Lembranças do Ayoká

1.841 visualizações

Publicada em

Autor: Minelvino Pereira do Amaral

Publicada em: Educação, Turismo, Carreiras
  • Seja o primeiro a comentar

Lembranças do Ayoká

  1. 1. Lembranças doAYOKÁMãe África: madrasta ou senhora? Lembranças do AYOKÁ 1 Nevas Amaral
  2. 2. PARTE UM - Mãe África: madrasta ou senhora?............................ 06 - O Vaticínio................................................................. 08 - A fatalidade de uma caçada........................................ 09 - Wazyrys e Emdembus................................................ 18 - De volta a Wazyres.................................................... 20 - Bamydele e suas estratégicas..................................... 22 - Voltando a Bamydele................................................. 25 PARTE DOIS - Bamy e Nilonda no Brasil.......................................... 28 - Makolo e sua esposa Nasymba.................................. 32 - O plano (projeto)........................................................ 33 - O sonho de Makolo.................................................... 39 - A ninfa........................................................................ 41 - O casamento............................................................... 47 - O desterro de Nylonda............................................... 49 - A viagem.................................................................... 49 - O batizado dos escravos........................................... 54 - Bamydele, a redenção................................................ 55 - Bamydele e os capitães do mato................................ 61 - A determinação de Makolo........................................ 62 PARTE TRÊS - A invasão do quilombo............................................... 63 - A barafunda (emboscada)........................................... 64 - A lenda....................................................................... 67 - Após sessenta dias...................................................... 68 - Alforria na capital...................................................... 70 - A parteira.................................................................... 71 - Após as oferendas, Bamy realiza um feito heróico.... 79 - Makolo e a flor da morte............................................ 84 - Será lenda ou um fato história................................... 89 - A história.................................................................... 89 - Senhor Orozimbo (Otaviano) toma uma decisão....... 90 - No dia seguinte.......................................................... 91 - Nylonda e a parteira................................................... 92 - Viagem astral.............................................................. 95 - A revelação................................................................. 97 - No dia seguinte.......................................................... 98 - Dois meses após......................................................... 101 - De volta a fazenda de Orozimbo................................ 106 - Iniciação do primeiro sacerdote................................. 109 - A recuperação............................................................. 110 - Quarenta e cinco dias após......................................... 1112 Lembranças do AYOKÁ
  3. 3. - A filha de Orozimbo................................................... 111 - O atentado.................................................................. 114 - Otaviano e seu filho................................................... 116 - A viagem.................................................................... 118 - No palácio dom o Duque........................................... 119 - Na cadeia.................................................................... 120 - No jantar..................................................................... 121 - O discurso.................................................................. 122 - De volta ao discurso................................................... 122 - Dias após.................................................................... 125 - De volta a fazenda...................................................... 126 - Os dias se passaram................................................... 128 - Ayoka e Bamydele..................................................... 130 - Makolo e Zunkuembu................................................ 131 - O encontro.................................................................. 132 - Na aldeia onde Makolo liderava................................ 133 - Makolo e Bamy.......................................................... 135 - O interrogatório.......................................................... 135 - Bamy em Angola........................................................ 138 - Já no navio................................................................. 142PARTE QUATRO - Bamydele (João de Ayoka) no Brasil......................... 145 - A procura.................................................................... 146 - Nas férias................................................................... 147 - Enquanto isso no coração da África........................... 152 - De volta de sua viagem.............................................. 155 - De volta para a aldeia................................................. 156 - Reunião dos líderes.................................................... 157 - O julgamento.............................................................. 158 - A carta de João Negrinho........................................... 161 - Em Luanda................................................................. 163 - Ana Paula em Paris.................................................... 164 - João Negrinho no Brasil............................................. 166 - Orozimbo em consulta com Mãe Benedita................ 168 - Orozimbo e Bamydele............................................... 169 - Visita à Ana Paula em Paris....................................... 170 - A carta........................................................................ 178 - Já em Luanda............................................................. 179 - Durante o delicioso almoço....................................... 182 - Na aldeia.................................................................... 183 - Na guerra.................................................................... 187 - João Negrinho no navio............................................. 189 - A chegada de João no Brasil...................................... 191 - Bamy perde todo seu dinheiro................................... 194 Lembranças do AYOKÁ 3
  4. 4. 4 Lembranças do AYOKÁ
  5. 5. PREÂMBULO:P ai João do Ayoká como era carinhosamente cha- mado trazia incríveis lembranças dos seus 115 anos de vida e, também, de seus netos, bisnetose tataranetos. Enxergava em um dos seus tataranetos suacópia fiel de quando ainda ele era criança em sua terra natal no Ayoká “África”. Recordava de todo seu passado com total lucidez.O interessante disso tudo era a alegria que continha emseu frágil coração e sem um ponto de ódio, mesmo quan-do relembrava de seus algozes que lhes causaram sofri-mento físico e espiritual para chegar aonde chegou, Hoje seu tataraneto (Pai Orodeuacy) recorda comalegria e conta a seus filhos e netos a saga de João do Ayoká (Bamydele). Onde ele e o seus vivem em plenaharmonia no Brasil, mas precisamente em sua fazendaherdada de seu tataravô ao convívio dos seus. Lembranças do AYOKÁ 5
  6. 6. PARTE UM:MÃE ÁFRICA: MADRASTA OU SENHORAEm tempos quase imemoráveis, uma vasta planície ao fundo, um cauda-loso rio e savanas de um verde estonteante onde uma manada vivia e pas-tava. Animais como gnus, zebras, girafas, leões, leopardos, enfim presas e predadores, cada um levando a vida em sua conveniência. Ali, ao sopé de uma montanha, erguia-se uma aldeia majestosa,onde havia um conselho de anciões, um curandeiro um chefe “isso tudono continente Africano, mas provavelmente no Congo ou Zâmbia”. Ali,aquele povo vivia passivamente adorando seus deuses, praticando a agri-cultura, caça e vivendo em harmonia com os seus vizinhos. No entanto, na Europa, América do Sul e América do Norte, aspolíticas se desenvolviam de modo totalmente desiguais, em que os ricostornavam-se mais ricos e os pobres mais pobres. Um garoto nascido livre caçava e pescava nos vastos rios e lagossituados no continente Africano “ali era seu mundo”. O regime tribal era tanto quanto arcaico, os mais novos eram esco-lhidos, uns para a guerra outros para cuidar dos rebanhos, cabras, gadosetc. Outros eram preparados para cuidar e servir os deuses (Orixás). Dessemodo, uma das esposas do chefe desta aldeia engravidou-se e da gestaçãonascera uma bela criança. Um garoto com traço realmente de um nobre. Antes desse garoto nascer, o feiticeiro da tribo teve um presságio,mais tarde a profecia foi confirmada, nesse sonho ele via seu povo envol-vido em uma guerra sangrenta, com traiçoeiros de outras tribos e tambémum povo com características diferentes e hostis, em que aquela gente sedeclarando inimiga sobrepujava os cativos e era levada, para ser vendidana condição de escravo, ao povo de cor estranha, povo branco, aqueles,com suas mulheres e filhos, só deixavam os mais velhos e crianças. Por conseguinte da sobrevivência no velho mundo, a falta de mãode obra e por tudo mais, estabeleceu-se, contudo, uma verdadeira rede deespionagem no continente Africano, em que eles, com presentes baratos,compravam a consciência de alguns negros por meio da penetração ou6 Lembranças do AYOKÁ
  7. 7. fácil acesso ao meio político dos conselhos de anciões. Semeavam a discórdia entre eles. Promovendo assim a guerra po-pularmente chamada de fofoca, jogando uns contra outros. Depois com-pravam os cativos e traziam-nos em navios negreiros para serem vendidosaos senhores de engenho e fazendeiros na Europa e nas duas Américas. Onde se lê chefes de tribos ou feiticeiros, poderíamos citar ven-cedores de guerras ou conquistadores. E ali os estrangeiros pilhavam,roubavam os bens materiais, capturavam aquele povo que se tornava pri-sioneiro, porém os que estavam em bom estado de saúde, eram vendidosem leilões aos mercadores ou trocados por cedas, sal, açúcar etc. Em decorrência desse degradante comércio, paralelamente desen-volveu-se um certo interesse por ouro, marfim e madeira. Afinal, os mer-cenários agiam dentro da lei de seu país. Uma lei arcaica e ainda feudal.LEI: Está estabelecida e assinada em 1454 pelo então Papa Nicolau V, Eleassassinou; digo: assinou a bula pontifix, autorizando a escravidão que en-tre outros havia negros, pagâes, ou melhor, os que não fossem católicos pra-ticantes, eram considerados inimigos da igreja. Esta bula dava exclusivida-de a Portugal de escravizar negros a partir deste decreto papal. Começampra valer as maiores navegações da época. Voltando ao nosso personagem, a criança, filho do chefe, desenvol-via-se em plena harmonia, era um excelente caçador, tornou-se provedorde sua família. De suas caçadas, ele nunca voltava sem o sustento de seuclã, pois ele sabia agradar os deuses da caça, assim logrando sempre su-cesso em suas empreitadas. Sua tribo ostentava riquezas em ouro, pelese marfim, sendo muito invejados e elogiados por tribos vizinhas. Assim tornariam alvo fácil para seus inimigos. Bamydele que traduzido significa uma criança nascida ao decor-rer de uma viagem bem-sucedida, assim era chamado aquele pequenoherói... Herói, por ser ele desde pequeno um exímio caçador, um lídernato e excelente orador, era incontestável, tinha eloquência em seus atos,primando sempre pela justiça em suas decisões e um pacifista convicto. Enquanto Bamydele experimentava o aprendizado de líder, massem o uso das armas, os inimigos não declarados, espreitavam tramaspara a captura e o degredo de seu povo os Wazyrys assim chamados.Eram muito visados por suas riquezas e seus homens de portes avanta- Lembranças do AYOKÁ 7
  8. 8. jados, eram excelentes agricultores, outros, sendo cobiçados pelos euro-peus para serem escravos em terras além-mar, ou até mesmo nas fazendasde cana de açúcar, café, cereais etc. O já adolescente, Bamydele, criava e queria pôr em prática suasideias revolucionárias que hoje nós o chamaríamos de socialista, pois eleinstituiu um sistema de mocambo, trocas de alimentos e outros, entre astribos da região. Sua liderança lhe trazia prós e contras, mas sempre lheatraindo grande admiração e apreensão dos mais velhos. O adolescente começando sua fase de adulto trazia na face e nocorpo a aparência de um belo homem. E, com isso, atraia para si atençãodas mais belas jovens de sua tribo e de tribos vizinhas. Bamy não estava preocupado só com o bem-estar de sua aldeia,tribo, mas também com o bem-comum de seus visinhos, ou melhor, commoradores de outras tribos, enfatizando sempre o bem-estar geral. Porisso, o jovem rapaz visitava a outras aldeias com o único objetivo de quetodos prosperassem. Em uma dessas visitas de Bamy, seu coração quase saltou fora docorpo, pois ele enxergou, com muita profundidade, alguém em especial.Uma jovem que trazia em seus semblantes de adolescente, uma meiguice eao mesmo tempo a doce menina transmitia-lhe algumas energias e, também,como se ali não fosse a primeira vez que estavam juntos, parecia que aque-les dois jovens estavam se reencontrando para continuar o que havia sidointerrompido por vários anos ou, até mesmo, há alguns séculos passados,pareciam ser velhos conhecidos. Mas, eles guardaram para si os seus sen-timentos de ainda adolescentes e despreparados para o que seria um sonhoou uma realidade que ambos desconheciam. O grande amor de suas vidas.O VATICÍNIOBamydele por ser líder democrata despertava o interesse das jovens desua aldeia. Ao atingir a idade de se tornar um guerreiro, como era o costu-me tribal, escolhia-se uma esposa, tudo seria tratado pelos pais, os pais donoivo e da futura noiva marcavam uma festa com algumas competições,no caso, na aldeia do pai da noiva.8 Lembranças do AYOKÁ
  9. 9. O pai de Bamydele, a pedido de seu filho, acertou algumas coisas a respeito do casamento junto com o pai de Nylonda Makuala, exatamen-te, aquela jovem da aldeia vizinha, algo que tocou profundamente seucoração espirituoso. Bamydele conseguiu aquela façanha de convencerseu pai a permitir que Nylonda fosse sua consorte (noiva) pelos os pre-sentes que ele sempre ofertara aos deuses, afinal aquela linda menina era exatamente aquela que tocou profundamente seu coração ainda ingênuoem visita anterior a aldeias dos Emdembus. Com meiguice ela agradeceuseu pai pela escolha, e a felicidade e a paz reinaram entre as duas aldeias Chama-se Makuala Nukemba o genitor de Nylonda, portanto esta,sua filha, leva o seu segundo nome, por ser ela a primeira descenden-te, no entanto se o filho inicial fosse homem levaria seu primeiro nome. Nylonda, além de sua beleza incontestável, traz, ainda em sua vitalidade,uma verdadeira princesa com tendência a futura liderança do povo de suaaldeia. Esta era a noiva certa para o noivo certo e assim os dois se com-pletavam, portanto os deuses os velavam na alegria que era contagianteentre as duas tribos.A FATALIDADE EM UMA CAÇADABamydele já liderava as caçadas, sempre muito bem planejadas, afinal era muito metódico, mas sempre se saía bem em tudo que se propunhaa fazer. Infelizmente certo dia aconteceu uma fatalidade, embora seu paiestivesse muito feliz por ter a aldeia dos Emdembus como amigos oualiados em uma a alegria que era geral. Ocorrera que em um desses diaso pai de Bamydele não quis tirar seu filho dos seus afazeres para coman-dar as caçadas, então ele resolveu que deveria lembrar de que quando iasozinho para tal serviço, mas por não planejar bem a tal caçada, ele foraatacado por um leopardo e ficara com vários ferimentos meses depois e veio a falecer. A consternação foi geral, trazendo a tristeza entre as duasaldeias e Bamydele se sentia muito jovem para assumir a liderança datribo. Contudo, a partir da morte de seu pai tinha ele que contar com seutio, o feiticeiro da tribo, e também com as orientações de sua querida mãeque alguns meses depois do falecimento de seu pai também veio a falecer. Lembranças do AYOKÁ 9
  10. 10. Já nas preparações do funeral de sua mãe, ficou decidido que Ba-mydele tinha de se casar para assumir a liderança de seu povo! Portantocomeçaria uma nova etapa em sua vida. Portanto, assim sendo, passadostrês meses daquela degradação, deu-se o evento. Entretanto, seu tio não achava que Nylonda seria a esposa idealpara Bamydele, ele dizia que Bamy deveria casar-se com alguém de suaaldeia ou escolher melhor, pois havia várias consortes que sonhavam emser sua esposa. Por conseguinte Bamy não deveria demonstrar seu inte-resse por Nylonda, porque para o seu tio não interessava o que vinha docoração e sim a razão ou a posição-social, e sua intenção era fazer comque Bamydele casasse com uma das princesas mais bem sucedidas e estequeria casar-se por amor, então se deram várias competições presentes eapresentações de consortes das aldeias vizinhas por pura imposição deseu tio. Porém o jovem Bamy já estava com seu coração ocupado comsua consorte Nylonda, no entanto seu tio fez de tudo para convencê-lo,mas de nada adiantou. Bamy entregou sua vida e daquela moça nas mãos dos deuses eargumentou com astúcia a seu tio, que haveria consultado o Oluo que eraencarregado de prever o futuro. Por conseguinte Oluo disse-lhe que seucaminho já estava traçado e quem traçou seu destino fora seu falecido pai.Porém seu pai e o pai daquela moça já haveriam acertado o casamento,portanto ele deveria casar-se com ela por obediência a ele e também paramanter a palavra de seu pai, com isso ele conseguiu desconcertar seu tioque não achou alternativa, pois quando os líderes se acertavam em qual-quer tipo de negociação, entre eles, teria que ser cumprido à risca, porquea palavra valia acima de qualquer conceito. Após convencer seu tio, restava a ele se casar com Nylonda, suasnoites enquanto aguardava o casamento foram muito difíceis pela angús-tia de ter que esperar. Este dia e as horas demoravam a passar e Nylondatambém insegura porque poderia haver uma desistência. Até que, enfim, chegou o grande dia. Nylonda estava radiante, com um belo vestido confeccionado por suas irmãs e da mesma forma sua mãe.Uma coroa de flores do campo colhidas no mesmo dia próximo às savanas. O lugar onde fora escolhido para celebrar aquela união havia vários galhosde flor dama-da-noite e flor-de-laranjeiras que exalavam um perfume in-10 Lembranças do AYOKÁ
  11. 11. confundível, adicionavam e representavam aquele doce momento que era aunião de ambos. Além disso, havia sete crianças que denunciavam a virgin-dade e a pureza daquela jovem. Desse modo seu tio e o pai de Nylonda celebraram e abençoaramaquela união, com festas por quase uma semana, houve uma aliança entreas duas aldeias, praticamente, tornando-se uma só. Então foi um tempo demuita prosperidade para as duas aldeias. Com troca de conhecimentos deagricultura, caça, liturgia, manufaturas (escultura) em argila, em couro eem peles de animais e outras formas somatórias de conhecimento. Tudo transcorria na mais perfeita harmonia, enquanto isso havia falató-rios de que existia um povo estranho que capturava moradores das aldeias paralevar além-mar, na condição de escravos. Os comentários falavam tambémque além de serem levados em degredos aquele povo era vendido em leilões. Era um povo contrário, que também se ouvia falar muito entreaqueles homens hostis, cujas peles eram brancas ou amarelas, pessoas dealdeias que traiam seu próprio povo trocando-os por miseráveis manti-mentos, fumo e bebidas destiladas. Isso tudo era uma preocupação a maispara os líderes das aldeias. Em algum tempo atrás houve a previsão de um Oluo. Esta previsãoaconteceu após a aparição de uma deusa no rio Ewa, uma deusa das águascom o mesmo nome do rio, avisando ao Oluo desse acontecimento, mas nãoderam crédito, pois a previsão não vinha do Oluo mais velho, o principaldeles. Então após eles ouvirem o que estava se passando em outras aldeiasperceberam que o perigo rondava suas aldeias. Por conseguinte, reuniram--se na montanha com os chefes e feiticeiros para traçarem estratégias de de-fesas. Nessa situação surgiu uma ideia daquele conselho, acharam melhorque mandassem alguém para infiltrar-se entre os mercenários, de modo que pudesse se inteirar dos movimentos daquela horda de bárbaros. Fora escolhido a dedo o homem que deveria cumprir com coragemtal missão, dada à importância do assunto em pauta, pois envolvia asorte das duas aldeias, “Wazires e Emdembus”. Entre esses jovens ha-viam dois irmãos recém-chegados na região, vieram de uma aldeia quefora destruída, eram remanescentes do povo Mandymbas de origemBantu. Eles se ofereceram para ir espionar os inimigos e trazer notíciasdos seus movimentos, e com isso o conselho se ajuntou na intenção de Lembranças do AYOKÁ 11
  12. 12. chegare a um consenso, notou-se naqueles jovens uma pujança incrível,logo assim depositaram neles total confiabilidade e entregaram seus destinos nas mãos deles. Bamy queria ir, mas fora impedido porque o Oluo, este, achou queele deveria ficar para liderar com suas estratégias uma saída, no caso, da-queles jovens não conseguissem os objetivos. Após a benção dos deuses edos sacerdotes, que fora feita em uma seção fechada, ficou marcada para o dia seguinte a partida dos mancebos para aquela difícil missão. Pela ma-nhã, o líder Bamydele chamou-os e fez-lhes as recomendações, e que assortes das aldeias repousassem sobre os ombros deles, pois seria horrívelo insucesso da empreitada, estavam, muito em jogo, as aldeias. Os jovens, Ndomby e Makolo, partiram ao nascer do sol, embre-nharam-se pela selva a procura de trilhas, não muito frequentes, por guer-reiros hostis ou mercadores de escravos. Após vasculharem bem aquelelugar, acharam melhor seguir em frente, pois dali para trás, de acordocom seus planos, não haveria perigo a não ser pelo lado sul que estavabem vigiado pelo povo das duas aldeias. Depois de percorrerem váriosquilômetros, perceberam em uma das trilhas sinais de violência. Aldeiasincendiadas, corpos em decomposição sendo comidos por vermes, abu-tres e animais predadores como hienas etc. Tudo isso servia para aumen-tar o ufanismo heroico dos dois jovens. Ndomby e Makolo viajaram mais à noite, tomando todos os cui-dados com animais predadores e outros perigos; dado aí o sucesso daviagem. Eles da mesma forma se guiavam pelas estrelas e seguiam o cur-so dos rios, ora navegavam em troncos, ora caminhavam, não levavamprovisões devido ao peso e para não se atrasarem na viagem. No entanto,eles pescavam, caçavam; comiam frutos silvestres, raízes nativas e ovosde aves que encontravam no trajeto, assim ficavam ora fácil ora difícil, porém enfrentavam tudo com total determinação e confiança nos deuses. A viagem era tão exaustiva que perderam a noção do tempo. Após o décimo dia de viagem perceberam que estavam muito dis-tantes das duas aldeias, entretanto resolveram voltar. Chegando às mar-gens do rio Yemotja, ouviram um gemido, procuraram entre as matas e,para surpresa de ambos, encontraram ali uma jovem mulher seminua equase morta devido a vários ferimentos. Após constatarem que ela es-12 Lembranças do AYOKÁ
  13. 13. tava viva, resolveram reanimá-la com água e infusão de algumas ervas,lavaram os ferimentos, logo depois de alimentada, ela pôs-se a dormir.Um sono angustiante, pois a jovem queimava de febre e no seu delíriorevelara o seu sofrimento e também do seu povo. Falava de um homem: que na verdade era de origem Árabe tuare-gue, implacável, a frente de terríveis guerreiros que matavam as pessoas,capturavam e faziam-nos de escravos. Eram acorrentados e levados acosta para serem embarcados em gal”s. No delírio da jovem e com muitafebre ela falava de sua mãe que fora degolada a golpe de cimitarra em suafrente e os seus irmãos levados como cativos, mas meu pai fugiu e trêsdeles foram a sua procura para captura-lo, por tanto, não sei exatamenteo que aconteceu com ele. Quanto a mim! Aproveitei a balburdia que os seus capturadoresprovocavam e joguei-me nas águas daquele rio e fui levada pelas corren-tezas, ferindo-me nas pedras pontiagudas das corredeiras. Os três jovens se encontravam próximo de uma gruta as margensdo rio, então pegaram a moça e levaram para dentro da mesma para fi-carem em segurança, onde permaneceram por dois dias até a mulher serecuperar da febre e dos ferimentos e no decorrer destes dias aconteceramvários episódios envolvendo aquelas almas.Um desses acontecimentos foi digno de uma premunição: Estavam os três extenuados pelo calor provocado, pelas andanças etambém pela luta na faina de procurar comida, “caças”, frutas e tratar dosferimentos da jovem, encontraram então embaixo de uma pequena cacho-eira esta gruta onde se abrigaram naquela noite seria para sua surpresa oseu vaticino. Pois naquela gruta habitava um gigantesco Píton. Após o tratamento dos ferimentos da mulher, os três a beira deuma fogueira que haviam improvisado com alguns gravetos, alimen-taram-se, daí a alguns minutos adormeceram, caíram em um torpor, eneste torpor eles viam muitas coisas, guerras, batalhas com total per-versidade, sua aldeia sendo destruída e eles pelo mato sem poder reagirou fazer alguma coisa, pois todos haviam sido pegos de surpresa pelo oinimigo e durante o sono os três sentiam sensações semelhantes, cala-frio pelo corpo todo, dores e paralisar seus membros, acordaram sobresaltados e qual não foi a surpresa, viram-se diante de um monstro saído Lembranças do AYOKÁ 13
  14. 14. dos pesadelos, talvez estupefatos viram-se sendo observados friamentepela criatura dantesca, onde seus olhos vermelhos e pretos lhes analisa-vam centímetro por centímetro, mais surpresos ficaram quando a fera Abriu a enorme boca e pronunciou silvando algumas palavras: Eu souZunkuembo Dambala, quem ousa invadir meu domínio, quem são vo-cês? Insignificantes seres, respondam-me insolentes... Após um silencio sepulcral a mulher saindo daquele terror respon-deu: Ó grande ser da magia, perdoe a nós por invadir sua casa ou seu habi-tar, pois não temos onde nos abrigar e nem nos esconder das feras que noscaçam e também dos guerreiros que querem capturar a nós e também os denossas tribos. Nossa gente foi destruída e os que sobreviveram foram levados emdegredo como escravos. Pelo que sabemos, foram levados para terras além--mar, estamos sem nenhuma proteção, preferimos que nos sacrificassem aqui mesmo a ter que ser cativos por aqueles homens, mas se achar que devemosviver proteja-nos com sua magia e nos oriente com vossa sabedoria. Poisnada temos a lhe oferecer a não ser nossas miseráveis vidas. Após estes narrativos todos permaneceram calados em um silencioprofundo, só se ouviam o canto dos pássaros e o apelo dos animais, em umsilencio frio, daquela tundra escura. O silêncio foi quebrado após algum tempo pela enorme píton: te-nho fome e sede de vingança não sei se fala a verdade por isso precisosaber mais quem são vocês!. Responde um dos jovens: Eu sou Makolo e este é meu irmãoNdomby: Viemos de longe a muitos dias de viagem na intenção de ajudarum povo que estão sendo perseguidos por um bando de homens de coramarela, que digladiam, matam e levam para a escravidão. E você mulher? Bem... Eu me chamo Nasymba! Sou fugitiva daminha própria aldeia, porque fomos atacados de surpresa, meu pai é o fei-ticeiro da nossa tribo! Mas ele se esqueceu de nos alertar daquele ataque,afinal ele é o encarregado de prevenir os seus de todos os perigos, só que desta vez, ele não teve tempo suficiente de nos avisar, mas eu consegui jogar-me em uma ribanceira e cair no rio Yemotja e sem explicação, estouaqui, viva, graças aos deuses e a estes dois homens e agora estamos vul-neráveis, aqui, em sua presença, ó grande ser da magia.14 Lembranças do AYOKÁ
  15. 15. Momento após a serpente falou: Agora eu sei quem é você Nasym-ba! E sei também quem são vocês dois! Durante os seus sonos eu veleipor vocês! E os analisei profundamente! Consigo agora com mais clare-za, ver por tudo que passaram até aqui! Vocês dois são mensageiros de duas aldeias muito distante daqui,cujo líder destas aldeias ao se preocupar em demasia, enviou-os para es-pionarem o inimigo, muito esperto de sua parte, mas ele deveria olharmelhor em sua volta, e observar melhor seus visinhos, por ele não termaldade em seu coração e devido às riquezas acumuladas que suas duastribos conquistou, despertaram a inveja e a cobiça, por isso o perigo ron-da aquele povo simples e honesto. Dias antes de sua partida os invejososdespacharam alguns dos seus, a procura de capturar os povos de suasaldeias, e suas provisões ou bens matérias. E tu mulher: tenho que lhe contar uma história! História esta queenvolve o seu povo. Há tempos atrás, quando seu avô reinava naquela aldeia havia umjovem humilde, mas que trazia o brasão da família de seu avô por adoção!E que ousou se apaixonar pela filha do chefe, a qual também era cobiçada pelo feiticeiro da sua tribo. Os dois jovens se correspondiam às escondidas as margens destemesmo rio, onde sob os olhares maldosos daquele feiticeiro eles se ama-vam era um amor verdadeiro. Um belo dia a jovem apareceu grávida epor ser filha do líder, o jovem filho de criação foi banido e abandonado a esmo na selva, toda esta rejeição fora induzida pelo feiticeiro. O líder daaldeia fazia gosto que sua filha casar-se com aquele jovem guerreiro, mas o feiticeiro usou de todas as artimanhas para que os dois não chegassema concluir aquela união, afinal o feiticeiro era a segunda maior autori-dade daquela tribo. Bem... O tal feiticeiro tinha duas vezes mais a idadedaquela jovem, mas este não era o grande problema, o maior problemaera que a jovem não o amava, então ele mandou que me levasse pra bemlonge da aldeia, para ser devorado pelas feras, no caminho eu conseguiescapar da mão dos seus bajuladores e fiz semelhante a você sabendo que eira morrer pelas mãos deles ou por uma fera que estava próximade nós não pensou duas vezes me atirei no mesmo penhasco idêntico aoque você se atirou, caindo eu pensei que havia morrido, mas fui ao fundo Lembranças do AYOKÁ 15
  16. 16. das águas, passei pelos portais da vida e da morte e enquanto eu juravame vingar mesmo que eu estivesse morto, daquele feiticeiro que tomoumeu grande amor para si, e ainda contribuiu para a minha morte, então euencontrei com um espírito que abita nas profundezas das águas. Esse mesmo espírito prendeu-me em uma caverna e durantealgum tempo, instrui-me na magia, depois me disse, que quando euatingisse o ápice de minha sapiência e total metamorfose, eu have-ria, De me transformar correspondente ao animal de minha vingança,Adaptando-me a natureza. Enquanto aquele ser falava, a mulher conjurava; Eu acho esta his-tória um tanto quanto familiar, no momento me sinto confusa, mas tenhona minha consciência, que já ouvia algo a respeito desta fantástica his-tória, pelo seu modo de falar me passa uma sensação que ele tem a vercom o que sei, ou melhor, isto tudo tem haver com meu passado, poremela falava só com seu pensamento, não comentando com os demais, elesouviam (o ser) a píton falar e a jovem analisava tudo que estava ouvindo. Assim que a píton termina seu relato brota-lhe dos olhos uma tenralagrima, que começou a flora em sua face, compreendeu-se então que aquela criatura também era cativa naquela gruta, onde havia um enigma eencanto, que por sortilégio daquele feiticeiro, havia sido aprisionado ali.Por tanto naquele momento a píton foi libertada de seus pesadelos, pelostrês jovens, que por terem eles aqueles sonhos e também pela pureza desuas almas, ouvem uma revelação e um grito de desabafo, com isto a pítonnotou que poderia contar com aqueles três jovens para futuras jornadas. A jovem procurando pela memória de sua família sentiu que aquelehomem que a criara com certo rancor e excesso de severidade, “o feiti-ceiro da tribo” seria seu pai, mas analisando melhor, tudo que estava sepassando em sua volta naquele momento, tomou uma atitude para por aprova o que estava se passando em cabeça, pois ela notou algo que lhechamou a atenção. Um sinal em forma de meia lua, no pescoço daquele homem ou ser-pente, que em um estado psicológico ou em seus devaneios angustiantessofria uma metamorfose trazendo no psíquico a forma de uma serpente oupíton, assim como ele se apresentava. Sinal este muito peculiar. A jovem acabou por concluir que aquele sinal era idêntico o que16 Lembranças do AYOKÁ
  17. 17. ela trazia em seu pescoço, em um formato de meia lua, que seria umminúsculo de um rio e sete paus em sequência, identificando assim sua família, ou melhor, os nobres de sua tribo. Em um gesto voluntário e desesperador, após todo o relato do ser, ajovem despiu-se diante da então serpente e para o espanto de todos exibiuo mesmo sinal que avia naquele ser. Ali se reconheceu pai e filha e a comoção foi geral, os irmãos rudes guerreiros emocionados até as lagrimas, a jovem por sua vez chorando,abraçasse aquele degradante ser, que passara por aquela transformaçãopelo seu estado de espírito e qual não foi o espanto de todos, das águassurgiu um feixe de luz aparecendo nesta luz uma ninfa, então ela disse:Zunkuembo, não tenho como liberta-lo de sua forma psíquica para sem-pre, mas de hoje em diante durante o dia você se tornara homem e as noitesserás um píton, tu só poderás ser morto antes de tua velhice total, se forvítima de traição, por tanto tenha muito cuidado ao voltar a sua forma,agora original. Não deixem que nenhum estranho o veja transforma-se empíton ou em homem (humano), assim poderás estar com sua amada filha, pois agora que tudo foi esclarecido, ficou claro que esta moça é realmente quem você pensa ser, saiba que atualmente só você e ela carregam o sinalfamiliar, o brasão. Faça bom uso do seu aprendizado e passe a ela umpouco de sua força, assim poderás levar adiante e a termo seus propósitos. Dito isto à ninfa desapareceu na águas do rio Yemotja, nisto nota-ram a transformação do mesmo, porque com tudo que lhe foi desvenda-do Zunkuembo se transformara em um homem alto de aproximadamentedois metros de altura espadano pernas fortes braços musculosos tudo neledenotava força, determinação e coragem, após os abraços, comovidos sa-íram da gruta com certo cuidado os guerreiros os apoiavam porque eleainda estava trôpego, afinal de contas passara-se muito tempo em forma de serpente que hora deslizara sobre as pedras hora pelas águas, então eranatural que estranhasse sua antiga forma. Zunkuembo passou boa parte daquela tarde reascendendo a andarcorrer, falar e se portar com humano novamente. Ao cair da noite um pouco antes dele voltar a sua forma de pítoneles traçaram os planos para o dia seguinte e com os três jovens eles cul-tuaram ali mesmo Danjyyla akayyla, o espírito iniciador de seu pai com Lembranças do AYOKÁ 17
  18. 18. isto suas vidas seus caminhos tomaria um novo rumo. Logo em seguidaquando já havia caído totalmente o véu da noite ele voltou a sua formade serpente e sumiu para as profundezas da gruta, e os jovens trataramde se camuflarem, próximo à entrada da caverna e dormir para que no dia seguinte pudessem continuar suas missões.WAZYRYS E EMDEMBUSEnquanto isso nas aldeias dos Wazyrys e Emdembus tudo transcorria emum misto de expectativa e medo e um alívio por terem enviado, os dois ir-mãos. O sacerdote da tribo havia previsto pelo jogo de adivinhação que elesestavam fora de perigo até aquele momento, mas mesmo assim havia umclima estranho no ar, a atmosfera estava pesada, dava-se a aparência que, aqualquer momento, eles iriam ser atacados por hordas de guerreiros incan-descidos, a apreensão era geral. Alguns da tribo que se diziam guerreiros,mas sem uma boa estratégica de guerra, ousarão a desobedecer às ordensde Bamydele, resolveram por iniciativa própria ou por angústia e desesperomontar guarda a dois quilômetros de distância das duas aldeias, ficaram expostos em forma de meia lua com armas arcaicas, mas mesmo contra avontade de Bamydele os guerreiros partiram para uma situação suicida eprometeram que se visse algum movimento estranho mandaria mensagenspelos tambores, seria um toque de alerta onde todos se esconderiam. Bamydele pensou como seria a melhor forma para livrar aquelepovo do perigo que estava previsto, com os que ficaram nas duas aldeias, ele teria de pensar rápido. A sua primeira atitude foi mandar reunir todosem um só lugar. Diz Bamydele diz: “como irei livrar este povo dessa inevitável che-gada desses homens hostis, perversos e gananciosos, cujo seus objetivossão capturar e vender nosso povo para serem escravos”. Nosso povo que é passivo e vive em harmonia e que só quer o bemestar geral, a paz, a liberdade e o convívio com nossa mãe natureza. Opior que os nossos, que estão a dois quilômetros daqui, não tem nenhumachance, pois, não tem uma boa estratégica de guerra, porque até então sópensávamos em viver em paz, por isso acho que falhei, mas tenho que achar18 Lembranças do AYOKÁ
  19. 19. uma saída, afinal, este povo é de minha responsabilidade. Pois o perigo realmente rondava aquele lugar e os dois jovens nãovieram para lhe trazer informações, Bamydele sabia de antemão que elespelo menos estariam fora de perigo, pois o Oluo havia jogado os búziose viu que nada de mal lhes acontecera, e eles ainda não haviam voltadoporque tiveram outros afazeres pelo caminho, provavelmente estariamse escondendo dos perigos expostos a eles, mas o Oluo também via maisduas pessoas na companhia dos jovens.Zunkuembo e Ndomby: Os dois irmãos chegaram à conclusão de que eles haviam se afas-tado muito das aldeias e que o perigo de ataque estaria próximo de ondeBamydele e seu povo situava, do que onde eles estavam. Pois se as aldeias pelos caminhos que percorreram já haviam sidoatacadas, então na realidade o perigo não estava mais ali e sim, nas al-deias dos Wazires e Emdembus. Então resolveram que deveriam voltar,mas não queriam deixar Zunkuembo “a serpente”, a jovem Nasymba quepor sua vez resolveu que deveria ficar ali com seu pai, mas Zunkuembo sentiu que não deveria deixar ali a jovem, por cuidado da filha que ele aprendeu a amar, mesmo sem conhecê-la e agora que a encontrou, nãopoderia usufruir sua agradável companhia. No entanto, há tempos, elesabia de sua existência, por intuição e o quanto a jovem imaginava outinha no fundo do seu coração que aquele feiticeiro não poderia ser seupai. Afinal ele a rejeitava com grosserias e trapaças, algumas vezes o tal feiticeiro a insinuava, falando de sua beleza e com certa malícia, e diziamais para a jovem, que se sua mãe viesse a falecer, ele a criaria com cari-nho e lhe daria muitos presentes, tudo isso que se passou ela guardava emseus pensamentos e não falava com ninguém para não sofrer represarias. Nasymba insistiu com seu pai aquele homem que se transformavaem serpente, para ficar e poder cuidar dele. Ndomby, o mais moço se sentia acuado, não sabendo como resolveraquele impasse. Zunkuembo recomendou a moça que não se separasse deMakolo, porque ele seria seu guardião e além do mais Makolo passara adar continuidade aquele povo de nome Dan, cujo seu brasão ou símboloseria a cobra, portanto disse mais; deixe que eu siga meu destino minhafilha, estarei bem nesse lugar, pois agora aqui é meu habitat e com certeza os deuses estarão selando por mim, auxiliando-me, enquanto eu cumpro Lembranças do AYOKÁ 19
  20. 20. o que tenho de passar, tenho de aceitar por enquanto esta situação, paraque um dia quando eu tiver de ir para o mundo (Ala) dos deuses eu possaservir a Oba (Xangô) o encarregado da justiça. Nasymba retruca: “não pai! não vou lhe deixar nesta selva sozinho,afinal agora somos uma família”. Naqueles dias a obediência era algo incontestável, ainda mais setratando da ordem dada de um pai para uma filha. E a metamorfose ou transformação que Zunkuembo sofria era exatamente quando ele se irri-tava, mas só que até aquele momento ele mesmo não sabia que esse fe-nômeno se passava pela ira e era de maneira exata, nesta ira que ele viviatodo aquele tempo como uma serpente e que fora amenizado após o con-tato com sua filha Nasymba. Aquele encanto que apareceu das águas no momento exato. Por isso mesmo, os jovens entenderam o porquê aconte-cia aquele fenômeno. Ndomby querendo amenizar a situação pede conselho aos deuses,então eles tiveram a ideia de caçar um animal, para oferecer ao deus Obao animal preferido por aquele deus ou Orixá, chamava-se o Ajapa quefora achado com uma certa facilidade, pois o local que eles estavam erapróximo do rio, onde habitavam várias espécies de animais atraídos pe-las águas cristalinas do rio. Portanto com isso conseguiram amenizar afúria da serpente ou Zunkuembo e com tristeza por ter que deixar seupai ali, naquela tundra fria com um abraço fraterno e a esperança de re-encontrá-lo, a jovem e os dois rapazes partiram, deixando no coraçãode Zunkuembo um rastro de amor e saudades. Os dias daquele ser orahomem ora serpente, porém seu estado psíquico foi marcado por aquelametamorfose. Durante dias e noites até findar-se o tempo naquele lugar onde hoje é chamado de Ayoká.DE VOLTA A WAZYRESOs jovens andaram, dias e dias afins, cada vez percebendo que estavam mais próximos do perigo. Nasymba passando bem perto da sua antigaaldeia, eles puderam ver de perto toda aquela perversidade, os jovens seachegando aos poucos e muito assustados com aquela degradação, com20 Lembranças do AYOKÁ
  21. 21. vários corpos de crianças, homens e mulheres uns degolados, outros ata-cados por espadas e mais alguns enforcados, também os que haviam sidodevorados por abutres e outros animais selvagens. De longe ouviram um gemido que com certeza era um ser humanoainda com vida, com muito cuidado alertaram Nasymba falando-lhe da-quele gemido, Nasymba lhes disse que conhecia bem aquele lugar entãoestrategicamente se aproximaram e viram que realmente havia um sobrevi-vente, pelos gemidos de terror. Neste gemido ele pedia a morte e a jovemdizia que não era possível alguém estar vivo ali no meio daquelas feras.Pelos dias que se passaram os jovens foram se aproximando guiado pelosgemidos, então Nasymba percebeu ao chegar mais próximo que se tratavadaquele que se dizia ser seu pai, o feiticeiro da tribo, assim sendo ela e ele,eram os dois únicos sobreviventes com exceção dos que foram capturadospara serem levados como escravos pelos estrangeiros. A situação do feiticeiro era chocante qualquer um que o visse nãoiria acreditar, na sua tamanha degradação. Ele se encontrava sem as duaspernas e lhe faltara um braço, o feiticeiro assistia as hienas e urubus co-merem parte de seu peroneu (corpo) sem nada poder fazer, pois estavacompletamente debilitado, Nasymba teve compaixão, mesmo passandopelo que passou nas mãos daquele ser degradante por um bom tempo, elapensava como poderia fazer para salvá-lo, neste momento em um gestoquase inconsciente, Ndomby por desespero em querer salvar aquele serhumano e com suas armas arcaicas partiu em direção aos animais ferozese quando ainda estava correndo em direção dos mesmos, tropeçou em umapequena pedra e a fatalidade aconteceu. Os predadores lhes atacaram e alifindou a vida do jovem e destemido Ndomby. Em seguida, Makolo e Nasymba ficaram ali oprimidos observando com muito pavor a morte do feiticeiro, este passou vários dias se agoni-zando sem nada poder fazer nem ao menos acabar com sua própria vidaque também para ele seria considerada uma morte desonrada, por ser elea segunda pessoa mais importante daquela aldeia. Makolo e Nasymba queriam fazer alguma coisa, mas perceberamque estava tudo consumado, resolveram partir, pois não havia mais o quefazer naquele lugar que lhes trazia muito pavor. Pensaram em como constituir um funeral de acordo com seus ritu- Lembranças do AYOKÁ 21
  22. 22. ais, mas não teria como! Pois a certa distância havia animais ferozes quelhes observavam e que demarcaram território. Assim os dois partiram daquele lugar, mas ainda continuavam comobjetivo de ajudar o povo das aldeias dos Wazyrys. No caminho já próximo da aldeia encontraram um fugitivo apa-vorado, que lhes recomendaram a voltar, pois as tribos dos Wazyrys eEmdembus estavam praticamente cercadas e os inimigos estavam àsespreitas, só esperando o momento certo para atacar, então Makolo lheperguntou se Bamydele havia montado alguma estratégica para defenderseu povo. O então fugitivo comentou que mesmo contra a vontade deBamydele, alguns homens afoitos ficaram a dois quilômetros das aldeias esperando a hora de contra-atacarem e os que não foram por obediên-cia ao líder Bamydele, ele mandou que ficassem a 250 mts de distância, porque os que se escondessem ele dava total garantia que nada iria lhesacontecer, basta que eles ficassem quietos, mas pelo o que o líder estava fazendo com certeza ele iria usar outros meios para salvar aquele povo. Makolo e Nasymba, de comum acordo resolveram ir em frente,pois aquela era sua missão responde Makolo: “E mais, não é digno pou-par minha vida e ter que conviver com uma atitude covarde de minhaparte, mas você Nasymba deve ficar por aí, quanto a mim eu tenho que ir em frente porque Bamydele e seu povo confiaram esta tarefa a mim e a meu finado irmão Ndomby”. Com este pensamento digno, Nasymba lhe respondeu: “estou comvocê para o que der e vier, afinal eu devo minha vida a você, mas não é só porque você me salvou que quero ir com você”. Assim sendo, os doisforam em frente com muito cuidado e a jovem lhe falou: Agora vocêé meu protetor, meu pai me recomendou para que nós dois ficássemos sempre juntos.BAMYDELE E SUAS ESTRATÉGICASBamydele em uma última tentativa havia mandado sacrificar várias ca-bras, moldou muitos bonecos em argila, cor da pele, em tamanho naturale também ordenou que alguns dos homens colhessem uma boa quantia de22 Lembranças do AYOKÁ
  23. 23. ervas conhecida pelo nome de Mulupanyojy e deixou tudo a mão. Quando ele percebeu que estava na hora. Em uma tentativa deses-perada de salvar seu povo macerou aquelas ervas e mandou que todostomassem. Sua esposa, Nylonda não entendeu bem o que ele estava atramar e lhe pediu uma explicação, então ele relatou em detalhes para suarecém e jovem esposa a sua intenção de uma última tentativa para salvaraquele povo que era de sua total responsabilidade. “Meu amor”, o disse com carinho e ternura: “Você é tudo que umbom homem pode desejar na vida, para mim você foi o maior presenteentre todos que os deuses me concederam ou que já conquistei, mas temosque nos separar, e para sempre! Mas nunca se esqueça você foi e será oúnico e grande amor de minha vida, sem você a vida fica sem sentido, mas terá que ser assim, a partir de agora você será a líder absoluta deste povo”. Nylonda chorando lhe responde, eu não estou entendendo nada doque você quer dizer: “Explique-me melhor”. “É melhor que você não entenda o que vou fazer, porque poderá portudo a perder, quero que entenda uma coisa, só quero salvar este povo dessesperversos estrangeiros e de alguns mercenários de outras aldeias, que por in-veja e ambição matam digladiam e capturam nossos povos, ou melhor, seuspróprios irmãos que são tão passivos e só querem viver em paz. Estou muitoindignado e para salvar a todos que ficaram, com exceção dos que preferiram a lutar, estou disposto a entregar minha vida nas mãos desses perversos egananciosos estrangeiros, mas o meu povo não sofrera nenhum arranhão, eulhe prometo.” Nylonda lhe pergunta; “e como você ira fazer isto?” “Bem, responde Bamydele; estas ervas que foram maceradas pro-vocam um sono profundo, por estarem bem forte, elas fazem as pessoastomarem dormir por dois a três dias, assim é conhecido como o sono damorte, porque há quase uma parada cardíaca o coração bate de forma queos leigos não percebem, ou seja, em ritmo muito lento. Quantoaos bonecos de tamanho natural, vou separar as cabeças do corpo de al-guns deles e colocar sangue de cabra e outros com cordas no pescoçopendurados e também outros, com vários ferimentos com muito sanguepara parecerem mortos e quanto aos que tiverem dormindo, também co-locarei sangue neles, porque se eu falhar com os bonecos ainda terei outra Lembranças do AYOKÁ 23
  24. 24. chance de enganar os estrangeiros. Como eles atacam sempre ao cair da tarde exatamente quando co-meça a escurecer! Com certeza eles confundirão os bonecos com as pesso-as. E com um pouco de sorte, nosso povo sairá dessa situação intacta, semnenhum arranhão, assim espero. E porque todos terão que tomar a mistura de erva? PerguntaNylonda: Eles ficarão afastados uns 250 mts das aldeias e dormindo. Em se-guida vou atear fogo nas casas e se alguns dos nossos estiverem acorda-dos, os mais afoitos ou mesmo os medrosos colocarão todo meu planopor terra e terão também aqueles que com certeza darão suas vidas pormim e é isso que eu não quero que aconteça, pois o meu objetivo é salvara todos sem heroísmo, afinal não temos nenhuma afinidade com lutas sangrentas, não sabemos matar! A única coisa que matamos são algunsanimais para servir-nos de alimento, ou para suprir nossas necessidades,não aprendemos sacrificar nossos semelhantes, mesmo sendo os perver-sos estrangeiros e de cor diferente afirma Bamydele. E você será o último a tomar a mistura? Pergunta Nylonda: Bamydele lhe responde com coragem e um grande sentimento emsua alma aflita, que não vai tomar a erva, pois precisa ficar consciente para velar pelo seu povo. Nylonda retruca: “mas quando os invasores chegarem, eles nãoirão poupar sua vida, ou lhe levarão como escravo?” Bamydele diz a sua amada esposa, “pois é assim que tenho deser, afinal, sou o líder dessas duas aldeias, para este povo eu sou um rei não posso decepcioná-los, não sei lutar como esses bárbaros, mas queromorrer defendendo meu povo, eu acho que cometi um erro não querendoaprender a arte da luta, porque o que eu aprendi na verdade foi preservara vida e não tirá-la. Minha vida nesse momento pertence ao nosso povo!Eu tenho fé que os deuses saberão como livrar esta gente passiva denossas aldeias. Nylonda lhe responde com lágrima nos olhos: “eu não irei tomardessas ervas, ficarei com você meu amor, pois para mim, sem você não tenho o mínimo interesse em continuar vivendo, viver sem você é viversem alma, essas duas aldeias sem o seu comando, não faz o menor sen-24 Lembranças do AYOKÁ
  25. 25. tido para mim. Bamydele lhe responde com autoridade: Segundo nossas leis todaesposa deve ter obediência ao seu esposo, por isso a partir de agora estoulhe passando não um pedido como sempre fiz, mas sim uma ordem! E espero que me obedeça como deve ser e como uma boa esposa.” Ela lhedisse: “está bem, meu amado assim será.” Quando tudo estava preparado surge o ataque, o grupo de bárbarose mercenários era formado por estrangeiros alguns árabes e africanos deoutras aldeias que foram banidos, estavam revoltados e com inveja. Elesentregavam seus próprios patrícios. Entre o grupo havia a necessidade denativos africanos por eles, os bárbaros, não conhecerem o local de ataque etambém por causa do dialeto. Os nativos, sem o menor escrúpulo, recebiamcomo pagamento, arroz, trigo, charuto e outras mercadorias de pequenovalor comercial e, no final, os estrangeiros os traiam: Aqueles que eles acha-vam que lhes iriam trazer um bom lucro eram também capturados e levadosem degredo, já os árabes eram mais astutos, portanto queriam sempre paga-mento antecipado e em dinheiro ou moedas de ouro que e estavam sempreàs espreitas para no caso de serem traídos.VOLTANDO A BAMYDELEBamydele sentiu que começara o ataque, sem perca de tempo, ateou fogonas ocas (casas) e saiu gritando: fomos atacados! fomos atacados do ladooeste!” mostrava-se muito pavor para seus algozes. Nylonda desobedeceu à ordem de seu jovem esposo Bamydele, elanão havia tomado a tal mistura de ervas preparada por ele. Portanto, semque ele soubesse, para sua surpresa ela saiu do esconderijo, rasgou suasroupas, feriu-se e gritava com total desespero. Tudo isso na intençãode afastarem os mercenários daquele lugar. Estes, africanos, vendo todoaquele povo que dormia, profundamente, em várias posições, jogados so-bre ao chão, no entanto para eles estavam todos mortos, deduziram querealmente aquele povo fora atacado por outro grupo que também seria seuinimigo, por covardia acharam melhor bater em retirada para não havera necessidade de combate com outros guerreiros, porque na condição de Lembranças do AYOKÁ 25
  26. 26. tradutores explicaram para os estrangeiros que havia outro grupo e queaquela aldeia já tinha sido atacada e com isso mataram muita gente, masque só lhes restaram aquele casal, porém havia outra aldeia da tribo dosEmdembus. Os bárbaros ficaram em dúvida se deveriam atacar a outra aldeia, porque na verdade, estava sem moradores, pois Bamydele reunira a todose escondera-os entre as matas. Com esta dúvida, entretanto, os merce-nários e bárbaros sabiam que o perigo ainda rondava aquela aldeia, porqualquer motivo eles poderiam concluir que tudo aquilo era uma farsa,então a dúvida prevalecia. Makolo e Nasymba abriram um buraco próximo da aldeia, entra-ram buraco adentro e se cobriram com gravetos e mato fresco, camu-flando, assim, o tal buraco, pegaram um toco de árvore oco e, às pressas, colocaram um couro de animal que eles carregavam de suas caçadas efizeram um tambor, logo começaram a mandar mensagens com o propó-sito de os mercenários africanos ouvirem. Na mensagem Makolo dizia que as aldeias dos Emdembus e Wazi-res haviam sido atacadas. Os mercenários estavam com certa dificuldade para ouvir e enten-der a mensagem, após conseguirem entender, traduziram aos estrangei-ros que do lado oeste havia vários e vários guerreiros, assim como elesos chamavam e que não valia a pena o perigo, assim sendo resolveram,de comum acordo, ir embora e na faina de saírem daquele lugar quasepassaram por cima de Makolo e Nasymba, logo as aldeias dos Wazyryse Emdembus foram salvas por aqueles heróis destemidos, sem o uso daviolência, só perecendo os ousados voluntários que montaram guarda a 2km, contrariando as ordens de Bamydele. Makolo e sua parceira foram socorrer os sobreviventes e após umatímida, porém linda declaração de amor, ele pede a mão da bela jovem,Nasymba, em casamento, jurando-lhe eterno amor, esta por sua vez retri-bui ao jovem, entregando-lhe seus lábios para que com ternura fosse bei-jada por aquele belo jovem, cuja beleza interna, trazida da alma, refletia e traduzia em seu belo porte físico. Por consenso, após algum tempo, eles se tornaram líderes daquelepovo. Sendo, ela, a única sobrevivente de sua aldeia, então, Nasymba26 Lembranças do AYOKÁ
  27. 27. passou com o consentimento de seu marido o brasão ou o símbolo de suaaldeia para aquela tribo cujo seus objetivos eram a paz e a liberdade. Bamydele e Nylonda vieram para o Brasil nas piores condiçõesque um ser humano pode suportar, em porões de navio negreiro, comen-do uma ração por dia, subordinados aos seus, agora, senhores, em que ochicote feito em couro de animal era a lei. Lembranças do AYOKÁ 27
  28. 28. PARTE DOISBAMY E NYLONDA NO BRASILBamydele, quando chega ao Brasil, passa a se chamar João de Ayoká,entretanto foi vendido a um fazendeiro por um bom preço, pois era muitosaudável, com dentes perfeitos e, portanto, um negro muito bonito, pode-ria ser um excelente reprodutor, se o seu senhor assim o desejasse: Já embarcados no navio negreiro, Bamydele e sua esposa sofreraminúmeras humilhações, mas uma delas lhes calou bem fundo em suasalmas. Foi em uma manhã quando ficaram parte da noite sem dormir porque o navio sofrera uma violenta tem pestade que arrastou-se por vá-rias horas. Sendo assim, era de costume, os mercadores tirarem todos osescravos do porão para tomar sol e se exercitarem para que, logo, chegas-sem ao destino em boa forma física. Pois bem, os escravos estavam todos no convés, quando os tripu-lantes do navio, que eram ajudantes, começaram a mexer com uma mu-lher, tentando possui-la, então Bamydele, vendo o sofrimento desta, pe-diu ao imediato que reprimisse aqueles homens, porque a mulher estavasofrendo muitas dores, humilhação etc. Por esta razão, ele foi amarrado ao mastro principal do navio e casti-gado com várias chibatadas e ainda teve de assistir àquela monstruosa cruel-dade com a mulher, sendo possuída por vários homens contra sua própriavontade, praticaram-se todos os tipos de perversidades possíveis que qui-seram, logo após espancá-la, julgaram morta, então lançaram sobre o mar. Bamydele atado ao mastro assistia a tudo sem nada poder fazer,só lhe restava, então, pedir aos deuses a sua misericórdia e pedir a Olo-dumaré (Deus), todo poderoso, que poupasse a sua vida e a dos escravosque estavam nos porões. Passando necessidades, fome e humilhações, semsaber o porquê de todo aquele castigo, o motivo pelo qual as espancavam eviolentavam algumas das mulheres. No entanto, sem poder fazer nada, àsvezes, ele se revoltava e tinha pensamentos horríveis, achando que aquilotudo não passava de um pesadelo ou que aquele povo estivesse sendocastigado por deuses. Logo, em seus pensamentos, ele tentava fazer um28 Lembranças do AYOKÁ
  29. 29. exame de consciência, para saber se haveria cometido alguma injustiçapara merecer tanto sofrimento ou então se os deuses estavam lhe pondo àprova. Na verdade Bamydele estava sendo lapidado para sua tenra missãoem terras além-mar. Em seus delírios ele avistava, um vasto campo com muitas folha-gens verdes, as savanas em sua terra Ayoká, tudo era perfeito e bonito, osparentes e amigos de sua tenra infância e na fase adulta os peixes no rio,as aves e os animas tudo em harmonia, mas ele não estava lá, se encontraagora amarrado para ser entregue em mãos estrangeiras, preso e cativocom sede e fome, mas o seu maior martírio era a fome! A fome de justiça que ele sentia em sua alma, de líder pacifista por natureza. Eis que, um daqueles bárbaros lhe diz: “não se preocupe negro!você não irá morrer, sabe por quê? porque você vale um bom dinheiro enós separamos algumas mulheres para nos saciar, está vendo aquelas alitomando banho? Estão tomando banho para tirar o mau cheiro, depois que nós apro-veitarmos delas, todas irão morrer.” Bamydele, observando, viu que sua mulher estava naquele grupoe o tal homem lhe explicara que aquelas eram as mais bonitas e sadias,entretanto ficaram nos porões as mais feias, pois eram intocáveis pela feiura, mas que também valiam algum dinheiro. Diz Bamy: “afinal, quem são vocês? Como podem agir dessa for-ma? Agem como verdadeiros animais, matam seus semelhantes sem o me-nor remorso. Só porque somos de peles diferentes e andamos de acordocom a nossa natureza, seminus, ou vocês são animais em forma humana?” Quando Bamydele já estava no limite de sua resistência achandoque seria sua última noite, pois há três dias não comia nem bebia, a nãoser as gotas de água que caíam da chuva. Assim que o homem levanta o chicote para chicoteá-lo o comandantedaquele grupo diz: “para! não faça isso, este homem está debilitado, se elemorrer será um prejuízo enorme, tire-o desse mastro agora, faça com queele tome um banho e alimente-o, pois ele precisa chegar em forma, senãonão terá valor algum e eu não estou disposto a tomar mais prejuízo, mandetambém essas mulheres lá para baixo, nos porões. Mesmo elas não sendofortes, iguais os machos, valem algum dinheiro. Vamos logo, faça o que Lembranças do AYOKÁ 29
  30. 30. estou mandando seu imbecil.” Após o banho e a sua ração que naquele dia foi reforçada, Bamydelecai em um sono profundo junto àqueles trapos jogado no assoalho do porão,no entanto nesse sono ele queimava em febre e falava de seu povo, guerrase pessoas mortas. No terceiro dia, graças a algumas ervas que alguns dosnativos traziam consigo e que eles mastigavam, sua febre foi cedendo e,também, por Bamydele ter o costume de ingerir em sua aldeia algumas daservas seus órgãos tinha muita resistência. No outro dia, logo pela manhã, eles ouviram um burburinho muitogrande no convés daquele navio, uma gritaria que, às vezes, eles não en-tendiam, ou melhor, os que falavam outras vezes, comentavam sobre ostripulantes africanos, diziam: “terra à vista, terra à vista e, logo, em segui-da eles perceberam que a embarcação havia parado e balançava, suave-mente, de um lado para outro. Foram momentos angustiantes para todos,porém pensou se tudo aquilo seria um sonho ruim e que talvez estivessemem sua terra natal e nada daquilo seria real. O chefe da tripulação desceu do navio, arranjou-se em um barco eordenou aos seus subordinados que trouxessem os negros acorrentados eem fila indiana, fazendo com que os “escravos” subissem para o convés. De onde divisava a praia e uma exuberante floresta, portanto de lon-ge eles avistavam algumas pessoas com cavalos, outros com carroças. Daíeles foram jogados em pequenos barcos, obrigados a remar até a praia,onde eram colocados sentados lado a lado e examinados por outros ho-mens. Todavia dois deles muito bem vestidos, com porte nobre, falavam eos escravos não entendiam nada de suas linguagens, mesmo assim sabiamque estavam sendo avaliados, depois se examinaram os dentes, unhas etc.e seguiram viagem até um vilarejo, onde foram lavados, alimentados ecolocados, todos, em um galpão grande com cobertura de taipas. Ali sepassaram dois dias e duas noites, ali bamydele pôde ficar por um pouco tempo com sua amada Nylonda, mas no fundo do seu amargurado cora-ção, ele sabia que ele teriam de se separar e que talvez nunca mais pudes-sem estar juntos. No terceiro dia, por volta das nove horas da manhã, foram todosaté a praça, no vilarejo, onde uma multidão se aglomerava em torno deuma espécie de palco. Ali tinha um homem vestido com colete de couro,30 Lembranças do AYOKÁ
  31. 31. chapéu abas largas, botas e calça de algodão, um senhor rude e com umchicote em mão, estava em cima do palanque e anunciava o leilão dosescravos que se encontravam amontoados naquele casebre de barro co-berto com taipas. Muito bem vigiados por homens armados de carabinas,facões e cães adestrados. Assim que começa o leilão os escravos eramlevados, na presença dos interessados, de dois em dois, os nobres e fa-zendeiros, ali mesmo, arrematavam como se fossem animais e dali eramcolocados em grilhões nos carroções gradeados. Por fim, foi anunciado: “senhores, muita atenção: deixamos este exemplar quase por último, por ser ele um escravo de raro esplendor euma força descomunal. Esse belo exemplar veio do coração das selvas.Do continente africano, de um lugar chamado de Ayoká. Repito: ele éforte como um toro, espanando bons dentes, sem nenhuma marca em seucorpo, lance inicial dez contos de réis, quem dá mais”. Ouve-se uma vozforte lá detrás: “doze contos de réis.” O leiloeiro: “temos lá no fundo 15contos, quem da mais, por este excelente escravo.” Continua: “poderá ser um excelente reprodutor, quem arrematar terágrandes lucros, pois muitos negrinhos ele poderá reproduzir. Com issoo seu dono poderá ter muito lucro.” Ouve-se a mesma voz lá no fundo.Gritou com energia: “eu ofereço 25 contos de réis, esta é a minha últimaoferta, pra ninguém mais retrucar.” Disse o fazendeiro com muita firmeza. Repete o leiloeiro: “quem dá mais, quem dá mais, quem dá mais? vendidopor 25 mil réis, para o senhor ali atrás.” Naqueles dias, nunca se tinha ouvido falar em um valor tão altopara a compra de um só escravo, era realmente muito dinheiro. Aquele senhor que arrematou Bamydele era nada mais que o po-deroso fazendeiro que se conhecia naquela região das Minas Gerais, se-nhor Orozimbo (Odorico Cavalcante) homem impiedoso, acostumadotratar seus escravos com muita ruindade. Os fujões de sua fazenda, na suamaioria, eram mortos e carneados. Davam-se as carnes daqueles escravosmortos para os cães, contavam-se coisas horríveis a seu respeito, ele erade uma educação perversa e arcaica que herdara de seu pai e de seus entespassados. A falta de humanidade que ele dirigia a seus cativos lheera peculiar, até os mais rudes e enérgicos senhores de escravos achavamOrozimbo (Odorico) muito ruim e cruel demasiadamente. Lembranças do AYOKÁ 31
  32. 32. Ali, Bamydele percebeu que realmente começaria seu calvário.Pois ele ao analisar o rude fazendeiro percebera o quanto aquele senhorera perverso e para seu azar, ninguém conseguiu fazer uma oferta maiordo que o tal fazendeiro, ele foi vendido por 25 mil reis, uma pequenafortuna para aquela época. Após o leilão sem perda de tempo. Dali os escravos foram levadospara as fazendas etc. Bamydele foi conduzido bem acorrentado pelos homens do fazen-deiro, senhor (Orozimbo) Odorico, e colocado na carroça atrás das gradescomo um animal feroz e não ficou sabendo o que foi feito de sua querida Nylonda. Nylonda fora comprada por outro fazendeiro, pela quantia de seismil contos reis e que por ser escrava fêmea seria uma quantia bem eleva-da e só foi vendida por esse preço por ser ela a mais bela negra daqueleleilão, com isso ambos tomaram rumos diferentes.MAKOLO E SUA ESPOSA NASYMBAEnquanto isso, na África, as aldeias devastadas que foram comandadaspelos predadores europeus. Makolo e Nasymba resolveram reconstruir,tudo o que fora destruído pelo fogo, em um lugar mais alto. Estrategica-mente escolhido para que se houvesse uma nova investida, ou no caso deguerra, os teria mais facilidade para defesa e fuga dependendo do caso.Elaboraram tudo de acordo. As pessoas, das duas aldeias Wazyrys e Emdembus, passaram a sertreinadas na arte da guerra e o manejo de vários tipos de armas por compa-triotas de outros recantos, isso serviria como troca de informações e apren-dizado para todos em geral. Makolo, em sua antiga aldeia, era de origemde guerreiros Bantos que tinha, por natureza, ótimas estratégicas de se de-fender, mas também pregava a paz quando fosse possível. E assim Makolo conseguiu formar um bom contingente de jovensguerreiros e corajosos, enviou emissários para outras aldeias, convidan-do-os para formar um grande clã. Mandou dizer aos chefes ou líderes dealdeias que a partir daquela data haveria uma espécie de exército, sempre32 Lembranças do AYOKÁ
  33. 33. pronto, para no caso de qualquer tentativa de ataque inimiga e que os di-rigentes enviariam seus jovens para serem trinados e aptos para defenderas aldeias que fizessem parte daquele clã se assim o quisessem. Com isso, estabeleceu-se em comum acordo, várias aldeias vizi-nhas, uma grande fortaleza. Makolo além de líder das duas aldeias também foi eleito o coman-dante geral daquele exército, com isso enxotaram da região alguns mer-cenários que ainda haviam permanecido ali por perto, por escaramuças,bem planejados, pegando-os de surpresa. Uns bêbados, outros dormindoapós suas orgias. No entanto, o que mais lhe preocupava e lhe deixava aflito era a lembrança do pai de sua amada esposa, não lhe saía do seu pensamento,seu grande sonho ou objetivo seria trazê-lo para que vivesse ali perto dasua filha e do seu neto ou neta que logo viria para o convívio dos seus, pois Nasymba a sua amada esposa havia concebido (estava grávida). Em conversa com sua mulher Makolo, lhe revelou seu desejo e dis-se que gostaria muito de voltar naquele lugar, invocar a ninfa das águase dizer-lhe de seus planos, pois agora o rio não passava muito longe daaldeia, após estar em seu novo leito.O PLANO (PROJETO)O plano consistia em construir uma gruta às margens do rio, o mais próxi-mo possível da aldeia, onde sitiavam Makolo e Nasymba e consagrar aque-le lugar ao deus Dã. Colocar ali Zunkuembo como seu eterno guardião, as-sim ele poderia tomar conselhos e também sua mulher estaria sempre pertode seu pai, com efeito ele poderia aprender a arte da magia (ser iniciado). Sendo assim aconselharam-se com os feiticeiros, isso porque elesviviam em plena democracia, uma democracia socialista. Os feiticeiros além de acharem uma ótima ideia também lhe en-sinaram como invocar a ninfa das águas, mas nada conseguiram porquenenhum deles detinha conhecimento suficiente para invocá-la, por conse-guinte Makolo se sentiu desiludido. Certo dia, Makolo estava à beira do rio a meditar como era de Lembranças do AYOKÁ 33
  34. 34. seu costume, todos os dias ao cair da tarde ou pouco antes do anoite-cer. Quando logo ele ouviu uma voz vinda das profundezas das águas.“Por que você parece-me estar tão desiludido com seu projeto homem?.”Logo, Makolo associou aquela voz com a voz da ninfa que escutara falarquando ele esteve com Zunkembu. Já refeito do susto, ele disse: “senhora das águas, eu gostaria queaquele homem, meio-homem e meio-serpente que a senhora ajudou, vies-se ter com sua filha e que pudesse morar próximo de nós. Aqui temos uma gruta onde ele poderia compartilhar conosco o convívio familiar. Passado algum momento a ninfa falou: “pode preparar junto a seusguerreiros, ao sopé da montanha, a tal gruta, mas que seja muito bem es-condido naquela ravina pequena ao sul da sua casa, que eu farei o resto.Após tudo preparado, você me trará muitas frutas nativas e duas virgensvestidas de branco, ornadas de joias, carmesim, marfim, ouro e uma guir-landa de flores silvestre em cada uma delas, então eu farei aparecer um olho d’água que tenha força e vazão suficiente para inundar a ravina e unir-se ao rio e para ali então traremos Zunkuembo e, com isso, lá ini-ciaremos os cultos de adoração a Dã.” Nessa ocasião, também, revelareimeu nome!. “agora, espere um momento.” Dito isso ela mergulhou atéas profundezas daquelas águas e de imediato voltou para a superfície,trazendo em suas delicadas mãos vários seixos uns dourados outros devárias cores em um colorido espetacular e disse a ele: “escolha um.” Apósalguns segundos de indecisão, ele escolheu o seixo verde com nuancesprata, dourada e negra. Ela lhe disse: “muito bem, esta é uma pedra quese chama esmeralda, através dela você me invocara, e eu me comunicareicontigo e que o mesmo lhe sirva de amuleto para suas horas de total inde-cisão, assim também como para sua tribo. Dito essas coisas, ela desapareceu nas águas profundas daquele riode águas cristalinas, ficando atrás de si um feixe multicor de luz, deixan-do qualquer ser humano embebido pela beleza. Após esse momento único, Makolo retornou à aldeia e relatou commuito entusiasmo a sua bela esposa o ocorrido. Entre surpreso e feliz porconseguir logo em breve trazer Zunkuembo para perto de todos e poderconstruir um templo onde adorariam ao deus Dã e seu séquito. No dia seguinte, Makolo reuniu no pátio da aldeia todos os guer-34 Lembranças do AYOKÁ
  35. 35. reiros e partiram para um local próximo a aldeia para deixarem a grutana mais perfeita ordem, na intenção de receberem Zunkuembo no novotemplo de Dã e também o novo lar daquele píton. Chegando ao local determinado, os guerreiros retiraram, imedia-tamente, as pedras, colocando-as umas sobre as outras, até alcançarem obarranco para a escavação da gruta. Não precisaram muito esforço, logo acharam um vão que só foipreciso completar a abertura um pouco mais e, para surpresa de todos,assim que abriram a entrada da gruta notaram que havia um enorme sa-lão. Era uma grande caverna que adentrava a montanha, ficaram todos maravilhados ao ver que não fora preciso muito esforço, pois a naturezajá havia se encarregado disso. Do lado de fora fez com que aquelas pedras se tornassem a entrada,formando o templo que justamente ali haveria de ter a caverna central eoutras menores seriam o local ideal para a adoração do deus Dã, e ondeiria morar Zunkuembo. Ficando do lado de fora a ravina. Um plano muito bom de terra,onde as crianças das duas aldeias poderiam entreter-se com brincadei-ras. Com o plantio de várias árvores, margeando a ravina, para arborizaraquele lugar em um futuro muito próximo e ali mesmo se formarem umapequena floresta, com árvores medicinais e árvores frutíferas. Esse projeto demorou pouco tempo para ser executado, afinal a mãe natureza foi muito gentil e generosa com aquele povo. Enquanto isso, todas as noites Makolo invocava a ninfa, por meiodaquele seixo que ela lhe deu, por intermédio dele a ninfa orientavaMakolo na elaboração da construção, ou melhor, na transformação dacaverna em tempo. Do lado de fora, avistava-se o rio. Enfim chegou o dia previsto, mas três dias antes aconteceu um enorme temporal, quase um dilúvio, todosestavam muito preocupados e apreensivos, achando que a enxurrada iriadestruir tudo que fora feito. Qual não foi a surpresa de todos, ao chegarem lá, após o temporal,tudo estava perfeito na mais perfeita ordem. A ravina haveria se trans-formado em um grande corredor de água que unindo ao rio tornou-seum lindo canal, então no dia seguinte preparam tudo de acordo com as Lembranças do AYOKÁ 35
  36. 36. orientações da ninfa, na pessoa de Makolo. Na véspera deles irem buscar Zunkebu, preparam as virgens, asfrutas, os cestos de alimentos ornamentos, joias em ouro marfim, carme-sim etc. Acenderam-se os archotes do lado de fora, as margens da ravinaagora um canal. Todos que ali estavam presentes entoavam cantos emlouvor a Dã. Quando menos se esperava, ouviram um barulho de águairrompendo da montanha, algo se movimentava internamente sobre amontanha, a água do canal começou a borbulhar se movimentando emredemoinho cada vez mais rápido e mais forte atingindo um ritmo aluci-nante num crescente até culminar em um jarro d’águas que parecia sairdas entranhas do monte como se fosse um jato de água elevando-se bemacima das cabeças dos ali presentes. Nesse momento, na crista da águas,surgiu a Ninfa toda vestida em roupas reluzentes, uma miscigenação deluz ouro e prata. E falou aos presentes: “povo de Wazyrys e Emdembusouçam-me. De hoje em diante, este lugar será a minha morada e de nos-so pai Dã (Ijuku Danbalah), terá na pessoa de Zunkuembo o seu sumosacerdote, tudo o que for feito aqui, assim será e através de sua pessoaeu revelarei meu nome, para sempre será Yassure Mamboji, a deusa dosenhor do arco-íris. Para sempre estas águas jorrara aqui neste lugar e alimentara o rioque se formara e Dara vida a savana as florestas e os animais destas pa-ragens e o animal sagrado daqui será a píton e o ajapa, as frutas e os ali-mentos serão deixados aqui como oferenda a Dã. As virgens serão as sacerdotisas do amanhã, doravante elas só ser-virão ao sumo sacerdote, aprenderão tudo que for preciso para o culto donosso deus e que seja erguido aqui um monumento a Dã. Naquela madrugada, iniciaram-se os preparativos para trazer o sa-cerdote Zunkuembo para o templo. Constituíram um barco de bom tama-nho, com remadores, para subir o rio em busca de Zunkuembo. Neste ínterim as duas aldeias estavam eufóricas em preparativos,afinal todos iriam conhecer o pai da esposa de Makolo, um homem que ao ser vítima de uma magia ruim se transformou em píton, amargurandoalguns anos, nessa forma, até ser encontrado pela sua filha. Por conse-guinte, de agora em diante começaria uma nova etapa e uma nova época,de certa forma muito boa para ele e os demais das aldeias.36 Lembranças do AYOKÁ
  37. 37. Para que a felicidade de Makolo fosse completa só lhe faltava saberonde estaria Bamydele e sua esposa. Após chegar seu sogro, Makolo pre-tendia usar sua influência e astúcia, juntamente com seu sogro “a píton” e a ninfa, para saber dos amigos e também como ajudá-los. Pela manhã, empreenderam a viagem, navegaram rio acima atéonde lhes permitia chegar, ou melhor, até onde era navegável, iriamviajar por um bom tempo. Ao anoitecer, Makolo foi logo preparando amente dos tripulantes, para que não se assuntassem com o que haveriamde ver, pois o aspecto da criatura que iriam buscar, à primeira vista, eraassustador e ele explicou aos demais que ao anoitecer aquele ser de umcoração generoso era um píton gigantesco, o maior que sucedeu por alie que durante o dia ele se torna um homem... Um homem de um exce-lente caráter com um coração extremamente bondoso e justo em suasatitudes. Mesmo eles sendo preparados para o que haveriam de ver, surpreen-deram-se ao ver aquele réptil enorme falando. Seria algo magnífico, algo realmente fantástico, um píton falar. Chegando ao ponto de onde o rio não era navegável desembarca-ram do grande barco, tiraram do rio e marcaram o lugar onde ficou o bar-co para a volta, em seguida andaram horas até chegarem a uma cachoeiraque por sobre as águas escondia a gruta onde um dia Makolo, Nasymba eseu finado irmão Ndomby abrigaram-se começando aquela saga. Após alguns dias de viagem finalmente chegaram a uma cachoeira era quase noite, todos pararam à entrada, Makolo entrou só e chamando--o da caverna. Aparece Zunkuembo Danbalah! Makolo lhe diz: “Aqui,seu genro, Makolo, venho em paz e lhe trago boas notícias de sua filha, ótimos assuntos... Seguiu-se um silêncio breve. Depois um longo silvovindo do fundo da gruta, aparecendo em seguida um enorme réptil. Cum-primentaram-se e Makolo disse: “Alegre-se homem, pois o que tenho alhe dizer vai deixá-lo muito feliz, transformara sua vida de monotoniaa alegres dias e noites. Vamos sair dessa caverna”. Após saírem, todosos guerreiros correram apavorados ao ver aquele enorme píton, mesmoMakolo os preparando para o que iriam ver. Passado o susto eles foram voltando aos poucos, até que todos sejuntaram em volta dele e finalmente conheceram de perto o tão falado Lembranças do AYOKÁ 37
  38. 38. personagem daquela história, que o líder Makolo e sua esposa contavamnas duas aldeias. Após esse episódio, resolveram por um consenso que deveriamdescansar e no dia seguinte aquele píton haveria de se transformar em ho-mem, então ele iria relatar a Zunkuembo qual a sua intenção de estar ali. No dia seguinte houve a transformação quando os guerreiros acor-daram ali estavam Makolo e o homem Zunkuembo com dois metros e 10cm de altura, forte como um touro e assim compreenderam o encanto. Após Makolo convencer Zunkuembo a vir com ele, preparou-sede imediato a volta para próximo das duas aldeias onde aquele homem,às vezes, cobrara as vazes ser humano, poderia ficar e ser o supremo sa-cerdote onde iriam cultuar a Olorum e ao deus Dã. Após chegarem ondeestava o grande barco, pararam e fizeram uma rápida refeição e seguiram, minutos depois, rio abaixo cantando. Zunkuembo estava muito ansioso em poder rever sua filha e tam-bém poder usar de seus conhecimentos de magia, de modo que estes fos-sem úteis para as duas aldeias que na verdade pela união de ambas, seria,portanto, um só povo reunido em torno de um só objetivo. Navegaram boa parte, sendo que a volta de onde estavam, logica-mente, seria mais rápida por vir rio abaixo, ou melhor, a favor da cor-renteza. Ao cair da tarde do último dia de viagem apontaram o barcona aldeia, quase na hora em que Zunkuembo haveria de se transformar,todos nas duas aldeias estavam esperando o homem que seria o mais im-portante daquele povo, sua filha era a mais ansiosa, ela perguntara em seu pensamento como seria a reação de seu pai ao ver tudo aquilo quefora feito para ele na caverna próximo das aldeias. Ou melhor, o grandetemplo para cultuarem o deus Dã que estava ao sul próximo ao rio, suaemoção, seu estado gestante, tudo isso era motivo de preocupação, masestava otimista e muito feliz. Por fim, ela avistou sua grande silhueta poderosa, seu tamanho avantajado sobressaía entre os outros, abraçaram-se emocionados pai efilha. A comoção foi generalizada em um só alarido, todos ali olhando aquela cena, quando ele começou a se transformar, até porque já se fazianoite e também pelo seu estado emocional em uma mística de amor eódio (amor pelo o que estava acontecendo e revolta pelo o que lhe fizeram 38 Lembranças do AYOKÁ
  39. 39. no passado). Todos ficaram estupefatos ao ver que o homem se transfor-mara, diante de seus olhos, em uma serpente. Basicamente, quase todoscorreram no que foram acalmados por Makolo e sua esposa. Os demaisque já haviam presenciado a transformação de Zunkuembo, onde este es-tava antes. Logo que acalmaram- se, foram todos em direção ao templo,no que já se fazia esperar nas portas pelas virgens e lá dentro a Ninfa oesperava indo ao seu encontro. Falou Zunkuembo mesmo transformado em píton: “Aqui começauma nova era: uma era de alegria e contentamento para vocês e os seus,eu ficarei aqui e desfrutarei também de tudo a porvir, teremos momentos difíceis a transpor, isto é, a bem da verdade, mas com inteligência, e astú-cia, e também com ajuda de Dã, e de Olorum nos sairemos bem. Do lado de fora, todos dançavam e cantavam em harmonia, a magiae a felicidade faziam-se presente, houveram-se festejos até pela manhã, opovo de Ayoká cantava assim: “o Dã yko o huyry mã nassade abara do egbo yko o huyry mã nosada yeye doum edã edã edã abara do egbo yko huyry mã etc... ”.O SONHO DE MAKOLOApós os festejos em comemoração a chegada de Zunkuembo. Makolodescansava em sua tenda, nisso ele adormeceu e sonhou. Neste sonhosua mulher tivera dois filhos gêmeos, sendo um lindo casal e com isso todos estavam alegres, mas de repente uma sombra negra abateu-se so-bre a aldeia, na forma de uma enorme águia e no sonho ela carregava osdois bebes. A grande ave, ao mesmo tempo em que conduzia as crianças, solta-va raios reluzentes incendiando tudo em sua volta. Makolo enfrentava ogênio do mal (demônio) atirando flechas e lanças, mas nada disso adianta-va, de repente surgiu das matas um caçador: um caçador vestido em pelede leopardo e lhe disse: “Não se preocupe eu trarei seus filhos de volta”. Ao olhar mais de perto, ele pôde observar de quem se tratava, o caçadormaterializado em sua frente era seu irmão Ndomby, mais alto, forte eiluminado. No entanto, em seguida, Ndomby arremessou uma flecha cer- Lembranças do AYOKÁ 39
  40. 40. teira em direção das nuvens, estas ao serem atingidas, formaram-se em um enorme temporal apagando o fogo e drenando toda a força daquele gênio do mal. Ao devolver os filhos de Makolo o caçador desapareceu na bruma branca e aveludada levando consigo o demônio alado. Por fim, ao olhar as criança ele não conseguiu ver seus rostos e sim a feição de seus faleci- dos pais que haviam perecido na invasão de sua aldeia há algum tempo. Por conseguinte, uma voz lá de longe lhe dizia: “Makolo, não se esqueça de seus pais, você ainda tem um irmão que se acha perdido sofrendo muito além-mar, agora tens como saber onde fica este lugar que escravi- za os seus, não se esqueça”. Ao acordar todo suado, Makolo, correu ao templo, a fim de relatar o sonho a seu sogro Yassure (a Ninfa). Chegando lá extenuado foi logo narrando seu sonho, no que Zunkuembo levantou a mão direita em sinal de silencio e apontou o espelho d”água, mostrando para ele todo seu so- nho, aí ele ficou maravilhado ao rever, ali, tudo o que se passou em seu sonho, então o sonho se decepou. Então Zunkuembo disse-lhe: “você acaba de ter uma premonição que teremos que rever e tentar amenizar o que há de porvir”. “Pelo o que pude ver meu filho, a águia significa algum feiticeiro vizinho tentando nos pregar uma peça ou equiparar suas forças com as nossas. s crianças com certeza significam você e sua mulher, sendo A ambos, tu e tu amada, testados no comando das duas tribos”. Makolo diz: “O temporal?”. “Bem: O temporal significa as dificuldades das empreitadas, tenha muito cuidado, mas sempre conte comigo e a Ninfa”. Continua: “Os mortos são um aviso e um lembrete para que vocês relembrem e rememorem situações passadas, que tirem delas, portanto, proveitos. Agora preste atenção: até aqui você e sua esposa já enfrentaram várias situações e se saíram muito bem, mas não se esqueçam de quem foi embora na condição de escravo para terras além-mar, principalmente o jovem que era o grande líder dessas duas aldeias e também se lembrem com carinho em seu irmão que se foi em um ato de heroísmo tentando salvar a vida daquele feiticeiro que foi meu maior rival”.40 Lembranças do AYOKÁ
  41. 41. A NINFAJá passado alguns tempo da chegada de Zunkuembo, ele começou a notarcerta melancolia nos olhos da moça, moça porque era uma jovem de bocapequena e lábios carnudos, seios empinados, quadril largo, um corpomuito bem esculpido pela natureza, sendo delineado pelas poucas roupasque o ambiente lhe permitia, então não lhe caía bem a tristeza naquelerosto jambo e olhos mesclados, que confundiam e impressionavam até osmais sensíveis gostos. Já, há algum tempo, ele lhe surpreendia fitando o horizonte longín-quo. Então em um desses dias ele lhe perguntou: “Por que tanto pensaminha Ninfa? eu gostaria de saber para poder lhe ajudar minha deusa,(eu consigo até ler alguma coisa do teu pensamento mulher). Só que nãoconsigo ver nitidamente pelo teu grau de magia, mas gostaria muito deajudá-la. Nisso, pela sua sensibilidade ele notou em seu belo semblanteum leve estremecimento e uma lágrima que rolava dos seus olhos”. Qual não foi o espanto do sacerdote ao ver que aquela bela jovem,Yassure. Linda e enigmática se achava ali na sua presença tão frágil e tãosó. Sua tristeza transbordava de sua alma, algo se passava ali que lhe dei-xara naquele estado. Zunkuembo nunca havia notado aquela melancoliana Ninfa ou Yassure. Após alguns minutos de silêncio total, ela tomoucoragem e falou: “Sabe Zunkuembo! Após muitas décadas ou séculos nãosei muito bem precisar o tempo, nunca me lembro de ter sentido tal emo-ção, parece-me que após tantas lutas falta-me alguma coisa, ando experi-mentando sensações que para mim ainda são totalmente estranhas, pois euachava que isso só acontecia com pessoas comuns e não com nós, seresque por fazerem parte da alta magia jamais poderíamos sentir. “Veja bem Zunkuembo, estou abrindo meu coração para você,acredito que irás me compreender, sinto-me vazia, meu coração pareceque dispara em certos momentos aqui nesse lugar que eu mesma mandeipreparar para que habitássemos aqui, mas sinto que preciso lhe dizer tudoque sinto, afinal viveremos aqui por muito tempo ainda e juntos. Eu e você. Tenho comigo que mesmo na condição de Ninfa tenho direito deAmar, amar intensamente, mas não sei se posso”. Responde Zunkuembo: “tenho notado que ao repartir esse templo Lembranças do AYOKÁ 41
  42. 42. com você, que qu anto mais nós nos conhecemos mais; queremos ficar juntos, da minha parte sinto-me inseguro em relação a você, pois chegoa pensar que a qualquer momento você decidirá ir embora e eu acho quenão suportaria ficar sozinho sem a tua agradável e doce companhia, isso tudo me toca profundamente. Eu também precisei tomar coragem paralhe relatar tudo que sinto, afinal na minha condição de ora homem ora pí-ton fica muito difícil eu lhe revelar meus sentimentos, agora que floresceu tudo isso, eu pelo menos me sinto mais leve e mais saudável”. Zunkuembo não sabia mais como se portar diante da presença fe-minina, após o que lhe acontecera no passado tudo mudou em sua vidae agora ele se encontrava ali, vulnerável e apaixonado diante daquelamulher enigmática e bela, de tal forma que sua beleza resplandecia aosolhos humanos, mas ainda confuso sem saber o que dizer. Afinal ele sen-tia naquela Ninfa a superioridade em sua condição de homem mesmosendo ele o grã sacerdote. Ela, por sua vez, se sentia pequena por demais, pois era uma sacer-dotisa ou semideusa e não uma mulher que nunca fora tocada por quemquer que seja, pelo seu alto grau de magia, até porque naquela Ninfa apa-receu em sua vida por um encanto que ajudou quebrar aquela magia ruimque ele havia contraído e se tornou uma vítima daquele mau feiticeiro. Após um instante, os dois se fitaram nos olhos intensamente um para o outro e vice-versa, nenhum deles conseguia desviar seus olhares,então a aproximação foi inevitável. Quando se deram por si em um im-pulso inesperado e natural, seus lábios se tocaram, em seguida, se unirampor um bom tempo, com isso pareciam que ambos subiram aos céus nãose dando conta do tempo que se beijaram. Como um caleidoscópio suasvidas ali se fundiram em uma só! Um só ser, logo veio à tona tudo sobresuas vidas, os acontecimentos passados, presentes e futuros e como ele setornou aquela aberração, a tristeza por perder seus entes queridos e agoraseu sentimento de ser humano poderia ser totalmente restituído num acon-tecimento fantástico! Como a arte de fazer o fantástico. Neste momento, o espelho d’água começou a borbulhar e fervilhar,uma névoa densa se formava envolvendo os dois seres ali. Em seguida, oambiente fez-se uma luz e uma voz forte e eloquente se fez ouvir. “Zunkuembo e Yassure ouçam-me, é chegado o momento de lhes42 Lembranças do AYOKÁ
  43. 43. revelar algo sobre as vidas de ambos! Prestem bem atenção”. “Por tempos indeterminados vocês vagaram por essas paragens,sem se encontrarem agora por força dos acontecimentos, todos esses sen-timentos que os unem vieram à tona, mas você Yassure estava sendo pre-parada para ser uma deusa e não só deter a magia assim como você é, masagora pela tua fraqueza vejo que terá de trilhar outro caminho. Veja bemnão te censura por isso, mas agora é impossível voltar atrás, mesmo quevocê queira, saiba que eu estou comovido com sua história e tudo mais,afinal o amor é o mais sublime de todos os atos, prova disso que Olorum o pai da criação, ou melhor, o criador absoluto! Criou tudo por amor”. ‘Agora, vocês dois terão que me prometer algo, jurarão que nuncausarão seus poderes em prol de si mesmos e nem para prejudicar alguémmas sim para agirem contra magia ruim ou para salvar alguém que estejasendo prejudicado injustamente, auxiliando suas aldeias, por isso eu Yji-ku Danbalah unirei vocês dois neste templo, para que nunca se separem etambém tenham conhecimento um do outro e de suas histórias”. “Gostaria de acrescentar, Tu, Zunkuembo, suportaste muito bemtodos os infortúnios, por isso, de agora em diante tu serás um ser humanonormal com poderes de magia podendo se transformar em píton, masrecomendo que só se transforme em caso de muitíssima necessidade quedemanda risco de morte, em você ou em um dos seuss assim sendo tupodes controlar a partir de agora teu estado psíquico”. “Lembre-se! Serás amaldiçoado e morto se algum dia usares essespoderes que lhe são concedidos para atacar ou ferir alguém, seja quemfor. Para tanto, terás o poder da adivinhação! Usar-se-ás para defenderos fracos e oprimidos, sobretudo com justiça faça a vontade dos deuses,cumpra bem o seu papel e ter-se-ás sempre a minha proteção e além devocê ser o grande s acerdote também terá o cargo de Oju baba Oluo (osolhos que vê o futuro)”. “Quanto a você Yassure, foi moldada de um momento triste minhafilha! Onde eu tive um impulso muito forte e também me apaixonei por uma mulher humana sem nenhum poder sobrenatural, que ao dar a luz,ou melhor, te dar a vida, veio a falecer, não pude fazer nada e você foraabandonada à margem do rio, com risco total de ser devorada por feraspredadoras, então com um esforço sobrenatural eu fiz de você uma ninfa Lembranças do AYOKÁ 43

×