerência, é possível que a primeira ideia que venha à cabeça seja a de ligação, nexo, lógica ou harmonia entre fatos ou ideias. Para um texto ser coerente, portanto, é preciso que o leitor identifique uma interligação de ideias que se complementam. Por exem- plo, não há lógica na frase “Os salários são baixos, porque a compra de revistas não é frequente”. Mas por quê? Do modo como está escrita, a frase leva a pensar que, se fossem compradas mais revistas, os salários aumentariam, o que é incoerente. As pessoas precisam de dinheiro para comprar revistas, e, se o salário delas é baixo, o mais provável é que irão usá-lo para comprar outras coisas. Você sabia que a piada é um gênero textual muito popular e cultivado universalmente? Já no século XVII, circulavam pela Europa tratados sobre o ridículo – que, em termos etimológicos, significa “risível”, “jocoso”, “absurdo”, “extravagante”. Em geral, a piada apresenta temas estereotipados e proibidos (politicamente incorretos). Na verdade, é só quando os temas controversos se tornam populares e passam a ser discutidos com frequência que as piadas começam a aparecer. As piadas são textos comumente curtos, com diálogo e jogos de linguagem. Sua principal característica é a quebra da expectativa do leitor e a reação provocada por esse fato. Por isso, elas exigem conhecimento do tema de que tratam, bem como agudeza por parte do ouvinte ou do leitor, pois a piada perde a graça quando precisa ser explicada. O mesmo acontece com as tirinhas. LínguaPortuguesa–Unidade1 133
  13. 13. É importante perceber que a coerência não depende apenas do que está escrito no texto, mas também dos conhecimentos do leitor que vai interpretá-lo. Nesse sentido, coerência tem estreita relação com interpretação, embora o que você vá interpretar também dependa das pistas que lhe são dadas, no texto, pelo autor. Na leitura da tirinha de Fernando Gonsales que você estudou na Atividade 1, por exemplo, só entende a expressão facial e o “silêncio” da baratinha no último quadro quem conhece a figura do saci-pererê. Então, para construir um sentido, cada leitor ajusta o texto ao conhecimento de que dispõe. Atividade 2 Mais coerência... 1. Em dupla, encontrem o trecho no bloco 2 que dá continuidade coerente a cada texto do bloco 1. Bloco 1 a) “Olha a quantidade de propaganda de vitamina que você vê na televisão. [...]” (Drauzio Varella, médico). CAROS Amigos. As grandes entrevistas de Caros Amigos, n. 2. São Paulo: Casa Amarela, 2001, p. 22. b) “Eu sei que agora pode parecer sonho defender as etnias. Que estamos em um mundo universalizado, não existem nem os países, não há fronteiras, elas são informatizadas. Na Europa, na Ásia, na África... Eu auguro uma mundialização no bom sentido das palavras. [...]” (Dom Pedro Casaldáliga, bispo da Igreja Católica). CAROS Amigos. As grandes entrevistas de Caros Amigos, n. 2. São Paulo: Casa Amarela, 2001, p. 45. c) “Isso é uma crítica que eu faço. Acho que a imprensa con- tribui para esse quadro de violência fortemente. [...]” (Caco Barcellos, jornalista). CAROS Amigos. As grandes entrevistas de Caros Amigos, n. 2. São Paulo: Casa Amarela: 2001, p. 18. d) “Aquele foi talvez o momento de maior aprendizado que tive na vida. [...]” (Sócrates, ex-jogador de futebol). CAROS Amigos, São Paulo, ano IV, n. 45, p. 35, dez. 2000. e) “Eu estou aqui dentro de uma revista atípica, mas a gente sabe que o jornalismo é uma forma de ficção que tem suas regras próprias, não é? [...]” (Augusto Boal, ex-diretor de teatro). CAROS Amigos, São Paulo, ano IV, n. 48, p. 32, mar. 2001. Augurar Desejar. 134 LínguaPortuguesa–Unidade1
  14. 14. Bloco 2 ( ) “[...] Porque nunca, até agora, a humanidade se sentiu de fato una, com todas as desgraças, tensões e diferenças. Acre- dito que a gente possa cada vez mais se sentir parte da mes- ma humanidade, sabendo também aceitar as diferenças das culturas. Se passarmos por cima das diferenças das culturas, vamos ter uma humanidade sem alma.” ( ) “[...] Claro que você tem de hierarquizar responsabilidades, não sei quem é o maior responsável, chutaria primeiro o empresa- riado, os concentradores de renda. Mas acho que a imprensa vem logo ali atrás. Justiça, eu acho que é devedora: a renda de 97 por cento da população carcerária brasileira é de dois salários-mínimos. Que justiça é essa, não é? Eu quero culpar só a Justiça? Claro que não. Ela é a ponta.” ( ) “[...] Uma mesma notícia, se você põe na primeira página em letras garrafais, ganha uma importância extraordinária; mas, se você põe em letras minúsculas na sétima página, ela vira uma banalidade. Então, o jornalismo fabrica e a gente sabe que o jornalismo no Brasil é possuído por algumas poucas famílias, e essas poucas famílias dizem o que é bom e o que é ruim.” ( ) “[...] Porque essa é a vantagem do esporte, te coloca junto com outras realidades sociais. Antes disso, não, porque no colé- gio particular todo mundo está no mesmo nível, mas, quando fui para o Botafogo com 15 anos, comecei a conviver com aquilo de que só tinha ouvido falar: fome, desemprego, des- nutrição. E muito proximamente, porque sempre estava muito junto das pessoas.” ( ) “[...] Tudo isso é só marketing, mais nada, não há nenhuma evi- dência científica – respeitados os limites da desnutrição, lógico –, nenhum estudo mostrando que você consegue melhorar seu nível de saúde com vitaminas, ou prevenir qualquer doença.” 2. O que você e seu colega observaram nos textos que permitiu a vocês encontrar os trechos correspondentes? LínguaPortuguesa–Unidade1 135
  15. 15. Atividade 3 Conexões perigosas 1. Leia, a seguir, um dos sentidos da palavra “coerência”: Relação lógica e harmônica entre ideias, atos, situações etc. [...] © iDicionário Aulete: <www.aulete.com.br>. Verifique em quais das frases a seguir está faltando coerência. Assi- nale-as. a) Os salários são baixos, porque a compra de revistas não é frequente. b) Meu time de futebol jogou muito mal ontem, mas perdeu o jogo. c) Estabelecer o que é beleza tem proporcionado, no decorrer da história, mais controvérsias do que consenso. d) A leitura exige um esforço de concentração que os programas de TV não exigem, por isso é mais fácil ler do que assistir à TV. e) No mundo do consumo, os comerciais de TV por si sós não garantem o sucesso de venda de produtos, pois cada vez mais são utilizados pelos anunciantes. 2. Agora, reescreva as frases que você assinalou, fazendo as alterações que julgar necessárias, para torná-las coerentes. 136 LínguaPortuguesa–Unidade1
  16. 16. Atividade 4 Hora da incoerência 1. Leia a Carta à Ana Elvira e responda às questões propostas. Querida Ana Ervilha Hoje cedo vi lágrimas nos seus alhos. Que couve? Algum pepino? Me conte, andaram falando abobrinhas na tua segurelha? Ou foi aquela velha escarola da Betty Rabs que disse que você engordou? Que quiabos! Você não melancia uma coisa dessas! E, além disso, veja quem fala: você não vê que ela é meio acelga? Olhe, tenho um remédio que é batata nes- ses casos. Diga àquela distinta cenoura que você é feliz como é e mande-a às favas! Não a deixe ganhar essa bertalha tão fácil, ela merece uma surra de chicória! Tomate que você melhore logo! Quero ver o sorriso voltar às suas alfaces! Se pre- cisar de alguém para ajudá-la a descascar mais algum abacaxi, conte cominho. Sua amiga do coração (de alcachofra), Horta Alice PAMPLONA, Rosane. Histórias de dar água na boca. São Paulo: Moderna, 2008, p. 34. (ênfases adicionadas) a) Você achou a carta engraçada? Por quê? LínguaPortuguesa–Unidade1 137
  17. 17. b) O que pode ser considerado incoerente nela? c) Algumas das palavras destacadas fazem parte de expressões que você usa no dia a dia? Se sim, quais? d) Em sua opinião, como o leitor da Carta à Ana Elvira conse- gue perceber o que se pretende dizer nos trechos em que há termos destacados? e) Com que intenção você acha que essa carta foi escrita? Você ainda diria que ela é incoerente? 2. Que relações é possível estabelecer entre a Carta à Ana Elvira e a obra Verão, de Giuseppe Arcimboldo, na página seguinte? 138 LínguaPortuguesa–Unidade1
  18. 18. Giuseppe Arcimboldo. Verão, 1573. Óleo sobre tela, 76 cm × 64 cm. Museu do Louvre, Paris, França. ©ErichLessing/Album/Latinstock LínguaPortuguesa–Unidade1 139
  19. 19. Quando Maria percebeu, o jovem João se aproximava, e fo- ram caminhando juntos. Ele a acompanhou até que ela chegou ao trabalho para mais um dia de labuta. Coesão Você já viu que a palavra “texto” tem relação com tecido, com entrelaçamento. Viu também que, sempre que tentamos construir sentidos para o que lemos, ouvimos e vemos, é preciso recorrer aos nossos conhecimentos. Agora, você vai compreender como acontece o encadeamento (a amarração) e a estruturação dos termos que com- põem o texto: a coesão textual. Coesão relaciona-se com união, com ideias amarradas ou ligadas. Para que esse processo ocorra, é preciso observar duas coisas: a maneira como em um texto um termo liga-se a outro, substituindo-o, retomando-o, ou antecipando-o, e o modo como as ideias progridem no texto. Observe o exemplo: Da maneira como está escrita, a frase dá poucas pistas ao leitor. Quem acompanhou? Quem chegou ao trabalho para mais um dia de labuta? Sem que apareçam os termos a que “ele”, “a” e “ela” se referem, não há como saber quem são os envolvidos na situação. Repare agora: Ele a acompanhou até que ela chegou ao trabalho para mais um dia de labuta. Agora, com o parágrafo completo, ficou fácil saber a que nomes as palavras destacadas estavam ligadas, ou seja, que palavras substituíam. “Ele” refere-se ao “jovem João”; “a” e “ela” evitam a repetição de “Maria”. A noção de coesão demonstra que algumas vezes, para inter- pretar um termo no texto, você precisa pressupor outro. Atividade 5 Identificando estratégias de coesão I 1. Leia o fragmento de texto abaixo e localize os quatro argumentos que aparecem. Registre-os no quadro da próxima página e diga o que há em comum na apresentação desses argumentos. VARELLA, Drauzio. Médico de família. Drauzio Varella.com.br. Disponível em: <http://drauziovarella.com.br/ wiki-saude/medico-de-familia/>. Acesso em: 26 out. 2012. (ênfases adicionadas) [...] esse tipo de médico [médico de família] foi extinto por várias razões. Pri- meiro, porque desapareceram as famílias numerosas de antigamente que se reuniam em torno do patriarca para o cafezinho na sala com o doutor. Segundo, porque as cidades pacatas nas quais ele se movimentava não existem mais. Terceiro, porque os honorários recebidos por um médico daquele tempo eram suficientes para uma vida confortável, sem precisar de três ou quatro empregos. E, acima de tudo, porque médico de família era privilégio de poucos. [...] 140 LínguaPortuguesa–Unidade1
  20. 20. Argumentos O que há em comum na apresentação deles 2. Qual dos quatro argumentos apresentados é o mais importante para o autor? Justifique sua resposta. LínguaPortuguesa–Unidade1 141
  21. 21. Estratégias de coesão Há algumas estratégias de coesão que podem ser utilizadas na hora de escrever um texto e que também são importantes para a interpretação. Em Ainda há tempo?, é possível observar algumas delas e descobrir a lógica por trás de seu uso. Leia o fragmento a seguir, para depois discutir o que o autor fez para tornar esse texto coeso. São Paulo, nov./dez. 2007 Ainda há tempo? AINDA há tempo? In: O Estado de S. Paulo. Amazônia. Grandes Reportagens. São Paulo, nov./dez. 2007. (cores e quadros adicionados) O Estado de S. Paulo – Amazônia. Grandes Reportagens Exótica e esplendorosa, mas tratada com ambiguidade e distanciamento, a Amazônia pode ser salva, mas antes é preciso conhecê-la Ainda é possível salvar a Amazônia? Há tempos, essa pergunta desafia as consciências brasileiras sem que para ela, ao longo dos anos e dos governos, o Estado tenha formulado uma resposta confiável e definitiva. A Amazônia tem sido mais conhecida pelas ameaças que pairam sobre ela. As notícias sobre essa exótica e esplendorosa região estão quase sempre associadas à devastação da floresta, à contaminação das águas, à extinção da biodiversidade, à degradação dos seus habitantes nativos. Repete-se sempre a especulação de que o Brasil não teria competência para geri-la. Essa sequência de notícias ruins tem funda- mentos reais. O Brasil tem tratado com ambiguidade e distanciamento o maior tesouro biológico do planeta , que lhe pertence. [...] O distanciamento que nos separa da Amazônia faz com que a região seja, ao mesmo tempo, ambígua fonte de orgulho e de aborrecimento, deslumbra- mento e estranhamento, atração e repulsa. Mas não há como negar a pre- sença dela em nossa vida. Quando um paulista bebe um copo d’água, garante a ciência, está bebendo água amazônica. O regime de chuvas do Sul-Sudeste depende da umidade produzida pela floresta e exportada pelos “rios voadores”. Para salvar a Amazônia é preciso conhecê-la. Com seu mistério e sua importância vital, ela é um irresistível objeto de interesse e curiosidade. [...] 142 LínguaPortuguesa–Unidade1
  22. 22. Estratégia 1 – Retomada ou antecipação de termos Repare que as palavras em verde retomam termos, expressões ou frases: • essa pergunta, ela à Ainda é possível salvar a Amazônia? • que à o maior tesouro biológico do planeta • lhe à Brasil • dela à a região • -la, seu, sua, ela à a Amazônia É muito comum que os pronomes esse(s), essa(s), este(s), esta(s), aquele(s), aquela(s), aquilo, que, o(s) qual(ais), a(s) qual(ais), onde, cujo(s), cuja(s), o(s), a(s), -lo(s), -la(s), -no(s), -na(s), lhe(s), meu(s), minha(s), seu(s), sua(s), nosso(s), nossa(s) etc., os advérbios e as expressões adverbiais a seguir, assim, desse modo, acima, abaixo etc. retomem termos já expressos no texto. Também é possível que o item coesivo apareça antes do termo ou frase que substitui. Por exemplo: “O sonho mais lindo que tenho é este: que ninguém passe fome no mundo”. Esse tipo de coesão é chamada coesão por antecipação. Estratégia 2 – Uso de expressões substitutas Repare que as palavras em laranja substituem termos ou expressões: • exótica e esplendorosa região, o maior tesouro biológico do planeta, a região à Amazônia Observação: é muito comum que os autores utilizem palavras ou expressões que têm sentido mais abrangente ao substituírem termos que já foram mencionados. Veja algumas possibilidades: Específico Genérico Amazônia região índios povos nativos planaltos, depressões, montanhas, terrenos alagados e de terra firme, rios de todos os tamanhos, águas de cores variadas, algumas ácidas, outras alcalinas, florestas úmidas, florestas secas, savanas, pântanos e manguezais ecossistemas muito diferenciados O caminho inverso também é possível. Uma palavra ou expressão genérica pode ser substituída por um termo com sentido específico: Genérico Específico forças armadas, exército brasileiro soldados fauna amazônica onça-pintada, jaguatirica, anta, capivara etc. Estratégia 3 – Termo oculto que pode ser subentendido Repare na frase: “está bebendo água amazônica”. Quem está bebendo? Nesse caso, a coesão ocorre por conta da relação quem faz a ação/verbo. É possível saber no texto quem realiza a ação, mesmo que esse sujeito não esteja escrito. Pelo contexto da frase, sabe-se que é “um paulista”. Estratégia 4 – Uso dos conectivos Observe que as palavras em azul fazem progredir o texto, permitindo que o fluxo de ideias continue e que as frases fiquem articuladas. • “Há tempos” e “quando” são marcadores temporais, que se articulam perfeitamente com a ideia anterior • O “mas” cria um sentido de quebra de expectativa Observação: nem sempre é necessário usar conectivos para estabelecer coesão ou ligação de ideias. A frase “O regime de chuvas do Sul-Sudeste depende da umidade produzida pela floresta e exportada pelos ‘rios voadores’.” tem conexão com a ideia anterior. Em vez de usar o conectivo “pois”, o autor preferiu usar ponto [.]. O ponto não interrompe o fluxo de ideias. A conexão se mantém, ela só não é explícita. Os sinais de pontuação e os marcadores temporais, entre outros, são também formas de garantir a coesão textual. LínguaPortuguesa–Unidade1 143
  23. 23. Atividade 6 Identificando estratégias de coesão II 1. Leia o texto a seguir, procurando identificar as estratégias de coesão usadas pelo autor. Em seguida, responda às perguntas propostas. Você sabia que alguns termos podem ser usados em mais de uma estratégia? Dependendo do contexto em que a frase é inserida, muda a função que alguns termos desempenham. Na frase “Eles se encontraram e só assim puderam conversar”, o termo “assim” retoma o encontro entre os personagens, funcionando como estratégia de retomada. Já na frase “A menina sentiu que não havia aventura em sua vida. Assim, decidiu viajar mundo afora”, o termo destacado serve para ligar as duas sentenças, estabelecendo entre elas uma conclusão; nesse caso, trata-se da estratégia de uso dos conectivos. A biodiversidade brasileira é de uma grandeza impressionante. Estimativas de pesquisadores revelam que o País possui entre 15% e 20% de toda a biodiversidade mundial e abriga o maior número de espécies endêmicas (aquelas que não são encontradas em nenhum outro lugar). A variedade da fauna e flora é tão grande que inviabiliza o levantamento preciso do número de espécies existentes. Calcula-se que sejam em número de 2 milhões dos quais apenas 10% do total já foram identificadas. O ecólogo Thomas Lewinsohn, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), coordenador do maior levantamento sobre biodiversidade feito no Brasil, reconhece que há uma “cratera gigantesca de informação”, atribuída justamente à enorme variedade de espécies. Essa riqueza confere ao Brasil uma posição entre os dezessete países considerados megadiversos – ou seja, que abrigam 70% das espécies de ani- mais e vegetais catalogadas no mundo. Porém, apesar de tamanha abundância e da certeza de que muitas espécies existentes nem sequer foram inven- tariadas, as atividades humanas vêm ameaçando a manutenção da biodi- versidade. A União Internacional para Conservação da Natureza (IUCN)[ *] estima que, em todo o mundo, de uma a duas espécies de plantas são extintas por dia, enquanto a taxa de extinção dos animais varia de 50 a 250 espécies por dia. A extinção da fauna Segundo dados de inventários, a fauna brasileira catalogada abrange 524 espécies de mamíferos, 517 anfí- bios, 1 677 aves, 468 répteis, sendo muitos desses animais endêmicos. Eles estão distribuídos pelos diver- sos ecossistemas dos biomas brasileiros – Amazônia, Caatinga, Cerrado, Mata Atlântica, Pantanal e Pampa – e parte está em perigo de extinção. Fatores como o desmatamento, a caça e o trá- fico de animais silvestres, a poluição ambiental e a invasão por espécies exóticas (espécies que não ocorrem originalmente em um local) alteram drasticamente a paisagem e as relações ecológicas estabelecidas originalmente nos ecossistemas. Nestas condições, a população animal enfrenta dificuldade para obter alimento, reproduzir-se, des- locar-se e conseguir abrigo, e sua sobre- vivência fica comprometida. Quem sai perdendo Em princípio, todo ser vivo tem direito à existência, e a extinção de espé- cies contraria esse direito. Pensando sob o ponto de vista dos benefícios que a natureza proporciona aos seres huma- nos, a manutenção dos ecossistemas e de seus processos ecológicos preserva fontes de alimento, de espécies medici- nais, combustível e matéria-prima para a fabricação de produtos; permite man- ter a qualidade da água e do ar, regula o clima, previne a erosão do solo e oferece áreas para lazer, entre outras coisas. A perda da biodiversidade, portanto, dimi- nui a qualidade de vida dos seres huma- nos. [...] São Paulo, dez. 2008/jan. 2009 Alerta geral Carta Fundamental Entenda por que mais de 600 animais da fauna brasileira correm risco de desaparecer do nosso mapa [ *] IUCN é a sigla em inglês para International Union for Conservation of Nature [nota do editor]. NAZÁRIO, Nina. Alerta geral. Carta Fundamental, p. 28-9, dez. 2008/jan. 2009. (ênfases adicionadas) 144 LínguaPortuguesa–Unidade1
  24. 24. a) Quantas vezes a palavra “biodiversidade” aparece no texto? Por que, em sua opinião, essa palavra aparece tantas vezes? b) Localize e grife no texto as palavras sinônimas ou que têm aproximadamente o mesmo significado de biodiversidade. c) No primeiro parágrafo, aparece o pronome “aquelas”. Que termo esse pronome está substituindo? d) Ainda no primeiro parágrafo, há o pronome “dos quais”. Que termo esse pronome está substituindo? e) Identifique no texto as expressões que mostram que a grande quantidade de espécies é a causa da lacuna de informações sobre a biodiversidade brasileira. f) O segundo parágrafo começa da seguinte maneira: “Essa riqueza confere ao Brasil [...]”. De que riqueza se trata? LínguaPortuguesa–Unidade1 145
  25. 25. g) O quarto parágrafo começa com o pronome “eles”. Que ter- mo esse pronome está substituindo? h) Que fatores alteram drasticamente a paisagem e as relações ecológicas estabelecidas nos ecossistemas? i) Que definição de espécies endêmicas o texto apresenta? E de espécies exóticas? j) A autora usou parênteses para apresentar as definições de “espécies endêmicas” e “espécies exóticas”. Estabeleça a coe- são entre termo e definição, mas escrevendo de outra maneira. Escolha, para cada caso, uma expressão explicativa: “ou seja”, “isto é”, “quer dizer” ou “em outras palavras”. 2. O texto a seguir apresenta, de maneira bem resumida, algumas etapas da evolução das formas de comunicação utilizadas pelo ser humano. Leia os fragmentos e grife os termos e as expressões que retomam, substituem ou antecipam o que está sublinhado. 146 LínguaPortuguesa–Unidade1
  26. 26. [...] 3800 a.C. – Desenhos livres Enquanto o homem não sabia falar do jeito como fazemos hoje, valia fazer desenhos em cavernas a partir de pigmentos de argila, hematita e carvão vegetal. A motivação das pinturas não era clara, mas certamente elas transmitiam conhecimento. 3200 a.C. – Primeiras letras Os sumérios criaram alfabetos formados por figuras que representam objetos do cotidiano. Com a siste- matização desse tipo de desenho, os fenícios tam- bém desenvolveram um modelo de escrita. Acabava a Pré-história, e a comunicação começava a evoluir bem mais rápido. 3000 a.C. – Telégrafo de fogo Surgia o sinal de fumaça, uma maneira de infor- mar à distância. Indígenas americanos foram os pri- meiros a usar os sinais, que seguiam um princípio depois adotado nos telégrafos: um cobertor abafava o fogo e soltava a fumaça em intervalos regulares. 2900 a.C. – Voe depressa! Começava a ser usada uma das formas de se enviar dados mais resistentes ao tempo: o transporte de mensagens com pombos-correios. Os registros mais antigos datavam do Egito de Ramsés II, mas até 2002 as aves ainda eram usadas pela polícia indiana. 550 a.C. – Cartas a galope O tataravô do correio atual nasceu com Ciro II, rei da Pérsia, que desenvolveu um sistema de postos de parada para os homens que levavam cartas a cavalo. Essa estrutura permitia que uma correspondência viajasse 2 500 quilômetros com segurança. 1455 – Livros em série Para a mídia surgir e facilitar o acesso à informação, foi necessário que Johannes Gutenberg melhorasse a impressão, que existia havia 14 séculos na China. Sua sacada foi criar uma forma com letras independentes. 1837 – Contatos imediatos O americano Samuel Morse (1791-1872) criava o telégrafo. Ele queria um jeito de trocar mensagens que o governo americano não entendesse. Em 1835, ele tinha inventado o Código Morse, que seria funda- mental para a navegação e a aviação. 1876 – Fala que eu escuto O escocês Alexander Graham Bell (1847-1922) patenteava nos Estados Unidos seu aparelho de tele- fone. Há quem diga que o italiano Antonio Meucci (1808-1889) teria desenvolvido seu protótipo antes, mas foi Bell que o popularizou. 1893 – Ondas sonoras Aparecia o rádio, atribuído ao italiano Guglielmo Marconi (1874-1937). No futuro, o croata Nikola Tesla (1856-1943) ganharia o crédito, porque a invenção de Marconi usava 19 patentes suas. Os pri- meiros aparelhos transmitiam Código Morse. A emis- são de voz só começaria em 1918. 1929 – Imagens na sala O cientista russo Vladimir Zworykin (1889-1982) apresentava o kinoscópio, o precursor da televisão. Vários desenvolvimentos posteriores do aparelho de Zworykin levariam à industrialização e disseminação da TV, acelerada a partir de 1945. 1960 – Balão espacial Lançado pelos Estados Unidos, o primeiro saté- lite refletia sinais enviados a partir da Terra. Bati- zado de Echo 1, o aparelho consistia em um balão de náilon de 30 metros de diâmetro, visível a olho nu em vários pontos do globo. 1994 – Todo mundo online O governo americano liberava a circulação da World Wide Web, uma versão civil do sistema de troca de informações entre as redes de computadores militares. Em 1995, a internet já tinha 16 milhões de usuários. Atualmente, são 1,5 bilhão. Guia do Estudante Da pedra à internet Aventuras na história para viajar no tempo O desenvolvimento da comunicação começou devagar Fred Linardi 24/08/2009 6h41 LINARDI, Fred. Da pedra à internet. Aventuras na história para viajar no tempo. Guia do Estudante. Disponível em: <http://guiadoestudante. abril.com.br/estudar/historia/pedra-internet-493922.shtml>. Acesso em: 26 out. 2012. (grifos adicionados) LínguaPortuguesa–Unidade1 147
  27. 27. Atividade 7 Coesão em contos 1. Leia o conto a seguir e responda às questões propostas. Era uma vez, numa distante cidade do Ocidente, uma jovem chamada Fátima. Ela era filha de um próspero fiandeiro. Um dia seu pai lhe disse: “Venha, filha, partiremos em viagem, pois tenho negócios nas ilhas do Medi- terrâneo. Talvez você encontre um jovem bonito e de boa condição financeira que possa tomar como marido”. Eles partiram e viajaram de ilha em ilha; o pai realizava seus negócios enquanto Fátima sonhava com o marido que logo seria seu. Um dia, no entanto, a caminho de Creta, desabou uma tempestade, e o barco naufra- gou. Fátima, semiconsciente, foi lançada à costa perto de Alexandria. Seu pai estava morto, e ela, completamente desamparada. Tinha apenas uma vaga lembrança da sua vida até aquele momento, pois a experiência do naufrágio e o tempo que ficou no mar a levaram à exaustão. Estava caminhando pelas areias, quando uma família de tecelões a encon- trou. Embora fossem pobres, levaram-na para sua humilde casa e lhe ensinaram seu ofício. Foi assim que construiu para si uma segunda vida e, em um ou dois anos, estava feliz e reconciliada com sua sorte. Mas um dia, quando, por alguma razão, estava na praia, um bando de mercadores de escravos desembarcou e a levou, junto com outros nativos. Embora Fátima tenha lamentado amargamente seu destino, não desper- tou compaixão nos seus captores, que a levaram para Istambul e a venderam como escrava. Seu mundo ruiu pela segunda vez. Acontece que, naquele dia, havia poucos compradores no mercado. Um deles era um homem que procurava escra- vos para trabalhar na sua marcenaria, onde construía mastros para embarcações. Ao ver a tristeza da desafortunada Fátima, decidiu comprá-la, pensando que assim, pelo menos, poderia dar a ela uma vida um pouco melhor do que se fosse comprada por outra pessoa. O homem levou Fátima para sua casa com a intenção de fazer dela uma criada para sua esposa. Ao chegar à sua casa, contudo, soube que tinha per- dido todo o seu dinheiro num carregamento que fora capturado por piratas. Como não podia mais ter empregados, ele, Fátima e sua mulher arcaram sozi- nhos com o árduo trabalho de fabricar mastros. Fátima, agradecida a seu patrão por tê-la salvado, trabalhava tanto e tão bem que ele lhe concedeu a liberdade, e ela passou a ser sua ajudante de con- fiança. E foi assim que ela ficou razoavelmente feliz na sua terceira profissão. Um dia seu patrão lhe disse: “Fátima, quero que você acompanhe um car- regamento de mastros até Java como minha representante e se assegure de realizar uma boa venda”. A fiandeira Fátima e a tenda 148 LínguaPortuguesa–Unidade1
  28. 28. Ela partiu, mas, quando o navio estava na altura da costa da China, um tufão o fez naufragar, e Fátima se viu novamente jogada na praia de uma terra estrangeira. Mais uma vez chorou amargamente, pois sentiu que nada na sua vida estava funcionando de acordo com suas expectativas. Sempre que as coisas pareciam estar indo bem, algo acontecia e destruía todas as suas esperanças. “Por que será que, sempre que tento fazer algo, isso se transforma em pesar? Por que tantas desgraças têm de acontecer comigo?”, exclamou pela terceira vez. Mas não houve resposta. Então, levantou-se da areia e cami- nhou, afastando-se da praia. Acontece que, na China, ninguém tinha ouvido falar de Fátima nem conhecia seus problemas. Mas havia a lenda de que um dia chegaria ali uma mulher estrangeira que seria capaz de construir uma tenda para o impera- dor. E, já que não havia, até agora, ninguém na China que construísse tendas, todos aguardavam o cumprimento dessa profecia com grande expectativa. Para ter certeza de que essa estrangeira, quando chegasse, não passaria despercebida, sucessivos imperadores da China mantiveram o costume de enviar mensageiros uma vez por ano a todas as cidades e povoados, pedindo que qualquer mulher estrangeira fosse conduzida à corte. Foi numa dessas ocasiões que Fátima chegou cambaleando a uma cidade costeira da China. O povo falou com ela por meio de um intérprete e lhe explicou que teria de ser levada até o imperador. “Senhora”, disse o imperador quando Fátima foi trazida à sua presença, “sabe fazer uma tenda?”. “Acho que sim”, disse Fátima. Ela pediu cordas, mas não havia nenhuma disponível. Então, lem- brando-se dos seus tempos de fiandeira, juntou fibras de linho e fez as cordas. Depois, pediu um tecido grosso e resistente, mas os chineses não tinham nenhum do tipo de que ela precisava. Contando com sua experiên- cia com os tecelões de Alexandria, confeccionou uma certa quantidade de um tecido resistente. Então, percebeu que precisava de estacas, mas não havia nenhuma na China. Assim, Fátima, lembrando-se de como fora trei- nada pelo marceneiro de Istambul, construiu com destreza estacas firmes. Quando estavam prontas, ela puxou de novo pela memória, procurando se lembrar de todas as tendas que tinha visto nas suas viagens. E vejam só! Uma tenda foi erguida. Quando essa maravilha foi apresentada ao imperador da China, ele ofere- ceu a Fátima a realização de qualquer desejo seu. Ela escolheu se estabelecer na China, onde se casou com um belo príncipe e permaneceu feliz, rodeada por seus filhos, até o fim dos seus dias. Foi por meio dessas aventuras que Fátima compreendeu que aquilo que em dado momento lhe pareceu ser uma experiência desagradável acabou se revelando uma parte essencial da sua felicidade definitiva. FIANDEIRA Fátima e a tenda, A. In: SHAH, Idries. Histórias dos dervixes. Rio de Janeiro: Roça Nova, 2010, p. 69-72. (cores adicionadas) LínguaPortuguesa–Unidade1 149
  29. 29. a) Você gostou do conto? O que, em sua opinião, ele quer ensinar? b) As palavras que aparecem coloridas são relativas à personagem principal, Fátima. Ao longo do texto, há muitas outras que não foram destacadas. Escolha dois personagens para destacar a cadeia coesiva. Use cores diferentes para cada personagem. c) Destaque no conto as expressões que indicam tempo e ajudam o leitor a perceber a ordem e a sequência dos fatos da história. d) Faça a lista dos lugares pelos quais Fátima passou. Todos esses lugares são importantes para o desdobramento da his- tória? Por quê? 2. Agora, você vai recontar o conto que leu. Junte-se a um colega para, em primeiro lugar, contarem oralmente o conto. Depois, sem consultar o texto, o reescrevam no caderno. 3. Ainda em dupla, observem as estratégias de coesão que vocês usa- ram ao reescrever o conto A fiandeira Fátima e a tenda. Reparem se não há muita repetição de palavras, se algumas podem ser cortadas do texto ou substituídas por pronomes, sinônimos ou expressões de sentido mais abrangente. Reescrevam os trechos nos quais acharem necessário aplicar as estratégias de coesão que aprenderam. 150 LínguaPortuguesa–Unidade1
  30. 30. Atividade 8 Coesão na produção escrita Converse com os colegas e o professor sobre a seguinte questão: Observar os recursos coesivos é útil apenas para a leitura de textos ou é importante considerá-los também na hora de escrever? Registre as conclusões da turma. Nesta Unidade, você estudou o que são coerência e coesão. Aprendeu que a coerência diz respeito à relação entre as ideias dentro e fora do texto, e que ela também depende da interpreta- ção do leitor ou ouvinte. Viu ainda que a coesão ocorre no texto por meio do entrelaçamento de palavras, frases, parágrafos, im- pedindo que as ideias fiquem soltas ou desconectadas. Ao longo da Unidade, você percebeu que a coesão pode ser feita de várias maneiras: retomando palavras, omitindo-as, substituindo-as por termos sinônimos ou expressões mais abrangentes que corres- pondam aos termos de referência. Você estudou LínguaPortuguesa–Unidade1 151
  31. 31. Pense sobre Em se tratando de textos escritos, sempre se aponta a coerência das ideias como uma qualidade indispensável. Você saberia explicar de maneira clara em que consiste essa coerência e como se pode con- segui-la? Em sua opinião, apenas o uso de elementos coesivos é deci- sivo para que o texto fique coerente? 152 LínguaPortuguesa–Unidade1
  32. 32. Fio de histórias... Tenho a impressão de que tudo pode mesmo acontecer em matéria de contos, ou melhor, no interior deles. ANDRADE, Carlos Drummond de. Estes contos. In: ____. Contos plausíveis. São Paulo: Companhia das Letras, 2012. Carlos Drummond de Andrade © Graña Drummond. <http://www.carlosdrummond.com.br>. Nesta Unidade, você vai retomar seus estudos sobre contos, pro- duzindo seu próprio conto, oralmente e por escrito, e discutindo as diferenças entre esses dois modos de contar uma história. Será con- vidado a ler e interpretar um conto contemporâneo, que já nasceu como um texto escrito, e perceber suas singularidades. Além disso, vai conhecer um gênero narrativo, produzido a partir dos anos 1960, que tenta, com poucas palavras, atingir o máximo de expressividade e provocar grande impacto em quem o lê: o miniconto. Poderá também experimentar ser um “minicontista”. Para iniciar... Converse com os colegas e o professor. • O que você sabe sobre contos? E sobre minicontos? Já ouviu falar deles? Em sua opinião, como seriam? • Você se lembra de ter lido recentemente algum conto? Recorda-se do autor dele? Do enredo? Do personagem principal? • Você conhece algum autor brasileiro que escreva contos? • Você costuma frequentar bibliotecas ou salas de leitura para ler contos ou outros textos literários? • Você acha que a leitura de textos literários abre horizontes inte- lectuais e aguça a sensibilidade? Por quê? • Em sua opinião, os textos literários possibilitam conhecer com mais profundidade o homem e a sociedade? Como? Por quê? O conto No Caderno do 7o ano/2o termo desta disciplina, você estu- dou as origens do conto, leu e analisou contos antigos de épocas remotas, nascidos na tradição oral. Conheceu também uma das 2 153
  33. 33. possíveis definições desse gênero – um tipo de narrativa ficcional que apresenta uma sucessão de acontecimentos vivenciados por pou- cos personagens e contados por um narrador. Agora, nesta Unidade, você vai trabalhar com contos que já nas- ceram com formatação escrita e autoria, de modo geral, bem definida. Antes, porém, é importante falar um pouco de contos da tradição oral que ganharam versão escrita. Contar oralmente, contar por escrito Contos populares são histórias transmitidas por meio da lingua- gem oral. Muitos dos contos populares contados e recontados aqui, no Brasil, são adaptações de narrativas que vieram da Europa e da África, que, por sua vez, segundo estudiosos, eram narrativas pro- venientes da literatura hindu. Além do conto, “causo” ou conto fol- clórico, a literatura oral – que existe em todos os países e culturas – reúne uma série de manifestações conservadas e transmitidas por meio da palavra falada ou cantada: lendas, mitos, adivinhações, provérbios, parlendas, cantos, orações, frases feitas. Mas é importante perceber que contar uma história oralmente é dife- rente de contar uma história por escrito. Um contador que tem contato direto com o público pode fazer uso da entonação da voz para imprimir maior ou menor dramaticidade, contando a história em um ritmo que considere adequado, fazendo gestos e expressões faciais que cativem o público. Como manter vivas, no entanto, em um registro escrito, essas marcas de oralidade que os contadores imprimem a seus textos? Vale lembrar que o contador-escritor, quando escreve um conto, não tem contato direto com o público que vai lê-lo. Mas é claro que ele pode imprimir expressividade ao texto. Pode, por exemplo, repro- duzir as falas dos personagens (lançando mão do discurso direto), usando com cuidado e precisão os verbos de dizer (os verbos que introduzem os diálogos) e os sinais de pontuação. Outra diferença é que um conto oral pode ser adaptado no momento em que é narrado. Se o contador quiser, ele pode impro- visar frases que julgar adequadas ao contexto, por exemplo. Já um conto escrito não pode sofrer adaptações a cada vez que for lido, para se adequar à época, à cultura e ao povo de cada lugar. Um conto da tradição oral ou qualquer uma das manifestações transmitidas oral- mente, quando ganha registro escrito, passa, de modo inevitável, por um processo de transformação. 154 LínguaPortuguesa–Unidade2
  34. 34. Atividade 1 Contar e escrever um conto Pense em uma história que você conheça. Conte-a oralmente para a turma. Depois, escreva-a em seu caderno, tentando transpor toda a expressividade da fala para o texto escrito. Ao terminar de escrever o conto, leia-o para a turma. Converse com os colegas e o professor sobre como foi a experiência de trans- formar o texto falado em texto escrito. O conto escrito Você viu que, ao longo do tempo, muitas histórias transmitidas oralmente foram registradas por escrito, mas que há contos que já foram criados com uma formatação escrita. Segundo muitos teóricos, o conto como forma literária atingiu seu esplendor no século XIX, quando autores como Honoré de Balzac, Gustave Flaubert, Edgar Allan Poe, Eça de Queirós, Machado de Assis, Aluísio Azevedo, Arthur Azevedo, Lima Barreto, entre outros, passaram a escrever esse gênero textual. Desde essa época, o conto tem se mostrado extremamente versá- til, assumindo formas variadas e abertas a experiências e inovações. Os contos de Machado de Assis, por exemplo, considerados clássi- cos da literatura brasileira, são criações com estrutura modelar. Mas as possibilidades de inovar são tantas que, já em 1938, o escritor Mário de Andrade afirmava que os autores chamavam “contos” o que decidiam, por conta própria, ser um conto. Carlos Drummond de Andrade, em exemplo semelhante, escreveu no livro Contos plausíveis (1981): “[...] tudo pode mesmo acontecer em matéria de contos, ou melhor, no interior deles”. Sem dúvida, você vai se surpreender... Um conto brasileiro contemporâneo Dalton Trevisan é o autor do conto que será apresentado a seguir. Esse autor, pelo conjunto de sua obra, já ganhou vários prêmios lite- rários. Detesta dar entrevistas e falar sobre os textos que escreve, pois acredita que o conto deve ser sempre melhor do que o contista. Gosta de escrever sobre temas relacionados ao cotidiano urbano contempo- râneo, à violência das cidades, ao erotismo, aos mais diferentes tipos humanos, principalmente urbanos, e afirma que se inspira em notícias policiais, frases que escuta, obras clássicas e até bulas de remédio para escrever. Gosta de escrever contos curtos. LínguaPortuguesa–Unidade2 155
  35. 35. Atividade 2 Um conto de Dalton Trevisan O título do conto que você vai ler é O ciclista, de Dalton Trevisan, publicado originalmente em 1968. 1. Antes de ler o conto, responda às seguintes questões: a) Quais são, hoje em dia, os veículos que circulam pelas ruas das cidades? b) Você acha que todas as cidades poderiam ser chamadas de “labirinto urbano”? Por quê? c) Na época em que esse conto foi publicado, a bicicleta era o meio de transporte de diversas pessoas nas cidades. A entrega de correspondências e objetos postais, por exemplo, era feita com bicicleta. Atualmente, a situação é a mesma ou mudou? d) Em sua opinião, o ciclista poderia ser, hoje em dia, considera- do um personagem típico da cidade? Por quê? Dalton Trevisan nasceu em Curitiba, em 14 de junho de 1925, e, na mesma cidade, entre 1946 e 1948, edi- tou a revista Joaquim. Quando começou a escrever, publicava seus contos em folhe- tos. Passou a ser reco- nhecido com a publi- cação Novelas nada exemplares (1959). É um apaixonado por contos e tem dezenas de livros publicados. 156 LínguaPortuguesa–Unidade2
  36. 36. O ciclista Curvado no guidão lá vai ele numa chispa – e a morte na garupa. Na esquina dá com o sinal vermelho, não se perturba, levanta voo na cara do guarda crucificado. Um trim-trim da campainha, investe os minotau- ros do labirinto urbano. Livra a mão direita, abre o guarda-chuva. Na esquerda, lambe deliciado o sorvete de casquinha, antes que derreta. É sua lâmpada de Aladino a bicicleta: ao montar no selim, solta o gênio acorrentado ao pedal. Indefeso homem, frágil máquina, arremete impávido colosso. Desvia de fininho o poste. Eis o caminhão sem freio, bafo quente na sua nuca. Muito favor perde o boné? A sombra lá no chão? O tênis manchado de sangue? Atropela gentilmente e, vespa raivosa que morde, fina-se ao partir o ferrão. Monstro inimigo tritura com chio de pneus o seu diáfano esqueleto. Se não estrebucha ali mesmo, bate o pó da roupa e – uma perna mais curta – foge por entre as nuvens, a bicicleta no ombro. Em cada curva a morte pede carona. Finge não vê-la, essa foi de raspão, pedala com fúria. Opõe o peito magro ao para-choque do ônibus. Salta no asfalto a poça d’água. Num só corpo, touro e toureiro, malferido golpeia o ar nos cornos do guidão. Fim do dia, ele guarda num canto o pássaro de viagem. Enfrenta o sono trim-trim. Primeira esquina avança pelo céu trim-trim na contramão. TREVISAN, Dalton. O ciclista. In: _____. Mistérios de Curitiba. 5. ed. Rio de Janeiro: Record, 1996, p. 47-48. Glossário chio chiado chispa faísca, centelha, lampejo diáfano transparente, límpido, cristalino impávido destemido, corajoso minotauro personagem da mitologia grega que apresenta corpo de homem e cabeça de touro e que vivia aprisionado em um labirinto selim assento da bicicleta 2. Leia o conto O ciclista e depois responda às questões. a) Retire duas expressões do texto, uma no primeiro e outra no segundo parágrafo, que possam confirmar que tudo no conto acontece em alta velocidade. b) Qual é o tempo em que se desenvolve a ação narrada? c) Que informações sobre o protagonista você pode deduzir, considerando o primeiro parágrafo do conto? LínguaPortuguesa–Unidade2 157
  37. 37. d) “Lâmpada de Aladino” é uma men- ção à história Aladim e a lâmpada maravilhosa, do Livro das mil e uma noites. Quando Aladino (tam- bém chamado de Aladim) esfrega- va a lâmpada, um gênio aparecia para realizar qualquer desejo. Em sua opinião, por que a bicicleta foi comparada, no conto, à lâmpada maravilhosa de Aladim? e) Repare na frase: “Desvia de fininho o poste”. Por que o autor não escreveu “desvia de fininho do poste”? f) Na frase: “Monstro inimigo tritura com chio de pneus o seu diáfano esqueleto”, o que pode ser entendido por “monstro inimigo” e por “esqueleto”? g) Você gostou do conto? Por quê? ©JoãoPirolla 158 LínguaPortuguesa–Unidade2
  38. 38. Contos inovadores: os minicontos Embora o conto seja considerado um texto curto se comparado a outros gêneros narrativos, como as novelas e os romances, a partir dos anos 1960 surgiu um gênero narrativo com textos ainda mais curtos; na verdade, curtíssimos. São os minicontos, que, por sua con- densação, produzem enorme impacto no leitor. Os minicontos são narrativas ficcionais concisas que, às vezes, “dispensam” o narrador, não fornecem características dos poucos personagens, nem indicações precisas de tempo e espaço ou de suces- são de acontecimentos vivenciados. Essa característica de deixar implícitos muitos elementos da história faz que os textos desse gênero produzam enorme impacto no leitor, uma vez que contam com ele para reconstruir os sentidos pretendidos pelo autor. Dalton Trevisan, autor do texto que você leu anteriormente, é considerado um dos precursores dos minicontos no Brasil. Atividade 3 Minicontos 1. Leia o miniconto a seguir e responda às questões propostas. Você sabia que existe uma antologia de minicontos brasileiros? Em 2004, o escritor Marcelino Freire organizou uma antologia com os cem menores contos brasileiros do século. Marcelino Freire se inspirou no mais famoso miniconto do mundo (que só tem 37 letras), e convidou cem escritores brasileiros para escrever histórias inéditas de até 50 letras (atenção: não são 50 palavras, são 50 letras!). Conforme o crítico, professor universitário e poeta carioca Italo Moriconi, os minicontos são “pílulas ficcionais, e das melhores” (MORICONI, Italo. Um prefácio em cinquenta palavras. In: FREIRE, Marcelino (Org.). Os cem menores contos brasileiros do século. 3. ed. Cotia: Ateliê Editorial, 2008). BONASSI, Fernando. Só. In: FREIRE, Marcelino (Org.). Os cem menores contos brasileiros do século. 3. ed. Cotia: Ateliê Editorial, 2008, p. 30. a) Quais são, em sua opinião, os sentidos que estão por trás des- se conto? ©PauloSavala ©PauloSavala LínguaPortuguesa–Unidade2 159
  39. 39. b) O título desse miniconto pode ser lido de duas maneiras. “Só” pode significar “sozinho”, “isolado”, “desacompanhado”. Também pode significar “somente”, “unicamente”. Em sua opinião, qual dos sentidos é mais adequado ao conto? Por quê? c) O narrador-personagem vive um conflito? Se sim, que conflito você acha que poderia ser esse? d) Em que época a narrativa acontece? Como você chegou a essa resposta? e) O conto é formado por 11 palavras (incluindo o título). Você acha que o autor, com apenas essas poucas palavras, conse- guiu construir uma história? Por quê? 2. Leia este outro miniconto e responda às questões que seguem. FURTADO, Jorge. Sem título. In: FREIRE, Marcelino (Org.). Os cem menores contos brasileiros do século. 3. ed. Cotia: Ateliê Editorial, 2008, p. 43. ©PauloSavala 160 LínguaPortuguesa–Unidade2
  40. 40. a) O conto é construído sem que haja um narrador explícito. Essa afirmação é correta? Por quê? b) Em sua opinião, de quem são as vozes que aparecem no texto? Justifique sua resposta. c) É possível interpretar esse miniconto de diferentes maneiras? Se sim, discuta-as com seus colegas e depois escreva em seu caderno as interpretações que vocês fizeram. d) Imagine que você vai criar um conto com base nesse mini- conto. Escreva em seu caderno como seria essa história. Dê um título a ela. 3. Leia o miniconto a seguir e responda às questões propostas. RUFFATO, Luiz. Assim:. In: FREIRE, Marcelino (Org.). Os cem menores contos brasileiros do século. 3. ed. Cotia: Ateliê Editorial, 2008, p. 52. a) Que impacto as três frases do conto de Luiz Ruffato provoca- ram em você? ©PauloSavala LínguaPortuguesa–Unidade2 161
  41. 41. b) O título do conto fornece pistas para construir os sentidos da história. O que você nota de diferente no título desse conto? c) Há duas frases no conto que podem ser consideradas contras- tantes. Quais são elas? d) O conectivo “e” que aparece na última frase tem o mesmo sentido do conectivo “e” que aparece na segunda frase? Justi- fique sua resposta. 4. Leia o miniconto a seguir e responda às questões propostas. TELLES, Lygia Fagundes. Confissão. In: FREIRE, Marcelino (Org.). Os cem menores contos brasileiros do século. 3. ed. Cotia: Ateliê Editorial, 2008, Microbônus I, p. 1. ©PauloSavala 162 LínguaPortuguesa–Unidade2
  42. 42. Fica a dica Se tiver interesse e curiosidade, procure em uma biblioteca ou livraria a antologia da qual foram retirados os minicontos que você leu nesta Unidade: FREIRE, Marcelino (Org.). Os cem menores contos brasileiros do século. 3. ed. Cotia: Ateliê Editorial, 2008. E que tal fazer um sarau de leitura dos minicontos em sala de aula? a) Que palavra, no conto, pode ser lida de mais de uma ma- neira? Essa palavra é importante para a interpretação do texto? Por quê? b) Quais são as possíveis interpretações desse miniconto? c) Para você, o que significa “confissão”? d) Em sua opinião, alguém que se confessa para o mar deseja se livrar de alguma culpa ou receber punição? Por quê? Atividade 4 Escrever um miniconto Você se lembra do conto que escreveu na Atividade 1? Sua tarefa agora é transformá-lo em um miniconto. Imagine que ele será publicado em uma coletânea. Para ajudar na sua produção, leia as dicas a seguir: • Se achar necessário, crie um novo título, de preferência formado por uma palavra. • Você pode usar discurso direto ou indireto. • Fique bem atento à sua intenção! Com que finalidade você vai escrever o texto? LínguaPortuguesa–Unidade2 163
  43. 43. Nesta Unidade, você aprendeu que, quando um conto oral ganha um versão escrita, ele sofre transformações, uma vez que o escritor coloca no papel, de modo diferente, a vivacidade da narração oral. Também viu que há contos que são criados direta- mente como textos escritos, e que atingiram seu esplendor como forma literária no século XIX. Além disso, estudou que os contos são muito versáteis e assumem estilos bem inusitados, como os minicontos, que apresentam histórias com o mínimo de palavras. Pense sobre Você estudou • Muito cuidado também no uso dos sinais de pontuação. • Tente usar o mínimo de letras possível! Quando terminar, reúna sua produção aos minicontos dos colegas e, junto com eles e seu professor, produzam uma coletânea de minicontos. Ler textos literários é uma maneira de ampliar a experiência e a visão de mundo. Por meio da leitura de poemas, contos, romances e textos dramáticos, podemos nos conhecer melhor como sujeitos, além de vivenciar fatos históricos e acontecimentos culturais de todos os lugares e épocas; é possível também sentir o que se chama prazer literário. Considerando essa afirmação, reflita: Qual a importância de ler textos literários? Essa leitura é sempre prazerosa? Por quê? 164 LínguaPortuguesa–Unidade2
  44. 44. 3 Cartas: seus autores e seus leitores Verba volant; scrita manent. (As palavras faladas voam; as escritas permanecem.) Provérbio latino. O objetivo desta Unidade é que você escreva, leia e analise cartas pessoais, de reclamação e de solicitação. Você vai observar caracterís- ticas, modelos e estilos dessas correspondências, bem como seu valor histórico, literário e utilitário. Assim, poderá perceber que, mesmo com tantos avanços tecnológicos, esses gêneros ainda podem exercer uma função muito importante em sua vida. Para iniciar... Antes de se enredar pelo mundo das cartas – de seus autores e lei- tores –, pense no quanto elas estão presentes em sua vida e converse com seus colegas. • Você costuma receber ou escrever cartas? • Usa o correio eletrônico? Com quem costuma trocar emails? • Já recebeu alguma carta de cobrança, de pedido ou de agradeci- mento? Alguma propaganda por correspondência? Escreveu alguma carta oferecendo seus serviços? • É possível tratar de todos os assuntos em uma carta? E por meio do correio eletrônico? • Você já teve de reclamar, reivindicar ou fazer exigências para con- seguir algo que lhe era de direito? Você acha que uma carta de reclamação ou de solicitação poderia ajudar nesse momento? Por quê? • Em sua opinião, uma carta que solicita algo ou apresenta uma recla- mação deve ter uma linguagem mais formal ou informal? Por quê? • Quem de sua turma recebe mais cartas? Quem escreve mais? • Quem de sua turma escreve emails? 165
  45. 45. Cartas de sua vida, cartas em sua vida... As cartas – que podem também ser chamadas de “correspondên- cias”, “missivas” ou “epístolas” – estão muito presentes na vida das pessoas. E isso já ocorre há muito tempo... Segundo alguns historiadores (cf. Enciclopédia Mirador Internacional, 1995), desde aproximadamente o século III a.C., as cartas circulam nas sociedades letradas e constituem parte importante de documentos que revelam os mais diferentes aspectos da vida humana. A variedade de cartas é muito ampla e, consequentemente, suas funções e seus estilos também. Assim, o “tom” da carta vai variar de acordo com o conteúdo dela: poderá ser alegre, triste, amoroso, tenebroso, formal, indignado, solícito... O grau de formalidade da linguagem também dependerá do grau de intimidade que o escritor (remetente) tem com a pessoa a quem a carta se destina (destinatário). Para cada situação, uma carta; para cada carta, um estilo que revela a “alma” do autor e suas intenções. As chamadas cartas pessoais são aquelas escritas a pessoas mais próximas para dar notícias, “matar saudade”, declarar amor ou ódio. Às vezes, parecem mais uma conversa por escrito, tão espontâneo e familiar é o tom delas. Já as chamadas cartas comerciais, como as cartas de reclamação e de solicitação, são escritas com objetivos defini- dos, em linguagem formal, marcada por convenções. As de reclamação fazem queixas e apresentam denúncias contra empresas, profissionais liberais, poder público etc. As de solicitação formalizam um pedido e tentam convencer alguém a fazer alguma coisa. Apesar de o correio ainda ser um meio bastante comum para a troca de cartas, cada vez mais as novas tecnologias, como fax e email, têm servido a esse propósito, principalmente por permitirem agilidade na comunicação. E, dependendo do meio em que a carta circula, seu formato e estilo também podem mudar, pois cada meio tem caracte- rísticas próprias. Ao longo desta Unidade, você verá um pouco mais de perto cada um desses gêneros epistolares. Atividade 1 Escrever uma carta Receber cartas, em geral, é delicioso... E escrevê-las? É igualmente prazeroso? Sabia que muitos escritores famosos escreveram cartas de amor que se tornaram célebres? Você já se arriscou a escrever alguma? Não perca essa chance! Fica a dica Há livros que reúnem cartas pessoais trocadas entre escritores e artistas. Vale a pena conferi-los! MORAES, Marcos Antonio de (Org.). Me escreva tão logo possa. São Paulo: Salamandra, 2005. ORSINI, Elizabeth (Org.). Cartas do coração. Rio de Janeiro: Rocco, 1999. 166 LínguaPortuguesa–Unidade3
  46. 46. Agora, você escreverá uma carta pessoal. Ela pode ser endereçada ao marido ou à esposa, ao namorado ou à namorada, a um filho ou a uma filha, a um amigo ou a uma amiga, enfim, a alguém que você julgue especial. Para quem você quer escrever? Antes de começar, pense em tudo o que quer contar (talvez algo sobre sua vida atual ou sobre seus sentimentos em relação à escola, ao trabalho, a essa pessoa para quem você vai escrever). Escreva um rascunho em seu caderno. Depois, passe a carta a limpo, em uma folha à parte, e guarde essa primeira versão para futu- ras revisões. Escreva sem receio! Com as atividades que serão propostas ao longo desta Unidade, você vai poder esclarecer eventuais dúvidas e aprimorar o texto que escreveu. Cartas pessoais A carta pessoal, como o próprio nome diz, trata de assuntos pes- soais e não é escrita com a finalidade de ser publicada. Ela é trocada entre pessoas que têm proximidade ou que querem estreitar laços. Se for escrita para um amigo íntimo, o texto provavelmente vai ser leve, descontraído e afetuoso, e as questões gramaticais e prescritivas podem até se tornar secundárias; é possível usar gírias, apelidos e até mesmo palavras “censuráveis” – tudo para tentar colocar no papel o calor da conversa, o jeito íntimo com que você se comunica com o destinatário da carta. Se, no entanto, o destinatário for alguém com quem não se tem tanta intimidade, provavelmente será preciso usar uma linguagem mais comedida, mais formal. Atividade 2 Leitura de cartas pessoais Agora, você vai ler uma carta escrita pelo pai do grande pianista bra- sileiro Nelson Freire (1944-), quando o artista tinha apenas cinco anos. 1. Antes de lê-la, responda: a) Que motivos poderiam levar um pai a escrever uma carta ao filho de cinco anos? LínguaPortuguesa–Unidade3 167
  47. 47. b) O “tom” de um texto revela seu espírito, sua característica afetiva. Que tom você espera encontrar em uma carta que co- mece com “Meu filhinho...”? c) Veja em que ano a carta foi escrita. Considerando o ano e a pessoa a quem a carta se dirige, ela pode ser considerada um documento valioso? Por quê? 2. Agora, leia a carta e, depois, responda às questões propostas. Meu filhinho! Ao tomar a decisão de transferir-me com toda a nossa família para a capital da República, julguei oportuno registrar no teu álbum de reminiscências alguns fatos que intimamente dizem respeito à tua existência, para que sirvam de orientação para a tua biografia. Isso porque a nossa mudança se faz unicamente por tua causa. Sem nenhum esforço de memória, ainda me recordo perfeitamente de tudo aquilo que se refere a esses primeiros anos da tua existência, quando vieste a este mundo no dia 18 de outubro de 1944, em Boa Esperança, sul de Minas. Eras um menino lindo, robusto e corado, porém eras doente. Quanto sofremos, tua mãe e eu, por ver-te definhar dia a dia e a choramingar, vitimado amiúde por alergia rebelde que a tudo resistia! Teu alimento, durante o primeiro mês de tua vida, resumiu-se a um pedaço de marmelada diluído em água filtrada. Como não melhoravas, levamos-te a Lavras para consultas médicas. Ao fim de um mês de tratamento intensivo, tua mãe regressou trazendo-te para casa. Quando te vi, filhinho, meu coração doeu como nunca e meus olhos ficaram marejados de lágrimas, porque não vi meu filho, senão uma criança minúscula e raquítica, reduzida praticamente a pele e ossos. Vivias todo remendado de esparadrapos, com o corpinho sempre untado de pomadas, com uma carinha magrinha que metia dó. A tua tendência artística, apesar de tudo, se manifestou desde cedo, despontando com os primeiros fulgores da tua inteligência. Com poucos meses de idade já te sentias maravilhado e ficavas quietinho, embora cheio de mazelas, ao ouvir música, quando tua irmã Nelma tocava. Em 8 de dezembro de 48, empreendemos uma viagem interessantíssima. Era a pri- meira vez que saías de casa para uma viagem distante sem ser por motivo de doença. Tuas irmãs Nelma e Norma estavam estudando no Colégio Sion de Campanha. Nos amplos salões do colégio, naturalmente, não faltava aquilo que te fascinaria: o piano. Em dado momento, a irmã superiora reuniu certo grupo de alunas para ouvir-te. Entusias- mada, porque recebeste uma ovação efusiva, ela, em tom verdadeiramente profético, te saudou meigamente, lembrando às alunas ali presentes que procurassem fixar bem na 168 LínguaPortuguesa–Unidade3
  48. 48. memória aquele instante precioso, porque mais tarde, quando esse pequenino inocente viesse a empolgar o mundo, seria com prazer e com saudade que se recordariam de que o haviam apreciado e aplaudido, aos quatro anos de idade. Vimos logo que não se tratava de fato vulgar, pelo menos em nossa família, porque teus irmãos mais velhos nunca demonstraram tais aptidões. Tua mãe e eu começa- mos então a notar qualquer coisa de diferente nas tuas execuções. Resolvemos dar-te um professor mais adiantado e tua mãe religiosamente, como quem cumpre uma promessa, assumiu consigo mesma o compromisso de levar avante a tua instrução, levando-te semanalmente a Varginha, aonde ias a fim de estudar com o maestro Fernandez. Ao fim de doze lições, teu professor aconselhou-nos a rumarmos para o Rio. Ele não havia mais nada a te ensinar. Em junho de 1950, portanto, uma indecisão embaraçosa se apoderou de mim e de tua mãe, colocando-nos diante de um dilema de difícil solução: devemos dar razão ao nosso coração, permanecer em nossa querida terra, criando-te como fize- mos com os nossos outros filhos, num ambiente de paz e de concórdia, onde se acham localizados os nossos interesses materiais e onde nos prendem os laços mais caros do sentimento familiar, ou, por outro lado, rumaríamos para o Rio, onde o custo da vida é muitíssimo mais dispendioso e o ambiente, meio padrasto em infu- sões afetivas, mas onde as tuas aptidões poderão desenvolver-se ilimitadamente? Depois de muito meditar, resolvemos seguir esta última vereda, entregando nosso futuro a Deus. Cumprindo a nossa obrigação, deslocamo-nos do interior de Minas para a capital da República com a finalidade primordial de acompanhar teus passos, porque ainda não prescindes de nossa companhia e de nossa assistência. Mas o teu destino, esse, nós o colocamos na mão de Deus! Afetuosamente, O Papai Boa Esperança, 21 de julho de 1950. Nelson Freire. Direção: João Moreira Salles. Brasil, 2003. 102 minutos. (carta transcrita) a) Com que finalidade o pai escreveu ao filho de cinco anos? b) Na carta, você leu: “Sem nenhum esforço de memória, ainda me recordo perfeitamente de tudo aquilo que se refere a esses primeiros anos da tua existência [...]”. Escreva, em seu cader- no, resumidamente e em ordem cronológica, os fatos relata- dos pelo pai. LínguaPortuguesa–Unidade3 169
  49. 49. c) A carta escrita pelo pai de Nelson Freire tem um tom afe- tuoso. Comprove esse “tom” com exemplos de palavras ou trechos da carta. d) Em 1950, a capital do Brasil era a cidade do Rio de Janeiro. Em certo momento da carta, o pai escreve: “[...] rumaríamos para o Rio, onde o custo da vida é muitíssimo mais dispendioso e o ambiente, meio padrasto em infusões afetivas [...]”. Considerando esse trecho, o que o pai aponta como proble- mas a serem encontrados no Rio de Janeiro? e) Em sua opinião, essas preocupações apontadas pelo pai são comuns às pessoas que saem de uma cidade pequena e rumam para uma cidade maior? Por quê? f) O documentário do cineasta João Moreira Salles sobre Nel- son Freire apresenta o pianista tocando junto a orquestras em São Paulo e no Rio de Janeiro; fazendo concertos na França, Bélgica, Rússia etc. Em todos esses lugares, o pianista foi e continua sendo aclamado. • Há algum fato significativo na infância do famoso pianista que você considera que tenha sido importante para a for- mação desse artista? Qual? Por quê? Fica a dica Assista ao documentário Nelson Freire (direção de João Moreira Salles, 2003) e conheça um pouco mais da vida e da carreira artística de quem é considerado um dos maiores pianistas do mundo. Além disso, terá a oportunidade de ouvir a leitura comovente da carta com a qual trabalhou na Atividade 2. 170 LínguaPortuguesa–Unidade3
  50. 50. • Você acha que a mudança para o Rio de Janeiro teve alguma influência na carreira de Nelson Freire? Em que sentido? Atividade 3 Cartas antigas e modernas 1. Leia a seguir duas cartas e, depois, responda às questões propostas. Carta 1 São Joaquim do Onde, 22 de outubro. Querido amigo Orlando, Estás bem? Não fiques chateado comigo antes que te explique o que aconteceu. Depois tu me dirás se fiz bem. Foi exatamente do jeito que vou te contar. Desde que cheguei à praia de Matinhos, disse aos nossos amigos: “alguns dias quero des- cansar. Quero estar livre para ler, desfrutar e observar a paisagem, mas, na quarta-feira, passarei o dia com Orlando, em Curitiba”. Mas estava tão bom, que passou a quarta, veio a quinta, sem que conseguisse cumprir minha promessa e te visitar aí em tua terra. Tu sabes o quanto te gosto, mas tu conheces bem a praia de Matinhos e a preguiça deliciosa que sinto nesse lugar que não me deixa mover... Até breve. E perdoa-me! Adalberto LínguaPortuguesa–Unidade3 171
  51. 51. Carta 2 a) Os textos transcritos são de cartas pessoais? Em que você se baseou para a sua resposta? b) Algum dos dois textos parece ser de uma carta mais antiga? Justifique sua resposta. c) Circule, nas duas cartas, passagens que comprovem que o re- metente tem um grau de intimidade com o destinatário. 2. Releia a Carta 1. a) Reescreva-a, em seu caderno, substituindo o pronome “tu” pelo pronome “você”. Com a ajuda do professor, faça outras modificações necessárias. M r nápol s, 13/5. Quer do Cau! O que houve? Você não recebeu m nha carta? Perdeu meu endereço? Soube, por outras pessoas – é óbv o –, que você estará em Guaíra. Quero te encontrar. A gente pod a dar um e to, não? Tô tr ste pra caramba com você. Tô achando que mudou de de a a meu respe to. Espero que você fale de você, porque eu á não ma s nteresso. Um be ão, M. M. 172 LínguaPortuguesa–Unidade3
  52. 52. b) As alterações realizadas dão a impressão de que essa carta adquiriu mais informalidade? Por quê? Atividade 4 De volta à sua carta pessoal Retome a primeira versão da carta pessoal que você escreveu. Depois das atividades realizadas, que modificações você pode fazer em sua carta? Para ajudá-lo na revisão, seguem alguns passos importantes. Se necessário, pode rasurar a carta; ela ainda não é a definitiva. 1. Observe se, em sua carta, aparece a indicação de local e data. Caso não apareça, inclua esses dados na nova versão. 2. Verifique se aparece a saudação inicial (o modo de chamar a pes- soa a quem se destina a carta, por exemplo, “querido amigo”, “amados pais” etc.). 3. Observe se a carta está organizada em parágrafos e se você conse- guiu expressar o que pretendia. 4. Repare se a linguagem da carta está adequada ao destinatário, sendo mais ou menos formal. 5. Veja se há, no final da carta, uma frase de despedida e a assinatura. 6. Passe a limpo o texto em um papel diferente, bonito, de preferên- cia colorido. 7. Prepare o envelope. Na parte da frente dele, escreva o nome do des- tinatário e o endereço completos. Na parte de trás, escreva o nome e o endereço completos do remetente, ou seja, os seus dados. Coloque a carta no correio e aguarde a resposta... Cartas que circulam em espaços públicos Reclamar, reivindicar, formalizar um pedido, fazer um agrade- cimento, oferecer um serviço etc. são atos relacionados à vida em sociedade, à realidade em que vivemos. Uma maneira de formalizar esses atos é escrevendo cartas, que podem tanto ser enviadas aos seus destinatários específicos como também ser publicadas para um público maior (em um jornal, por exemplo), de modo a dar maior visibilidade ao que se pretende dizer. Você sabia que existem escrevedores de cartas espalhados por aí? Atualmente, há um serviço de utilidade pública, o Escreve Cartas, que funciona em dois postos do Poupatempo na cidade de São Paulo: Itaquera, na zona Leste, e Santo Amaro, na zona Sul. O Escreve Cartas é uma parceria do governo do Estado de São Paulo com os Correios. Funciona no mesmo horário do Poupatempo: de segunda à sexta, das 7h às 19h, e, aos sábados, das 7h às 13h. Esse serviço é procurado por muita gente. LínguaPortuguesa–Unidade3 173
  53. 53. Diferentemente das cartas pessoais, as cartas que circulam em espaços públicos têm fórmulas mais ou menos fixas de organização e exigem o uso de uma linguagem mais formal. Para atingir objeti- vos definidos, quem as escreve deve tentar elaborar um texto com o máximo de correção, clareza e concisão – sem dar margem a diferen- tes interpretações. Às vezes, dependendo da situação, convém consultar manuais de redação técnica, para conhecer modelos de cartas adequados a cada tipo de situação. Localidade e data, nome do destinatário, saudação inicial, corpo da carta e despedida podem variar conforme sua neces- sidade: escrever uma carta de reclamação, de solicitação, um ofício ou um requerimento. Atividade 5 A arte de reclamar Você já viveu alguma situação em que se sentiu lesado? Já ficou furioso e com muita vontade de reclamar? Qual foi sua atitude na ocasião? Perdeu a cabeça? Xingou? Ameaçou? O nervosismo deu algum resultado? Para fazer esta atividade, você não vai precisar perder a cabeça, mas sim usá-la. A situação é a seguinte: Imagine que você comprou um celular – daqueles bem caros – e, na segunda semana de uso, ele começou a dar problemas. Você vol- tou à loja para trocá-lo, mas o gerente lhe informou que não pode- ria fazer a troca e que você teria de procurar a assistência técnica se quisesse o aparelho consertado. Diante disso, imagine que você tenha procurado se informar sobre seus direitos e resolvido fazer uma recla- mação por escrito. Sua tarefa, portanto, é escrever essa carta de reclamação. Para tornar a carta de reclamação mais consistente, imagine e for- neça o máximo de dados sobre esse caso, todos inventados por você (modelo do aparelho, data da compra, nome da empresa, o número da nota fiscal, quando o aparelho começou a dar problemas, data da primeira reclamação, nome do gerente que atendeu você etc.). Quanto mais informações você fornecer, mais fácil e rápido o problema poderá ser solucionado. Escreva a carta em seu caderno. Ao longo das atividades propos- tas adiante, você vai poder esclarecer eventuais dúvidas e aprimorar a primeira versão da carta que escreveu. 174 LínguaPortuguesa–Unidade3
  54. 54. A Fundação de Proteção e Defesa do Consumidor (Procon) trabalha em defesa dos consumidores, orientando-os em suas reclamações, informando-os de seus direitos e fiscalizando as relações de consumo. O site do Procon traz informações importantes sobre o direi- to do consumidor. Veja a seguir um texto extraído de lá. A Fundação de Proteção e Defesa do Consumidor (Procon) tem por objetivo elaborar e executar a política de proteção e defesa dos consumidores do Estado de São Paulo. Para tanto conta com o apoio de um grupo técnico multidisciplinar que desenvolve ati- vidades nas mais diversas áreas de atuação, tais como: i. educação para o consumo; ii. recebimento e processamento de reclamações administra- tivas, individuais e coletivas, contra fornecedores de bens ou serviços; iii. orientação aos consumidores e fornecedores acerca de seus direitos e obrigações nas relações de consumo; iv. fiscalização do mercado consumidor para fazer cumprir as determinações da legislação de defesa do consumidor; v. acompanhamento e propositura de ações judiciais coletivas; vi. estudos e acompanhamento de legislação nacional e interna- cional, bem como de decisões judiciais referentes aos direitos do consumidor; vii. pesquisas qualitativas e quantitativas na área de defesa do consumidor; viii. suporte técnico para a implantação de Procons Municipais Conveniados; ix. intercâmbio técnico com entidades oficiais, organizações pri- vadas, e outros órgãos envolvidos com a defesa do consumidor, inclusive internacionais; x. disponibilização de uma Ouvidoria para o recebimento, enca- minhamento de críticas, sugestões ou elogios feitos pelos cida- dãos quanto aos serviços prestados pela Fundação Procon, com o objetivo de melhoria contínua desses serviços. FUNDAÇÃO de Proteção e Defesa do Consumidor (Procon). Institucional: objetivos. Disponível em: <http://www.procon.sp.gov.br/categoria.asp?id=206>. Acesso em: 26 out. 2012. LínguaPortuguesa–Unidade3 175
  55. 55. Fica a dica Caso queira se aprofundar no assunto, você pode visitar os seguintes sites de instituições civis que orientam os consumidores sobre seus direitos. Em alguns deles, inclusive, você pode também postar sua reclamação gratuitamente (veja os indicados com *). Assim, se um dia algum serviço que foi prestado a você não lhe agradar, além de enviar cartas de reclamação diretamente para a empresa, você pode mandá-la para um jornal ou, também, publicá-la em um desses sites (ou pesquisar outros). Dessa maneira, estará exercendo sua cidadania. ASSOCIAÇÃO Brasileira de Defesa do Consumidor e Trabalhador (Abradecont). Disponível em: <http://abradecont.org.br>. Acesso em: 26 out. 2012. * ASSOCIAÇÃO Nacional de Assistência ao Consumidor e ao Trabalhador (Anacont). Disponível em: <http://anacontcomvoce.com.br>. Acesso em: 26 out. 2012. * FUNDAÇÃO de Proteção e Defesa do Consumidor (Procon). Disponível em: <http://www.procon.sp.gov.br>; <http://www.procon.sp.gov. br/atendimento.asp>. Acesso em: 26 out. 2012. INSTITUTO Brasileiro de Política e Direito do Consumidor (Brasilcon). Disponível em: <http://www.brasilcon.org.br>. Acesso em: 26 out. 2012. INSTITUTO Nacional de Defesa do Consumidor (Idecon). Disponível em: <http://www.ideconbrasil.org.br>. Acesso em: 26 out. 2012. INSTITUTO Nacional de Defesa do Consumidor do Sistema Financeiro (Andif). Disponível em: <http://www.andif.com.br>. Acesso em: 26 out. 2012. FÓRUM Nacional das Entidades Civis de Defesa do Consumidor (FNECDC). Disponível em: <http://www.forumdoconsumidor.org.br>. Acesso em: 26 out. 2012. * RECLAMAO.COM. Disponível em: <http://www.reclamao.com>. Acesso em: 26 out. 2012. * RECLAME Aqui. Disponível em: <http://www.reclameaqui.com.br/reclame/>. Acesso em: 26 out. 2012. Carta de reclamação Reclamar vem do latim e significa “gritar”, “exclamar” (em sinal de oposição) e “protestar”. A reclamação é um direito, uma maneira de se proteger das mais variadas situações do dia a dia: compras que não deram certo, serviços que foram pagos e não prestados, direitos que não foram respeitados. As pessoas reclamam quando se sen- tem lesadas, quando instituições não cumprem seu dever. O direito de reclamar quando ocorrem situações como essas está previsto no Código de Defesa do Consumidor. As cartas de reclamação podem variar muito. Mudam de acordo com a intenção de cada reclamante e do quanto este se sentiu lesado em determinada situação. Mas é preciso saber para quem reclamar e, prin- cipalmente, usar a linguagem adequada para fazê-lo. A maneira como você fala ou escreve pode fazer toda a diferença quando se trata de uma reclamação. Perder a cabeça, xingar, ser ofensivo pode ser considerado um abuso de direito e então, de vítima, você passa a ser o acusado. Maurício Vargas, diretor e fundador do site Reclame Aqui, espe- cializado na orientação sobre direitos do consumidor, diz que o des- controle é o erro mais comum do consumidor na hora de reclamar. Nos momentos de raiva, quem escreve tende a se exceder nos termos que usa. Para ele, é preciso deixar de lado a insatisfação e elaborar um texto claro, objetivo, conciso, para que se chegue a uma solução. Tenha em mente que a carta será endereçada a alguém do Serviço de Atendimento ao Consumidor (SAC), que vai precisar entender qual é a reclamação antes de encaminhá-la a uma solução. Daí a importân- cia de ser cauteloso e objetivo ao escrever... 176 LínguaPortuguesa–Unidade3
  56. 56. Atividade 6 Bote a boca no trombone... Conforme informações retiradas do site do Procon, em 2011, a área de produtos (móveis, aparelhos eletrônicos e vestuário) foi a que registrou maior número de reclamações, seguida por assuntos finan- ceiros (bancos, seguradoras) e serviços essenciais (telecomunicações, energia elétrica, saneamento básico). 1. Leia a carta a seguir e, depois, responda às questões propostas. São Paulo, 5 de abril de 2012. Lojas Belezas na Cozinha A/C Departamento de Atendimento ao Consumidor Prezado senhor, No dia 30 de janeiro, comprei um armário de cozinha, modelo Metal, formado por quatro peças e gaveteiro (envio cópia da nota fiscal anexada a esta carta). Na compra efetuada, estava incluída a montagem do armário num prazo máximo de dez dias. No dia 5 de fevereiro, o armário foi entregue em minha casa, mas até hoje (dia 5 de abril) nenhum técnico da loja veio montá-lo. Já conversei por telefone inúmeras vezes com o serviço de atendimento ao cliente da loja. A informação que recebi nesses DOIS MESES DE ESPERA foi sempre a mesma: um novo agendamento para realização do serviço. Mas nenhum técnico apareceu nas datas previstas. O armário está desmontado há dois meses no meio de minha cozinha. Não há outro espaço em minha casa onde possa acomodá-lo. O mais gra- ve é que, em todas as datas previstas para a visita do técnico, não pude trabalhar. Trabalho na área de serviços domésticos e não posso me dar ao luxo de perder dias de serviço, já que sou diarista. Acredito ser meu direito ser atendida decentemente, já que paguei o armário à vista. Exijo que o armário seja montado na data mais próxima do dia do recebimento desta carta, de preferência em um sábado, assim não vou perder mais nenhum dia de serviço. Caso isso não aconteça, buscarei as MEDIDAS JUDICIAIS cabíveis e necessárias e lutarei para obter meu dinheiro de volta, com juros e correções. Sem mais, Débora Alcântara LínguaPortuguesa–Unidade3 177
  57. 57. a) Considerando o conteúdo da carta, complete o quadro: b) Localize os verbos e as expressões verbais que aparecem na carta e, em seguida, circule os que estão no tempo passado. Em que parte do texto está a maioria deles? Por que esse tem- po verbal foi usado? c) Há verbos no tempo futuro? Em que parte do texto eles apa- recem? Por quê? d) Por que, em sua opinião, algumas palavras foram escritas em letras maiúsculas e em negrito? Problema Situação atual Argumentos Solução proposta 178 LínguaPortuguesa–Unidade3
  58. 58. 2. Pensando na carta lida e em outras cartas de reclamação que você já leu ou produziu, responda: a) Como uma carta de reclamação geralmente se inicia? b) Que tipo de assunto há na parte central dessas cartas? c) Como essas cartas em geral são encerradas? 3. Faça, em seu caderno, uma revisão da carta de reclamação a seguir, procurando resolver os seguintes problemas: formato da carta, falta de pontuação e repetição excessiva de certas palavras. Atividade 7 De volta à sua carta de reclamação Retome a carta de reclamação que você escreveu e converse sobre ela com um colega. Confiram se nas cartas que produziram aparecem: • localidade e data; • nome da loja ou do departamento/setor da loja; • saudação inicial; • descrição sucinta dos fatos que levaram ao envio da carta – data da compra, número da nota fiscal. Observe a presença de expres- sões que marcam o tempo (por exemplo, há duas semanas, on- tem etc.) e de palavras que introduzem os motivos da reclamação (porque, já que, pois, então...); Comprei pela revista que vocês editam, a Revista Sempre Mais, uma máquina fotográfica da marca Fhotomil. A propaganda garantia que no mesmo dia da compra seria enviada a máquina mas até hoje a máquina não chegou. Comprei a máquina para dar de aniversário ao meu filho, mas até hoje a máquina não veio. É um absurdo que isso aconteça. Já liguei várias vezes para o número de telefone de atendimento ao consumidor que aparecia na revista mas não consegui falar com ninguém porque não saía do atendimento automático. Por isso estou escrevendo para vocês que editam essa revista que não cumpriu o que estava combinado porque não enviou a máquina fotográfica como tinha divulgado. Espero que alguém se responsabilize pelo que está acontecendo. É um absurdo, isso é roubo, alguém tem de me devolver o dinheiro que gastei. Atenciosamente F. J. LínguaPortuguesa–Unidade3 179
  59. 59. • exposição clara do que se pretende; • despedida; • assinatura. Caso um dos itens anteriores não conste na carta que você escreveu, reescreva-a, acrescentando o que falta ao texto. Atividade 8 A arte de solicitar 1. Reúna-se com dois colegas e façam o que é solicitado: a) Listem cinco situações em que caberia escrever uma carta de solicitação, isto é, uma carta para pedir algo. b) Como você costuma convencer alguém a atender uma solicitação? Exercer a cidadania pressupõe nos posicionarmos diante dos fatos. Por isso é preciso que você se informe, reflita e manifeste seu ponto de vista, concordando, discordando, contestando, deba- tendo. É fundamental saber reivindicar seus direitos, inclusive por meio da escrita. A leitura e a escrita favorecem o exercício da cida- dania, tanto que se constituem um direito de todo cidadão. Quanto mais conhecemos nossos direitos e deveres, assim como os mecanismos de que dispomos para exercê-los, mais condições teremos de nos posicionarmos com autonomia. Nesse sentido, a leitura e a escrita devem ser compreendidas como atividades sociais que ampliam nosso conhecimento, sensi- bilidade, imaginação, bem como nosso entendimento do mundo. 180 LínguaPortuguesa–Unidade3

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