Evolucaodo conhecimento

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Evolucaodo conhecimento

  1. 1. Oitava Parte
  2. 2. Petróleo e Ecologia: Uma Contestação à Ciência Ortodoxa Evolução do Conhecimento Geológico Esta parte do estudo tende a fazer um retrospecto de toda a saga humana no sentido de des-vendar a origem das coisas existentes sobre a face do globo. A intenção é mostrar que desde os prin-cípios, ao tempo da mais completa ignorância, já se tentava explicar como era a Terra e como foramfeitas todas as coisas que se viam e as que não se viam. Não há intenção de fazer estudo crítico sobreas obras dos diversos sábios que vão desfilar ao longo do texto, mas apenas evidenciar as ideias e osautores que enfocaram problemas geológicos, sem saber que eles eram, de fato, geológicos. Apenasque ele era feito por partes diminutas e praticamente sem relação entre si. O estudo era extremamentefragmentado e disperso como será evidenciado ao longo do texto por partes na história da civilização. Período Pré-cristão Este panorama, de completa e total ignorância é o caldo de cultura necessário para florescera religião, de todos os tipos e modos, e a ela daremos o nome de “idade das trevas”. Vem do tempo de Moisés uma das teorias sobre a criação do mundo. São praticamente 30séculos (1400 anos a.C. até 1500 anos da era cristã) de muita fé e pouco conhecimento. As perguntase as respostas tinham uma finalidade que só apareceria mais adiante. O que se buscava eram as res-postas para as perguntas básicas ou questões transcendentais, que perduram ainda hoje: • De onde viemos? Quem nos colocou aqui? • Que fazemos aqui na Terra? • Para onde iremos depois da morte? Provavelmente, a literatura mais antiga que existe sobre a origem da Terra e do Universo é aconstante na Bíblia Sagrada, no livro do Gênesis, cuja autoria é atribuída a Moisés (fl.c. 1400-1300a.C.)1. O Velho Testamento, também chamado de Bíblia Hebraica, tomou 1,1 milênio para ser escri-to (1200 e 100 a.C.). É um nome criado por Melito de Sardis2 no ano 170 d.C. para distingui-lo doNovo Testamento, uma parte da Bíblia apenas cristã. Os cinco primeiros livros do Velho Testamentoconstituem o Torah ou Pentateuco, e é no primeiro deles que surgem as teorias sobre o aparecimentoda Terra, do Sol, da Lua, das estrelas, dos animais e dos vegetais. Em seguida, surge a teoria da cria-ção do homem e da mulher e a crença de que aquilo tudo fora ditado a Moisés, por Deus, que teriaaparecido a ele por trás de um arbusto em fogo (mas não consumido pelo fogo!). Segundo Moisés aluz foi feita no primeiro dia sem origem definida, e só no quarto dia surgiram o Sol, para iluminar odia, e a Lua para iluminar a noite, um fato contraditório, pois o Sol é o principal astro do sistema quefornece a luz que ilumina a Terra e a Lua. No sexto dia, Deus fez o homem “do pó da terra e soprou-lhe nas narinas o fôlego da vida”,método usado para formação de todos os outros animais, menos a mulher. A mulher foi diferente:Adão foi anestesiado por um sono profundo, foi-lhe tirada uma das costelas, da qual Deus fez surgira mulher, operação que conferiu a ela o lugar de secundária importância, que ocupa até hoje. Nesteprimeiro caso, a mulher foi “parida” pelo homem. Daí em diante, os homens seriam paridos pelas 236
  3. 3. Evolução do Conhecimenmulheres. Ambos, Adão e Eva não deveriam ter tido o umbigo, uma estrutura orgânica derivada davida intra-uterina. Todos os seus descendentes têm. Esta declaração não tem o objetivo irônico quepode parecer à primeira vista. A finalidade é mostrar que a artificialidade da explicação de determi-nado problema complica a explicação de todos os problemas correlatos seguintes, dificuldade quedeve ser evitada no estudo da Geologia. As situações criadas por Moisés para dizer como as coisas foram feitas e como foram criadasas leis gerais que deviam reger a vida dos homens, são ingênuas, contraditórias e sem qualquer arte,mas desempenharam e desempenham uma das mais fortes influências no cotidiano de grande parteda ciência, dos cientistas e da humanidade. De fato, essas lendas não existiram somente entre gregos e judeus, mas apareceram em todasas partes do mundo onde surgia alguém pensando que podia explicar o aparecimento do mundo e dascoisas. Eram mitos existentes na África, nas ilhas japonesas, Austrália e Américas. Os deuses tinhamde ser inteligentes e poderosos; existiam sós e antes de todo mundo; a criação deveria ser deliberada,consciente e ordenada; foi um ato de liberdade e planejamento e eles habitariam em lugar especialhoje conhecido como “céu”. A criação e o deus criador tinham sempre essas características, variandoem função da geografia onde nascia a lenda3. Não nos ocuparemos disso, vendo apenas a voo depássaro os principais filósofos que se preocuparam mais diretamente com a Geologia, e como talfenômeno cultural continua a ser cultivado até hoje. Entre 900-800 a.C. apareceu na Grécia um poeta chamado Homero, provável autor da Ilíadae da Odisséia, que descrevia a Terra como um disco convexo rodeado pelas águas do Oceanus, pro-vavelmente uma ideia melhor do que a crença dos seus contemporâneos que equilibravam a Terrasobre quatro elefantes, que à sua vez, ficavam em cima de uma gigantesca tartaruga marinha4. Pela mesma época, 800 anos antes da nossa era, outro poeta grego por nome Hesíodo5,nascido na Beócia, distrito da Grécia Central, deixou um poema épico onde relata como surgirama Terra, os mares, as estrelas, o céu etc., seguindo instruções de três musas que lhe apareceram nomeio do campo, onde também apascentava ovelhas (observar a semelhança com o relato de Moisés).A autoria do poema é atualmente contestada por especialistas do assunto, mas a origem de toda anatureza como relatada no mesmo é incontestavelmente apenas “poética”. No seu poema, Hesíodonem ao menos foi original, pois se existiam diferenças entre os contos de Moisés e os dele, o planogeral era o mesmo. Em vez do Deus de Moisés, eram três musas falantes, e embora com estóriasdiferentes, o objetivo era o mesmo: explicar como tinham nascido a Terra, os oceanos, as estrelas eos homens. Era, provavelmente, a segunda teoria da gênese da Terra e da sua natureza feita quatroséculos depois da primeira tentativa. As musas contaram a Hesíodo como nasceu a Terra (Gaea) e aerrônea ideia de como ela tinha sido colocada no centro do Universo. Hesíodo dizia em seu poemaque ao princípio era somente o caos escuro, selvagem, onde nasceu a Terra. Foi Gaea que pariu Ura-nus, o céu, as montanhas e o Ponto que era o mar. As coisas se complicam posteriormente, quandoGaea se une ao próprio filho, Uranus, de quem teve outros filhos, inclusive Titã que se rebela contrao pai e o emascula, e reina até o aparecimento de Zeus, etc. Esse método de teorizar sobre a origemda Terra e sua natureza era comum naquele tempo e continua a ser hoje, pois os cientistas persistemem especular sobre o assunto, apenas que mais sofisticadamente: mandam-se ao espaço foguetes esofisticados aparelhos com sensores e telescópios para continuar pesquisando a origem do universo... Os grandes filósofos, cuja influência é sentida até hoje, também discorreram sobre assuntosdiversos da ciência e do comportamento humano, e se aventuravam nas tentativas de esclarecer sobrea origem da Terra, sua forma, seu tamanho e sua natureza. Entretanto, não tinham meios de perceberque a Terra não era o centro do universo como ensinavam os sacerdotes, e isso era um fator compli-cante para o conhecimento. Era a época do Geocentrismo, naquele tempo ainda desconhecido comeste nome. 237
  4. 4. Petróleo e Ecologia: Uma Contestação à Ciência Ortodoxa Ora, se a posição da Terra no universo já era um assunto “resolvido”, segundo se pensava,qual seria a sua forma e o seu tamanho e qual seu material formador? Surgem então ideias mais ou-sadas com a cultura grega do VI século antes da nossa era. Forma, Tamanho e Matéria-Prima da Terra Tales de Mileto6 (624-546 a.C.), matemático e filósofo grego, foi o primeiro a pensar emtermos da natureza. Previu, segundo Herôdoto, um eclipse acontecido a 28.05.585 a.C., que provo-cou a paz entre Medas e Lídios que travavam uma determinada batalha, e por causa disso ganhougrande credibilidade. Provavelmente, foi o primeiro geômetra a estudar a divisão do círculo por seudiâmetro, e atribuía à água a origem de todas as coisas do universo, pois esta existia nos três estadospossíveis da matéria: sólido, líquido e gasoso. Eram as primeiras ideias do nascente materialismo, etinham o mérito de descartar Deus como o autor das coisas, buscando suas causas nos materiais quepodiam ver e pegar. Para ele a Terra era de forma achatada e flutuava sobre um abismo de águas,ideia não muito melhor do que dizia estar a Terra equilibrada sobre quatro elefantes, que por sua vezse apoiavam sobre uma enorme tartaruga; o kosmos (ordem, em grego) e a racionalidade das coisaseram de origem divina, que também determinava o seu fim. Anaximander7 (610-546 a.C.) outro filósofo grego, discípulo de Tales, considerado o fun-dador da Astronomia, também tentou explicações sobre a Terra dentro de uma visão mais científica,dando os primeiros passos do que se chamaria, no futuro, de materialismo. Escreveu tratado deGeografia, Astronomia e Cosmologia, e chegou a fazer um mapa da parte conhecida do mundo atéaquele momento. Suas teorias conservavam a errada posição central e estática da Terra ao centro douniverso, segundo ele, por não haver razão para ela se mover. Criticou a ideia de Tales, sobre a águaser a substância formadora de todas as coisas, pois isso implicaria em uma contradição: uma coisa sertambém o seu oposto. A água era “molhada” por sua própria natureza, e por isso não poderia formarcoisas secas que sem dúvida existiam no mundo. Seu mestre, dizia ele, estava errado! A busca do quepoderia compor as coisas do mundo era o problema a resolver. Como explicar o quente e o frio, secoe molhado, etc.? Surgiu então a ideia de que as substâncias formadoras das coisas da natureza eramquatro: a terra, responsável pelo seco e o frio; o fogo, responsável pelo seco e quente; a água, que res-ponderia pelas coisas frias e molhadas e finalmente o ar, que formaria as coisas quentes e molhadas. Pitágoras de Samos8 (580-500 a.C.), matemático natural da Iônia, foi também o fundador doPitagoreanismo que proclamava que todas as coisas podiam ser baseadas em números (ideia que se-ria enfatizada mais tarde por Galileu); percebeu as relações métricas do triângulo retângulo; melho-rou muito as ideias da astronomia do seu tempo, ensinando que, se a Lua e o Sol eram esféricos comose vê, por que a Terra não teria a mesma forma? Foi ele que inaugurou a aplicação da matemáticaaos fenômenos físicos ao perceber que as notas emitidas por uma corda esticada dependiam de umarazão exata do comprimento da corda. As formas das coisas e figuras foram reduzidas a números,e assim formava-se a ponte entre as experiências físicas e a Matemática. Essa filosofia virá até osnossos dias, distinguindo a Matemática, erroneamente, como uma matéria básica no entendimentoda natureza. O estudo com o auxílio dos números daria a resposta tanto à qualidade como a formados objetos. Apesar da proximidade com números e de seu famoso teorema, Pitágoras cria tambémna transmutação das almas, nas relações com as divindades e que seria capaz de rememorar suaspassadas encarnações, etc., pavimentando o aparecimento do atual espiritismo. O mesmo caminho,isto é, a tentativa de desvendar os mistérios religiosos seria seguida por Newton, muito mais tarde. Parmênidas9, nascido 515 anos a.C. na Grécia, explicava que a existência de todas as coisastinha uma raiz comum que ele chamava de Ser, provavelmente se referindo a Deus, voltando paraas raízes metafísicas implantadas anteriormente pelos religiosos. “O Todo é único e a matéria é 238
  5. 5. Evolução do Conhecimenimutável”, dizia ele anunciando o que foi chamado de “princípio parmenideano”, e justo por isso,considerado o fundador da Metafísica. Foi também o fundador do Eleaticismo, nome derivado deuma colônia grega ao sul da Itália, Elea, cuja base monística fundava-se no pensamento de que Deusera único, estático, puro, eterno, e que não foi gerado por ninguém. Anaxímenes de Mileto10 (545-? a.C.) foi contemporâneo de diversos sábios. Ele esposavaoutra teoria, como todas, muito estranha. Todas as coisas do mundo, dizia ele, tiveram sua origemno ar (era), conforme sua densidade. A mínima condensação era o ar que se respirava, e à medidaque ficava mais denso o ar era percebido na forma de orvalho, umidade, nuvens, até alcançar umadensidade máxima na forma da terra e das rochas. O ar poderia ser divino, formando e sustentandoo Universo, mas poderia ser humano e nesse caso passava a se chamar de alma, responsável pelavida e pelos movimentos. Ele ensinava que o arco-íris era o efeito dos raios de Sol ao atravessar o arcompactado. Observe-se então, que mesmo naquele tempo, havia sábios e “sábios”. Uns tinham coerêncianos seus ensinamentos e conclusões. Outros derrapavam entre o conhecimento e o delírio, já beiran-do a insanidade. Heráclito11 (540-480 a.C.), outro filósofo grego, como Tales, também se aventurou a discu-tir o princípio das coisas, e atribuía ao fogo a origem delas. Achava que o Sol era do tamanho queos habitantes da Terra o viam. Foi o primeiro a dissertar sobre a conexão dos contrários e emitiu oconceito do balanço das forças (ação e reação): a toda ação corresponde outra, que lhe é igual e desentido contrário, conhecida como a 3a Lei de Newton. Diga-se de passagem, que essa lei do balançodas forças opostas já era conhecida muito antes disso pelos chineses (ying-yang). Anaxágoras12 (500- 428 a.C.), sábio da Grécia, nascido na Anatólia, descobridor da verda-deira causa dos eclipses, também explicou a natureza através de uma teoria complicada, onde eleafirmava que todas as coisas tinham aparecido da Razão, algo que existia, mas não tinha explicação.Em Atenas, o centro da cultura científica grega, para onde se mudou, foi acusado de impiedade porafirmar que o Sol era uma rocha incandescente, pouco maior que a região do Peloponeso... Os sucessores desses sábios ampliaram mais a ideia. Além do fogo e da água também eramelementos primordiais o ar e a terra, como visto anteriormente. Para os egípcios, por essa mesmaépoca, os elementos primordiais eram a água, o fogo, a terra, os metais e a madeira. Empédocles13 (490-430 a.C.) foi um poeta, estadista, professor de Teologia e filósofo gregoque aceitava a ideia vinda desde Anaximander, de que todas as coisas do mundo eram formadas pelacombinação dos quatro elementos: ar, água, terra e fogo, e que nada poderia ser criado nem destruído,mas simplesmente transformado segundo as proporções das substâncias fundamentais, antecipando-se, em mais de 1200 anos, a Lavoisier e sua Lei da conservação da matéria. A diferença é que, segun-do Empédocles, havia duas forças antagônicas dominantes, Love (o Amor) e Strife (o Conflito), queinteragiam e formavam ou separavam as quatro substâncias, sustentando a teoria na metafísica, en-quanto Lavoisier dispensaria essa ajuda e calcularia o balanceamento das suas equações, mostrandoque a quantidade de material era a mesma, antes e depois das reações. Empédocles, como Pitágoras,foi um dos precursores da doutrina do espiritismo, pois ensinava que as almas transmigravam deuma pessoa para outra, e que os pecadores tinham de re-encarnar várias vezes para se purificarem. Posição da Terra no Sistema Posteriormente, surge um dos grandes filósofos da natureza: Aristóteles14 (384-322 a.C.),nascido em Stagira, nas vizinhanças da Macedônia, foi o sábio que organizou a pesquisa científica. Foi tutor de Alexandre, o Grande, imperador da Macedônia, e aluno de Platão, outro expoen-te da ciência daqueles tempos. Aristóteles seria o demolidor de muitas das ideias dos seus antepassa- 239
  6. 6. Petróleo e Ecologia: Uma Contestação à Ciência Ortodoxados e contemporâneos, mas em compensação criaria outras por sua conta15 que prejudicaram durantemuitos séculos o progresso da ciência. Ele se opunha a Heráclito dizendo que o Sol era muito maiorque o observado, pois havia uma enorme distância entre ele e nós, por isso parecia tão pequeno. ATerra sim era pequena em face do Universo. Ensinava que além dos quatro elementos formadoresda natureza, havia um outro chamado por ele de quintessência. Aristóteles combateu a ideia de queos rios fluíam de um reservatório dentro da Terra, onde se concentravam as águas das chuvas, dandonova explicação, que seria a semente, tanto dos processos de sedimentação, como do ciclo da água.Isso a um tempo em que se explicava ser a água o suor da Terra, quando a luz do Sol dardejava sobreela, e como todo suor era salgado, e que algum dia o mar secaria devido ao fenômeno da evaporação(ideia semelhante à usada hoje em relação a extinção do petróleo). O mar jamais secaria, contrapu-nha-se ele, pois a água evaporada voltava a Terra em forma de chuva, refutava o sábio grego. Era deAristóteles a conclusão de que a Terra era esférica, como evidenciado pela observação da sombraprojetada na Lua por ocasião dos eclipses, conclusão corroborada pela visão do céu que era diferenteconforme a latitude do observador sobre a Terra, um avanço sobre as ideias pitagoreanas. Se a Terra era de fato esférica como afirmava, o ocaso se dava além das “Colunas de Hércu-les” (Estreito de Gibraltar), e a aurora em algum lugar por trás da Índia. Esse conceito foi usado porColombo, em sua aventura já no século XVI e o levou a chamar as novas terras descobertas de ÍndiasOcidentais, pensando que tinha realmente dado a volta ao mundo. Aristóteles explicava as causasdos terremotos tão erradamente como ainda hoje se faz, e era natural que assim o fosse: os ventosencerrados no interior da Terra, dizia ele, ao passar nas estreitas fendas em seu caminho para o ex-terior, provocavam as vibrações. Os trovões, os raios e as tempestades eram os mesmos ventos, masagora circulando no exterior. As explicações de como se formavam os metais e outras substânciasnão têm qualquer sentido científico, mas devido a sua imensa superioridade de conhecimento sobreas pessoas do seu tempo, passavam a ter um sentido correto e mesmo indiscutível. Mas a pior ideiade Aristóteles foi a explicação dos movimentos. Segundo ele, os movimentos dependiam da forçaexterior que lhes conferia esta qualidade, ideia que só vai ser corrigida 2.000 anos depois por GalileuGalilei. Se cessasse a força não haveria movimento, afirmação que hoje, reprovaria qualquer estu-dante de física primária. Aristóteles morreu 322 anos antes da nossa era, e sua influência de ideiasperdurou por muito tempo e perdura ainda hoje. Pouco depois de Aristóteles surge Aristarco de Samos16 (310-230 a.C.) , astrônomo gregoque trabalhava baseado em cálculos geométricos e o primeiro a contradizer a crença geral de quea Terra era o centro do Universo. Afirmava ele, corretamente, que a Terra girava ao redor do seupróprio eixo e circundava ao redor do Sol. A ideia não soava apenas como absurda, mas era especial-mente uma ofensa aos deuses dos homens, já naquele tempo um problema herético grave. Um dessesguardiões da fé naquele tempo, Cleanto, o Estóico, provavelmente enciumado do conhecimento deAristarco, chegou a sugerir que ele fosse acusado de impiedade, uma reação aos que se opunham aosdogmas religiosos sobre a criação do mundo, vigente naquele tempo (o castigo para a impiedade eraa morte pelo fogo). Foi Aristarco que mediu pela primeira vez as distâncias da Terra ao Sol e à Lua,além de medir o ano solar, evidentemente com erros, devido a imprecisão do método. Grande contribuição ao conhecimento da natureza da Terra foi dada por outro astrônomo ematemático grego chamado Hiparcos17, morto 125 anos antes de Cristo. De seus estudos nasceu oconhecimento da “precessão dos equinócios”, o aperfeiçoamento da medida do ano solar, calculadopor Aristarco, mas com o erro reduzido para 6,5 minutos, além do primeiro catálogo estelar e as pri-meiras formulações da trigonometria. Sábio que era incorria no erro comum daquele tempo, ou seja,continuava a raciocinar com o sistema geocêntrico, apesar das ideias novas sobre o assunto deixadaspor seu predecessor Aristarco. As dificuldades complicadoras da teoria deviam-se a tentativa de explicar os movimentos 240
  7. 7. Evolução do Conhecimenrealmente excêntricos dos planetas ao redor do Sol, em órbitas circulares ao redor da Terra. Acaboupor demonstrar que um círculo excêntrico equivale, matematicamente, a uma figura geométrica com-plicada chamada de sistema epicíclico/deferente provavelmente já pesquisada um século atrás pelomatemático grego Apolônio de Perga, que aceitava a mesma teoria, evidentemente sem resolver oproblema. O sistema geocêntrico e suas consequências eram o resultado dos primeiros passos da cam-baleante ciência pelo terreno da cultura religiosa, mais fácil de impor, que afirmava que Deus teriafeito a Terra e nela colocado o homem. Este lugar, importante que era, raciocinavam seus adeptos,só poderia ser o centro de um círculo (outra forma perfeita da natureza), ao redor do qual giravamtodos os outros astros que podiam ser observados durante a noite. Hiparcos também foi acusado deimpiedade ou de heresia por ter feito o primeiro mapa estelar com 850 estrelas e seus brilhos aparen-tes classificados em seis magnitudes, como é usual até hoje. Ainda por essa época desponta outro grande nome da ciência. Eratóstenes, de Cyrena18 (276-194 a.C.), poeta, cientista e astrônomo, o primeiro a calcular outro dos parâmetros importantes daTerra. Se ela era esférica, raciocínio que vinha desde Pitágoras (seis séculos a.C.) e Aristóteles (qua-tro séculos a.C.), qual seria a sua circunferência? Raciocinando em termos do paralelismo dos raiossolares e os ângulos destes com as verticais de dois lugares da Terra distantes entre si por uma dis-tância conhecida no mesmo meridiano, pôde ele determinar (com o auxílio de uma proporção) o raioterrestre, e daí a sua circunferência, errando por pouco (15% para mais em relação a atual medida). Pouco a pouco, nos detalhes, separados por intervalos de tempo muito grandes, os homensmais curiosos e mais corajosos, diante dos castigos divinos prometidos pela Igreja, iam conseguindodesvendar os segredos da Terra. De modo geral os resultados eram sofríveis e não se podia esperarque fossem corretos desde que a técnica para obtê-los era incipiente, mas progredia-se. A virtude aser admirada era a coragem de enfrentar o terror imposto pela ignorância, exercido pela igreja, queteimava em transformar as forças da natureza em forças divinas para explicar os fenômenos geológi-cos. Um século e meio já na “era cristã” surge outro expoente da ciência chamado Claudius Pto-lomeu, de Alexandria19 (127-145 d.C.). Ele organizou todo o conhecimento que se tinha da Astrono-mia até aquele tempo e os condensou em uma coleção de treze livros, cujo título, por corruptelas detradução chegou até nós com o nome de Almagest. No seu trabalho sobre Astronomia e Matemática, o cientista compilou o que já se conheciasobre a Astronomia vinda da escola grega, e confirmou em seus livros a errada posição central daTerra no sistema, fundando com isso o que ficou conhecido como Sistema Geocêntrico ou SistemaPtolomaico. A obra de Ptolomeu foi traduzida para o árabe, em 827 d.C., e para o latim no século XII,influenciando, pesadamente, tanto os povos do oriente como os da Europa, isto é, em quase todo omundo conhecido. Em resumo, as ideias religiosas de Moisés e Hesíodo, e as incipientes ideias científicas dePlatão, Aristóteles, Aristarco e outros, passaram intactas da era pré-cristã para a nossa, e todo esseconjunto de conhecimento plasmou, influenciou e em muitos casos engessou a ciência durante qua-torze séculos. O interesse geral dos cientistas e religiosos era conhecer a origem do mundo e do ho-mem, isto é, dar uma resposta aos fatos, e explicar o funcionamento da natureza. Cada um tinha umamaneira de dar a solução do problema e elas acabaram por se contrapor: cientistas a pesquisar semmeios para fazê-lo, dando respostas parciais e incompletas e os religiosos a transformar as formas eforças da natureza em obras de deuses criados na sua imaginação. De permeio havia alguns que ten-tavam conciliar as duas coisas: ver ciência nos contos bíblicos ou ao contrário, fazer ciência dentrodos cânones religiosos, postura que se projeta até hoje. O panorama científico existente no mundo até a metade do século XVI era regido pelas anti- 241
  8. 8. Petróleo e Ecologia: Uma Contestação à Ciência Ortodoxagas ideias de Ptolomeu: a Terra era o centro do Universo, e ao redor dela giravam os corpos celestes.Surgirão outros nomes ao longo do tempo que vão mudar esse panorama. Da Renascença até Isaac Newton O que se pode notar é que, a despeito da oposição da Igreja, os mais curiosos continuavama procurar as suas respostas. Mesmo intuitivamente, tentava-se uma explicação das coisas ao redor.Pitágoras, fora seus magníficos ensaios matemáticos, sugeria reencarnações e a crença nos espíritos.Na Grécia há deuses para tudo e todos, dos quais dependem as coisas deste mundo. O geocentrismo vindo desde Aristóteles, 400 anos a.C. firmou-se com o Almagest de Clau-dius Ptolomeu, prosseguiria até Copérnico, em 1543, quando a Terra deixa de ser o centro do univer-so, seguido de Kepler, em 1609, que mostra que o movimento da Terra, ao redor do Sol, não é umcírculo, mas uma elipse com o Sol em um dos focos. Terminada a ideia do geocentrismo, que ficaria pelo caminho descartada por melhores ob-servações astronômicas, havia uma segunda ideia que, daquela época até hoje, não foi e não estácompreendida, e se mantém encastoada nos problemas científicos de maneira prejudicial, como sefosse uma obra das divindades. Trata-se da existência do homem, de onde ele veio e para onde iráquando morrer. O desconhecimento da origem da vida faz do homem, até hoje, a imagem e semelhança deDeus, com o sopro divino nas narinas e com a autoridade de dominar, tanto o âmbito da família, comosobre toda a Terra, e as coisas nela existentes. É sobre este pano de fundo que acontece o chamadoRenascimento, caracterizado por um salto em todos os ramos da ciência, e uma revolução sobre asideias vigentes: a substituição do sistema geocêntrico pelo heliocêntrico, na astronomia; a invençãoda imprensa, do papel, da bússola e da pólvora; as grandes navegações, o descobrimento de novasterras, além de novos estilos nas artes e nas letras marcaram a reviravolta na mentalidade humana.Surgia o Humanismo como uma revolta no pensamento dos homens seculares contra a enclausuranteortodoxia religiosa, por um novo estilo de vida e nova concepção da natureza. Essa revolta atinge aestrutura da própria Igreja que sofre o efeito da quebra da sua hegemonia sobre o pensamento daspessoas. É Martinho Lutero o grande herói no início do século XVI. Vejamos a repercussão dessasnovas ideias nas ciências geológicas. A Reforma A Reforma protestante, no início do Século XVI, chefiada por Martinho Lutero20 (1483-1546), é considerada como o primeiro grande salto do pensamento medieval para o Renascimento. AReforma de Lutero quebraria o poder hegemônico e cruel da Igreja. Esta percebeu, naquele tempo,aquilo que ainda hoje continua a ser o motivo principal da cobiça humana: a riqueza é uma coisamuito boa para quem tem o dinheiro. Nada mudou de lá pra cá. As igrejas, mesmo as reformadas etodo o seu gigantesco leque de variedades continuam a praticar a mesma filosofia. Naquele tempo,na busca incessante de dinheiro e riqueza, foi produzido um documento chamado “Instructio Sum-marium” , pelo bispo de Mainz e Brandenburg, com instruções completas para todos os padres dosterritórios dominados de como vender melhor as indulgências. Lutero teve acesso ao documento edaí preparou um contra-ataque com suas 95 teses, com as quais preparou o seu “Sermão da Indulgên-cia” em uma linguagem popular, estopim que estouraria o poder, dividindo a igreja católica, surgindooficialmente, em 1529, o Protestantismo. A grande vantagem desse cisma foi o salto qualitativo parauma nova espécie de liberdade que, mesmo limitadamente, guiaria até os novos cientistas daqueletempo: Copérnico, Bruno, Kepler, Galileu e Newton. Sob o ponto de vista geológico foi a revolução 242
  9. 9. Evolução do Conhecimenmais importante de todas. De agora em diante, podia-se pensar sem a interferência do freio castranteda Igreja. Esta responderia com as crueldades da Inquisição. Astronomia Entre a segunda metade do século XVI e a primeira do XVII viveram quatro homens geniais:Giordano Bruno, Johannes Kepler e Galileu Galilei que foram precedidos por Nicolau Copérnico esua revolução sobre a posição do planeta no sistema, iniciada com a publicação do De Revolutio-nibus Orbium Coelestium, em 1543. Esta obra de Copérnico, embora ainda com erros, inaugura oheliocentrismo. O Sistema Heliocêntrico Nicolau Copérnico21 (original polonês, Mikolaj Kopernik, 1473-1543), natural de Torun,Polônia, torna pública a sua ideia do heliocentrismo, primeiro em forma de um sumário manuscrito- Commentariolus - depois em forma mais completa no ano da sua morte, em 1543. Tenha-se em conta que, nos quatorze séculos entre a proposição geocêntrica ptolomáica e orenascimento da ideia heliocêntrica de Aristarco, através de Copérnico, a explicação dos movimentosdos corpos celestes foi se complicando cada vez mais, só porque as observações eram feitas da Terra,como se ela fosse o centro dos movimentos. Além disso, havia um número cada vez maior de obser-vadores e consequente maior número de planetas e estrelas sendo descobertas no céu, dificultando aexplicação do conjunto de movimentos. Outra característica interessante para o pesquisador diz res-peito ao progresso da ciência que era, contraditoriamente, impulsionada pelos elementos da própriaigreja, desde que era dentro dela que havia os melhores estudantes, bibliotecas e tempo disponívelpara aqueles estudos. Copérnico estudou na universidade, em Cracóvia, transferindo-se mais tardepara Pádua, na Itália, voltando à Polônia em 1503, passando a residir em Frauenburg, onde, em 1497,fora eleito cônego da catedral daquela cidade, posição esta que lhe garantiria a sobrevivência daí pordiante. As observações de Copérnico tinham começado exatamente em 1497, e quanto mais estudavamais inconformado ficava com as dificuldades apresentadas pelo sistema ptolomáico. Para Copérnico, o centro do sistema era o Sol e os planetas giravam ao seu redor, em círculos(este era o erro!), característica esta, que também não satisfazia os movimentos observados. Essa dificuldade ele tentou explicar criando o equant, (um ponto no espaço de onde os mo-vimentos circulares poderiam ser observados perfeitamente), mas mesmo assim, continuavam asdificuldades. Alguma coisa tinha melhorado na elegância da apresentação e resolução de algumasquestões importantes, mas outras continuavam complicadas na compreensão geral. A perfeição docírculo, como obra de Deus, mesmo colocando o Sol ao centro do sistema, atrapalhava muito. No século XVI surge Tycho Brahe (1546-1601), outro grande cientista, especialmente dotadode paciência na observação, munido de instrumentos muito mais potentes e sofisticados que os usa-dos até então. Tycho fez milhares de observações e acabou por descartar os dois principais sistemasexplicativos até aquele tempo, criando um terceiro que ficou conhecido como Sistema Tychônico.Tal sistema conservava a Terra no centro, uma herança da cultura grega condensada no Almagest dePtolomeu, mas os outros planetas giravam ao redor do Sol, relembrando Copérnico e sua revolução.Era uma espécie de meio termo, e por isso mesmo, também insatisfatório. Lentamente iam surgindo as ideias geniais. Giordano Bruno23 ou Filippo Bruno, Il Nolano(1548-1600), filósofo, astrônomo e matemático italiano, nascido em Nola, nas vizinhanças de Nápo-les, cujo nome foi tomado quando se tornou clérigo no convento napolitano de São Domingos. Viveua vida do convento durante dez anos e lá estudou até doutorar-se em Teologia. 243
  10. 10. Petróleo e Ecologia: Uma Contestação à Ciência Ortodoxa Mas também estudou com afinco a cultura e a filosofia grega. Criticou a filosofia aristoté-lica e seus seguidores, mostrando que os movimentos não poderiam ser comandados por algo quefosse estático. Nada é imóvel, inclusive a Terra, dizia ele, ao contrário do que proclamava a religião.O Universo não é finito e limitado, mas infinito e ilimitado. A Terra não é o centro do Universo24 eexistiriam outros mundos habitados como o nosso. A mente humana seria idêntica a mente divina,e o homem poderia penetrar e entender toda a natureza, sendo essa uma obrigação, não somente deordem moral, mas também cognitiva. Era um homem fora do seu tempo. A meditação sobre esses assuntos provocou admoestações de seus superiores e afastou-opouco a pouco da ortodoxia católica, sendo afinal processado por heresia. Começa então uma vidade fugas. Inicialmente foi para Roma, em seguida para Suíça e depois para a França. Em Berna,professou o calvinismo, uma variedade do protestantismo, onde verificou que qualquer religião étão despótica e castrante como qualquer outra, e abandonou também a seita protestante. Escreveumuitos livros que fizeram escola, e morreu na fogueira da Santa Inquisição, em 1600. Até agora nãofoi reabilitado. Finalmente, no fim do século XVI, surge Johannes Kepler25 (1571-1630), astrônomo alemão,que após ter publicado um trabalho sobre observações celestes quando era professor de matemática eretórica em Graz, Áustria, foi convidado por Tycho Brahe para ser seu assistente no observatório dePraga. Com a morte de Tycho, em 1601, Kepler foi o seu substituto natural e assim, apoiado nospacientes e precisos trabalhos do dinamarquês, Kepler chegou às, hoje famosas, Leis de Kepler, dan-do precisão matemática e colocando ordem na posição e no funcionamento dos corpos celestes pelasolução dada aos movimentos do planeta Marte, mistério que preocupou todos os astrônomos antesdele. O movimento do planeta era estranho, pois se fazia em uma direção, era interrompido, isto é, oplaneta “parava’, “retrocedia”, “parava” de novo e retomava seu curso “normal”. Kepler mostrou queisto era o resultado de observar-se o movimento do planeta como se a Terra fosse o centro do sistema.Esta nova visão modificou toda a concepção do sistema solar. As órbitas não eram mais circularescomo pensava Copérnico, mas elípticas, e o Sol está em um dos focos; a velocidade do movimentodos planetas não é constante; constante é a área varrida pelo raio que une o planeta ao Sol (áreasiguais em tempos iguais); o quadrado do tempo que um planeta gasta para dar uma volta ao redor doSol é proporcional ao cubo do raio médio da sua órbita. As duas primeiras leis apareceram em 1609 e a terceira quase dez anos depois, em 1618. Elasnunca foram numeradas por Kepler, mas faziam parte de uma coleção de muitas outras descobertasfeitas pelo grande pesquisador. Ele formulou tabelas como as Rudolphine Tables26 para predizer a posição dos corpos celes-tes; tabelas de refração e de logaritmos; fez um mapa com 1.005 estrelas com a ajuda das observaçõesde Tycho Brahe e inventou o telescópio kepleriano, a semente do moderno telescópio refrativo. Galileu Galilei27 (1564-1642) foi contemporâneo de Bruno e Kepler. Ele modificou toda aconcepção aristotélica dos movimentos, e usando o telescópio de uma maneira prática demonstrou omovimento dos planetas e satélites. Nascido em Pisa28 fez seus primeiros estudos no Monastério de Vallombrosa, entrando paraa Universidade de Pisa para estudar medicina. Na Catedral daquela cidade, diz a história, observandoos movimentos de uma lâmpada notou que tais movimentos gastavam o mesmo intervalo de tempopara realizar uma oscilação completa, a despeito do tamanho da oscilação. Ao regressar à sua casa, passou a verificar o fenômeno experimentalmente e concluiu queaqueles movimentos podiam ser adaptados para regular os relógios. Daí em diante passou a estudarmatemática, geometria e ciência. Em 1586, publicou um trabalho sobre a balança hidrostática que otorna famoso em toda a Itália. Três anos depois sai o tratado sobre o centro de gravidade dos sólidos, 244
  11. 11. Evolução do Conhecimene ganha com isto o cargo de professor de matemática ainda na Universidade de Pisa, onde começasuas pesquisas sobre o movimento dos corpos. Descarta como princípio que a queda dos corpos de-penderia do seu peso e do material de que era formado, como ditava a sabedoria aristotélica desdeantes da era cristã. Dificuldades financeiras levaram-no a Pádua, onde desenvolveu grande parte de suas pesqui-sas sobre o movimento dos corpos, de onde concluiu a lei sobre o movimento acelerado. Em 1609 éque inicia a aplicação prática do uso do telescópio mostrando que era possível ver objetos a grandesdistâncias, como os navios mar a fora. Deu prosseguimento às experiências com maiores e melhoreslentes, por ele mesmo construídas, voltando-as para o céu. Desse ponto em diante completa-se a revolução iniciada pela imaginação de Copérnico.Galileu descobre, para desespero do clero, que a Lua não era perfeita, como se tinha impressão quan-do observada da Terra, mas tinha uma superfície irregular cheia de montanhas; descobre que a ViaLáctea é formada por milhões de estrelas; descobre os satélites de Júpiter; observa as manchas nasuperfície do Sol, os anéis de Saturno e as fases de Vênus. Tudo o que observou levava a um pontocomum: o conhecimento ptolomaico/aristotélico deveria ser descartado, pois atrasava o conhecimen-to científico da Terra, dos movimentos, da Astronomia, etc. Em outras palavras, todo o conhecimentoadquirido até aquele momento deveria ser zerado para começar tudo de novo. O sistema de Copérnico era melhor e deveria ser usado como a estrutura funcional do Uni-verso. Galileu escrevia em italiano e por isso seus trabalhos tornaram-se muito populares. Isso pro-vocou um grande movimento de opiniões favoráveis e desfavoráveis a Galileu. A Igreja, a princípio,comportou-se com tolerância, mas entre os cientistas houve muita má vontade, ciúmes e despeito,pois eles não admitiam que seus conhecimentos e cultura estivessem errados, como demonstravaGalileu. Os contrários às novas ideias então arquitetaram um plano para vingança, uma vingança vil.Demonstraram aos homens do clero que as teorias de Galileu contrariavam os evangelhos e levan-taram suspeitas contra ele. Os padres descarregaram seus sermões dos púlpitos contra o cientista eacabaram por denunciá-lo à Inquisição pelas suas blasfêmias. A teoria não deveria ser rejeitada porestar errada, mas porque contrariava os evangelhos! Essa disputa provocou, em 1616, um decreto porparte da igreja onde se pretendia combater e erradicar o copernicalismo, como ficariam conhecidasas ideias do heliocentrismo. Houve reação por parte do clero. “Proposições a serem proibidas: que o Sol é imóvel ao cen-tro do Universo; que a Terra não esteja no centro dos céus e não seja imóvel, mas se mova com doistipos de movimento.” Isto é, a Igreja, por meio de um decreto, parava a Terra ao centro do Universo e fazia o Solgirar ao redor dela. Galileu foi considerado mais pernicioso do que Lutero e Calvino, pela Igreja Católica, quejá tinham feito as reformas protestantes (1529) com isso cometendo ela um erro de avaliação. Oprincipal golpe na autoridade totalitária da igreja daquele tempo foi, sem dúvida, a revolução doProtestantismo. Galileu foi especificamente proibido de falar sobre o copernicalismo sob qualquer pretexto ede qualquer forma, sob pena de enfrentar as sanções do Santo Ofício, o que finalmente veio acontecerquando foi acusado de heresia, sendo em seguida julgado e condenado à prisão domiciliar perpétua. Galileu, para não fugir à regra, não levou as leis de Kepler, seu contemporâneo, na devidaconta, o que o impediu de formular a lei da inércia. Ele, como Copérnico, só aceitava o movimentocircular como o movimento correto para corpos que giravam ao redor da Terra e do Sol, o que de fatoo impediu de formular a lei da gravitação universal, antes de Newton. Realmente foi Galileu que formulou a força como um agente mecânico e fez a ligação entrea física e a matemática, antes dele duas ciências independentes, deixando para Newton a precisão decálculos e fórmulas. 245
  12. 12. Petróleo e Ecologia: Uma Contestação à Ciência Ortodoxa Uniu as ciências celestiais com as terrestres e enfatizou que “O livro da natureza está escritoem caracteres matemáticos”, princípio hoje contestado por evidências geológicas e estratigráficas29. A queda dos corpos, o equilíbrio e movimentos dos corpos em um plano inclinado e o movi-mento de projéteis são frutos de suas observações e experimentações. Ele usou todos os argumentos possíveis para convencer os do seu tempo, que era mais lógicoconceber novos princípios sobre o sistema solar, modificando os velhos e obteve grande sucesso porisso, menos por parte de seus colegas e da Igreja que, por essa altura apertava o cerco e as cravelhasdos que ousavam enfrentar seus dogmas. Galileu foi traído por um falso amigo e teve de enfrentar a Inquisição, e se escapou da fo-gueira, não conseguiu escapar da prisão domiciliar a que foi condenado, tendo assinado antes30: “Eu, Galileu Galilei...tendo diante dos meus olhos e tocando com as minhas mãos os Santos Evangelhos - juro ter sempre acreditado, acreditando agora, e com a ajuda de Deus irei acreditar no futuro, em tudo o que é admitido, pregado e ensinado pela Santa Igreja Católica Apostólica Romana. Entretanto, uma vez que uma injunção foi judicial- mente sentenciada à minha pessoa por este Santo Ofício, no sentido de que eu deva, de uma vez por todas, abandonar a opinião falsa de que o Sol seja o centro do mundo e imóvel, e de que a Terra não seja o centro do mundo e se mova, e de não poder susten- tar, defender ou ensinar, sob qualquer forma que seja, verbalmente ou por escrito, a dita doutrina e, ainda, que eu, mesmo após ter sido notificado de ser a dita doutrina contrária às Santas Escrituras - tenha escrito e feito publicar um livro no qual essa doutrina, de antemão condenada, é, não só discutida, como, também, fortalecida com argumentos de grande coerência em favor da mesma, sem, no entanto, apresentar nenhuma solução para os mesmos; e assim, por esta causa eu tenha sido pronunciado pelo Santo Ofício como altamente suspeito de heresia, isto é, ter sustentado e acreditado ser o Sol o cen- tro do mundo e imóvel, e a Terra não ser o centro e se mover. Portanto... desejoso de remover das mentes de Vossas Eminências... ... esta forte suspeita contra mim... com inquebrantável fé eu abjuro, rejeito e detesto os erros e heresias acima mencionados... ... e além disso, se vier a tomar conhecimento de algum herege, ou pessoa suspeita de he- resia, eu a denunciarei ao Santo Ofício... ...E, na eventualidade de eu vir a desobedecer (que Deus não mo permita!) a qualquer uma dessas promessas, protestos e juramentos, submeto-me a todas as dores e penalidades impostas e promulgadas nos cânones sagra- dos... ...contra tais delinquentes.” A reabilitação de Galileu em novembro de 1992, 359 anos depois de ser condenado à pri-são perpétua para não ser queimado vivo, constitui apenas um segundo erro cometido pela Igreja,que não reabilitou todos os que sofreram a perseguição dos Torquemadas (Tomás de Torquemada;1420-1498) e Savonarola (Girolamo Savonarola; 1452-1498) e outros representantes da fúria papaldaquele tempo. Hoje continua a cometer os mesmos erros: o exercício da pedofilia nos conventos,ao mesmo tempo que, com falsa moral, combate o aborto entre seus fiéis e o uso dos preservativosno combate à AIDS, além do exercício do homossexualismo dentro dos conventos. Mais grave aindaquando se coloca como um obstáculo instransponível contra o avanço da ciência, como é o caso daspesquisas com células-tronco. O processo contra Galileu, a fogueira em que foi transformado Bruno, as torturas infligidasa Campanella e outros atos de barbaridade cometidos contra a população de modo geral, amedron-taram os pesquisadores das bordas do Mediterrâneo e as pesquisas científicas se deslocaram para onorte da Europa. 246
  13. 13. Evolução do Conhecimen No mesmo ano que morreu Galileu, nasceu Isaac Newton31 (1642-1727), físico e matemáticoinglês, cujos trabalhos se espalham por quase todos os campos da ciência, todos ligados por observa-ções e aplicações de fórmulas matemáticas extraordinárias. Astronomia, Biologia, Mecânica Celeste, Ótica, Filosofia e Teologia são alguns dos ramosonde Newton desenvolveu estudos de grande influência para a posteridade. Para o conhecimento daTerra e do sistema solar produziu alguns trabalhos definitivos. Baseado nas leis de Kepler e Galileu, Newton compreendeu e transformou em fórmula ma-temática a lei básica da natureza: a gravitação ou força gravitacional. De fato até aquela época, jáconhecida a forma dos astros e a estrutura do sistema, faltava conhecer como eles giravam isoladosno espaço ao redor de si mesmos e os planetas ao redor do Sol. Que os mantinha unidos? Por que nãose deslocariam em linha reta espaço a fora segundo a lei da inércia? Tudo o que se aprendera desdeAristarco de Samos, passando por Copérnico, Tycho, Kepler e Galileu foi condensado por Newton,em 1687, de maneira simples e extraordinária em Philosophiae Naturalis Principia Mathematica: aforça gravitacional, que mantém a mecânica e o equilíbrio dos corpos, sejam ou não celestes, depen-de da razão do produto da massa dos mesmos pelo inverso do quadrado da distância que os separa. A explicação mecânica do movimento dos corpos fora resolvida. As três leis que governamos movimentos ficaram estabelecidas e foi possível compreender, com clareza, o comportamento daTerra e seu satélite ao redor do Sol, bem como de todo o sistema. Já na Civilização do Petróleo, noSéculo XX, foguetes, estações espaciais e satélites de comunicação giram, flutuam ou estacionam aoredor do planeta como resultado dos estudos desse extraordinário cientista. Um planeta obedece as leis dos movimentos, mas são atraídos constantemente por uma forçaque ele chamou de gravitas, uma palavra do latim antigo que quer dizer peso. Como sempre, houve resistência por parte dos cientistas da época em aceitar o princípioda ação de uma força invisível que se exerceria a distância, e na época, ele, Newton, chegou a serridicularizado pela ideia da gravitação30. Os cientistas mais jovens, entretanto, fizeram de Newtonseu modelo e dentro de uma geração, quando os cargos de professores nas principais universidadesinglesas foram ocupados por esses jovens, as ideias da gravitação foram aceitas e permanecem atéhoje. Newton escreveu outros trabalhos sempre procurando encontrar explicações para a natureza doUniverso: Física (Opticks, 1704), Matemática (Arithmetica Universalis, 1707), Filosofia e Teologia,e morreu em 1727. O Telescópio Antigamente, à vista desarmada, a observação dos astros e estrelas, satélites e galáxias erafeita com a mesma sensação que qualquer um de nós tem ainda hoje. Havia de fato uma barreira paraque melhores observações fossem feitas: as distâncias. Os curiosos daquele tempo necessitavam deum instrumento que auxiliasse os olhos para prosseguir pesquisas e distinguir detalhes onde pode-riam estar as respostas para muitas perguntas. O resultado dessa falta de técnica e instrumentos eraa especulação imaginativa sobre problemas desconhecidos, exatamente como faziam os filósofosaristotélicos e como continuam fazendo hoje alguns dos modernos cientistas e, os daquele tempo,naturalmente, não podiam passar disso. O instrumento necessário para cobrir esta lacuna estava emgestação: o telescópio. O aparelho seria usado para ver objetos à distância ou, diminuir a distância adeterminado objeto, para melhor observá-lo. O nome deriva do grego tele (distância) e skopein (ver). Por ser um instrumento que usa lentes, sua história se confunde com a do vidro e do micros-cópio. Os vidros e seu comportamento eram conhecidos de há muito tempo. As lentes se tornaramnecessárias à leitura de livros após o aparecimento da imprensa no século XV e mesmo para me-lhorar a visão das coisas triviais. Diz a história que foi o holandês Hans Lippershey que inventou o 247
  14. 14. Petróleo e Ecologia: Uma Contestação à Ciência Ortodoxatelescópio em 1608. Entretanto, em 1609 já haviam muitos telescópios a venda tanto em Paris comoem Londres, tanto na Itália como na Alemanha. A verdadeira origem do instrumento não é um pontocrucial para a discussão da história da Terra, mas o uso que dele se fez para o referido estudo. FoiGalileu, depois de receber a informação sobre o novo aparelho, que teve a ideia de construir o seupróprio telescópio segundo as leis básicas da ótica, com um poder de aumento de apenas três vezes evoltá-lo para observar os astros no céu. Montou ele em um tubo de cobre, duas lentes, uma côncavae a outra convexa e a partir dessa primeira experiência, melhorou o tamanho e o polimento das suaslentes, chegando a usar lentes de 4,5 centímetros de diâmetro com aumento de 33 vezes. Foi com umaparelho desses que Galileu descobriu que a Lua não era perfeitamente lisa como se pensava, mastinha montanhas e vales maiores que os da Terra; viu os satélites de Júpiter; mostrou que Vênus tinhafases parecidas com as da Lua e que a Via Láctea era formada de milhões de estrelas. A partir desseponto é que se tornou um defensor da teoria heliocêntrica de Copérnico e quase morreu queimado,como relatado. Foi somente a partir da possibilidade dada pelos telescópios que se pode compreendera verdadeira natureza dos movimentos planetários a partir das observações de Tycho Brahe, Keplere Newton. Depois do telescópio galileano, surgiram vários melhoramentos como o de Kepler, ondea lente ocular é convexa e colocada atrás do foco. Em 1640, William Gascoigne33 adapta o micrômetro que servirá para medir os diâmetros dosplanetas e localizar com precisão a posição dos planetas, do Sol, da Lua e das estrelas. As aberraçõescromáticas foram obstáculo até 1758, quando Peter Dollond (1730-1820), baseado nas ideias deChester Moor Hall34 (1703-1771), inventou as lentes acromáticas, a partir de quando a Astronomiatoma um grande impulso, na segunda parte do século XIX. Já em 1663, James Gregory35 (1638-1675), matemático escocês, tinha sugerido uma novaespécie de telescópio que foi chamado de refletor, uma alternativa aos refratores, pois a luz seriarefletida e não refratada, evitando o fenômeno da aberração cromática. Naquele tempo não havia polidores com habilidade bastante para polir espelhos e que pu-dessem construí-los com perfeição. Esse obstáculo foi ultrapassado em 1672 por Newton que sededicou a fazer o espelho de metal com uma liga de estanho e cobre que instalou em seu telescópioapresentado a Royal Society naquele ano. De 1740 em diante os telescópios refletores foram muito usados e ficaram famosos com ostrabalhos de Sir William Frederick Herschel36 (1738-1822), o descobridor do planeta Urano, em1781, e por isso chamado o “Pai da Astronomia Estelar”. Urano foi descoberto com um refletor de18 cm, mas Herschel, que construía seus espelhos e telescópios, chegou a construir espelhos de 48 ede 122 cm, em 1789. Posteriormente apareceram os espelhos recobertos de prata até o aparecimento dos telescó-pios Schmidt em 1930, os quais incorporavam as vantagens tanto dos telescópios refletores, comodos refratores, permitindo fotografias de áreas do céu, muito maiores que as colhidas pelos outrostelescópios. Em 1948 passa a funcionar o refletor de 5 metros de diâmetro no Monte Palomar naCalifórnia, EUA, que junto com o Observatório de Monte Wilson, formam os Observatórios Haleem homenagem ao astrônomo americano George Ellery Hale37 (1868-1938). O telescópio de MontePalomar foi o maior refletor do mundo até 1976 quando foi completada a construção do Observatóriode Monte Pastukhov, nas montanhas caucasianas, onde foi montado um refletor de 6m de diâmetropelos cientistas ainda da antiga URSS. Atualmente já estão em funcionamento, no hemisfério sul, os observatórios de Paranal e LaSilla, ambos nos Andes chilenos, patrocinados por uma comunidade de paises europeus (ESO). EmParanal, foram construídos quatro supertelescópios de 8,2m de diâmetro cada um, os quais funcio-narão com um interferômetro, que reunirá a luz provinda de um astro, equivalendo a um espelho de16m. Isso equivale ao maior telescópio jamais construído e que permitirá colher imagens mais dis- 248
  15. 15. Evolução do Conhecimentantes, quando comparadas aos atuais observatórios. Praticamente na última década do século XX,entram em cena os foguetes transportadores de engenhos capazes de fotografar e transmitir de volta,milhares de informações, quer pousando diretamente na superfície dos planetas, quer passando aolonge. Entre o telescópio de Galileu, que ampliava apenas três diâmetros construído no início do sé-culo XVII (c.1609) e os observatórios da ESO (European Southern Observatory), em Cerro Paranal(Andes chilenos) e seu interferômetro e os observatórios volantes enviados a Vênus (US Magellan)para mapeamento da sua superfície com radar; os Voyager 1 e 2, enviados na direção dos planetasexteriores em 1989, o programa Discovery iniciado em 199338 e o lançamento do Hubble SpaceTelescope (HST) em um “Shuttle Space Discovery “em 1991, que tem capacidade de resolução 10vezes maior que qualquer telescópio montado na Terra, existe uma distância temporal de quase 400anos, e, fora das especulações dos cientistas atuais, estamos longe de compreender como foi o iníciodo universo e como será o seu fim. De fato, fora das naturais especulações, nada se sabe ao certo sobre a Terra que habitamos;da Lua, nosso satélite natural; dos planetas mais próximos, e nem pensar sobre os mais distantes.Precisaremos de maiores e melhores aparelhos... para continuar exatamente no mesmo ponto ondeestamos, especialmente por falta de objetividade das pesquisas. A observação é válida: desde os tempos mais antigos, a espécie humana, depois de determi-nado estágio de consciência, levantou e manteve a curiosidade sobre a origem do planeta que habi-tava e sobre a sua própria origem. As primeiras especulações sobre o assunto tinham de ser deístasem virtude do próprio atraso técnico e científico natural daqueles tempos. Os sábios e filósofos daAntiguidade tinham como caminho mais fácil as explicações sobrenaturais e metafísicas. Moisés eHesíodo são exemplos desse tipo de “cientistas” se assim pudéssemos chamá-los. Entre as especula-ções desses poetas (1400-1200 a.C.) e as conclusões dos estudos de Copérnico (1543 d.C.) vão maisde 2900-2700 anos. Mais setenta anos de observações e estudos desembocam em Kepler e as leisdos movimentos dos astros (1609). Em 1632 é Galileu que publica suas observações e comparaçõesentre os dois sistemas celestiais, descartando um deles, e em 1687, apenas 50 anos decorreram atéque a publicação do Principia de Newton desse as fórmulas e leis definitivas para que a ciência sedesenvolvesse de maneira mais coerente. Notável é o encurtamento das distâncias temporais gastaspara que pudéssemos entender a correta estrutura geral do Sistema. À medida que o homem ganhoumais liberdade (Revolução de Martinho Lutero), destruiu ideias velhas, sobre elas construindo outrasmais novas e mais simples. De Isaac Newton até Lamarck Mas, se havia os que buscavam o ordenamento do Sistema Solar, sua forma e movimentos,havia os homens que estudavam os fenômenos existentes aqui mesmo na superfície do globo, comociências inteiramente separadas. Não há pontos definidos onde haja começado este ou aquele uso, esta ou aquela observação,mas é possível imaginar que nas diversas regiões onde apareceu o homem, tenha aparecido tambémos curiosos e especuladores sobre como usar melhor os objetos que ocorriam nas suas vizinhançaspara melhorar o seu dia a dia, dentro da ordem natural das coisas. O fogo é anterior à existência dohomem, mas o uso do fogo para cozimento, aquecimento, desmatamento, preparação de terras paraplantações, etc., certamente é posterior ao seu aparecimento. Ninguém distinguia ou conhecia o que era combustível e comburente, se havia ou não umgás chamado oxigênio; o conhecido eram os efeitos do fogo e as transformações que se operavampelo seu uso, a despeito da teoria de apoio. Não foi de outra maneira que surgiu a alquimia, que pre- 249
  16. 16. Petróleo e Ecologia: Uma Contestação à Ciência Ortodoxacedeu a moderna Química. Foi usando o fogo que se tentava transformar metais outros, “matando-os” e “revivendo-os” sob uma forma mais nobre e preciosa, como a do ouro. Foi assim que apareceua Metalurgia; o uso do cobre ocorrente em diversas minas à superfície, sua liga com o estanho e oaparecimento do bronze e outras ligas. Essas práticas tinham relação com os astros e a astrologia que,cria-se e crê-se, exerciam influência sobre os homens na Terra. Para um geólogo, aquelas práticas,nada mais são do que uma crendice. Essas ciências eram praticadas secretamente, nas sociedades, mas eram conhecidas tanto naChina, como na Arábia e na Índia, e provavelmente em terras ainda não descobertas como as Améri-cas, a África e Austrália, como se depreende de evidências achadas nas ruínas da civilização de povoshabitantes daquelas regiões. Com a ajuda da imaginação é possível conceber que naquele tempo a movimentação de qual-quer objeto foi feita tracionando-o, primeiro pela força do próprio homem, posteriormente por ani-mais adaptados à tarefa, e ainda depois sobre rodas ligadas por um eixo, sem que para isso houvessequalquer indício de uma teoria física a presidir o ato. Houve realmente a prática da vida, surgindoposteriormente a ordenação matemática visando a economia e o aperfeiçoamento da inteligência. O problema continuava a ser as crendices, a suposição de que tudo era obra de Deus, quehavia criado as coisas, inclusive os homens a sua imagem e semelhança. Newton, no século XVIII es-creveu sobre o movimento dos astros, sobre a teoria da luz, sobre o problema da Santíssima Trindadee análise dos Evangelhos. Deitou luz nos problemas da física e matemática, mas não teve qualquersucesso quando tratou dos problemas transcendentais. Estamos no século XXI, trezentos anos depoisde Newton, e os luminares de hoje continuam a procurar Deus por todos os meios. São de Einstein, o principal cientista do século passado, as palavras citadas por Ferris39: “Euquero saber como Deus criou este mundo. Não estou interessado neste ou naquele fenômeno, noespectro deste ou daquele elemento. Quero conhecer os pensamentos Dele, o resto são detalhes”. Há um livro de autor brasileiro, Huberto Rohden40, escrito especialmente para mostrar ospensamentos de Einsten e da proximidade dele com a Metafísica. Na Conclusão do seu “Uma Breve História do Tempo”41 Hawking, sem resolver o problemaque dá título ao livro, e lamentando o fato de ainda não haver uma teoria completa sobre o universo,que seja compreendida por pessoas leigas em ciência, afirma na última página da sua obra: “...Se encontrarmos a resposta para isto, teremos o triunfo definitivo da razão humana; por-que, então, teremos atingido o conhecimento da mente de Deus”. Ao longo do estudo observa-se essa característica: a mistura que os cientistas fazem atu-almente e faziam antigamente entre a religião e a ciência, o real impedimento para o sucesso destaúltima. Por toda parte outros cientistas continuavam buscando suas pistas e as devidas explicações.Entre esses, distinguiremos alguns ramos importantes para a ciência geológica, e que facilitem acompreensão de fenômenos posteriores. Do que expusemos fica claro uma primeira conclusão: não existe um ponto definido, claro,sobre quando e onde apareceram as bases da ciência. Há homens e momentos históricos que marcamo início de uma fase nova, um ponto de inflexão mais sólido na determinação dos rumos da linha deatuação sobre determinado ramo científico, com o aparecimento de um nome mais forte, para deter-minada ciência. Todos refazendo pensamentos e bases teóricas preexistentes de modo revolucioná-rio. Os fatos e as teorias passadas foram reestudados e reformulados pelos diversos pensadores parachegar a uma nova realidade. Essa atitude choca e provoca maus humores nos adeptos das teoriascolocadas em cheque. Seus autores se levantam para desqualificar e desmoralizar as novas ideias,e são raros os mais inteligentes, que compreendem de pronto as vantagens de adotá-las. É famosa adisputa entre geofísicos (Sir Harold Jeffreys e outros) contra as proposições do meteorologista ale- 250
  17. 17. Evolução do Conhecimenmão Alfred Wegener sobre a possibilidade da movimentação dos continentes por longas distâncias,acabando em ofensas pessoais quando foi colocada em cheque a própria competência do cientistaalemão, arguindo-se a falta de credenciais para que ele, ao menos, tratasse do assunto42. Entretanto,o tempo provou que era Wegener quem tinha razão, isto é, ele estava no caminho certo, e não os ge-ofísicos. Outra observação importante sobre o problema dos cientistas, é a finalidade da busca. Oque se procura sempre é a lei geral, é a lei da natureza que explique os fenômenos em conjunto. Abusca se faz na direção da lei geral que governa o Universo. Queremos enfatizar que a explicação defatos isolados, por uma teoria particular, é prejudicial ao entendimento do conjunto. Por exemplo,a explicação do movimento de cada planeta ou satélite, individualmente, complicou-se até o pontoda confusão devido ao número de órbitas dos diversos planetas e a variação das suas velocidades;a queda de meteoritos, apenas para matar os dinossauros da Terra43, sem evidências onde ele caiu;qual é o mecanismo que causa as glaciações com tanta frequência, etc., são exemplos de explicaçõesisoladas, pontuais, solitárias, sem base em fatos. Como exemplo do contrário pode-se citar as leis de Kepler para explicação dos movimen-tos para qualquer planeta ou satélite; a lei da inércia de Galileu; a tabela periódica dos elementos,como compreendida por Mendeleyev, que foi dada à luz, sem o conhecimento de todos os elementosatualmente conhecidos. Esses elementos desconhecidos permaneceram com o lugar vago na tabelacom o vaticínio de que eles seriam descobertos no futuro, como de fato aconteceu. A ciência buscaas leis gerais, as grandes generalizações. Estas então definem a ciência e seus rumos, e tais pontos deinflexão é que serão aqui considerados como pontos de partida para um novo campo científico. Vimos na história passada que os antigos, nas primeiras tentativas de determinar de que ma-terial era feito o mundo, elegeram primeiro a água (Tales de Mileto 600-500 a.C.), posteriormenteforam acrescentados o fogo, a terra e o ar (Anaximander 610-546 a.C.). Aristóteles admitiu a quin-tessência, e essas ideias perduraram por séculos, mas não satisfaziam ou justificavam fatos a seremcompreendidos em conjunto. Do que era feito o ar? A água, a terra e o fogo? Como esses elementos poderiam formar to-das as outras coisas existentes no mundo? Certamente deveria haver uma partícula formadora dessascoisas e sem dúvida menor do que o todo. O Átomo Desde Platão que os filósofos especulavam sobre as partículas formadoras da matéria, masfoi Leucippus44, o filósofo grego (cinco séculos a.C.), provavelmente o primeiro a lançar uma teoriabaseada em átomos, uma partícula invisível e indivisível da matéria. Segundo o filósofo, a matériaera homogênea, mas constituída de uma infinidade de pequenas partículas indivisíveis. Os átomosestavam em constantes movimentos e formariam vários compostos a partir das colisões entre eles.Um de seus alunos, Demócrito44 (460-370 a.C.), desenvolveu a teoria atômica do universo, desde asua formação. Eram teorias filosóficas, nada mais que filosóficas que, por falta de instrumentaçãoadequada, constituiriam apenas as sementes da teoria atômica que iria florescer no século XX. A Química A Química, uma das ciências mais importantes da atual sociedade de consumo, surgiu dasprimitivas especulações dos antigos alquimistas, mágicos e curandeiros. São vários os nomes quese distinguiram no campo da Química e que podem ser considerados os fundadores das suas bases,desde Leucippus, que saiu da pura filosofia do atomismo grego, passando pelos descobridores deelementos, até alcançar os atuais níveis da siderurgia e da petroquímica. 251
  18. 18. Petróleo e Ecologia: Uma Contestação à Ciência Ortodoxa O gás carbônico foi descoberto no século XVII e chamado de “gás silvestre” pelo seu des-cobridor Jan Baptist van Helmont45 (1580-1644), um médico, fisiologista e químico belga, que feza ponte ou a ligação entre a alquimia e a química moderna. Foi ele que designou pela primeira vez apalavra gás, para descrever algo que existia de forma volátil, ao observar os componentes resultantesdas fermentações e da combustão. O gás carbônico seria redescoberto, mais de um século depois, porJoseph Black46 (1728-1799), que em suas experiências sobre calor latente descobriu que ele era dife-rente do gás comum, querendo se referir ao ar atmosférico. Ele determinou o papel do gás carbônico,o qual se comporta como um ácido e é produzido tanto na fermentação, como na respiração animal ena queima do carvão. O oxigênio, componente do gás carbônico, a seu turno, foi descoberto no fim do séculoXVIII, por volta de 1772, por Carl Wilhelm Scheele47 (1742-1786), químico sueco que o obteveaquecendo óxido de mercúrio, nitrato de potássio e outras substâncias. Scheele deixou de publi-car os resultados da sua pesquisa perdendo a prioridade dessa descoberta para, Joseph Priestley48(1733-1804), nascido na Inglaterra. Este era um religioso protestante, teórico político e químico, quedesempenhou papel importante na ciência experimental. Ele, também, conseguiu o mesmo gás pordecomposição do óxido de mercúrio, publicando suas observações naquele mesmo ano, 1774, trêsantes de Scheele tê-lo feito. E não foi somente o oxigênio que Priestley descobriu. Após frequentarum curso de Química prática, ministrado por um médico-cirurgião chamado Matthew Turner, entre1763/65, Priestley tornou-se um cientista experimental de primeira categoria produzindo trabalhosque o imortalizaram. Entre outras observações de Priestley, vale mencionar aquela onde descobriuque a luz é de suma importância no crescimento dos vegetais49 e que eles desprendem o ar desflogis-ticado, observação que serviria de pedestal para os posteriores estudos da fotossíntese feitas por JanIngenhouzs e Jean Senebier, nas próximas décadas. Este fato, por sua vez, será a base da compre-ensão da gênese do petróleo e da sua inesgotabilidade na subsuperfície da crosta terrestre. Priestleyse interessou pelos gases, que ao seu tempo eram chamados de “ares”, e seus estudos e experiênciasforam cruciais para os fundamentos da Química. Antes de Priestley eram conhecidos apenas três ga-ses: o ar da atmosfera, o dióxido de carbono e o hidrogênio. Ele se interessou pelos materiais voláteisao observar as bolhas do gás carbônico, ou fixed-air como era conhecido, que se desprendiam nasretortas de fermentação em uma fábrica de cerveja, da cidade de Leeds, onde estava morando. Nestafase ele descobriu o óxido nítrico, dióxido de nitrogênio, o óxido nitroso e o cloreto de hidrogênio,chamados àquele tempo respectivamente de “ar nitroso, vapor nitroso vermelho, ar nitroso menor ear ácido marinho”. Em seguida descobriu a amônia, o dióxido de enxofre, o tetrafluoreto de sílica, onitrogênio e o monóxido de carbono. Em 1774, teve a curiosidade de aquecer uma porção de óxidode mercúrio vermelho obtendo um gás incolor que ele chamou de “ar desflogisticado” ao observarque uma chama queimava com mais vigor na presença dele. Ao seu tempo a teoria prevalecente eraa existência de determinado princípio, o flogisto ou flogístico, que explicava a combustão. Em con-versa com Lavoisier50 (1743-1794), acontecida em Paris, ele contou a sua experiência e como tinhaobtido o novo ar, o que bastou ao outro gênio para descobrir o seu significado científico passando,ele mesmo, às experiências das quais nasceram: a descoberta e a nomeação do elemento oxigênio, oseu correto papel na combustão e na respiração, a rejeição da teoria flogística que dominava a ciênciaaté o século XVIII, e a completa reorganização do conhecimento da Química. A observação de que o ar atmosférico era um composto de vários gases e que esses tomavamparte em reações químicas levou Lavoisier à descoberta da composição química de várias subs-tâncias. Chamou o ar desflogisticado de oxigênio, que quer dizer gerador de ácidos, pois supunha,erradamente, que os ácidos provinham da união desse gás com qualquer não-metal; mostrou que aágua era um composto de dois elementos, hidrogênio e oxigênio e decompôs a água para produzir hi-drogênio que foi chamado de “ar inflamável”. A partir desse conhecimento, Lavoisier foi levado para 252
  19. 19. Evolução do Conhecimeno campo da análise quantitativa dos compostos orgânicos. Em 1789 publicou seu Traité Élémentairede Chimie onde fez seu famoso enunciado da Lei da Conservação da Massa nas reações químicas:nada se cria nada se perde; tudo sofre transformações e a quantidade de material envolvida nas rea-ções é sempre a mesma, antes e depois dela. Por todas essas investigações e resultados, Lavoisier éconsiderado o Pai da Química. Estas descobertas e a época em que aconteceram marcam a aurora do atomismo científico,configurando e alicerçando também as primeiras respostas às perguntas transcendentais. Lavoisier, em vez de ganhar algum prêmio pelo seu trabalho em prol do conhecimento, dobem estar da humanidade e do progresso da ciência, teve outra paga: morreu guilhotinado pelo Terrorda Revolução Francesa e seu corpo foi lançado em uma vala comum, um exemplo extremo da estu-pidez humana. Paleontologia É antiquíssima a observação de animais fósseis nas rochas. Essas estruturas, por serem es-tranhas, exigiam a explicação de como e porque estariam ali. De fato era o mesmo problema a serresolvido pelas outras ciências. Deveria haver uma explicação correta para os fatos observados nasuperfície da Terra. Havia o fato indiscutível: teriam existido na antiguidade relativa, animais e ve-getais que se tinham conservado dentro da rocha de alguma maneira, por alguma razão. Como issoacontecia, a maneira e o porquê, eram explicados, como de costume, ao bel-prazer de cada sábio oufilósofo. Assim nasceu a Paleontologia, que se tornaria, até hoje, um dos ramos importantes da Geo-logia. Xenophanes de Colophon51 (560 a.C.) já explicava os fósseis como o resultado de uma catás-trofe havida que misturara mares e continentes, e que teria matado os animais, soterrando-os. Foi porisso chamado de “Pai da Paleontologia”. Herôdoto de Helicarnassus52, pela mesma época, tinha outraexplicação. Segundo ele, os fósseis observados nas rochas com as quais haviam sido construídas aspirâmides do Egito eram os restos da alimentação abandonados pelos escravos que lá trabalharam...Outros explicavam que os fósseis eram animais que, depois de criados foram achados com defeito, epor isso descartados pelo criador; finalmente, havia os que diziam que os fósseis eram simples brin-cadeira do criador dos mesmos, para confundir os homens... Aquele tempo dava-se o nome de fóssil a todo objeto que se encontrasse enterrado. Poste-riormente esse nome foi restringido para aplicação a animais e vegetais preservados nas rochas, e oestudo deles deu origem à Paleontologia, uma ciência da Terra. Taxionomia Científica O empenho dos cientistas em resolver os problemas da Terra era feito com maior intensidadeno ramo da Botânica, e a razão básica para a dedicação a este estudo relacionava-se, especialmente,com a cura de doenças e da alimentação dos animais. Dos vegetais extraiam-se xaropes, chás, caldos,sumos, etc. de folhas, raízes, frutos, caules, etc. com os quais se fabricavam os remédios daqueletempo. Além disso, a alimentação era feita da mesma matéria prima e os vegetais eram passivos emrelação aos animais e por isso mais fáceis de serem coletados, manipulados e estudados. Assim haviauma série de condições que encaminhavam a atenção dos cientistas para estudar melhor os vegetais.Diante do grande número de informações obtidas, apareceu a necessidade de uma organização parasubstituir a natural confusão já existente entre os cientistas. Essa tendência de organizar as coisas naturais vinha desde Aristóteles a partir dos seus es-tudos da Lógica. Sua organização era do mais simples para o mais complexo, não tinha qualquersentido evolutivo e dominou (como tudo o que fez Aristóteles) como base de ideia, durante muitos 253
  20. 20. Petróleo e Ecologia: Uma Contestação à Ciência Ortodoxaséculos. Outras tentativas de organização apareceram baseadas em propriedades medicinais de cadavegetal, ou feitos puramente em ordem alfabética. Pela altura do século XVI, apareceu um médico, filósofo e botânico italiano chamado An-drea Cesalpino ou Andreas Cesalpinus53 (1519-1603), que estudou uma classificação dos vegetaispara organizá-los, fazendo da Botânica uma ciência coerente. Em 1583, publicou De Plantis LibriXVI considerado até hoje o primeiro livro-texto de Botânica. Nos quinze volumes precedentes eledescreveu e classificou mais de 1500 espécies vegetais. Seguem-se os trabalhos de Gaspard ou Cas-per Bauhin54 (1560-1624), médico e anatomista suíço, o primeiro a descrever a válvula que liga ointestino grosso ao delgado, até hoje conhecida como Bauhin’s valve. Foi ele que refinou os estudosde Cesalpinus, delineando espécies e grupos de espécies que chamou de gêneros. Classificou e des-creveu mais de 6.000 espécies, introduzindo na prática o uso dos nomes genérico e específico nomundo orgânico. Com a experiência de Bauhin, John Ray55 (1627-1705), botânico e naturalista inglês, dedica-do ao conhecimento das coisas vivas, mostrou que a categoria específica era a última a ser nomeadae contribuiu, significativamente, para as definições taxionômicas tanto de animais como de vegetais.Ray, como seus colegas, cometia o erro de fazer ciência como se estivesse estudando uma obra divinachegando a publicar, em 1691, um trabalho intitulado The Wisdom of God Manifested in the Worksof the Creation onde ele tentou mostrar que a beleza, as formas e o funcionamento das coisas naturaisprovava a onisciência de um criador, exatamente como hoje em dia pensa a maioria dos cientistas eda plebe em geral. Já no século XVIII surge outro gigante da ciência: Carolus Linnaeus ou Carl von Linné56(1707-1778), botânico sueco, que após estudo da flora de Lapland, sob os auspícios da Academiade Ciências de Upsala, publicou, em 1735, seu Systema Naturae que o tornou famoso internacional-mente pela proposta do método de nomenclatura científica, atualmente usado em todo o mundo, paranomear plantas e animais. O sistema proposto por Linnaeus baseava-se na estrutura das flores que,descobrira ele, se mantém imodificadas durante o processo evolutivo. Tornou-se prática a classifica-ção e sistematização de qualquer animal ou vegetal, seguindo as chaves descritas por Lineu. Enfim, depois de 2100 anos de estudo quando foi percebido por Aristóteles que havia neces-sidade de uma ordem lógica para entender fatos da natureza, fora possível chegar a um método deorganização definitivo, facilitando tudo. Zoologia Foi Jean-Baptiste-Pierre-Antoine de Monet, Chevalier de Lamarck57 (1744-1829), quemusou pela primeira vez a palavra Biologia e foi o primeiro que percebeu e fez a ligação entre os fós-seis e os seres vivos. De seus aplicados estudos sobre invertebrados saíram várias das valiosas obras da Zoologia.Em 1809, publicou Philosophie zoologique onde expôs as duas leis que, segundo ele, governariam aevolução das espécies: 1. O aperfeiçoamento dos órgãos melhora com a repetição do seu uso e a falta de uso os atrofia; 2. Que o ambiente determina a aquisição ou perda de órgãos e que a aquisição ou perda é preservada pela reprodução. Ambas seriam contestadas e substituídas pelos resultados alcançados por Charles Darwin,pouco depois. Fora dos puramente especuladores, a Paleontologia recebeu a sua forma mais definitiva ecientífica somente no início do século XIX, precisamente em 1812, quando apareceu o verdadeirofundador da Paleontologia com seu trabalho Recherches sur les ossements fossiles de quadrupedes, 254
  21. 21. Evolução do ConhecimenGeorge Leopold Chretien Frederic-Dagobert, Barão Cuvier58 (1769-1832). Zoólogo e anatomista francês, ele estudou animais mortos e vivos e conseguiu verificar aestreita relação existente entre estes e aqueles, percebendo a evolução havida ao longo do tempo, nasformas e nas estruturas dos animais. Entretanto, Cuvier era adepto e partidário do Catastrofismo59,escola surgida do conflito crença/ciência estabelecida na mente do cientista, devido ao conhecimentoda evolução dos fósseis por ele desenterrados e a crença da criação unitária por Deus, ditada pelareligião. Um dos erros cometidos pelos paleontólogos daqueles e destes tempos foi supor que aquelesestudos dariam a possibilidade de determinar a idade das rochas que formam a litosfera, um dos errosque perdurarão pelos séculos até os nossos dias. Ficaram famosos homens como William D. Conybeare que “fundou” o Carbonífero; J.Desnoyere, dono do Quaternário; Sir Charles Lyell, que dividiu e subdividiu o Terciário, que foraanteriormente criado por Arduino; Roderick Murchison, que estabeleceu a sequência temporal doPaleozóico e vários outros cientistas que deram outros nomes a diversas fatias de tempo, estudandofósseis tanto de animais como de vegetais. Erro grosseiro contra a Geologia, que precisa ser revistoe corrigido, exatamente como corrigiu-se o geocentrismo colocando em seu lugar o heliocentrismo. Datações geológicas não são feitas segundo a presença ou não de fósseis, sejam eles de ani-mais ou de vegetais, e não são contados em números de anos como se tem feito até agora.Naquele tempo ainda não se conhecia o fato de que o ovo era uma célula individual que posterior-mente evolui para um organismo completo. Mas já estavam em campo os pesquisadores do assunto,como veremos. Do Microscópio até os Motores de Combustão Interna Em toda a parte civilizada conhecida do planeta continuava-se a busca do conhecimento,tanto nas estrelas do céu, como na superfície da Terra. O microscópio e o telescópio seriam os meiospara fazer isso e neste ponto, queremos chamar atenção para o salto qualitativo que vai acontecer emfunção do uso do microscópio. A Botânica estava limitada pela falta da técnica necessária para prosseguir uma busca maisfina. Só quando aparece o microscópio é que o estudo pode prosseguir. As lentes são resultados doestudo da física e suas leis, e que agora vão ser aplicadas no estudo da Botânica, sem o que, estaficaria paralisada na observação das grandes estruturas como folhas, flores, frutos e outras caracterís-ticas. Abre-se novo horizonte: agora seria descoberto o mistério do crescimento do mundo orgânico.Em primeiro lugar vejamos o microscópio. O Microscópio Pelo meio do século XV surgiu o aparelho que deu possibilidade de visão de objetos fora doalcance da visão comum. Era o microscópio, aparelho que exigia lentes, um elemento mais sofisti-cado para a indústria daquele tempo. Realmente as lentes foram construídas para melhorar a simplesvisão das pessoas que enxergavam mal; aumentou-se o seu poder de ampliação para facilitar a visãode detalhes. Daí em diante foi buscado o melhoramento dos índices de aumento. Surge um experi-mentador: o microscopista e polidor de lentes holandês Antonie van Leeuwenhoek60 (1632-1723)interessado em observar corpos invisíveis a olho nu, conseguiu construir e polir lentes de excelentequalidade. As experiências de Leeuwenhoek e seu microscópio simples (de uma lente só), ampliaramo conhecimento para além de determinado ponto da ciência: com um método de iluminação secreto,explodiu a crença da geração espontânea estabelecida firmemente à sua época, ao mesmo tempo emque forjaram as bases da Bacteriologia e da Protozoologia. Sua verdadeira profissão era de comer- 255
  22. 22. Petróleo e Ecologia: Uma Contestação à Ciência Ortodoxaciante de fazendas e roupas. Posteriormente obteve o lugar de tesoureiro em Delft, na Holanda, ondeestava estabelecido, quando pôde se dedicar à sua verdadeira inclinação que era a pesquisa científi-ca, com a ajuda das suas lentes. A fabricação de lentes e a curiosidade levaram-no a observar, comcuidados de um verdadeiro cientista, uma série de fenômenos que acabaram por ligar seu nome, emdefinitivo, ao histórico do mundo científico. Foi o primeiro a observar os espermatozóides de insetos,dos cães e dos homens; estrias de músculos; as partes da boca dos insetos e a partenogênese verifi-cada nos pulgões. Estudou as leveduras e distinguiu suas partículas; descreveu as células vermelhasdo sangue com minuciosa precisão; isolou bactérias contidas nas águas da chuva, de águas paradas,etc.; mostrou que os gorgulhos de insetos não nasciam dos próprios cereais, mas eram resultantes deovos colocados ali por insetos voadores. Estudou as formigas e demonstrou que o que se pensava serovos dos insetos era, de fato, a pupa de onde sai a formiga mesmo; estudou moluscos provando queeles não se originavam da areia, nem que as enguias provinham da lama. Leeuwenhoek poliu maisde 400 lentes com possibilidade de aumentar desde 50 até mais de 300 vezes. Posteriormente apareceram os microscópios compostos, construídos com duas ou mais len-tes de maneira obter maior ampliação da imagem e isto se deu em várias partes do mundo e por di-versos pesquisadores. São citados como seus inventores Hans Jansen e um dos seus filhos chamadoZacharias e Hans Lipperschey32 (1570-1619), ambos na Holanda pelo fim do século XVI e princípiodo XVII. Estas lentes tinham a desvantagem da chamada “aberração cromática”, obstáculo que só foisuperado depois da construção dos telescópios, pela combinação de lentes de diferentes dispersões.Só em 1830, já no século XIX, Joseph Jackson Lister61 (1786-1869), um amador em ótica, mostroua base teórica de como construir as lentes acromáticas, dando ensejo a que aparecessem, cinquen-ta anos depois, os microscópios de alta resolução desenhados, projetados e construídos por ErnstAbbe61 (1840-1905), alemão de origem e nome importante em problemas de ótica. Abbe juntou-se aCarl Zeiss, no fim do século XIX, conseguindo fabricar as lentes apocromáticas (sem distorção), hojecorriqueiras, que são usadas nos microscópios de alta resolução. Entre o meio do século XV, época das lentes de aumento como eram chamadas, e 1830 quan-do apareceu o trabalho de Ernst Abbe, tinham decorrido 430 anos ou quase quatro e meio séculosde tentativas e experiências, às vezes fracassadas, mas também de sucessos. Do manejo do vidro atéa construção e polimento das lentes, o intervalo de tempo é ainda maior. São conhecidas bolhas oumiçangas de vidro feitas na Mesopotâmia e no Egito, 2500 anos a.C., que representa um intervalo de3300 anos para que a humanidade começasse a desvendar novos campos de trabalho com a finalida-de de responder perguntas aparentemente sem respostas, desfazer crendices, desmontar “mistérios”e conhecer melhor a Terra em que vivemos. Leeuwenhoek estudou insetos sem ser entomólogo,sangue e glóbulos vermelhos sem ser um citologista e jogou luz sobre a reprodução sem ser um ge-neticista, polia lentes e manejava microscópios com a habilidade de um artesão extraordinário, semsê-lo por profissão; Linnaeus, o grande sistemata, era médico de origem; Steno foi um médico e nãopaleontólogo e Mendel era padre. Muitos exemplos desse tipo podem ser dados para mostrar comoa ciência progrediu devido à curiosidade de homens de formação diferente dos campos onde mais sedestacaram, auxiliados pelas invenções de outros homens. Citologia Theodor Schwann62 (1810-1882), fisiologista alemão e fundador da moderna Histologia,definiu a célula como a unidade básica da estrutura animal aumentando muito a dificuldade de ex-plicar o homem feito do pó da terra lá no Paraiso. Concomitantemente apareceram os resultados dostrabalhos de outro alemão chamado Matthias Jacob Schleiden63 (1804-1881), formado em direito eapaixonado por Botânica. Ao contrário de estudar classificação dos vegetais como era a moda, Sch- 256
  23. 23. Evolução do Conhecimenleiden dedicou-se a estudar a estrutura dos tecidos vegetais sob o microscópio, publicando em 1838sua obra chamada Contribution to Phytogenesis onde ele afirmou que todas as partes de uma plantasão formadas de células, o mesmo constituinte básico dos animais, descoberto por Schwann. Schlei-den64 ligou a divisão do núcleo celular à multiplicação das células. Mas a Botânica já despertava atenção de vários outros cientistas, entre eles o médico escocêsRobert Brown65 (1773-1858), que se tornaria um dos grandes nomes na Botânica. Nomeado natu-ralista a bordo de um navio britânico, o Investigator, foi, possivelmente, o primeiro explorador dacosta australiana. De volta a Londres, se dedicou a classificar as 3.900 espécies de vegetais coletadasnaquela viagem. Ao estudar pólens mergulhados em água, ele notou movimentos das partículas nomeio. Por experimentação ele verificou que os movimentos existiam tanto entre as células mortascomo entre as vivas. Experimentou em seguida com partículas inorgânicas e verificou que os movi-mentos continuavam e publicou os resultados dessas observações em 1828. Os movimentos ficaramconhecidos até hoje como movimento browniano, que desempenhará papel importante no campocientífico futuro. Mas Brown não ficou só nisto. Em 1838, estudando a fertilização entre espécies deorquídeas, ele notou a existência, dentro das células, de uma estrutura especial que ele chamou denúcleo da célula. Walther Flemming66 (1843-1905), anatomista alemão, amplia o conhecimento da célula pelouso de anilinas para distinguir as estruturas do núcleo e descobre a divisão das células usando pelaprimeira vez o nome de mitose para caracterizar o fenômeno. Ele descobre as modificações sofri-das pelo núcleo e determina a correta sequência do fenômeno. Ele verificou que o núcleo da céluladesaparecia em determinada fase do processo, e reaparecia com a mesma estrutura em duas novascélulas. Estava descoberta a mitose e por isto Flemming é considerado atualmente como o fundadorda Citogenética. Mas não só a mitose estava descoberta, mas estava também solucionado o mistériode como crescem os seres orgânicos. A importância dessas descobertas não pôde ser devidamente apreciada naquele tempo. Só 20anos depois, com os trabalhos de Gregor Mendel67 e as duas leis básicas sobre a hereditariedade, éque foram ser corretamente avaliadas, e hoje permitem possibilidades de engenharia genética. Em 1827, Karl Ernst Ritter von Baer68 (1792-1876) identifica o ovo como uma célula, em-bora diferente das outras células conhecidas. Em 1855, Rudolph Virchov69 (1821-1902), médicoprussiano, afirmava que as doenças humanas se originavam não em órgãos ou tecidos, mas eramdoenças das células, fundando assim a Patologia celular. E só em 1869 o químico suíço Johann Frie-drich Miescher69 (1844-1895) mostraria que o núcleo tinha características químicas, concluindo como estudo dos ácidos nucléicos que seriam afinal os componentes celulares com importante papel nahereditariedade e no metabolismo celular. Até aí o leitor não pode compreender o que toda essa história tem a ver com petróleo, suaocorrência, abundância e inesgotabilidade. O Atomismo ficava mais firme. Os pequenos tijolos constituintes dos animais e vegetais ti-nham sido encontrados. Apenas que ainda não eram as menores partes constitutivas da matéria comose verá. Os tijolos eram ainda menores. A Imprensa Todo o conhecimento que existia nas diversas partes do mundo onde se desenvolveu a ciên-cia, não poderia ter passado adiante sem que eles pudessem ter sido gravados de alguma maneira emalguma coisa. Essa tentativa também vem de longe. Há notícia de que se poderiam fazer gravaçõesem diversas partes do mundo, e como sempre, as primeiras tentativas vêm do oriente. Aparentemente,os primeiros caracteres impressos, se assim pudessem ser chamados, datam do século II da era cristã 257
  24. 24. Petróleo e Ecologia: Uma Contestação à Ciência Ortodoxae foram feitos na China, que por essa época já dispunha dos outros meios necessários às impressões:papel, tinta e as superfícies onde estariam entalhados os textos a serem impressos. Diz a lenda queeram textos sagrados do budismo gravados nos mármores das pilastras, e que eram copiados peloscrentes que besuntavam os caracteres com alguma tinta colando em seguida um “papel”onde eramreproduzidos os textos. Somente no século VI é que os tipos gravados no mármore foram substi-tuídos pela madeira, e assim melhor manuseados. O mais antigo texto impresso desta maneira foiencontrado no Japão pelo ano de 764/770. Na China, em 868, aparece o primeiro “livro” chamadoDiamond Sutra e, em 932, obras clássicas chinesas foram compostas em 130 volumes por iniciativade Fong Tao, certo ministro chinês. A imprensa de tipos móveis apareceu ainda na China durante o século XI, entre 1041/48.Eram feitos de amálgama de argila e cola cozinhados em forno e assim manuseados. Em 1313, WangChen, magistrado chinês, chegou a ter uma coleção de 60.000 caracteres, com os quais foi possívelcompor um tratado sobre história da técnica daquele tempo. A tipografia apareceu posteriormente na Korea, pela altura do 13º século, e teve grandedesenvolvimento naquele país porque foi apadrinhada por seu governante Htai Tjong que, em 1403,ordenou a confecção de 100.000 tipos em bronze, antes que a tipografia fosse conhecida na Europa. A produção de papel foi quase um monopólio da China e era distribuído através das carava-nas na Ásia central até o mundo Árabe. A técnica da confecção de papel, segundo a história, foi pas-sada aos árabes através dos prisioneiros chineses feitos na batalha de Talas, perto de Samarkand, em751. Posteriormente essa indústria prolifera de Bagdá até a Espanha, sob dominação árabe. Chegoua Europa como produto comercial no século XII através da Itália. Na Europa, as técnicas de fazerpapel foram reestudadas e reinventadas obtendo-se um produto melhor e assim reexportado de voltaàs suas origens. A fabricação de papel desenvolveu-se primeiro na Itália, no século XIII, e posterior-mente na França e na Alemanha, já no século XIV. Assim os elementos necessários ao início da indústria de impressão estavam prontos noséculo XIV e passariam por um processo de modernização daí por diante. A xilogravura ou a arte deimprimir desenvolveu-se na Europa no final do século XIV provavelmente como uma consequênciada indústria do papel. As primeiras impressões eram de santos que posteriormente passaram a seracompanhadas de algum texto. Com o passar do tempo, o texto ficou mais importante que a gravura,até que na metade do 15º século os primeiros livros propriamente ditos começaram a aparecer. Otrabalho na madeira feito por “folhas” passou a ser feito em letras individuais, exigiam um trabalhoartesanal paciente e demorado, mas era durável e de boa qualidade. Na primeira metade do séculoXV, entre 1434/39, os tipos de madeira passaram a ser substituídos por tipos de bronze e outros me-tais, o que permitia a impressão de letras iguais com a desvantagem de imprimir as mesmas letrascom pressão diferente, deformando a letra vizinha e sem ter o mesmo alinhamento. Tudo isso melhorou a partir da segunda metade do século XV quando o ourives e lapidadoralemão Johannes Gutemberg70 (c.1390-1468), por volta de 1440, inventou e experimentou a técnicade imprimir a partir de caracteres móveis, dando o trabalho por terminado dez anos depois, em condi-ções de ser comercializado, publicando como prova sua famosa Forty-two-Lines Bible71, completadaem 1456. A invenção de Gutemberg pouco se modificou até o século XX, mas desde então sofreugrandes modificações e melhoramentos, principalmente no presente século, tornando-se uma dascaracterísticas mais marcantes e uma das maravilhas da atual sociedade de consumo. A sua invenção,na época em que aconteceu, possibilitou a preservação das ideias, dos resultados das experiências ea anotação de tudo o que se fez em benefício da ciência, para que se acumulasse uma quantidade deinformações extraordinárias, hoje guardadas em grandes bibliotecas, e indispensáveis para os pesqui-sadores da saga humana. 258

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