Nonita

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Nonita

  1. 1. NonitaUMBERTO ECO tradução JOANA ANGÉLICA DAVILA MELONonita. Flor da minha adolescência, angústia das minhas noites. Podereialgum dia rever-te? Nonita. Nonita. Nonita. Três sílabas, como uma negaçãofeita de doçura: No. Ni. Ta. Nonita, que eu possa recordar-te até que tuaimagem seja treva e teu lugar, sepulcro.Chamo-me Umberto Umberto. Quando ocorreu o fato, eu sucumbiadestemidamente ao triunfo da adolescência. No dizer de quem me conheceu,não no de quem me vê agora, leitor, emagrecido nesta cela, com os primeirossinais de uma barba profética que me endurece as faces, no dizer de quem meconheceu então, eu era um efebo valente, com aquela sombra de melancoliaque creio dever aos cromossomos meridionais de um ascendente calabrês.As jovenzinhas que conheci me cobiçavam com toda a violência de seusúteros em flor, fazendo de mim a telúrica angústia de suas noites. Dasdonzelas que conheci pouco recordo, porque era presa atroz de bem diferentepaixão, e meus olhos mal afloravam as faces delas, douradas na contraluz poruma sedosa e transparente pelugem.Eu amava, amigo leitor, e com a loucura dos meus anos solertes, amavaaquelas a quem chamarias, com alheado torpor, "as velhas". Do mais profundoemaranhado das minhas fibras imberbes, desejava aquelas criaturas jámarcadas pelos rigores de uma idade implacável, dobradas pelo ritmo fataldos 80 anos, minadas atrozmente pelo fantasma desejável da senescência.Para designar estas últimas, desconhecidas da maioria, esquecidas pelaindiferença lúbrica dos habituais "usagers" de rijas friulanas de 25 anos,adotarei, leitor -oprimido também nisto pelas regurgitações de uma impetuosasabedoria que me aterroriza todo gesto de inocência que por acaso eu tente-,um termo que espero seja exato: parquetas.O que dizer, vós que me julgais ("toi, hypocrite lecteur, mon semblable, monfrère!"), da matutina presa que se oferece no palude deste nosso mundosubterrâneo ao calidíssimo amador de parquetas! Vós que correis pelos jardinsvespertinos à caça banal de jovenzinhas mal tumescentes, o que sabeis da caçasilente, umbrátil, casquinante, que o amador de parquetas pode conduzir sobreos bancos dos velhos jardins, na sombra odorosa das basílicas, pelas trilhassaibrosas dos cemitérios suburbanos, à hora dominical na esquina dos asilos,às portas dos abrigos noturnos, nas fileiras salmodiantes das procissões dopadroeiro, nas pescarias beneficentes, em uma amorosa, cerradíssima e, ai de
  2. 2. mim, inexoravelmente casta emboscada, para espreitar de perto aqueles rostosescavados por vulcânicas rugas, aquelas olheiras aquosas de catarata, ovibrátil movimento dos lábios crestados, recolhidos no delicioso afundamentode uma boca desdentada, às vezes sulcados por um filete luzidio de êxtasesalivar, aquelas mãos triunfantes de nódulos, nervosas, lúbrica eprovocantemente tremulantes ao desfiarem um lentíssimo rosário!Poderei jamais participar-te, amigo leitor, o langor desesperado daquelasfugidias presas dos olhos, o frêmito espasmódico de certos contatosligeiríssimos, um golpe de cotovelo na tropelia do bonde ("Desculpe, senhora,quer sentar-se?" Oh, satânico amigo, como ousavas recolher o úmido olhar dereconhecimento e o "Obrigada, meu bom jovem", tu que gostarias de encenarali mesmo tua báquica comédia da posse?), o roçar de tua panturrilha contraum joelho, venerando, ao te esgueirares entre duas fileiras de assentos nasolidão vespertina de um cinema de bairro, o apertar com ternura contida -esporádico momento do mais extremo contato!- o braço ossudo de uma anciãque eu ajudava a atravessar no semáforo com ar contrito de jovem explorador!As vicissitudes da minha irreverente idade me induziam a outros encontros. Jáo disse, eu parecia bem fascinante, com minhas bochechas morenas e um rostoterno de mocinha oprimida por uma suave virilidade.Não ignorei o amor de adolescentes, mas o sofri, como um pedágio às razõesda idade. Recordo um entardecer de maio, pouco antes do ocaso, quando nojardim de uma "villa" fidalga -era no Varesotto, não longe do lagoavermelhado pelo sol que descambava- jazi à sombra de uma touceira comuma menina de 16 anos, implume, coberta de sardas, tomada por um ímpetode amorosos sentidos verdadeiramente desalentador.E foi naquele instante, enquanto lhe concedia apaticamente o ambicionadocaduceu da minha púbere taumaturgia, que vi, leitor, quase adivinhei, em umajanela do primeiro andar, a silhueta de uma decrépita nutriz dobradacurvamente em duas enquanto desenrolava ao longo da perna o amontoadoinforme de uma meia preta de algodão.A visão fulgurante daquele membro inchado, marcado por varizes, acariciadopelo movimento inábil das velhas mãos entretidas em desenovelar a peça deroupa, pareceu-me (olhos meus concupiscentes!) como um atroz e invejávelsímbolo fálico afagado por um gesto virginal: e foi nesse instante que, tomadopor um êxtase robustecido pela distância, explodi estertorando numa efusão debiológicos consensos, que a donzela (irrefletida fedelha, quanto te odiei!)recolheu gemebunda, como um tributo aos próprios fascínios ainda verdes.Terás compreendido algum dia, meu néscio instrumento de diferida paixão,que desfrutaste do alimento de uma mesa alheia, ou a obtusa vaidade dos teus
  3. 3. anos incompletos apresentou-me a ti como um fogoso, inesquecível,pecaminoso cúmplice?Tendo partido com a família no dia seguinte, uma semana depois me enviasteum cartão assinado como "tua velha amiga". Intuíste a verdade, revelando-metua perspicácia no uso acurado daquele adjetivo, ou apenas cometeste agiriesca bravata de uma secundarista em guerra com as filológicas boasmaneiras epistolares?Desde então, como fitei trêmulo toda janela, na esperança de ver aparecer ali a"silhouette" desenfaixada de uma octogenária no banho! Em quantos serões,semiescondido por uma árvore, consumei meus solitários deboches, com oolhar voltado para a sombra, perfilada atrás de uma cortina, de uma anciãsuavissimamente concentrada em um repasto ruminante!E a decepção horrenda, súbita e fulminante ("tiens donc, le salaud!"), dafigura que se subtrai à mentira das sombras chinesas e se revela ao peitorilcomo aquilo que é, uma desnuda bailarina de seios túrgidos e ancas ambarinasde potranca andaluza!Assim, durante meses e anos corri insaciado à caça iludida de adoráveisparquetas, voltado para uma procura que, eu sei, extraía sua indestrutívelorigem do momento em que eu nasci, e uma velha e desdentada parteira -infrutífera busca do meu pai, que àquela hora da noite não conseguiuencontrar nenhuma outra além daquela, um pé à beira da sepultura!- mesubtraiu ao viscoso cativeiro do ventre materno e me mostrou à luz da vidaseu rosto imortal de "jeune parque".Não procuro justificações para vós que me ledes ("à la guerre comme à laguerre"), mas quero ao menos explicar-vos quão fatal foi a combinação deeventos que me levou àquela vitória.A festa à qual eu havia sido convidado era uma deprimente petting party dejovens manequins e universitárias impúberes. A flexuosa luxúria daquelasjovenzinhas excitadas, o negligente oferecimento de seus seios por uma blusadesabotoada no ímpeto de uma figura de dança me repugnavam.Eu já pensava em deixar correndo aquele lugar de banal comércio de virilhasainda intactas, quando um som agudíssimo, quase estrídulo (e porventurapoderei exprimir a frequência vertiginosa, a rouca degradação das cordasvocais já exauridas, "lallure suprême de ce cri centenaire?"), um trêmulolamento de fêmea velhíssima mergulhou a reunião no silêncio.E, na moldura da porta, eu a vi, o rosto da longínqua parca do choque pré-natal, marcado pelo entusiasmo escorrido da cabeleira encanecidamente
  4. 4. lasciva, o corpo engelhado que marcava com ângulos agudos o tecido dovestidinho preto e liso, as pernas já débeis dobradas inexoravelmente em arco,a linha frágil do fêmur vulnerável desenhada sob o pudor antigo da saiaveneranda.A insípida jovenzinha que nos recebia ostentou um gesto de enfadada cortesia.Ergueu os olhos para o céu e disse: "É minha nonna, minha avó"...

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