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Belém, onde rio é rua - Thiago Soares, Mariana Lins , Vanessa Lins e Eduardo Sena

  1. 1. TERÇA-FEIRA6Recife, 23 de abril de 2013 TURISMO FOLHA DE PERNAMBUCOTHIAGO SOARES“A chuva,agora, mu-dou de ho-rário. Essacoisa dedesmata-mento, de-sequilíbrioambiental,dánisso”,disseAntônioManoel,46, taxista que leva VanessaCavalcanti, 30, do AeroportoVal-de-Cans até o centro deBelém. Passa do meio-dia enem sinal das nuvens densasqueencobremocéudacapitalparaense depois das 15h. Hojeé 12 de abril de 2013 e, há umano, Vanessa casava com Gil-berto Moraes, 41. Dois mesesdepois, ele era transferido paraBelém. Ela ficara no Recife. Iaa cada dois meses encontrá-lo.Passavaofinaldesemanaevol-tava. Sempre numa espécie derancor por Belém ter tirado seumarido de casa.O táxi segue.O apartamento dele é naAvenida Governador José Mal-cher,bairrodeNazaré.Elajáco-nhece o porteiro, sobe semavisar. Ao chegar em casa, si-lêncio.Abreportas.Invadequar-tos, escritórios. O marido nãoestá.Cansada,rostocomaque-la camada de suor, misto daumidade paraense e de umlampejo de preocupação, liga.Quatro,cincotoquesnocelular.Ele atende rindo: “atravesse arua,tônessehotelaquidafren-te, era pra ser uma surpresa”.O pacto seria um final de se-mana romântico em Belém,comemoração de um ano decasamento. Ele reservara umapartamentonumhotel,sairdarotina, cama arrumada, muitostravesseiros. Talvez Vanessa ti-rasse um pouco aquela máimpressão: Belém poderia dei-xar de ser apenas a cidadequehavia“furtado”seumarido.Passaria a ser uma cúmplice?Juntos, rumaram para a Es-tação das Docas. Passava das14h, a fome apertava e Vanes-sa, já meio sem paciência, nãoqueria aquelas comidas exóti-cas, tucupi, tacacá, onomato-peias estranhas. O marido in-sistiu que ela provasse umpeixe de textura aveludada,que vinha apenas grelhado: fi-lhote. Sentaram-se numa dasmesas externas do restauranteLá em Casa, as águas da baíado Guajará amarronzadas, oventoquepareciaanunciarela,a chuva. As gotas caíam. Va-nessa mastigava o veludo dopeixe.Aquelasensaçãodeáguamolhandoaterraeraalgocomoo peixe amaciando a boca. Derepente, o jorro do suco debacuri adentra à garganta, sa-tisfaçãoúmida.Vanessaparececeder. E não é que essa comi-da tem algo de encantamento?Olhando para o rio, o céu denuvens carregadas, era chuvasobrerio.Águasobreágua.EVa-nessa e Gilberto decidiram:vamos até o Mercado Ver-o-Peso de braços dados com achuva. Saíram correndo. Che-garam ensopados.“E desde quando ir a ummercado é programa român-tico?”, já brincava uma Va-nessa mais humorada. Gil-berto solta um “vem ver” e ca-minhando entre os boxes,eles são tomados por perfu-mes naturais: o cheiro do cu-puaçu sendo “tratado”, ovapor da maniçoba na pane-la destampada. Vão até pertoda sacada que dá para o rio. Etanta mansidão de água pa-recia dizer: “tudo que é gran-de, é infinito”. Talvez o queuna duas pessoas seja isso. Agrandeza. O rio.À noite, estavam provandopirarucus defumados, farofastexturizando pratos, no res-taurante Remanso do Bos-que, do chef Thiago Castanho.E não brindaram com cham-panhe ou espumante. “Trazuma cachaça de jambu”,disse Gilberto. Brindaram umano de casamento com umcopinho, lapada, boca dor-mente. Beijo bom é comomorder jambu, já tinha ouvidoalgum local dizer. E era.Dia seguinte, rumaram paraa Ilha do Combu. Atravessa-ram de barco, chegaram àspalafitas do restaurante Sal-dosa Maloca. Ali, os prédios deBelém ao fundo e ao longe, to-maram banho de rio, foram le-vados pela correnteza, se se-guraram numa das escadasdo píer. Entardecia quandoforam tomar uma cerveja debacuri na Amazon Beer e seembreagaram do magenta docéu sentados no terraço daCasa das Onze Janelas.O relógio parecia apressado.E quando Vanessa já pareciaestar cúmplice de Belém, vemo último dia, domingo derra-deiro, no Mangal das Garças,essa área verde, à beira do rioGuamá, viveiro de mais de 120espécies de aves. No borbole-tário, mais de 600 tipos de bor-boletas. Daqueles dias de sol àpino, propício a fotos em con-traluz, Vanessa e Gilberto fize-ram um “instagram” num dospíers do Mangal, já avistando oPortal da Amazônia – essa áreade lazer à beira do rio, dandoaquela ideia de que era preci-so voltar.Passava das seis da tardequando Gilberto pereceu sus-surrar “você é meu rio” e Va-nessa – meio tonta – quis dizer“Belém mostrou isso a gente”.Mas ela guardou aquilo para si.O segredo de quem finalmen-te aprende que “ser rio” é estaremtrânsito.Entreumamargeme outra. Um cidade e outra. Re-cife e Belém.*Relato documento-ficcional deum casal na cidade de Belém,com inspiração da tradição dojornalismo literário.Belém de rio e de amoresUm casal, uma cidade, um roteiro romântico na capital do ParáINSCRIÇÃO afetiva nas cercanias do Mercado Ver-o-PesoBelém a doisDar um beijo com a boca dormente depois demastigar jambuTomar sorvete de cupuaçu olhando a Baía deGuajaráFazer um passeio de barco ouvindo “Moreno”, deDona OneteAndar de mãos dadas na chuva da tardeVer como a vida pode ser doce como uma fatia detorta de chocolate com cupuaçu da PortinhaThiago Soares/CortesiaThiago Soares/Cortesia2304pr06:Layout 1 22/04/2013 18:17 Página 1
  2. 2. DOMINGO7Recife, 28 de abril de 2013BRASILFOLHA DE PERNAMBUCOEditora: Cynthia Morato Telefone: 34255848NUVENS densas no final da tarde, nas proximidades do Mercado Ver-o-Peso: chuva age na dinâmica da cidadeA metrópole em que todososcaminhoslevamàchuvaPrecipitações em Belém criam poética e ressignificam cotidianoTHIAGO SOARESEnviado especialBELÉM -Chuva noPará temprelúdio.Primeiro,uma espé-cie de sua-ve ventania.Depois, algumas rajadas maisintensas. Até que aparece, aolonge, um estrondo. Um tro-vão. Um clarão: o relâmpago.E a água vem. O que pareceser mais que usual para os vi-ventes da região Norte doBrasil, soa como uma das cu-riosidades para quem chegapela primeira vez na capital doPará. Em Belém, chuva éponto turístico. Com direito ainteresse particular, inclusi-ve, de turistas. “Tenho amigosque vieram para cá para co-nhecer a nossa chuva. Ficamimpressionados com as ca-racterística, os horários, a in-tensidade”, diz o estudante deTurismo, Lauro Alves. De al-guma forma, parafraseando aspremiações da Unesco, esta-mos falando da chuva comouma espécie de “PatrimônioImaterial Natural”. Algo real-mente único, específico destaregião do Brasil.De acordo com LincolnMuniz Alves, climatologistado Instituto Nacional de Pes-quisas Espaciais (INPE), o li-toral da região Norte traz umacaracterística peculiar. “A pro-ximidade da Linha do Equa-dor e o aquecimento daságuas oceânicas têm sido fa-tores de acréscimo da já vastavocação pluviométrica da re-gião Norte do Brasil”, observa.Sobre as “chuvas de horacerta”, que acontecem, emgeral, na parte da tarde, o cli-matologista esclarece: “Como nascer do sol, a temperatu-ra sobe, provocando aqueci-mento das águas e, com isso,a evaporação. O vapor deágua no ar se eleva, forman-do grandes nuvens com pre-cipitações no final do dia”.A “hora certa” da chuva naregião paraense nada mais édo que o encerramento dodiário ciclo das águas. “O pro-cesso de aquecimento glo-bal e de alguns fenômenos es-pecíficos como o La Niña têmcausado alterações deste ho-rário da chuva. No litoral doNorte, onde se encontraBelém, este horário tem ‘caí-do’ para mais cedo”, observao climatologista. A presençada adensada floresta equato-rial da Amazônia cria, segun-do o especialista, especifici-dades, inclusive, nas nuvensexistentes nesta parte do Bra-sil. “Locais com mais de doismil milímetros de precipitaçãoanual apresentam caracterís-ticas distintas de nuvens. Écomo se houvesse camadasdelas entre o céu e o solo. Porisso, tamanha umidade nas ci-dades nortistas”, atesta.A chuva em metrópoles nor-tistas como Belém gera umapoética específica da ocupa-ção urbana, conforme obser-va a pesquisadora LucréssiaD’Alessio Ferrara, coordena-dora do grupo de pesquisa“Espaço/Visualidade” na PUC-SP. “Uma das questões cen-trais hoje é debater as dife-renças de vivência e ocupa-ção do espaço urbano brasi-leiro. No caso das metrópolesnortistas, a chuva é um fatorde sociabilidade e de agen-damento de fazeres cotidia-nos”, explica.Melancolia das águas na vivência urbanaA cantora Gaby Amaran-tos é uma das que reconhe-cem a beleza da chuva. Tantoé que incluiu a faixa-título“Chuva” em seu primeiroálbum, “Treme”, lançado anopassado. “No Pará, a gentenaturaliza a presença dachuva na nossa vida. Mas éalgo que realmente define onosso cotidiano”, atesta, ementrevista por telefone. O cu-rioso é que a música “Chuva“foi composta por duas “es-trangeiras” paraenses: a ca-rioca Thalma de Freitas e apaulista Iara Rennó. “Foi oolhar de fora das meninasque me ajudou a perceberalgo que a gente vivia”, ob-serva Gaby Amarantos.Para a pesquisadora de cul-turas urbanas LucréssiaD’Alessio Ferrara, a chuvatraz à tona uma vocação me-lancólica para a urbanidade.“Chover significa se prote-ger. A partir dessa premissa,tem-se uma reocupação doespaço privado, da casa, emtodas as suas subjetividades”,pontua. Entretanto, a pesqui-sadora comenta que em me-trópoles como Belém, o en-frentamento da chuva sem-pre foi uma característicaparticular. “É desta ambigui-dade que se constrói a parti-cularidade da vivência urba-na em Belém: há a melan-colia do espaço interno dacasa quando chove e a efu-são externa do barulho daágua a cair”, comenta.O excesso de água, seja dachuva ou através da “man-sidão” dos rios, criando umespaço da melancolia, é umdos pontos centrais parapensar o lugar da ocupaçãourbana na região Norte.Neste sentido, Belém apre-senta uma complexidade di-ferenciada de Manaus, emfunção de sua característicalitorânea. “Há um híbridoda urbanidade que se pro-jeta na cidade, do rio comoum fator de margeamento eo clima com ecos litorâneose tropicais agindo sobre asdinâmicas urbanas. É destaunião de fatores que seconstitui o viver em Belém”,atesta Lucréssia D’AlessioFerrara.Segundo a pesquisadora, oturista que chega a Belém éimerso num ambiente parti-cular “que envolve além dossabores e da gastronomiamuito peculiares, tambémuma atmosfera específica emfunção do clima e do exces-so de água”. Ela assugura: “Oar da região Norte do Brasilprecisa ser pensado comoum patrimônio, assim comoa chuva e as águas. São agen-tes fundamentais que nosajudam a pensar todo umestilo de vida que perpassa aurbanidade de uma metró-pole como Belém”.ENFRENTAMENTO da chuva é parte do dia a diaPEIXE e a mansidão dos rios criam especificidadeFotos: Thiago Soares/Cortesia2804br07:Layout 1 27/4/2013 00:47 Página 1
  3. 3. TERÇA-FEIRA6Recife, 30 de abril de 2013 TURISMO FOLHA DE PERNAMBUCOAV. GUIAGUIA DE TURISMOCOR6X10Onde arua é rioUma forma deexperienciar o riona capital do Paráé atravessar até aIlha do CombuTHIAGO SOARESBELÉM-Che-gonaEstaçãodas Docas,tomoumsor-vete sugesti-vamentecha-madode“ca-rimbó” (las-cas inteirasde cupuaçu, uma delícia) evou até à margem da Baía doGuajará. Aquela água toda.Vejo um casal no parapeitometálico que divide o rio eimagino ele dizendo “I’m theking of the world!” e segu-rando ela - cena de “Titanic”.Dá vontade, então, de atra-vessar aquela água. Quemsabe molhar o pé, dar ummergulho, tomar um banho.Vejo as opções de passeios,ali, ao lado das Docas. Minhavontade é uma só: querotentar uma utopia “a la” “Ti-tanic”, atravessar de barco,sentar no outro lado da mar-gem, tomar uma cerveja,comer um peixe - um filhotena brasa, de preferência(esse delicioso peixe dosrios nortistas).Sempre acho que o melhorde uma cidade se conhececom os moradores. Nãotenho dúvidas: vou tentarsaber como é que os pró-prios moradores de Belém“usam” o rio como lazer. Hápraias fluviais próximas à ci-dade, largas faixas de areia,tecnobrega tocando - medizem. Há praias oceânicastambém. Mas, começo a gos-tar da ideia de atravessar debarco até a Ilha do Combu,um bairro da capital pa-raense, repleto de bares erestaurantes, que fica namargem do rio Guamá. Unsestudantes da UniversidadeFederal do Pará (UFPA) medizem que adoram atraves-sar o rio num barco regionalque chamam sugestivamen-te de “pó-pó-pó” (algo quesugere o barulhinho domotor da embarcação sendoligado). Achei poético: o rio,o barco, a onomatopeia “pó-pó-pó”. Quando me vi, no diaseguinte ao de minha che-gada a Belém, lá estava euno bairro de Jurunas, numpíer rumo à Ilha do Combu.A Ilha do Combu está bemfrente a Belém, a uma dis-tância de 1,5 quilômetro aosul da cidade. Fica à margemesquerda do rio Guamá epossui cerca de 15 quilôme-tros quadrados. É uma formarápida de curtir essa coisa“do rio como rua”, me disseum estudante da UFPA. Gos-tei dessa ideia do “rio comorua”. Não tem muito mistériopara chegar até esse píerpara fazer a travessia. Todotaxista sabe onde é. Che-gando lá, nada de cerimônia.O moço que vende refrige-rantes e cervejas - tomei umrefri doce e delicioso cha-mado “Garoto”, algo bemparticular (“O Garoto estápara Belém assim como oguaraná Jesus, para o Mara-nhão”, me diz uma fonte) -avisa quando sai barco parao Combu. É tudo muito in-formal, a gente suando bicas,tomando Garoto e entrandono barco, o tal barulhinho“pó-pó-pó“.O barco é como uma “lo-tação” daqui do Recife, saiquando “lota” e paga-se R$3,00 (cada trecho). Há barese restaurantes que funcio-nam como uma espécie de“day use” na Ilha do Combu.Muitas indicações para a Ma-loca do Pedro e para o Sal-dosa Maloca (sim, com “l”mesmo). Com ajuda do blo-gueiro paulista Marcelo Kat-suki - que estava tambématravessando para um diapor lá - escolhemos o Saldo-sa. O rio “alto”, correnteza,aquela coisa. O clima é meiopraia, gente nas mesinhasnas palafitas. Um peixe àmesa - não o filhote, masuma pescada inteira, assada- um deleite para os olhos.Uma cerveja. E o rio para sebanhar. Vamos até uma dassacadas, há uma escada quenos “leva” até às águas eaquele jorro de correntezacomo uma energia que nostoma. Os barcos não paramde chegar e sair, levando etrazendo mais pessoas.Ouvimos as conversas nasmesas vizinhas. Pessoas deBelém trazendo amigos para“turistar”, casais vindo passarum dia “diferente”. Esse co-tidiano (re)inventado degente que vai e vem pela cor-renteza do rio. Belém está aolonge. O “skyline” de prédiosnos dá a impressão de queestamos bem mais distantes.Na verdade, é apenas 1,5quilômetro. “Mas o rio pare-ce fazer uma barreira entreaqui e lá”, me diz uma pes-soa, sobre esse estigma dorio que é rua - com os zum-bidos dos barcos e um jet skiao longe. Até que venta, vemuma nuvem e chove. Águasobre água. E lembro de umacantora a dizer que “dentrodo mar tem rio”. Quandochove no Combu, a gentetem a impressão de que den-tro do rio tem rio. E é tarde.Hora de voltar.Enviado especialEm 1997, a Ilha doCombu foi transformadaem Área de ProteçãoAmbiental (APA), atravésda lei nº 6083. A lei dizque, em respeito ao ma-nejo, implantação e fun-cionamento, podem serutilizados instrumentoslegais para incentivos fi-nanceiros governamen-tais a fim de proteger ouso racional dos recur-sos naturais, impedir ati-vidades causadoras desensível degradação daqualidade de vida ambi-ental, principalmente der-rubada de açaizeiro, paracomércio do palmito.SAIBA MAISEMBARCAÇÃO regional chamada de “pó-pó-pó” (foto maior) entre as mansidões das águase do céu paranse leva turistas para passar o diana Ilha do Combu. Textura das águas e o grafis-mo do barco (acima). Vista da embarcação (aolado) dá uma noção da distância que se atra-vessa para usufruir um pouco do rio que é ruana capital do ParáThiago Soares/CortesiaVanessa Lins/Cortesia Mariana Lins/Cortesia
  4. 4. LISTARanking dos 50 melhores restaurantes é lideradopelos espanhóis RocaPÁGINA 6SABORESEditora: Vanessa Lins e-mail: saborespe@gmail.com Telefone: 34255861SEXTA-FEIRARecife, 3 a 9 de maio de 2013PaisagemBacuri, tucupi, tacacá, jambu. Para os paraenses, ingredientes corriqueiros na cozinha do dia adia. Já para a maioria dos brasileiros, são apenas nomes sem formas correlatas nem gostosfamiliares. Puro exotismo. Surpreendentemente, o contraponto a essa desinformação a respeitoda comida nortista e, por que não (?), sua cultura de modo geral, uma das únicas referênciasque se tem é o Ver-o-Peso, mercado municipal na cidade de Belém.Não por acaso. É ele que reúne todos os principais produtos que vão para as panelas e cuias dacapital do Pará. É onde o açaí que abastece a cidade é desembarcado, bem como os peixesamazônicos capturados nos rios que margeiam municípios ribeirinhos. É onde se vendem porçõesmágicas e banhos de ervas que prometem pedidos atendidos, basta seguir as instruções das“cheirosas” e ter fé. Mas o Ver-o-Peso é mais que um espaço para o estabelecimento de relaçõescomerciais, de compra e venda. Ele é o registro emoldurado, e dinâmico, por prédios antigos etendas modernas, do modo de viver do povo belenense. A ele, hoje, nossa reverência.Páginas 2 e 3comestívelFoto:JeanBarbosa/Divulgação
  5. 5. SEXTA-FEIRA2Recife, 3 a 9 de maio de 2013 SABORES FOLHA DE PERNAMBUCOBELÉM (PA) -Certavez,alguémfalou que “só épossível saber daessência de umlugar quando seconhece o seumercado públi-co”.Afrasepareceuplausíveldeime-diato, mas só ganhou sentido com-pleto quando colocamos os pés emBelém, capital do Pará. Emolduradopelo principal elemento geográficodo Estado, o rio (precisamente àsmargens da Baía do Guajará), o Ver-o-Pesoéatraduçãoliteral,noâmbitosociológico, de um dos fragmentosmais importantes da cultura local: acomida e a relação que o paraensetem com ela. O espaço, na verdadeumcomplexode12minipavilhõesdi-vididos por tipos de produtos (horti-frutigranjeiros, industrializados, lan-ches,refeição,polpas,mercearia,fa-rinha, artesanato, plantas ornamen-tais, ervas medicinais, artigos parapássaros e camarão seco) ao arlivre e também sob construções an-tigas, encapsula tudo o que for co-mestível,sobretudo,napaisagemdoestado. Mas não só. Não há exageroalgum em afirmar que o Ver-o-Pesoé o ethos de Belém no to-cante aos seus ritos emodos corriqueiros.O exotismo da quasemisteriosa paleta de sa-bores nortistas já seriaargumento suficientepara tornar a visitanuma experiência re-veladora. Mas essatipicidade compos-ta por açaís fres-cos,pupunhasemcacho, cupuaçu,bacuri, jambu, fa-rinhasd´água,detapioca ou suruí, tucupis, manivas,vistosos peixes amazônicos e tabu-leiros de camarão seco, que é o quedá a “liga” do espaço, entretanto,ganha o reforço dos fazeres exerci-tados nas entranhas da grande feira.“Os mercados públicos expressamos hábitos do cotidiano na comuni-dade e, ao mesmo tempo, é a liga-dura que atrai pluralidade entre osseus frequentadores, enfatizandode forma singela as relações huma-nas, por meio do encontro entre co-nhecidos e desconhecidos, unindopartes ao todo, congregando con-fiança e movimento nesses am-bientes”,concluiAnaCláudiaFrazão,pesquisadoraeprodutoraculturaldaComedoria Popular.Que não há porquê discordar dateórica pernambucana, já que aoadentrarnaquelescorredores,pareceque o viver do paraense se descor-tina sem pudor. Seja no já citado re-pertório de ingredientes nativospouco conhecidos no restante doPaís, seja no jeito peculiar, um mistode abordagem íntima e permissiva,de os vendedores barganharem fre-guesia, seja ainda nos boxes de ali-mentação. Aliás, é neles que a vidareal se faz mais real. Achar um es-tandequevendapãonachapaecafécom leite não é exatamente a tare-fa mais simples. Mas busque umpeixe frito com farinha e creme na-tural de açaí, a coisa muda de figu-ra. A tríade é servida amplamente aqualquer horário do dia. Presta-secomo refeição principal no café damanhã,noalmoçoenamerendadatardinha, podendo ganhar compa-nhia de suco natural de bacuri, cu-puaçu,maracujá,taperebá,cacauoude qualquer outra fruta nativa, tam-bémvendidasinteirasenaformadepolpa fresca. Ou mesmo cervejaem garrafa de 600ml, e sem esque-cer também o Guaraná Garoto, fa-bricadoemAnanindeua,pertinhodeBelém,umconcorrentedemarcafa-mosaderefrigerante.Bastapuxarumbanquinho, sentar e esperar seu pe-dido. Comer, assuntar com a cozi-nheira, esperar a pontual chuva datarde passar. Comer e experienciarosritossocioculináriosformamumaoutra face do VOP, agregando umvalor atualmente tido em alta contados profissionais de gastronomia.“Os mercados públicos estão final-menteseagrupandoaocenáriogas-tronômico,conferindoaperspectivade se conhecer e reconhecer a cu-linária tradicional como referênciacultural e genuína. Os mercadosestão de volta ao mercado”, concluiFrazão, em tom positivo.Matar a curiosidade a respeito dosgostos locais e descobrir os tipos defarinha tradicionais são o fio condu-tor de um roteiro clássico pelo mer-cado, todavia, se o apetite por co-nhecimento for maior, não titubeieem acompanhar a chegada dos pei-xes frescos capturados nos rios pró-ximos e de todo o açaí que abaste-ce a cidade, vindo de municípios ri-beirinhos, em barcos que descarre-gam na boca do Ver-o-Peso. É umarotina diária, repetida por volta dasquatro horas da manhã, e respon-sável pela única movimentaçãonesse horário por lá. Em tempo.Cada desembarque traz 51 mil qui-los do fruto roxo e quatro mil quilosde pescados.RAIO XVinculado à Secretaria Municipalde Economia, o mercadonasceunasegunda metade do século 16, porsolicitação da Câmara de Belémaos portugueses para o estabele-cimento de controle alfandegário rí-gido na Amazônia. Foi, então, cria-do um posto de fiscalização e tri-butos com objetivos fiscais, trans-formando o porto do Piri, que pas-sou a ser conhecido como Haver-o-Peso. Atualmente, a feira ao arlivre integra um complexo arqui-tetônico formado pelos Mercadosde Ferro (em reforma) e de Carne,pelas Praças do Relógio e do Pes-cador, pelo Solar da Beira e pelaFeira do Açaí, resultando na ocu-pação de 26,5 mil metros qua-drados. Diariamente, passam2.500 pessoas pelos pavilhões, amaioria belenenses. Entre permis-sionários prepostos, ajudantes, car-regadores e ambulantes, estima-seque são mais de 3.500 traba-lhadores.Longe das panelas e cuiasde açaí, as vendedoras daservas de cheiro e porções“mágicas”, conhecidascomo cheirosas, são umcapítulo à parte. Invistatempo na exploraçãodas dezenas de gar-rafinhas multicolo-ridas anunciandomilagres, aguçan-do a curiosidadedo freguês es-perançoso em resolver pendengasda vida prática: sexo da bota, de-satrapalha, viagra natural, pega enão me larga, mil homens, laço deamor, chama dinheiro, perfumeagarradinho atrativos, banho con-quistador, banho de sumiço, águade jiboia. É comprar para com-provar....Encantar-se: Entre as “cheirosas”, Bete Cheirosinha, Dona Coló eCecília angariam clientela com atendimento simpático, quase íntimoaté, na hora de oferecer as porções de mandinga que, junto às divin-dades, operam em prol de toda a sorte de quereres: conquistar o seramado, atrair dinheiro, “prender” o parceiro, deixar os momentos de in-timidade do casal mais quentes, afastar gente que atrapalha a vida. Asinstruções para cada uso são o ponto alto dessa ala, ditas quase aopé do ouvido, em tom de segredo...Provar: Carmelita é a mais antiga vendedora de frutas do complexo- está lá há nada menos que 30 anos. Especializada em frutas típicas- oferece bacuri, cupuaçu, taperebá, pupunha em cacho, etc - a “rai-nha das frutas” também surpreende com ingredientes desconhecidosdos próprios belenenses. Difícil é sair sem um “carregamento”...Entender: Atende pela alcunha de Cavalo o feirante peixeiro que,além de vender na banca, também fornece pescados do dia para res-taurantes. Um de seus principais clientes, aliás, diz que ele é um dosmais honestos sobre os produtos: desfaz, inclusive, o equívoco de quehá filhotes com mais de 80 quilos - se passar disso, vira animal adul-to, chamado piraíba, com carne mais fibrosa, portanto, menos cobiça-do. Vende também tambaqui, tucunaré e pirarucu, além do próprio fi-lhote vindo da região do Mosqueiro, o melhor daquelas bandas...Comer: Dona Conceição é uma das cozinheiras mais famosas doVer-o-Peso e prepara um dos pratos mais típicos da cidade - o peixefrito obrigatoriamente escoltado por farinha artesanal e açaí. Não dis-pense o ritual de misturar os três ingredientes, por mais esquisito quelhe pareça, pois ele sintetiza como nada mais a leitura absolutamentedistinta que o povo dali tem dessas comidasMercadomunicipal ésíntese do povobelenense eseus hábitoscotidianosVer-o-PesoVANESSA LINSEnviada especialNNããoo ddeeiixxee ddee......Continua na página 3eaculturadanormalidadeVanessaLins/CortesiaESPAÇO é dividido em 12 minipavilhões segmentados de acordo com o tipo de produto
  6. 6. SEXTA-FEIRA3Recife, 3 a 9 de maio de 2013SABORESFOLHA DE PERNAMBUCOBELÉM (PA) - Éalgo como um“tóco, tóco, tó-co” a onomato-peia dos golpesapressados dafaca afiada dedona Vera, 62anos, responsável por romper a tãoresistente, quanto assimétrica,casca da castanha-do-pará, queguarda a cobiçada semente. Tare-fa bastante temerária, diga-se depassagem, já que para garantir obem-estar físico da operante, apancada do gume precisa ser cer-teira na carapaça de um dos gen-tílicos comestíveis de Belém.O gesto é repetido à exaustãodentro do Ver-o-Peso, e não apenaspor dona Vera. Quebrar castanhasno mercado é um dos rituais coti-dianos mais recorrentes entre ho-mens e mulheres. Basta um olharmais cuidadoso para perceber essaindividualização dos fazeres comoo embrião de linguagens, símbolose tradições. Esse tripé responsávelpor constituir a cultura local. Não édemasiado, portanto, creditar ao ta-lento e à criatividade do homemcomum o poder de transformaçãodo espaço público ordinário em umambiente particular.No Ver-o-Peso, as tarefas coti-dianas que movem o cen-tro de compras estão portoda a parte. Na extra-ção instantânea da polpadas frutas, na recepçãodo açaí e dos peixesainda na madrugada eno tratamento do cu-puaçu, só para falarde algumas fun-ções. Atividadesaparentementesimples e inadiá-veis que, no en-tanto, singularizam aquele espaço.No caso de Dona Vera, são cerca dedez horas diárias dedicadas à pe-rigosa labuta onomatopéica. Degolpe em golpe, grão por grão, atéencher os saquinhos de 250 gramasvendidos por R$ 10.Estamos falando da castanhaem seu estado mais natural, fresca,cor de leite, aromática e detentorade algum líquido branco e viscoso.Essa não passa por etapas de se-cagem que vão propiciar maiordurabilidade e deixá-la com o gostoe textura que grande parte daspessoas conhece. Há mais de 15anos com sua barraca, Dona Verapercebe o interesse metonímicodos transeuntes no movimento desua faca, consequentemente, emsuas castanhas, e sugere: “Prova!Crua é outra coisa”.Oferece a cortesia com a saga-cidade de quem sabe que casta-nha-do-pará é só para quem este-ve lá. O sabor se assemelha àparte branca do coco seco e, bemcomo o fruto do coqueiro, pode-secomer em nacos, no melhor estilodivertimento de boca. Mas é depoisde liquidificá-la com um poucode água morna que a versão maissedutora é revelada. Surge umleite espesso que serve como in-grediente base para várias receitasdaquelas paragens.E falando da região Norte, é ma-joritariamente nela, aliás, que estáconcentrada a produção da igua-ria. Só para registrar: a castanha-do-pará é a semente da casta-nheira do Pará, uma das árvoresbotânicas mais altas de que setêm notícias, chegando a 45 me-tros de altura. As castanhas nas-cem em frutos esféricos, conhe-cidos como ouriços; quando essescaem no chão, e quebram, pode-se ver os grãos meticulosamenteencaixados no compartimentocircular. A cata, como se podenotar, é para sempre apenas a pri-meira das etapas. Ritual berçode tantos outros.UM INDISCRETO AO AR LIVREÉ como subir no cupuaçuzeiropara fazer a colheita do seu fruto.Dono de um perfume agridoce in-doutrinável, é sui generis no quesitoaroma. Se castanha fresca é paraquem esteve lá, cupuaçu é paraquem pode estar. Mesmo fechado(temumacarapaçaquelembraadococo seco) incensa qualquer am-biente. Poucos lugares no mundotêm um cheiro particular - o Pelou-rinho, em Salvador, cheira a dendê.Graças a proliferação dos povos doOriente, as ruas de Nova York têmumquêdecurrycommasala.EmIs-tambul, na Turquia, os mercadosexalam maçã com canela, oriundodos chás, gentileza de primeiraordem entre os comerciantes da-quelas bandas.O Ver-o-Peso é um grande frasconoqualocupuaçuéoperfume.Enahoraemqueeleéquebrado,tem-seum barulho olfativo. Pobres gomosde jaca, são inocentes ao seu lado.E quando todo o cheiro parece al-cançar o seu ápice de intensidade,eis que surge o ritual seguinte ao daquebra. O do corte na tesoura, queo deixa mais indiscreto. Sim, cu-puaçu não aceita peixeiras afiadas eseus golpes macabros. Requer ini-ciação prática. E com a força dosdedos encaixados no apoio, as lâ-minas em movimento diagonal vãoseparando a polpa da semente.A primeira segue para os sacosplásticos.Daliserãotransformadasem sucos, sorvetes, vitaminas, li-cores, geleias, compotas e todaa sorte de doces. A segundanão é desprezada. Seguepara plantio, ser sustentáveltambém faz parte do ritual.Afinal, só existem cerimô-nias quando outraspermitem. O Ver-o-Peso é um celeirodelas, basta sentir.Agradecimento a Joanna Martins (or-ganizadora do Festival Ver-o-Peso deCozinha Paraense), à Secretaria deEconomia de Belém e à CompanhiaParaense de Turismo.SERVIÇOVer-o-Peso - BoulevardCastilhos França, 208,Campina, Belém - PAQuem pouco está se importando com as diferenças de textura e gosto entreo grão no seu estado cru ou assado são os pesquisadores da Universidadede Otago, na Nova Zelândia, que em estudo recente, atestaram que a in-gestão diária de duas castanhas-do-pará eleva em 65% o grau de selê-nio no sangue. Ou seja, a pequena oleaginosa repõe a quantidade do nu-triente necessária para combater o envelhecimento celular causado pelosradicais livres. Na ausência do mineral, as enzimas antioxidantes ficam sematividade e, então, deixam de combater os radicais e ainda desguarnecemas defesas do organismo.GGuuaarrddiiãã ddoo sseellêênniiooManiva - Folha da mandioca brava moída e cozida por sete dias até dei-xar de ser tóxica. É o principal ingrediente de um dos pratos mais famososdo Pará, a maniçobaTaperebá – Fruta semelhante ao cajáPupunha - Coquinhos da palmeira da qual é extraído o palmito. Tem saborque mescla milho cozido com batata-doceBacuri - Fruta de casca dura e resinosa com polpa branca. O sabor lem-bra graviolaTucupi – Caldo extraído da raiz da mandioca. Tem cor amarela e é utiliza-do como tempero em algumas das receitas nortistas, como pato no tucupi etacacáFilhote - Trata-se do peixe piraíba quando pescado com até 80kg. A es-pécie, de água doce, pode chegar até 300kgJambu - Conhecido como o agrião-da-amazônia, é uma erva típica da re-gião que causa dormência na bocaNNoo VVeerr--oo--PPeessoo vvooccêê vvaaii ssee ddeeppaarraarr ccoomm::EDUARDO SENAEnviado especialContinuação da página 2Fazeres cotidianosressignificamoespaçopúblicoEduardoSena/CortesiaMarianaLins/CortesiaA coluna Vida Saudável retorna na próxima semana.ATIVIDADESmanuais sãocometidas portodos os lados,conferindo aoambiente umtom culturalpeculiar

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