Corações de neve volume 2 - dragões de éter - raphael draccon

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Corações de neve volume 2 - dragões de éter - raphael draccon

  1. 1. Raphael DracconRaphael DracconRaphael DracconRaphael Draccon DRAGÕES DE ÉTER 02 Corações de Neve 4a reimpressão LeYa 2009 Para José Mário (in memoriam), porque este é o momento em que o pai se torna o filho, e o filho se torna o pai. PPPPRÓLOGORÓLOGORÓLOGORÓLOGO 00000000 Adam Bell caminhou até aquele local com os olhos vendados. Estava com os pés descalços, e sem uma camisa que lhe cobrisse o peito. O corpo se mostrava marcado com cicatrizes; a saúde, em extrema debilitação. Cada passo que dava naquele dia era tão difícil, mas tão difícil, que parecia exigir toda a força do mundo na manifestação. Talvez porque exigisse. Talvez porque a culpa faça com que os passos de um homem
  2. 2. se tornem mais pesados. E faça com que o fardo de sua existência se torne um fato angustiante demais para a alma e pesada para o coração. Não importa; a questão a ser observada no caso de Adam era que - fosse qual fosse o motivo das pesadas passadas daquele homem - aqueles eram seus últimos passos. Porque Adam Bell iria morrer. Ao redor de onde ele caminhava, escutavam-se gritos. Barulho de gente; algazarra de multidão. Eram esses os sons que ditavam o mundo, e os passos, e os corações, naquela praça de Mehorlis, capital do Reino de Stallia. Era assim que o povo stalliano encarava o fato de ver um prisioneiro condenado caminhar de olhos vendados para a execução pública, onde seria morta a vida e os ideais que coabitavam o mesmo corpo. Talvez alguém sentisse pena daquela condição, mas é difícil achar quem tivesse pena de um criminoso. Por isso, a euforia daquele povo naquele dia, vibrava dentro de cada um o desejo por uma justiça que não teria condições psicológicas de discernir se era justa o suficiente, ou não. Pois cada passo que um homem dá em direção a uma morte não natural é um aviso à humanidade em que ele está inserido que toda ela falhou em algum ponto. E, enquanto ele respirar, sempre, sempre parecerá ainda haver a esperança de que essa falha poderá ser enfim corrigida ou entendida. Ou que ela não será consertada jamais. Adam ouviu a marcha de seus executores. Ele tinha medo, como todo homem, mesmo o que não demonstra, tem diante do fato. Mas, com a venda nos olhos, e tendo apenas seus
  3. 3. pensamentos para imaginar o futuro incerto - por mais difícil que possa parecer -, ele ouvia uma música em seus ouvidos. Era uma música lírica; poética; tranquila. Talvez a música perfeita para uma pessoa realizar uma boa passagem, se alguém um dia já houver tido a intenção - ou a pretensão - de criar uma música assim. O sol, detrás de nuvens de tom cinza, estava se pondo ao fundo, e tochas estavam sendo acesas. Tambores começaram a tocar, e se tambores foram levados àquele local, dá para se ter ideia de que aquilo era tratado como um pouco mais do que uma simples execução. Ele subiu degraus de madeira, e caminhou no que parecia um andar elevado. Escutava a multidão ainda mais próxima. Escutava-a de frente. Sentiu alguém atrás de si segurar o nó de pano que lhe cobria os olhos para destapar-lhe a visão. E o nó foi desfeito. E a venda foi retirada. E Adam viu. À frente dele, havia uma multidão de plebeus ansiosos. Alguns gritavam xingamentos; alguns faziam sinais obscenos; alguns permaneciam em silêncio como legítimos comparsas de Beanshee, o arauto da morte em forma de uma mulher maltrapilha. O condenado estava em cima de um palanque, amarrado com as mãos para trás. Um vento frio, carregado de poeira, soprou e encheu sua vista. Ele gostaria de limpar seu rosto, mas obviamente as mãos unidas não deixaram, e os olhos lacrimejaram. Havia lutado por aquelas pessoas reunidas, mas parecia que todas elas haviam se esquecido disso. Ou talvez jamais houvessem sabido.
  4. 4. Os olhos de Adam continuaram lacrimejando. Nuvens escuras anunciavam um presságio igualmente sombrio. Logo, havia pouca luz do sol naquele momento. Aliás, havia pouca luz de qualquer natureza naquele momento. - Adam Bell, você foi julgado e considerado culpado por um tribunal de sábios e justos magistrados, que o julgaram e condenaram à pena de morte em praça pública. Seus crimes incluem crimes contra a monarquia, conspiração, incitação à rebelião, roubos de posses de sangue superior, escárnio de sangue superior, assassinato de sangue superior, vagabundagem, posse de armas não autorizadas, ataque a soldados do Rei, assassinato de soldados do Rei, traição e colaboração com criminosos foragidos. - Uma pausa. - Que sua alma sofra em Aramis os anos de castigo que sua conduta em vida impôs. - Quem estava dizendo o discurso era Charles Daveiz, obeso Primeiro-Ministro de Stallia. - Como prega a lei justa e honrada do código de Stallia, comandada e outorgada pelo magnífico Rei Alonso Coração-de-Neve, você tem direito, testemunhado e ratificado pelo povo dessa nação, a dizer suas últimas palavras, se for de sua vontade. E houve silêncio. Havia muito, muito do que Adam gostaria de ter dito, mas pouca vontade em fazê-lo. Diante do silêncio que o aguardava, contudo, ele ainda conseguiu dizer: - Pendurem-me numa garrafa feito um gato... e atirem em mim... e aquele que atirar em mim... deixem que receba tapinhas nos ombros... e que o chamem... Adam. Ao fundo, em sua mente, ainda escutava a música lírica que ecoava apenas dentro de si. Sabia que aquelas pessoas haviam
  5. 5. esquecido pelo que ele lutara; e, se elas não sabiam, ou se eram jovens demais para terem ouvido sua história, então não havia nada que ele quisesse dizer. Talvez por isso ele tenha abaixado a cabeça e escutado a ovação da multidão que veria seu sacrifício. - Que a justiça seja feita - sentenciou o Primeiro-Ministro. Dois soldados atrás dele o tiraram dali e o encaminharam até uma parede marcada por centenas de pontas de flechas. As nuvens bloquearam qualquer luz do céu e fizeram o ar noturno ficar carregado. As chamas das tochas refletiram sombras. E uma mulher de cabelos vermelhos e vestido desgrenhado caminhou pela multidão, na direção dos soldados que se armavam. De onde estava, Adam viu a parede de homens uniformizados portando nas mãos um arco e uma flecha cada um. Posicionaram-se testando suas setas nas cordas, esperando um comando. De longe pareciam dez, mas talvez fossem mais. Ou menos. Qual a diferença em um momento como esse? O povo que assistia estava posicionado de frente a Adam, e de costas para os arqueiros. Um primeiro comando foi dado, e os arcos se armaram apontando flechas afiadas na direção do condenado. Ele tentou observar o olhar de alguns dos soldados, mas, por mais curioso que fosse, ele só conseguia enxergar o olhar da mulher de vermelho. Ela olhava para ele com uma expressão triste. E chorava por um dos lados da face. Adam apertou os olhos cheios de poeira, que ainda lacrimejavam. Em algum lugar bem distante de sua mente, soldados responderam a um segundo comando militar. Um
  6. 6. comando de morte. As mãos dos arqueiros soltaram as flechas afiadas. Adam, no segundo que antecede o impacto, pôde jurar que viu as setas avançarem em sua direção a uma velocidade muito mais lenta do que deveriam ter. A música lírica em seu interior aumentou de volume. Um de seus olhos verteu uma lágrima, e ele descobriu que o lacrimejo não era por causa da poeira, ou ao menos não apenas por causa da poeira. Porque ele também chorou por apenas um dos lados da face. O vento frio soprou de novo, e tocou cada pessoa naquela praça. O coração de cada uma delas sentiu a frieza. No céu escuro, não era possível ver estrelas. Mas, se pudessem, elas saberiam que, naquela noite, a estrela de McKennitt brilhava mais forte por detrás da escuridão. Ao longo de toda sua vida, Adam Bell acreditou que haveria esperança em consertar os erros da humanidade. Mas, naquela noite fria, no momento em que sua respiração foi interrompida por setas afiadas que lhe perfuraram o corpo, mais ainda por uma única que lhe perfurou o coração, a impressão que ele tinha era de que esses eternos erros não seriam entendidos nem consertados jamais. Talvez, talvez um dia até seriam sim entendidos. Mas consertados, jamais.
  7. 7. ATO IATO IATO IATO I Corações de ICorações de ICorações de ICorações de Invernonvernonvernonverno 01010101 Ainda era outono naquela época. Essa palavra, outono, não simboliza apenas a época das colheitas; trata-se também de um termo que representa o período da vida em que uma pessoa se encaminha à velhice. Um termo que também poderia ser substituído por ocaso. Por acaso, Ocaso era o nome daquele continente onde um Rei, ainda longe do período nobre que traz a velhice ao ser humano, iria se consagrar em uma época de outono. Em Nova Ether, no continente oeste, não existia Reino mais importante que Arzallum. Era o Reino-sede, a base, o Reino de Todos os Reinos. Seus Reis não eram apenas Reis de seus territórios, eram também os homens que decidiriam quaisquer questões que envolviam todos os outros. O Rei de Arzallum seria sempre também o Rei dos Reis. E, com base nessa informação, você poderá melhor entender por que naquele dia daquela tarde de outono todos os povos daquele continente, independentemente de onde estivessem, estavam orando a seu semideus Criador ou a seus semi-deuses preferidos e pedindo com toda a fé que iluminassem a consagração do novo monarca. Porque diante das leis dos homens e abaixo das leis semi- divinas, Arzallum estava consagrando oficialmente seu novo Rei.
  8. 8. Branford. Sobrenome nascido plebeu, se sagrado nobre e iluminado pelo semi-divino. O primogênito se chamou Primo e virou mito: o Caçador, o Rei que liderou a Caçada de Bruxas em uma época em que as bruxas desafiaram as fadas. E os homens desafiaram as bruxas. Lançado ao trono nas graças do povo, Primo Branford hoje descansa com honras ao lado de sua Rainha-fada Terra Branford, com a certeza de que cometeu muitos erros - porque era humano - posto que acertou muitas vezes - porque era herói. Primo Branford e sua Rainha deixaram na terra dos homens dois herdeiros. O caçula, e por isso ainda príncipe, se chamava Áxel, e era amado pela plebe. O segundo, o mais velho e herdeiro legítimo do trono de Arzallum, se chamava Anísio, e era amado pela nobreza. Seu pai era amado por ambos. Anísio sempre fora treinado para o grande momento. Aprendera a falar como nobre, a montar cavalos, a se portar à mesa, a falar em público e manejar com perfeição uma lança, um escudo e uma espada, não necessariamente nessa ordem. Aprendera bem matemática, geografia e história militar. Áxel também tivera lições, mas não seria Rei. Anísio seria; então, seu fardo, nesse caso, sempre fora maior. Ainda assim, e por mais tempo de treinamento árduo a que tivesse se dedicado com seriedade, quando se olhou naquele espelho e ajeitou pela quarta vez a base da capa vermelha que lhe pesava sobre os ombros, o Rei por direito não se sentiu preparado. De fato, qualquer súdito diria que ele estava. Fora treinado desde o nascimento; não haveria como não. Entretanto, Anísio esperava ainda que seu pai vivesse muito mais anos do
  9. 9. que as folhas de um carvalho. Acreditava que o momento havia sido precipitado, mas fosse qual fosse a hora em que aquele momento se desse ele iria se sentir da mesma forma. Fraquejava por não suportar, como deveria, a perda, mas ninguém jamais suportaria realmente, como deveria, a chegada da morte. Observara-se mais uma vez no espelho, e desejou que ao menos a mãe estivesse presente. Não morriam fadas todos os dias, ainda mais escolhendo a morte em nome de outras vidas, como um dia foi a opção daquela Rainha. Entretanto, não é a história da nobre Rainha que iremos narrar, mas saiba que se hoje escrevemos Rainhas com erres maiúsculos é porque Terra Branford um dia andou sobre a terra dos homens, e por eles sacrificou muito mais que uma vida. Anísio Branford então inspirou fundo, buscando a força encontrada apenas na magnificência. Não era o Maior de Todos os Reis. Mas era filho Dele. Pensava nisso quando viu no reflexo no espelho a porta do quarto se abrir. E uma das princesas mais conhecidas do mundo entrar. - Está na hora, amado - Branca Coração-de-Neve, a princesa prometida a Anísio Branford ainda no berço, entrou sorrindo seu sorriso luminoso. Não era a mais bela das princesas, mas era única. Carisma. Branca era dotada do tipo de carisma que conquistava multidões e as fazia ter vontade de fazer coisas por ela que não fariam conscientemente. - Ainda temo o momento, Branca. Acho que nunca vou me sentir preparado. - Uma expiração. Forte. - Mas sei qual o limite da obrigação.
  10. 10. - É muito bom realmente que saibas. - Uma pausa. - Deves isto a teu pai. - Achas sem dúvida que sou uma boa escolha, não achas? - Anísio deixou a visão do próprio reflexo para conferir se a resposta viria dotada de veracidade. - Sem falsa prosa, acho que és a melhor - afirmação sincera, que os olhos não conseguiriam esconder. Anísio balançou a cabeça uma vez em positivo. Aquela mulher e seu irmão mais novo eram seu novo conceito de família, e em pouco tempo faria daquela princesa sua Rainha e, ao lado dela, governaria Arzallum do jeito mais sábio que julgasse. - Sabes, Branca, lembrar da imagem de meu pai me trouxe à tona uma história que gostaria de contar a ti um dia. - Hum... adoro histórias! Outro dia sonhei que contava mil e uma delas para não morrer nas mãos de um cruel senhor, acreditas? - Mas que sonho estranho... - Também achei. Mas e esta história que queres me contar? É de amor? - Também. Mas, antes de tudo, é uma história de esperança. Uma história que nos reforça a ideia de que os injustiçados podem ludibriar a injustiça e enfrentar os injustos. Ela me reforça a ideia de que o que separa um nobre de um plebeu é apenas a roupa que veste. E as idéias que circulam em suas mentes. Observou-se uma última vez no espelho. Os cabelos estavam cheios, a barba estava grossa no rosto. O fato é que estava parecido com seu pai; conferir isso lhe trazia força. E
  11. 11. coragem. Branca entrelaçou seu braço no braço do novo Rei dos Reis, prestes a conferir sua consagração oficial. Anísio Branford a conduziu além daquelas portas do Grande Paço, com a certeza de que duas luzes o iluminavam em cada passo. - Esta história que queres me contar tem a ver com algum grande príncipe, corajosos plebeus ou dragões alados? - Não, ela não tem dragões alados. - E corajosos plebeus? - O grande príncipe deles. 00002222 Os salões do Grande Paço naquele dia estavam realmente agitados. Muito mais do que serviçais em correria, ou que aias desesperadas com fios de fino linho desbotado de um precioso vestido nobre. Tratava-se na íntegra de verdadeira ansiedade, de uma egrégora de sensações universais oriunda de todo um povo. Afinal, aquele Paço havia visto um príncipe engatinhar; andar e cair; andar; falar; correr; até cavalgar. E naquele dia, de repente, ele se consagraria Rei. Já fazia algum tempo que Rei Primo Branford padecera em um ritual sombrio comandado por uma bruxa igualmente lúgubre, e embora Anísio já tivesse assumido as decisões de seu Reino nas semanas seguintes a cerimônia oficial de coroamento só estava acontecendo seis meses depois da fatalidade. Esse tempo mais extenso se dava para que todas as comitivas dos quinze Reinos em terras ocidentais, e tantos outros no céu ou no mar, pudessem se preparar e, cada um em
  12. 12. seu tempo e em sua necessidade, melhor preparar as providências e os rumos de suas viagens até Arzallum. Dessa forma, as primeiras comitivas a chegar foram as de Cálice e do Reino do Forte, o que era natural, já que se tratava dos Reinos mais próximos, comandados pelos Reis Segundo e Tércio Branford, irmãos do falecido Rei Primo. Tércio Branford, naquele momento, estava em seus aposentos, pois sua viagem havia sido a mais cansativa. Já Segundo passeava com o sobrinho pelos corredores agitados do Grande Paço, aproveitando para tomar conhecimento do que tivesse de saber e projetar para o futuro o que pudesse ser antecipadamente vislumbrado. - Como está Branca? - perguntou Rei Segundo, enquanto caminhavam. - No início, chorou dias pela morte da mãe. Aliás, chorou tanto, mas tanto, que acreditei que morreria de pranto. A maçã do rosto perdeu as curvas, e a face chegou a ficar esquelética de tanta lágrima derramada. - Temos de compreendê-la. Chorei menos, mas também chorei a morte de meu irmão, teu pai. Anísio suspirou forte. E perguntou: - É possível morrer através do pranto, sábio tio? - Não. Mas é possível através da dor que vem com ele. Rei Segundo não perguntava sobre a princesa Branca por acaso. Próximo de Arzallum também estava o Reino de Stallia, lar dos Coração-de-Neve, o que não deixava de ser, naquelas condições, uma incógnita e uma preocupação a mais. Afinal, por mais que a princesa Branca fosse, em pouco tempo, sagrada Rainha de Arzallum, ninguém sabia mais o
  13. 13. que esperar das relações entre os dois Reinos desde que a Rainha Rosaléa Coração-de-Neve havia sido assassinada nas terras de Arzallum, no mesmo ritual de magia negra envolvendo o herdeiro de James Gancho, Jamil Coração-de- Crocodilo e uma bruxa canibal que vitimara Primo Branford. - Tu já estiveste com Alonso depois de... de... tu sabes... - a pergunta partiu do Rei Segundo. Ambos estavam observando a agitação do palácio de uma das muitas sacadas do Grande Paço. - Ainda não. - Uma pausa, posta pelo desconforto. - Tu achas que pode não haver volta, meu tio? - Anísio... acredito que Alonso tenha capacidade suficiente para entender que não foi culpa da guarda deste Reino sua Rainha ter padecido nestas terras. - Não sei se um Coração-de-Neve pode ter tal capacidade de julgamento em tais condições... - Tua dama já deu pista do contrário? - a pergunta era inteligente. - Não como parece até aqui nesta conversa. Mas, através de Branca, aprendi que esta família detém sentimentos muito complexos. Eles costumam dar uma vazão sempre mais exagerada aos sentimentos. Como te disse: antes, Branca chorou por dias inteiros e quase não comeu quaisquer migalhas. Nos últimos dias, contudo, anda sorrindo como criança e acreditando que serei um grande Rei! Assim o são nessa família. Eles são diferentes. Se amam, amam com muita intensidade. Se odeiam, odeiam com todas as forças. - Isso é típico da raça humana como um todo.
  14. 14. - Não para um Coração-de-Neve, insisto. Sabes, existem famílias forjadas no aço. Existem famílias como a nossa, forjadas na pobreza e em duros testes traçados por fadas. Mas os Coração-de-Neve são diferentes. Eles são mais instáveis. Eles são movidos por outra coisa... - Tu queres dizer que eles são forjados pelo quê? - Pelas dores mais profundas e as alegrias mais instáveis de um coração humano. 03030303 E Reis e Rainhas e nobres foram convocados para o Salão Real. E sinos e cornetas ecoaram. E Anísio Branford tomou posição. E a cerimônia para a consagração do novo Rei de Arzallum se iniciou. 04040404 Áxel Branford estava sentado no trono à esquerda, e odiava isso. Detestava estar ali. Já não se sentia bem em cerimônias nobres, mas ter de sentar em um dos três tronos era algo inimaginável há pouco tempo. Justificável; Anísio sempre sentara à esquerda de Primo, afinal era o príncipe herdeiro. Áxel, nessas festas, podia ficar onde bem quisesse e entendesse, mesmo porque ninguém se preocupava demais com ele quando Anísio, Primo e sua Rainha-fada estavam presentes.
  15. 15. Mas agora ele era o único príncipe herdeiro de Arzallum. E mais, se uma fatalidade indesejada acontecesse a Anísio - e bato três vezes no coração para que Beanshee não nos escute - isso o obrigaria a assumir aquele trono. Se houvesse nascido com índole ruim, se desejasse o poder mais do que tudo na vida, com certeza acharia uma forma de tentar assassinar ou enlouquecer ou banir o próprio irmão. Pague a bebida certa e poderá escutar histórias desse tipo aos montes das bocas de bardos. Mas não ali naquele Paço. Não ali. Porque Áxel Branford não tinha índole ruim nem sede de poder. E possuía outras engrenagens em seu coração. Ocupando a mente do príncipe, obsessivamente, estava uma jovem que não poderia estar naqueles salões, pois não era nobre nem princesa nem Rainha. A menina Hanson. A jovem Maria Hanson. Daria tudo para chamar seu sósia, colocá-lo naquele trono sentado como um ilusionista coletando atenções com jogos de mágica e correr para tomar chá de frutas na casa humilde e modesta de sua nova protegida. Sabia, porém, que seu irmão gostaria de tê-lo ao seu lado esquerdo, e ele ali estaria até o fim. Ainda que houvesse de sucumbir ao tédio para isso. Corneteiros reais ecoaram seus acordes com maestria. E escutou-se a voz que anunciava: - Sua Majestade, Rei Anísio Terra Branford, e Sua Alteza, Branca Coração-de-Neve! Se Branca Coração-de-Neve já houvesse sido sagrada Rainha, naquele momento não teria entrado de braços dados com
  16. 16. Anísio Branford. Estaria já sentada no trono vazio, ao lado direito do trono central do Rei. O vão de nobres parecia um corredor infinito de ilusões. É desse sentimento que vive a política que comanda; seja a dos nobres, seja a do povo. Por debaixo daquelas cortinas de seda e colunas de mármore, daqueles carpetes e azulejos caríssimos, das paredes rebocadas e lisas, dos imensos e pe- sados candelabros que sustentavam um número incontável de grossas velas de cera de abelha, de vinho servido em copos de chifres e de toda aquela comida diversificada que rodava o salão em pesadas bandejas e pratos de prata, Anísio Branford tentava segurar o próprio estômago e não vomitar. Nobres se ajoelharam, e restaram de pé apenas os monarcas ou seus representantes diretos. Os monarcas estavam na frente, na primeira fila, na dianteira dos três tronos reais. Atrás, havia os dezessete monarcas e os Sete Conselheiros Reais, que agora eram Oito, Senhores da Guerra e das decisões reais, cujos conselhos ajudavam os Reis na famosa Sala Redonda. Vestiam mantos finos com capuzes, cada um com uma cor. O mais novo dentre eles, o oitavo, era um senhor de feições finas, óculos de lentes de baixo grau e um sorrisinho cínico de quem parecia estar sempre no controle da situação. Apenas dois Reinos não haviam enviado representante algum naquele dia histórico. Um era Oz, Reino sombrio comandado pelo soturno mago-linch Oscar Zoroaster. O outro era Atlântidas, o Reino submerso e avesso à superfície, comandado pelo assustador e medonho Rei Kraken.
  17. 17. Anísio Branford chegou ao limite de seu trono e ficou de pé à frente dele. Sua princesa foi-se para próximo do pai, o Rei Alonso Coração-de-Neve. Ainda não seria naquela vez que se sentaria ao lado direito do amado. Os nobres se levantaram quando Anísio ficou em frente a todos, de pé. Seus tios, os Reis Segundo e Tércio Branford, se aproximaram. Um trazia nas mãos o bastão; o outro, a coroa. Rei Segundo Branford entregou com as duas mãos o bastão de puro ouro maciço, que Anísio aceitou. Depois, o Rei inclinou a cabeça em sinal de humildade, até onde esteja o limite da humildade de um Rei, e Rei Tércio lhe ordenou a cabeça com uma das peças mais preciosas de todo Ocaso: a coroa de ouro e diamantes em forma de estrelas cruzadas de cinco pontas. Os três fizeram uma reverência. Anísio Branford, com o bastão nas mãos e a coroa real na cabeça, sentou-se no trono central, e os nobres novamente se ajoelharam. Os corneteiros mais uma vez ecoaram acordes sincronizados. O Rei limpou a garganta para falar. E todos provavelmente já devem bem saber que, quando um Rei resolve se pôr a falar, qualquer pessoa, em qualquer local, e de qualquer posição social, se cala. Como todos naquele palácio. E como todos nós. 05050505 - Nós que aqui estamos sabemos bem o porquê. E posso falar que ninguém aqui nesta sala sente mais este momento do que eu, que vivi e me preparei para ele, temendo o dia em que
  18. 18. chegaria. E o temia porque sabia sem floreios que, no momento em que chegasse, como chegou, isso significaria, como significa, que iria perder, e perdi, o maior de todos os momentos de minha vida. Pois nenhum momento de minha vida será maior do que aqueles em que estive com meu pai, Rei Primo Branford. Foi assim que Anísio começou seu discurso. Suas palavras tocaram os corações dos nobres que tinham corações, dos serviçais que tinham o privilégio de escutar tais palavras, mesmo que das últimas filas, e dos monarcas que viram em Primo Branford o ápice de um aliado. Branca Coração-de- Neve mantinha uma expressão irremovível: sem sorrisos e sem lágrimas, escutando cada palavra com atenção e nada mais. Já Áxel Branford sentia a pele se arrepiar. - Honra-me profundamente a presença dos monarcas e representantes reais deste continente neste Paço. Honra-me e ajuda-me. Porque não penseis que é fácil ser filho do Maior dos Reis. Não penseis que é fácil sentar-me aqui e dar início ao maior dos fardos, pois quem é Rei, e merece ser Rei, ou acompanha de perto a vida de um Rei merecedor do título, sabe bem a responsabilidade que carregamos já desde o berço, acima de nosso próprio ego, na moldura de nossa própria vida. - Uma pausa. - Neste momento sublime, diante de minha família, de meus aliados e divergentes e de minha futura esposa e Rainha, eu juro, pelo sangue de um Branford, que não darei ênfase ao fraquejo e serei um canal de toda lição aprendida. Juro que serei enérgico quando for preciso e serei
  19. 19. flexível quando for necessário. E, por fim, juro que separarei o justo do injusto quando isso for inevitável. Alguns naquele salão se olharam da mesma maneira intranquila com que se olham os ressabiados. Perguntavam- se, em profundo silêncio, o que aquelas palavras significavam. A maioria tinha sua própria conclusão e sorria independentemente de qual fosse, menos um. Este compreendia, mas não gostava dos rumos que as coisas estavam tomando. Ferrabrás. Victon Ferrabrás. O Rei que baniu sua coroa, extinguiu a monarquia de Minotaurus e sagrou-se Imperador, dizem mais pela força que pela lei, observava Anísio com os olhos apertados, como se uma ventania de grãos de areia estivesse lhe cortando a face, e mantinha uma expressão atípica no semblante do rosto sem cabelos. Em seu interior, apenas uma certeza: no futuro, ainda iria bater de frente com Anísio Branford. - Pois agora, eu, Anísio Terra Branford, renego diante do Conselho Real e de todos vós o posto de primeiro príncipe real para me tornar o legítimo Rei de Arzallum. E juro por honra cumprir minhas promessas e ser, hoje e em todos os dias que ainda viver, o melhor Rei que possa. - Houve uma forte inspiração. - Pois, senhores, eu não quero jamais que se esqueçam de que eu não sou o maior Rei que já existiu sobre as terras de Nova Ether. "Mas sou o filho dele." Aplausos. Legítimos, empolgantes, apaixonados. É um fato: o ser humano se sente bem quando é deslumbrado. Ele passa a dar credibilidade maior e a olhar de forma diferente uma
  20. 20. situação quando isso acontece. Mesmo um conteúdo fraco pode ser facilmente disfarçado e bem vendido por uma boa apresentação. Converse com os vendedores de estradas, aqueles que vendem bugigangas em carroças puxadas por burros de cidade em cidade, e eles lhe contarão histórias desse tipo aos montes. E ali, naquele Paço, o cenário era perfeito. Havia a situação, a plateia, a oportunidade. Mas acima disso havia o instrumento perfeito para o espetáculo. Anísio sabia falar, sabia escolher as palavras, as pausas, o timbre, o silêncio entre determinadas frases. Assim como seu pai, quando se manifestava, era como se uma orquestra invisível e inaudita rufasse seus instrumentos intangíveis para ratificar a emoção proposta pelas palavras ditas. Acredite, você poderia detestar Anísio, você poderia não se importar nem um pouco com política, você poderia nem mesmo ser deste plano de existência e, portanto, não ter nada a ver com os assuntos reais de qualquer região de Nova Ether. Mas ainda assim você, naquele momento, sem sombra alguma de dúvida, teria aplaudido de pé e com gosto o nascimento do novo Rei de Arzallum. Afinal, para isso, você até estaria preparado. Mas não para o que viria logo em seguida. 06060606 Maria Hanson havia dispensado sua turma infanto-juvenil. Estava particularmente feliz naquele dia. Desde que resolvera aceitar o conselho de seu antigo professor, Sabino von Fígaro, hoje o oitavo Conselheiro Real da Sala Redonda do Grande
  21. 21. Paço, as coisas andavam assim para ela. Felizes. Sabino sempre fora uma inspiração, e isso não era exclusividade. Não era o primeiro professor a despertar em alunos sentimentos de busca maiores, de idealizações e realizações de grandes sonhos humanos. Sabino ensinou Maria Hanson, e uma penca de alunos, a raciocinar. Não lhe importava que soubessem de cor nomes dos antigos Reis há muito falecidos, ou da capital de cada Reino dos continentes, Ocaso ou Nascente. Interessava-lhe fazê-los entender os porquês. Saber por que um nobre era nobre e por que um plebeu era plebeu, mesmo que esse pensamento incitasse certa revolta quando analisado friamente. Interessava-lhe que seus alunos soubessem ler, escrever e contar. Sabia que conhecimento universal era prioritário a conhecimento folclórico, que cada povo poderia e deveria ter sua cultura própria e que isso o enriqueceria, mas com a consciência de que isso não deveria ser a prioridade popular. Pois, em sociedade, ninguém morreria se não soubesse a dança típica de sua cidade. Mas, talvez sim, se não soubesse ler, escrever e contar. E Maria observava o horizonte naquele momento, pensando em coisas como responsabilidade e confiança, quando seus pensamentos foram interrompidos pelos brados. Gritos infantis, que berravam de um amontoado de vozes em roda. Dois pestinhas estavam se esmurrando, enquanto seus colegas não só adoravam a situação como ainda incitavam a briga feito cães. Garotos, por mais que os adultos tentem frear esse instinto, adoram momentos como esse em que "saem da rotina". Mas, para a nova professora, aquele momento não era
  22. 22. nada comum. Certo, não era a primeira briga que iria apartar entre dois meninos sem juízo, mas, ainda assim, dessa vez ela se surpreendeu de verdade. E era justificável. Um dos dois meninos era um garoto robusto e grande para sua idade. O outro, com o rosto sujo de pancadas, era irmão dela. 07070707 Rei Anísio Branford tinha consciência do risco que viria a seguir. Eram momentos únicos no Grande Paço; passada a cerimônia de consagração do Rei, os nobres agora se concentravam na conclusão de uma importante tradição que nunca fora quebrada. Rezava a tradição de coroação real que, após a cerimônia, o Rei posto poderia se beneficiar do que se conhecia em Nova Ether como Os Três Desejos. Uma vez, em uma taberna feita inteiramente de rochas encaixadas e telhas resistentes que serviam de morada para ninhos de aranhas, escutei de um bardo gordo e glutão que tal tradição nascera há séculos, quando um Rei foi coroado na presença de um gênio que lhe cedeu tal direito. Os gênios de Nova Ether, contava o bardo, costumam realizar três desejos - e apenas três - de quem quer que consiga o direito do feito. A tradição assim foi passada, e, obviamente, não havia gênios para realizar desejos de todos os Reis do mundo. Quando isso passou a não ser mais possível, os gênios começaram a sair de cena, mas os desejos continuaram. Hoje, o Rei posto tem
  23. 23. direito a escolher, dentre todos os governantes presentes em sua cerimônia, três desejos reais que não podem ser recusados. E, seguindo tal benefício, Anísio Branford continuou sua prosa: - Sabem, ainda me impressiono como Os Três Desejos costumam ser mais esperados e dotados de glamour do que toda a cerimônia de consagração real. Os nobres riram. Ninguém tinha certeza absoluta de que Anísio havia feito uma piada - e ninguém deixaria de rir da piada de um Rei -, mas riram ainda assim, pois, se o fosse, teriam feito seus papéis. - Quando era pequeno, lá pelos meus cincos anos, já imaginava o que pediria a governantes tão poderosos. Obviamente, eu cresci e hoje os pedidos que farei são um pouco diferentes daqueles que teria feito em tal época. E ainda bem, ou do contrário teríamos Reis loucos por aí atrás de Pés-Grandes domesticados, ou galinhas que põem ovos de ouro! E toda a corte gargalhou, dessa vez com certeza. - Mas o pior foi quando cheguei a oito outonos. Pois aí passei a ter a certeza de que não necessitaria de três pedidos. Naquele momento, senhores e senhoras, só me bastava um. Apenas um, acreditem. Eu ensaiava... - e aqui ele fez uma pausa. - Semideuses, por que estou contando isso?... - e todos gargalharam novamente. - Bom, mas perguntem às aias, e elas ratificarão o que estou a dizer. Eu tinha oito anos e ensaiava diante de um espelho o dia em que chegaria até nosso honrado Rei Alonso Coração-de-Neve e diria então: "De tu, meu bom aliado real, quero apenas a mão da mulher mais
  24. 24. fascinante que já andou pelas terras de teu Reino!" - e Anísio apontou na direção de Alonso, levando com seu sinal todos os olhares daquele salão. Rei Alonso estava com a expressão fechada e o olhar vago de um catatônico, com o pensamento visivelmente distante dali. Ao perceber, porém, todas as atenções voltadas para si, abriu um largo sorriso para todos os presentes, em uma súbita mudança drástica (e assustadora) de humor. Abriu os braços e bateu com as palmas nas coxas, afirmando: - Ah, moleque travesso! Estavas achando que eu iria mesmo ceder-te minha esposa? - e todo o salão riu de novo. Rei Segundo Branford observava bem as mudanças drásticas de expressões de Alonso Coração-de-Neve, mas sorriu com a piada ainda assim, embora compreendesse um certo humor negro contido no comentário. Já Anísio, ignorando esse detalhe, continuou: - Na verdade, Rei da Neve, pensava que ficarias irritado com minha petulância. E então terminava meu ensaio apontando- te meu dedo indicador e bradando como um menino-homem para todos os cantos: "E pare de se fazer de desentendido que sabes muito bem que falo de tua filha"! - e risos ecoaram e rebateram naquelas paredes uma vez mais. - E o pior... foi que ensaiei tanto meu discurso... apenas para descobrir, dois outonos depois, que Branca já era minha prometida desde o berço! - os risos viraram gargalhadas. Já Rei Alonso, surpreendentemente, terminou a conversa dizendo:
  25. 25. - Olhe pelo lado bom da coisa, filho do Maior dos Reis! Tu ganharas um pedido extra! - e a alegria contagiava com aplausos e sorrisos aqueles salões. Eles vinham de todos ali, menos de um: Ferrabrás. Este ainda permanecia impassível, impertinente e secarrão. Um rosto desprovido de emoção que a tudo observava desconfiado, em contraste com a maioria no salão. - Pois bem, senhores, à parte do que contei, invoco agora meu direito real da tradição dos Três Desejos do Rei, que irei a vós pronunciar agora. E todo um salão de gargalhadas se calou abruptamente. 00008888 - Mete o dedo no olho! No olho!... Arranca o cabelo dele!... Ai, na cara! Na cara!... - eram coisas como essa que gritava o grupo de meninos ao redor de João Hanson e Hector Farmer, incentivando a atracação dos dois garotos. Já as meninas próximas, ou gritavam de forma histérica ou apontavam para a briga, cochichando com as amigas e fazendo as caretas mais estranhas. Maria chegou ao local correndo. Em um único movimento jogou Hector para o lado, movida pela adrenalina da situação, e se colocou no meio dos dois. João ainda pensou em pular para cima do garoto de novo, quando a irmã gritou: - Nem pense nisso, João Hanson! - e o garoto empalideceu com a ordem como o mais rigoroso militar diante da ordem de um superior.
  26. 26. - Foi ele quem começou - limitou-se a resmungar enquanto abaixava a guarda devagar. Na face, um hematoma demonstrava que a briga havia sido feia antes de Maria se meter. - Mas que absurdo é esse, vocês dois? Vocês acham que é assim que se resolvem as coisas? Batendo um na cara do outro? João ficou mudo e fechou a cara. Hector tomou a palavra: - O príncipe Áxel bate na cara dos outros e você não reclama! - risos surgiram dos cantos. João voltou a ficar vermelho, doido para a irmã sair da frente. - É diferente, Farmer! Ele luta dentro do ringue. É um esporte, e ele luta para o povo. Ele não fica batendo nos outros no meio da rua como vocês! Deveriam se envergonhar por isso, aliás. Vocês bancam os adolescentes, mas agem como crianças! - aquilo foi forte. Maria cutucara o ponto fraco de um adolescente: ser comparado a uma criança. - Os dois pra dentro da sala, já! Os meninos caminharam com Maria até dentro da Escola Real do Saber e foram levados para uma sala diferente com um quadro-negro. A cada um foi entregue um pedaço de calcário e dada a ordem de escrever de uma ponta a outra algo como: "Eu não vou mais bater na cara dos outros". Um castigo de criança, que exatamente por isso perfurava a alma dos dois muito pior do que se Maria tivesse arriado suas calças e batido em seus traseiros com um cinto de couro. - Cabelo lambido! - Farmer dizia, enquanto escrevia.
  27. 27. - Veadinho cute-cute... - sussurrava João de volta, citando o apelido infantil que Hector Farmer ganhara por causa dele, e que perseguiria o garoto pelo resto da vida. Enquanto ambos engoliam seus egos naquela sala, Maria conversava com a senhora Farmer, que não estava nada satisfeita em ouvir os relatos da professora. Hector poderia ter escapado do cinto na Escola Real do Saber, mas não parecia que de punição mais rigorosa, em casa, quando as portas são trancadas e não se usam máscaras sociais. E quando a senhora Farmer se afastou indignada, e mesmo envergonhada pelo filho, Ariane Narin, que até então apenas observava as coisas, se aproximou da professora. - Maria, não seja tão dura com o João. A culpa foi toda do estúpido do Hector Farmer. - Isso não é desculpa, Ariane! O João devia se controlar! Já pensou se tudo na vida... - Você não tá entendendo, Maria! Os meninos têm essa coisa de honra pra cá e orgulho pra lá, que eles aprendem copiando da nobreza. - E daí? Só falta você me dizer agora que o Hector Farmer insultou a honra do João! - Não, a do João não... - De quem, então? - A sua. 09090909 - Antes de anunciar meu Primeiro Desejo, gostaria de anunciar minha justificativa. Como todos aqui bem sabem, a
  28. 28. cada dia tomamos conhecimento de novos instrumentos e artifícios bélicos que evoluem, e até caminham, para revolucionar os combates e disputas de guerra. - Uma pausa. - Para nós, monarcas, contudo, muito mais fácil se torna nossa posição. Pois, se por um lado somos nós os responsáveis pelas decisões mais difíceis, e se somos nós até mesmo os responsáveis pelas declarações que tais conflitos exigem, por outro, não somos nós que colocamos a maior parte de conhecidos no campo de batalha, ou choramos por ver nossos filhos destroçados por abutres. - Às vezes, choramos... - disse Rei Alonso, com uma voz fraca, causando um extremo mal-estar no salão. Anísio mordeu os lábios. Para ajudá-lo naquela desconfortável situação e desviar a atenção para si, Rei Segundo exclamou: - Vossa Majestade tem razão no discurso que cita, posto que me parece ignorar a tensa prisão que nossa própria consciência nos angustia, quando temos de tomar tais difíceis decisões. - Rei Segundo, não acredite que todos os monarcas sofram da mesma angústia que cita - disse Anísio. - Falais por vós? - perguntou Ferrabrás, piorando o desconforto. - Não - disse Anísio. - Falo pela observação de tais exemplos e de suas atitudes ditatoriais e desprovidas de quaisquer justificativas, senão a da ambição desenfreada, postas acima do cargo que deveriam representar.
  29. 29. Houve silêncio. O clima continuou tenso. Dessa vez foi Rei Tércio quem tentou esfriar os ânimos, mudando a direção daquele diálogo: - Mas, Anísio, tu enrolaste e ainda não manifestaste teu Primeiro Pedido. - Antes Rei Segundo havia usado o respeitoso termo "vossa", comum ao se referir a Reis. Entretanto, Rei Tércio agora se utilizava do "tu". O fato era que Reis poderiam falar com outros Reis pelo "tu", por verem- se de forma igual. Qualquer outro, que não um Rei, não. Anísio modificou a expressão séria e sorriu de forma agradável. - Vossa Majestade tem total razão. Pois bem, falava sobre os caminhos que nosso desenvolvimento bélico está tomando e admito que isso me preocupa, pois é inevitável que muitos aqui dentro deste Paço continuarão com suas desavenças ao saírem dele, e milhares ainda morrerão em nome dessa falta de entendimento entre nós. Adamantine, o Rei de Aragon, tomou a palavra: - Rei Anísio, entendo o que tu queres dizer e, em nome de minha nação, compartilho de tua humanidade. Mas também não posso ser hipócrita ao admitir que, para alguns de nós, não há alternativa. Pois o que farias tu se um intruso viesse até tuas terras, entrasse sem permissão em tua casa, humilhasse tua honra e sequestrasse tua princesa e futura esposa? O Rei-Fera mostrou os caninos. Os Reinos de Aragon e Rökk eram inimigos declarados desde que Rei-Fera Wöo-r tomou para si a princesa Bella de Adamantine como esposa forçada, e a mantinha como sua princesa-escrava até os dias de hoje.
  30. 30. Essa triste história é contada pelos bardos como o caso conhecido como A Bella e O Rei-Fera. Todos mantiveram o silêncio à espera da resposta. - Eu o mataria - disse Rei Anísio, com uma segurança que chegava a assustar. E, antes que alguém comentasse sobre a dualidade da resposta e do discurso anterior, ele concluiu: - A questão seria apenas se eu o faria sozinho ou se levaria milhares de vidas comigo por uma desonra dirigida especificamente a mim. - A desonra de um Rei é a desonra da nação que ele representa - exclamou Rei Adamantine. - Se assim o é, por que então existem ricos governantes comandando nações de população tão pobre? Acaso a riqueza de um Rei não deveria provir da riqueza da nação que ele representa? Olhares entrecruzados se dirigiram a Midas, o Rei de Gordio. O Rei amaldiçoado, que tinha mãos e toque de ouro e toda uma extensa riqueza que seu povo jamais iria experimentar, vivendo, entretanto, como um inválido sem nada poder tocar, dependendo de escravos até mesmo para lhe dar banhos ou colocar comida em sua boca. - Majestade... - chamou a atenção do salão Rei Midas. - Nem toda riqueza é uma bênção... - Ainda assim prefere-se o sofrimento que ela exige do que a paz do desapego... - disse Rei Acosta, líder de Orion, vizinho e desafeto de Rei Midas. - Acaso não tens de acordar tua Rainha, Rei? - perguntou Midas.
  31. 31. Rei Acosta se preparou para avançar sob a jugular de Midas, mas seu campeão, Begnard, o trouxe de volta à razão. A nação de Orion assumira suas desavenças com Gordio em eventos passados que culminaram com sua Rainha Belluci em coma profundo até os dias de hoje. O sofrimento da família real de Orion foi motivo de escárnio em Gordio, que chamaram o evento de "A Bela Rainha Adormecida". - Vós todos estais vendo como delimitamos hoje aqui os rumos de todo o Ocaso? - perguntou Rei Anísio. - E como a evolução bélica me preocupa ante tais campos de batalhas preparados por tamanha intolerância e acúmulo de rancor? Pois bem, ratifico e insisto que é nisso que se baseia meu Primeiro Pedido e digo mais: também meu Segundo. E Rei Anísio virou-se na direção do Rei de Tagwood. E exclamou: - Rei Collen, não é desconhecido para nenhum presente neste Paço o poderio militar que teu exército adquiriu após anos de combate à pirataria em teus portos. Procede o que afirmo? Rei Collen, que já estava surpreso de ter sido o Rei escolhido para o Primeiro Desejo, não gostou nem um pouco dos rumos que aquilo estava tomando. - Perfeitamente, Rei Branford... - E tal poderio vem do fato de passar a treinar teu exército para se utilizar da temida pólvora negra, recurso destrutivo de poder imenso, mas não ainda completamente aperfeiçoado por qualquer nação. É digna de admiração a forma como tiraste dos mares e trouxeste para a terra tal recurso bélico, com teus engenhosos criando canhões altamente transportáveis para o campo de batalha.
  32. 32. - Vossa Majestade... - disse com cuidado Rei Collen - ... até agora não compreendo se estais me repreendendo ou congratulando... - Rei Collen, não tenho condições nem direito de julgar a forma como proteges tua nação. Apenas afirmo que a pólvora negra pode levar tudo o que conhecemos no campo de batalha a caminhos sombrios e sem volta, e por isso gostaria de usar meu Primeiro Pedido para fazer um protesto contra tal força. - Um... protesto? Como assim, Majestade? - Meu Primeiro Desejo é que Tagwood esvazie em seus mares todos os barris de pólvora negra que existem em seu estoque no atual momento. Houve um momento súbito de silêncio e choque no salão. Nenhum maior do que o do Rei de Tagwood. - Mas... mas... mas... Majestade... Rei Anísio manteve a pose austera e observou o Rei de Collen em silêncio, diante de uma expressão que aguardava a decisão. O salão estava inteiramente transtornado, e isso tinha um motivo. Afinal, haveria de se ter coragem para acatar aquele pedido. E de se ter ainda mais para recusá-lo. - Mas... - disse Rei Collen ainda chocado e quase em sussurro - isso faria com que Tagwood fosse tomada por todos os lados... - Sei bem o que te preocupa, Rei Collen - voltou a dizer Rei Anísio. - Temes que teus vizinhos invadam tuas fronteiras e tomem tuas jazidas. Pois bem, digo que terás de confiar em mim. Porque quero que meu Primeiro Desejo seja uma ode à paz. E faço isso não apenas por Arzallum, mas por todo o
  33. 33. Ocaso. Por isso, declaro aqui, diante de todos, que estabeleço um acordo entre nações de que qualquer ataque a Tagwood, no período de um ano a partir de hoje, será tratado como um ataque também a Arzallum e a todas as nações que se dizem sua aliada. Murmurinhos, murmurinhos, muitos murmurinhos. Até mesmo Áxel Branford se perguntava se seu irmão tinha total consciência do que estava fazendo, e para onde tais atitudes poderiam levar as diversas nações. Rei Collen, entre o murmúrio geral, passava a mão na cabeça, tentando visualizar qual seria a melhor opção para seu Reino. Em um ano conseguiria, com certeza, reerguer seu estoque de pólvora negra. A questão era apenas esta: as outras nações iriam obedecer ao acordo verbal imposto pelo Rei? De certo, apenas um fato: estar contra Arzallum também nunca era uma boa opção. Talvez seja por isso que, após o salão silenciar, e após seu coração parar de bater tão forte, ele conseguiu dizer olhando para Anísio: - Majestade, vosso Desejo é uma ordem. O salão voltou à algazarra. Como pregava a tradição, escribas reais traziam pergaminhos em que estavam previamente escritos os termos ditados pelo Rei, em três cópias. Para se ter a certeza de que os desejos seriam atendidos, ao Rei responsável cabia ler e reler os termos e assiná-los na frente de todos, carimbando com seu selo real. Dali uma cópia de tal documento seria enviado ao Reino indicado através de pombos-correios.
  34. 34. A assinatura de Rei Collen, nos três documentos, saiu trêmula. - Pois bem, é hora de manifestar meu Segundo Desejo. Senhores, vós todos aqui sabeis que as raças racionais esperam por uma Era Nova que trará não apenas um conhecimento maior a Nova Ether, como ditará os caminhos espirituais que os seres vivos devem seguir. E esta Era estará inaugurada com o lendário retorno do avatar... - Não sabia que Vossa Majestade levava a sério os rumores sobre o retorno de Merlim de Christo - disse Rei Oronte, monarca das terras de Albion. - Pois não apenas levo a sério, como acredito, assim como meu pai também acreditava, no retorno de Filho do Criador, Rei Oronte. - E acredita que... dessa vez... ele não irá retornar em Albion? - Sei que tuas terras tiveram a bênção de ver nascer em tua capital o avatar na Primeira Vinda. Bendito é o Rei que, como Arthur, possa ser guiado por alma tão pura. - E maldito aquele que padece do mesmo destino de Arthur diante da morte - disse Rei Oronte. - Engraçado tu falares de tal destino quando foste um dos responsáveis por ele... - disse Rainha Kapella, a Rainha da Língua Ferina, soberana de Mosquete. - Rei Philipe... - disse Rei Oronte, dirigindo-se ao Rei de Mosquete, conhecido como o Rei da Máscara de Ferro - ... cuide da língua de tua esposa. Do contrário, em curto tempo teremos neste salão instruções de croché e educação de crianças. O salão explodiu em escárnios.
  35. 35. - Tens razão, Oronte... - disse a Rainha. - Talvez seja melhor eu ensinar crochê a meus filhos. Quem sabe assim eles não me matem... Mais escárnios; mais algazarra no salão. Rei Anísio voltou a tomar a palavra: - Senhores, senhoras, por favor! É de uma Era Nova diferente desta que falo! Uma Era em que não teremos tamanha diferença, e entenderemos qual o motivo da criação de nossos seres. Entenderemos o que há detrás do véu da Criação, e o que o Criador e seus semideuses esperam de todos nós. A maioria naquela sala escutava Anísio até com certa admiração. As pessoas realmente acreditavam naquela história. Ou, ao menos, queriam acreditar que Nova Ether caminhava para um rumo diferente do que parecia caminhar e que tudo iria mudar quando Merlim Ambrosius renascesse através de uma virgem, como pregavam as escrituras. Outros, como Ferrabrás, porém, mantinham expressões debochadas na face e não escondiam o tédio que tudo aquilo lhes causava. Anísio se virou para seu tio, Rei Tércio. - E é a ti, Rei Tércio, que dirijo meu Segundo Pedido. Rei Tércio parou de conversar com seu campeão e se concentrou no sobrinho: - Pois não, Rei Anísio... Rei Tércio poderia ter usado o termo "Rei Branford", mas havia três Reis presentes com o mesmo sobrenome. Logo, optara pelo primeiro nome do Rei de Arzallum. - Sabemos que um homem dito pelo povo como santo caminha por tuas terras. - Perfeitamente...
  36. 36. - Dizem que é capaz de milagres que o homem comum não consegue e que profere discursos que tocam em partes da alma que bardo algum ainda alcançou. - É verdade, Majestade... - Esse senhor, porém, é um antigo sacerdote impedido de exercer seu ofício. - Não por acaso, um antigo condenado... - disse Ferrabrás, não simpatizando com os rumos das coisas. Outra vez. - E que cumpriu sua pena em caráter obediente e exemplar - disse Rei Anísio. - Dizem, inclusive, que cumprimentava todos os guardas pelo nome e agradecia cada prato de comida que lhe entregavam. - E também que muitos presos violentos passaram a acreditar na redenção através de suas palavras - complementou Rei Tércio. - Pois então... - continuou Rei Anísio - ... sei bem que as leis de Forte não permitem que ex-prisioneiros exerçam funções de chefia, seja ela em caráter político, econômico ou religioso. - Perfeitamente... - Entretanto, por meu pedido, quero que abras uma exceção a esse homem. Acredito que a humanidade precisa ouvir as palavras de um homem como este. Com certeza, ele ainda tem grandes serviços a prestar à nossa História. Murmúrios no salão; não tanto quanto os do Primeiro Desejo, mas murmúrios ainda assim. A soturna expressão de Ferrabrás se mostrava numa única e legítima carranca. - E meu Segundo Pedido é que o homem conhecido como John Tuck possa exercer seu sacerdócio sobre as terras de Forte...
  37. 37. O mais interessante era que aquele pedido parecia agradar à maioria esmagadora do salão. As pessoas estavam admiradas com a escolha do Rei, e até mesmo o próprio Rei Tércio parecia extremamente satisfeito de poder dar tal poder de redenção a um antigo frei, sem burlar as leis de sua nação para isso. - Majestade, vosso Desejo é uma ordem. E o salão até mesmo - quem diria - aplaudiu quando os escribas reais se aproximaram, e Rei Tércio assinou os pergaminhos que seguiriam para o Reino do Forte. E foi assim, aproveitando essa melhora no ambiente, que Anísio Branford seguiu para seu Desejo mais polêmico: - Há tempos, muitas histórias de luta e coragem nasceram em nossas terras. Muitos homens tornaram-se imortais através de suas obras, ou de suas histórias de sacrifícios em prol de outros mais fracos, ou mais necessitados. Tenho certeza de que cada um de vós possui em vossa memória um preferido, e posso dizer aqui que em minha própria eu também tomo tal atitude. Áxel Branford se ajeitou em seu trono. Há algum tempo, Anísio lhe havia confidenciado qual seria seu terceiro pedido no dia em que fosse sagrado Rei. Mas não acreditava que, quando esse dia chegasse, ele fosse levar aquilo realmente a sério. - Senhores, faço parte de uma geração posterior à grande maioria presente e obviamente por isso acabo, pois, por me identificar com heróis mais próximos de minha época, como também o fazem milhares de jovens próximos à minha idade,
  38. 38. ou até mesmo da nova geração que formam os jovens dos dias de hoje. Branca não piscava. Rei Alonso também não. - E se hoje estamos aqui em considerável momento de tranquilidade foi porque grandes heróis no passado se uniram a meu pai, Primo Branford, liderando a épica Caçada de Bruxas. Todos os líderes desse movimento histórico se tornaram grandes lendas e aumentaram seu próprio mito em suas próprias jornadas. Alguns não estão mais entre nós, como Arthur Pendragon, que se entristeceria ao ver o que se tornou a guerra santa pela terra que defendeu, ou Merlin Ambrosius, o sagrado Christo e primeiro avatar de nosso Criador. Alguns levaram sua experiência e justiça ao magistrado, como lorde Wilfred de Ivanhoé. Alguns até hoje estão desaparecidos como o capitão Lemuel Gulliver. Alguns desvirtuaram seu caminho como o mago-linch OZ. Mas, de todos, nenhum teve destino mais ingrato do que Robert de Locksley. Anísio havia dito o nome. Imediatamente murmúrios correram por aqueles salões, mas dessa vez eram murmúrios diferentes. O caso de Robert de Locksley, o herói julgado como bandido, era o mais polêmico daquelas terras. Para as pessoas, ele era dito nas ruas em sussurros. Para os monarcas, apenas quando as portas estavam trancadas e até as paredes estavam dormindo. - Robert de Locksley foi um dos maiores heróis do mundo, e muito triste para sua memória é vê-lo apodrecer em uma cela à espera da morte, marcado como criminoso ao invés de herói. Também complexa é sua situação, afinal, ele e muitos
  39. 39. de seu bando foram capturados por soldados de Stallia no Condado de Sherwood, uma região que na teoria pertenceria às terras de Stallia, mas que na prática é uma região neutra por se localizar abaixo do Reino de Brobdingnag. O salão era silêncio. Tudo o que estava sendo dito era verdade. O Condado de Sherwood ficava abaixo do Reino Gigante dos céus e, portanto, era de comum acordo político, estabelecido por um tratado assinado, ali se reconhecer uma área neutra, embora constasse no mesmo documento ele também se localizar dentro de um antigo limite das terras de Minotaurus e de Tagwood, e ser de todos esses Reinos a responsabilidade de sua condução governamental. Na prática, porém, essa condução era feita por Stallia, com recursos econômicos próprios. Tagwood não tinha o menor interesse em Sherwood, e Minotaurus apenas queria capturar e punir aqueles que se opunham ao seu posicionamento imperialista. Logo, quando Robert de Locksley - e boa parte de seu bando - foi capturado por tropas militares do Reino de Stallia, Minotaurus solicitou a transferência da prisão do famoso fugitivo para si (o que o teria levado sem demora à execução na forca). Apoiado, porém, no tal tratado assinado por Minotaurus, Tagwood, Stallia e Brobdingnag, que estabelecia o condado como região neutra, e apoiado no fato de Locksley estar sendo procurado por crimes também contra as leis de Stallia, Rei Alonso Coração-de-Neve se negou a entregar o fugitivo capturado a Minotaurus e o levou para ser julgado em suas terras sob seu código penal. Obviamente isso atraiu a ira de Ferrabrás.
  40. 40. Para piorar a situação, depois de julgado pelas leis stallianas, Robert de Locksley foi condenado à prisão perpétua, sentença que cumpria até ali. A questão era que, em Stallia, Locksley fora julgado por crimes contra o Estado relativos apenas a furtos e incitação a ideias de rebelião na população. Como nem ele nem ninguém de seu bando jamais havia atirado uma única flecha contra soldados daquele Reino, isso impediu que fosse levantada a hipótese de sentença de morte, fato de que já não escaparia se tivesse sido julgado pelas leis de Minotaurus. A sentença irritou ainda mais o já calvo imperador Ferrabrás. - Não julgo aqui hoje se Rei Alonso Coração-de-Neve agiu corretamente em tomar para si o prisioneiro que capturou, nem se sua sentença pelas leis stallianas foi a mais justa que o antigo herói merecia. Nada disso é questionável, e Arzallum não se manifestará em tal polêmico assunto, que não lhe cabe. O que está aqui sendo levantado é apenas o direito ao meu Terceiro Desejo, que pretendo dedicar à memória de meu pai. Ferrabrás trincou os dentes. "E meu último Desejo é que Robert de Locksley seja libertado de sua pena de prisão perpétua, sob a circunstância de anistia" - Infâmia! - bradou Ferrabrás, atraindo para si todo um salão em pura tensão. - Apenas a ideia de requisitar a libertação de um prisioneiro condenado já se trataria de algo imoral! Sob a circunstância proposta é algo verdadeiramente inaceitável! Murmurinhos no salão. Era a primeira vez, na história de Nova Ether, que um governante no Salão Real desafiava publicamente o direito dos Três Pedidos de um Rei posto.
  41. 41. - Entendo vossa discórdia com relação ao meu pedido, pois todos aqui temos conhecimento de como vosso exército sofrera baixas nas brincadeiras mortais promovidas pelo grupo de Locksley. Mas peço, por favor, Rei Ferrabrás, que compreendais que... - Imperador Ferrabrás! - rosnou o monarca. Soldados apareceram na entrada do salão, preocupados com os rumos que aquela celebração estava tomando. Anísio Branford, que antes mantinha uma expressão paciente e falava como um aliado, dessa vez mudou totalmente a expressão. Assumiu uma postura séria e disse em tom firme, mudando o pronome de tratamento: - Já que fazes questão de relembrar a este salão o título auto- proclamado, também acho que esta é uma questão que deveria ser votada aproveitando a presença de nossos líderes das terras do Ocaso. Em particular, acredito que um Reino possa se abster da monarquia como sistema de governo se este for o desejo também de sua nação, mas, seja qual for a decisão a ser tomada, ela deve ser estabelecida ao lado dos líderes que comandam as nações vizinhas. Ferrabrás deu um passo à frente, e todos aqueles que estavam no caminho entre ele e Anísio Branford se afastaram com receio, deixando um corredor entre eles. - Quem toma decisões pela nação de Minotaurus é Minotaurus! Somente ela, e ninguém mais! - Soldados de Minotaurus se aproximaram de seu Imperador. Áxel Branford se levantou e se aproximou do irmão, observando de longe o campeão de Ferrabrás, um homem branco alto, e com uma cicatriz de batalha que descia em diagonal do alto da testa até
  42. 42. o nariz. Todos os soldados de Minotaurus usavam o cabelo raspado, ou quase raspado, em um corte tipicamente militar. Aquele papel que Áxel estava fazendo também era o de um campeão de Arzallum. Um campeão de um Rei tinha o papel de liderar sua guarda quando necessário, tomar a frente de seu exército quando em estado de guerra e lutar em duelos de honra para os quais fosse convocado. Logo, era comum que quem assumisse esse papel fosse um lorde; um combatente militar experiente em batalhas. Em Arzallum, porém, seu campeão era o próprio príncipe Áxel Terra Branford, que pedira pelo título em uma surpreendente decisão. Foi a primeira vez que um príncipe assumiu esse perigoso papel. - Então, além de "Imperador", queres também o título de "Minotaurus"? - perguntou Anísio. - Ou queres que "Minotaurus" se transforme em sinônimo de "Aquele Dominado Pela Tirania"? - Tu apenas... - Ferrabrás tentou dizer. - Use o termo "vossa" quando te referires ao Maior dos Reis! - disse Áxel Branford. - Se renegas o título de "Rei", então não ouses colocar-te no mesmo patamar de um. Ferrabrás suspirou forte de raiva. Surpreendentemente, o Rei- Fera Wöo-r tomou a palavra ao dizer em seu altivo pobre: - Rökk apóia o título de Minotaurus! E reconhece Ferrabrás como Imperador! No salão explodiram murmurinhos e comentários espantosos. Áxel olhou para Anísio, consciente de como aquele jogo estava ficando perigoso.
  43. 43. - Pois se tu tomas Ferrabrás como aliado, Rei-Fera, então Aragon não apenas renega o título em votação, como toma Minotaurus como desafeto! - bradou Rei Adamantine, causando mais frisson. Palmas fortes de Enkidu, campeão do Reino de Uruk, chamaram as atenções do salão disperso para ele. - Rei Gilgamesh tem algo a dizer... - disse ele. Silêncio. E som: - Uruk... - disse de forma lenta e arrastada o Rei Gilgamesh também apóia o título! Logo que a agitação do salão ameaçou retornar, antes que ela aumentasse, Rei Blunderbore, o Rei-Gigante, falou por cima de todas as outras vozes ao dizer algo em sua língua natal. Sua voz grossa e poderosa lembrava uma corneta tocada. Como ninguém nada entendeu do dialeto, seu campeão traduziu em um altivo ainda mais pobre que o do Rei-Fera, com um tom de voz igualmente poderoso: - Brobdingnag igualmente apóia o título... Rei Segundo coçou a cabeça, enquanto os murmurinhos voltavam. Ferrabrás observava Branford com um ar triunfante. Áxel odiava aquele sorriso. Rei Anísio tomou a palavra: - Em algumas linguagens, o título "Imperador" possui o sentido de "Senhor dos Reis", o que nos deixa em uma situação de, das duas, uma: ou modificamos o sentido da palavra, ou renegamos o título proposto por Ferrabrás. Silêncio. - Então eu sugiro modificarmos o sentido para "Aquele Que Irá Se Tornar O Senhor Dos Reis" - rosnou Ferrabrás.
  44. 44. Mais soldados de Arzallum chegaram ao local e entraram no Grande Salão, causando mais algazarra. A impressão era de que, se fosse xingada a mãe de alguém naquele momento, estaria estabelecida a Primeira Guerra Mundial. - E, independentemente das consequências políticas ou militares que pensa ser capaz de impor, eu renego aqui em teu solo teu Terceiro Pedido, Anísio Terra Branford! Ferrabrás cuspiu no tapete real e, junto de sua comitiva, deu meia-volta e se dirigiu à saída. Foi quando Rei Anísio fez um sinal com a cabeça, e a Guarda de Arzallum bloqueou a saída. Os homens de Minotaurus tocaram o cabo de suas armas. Os de Arzallum também. - Antes de partires, Líder de Minotaurus... - disse Anísio, mais uma vez atraindo atenções no ambiente tenso - ... gostaria que assistisses ao desfecho de nosso ato. Afinal, parece mesmo que te esqueces de que o destino e o julgamento de Robert de Locksley não te pertencem, pois tua guarda foi incompetente e infeliz no que a de Stallia não. Ferrabrás virou-se possesso; nada irritava mais um minotaurino do que o menosprezo ao seu poderio militar. A raiva queimava em seu interior. No de seus soldados, também. Mas, para o bem do salão, nada foi dito por nenhum deles. Ali. - E deixo a consequência de meu Terceiro Desejo àquele que realmente tem o poder de concedê-lo! Todas as atenções da sala se voltaram para Rei Alonso Coração-de-Neve, que parecia novamente um pouco distante do mundo, alheio ao que acontecia ao redor. Ao ver as atenções de todos em si, contudo, mais uma vez o Rei saiu do
  45. 45. mundo próprio em que estava, arregalando os olhos como se apenas ali tivesse se dado conta da importância da escolha que tinha de tomar. Não era apenas uma questão de conceder ou não o Desejo de um Rei. Era a hora de escolher aliados em um conflito político e militar declarado. Era o momento de dizer se estava do lado de Minotaurus e, dessa forma, contra o sistema estabelecido pelos monarcas de todo o continente Ocaso, ou se estava ao lado de Arzallum e, assim, atestando de forma pública que não apenas não mantinha rancores contra a família Branford, como estava contra as ideias políticas e militares de Minotaurus. O Rei olhou para a própria filha Branca, posicionada atrás de Anísio Branford. O coração dela batia rápido; mais parecia que iria sofrer uma arritmia cardíaca. Fato justificável: tudo o que uma princesa prestes a se tornar Rainha menos deseja na vida é ver sua terra natal entrar em desavenças com a terra de seu futuro esposo. - Majestade... - disse Alonso Coração-de-Neve, com uma voz arranhada e fria - ... vosso Desejo é uma ordem. Ferrabrás rangeu os dentes e caminhou para a saída mais uma vez. Os soldados olharam para seu Rei e, dessa vez, desbloquearam a saída, observando a orgulhosa comitiva de Minotaurus deixar a sala. - Aqueles que queiram trilhar os mesmos caminhos de Minotaurus... - disse Rei Branford - ... por favor, que já o façam desde agora.
  46. 46. Rei-Fera, ao lado de seu campeão, o troll-herói Grendel, e de sua comitiva de bestas-feras de Rökk, virou-se e também deixou o Grande Salão, sob o olhar da comitiva de Aragon. - Nossas pendências ainda não terminaram, Rei-Fera! - disse Rei Adamantine. Rei Wöo-r apenas mostrou seus caninos e continuou seu caminho. Da parte do Reino de Uruk, Rei Gilgamesh e sua comitiva, liderada pelo campeão Enkidu, também caminharam em silêncio na direção da saída do Grande Salão. Por último, a comitiva de Brobdingnag, o Reino-Gigante, fez o solo tremer ao fazer o mesmo. Quando ao salão se tornou novamente silêncio, diante de rostos surpresos, Rei Anísio Terra Branford virou-se de frente para aqueles que restaram no saguão e disse: - Está consumado. E todos que ali permaneceram, com exceção dos Reis, se colocaram de joelhos. Era o final daquela cerimônia e apenas o início do muito que ainda estava por vir. "Estão estabelecidos os alicerces para a construção da Era Nova de Arzallum e de todo o continente do Ocaso." 10 Aquela pendência estava gerando sequelas. As crianças já estavam saindo da Escola Real do Saber, e saíam em bando, como sempre. Obviamente que naquele dia o único assunto entre elas era João Hanson e Hector Farmer. Alguns dos diálogos que uma pessoa poderia escutar se
  47. 47. andasse por ali, e fingisse não estar prestando atenção no grupo de meninas, seriam: - Você viu? O João partiu pra cima mesmo do Farmer! - É, mas ele não aguenta. O Farmer é maior. E é mais velho também. Quem pode com alguém maior e mais velho? - O príncipe Áxel já derrotou gente maior e mais velha que ele! - Ah, mas ele é pugilista, né? O João, não. - Mas o que vocês acham do que o Farmer falou? Vocês acham que a professora e o Áxel já... já... vocês sabem... - Será? Mas antes do casamento? Isso é desonra! As meninas riram, como se aquilo fosse uma grande piada. Mas, realmente, nos dias de hoje, até parece, né? - Ah, não aconteceu, não, pode acreditar. Ela é muito feia pra ele! - Deixa de ser invejosa, garota! A Maria é linda... - Não, isso é tudo ponto de vista... - Ah, sai daqui! Já perdidos em suas próprias conversas, o grupo de Farmer ia mais à frente e era formado de uns cinco garotos e nenhuma menina. Farmer era o mais velho. Mais atrás vinha o grupo de João, composto de três meninos e de todas as meninas que sobraram da classe. Os dois haviam trocado mais farpas antes de saírem da Escola Real, mas ambos eram suficientemente espertos para ficar cada um na sua. Tanto ele quanto seu velho rival haviam sido avisados que ambos seriam expulsos por qualquer sinal de briga, mesmo fora do horário escolar.
  48. 48. - Você vai pegar ele mais tarde? - perguntou Costard, um dos amigos de Farmer. - O problema é que, se eu pegar aquele baixinho idiota, a estúpida da irmã dele vai me expulsar! E sabe o que vai acontecer com isso? A minha mãe vai me comer vivo, que nem aquela bruxa quase fez com os dois! - os amigos de Farmer riram alto. Alto o suficiente para não perceberem a aproximação do outro grupo, de onde veio um: - Vem falar isso na minha cara! - Cortou as risadas, ao fundo, a voz adolescente de João Hanson. Era uma voz que ora era grossa demais, ora escapava umas palavras bem mais finas do que deveriam. O jovem Hanson se aproximou, acompanhado de seu grupo de adolescentes que incluía Ariane Narin. Era impressionante como havia crescido de um ano para outro; mais parecia que já havia dobrado do tamanho comparando com o ano anterior. Hector Farmer, que apesar de tudo ainda era maior do que João Hanson, parou e se virou. - Ih, o cabelo lambido resolveu falar grosso! Tá mudando a voz, é, juanzinho? - O "juanzinho" havia se tornado um apelido dúbio entre o mundo plebeu. Na verdade, ele se referia ao clã De Marco, família rival do clã Casanova. Seus dois herdeiros costumavam se envolver em grandes histórias de disputas amorosas, gerando a alegria dos contadores de causos e do povo interessado por notícias sociais. Logo, se o rapaz fosse um grande conquistador, mas se sustentasse à custa do pai, era um "juanzinho". Se se sustentasse por conta
  49. 49. própria, era um "casanovinha". Não à toa, o primeiro apelido costumava ser depreciativo. O segundo, motivo de orgulho. Além disso, João Hanson usava um corte de cabelo realmente muito parecido com o herdeiro dos De Marco. - Eu tô é de saco cheio de escutar gente que nem você debochar do nome da minha família! João parou diante de Farmer. Os dois ficaram frente a frente, na distância de um palmo. Braços para baixo; olhos nos olhos. Como citado, Farmer era um pouco mais alto, mas apenas um pouco. Porém, era mais encorpado, por ser um pouco mais gordo. E também era um ano mais velho. Os adolescentes fizeram um círculo ao redor dos dois e permaneceram com os punhos fechados, ansiosos por uma possível continuidade da briga interrompida mais cedo. - Sabe... - disse Farmer - ... eu só não termino de bater em você agora porque eu ia ser expulso daqui! - Iiiiiiiiih! - gritaram os adolescentes ao redor. - A hora que você quiser, pançudo! - devolveu João. - Iiiiááááááh! - gritaram de novo. "Ah, eu não deixava..." e "Se fosse eu, metia logo a mão na cara!" eram algumas pérolas que também se escutava no grupo ao redor. - Você só banca o macho assim na frente dos outros porque sabe que a irmãzinha é a nova professora. E só eu que seria expulso se eu quebrasse você! "É...", "É isso aí!" e "Pode apostar!" partiam do grupo amigo de Farmer. - Primeiro... - falou João - ... ao contrário de você, a minha irmã é pessoa justa. Por isso ela iria me expulsar tanto quanto você se eu batesse na sua cara de novo! - "Uuuuh!", gritou o
  50. 50. outro grupo. - E segundo: se você quer mesmo saber quem é mais homem... - reparem o termo homem - ... tem outro jeito de a gente resolver isso. Os dois grupos ficaram em silêncio. - Ah, é? E que jeito? - Eu e você... - a voz de João saiu grossa dessa vez. - Hoje, na batida das quatro, em uma disputa lá no terreno baldio atrás da Catedral. Com todo mundo aqui de testemunha! Os grupos se olharam fascinados. - Uma disputa? - Farmer estranhou. - E uma "disputa" de quê? - De boxing... Os dois grupos urraram de prazer. 11111111 Era a hora de corações em conflito debaterem. No salão do Grande Paço, estava sendo servido um imenso coquetel para as comitivas reais que ainda permaneceram no local. Ainda havia no ar um clima de surpresa pelos rumos que as coisas haviam tomado e um sentimento de temor sobre o que o futuro reservava ao continente do Ocaso. Comitivas se banqueteavam enquanto esperavam a vez de seus monarcas conversarem com o novo Rei. Servos reais andavam com bandejas de um lado para o outro, e cozinheiros reais mantinham seus serviços de maneira frenética. Para se ter uma ideia, na grande mesa montada, havia uma variedade inquestionável de frutas: amoras, groselhas, cerejas, limões, marmelos, romãs. Uma mesa de carnes de porco e uma mesa de carnes de peixes. Havia muito vinho e hidromel
  51. 51. para ser bebido. E havia até pratos com especiarias difíceis de serem encontradas, como pimenta, canela e açúcar. Anísio Branford permanecia sentado em seu trono com a coroa na cabeça, alheio ao banquete servido ao redor. Estava atendendo Reis e monarcas ainda presentes - um por vez - e escutando sugestões, pedidos, justificativas ou reclamações sobre problemas de ordem política entre nações. Ali tratados eram restabelecidos ou ratificados, promessas eram feitas, mesmo sabendo-se das dificuldades de serem futuramente cumpridas, e alianças eram fortificadas, mesmo com a certeza de que tempos difíceis pareciam surgir. Branca Coração-de-Neve, ao fundo, observava a rica mesa de frutas, tentando decidir qual seria a melhor opção. - Posso dar uma sugestão? - disse a voz de Áxel, surgindo ao lado dela com duas taças de vinho nas mãos. - Ah, mas é claro! - ela sinalizou com a cabeça, aceitando uma das taças. - Tu és meu cunhado, Áxel Branford. Em muito ainda pedir-te-ei tua sugestão. - Branca, por favor, não use esses termos comigo... - Que termos? - Não me chame por "tu", por exemplo. Daqui a pouco me chamará de "senhor". Você vai se tornar esposa de meu irmão, mulher! Por favor, me chame de "você" ou... "Áxel", apenas Áxel, ou... sei lá... invente um apelido para mim! Ela riu. Aquele não era um conselho tão prático para uma Coração-de-Neve. Nobres eram treinados para falar entre si na segunda pessoa. Em momentos íntimos, porém, alguns utilizavam o "você", mas nunca em público, o que seria tomado como desrespeito.
  52. 52. - É estranho para mim isso, mesmo sendo tu... - uma pausa - ... mesmo sendo você de minha família agora. Vai contra toda a rígida educação que já recebi. - Eu entendo, mas insisto que tente. E pelo amor do Criador: não fale em mesóclise! Os escribas já deveriam ter abolido isso da língua altiva! A princesa riu novamente. E bebeu mais de sua taça de vinho. - Eu falo sério! - ele também riu. - Eu não entendo por que nos dias de hoje ainda encontramos algumas figuras que se apresentam como: "Senhores, eu sou Olaim Rabo-de-Porco III, filho de Olaim Rabo-de-Porco II, que foi casado com a senhora Costeleta-Suína IV, e que era neto do... bom... Olaim Rabo-de-Porco I". A princesa cuspiu o vinho que estava bebendo. Observou envergonhada ao redor com medo dos olhares dos outros nobres. E percebeu que ninguém estava muito preocupado com suas reações. - Prometo que farei um esforço... Áxel. - Não soa bem melhor? Ela voltou a mexer nas frutas. - Você... - o termo era tão difícil de ser dito por ela, que mais parecia que a palavra pesava - ... não disse que ia me ajudar a escolher uma fruta? O que sugere? Áxel meteu a mão em uma fruteira e tirou uma maça vermelha, gorda e imensa. A fruta chegava a reluzir de tão perfeita, e ele a estendeu para ela. - Olhe isso: se essa fruta pulsasse iriam achar que é um coração.
  53. 53. - Sabes, começo a entender por que algumas nobres costumam trazer teu nome nas conversas e reuniões particulares entre mulheres. Tu... - ela limpou a garganta - ... você fala como poeta de vez em quando, embora tenha a simplicidade de um aldeão. - E isso me define muito mais do que ser irmão de Rei Anísio Terra Branford, filho de Primo Branford, e neto de Hams Branford. Você não concorda? Ela analisou por alguns segundos. E perguntou com expressão séria: - Acaso a família também não definiria um homem? - Os seres humanos nela contidos, não os títulos. - Um homem não deveria herdar o respeito que seus antecessores conquistaram? Nem honrar essa conquista? - Seus atos devem honrar essa tradição; não a exibição das qualificações. Ela pensou mais uma vez, e dessa vez concordou. - Não se leem tais coisas escritas em livros, não é? - Não, porque as pessoas costumam ler os livros errados. A princesa pegou um marmelo e o comeu. Percebeu que sua boca ficou um pouco suja, mas dessa vez não ficou envergonhada por isso. Áxel lhe ofereceu um lenço. - Pensei que iria aceitar minha maçã... - ele disse, achando graça. - Não é isso! - ela limpou a boca. - É que não gosto de maçãs. - Você diz isso porque não conhece as maçãs doces de Denims! Vou pedir para Anísio lhe servir à noite, quando estiverem a sós. Você nunca mais irá querer outra fruta...
  54. 54. A princesa corou na hora. Do jeito que tinha a pele pálida, suas bochechas pareciam, elas próprias, legítimas maçãs. - Áxel... O príncipe era só sorriso. Ele mesmo mordeu a fruta. - Por falar em Anísio, vou lhe confidenciar que queria lhe perguntar algo sobre meu irmão, que acho que pode me responder. - Se não for algo indiscreto... - Se fosse algo indiscreto, perguntaria diretamente ao meu irmão. Ela sorriu e concordou. - Diga... - Estava observando Anísio mais cedo e percebi que ele está com uma marca estranha no braço. Parece um quadrado em que as bordas se expandem, feito o jogo da cruz que as crianças gostam. É um símbolo... assim... - e ele desenhou no ar com o indicador um #. - É um símbolo místico. Fui eu que gravei com aço nele. - Sério? - Áxel até parou de mastigar a maçã. - E ele representa o quê? - Magia branca. Foi a vez de Áxel cuspir um pedaço da fruta, antes que engasgasse. - Princesa... está me dizendo que você conhece... magia branca? - disse, quase em sussurro. - Conheço muitas coisas, Áxel. Nem sempre leio os livros errados. - Agora entendo. Anísio não quis me contar como, mas...
  55. 55. - Exatamente - ela anteviu o final da frase. - Ou como você acha que foi rompida a leprosa pele em pedaços de sapo? Áxel se calou e houve uma pausa. Houve um tempo em que seu irmão havia deixado o Grande Paço e não retornado. Um tempo em que palavras erradas foram ditas, e atitudes inconsequentes acompanharam a reação. Áxel partira com seu guarda-costas troll e sua mítica águia-dragão em uma jornada pessoal atrás do irmão, apenas para encontrá-lo como um bisonho homem dominado por uma bizarra e leprosa pele anfíbia. Anísio se recusara a falar sobre o assunto posteriormente. E ele ainda não fazia idéia do que havia quebrado aquela magia medonha. Até agora. - Áxel... - a princesa disse em lamento, ao perceber a reação dele. - Obrigado. - E só então, diante da reação dele, Branca Coração-de-Neve se deu conta dos frágeis sentimentos que uniam aqueles dois. Ela pegou o lenço que ele lhe havia emprestado e limpou o rosto dele antes que uma lágrima escorresse. Era interessante que já nenhum dos dois estava mais interessado no que outros pensavam ao redor. - Sabia que as lágrimas de um príncipe são ingredientes poderosos em rituais mágicos? - É mesmo, princesa? - ele tentou sorrir. - E lágrimas de Reis? Branca observou ao fundo seu pai, Alonso Coração-de-Neve, e suspirou. - Essas são capazes até de purificar um espírito... Áxel percebeu o olhar de compaixão dela. - Rei Alonso parece que não chora mais, não é?
  56. 56. - Não. Ele agora é o Rei das Lágrimas de Inverno. As lágrimas que congelam. As lágrimas que não caem. Áxel alisou o braço da princesa, sem saber exatamente o que dizer. E então, de repente, surgiu aquele SOM! Servos reais derrubaram bandejas, uma falação seguida de uma histeria começou a tomar conta de todo aquele salão. Rei Anísio se levantou em um salto de seu trono, e muitos correram para o lado de fora, ou para alguma janela, procurando uma explicação racional para o que estava acontecendo. Era um som que vinha sabe-se lá de onde, alto e em parte ensurdecedor. Era um som que lembrava o estalar de caudas de dragões e crescia e crescia e crescia. Crescia porque se aproximava daquele palácio. Guardas correram para fora e para dentro do Salão Real, gritando coisas para os presentes e, principalmente, gritando coisas para o Rei. Era algo que vinha do céu. E mais do que isso: que não apenas manteria no ar aquele clima de surpresa pelos rumos que as coisas estavam tomando como também o sentimento de temor sobre o que o futuro reservava àquele continente. Algo que eles nunca haviam visto. Algo que eles nunca imaginaram existir. 12121212 Do lado de fora do Grande Paço, já a alguns quilômetros de distância, as comitivas reais que não permaneceram no palácio se distanciavam cada vez mais. Nenhuma delas iria embora de Arzallum, pois seus representantes lutariam nos
  57. 57. dias seguintes no aguardado Punho De Ferro. Entretanto, depois das ofensas sofridas e desavenças estabelecidas, obviamente as comitivas não seriam mais bem recebidas no Grande Paço, tendo de se acomodar em estalagens de grande luxo e pompa. Era essa a preocupação de todas elas, quando, onde quer que estivessem, escutaram aquilo. E também se surpreenderam com algo que não imaginavam existir. - Meu Imperador... - disse um soldado de Minotaurus, embasbacado. Ferrabrás saiu de dentro de uma carruagem e tomou posição para observar aquilo que vinha do céu. Até ele, que pouco demonstrava sentimentos, não escondeu a própria surpresa. - O que é... aquilo, meu Imperador? - Eu não sei, soldado. "Mas, se não estiver do nosso lado, então estará contra nós." 13131313 - Mãããããe!!! Mãããe! Vem cá! Vem cá! Vem cá, AGORA! Anna Narin largou tudo o que estava fazendo e correu para encontrar a filha: - O que foi, meu Criador? - Você não está escutando... isso? Anna Narin estava. Tanto que correu com a filha com o coração acelerado, e o mundo em conflito. Ao chegar do lado de fora, encontrou grupos de moradores fazendo o mesmo, todos se olhavam e se perguntavam não apenas o que era
  58. 58. aquilo, mas também se estavam novamente em tempos de guerra. Era triste ver o que um inesperado atentado pirata anterior havia feito com aquele povo, outrora tão seguro de si e, mais do que isso, também um exemplo para todos os povos daquele continente. O mais difícil parecia o fato de ter de aceitar que a paranóia e o medo haviam se instalado não apenas nas casas daquelas pessoas, mas também nos corações de cada uma delas; um local de onde apenas elas poderiam retirar o sentimento, o que tornava tal tarefa muito mais difícil. Quando aquela coisa passou por cima delas, algumas pessoas se abaixaram com medo de que fosse outro ataque, dessa vez pelo ar em vez de por mar e terra. Ariane Narin, tomada pela sombra que aquilo fazia em sua cabeça, se agarrou forte ao corpo da mãe. - O que é aquilo, mãe? Anna Narin, ao longo de sua vida, já havia visto muita coisa em eventos envolvendo bruxas boas e bruxas ruins. Já havia visto magias negras sendo destituídas, como havia visto bruxas canibais tentarem devorar crianças. Já havia visto coisas espantosas e havia visto coisas que seriam ditas impossíveis. Ainda assim, ela jamais havia visto algo igual àquilo. 14141414 Maria Hanson observou no horizonte o que quer que fosse aquilo continuar seu caminho até parar acima do Grande Paço. Ao seu lado, Kenny, antiga companheira de classe de
  59. 59. Maria e hoje na condição de sua aluna, deixou os pesados livros caírem de suas mãos. - Aquilo está... descendo no Grande Paço? - perguntou Kenny, com a voz lenta. Maria Hanson tinha olhos arregalados que não piscavam. As mãos, trêmulas e essencialmente úmidas de susto. E um coração batendo extremamente forte dentro do peito. - Está... 15151515 Anísio Terra Branford já estava do lado de fora do Grande Paço, ao lado de todos os soldados disponíveis do palácio, principalmente os melhores deles. Aquela coisa havia feito uma imensa sombra sobre o jardim real, transformando o dia em um inesperado momento de eclipse. Todos os presentes observavam de longe, com surpresa nas faces e arrepio nos pelos. Arqueiros armaram seus arcos e bestas, apontando suas setas para o alto. - Majestade, é só dar o sinal... - disse o capitão. - Não. Ainda não... O capitão fez um sinal com o punho fechado, e nenhum arqueiro liberou sua corda. Pouco a pouco, devagar e meio trêmula, aquela coisa foi parando. Era imensa. Imensa. De longe, parecia um bicho oriundo da raça dos dragões. Mas de perto... de perto era algo ainda mais fabuloso porque já não parecia mais um bicho. Aliás, sabe-se lá o que parecia. Era como se colocassem um...
  60. 60. navio em pleno ar, mas essa ainda é uma descrição pobre. Era mais como um... monstro formado de madeira e metal, com um rabo metálico que girava veloz o suficiente para lembrar as batidas de asas de um pássaro difícil de se recordar o nome, mas capaz de parar no ar. Em alguns pontos, parecia soltar fogo pelas ventas. E havia ainda uma base onde se encontrava um retângulo metálico e brilhante no centro, e outros dois menores nas pontas, formando um desenho que lembrava uma cruz. Ao redor do corpo metálico, rodava, de maneira barulhenta, uma espécie de corrente grossa de metal, que girava ao longo de toda a parte externa no sentido horário por um vão em que brilhava uma luz rubra. E era incrível como o rabo metálico havia parado de girar, mas ainda assim aquele imenso peso permanecia parado no ar. Das três placas brilhantes na parte inferior que lembravam uma cruz, o grande retângulo do centro parou de brilhar, permanecendo brilhantes apenas as pequenas placas laterais da cruz. E então, pouco a pouco, o imenso veículo alado começou a descer. Lentamente e, vez ou outra, oscilando e bambeando um pouco, como se não fosse acostumado com o próprio peso, mas, ainda assim, descendo sob o olhar de pessoas que mantinham bocas abertas e olhos arregalados. Logo, ainda durante a descida próxima, se escutou o som de compartimentos sendo desobstruídos, como o som que faz uma grande janela quando aberta de uma única vez, de maneira ríspida. Os arqueiros voltaram a suar frio e tremeram as armas nas mãos.
  61. 61. - Majestade! - voltou a dizer o capitão, com uma voz mais trêmula do que deveria. - Ainda não... Áxel Branford observava a coisa ao lado de seu guarda-costas, o troll Moonwarkston, apelidado entre os homens simplesmente de Muralha. O troll não havia participado da cerimônia dentro do salão, mas agora aquela definitivamente se tornava uma situação em que sua presença se fazia extremamente necessária. Quatro compartimentos inferiores foram abertos, cada um na ponta daquele imenso casco. Alguns nobres tentaram se esconder ou se proteger, imaginando que daqueles compartimentos revelados sairiam tiros de canhão ou sabe-se lá o quê. As setas ainda acompanhavam o lento movimento de descida. O punho do capitão ainda se mantinha fechado, indicando que ninguém deveria atirar uma única flecha que fosse. Até porque - àquela altura - ninguém mais discernia se flechas serviriam para alguma coisa. E então, dos compartimentos revelados, em vez de canhões saíram engrenagens com pés em forma de rodas de carruagens, mas com o triplo do tamanho que uma roda de carruagem teria. E com um envoltório que roda de carruagem alguma já havia sido revestida. E devagar, conforme o bambear do veículo permitia, as rodas tocaram o chão, fazendo o imenso pássaro-navio gemer engrenagens de metal e suavizar o imenso peso que deveria ter. Quando a base do monstro de aço tocou o chão e sustentou seu peso, houve um barulho forte equivalente a centenas de armaduras caindo, ao mesmo tempo, de uma
  62. 62. gigantesca prateleira. As duas placas ainda brilhantes nas laterais inferiores se apagaram de vez. A nuvem de poeira erguida na descida foi baixando. E, enfim, houve silêncio. Uma vez ou outra se escutava apenas o som de armas de soldados se movimentando. Ou de guardas mudando de posição por ordem de superiores. Rei Anísio Branford ordenou que as flechas fossem abaixadas, e os soldados obedeceram extremamente cautelosos. E, de súbito, o navio-pássaro fez um barulho que lembrava uma porta sendo aberta violentamente. Um soldado, no susto, atirou uma seta no próprio pé e caiu gritando. As flechas voltaram a ser apontadas trêmulas para aquela coisa. - Eu mandei abaixar armas! - bradou Rei Anísio, com a voz segura que seu capitão desejava ter. Todas; todas as armas foram abaixadas. E Rei Anísio esperou. Foi quando do novo compartimento aberto pareceu descer uma escada móvel, presa por cordas em suas laterais que se desprendiam com um pedaço da base inferior do casco que tocou o chão, como se fosse um filete de melão sendo cortado de uma fruta perfeita. Cada vez mais pessoas se aglomeravam naquele jardim, sem saber exatamente se estavam sentindo-se privilegiadas ou não de estarem ali. E viu-se uma sombra surgir de dentro daquele casco. E depois um pequeno ser descer passo a passo aquela escada improvisada até tocar o chão e ficar frente a frente com Rei Anísio Terra Branford.
  63. 63. Aquele encontro iria mudar o mundo. 16161616 Próximo ao cais do porto de Arzallum, naquele momento, um negro solitário observava o mar tranquilo. Era alto e um pouco forte e tinha uma expressão inabalável de quem não teme a vida, seja por muita coragem ou pela própria falta de ousadia diante dela. Nas mãos, uma faca com uma lâmina do tamanho de um antebraço e um artifício de pedra riscada que lhe servia como amolador. O nome daquele negro era Snail Galford. - Você andou sumido... - disse uma voz que se aproximava, atrás dele. A dona dela era uma menina de não mais que dezessete anos, de cabelos ruivos até os ombros e corpo de trapezista. Ela era Liriel Gabbiani. - Eu sei... - ele disse, e então reparou melhor na menina. - Gostei do novo corte. Ela sorriu o mesmo sorriso que todas as mulheres do mundo dão quando são notadas. - Obrigada... - As coisas vão bem no pula-pula do circo? - Vão sim. E o nome é trapézio. - E qual a diferença? - Deixa de ser ridículo! E por que você não vem trabalhar conosco? Abriu uma vaga pra atirador de facas... Ele sorriu. O riso era irônico. - Na verdade, Gabbiani, estive sumido um tempo porque andei realmente ocupado.
  64. 64. - E mesmo? E um homem da sua laia andou ocupado fazendo o quê, posso saber? - Caçando bruxas. 17171717 - Saudações, povo do Ocaso, mestres e monarcas deste continente tão promissor. Há muito esperamos esta vinda, e admito que muito prazeroso seja para nosso povo não apenas atestar sua existência, como para nós individualmente fazermos parte deste momento histórico - a voz que emitia tais palavras era de uma tonalidade neutra, nem alta nem baixa. O altivo utilizado era de uma riqueza assustadora para quem observava, e seu emissor tinha uma classe tal para se comunicar que fazia as pessoas parecerem menores do que eram, e esse detalhe é digno de nota, vou lhe explicar o porquê. Acontece que, quem desceu daquele... navio-que-navegava- no-céu, ou seja lá que nome tivesse uma coisa daquelas, foi um ser magricela de não mais que um metro e vinte, o que logo nos faria pensar em um anão magrelo. O problema era que o rosto... ou, melhor ainda, a cabeça do cidadão era do tamanho da de um homem muitas vezes maior. Logo, mais parecia que um engraçadinho havia colocado um tubo na orelha de um anão e assoprado até que sua cabeça inchasse. E mais: o ser ainda se vestia de forma impecável no que pareciam roupas nobres de seda adaptadas para seu tamanho, cordões de ouro ao redor do pescoço e cordões de prata ao
  65. 65. redor dos pulsos. E isso sem falar dos anéis esculpidos com símbolos que ninguém ali entenderia tão cedo. Rei Anísio limpou a garganta. Suspirou fundo e tomou coragem para perguntar: - Saudações. Quem és tu, navegador dos céus, que te apresentas hoje aqui para nós? - Oh, falta de educação a minha não me apresentar primeiramente - e o pequeno ser pareceu embaraçado. - Peço desculpas a todos, mas é que em nossa cultura nos apresentamos apenas depois de manifestarmos nossas intenções, detalhe que na cultura da vossa raça é o contrário. - Compreendo o que tu dizes, visitante - voltou a dizer o Rei. - Mas agora que sabes em que cultura estás, por favor, peço que nos esclareças o que não podemos concluir. - Com toda a certeza, Rei Anísio Branford. - Então sabes o que acontece neste Paço no dia de hoje? - Absolutamente, Grande Rei. Não por acaso é este o dia calculado para nossa chegada. Estou aqui em nome e a pedido do povo oriental do continente do Nascente e aproveito para trazer não apenas um acordo de cooperação com este Reino e seus aliados como também uma proposta de início de outra Era em todo este continente. Houve burburinhos em todos os cantos. Alguns se perguntavam se aqueles seres haviam chegado do espaço, o que não seria difícil de acreditar por sinal, já que a gente vê tanta coisa hoje em dia. E não parece haver muita diferença entre um ser que veio do espaço e um que não, se ambos vêm em um navio que voa no céu...
  66. 66. - Eu sou Rumpelstichen, mestre dos ferreiros-pilotos de Labuta, e trago aqui hoje o futuro que já foi vislumbrado no continente do Nascente e que agora voa com o vento aqui para as terras do Ocaso neste Vishnu - ele apontou para a grande máquina atrás de si. - O que todos vós podeis ver aqui se trata da mais moderna junção entre magia e metal que uma raça inteligente já ousou fundir. Ele dará início a uma Era em que magia e tecnologia caminharão de mãos dadas a serviço de uma civilização mais próspera e rica. Em que os homens não irão temer a magia, mas fazer com que ela sirva aos seus interesses. Em que as distâncias se tornarão menores. Em que o conhecimento se expandirá de forma mais rápida e mais democrática. É essa a Era que oferecemos hoje em Arzallum a todos os líderes que aqui se encontram. As pessoas voltaram a observar a imensa carruagem voadora, surreal demais para a inteligência humana simplesmente aceitar sua existência. - E, então, o que nos dizem? Todos olharam para Rei Branford, esperando. A máxima realmente era verdadeira: grandes poderes; grandes responsabilidades. Anísio ponderou apenas alguns segundos. E disse: - Visitantes, por mais que jamais esperássemos pela vossa visita e tendo perfeita consciência de que basta um único gesto meu para que chuvas de flechas eclipsem o mesmo sol de onde vieram... sejam então, pois, bem-vindos ao Grande Paço de Arzallum.
  67. 67. As pessoas não manifestaram reações positivas ou negativas. Ainda não sabiam se estavam diante de uma bênção ou de uma maldição. - Contudo, visitante... - continuou o Rei -... tu disseste que vieste de Oíir, as terras do Nascente, no dia de hoje, para atender a um pedido. - Com toda a certeza, Vossa Majestade. - E gostaria de saber: esse... pedido se oriunda da figura de quem? - Do grande sultão de Al-Quadim Badroulbadour, Majestade - e as pessoas se olharam espantadas. A figura do sultão que governava o mundo oriental era lendária e rendia histórias tão esdrúxulas quanto fascinantes. - Senhores, apresento a todos o magnífico guerreiro e campeão oriental Ruggiero - e um homem forte, de cabelos longos e lisos, traços orientais e olhos cortados, apareceu de dentro do veículo alado e observou aquele mundo sem esboçar reação, como se nada ali tivesse importância. - O representante oficial de todo o continente de Ofir no magnífico torneio do Punho De Ferro. Áxel Terra Branford estava tão estupefato quanto o irmão. 11118888 -Você vai mesmo enfrentar o Hector Farmer mais tarde, João? - perguntou Ariane, nervosa. - É claro que eu vou - respondeu João, fazendo alguns alongamentos que pareciam pouco práticos. - Ele vai pagar caro por ter insultado a minha irmã...
  68. 68. - João, tipo... olha, é claro que eu quero que você ganhe, tá entendendo?... mas... assim... você sabe que ele é mais velho, mais forte e maior do que você, não sabe? João parou e olhou para ela como se achasse aquele comentário de Ariane um verdadeiro insulto, pior do que os de Hector Farmer à sua irmã. - Você está querendo me dar uma força, é isso? - Pô, não fica assim! Eu só quero dizer que... - Você não tem de se preocupar, Ariane - ele disse bastante seguro, trocando seus alongamentos por aquecimentos que davam pulos e socos em inimigos imaginários. - Mesmo? Mas por que não? - Porque eu tenho um plano. 19191919 - Senhores presentes, como dito antes, eu sou o senhor Rumpelstichen e estou aqui hoje para trazer a vós o futuro de todo o continente do Ocaso. O salão do Grande Paço estava lotado uma vez mais. Só que dessa vez em absoluto silêncio, fosse esse silêncio oriundo de nobres, fosse de serviçais. Rei Anísio permanecia de pé, à frente de seu trono fundido em prata, enquanto o pequeno visitante, já acompanhado de mais dois... assistentes igualmente bem vestidos, com cabeças desproporcionais e com malas maiores do que as malas de humanos, o ajudavam em seu discurso. - Vossa Majestade, a história que envolve a Criação e o funcionamento de nosso mundo de éter é conhecida pela
  69. 69. maioria e por muito além dessa maioria, tenho a mais absoluta certeza. Entretanto, o que acredito que não seja de conhecimento geral de vossos governantes, e mesmo de vossos governados, é a diferença com que os continentes do Nascente e do Ocaso se desenvolveram em sentidos tecnológicos - ele mudou o foco do olhar. - Para confirmar minha opinião, gostaria neste instante de perguntar aos aqui presentes algo que conheçam, ou julguem conhecer, sobre o que vós conheceis como o exótico continente. Um nobre da comitiva de Aragon, que a maioria nem sabia o nome, se adiantou: - Ouvi dizer que lá existem homens magricelas que se deitam nus em camas de pregos... Com aquele rosto desproporcional ao resto do corpo, o gnomo pareceu sorrir. E, dotado de surpreendente bom humor, respondeu: - Hum, imaginem a cena curiosa que deva ser um homem desses bebendo água depois de tal feito. Deveriam colocá-lo para regar jardins! - e, até pela surpresa da espirituosidade do comentário, todo o salão do Grande Paço começou a rir. Outra voz presente, já mais animada, disse: - Parece que lá há flautistas que hipnotizam cobras e as fazem dançar em plena praça... - Hum... então já sabemos quem chamar quando nossas ruas estiverem infestadas de ratos... - e o salão começou a rir novamente. Até Rei Anísio. Uma terceira voz correu pelo saguão:

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